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PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #4: A origem do ‘Formato Jão’]

Está no ar a campanha de financiamento coletivo do álbum PARAFUSO ZERO – Expansão, próxima obra do quadrinista Jão e na qual estou trabalhando no cargo de editor. A história presente na publicação é ambientada em uma cidade povoada maioritariamente por superseres e tem como proposta ser “a HQ de super-heróis mais estranha que já existiu”. Ao longo das últimas semanas tenho publicado aqui no Vitralizado a série PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores, com depoimentos do autor do projeto sobre as inspirações e o desenvolvimento do quadrinho.

Depois de falar sobre um sonho que inspirou PARAFUSO ZERO – Expansão, tratar dos trabalhos que antecederam esse próximo álbum e comentar as restrições impostas por ele em alguns de seus quadrinhos, dessa vez Jão explica o formatão já característico de seus títulos. Assim como Baixo Centro e Parafuso 0, a obra atualmente no Catarse seguirá o mesmo padrão de 24,9 cm X 34 cm (o dobro de uma revista no formato comics). A seguir, aspas de Jão:

PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #4: A origem do ‘Formato Jão’]

Quebra de expectativas

“Algo que me incomoda é a definição da linguagem aqui no Brasil, que é tratada no diminutivo: quadrinhos. Acho que foi um dos pontos que pesou na escolha do formato grandão, pois acredito nas narrativas gráficas como arte e, assim, gosto de trabalhar uma espécie de quebra de expectativa no leitor, ao pegar minhas histórias e não ver ‘quadrinhos’, mas sim quadros.

O incômodo com ‘histórias em quadrinhos’ vai além: não tenho nenhum dado objetivo, mas suspeito que essa definição moldou toda a nossa produção e, de certa forma, criou barreiras para os autores brasileiros, que, até o contato com outras obras pelo mundo promovido pela internet, em sua maioria, tinham, como algo enraizado, a linguagem como um mecanismo de contar histórias e só. Acho interessante como termos e palavras podem construir nossos pensamentos. No caso das narrativas gráficas, parece que aqui no Brasil só em tempos recentes deixamos de evoluir somente um dos pontos oferecidos pela linguagem: história – que também foi prejudicado ao não ter estabelecido conversas entre as outras possibilidades codificadas e proporcionadas pela arte sequencial”.

Além dos formatos mais padronizados

“A escolha desse formato grandão também vem dos meus pensamentos sobre quadrinhos e sobre o lugar do quadrinho hoje. Os quadrinhos têm estado muito voltados para consumo na internet e o próprio sentimento de livro tem mudado, então uma coisa que pensei ao escolher esse formatão foi em levar para o leitor uma experiência diferente do que essa pessoa conseguiria ter com uma tablet ou um computador, para além do virtual ou do tradicional, algo fora dos formatos mais padronizados.

Eu já trabalhei com esses formatos mais tradicionais e padronizados, formatinhos em A5 e o A4. Eu gosto de trabalhar com eles, mas esse formatão é uma escolha que também veio de algumas referências pessoais. Uma delas é a revista Piauí, que eu acompanho e gosto muito. Ela também publica quadrinhos e eu gosto de ver uma HQ nesse formatão. A própria série Beijo Adolescente do Rafael Coutinho também é uma influência para essa escolha por uma formato maior.

É uma opção que gira em torno de uma experiência que quero levar para os meus leitores. Sem contar que o meu trabalho também possui muitos detalhes. Na redução para um formato tradicional ele acaba perdendo um pouco e eu quero que o leitor veja cada tracinho, cada personagenzinho que eu coloco nessas páginas. Então seria isso: é uma decisão tomada em prol da experiência e da vontade que o leitor consiga acompanhar tudo o que eu quero passar a partir do desenho”.

Maior quantidade possível de detalhes

“Normalmente, quando eu faço o desenho no papel, eu costumo trabalhar com formato A3 ou A2. Isso varia um pouco, mas eu gosto de trabalhar com formatos grandões. Ultimamente eu também tenho trabalhado muito no computador e trabalhando no computador é possível ampliar um desenho em formatos muito grandes, gigantes, né? Isso é uma coisa que eu tenho gostado de fazer.

No caso desse pôster que está no projeto da PARAFUSO ZERO – Expansão: eu fiz o desenho no lápis em A2, o formato no qual ele vai ser impresso, aí eu escaneei e joguei pro digital pra fazer a arte final. Se você pegar a arte final dele é como se fosse o tamanho de uma parede de um quarto. Cada personagem que no desenho final tem, sei lá, dois centímetros, esse personagem na tela do computador tem cerca de 15 centímetros. Eu quis realmente fazer um formato muito grande para ter o maior nível possível de detalhes.

Marca impressa

“O Baixo Centro foi o meu primeiro trabalho nesse formato. Ele foi lançado pela editora Miguilim e eles foram muito abertos comigo em relação aos formatos. Eles estão acostumados a trabalhar com livros infantis e, por isso, estão habituados a publicações em formatos diferentes. Foi muito tranquila essa conversa, quando eu disse que queria fazer em um formato maior do que o usual, que isso ia ser legal e que o meu trabalho funcionaria melhor nesse formato.

Ultimamente eu tenho optado por esse formato até para construir uma espécie de estilo meu e que esse estilo não fique apenas no meu desenho ou na minha forma de contar histórias, mas que eu também deixe uma marca minha na publicação impressa. Eu acho isso legal, as pessoas têm me reconhecido e reconhecido o meu trabalho também a partir dos formatos.

Já vi gente ver um quadrinho grandão e dizer ‘Nossa, parece um quadrinho do Jão’. Ou então alguém estranhar ao pegar um dos álbuns, quando eu tô expondo em alguma feira ou loja. Agora que eu já tenho o Baixo Centro e a Parafuso 0, as pessoas olham e entendem que é um estilo meu. ‘O Jão gosta desse formato grandão e é isso aí’. Também já teve gente me criticando, dizendo que não dava pra guardar na estante, mas eu gosto dessa crítica. O meu trabalho gira muito em torno do incômodo para os leitores e eu gosto disso, gerar um certo incômodo.

Outra coisa que também é legal nesse formato é que as pessoas em eventos não têm muito como guardar os álbuns dentro de uma sacola e aí andam com as revistas debaixo do braço e isso acaba sendo uma divulgação que eu ganho (risos)”. 

História em função do formato

“Na PARAFUSO ZERO – Expansão, eu acredito que é a primeira vez que eu estou trabalhando para esse formato. No caso do Baixo Centro, como eu falei, eu pensei o formato e tive a conversa com a editora enquanto eu já estava produzindo as páginas. No caso da Parafuso 0, que saiu em 2016, eu quis usar aquele formato do Baixo Centro, mas também já era uma história que estava em andamento. Eu não sabia se teria condições financeiras de bancar esse formato, então também não era algo que eu fiz pensando especificamente nele.

No caso da PARARUSO ZERO – Expansão, toda a proposta do álbum é voltada pra esse formato. A ideia é que a construção da narrativa seja pensada nos mínimos detalhes pra compor todo esse formato. Essa é uma grande diferença dos trabalhos anteriores pra esse agora”.

CONTINUA…

ANTERIORMENTE:
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #3: Um sonho com Moebius];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #2: Baixo Centro, Flores e texto];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #1: origens, restrições e OuBaPo].

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