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Outros Quadrinhos

Escrevi pro Estadão sobre o Outros Quadrinhos, projeto sensacional do Érico Assis e do Fabiano Denardin. De quebra, ainda entrevistei o norte-americano Eddie Pittman, do ótimo Planeta Ruiva, e o australiano GavinAung Than, responsável pelo espetacular Zen Pencils. Segue a matéria:

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Democracia quadrinista

Outros Quadrinhos assume missão de adaptar e divulgar de graça na web títulos inéditos

As alternativas propostas pelo site Outros Quadrinhos (outrosquadrinhos.com.br) não dizem respeito apenas à oferta grátis, em português, de obras estrangeiras independentes produzidas para a internet. Também são uma referência ao catálogo da página, uma reunião de títulos dos mais diferentes tipos, mas de origens antagônicas aos badalados comics e mangás que ocupam as bancas nacionais.

“Mesmo que seja um site que não dê retorno financeiro, tudo o que fazemos nele é com profissionalismo em mente. O serviço é feito por quatro fãs, mas mantendo o nível de qualidade que qualquer um de nós teria em um trabalho regular”, conta um dos editores, Fabiano Denardin. No ar desde junho, a página já reúne dez séries produzidas por autores de quatro nacionalidades. Todas disponíveis sem custos.

Com experiência em tradução e edição de gibis, os responsáveis pelo projeto justificam a empreitada pelo prazer de trabalhar com o gênero. “Gostamos de quadrinhos. ‘Desses’ quadrinhos. Sei que é bobo responder assim, mas, no fim, é isso”, diz Érico Assis, também responsável pela página.

Apesar da presença de anúncios publicitários no site, a dupla explica que o foco é a divulgação de materiais inéditos: “Dividimos qualquer lucro com os autores. O grande ganho tem que ser deles, em termos de públicos diferentes que vão atingir. Eles já publicam o material de forma gratuita. Só damos uma forcinha para chegar a mais gente”, explica Assis.

Um dos hits do site é a série Lápis Zen, do australiano Gavin Aung Than. Uma das mais curtidas e compartilhadas do universo dos quadrinhos virtuais, ela adapta discursos e textos famosos e históricos. Falas célebres de Steve Jobs, Albert Einstein e Dalai Lama ganharam versões coloridas com personagens cartunescos.

“Já pensava em traduzir meus quadrinhos para outras línguas, então eles me procuraram no momento certo. Fiquei empolgado, pois sabia que iria ajudar a divulgar meu trabalho no Brasil, e, como eles trabalham com quadrinhos, sabia que ia ficar ótimo”, conta Than em entrevista por e-mail ao Estado. Seu mais recente sucesso já está disponível em português: uma versão ilustrada de um discurso clássico de Bill Watterson, criador da série Calvin e Haroldo, feito em 1992 para uma turma de formandos de uma universidade dos EUA.

Por enquanto, além das obras do australiano, também podem ser lidas: a ficção científica juvenil Planeta Ruiva, a infantil Tenebrosas Fofuras, a existencial chilena Os Nós Ocultos, o terror Lovecraft Desaparecido, as fantasias Falso Positivo e Serena Rosa e a policial Murder Book. Também traduzida e adaptada pelo Outros Quadrinhos, o blockbuster The Private Eye, de Brian K. Vaughan e Marcos Marin, pode ser adquirida em panelsyndicate.com

Animador e roteirista da série Phineas e Ferb, da Disney, e autor de Planeta Ruiva, o norte-americano Eddie Pittman conta nunca ter esperado ver seus trabalho em outra língua. “Meu objetivo foi criar uma história atraente e torcer para que as pessoas chegassem a ela. Presumi que a audiência seria de pessoas que falam inglês”, conta o autor também por e-mail. Segundo Pittman, por enquanto, a edição de sua série no Outros Quadrinhos é a única disponível no mundo além da original.

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Autores comemoram maior alcance de obras e diálogo com leitores

-Desde fevereiro de 2012, o australiano Gavin Aung Than publica pelo menos um quadrinho por semana em seu site Zen Pencil (zenpencils.com). Com suas adaptações de citações de pessoas famosas, ele conseguiu audiência e virou notícia em jornais como o Washington Post. Sempre aberto a sugestões de leitores, diz estar no aguardo de e-mails de brasileiros com dicas de falas famosas em português.

Por que investir tanto tempo em uma obra e não ter nenhum retorno financeiro?

O modelo de quadrinhos online sempre foi compartilhar de graça, criar audiência e torcer por retorno financeiro no futuro. É assim que as coisas funcionam agora. Antes de tudo, é realmente necessário criar um público leitor e, para isso, é preciso conteúdo gratuito.

Como seleciona os textos que adapta?

A maioria das falas são enviadas pelos leitores. Não há qualquer método científico, pego uma que gosto ou que me faça pensar, rir ou chorar.

Você já adaptou algum texto vindo do Brasil?

Não, mas terei de fazer isso em breve! Preciso agradecer aos leitores brasileiros escolhendo a fala de um de seus famosos escritores e poetas para adaptar, sei que vocês têm vários.

Tem planos de transformar os quadrinhos em livro impresso?

Eu iria amar fazer uma coletânea um dia. Algumas editoras já demonstraram interesse, então vou manter os dedos cruzados.

Qual o diferencial de produzir algo exclusivamente para a web?

Tive algumas tiras publicadas em jornais e a única diferença é que eu precisava trabalhar com cores brilhantes para que elas saíssem ‘ok’ no papel barato de jornal. Na web, não há restrições de cores!

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-Com mais de 30 páginas disponíveis no Outros Quadrinhos, Planeta Ruiva é a primeira incursão de Eddie Pittman no mundo dos gibis virtuais. Além do trabalho na série Phineas e Ferb, ele possui sucessos da Disney no currículo, como Mulan (1998), Tarzan (1999) e Lilo & Stitch (2002). Segundo ele, a série disponível em português deve ganhar versão impressa nos EUA em 2014.

O que pensou quando foi convidado pelo Outros Quadrinhos?

Sou sempre cauteloso quando recebo e-mails com ideias e propostas de qualquer tipo. Na maioria das vezes, elas não têm a capacidade de levar adiante esses projetos. Mas, quando vi a lista de realizações dos dois e o lindo trabalho que haviam feito em algumas páginas de Planeta Ruiva, tive certeza de que era uma boa oportunidade.

Por que investir tanto tempo em uma obra e não ter nenhum retorno financeiro?

É muito barato publicar na internet. Poderia ter feito à moda antiga: gastar anos escrevendo e desenhando depois do trabalho e nos finais de semana e arriscar a procura por uma editora disposta a publicar. Com a internet, tive audiência a partir do primeiro dia. Claro, não era grande, mas, com o tempo, alcançou 2 milhões de page views. Não acho que teria um público tão grande como um estreante.

Qual o diferencial de produzir algo exclusivamente para a web?

A diferença maior que encontrei foi a influência de uma “audiência ao vivo”. Em mídias impressas e animações, há um enorme distanciamento entre o conceito e a versão final do trabalho. Em Phineas e Ferb, da ideia inicial ao episódio pode levar até um ano. A cada página que publico de Planeta Ruiva, já tenho resposta de leitores. Acho que é o mais próximo que um quadrinista pode ter de uma performance ao vivo.

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