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PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #9: Facebook, drogas psicodélicas e algoritmos falhos]

Faltam 18 dias para o fim da campanha de financiamento coletivo do álbum PARAFUSO ZERO – Expansão, próxima HQ do artista Jão e na qual estou trabalhando no papel de editor. Na nona atualização da série de posts sobre os bastidores do desenvolvimento da obra, o quadrinista fala sobre como as redes sociais foram a principal fonte de inspiração para o surgimento do quadrinho e como a difusão de discursos extremistas será representada na busca incessante dos personagens por mais poderes. Recomendo a leitura dos capítulos prévios da série PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores e também deixo o link pra uma conferida na página do álbum no Catarse.

No post de hoje também incluo um bônus em vídeo, a palestra de Jão na Bienal de Quadrinhos de Curitiba sobre a representação da cidade em seus trabalhos e publicações de outros quadrinistas com uma forte ambientação urbana. A seguir, o depoimento de Jão e o vídeo do evento:

PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #9: Facebook, drogas psicodélicas e algoritmos falhos]

Facebook e drogas psicodélicas

“A proposta da PARAFUSO ZERO – Expansão é de conversar com a Parafuso 0, lançada em 2016, e tratar de novos temas. Questões como linchamento e da justiça com as próprias mãos, por exemplos, são tópicos presentes nesse meu universo de superseres que serão mantidos nessa próxima obra. No entanto, agora eu me propus a falar desses temas e também da propagação de discursos extremistas nas redes sociais. Como seria um mundo no qual as pessoas têm poder para propagar todo e qualquer discurso abertamente? Eu construí esse universo de supereseres a partir desse questionamento, impregnado no Facebook e nas redes sociais em geral.

Eu também queria construir uma estrutura de história que funcionasse como a própria estrutura do Facebook. Existem mecanismos que estarão presentes na história que são característicos dessa rede social. Por exemplo: censurar certos temas e deixar que certos conteúdos sejam mais explícitos ou não. Em termos de representação gráfica, a ideia é usar os botões de reações de Facebook para expor os sentimentos de cada personagem. O plano é fazer uso de conceitos de infografismo pra apresentar as reações e sentimentos dos personagens. Isso já veio colado na proposta de fazer esse álbum novo.

A maior parte dessas ideias eu vou abordar dentro desse clube de batalhas, clube de lutas, frequentado pelos personagens. Também vou tratar desses temas a partir de uma droga psicodélica que estará presente na história. Essa viagem e toda a psicodelia do álbum, para além das cores, será focado para tratar desses temas, do caos das redes sociais. Esse é o principal foco”.

Algoritmos falhos

“Os algoritmos que pensam a estrutura do Facebook e determinam o que irá chegar pra quem, qual conteúdo é mais interessante para cada pessoa, o que pode ser falado e mostrado ou não. A ideia é representar isso tudo como máquinas de combate que atuam dentro dessa cidade dos superseres. Na sinopse já apresentamos essa ideia, da existência de uma máquina de combate que existe para coordenar esse clube ilegal de batalhas.

Não acho que é spoiler falar que essas máquinas não funcionam tão bem, assim como o algoritmo do Facebook. Isso tudo vai gerar algumas circunstâncias na história que vão demonstrar essa falha e as consequências disso.

Li algumas matérias interessantes sobre esses temas nas revistas Piauí e Rolling Stone, falando sobre esses mecanismos e a dinâmica do Facebook. É algo que tenho estudado e sobre o que acho que vale discutirmos até por conta do próprio momento do país. O álbum será lançado depois das eleições, mas não deixará de ser uma forma de avaliação de como as redes sociais influenciaram esse cenário. Eu quero pesquisar isso e tentar fazer esses conceitos estarem presentes no álbum quando ele for lançado”.

Decadência cabulosa

“Vendo o que as redes sociais geraram e fomentaram, como a eleição do Trump e o Brexit, dá pra dizer que os principais frutos dela não acrescentaram para a sociedade. Nós continuamos usando as redes e, inclusive, falamos mal delas nelas mesmas, mas hoje em dia ela não fazem bem. Há muita coisa que deu errado, principalmente a propagação de fake news e a difusão de absurdos, como os discursos de ódio do Trump e do Bolsonaro e de pensamos nazistas e de extrema direita.

Eu sempre lembro daquela história da inteligência artificial criada pela Microsoft, que acompanhava o Twitter e acabou construindo discursos nazistas. Não demoraram pra desligar. Isso tudo é reflexo da forma como o mundo vem funcionado. Me parece muito que caminhamos para uma desilusão profunda e uma decadência cabulosa em decorrência desses tipos de discursos extremistas. É  fundamental que o mundo não seja guiado por esse tipo de pensamento, ainda assim as redes sociais fazem o contrário: elas legitimam e tornam viáveis esses discursos.

Esse universo de superseres foi construído em torno dessas questões relacionadas às redes sociais. Eu não sei se teria chegado a essas ideias se o Facebook não existisse e todas essas bizarrices relacionadas a ele não estivessem acontecendo. Eu relaciono muito o conceito de super-heróis e de superpoderes à voz que o Facebook dá às pessoas”.

BÔNUS:

CONTINUA…

ANTERIORMENTE:

>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #8: Viabilidade, encontros e trocas];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #7: Chris Ware, Elza Soares, Emicida e uma teia paranóica de referências];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #6: Akira, Wally e paralelismos distópicos];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #5: Proporções extremas e a insignificância humana no Universo];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #4: A origem do ‘Formato Jão’];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #3: Um sonho com Moebius];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #2: Baixo Centro, Flores e texto];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #1: origens, restrições e OuBaPo].

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