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Japão, bolo de Natal e colegiais [#AgoraÉQueSãoElas]

por Míriam Castro*

Quando fui convidada pelo Ramon para participar do #AgoraÉQueSãoElas, decidi fazer algo relacionado ao Japão, onde estou passando minhas férias. Sempre tive muito interesse na cultura japonesa, principalmente nas criações pop. Estar aqui é um sonho. Mas tudo que eu sabia sobre o machismo local foi amplificado durante a viagem.

Vamos começar com uma história. Apesar de a maioria dos japoneses não seguir o cristianismo, aqui é tradição comemorar o Natal. As ruas ficam iluminadas e a véspera é dos namorados, não da família. Em vez de comer peru, comem frango frito (!) e um bolo decorado, o Christmas Cake.

Assim como qualquer item sazonal, o preço de um bolo natalino no Japão despenca depois do 25 de dezembro. Daí surgiu a analogia com mulheres que passaram da idade “ideal” para casar. Ninguém quer casar com uma mulher com mais de 25, diz a brincadeira. então uma solteira a caminho dos trinta é chamada de Christmas Cake. Isso era mais comum algumas décadas atrás e tem mudado – 39% das mulheres japonesas entre 20 e 30 anos não estão interessadas em relacionamentos.

Por mais que esteja saindo de moda, a ideia do Christmas Cake é parte de algo muito maior: a valorização extrema da juventude nas mulheres. E isso, em alguns casos, leva à fetichização, à pedofilia. Não é fenômeno exclusivo do Japão. Basta lembrar que “novinha” é um dos termos mais buscados por brasileiros em sites pornô. Mas aqui a erotização é tão aberta, tão fácil de percebrer, que assusta.

Um dos meus bairros preferidos de Tóquio é Akihabara, onde ficam galerias e mais galerias com artigos de informática e games, além de todo tipo de produto de anime ou mangá. E figures, bonecos que retratam personagens dessas mídias. A quantidade de personagens femininas é perceptivelmente maior, e boa parte delas está em idade escolar. Isso não impede que existam bonecos com versões em roupas miúdas, com calcinhas detalhadas facilmente visíveis.

Se os bonecos fossem o maior problema… Mas as seções de mangás adultos são recheadas de pornografia de lolis, ou seja, novinhas (também existe o shota, que é de garotinhos, mas comparativamente menos popular). É fácil ter acesso a essas histórias, geralmente estreladas por garotas adolescentes ou pré-adolescentes. Não é raro que situações como estupro sejam mostradas. E a venda desse material está dentro da lei. No ano passado, o Japão tornou ilegal a posse de imagens de abuso infantil. Porém, isso só vale para imagens de crianças reais. Em uma página de quadrinho ou animação, é perfeitamente possível.

Uma das justificativas comuns para retratar garotas tão novas é que existe no Japão uma obsessão com o kawaii (“fofo”), então quando se retrata uma garota que aparenta 15 anos ela pode muito bem ter 20. Não é bem assim. É difícil acreditar que uma personagem de 20 anos ainda esteja no colégio nesses casos. Tomoe Mami, de Puella Magi Madoka Magica, é veterana do ginasial. Estima-se que tenha 15 anos. Isso não impede que exista uma versão dela de toalha de banho à venda.

O mais problemático é quando essa obsessão pela juventude passa para a vida real. Também em Akihabara, uma caminhada curta resulta em uma dezena de panfletos de maid cafés e outros serviços. Garotas vestidas de maid ou colegial distribuem os convites. Pode não ser nada além de um passatempo estranho, mas em alguns casos há um mundo de prostituição e abuso de menores envolvido.

Essa prostituição é disfarçada por serviços como “leitura de futuro” ou “caminhadas de conversa”, as joshi kousei osanpo (abreviado como JK osanpo, o nome significa “caminhada com colegial”). Em julho, a VICE lançou um documentário chamado Schoolgirls for Sale. Nele, discute o assunto e a dificuldade de investigá-lo no Japão. Veja o trailer abaixo – dá pra assistir à integra clicando aqui.

É incômodo falar sobre isso, ainda mais sendo fã de anime e mangá, mas a pedofilia tem sido usada como uma das bases da indústria pop japonesa. Não sei como isso pode mudar, nem se vai mudar tão cedo. Porém, as consequências culturais são terríveis. E as cicatrizes na vida das jovens vendidas pelas ruas de Akihabara são piores ainda.

*Míriam Castro é jornalista e tem um canal no YouTube sobre a vida, o universo nerd e tudo mais.

>> O post faz parte da iniciativa #AgoraÉQueSãoElas, na qual mulheres ocupam os espaços masculinos de fala. Homens convidam mulheres para escrever no seu lugar e se colocam nesse lugar do ouvinte. Dando voz e vez a uma mulher. Reconhecendo a urgência da luta feminista por igualdade de gênero e o protagonismo feminino nesta luta. Lá no Trabalho Sujo a autora do projeto fala mais sobre a iniciativa. Outras amigas e conhecidas foram convidadas e deverão dar as caras por aqui nos próximos dias.

1 comentário Japão, bolo de Natal e colegiais [#AgoraÉQueSãoElas]

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