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Papo com Jason, o autor de Sshhhh!: “Se tenho uma regra para os meus quadrinhos, é: não conte tudo, deixe alguma coisa para o leitor”

As obras assinadas pelo quadrinista norueguês Jason são facilmente identificáveis. São HQs geralmente caracterizadas por desenhos minimalistas, por seus personagens antropomorfizados e por um storytelling extremamente eficaz. Sshhhh! (Mino) é o primeiro álbum do autor publicado no Brasil e reúne todos esses elementos. A obra chegou às livrarias brasileiras quase um ano após Jason fazer sua estreia no país, com um quadrinho de seis páginas presente na segunda edição da revista Antílope.

Sshhhh! é uma coletânea de contos curtos que reúne outros dos principais atributos esperados nos quadrinhos do autor: as tramas urbanas e também surreais, as reflexões sobre relacionamentos e solidão e o humor variando entre a poesia e o sarcasmo.

“Eu acho que tenho um estilo”, afirma Jason em conversa por email. “O meu primeiro álbum foi desenhado com um estilo muito realista, mas não fiquei muito feliz com o resultado e demorou muito tempo pra finalizar, então passei a tentar outros estilos e os personagens antropomorfizados surgiram. Eles pareciam encaixar no tipo de histórias que eu queria contar: fábulas”, diz o autor.

A eficácia da narrativa do Jason o tornaram reverenciado por quadrinistas de todo mundo. A edição brasileira vem acompanhada de exaltações assinadas por Laerte, Fábio Moon, Gabriel Bá, Rafael Coutinho e Gustavo Duarte. A chegada de Sshhhh! no Brasil deve ser aclamada também para que outros de seus trabalhos também possam ser publicados por aqui. Na conversa com o blog, Jason falou sobre quadrinhos noruegueses, sua paixão pelo trabalho de Hergé e por filmes noir e seu interesse recente pelos livros de Julio Cortázar. Papo bem bom. Ó:
 

“Eu acho que um quadrinho deve ser fácil de ler, mesmo que seja uma história sombria ou mais complexa. É preciso ser tentador para aquele leitor que dá uma espiada nas primeiras páginas em uma livraria, para que ele continue lendo e queira descobrir o que vai acontecer a seguir”

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Você não mora mais na Noruega, mas fico curioso em relação à cena de quadrinho local. Você pode contar um pouco como são os quadrinhos noruegueses? Você recomenda algum título em particular?

Há uma cena de quadrinhos em Oslo. Há várias pequenas editoras que publicam o que as pessoas chamam de quadrinhos alternativos. Começou mais ou menos nos anos 90, mesmo tendo alguns trabalhos de antes disso. A Noruega é um país pequeno, então é difícil viver de HQs. São pessoas que também trabalham com ilustração. Não tenho certeza se existe algum tipo particular de estilo norueguês. Eu acho que há mais realismo do que fantasia. Talvez seja algo típico da melancolia escandinava, é difícil dizer. Eu recomendaria o Steffen Kverneland, que fez um quadrinho sobre o Edward Munch, e também o Lars Fiske, que tem um livro saindo pela Fantagraphics sobre o Georg Grosz.

Sshhhh! é completamente sem palavras. Há alguma diferença nos seus métodos de trabalho entre criar um quadrinho mudo ou com palavras?

Há uma certa diferença. Sem texto para explicar o que está acontecendo você precisa ter um storytelling mais claro. Há também mais abertura para interpretação. Fica por conta de cada leitor o que ele tira da história. Fiz quadrinhos sem palavras durante um tempo porque acho mais fácil do que escrever diálogos e eu também buscava um público de fora da Noruega, uma audiência mais ampla. Depois acabou virando um desafio escrever diálogos. Hoje eu já acho a parte mais divertida, mas ainda faço uso de sequências de silêncio. Muitas vezes as palavras são desnecessárias.

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Muitos dos seus quadrinhos têm finais abertos e são classificados como nonsense. Quando você está criando os seus quadrinhos tem em mente qual poderá ser a interpretação dos seus leitores?

Não, na verdade eu busco esses finais em aberto. Se tenho uma regra para os meus quadrinhos, é: não conte tudo. Deixe alguma coisa para o leitor. É esse o tipo de quadrinho que gosto, aquele que não entrega tudo. Cinco leitores interpretarão uma mesma história de cinco maneiras diferentes e isso uma coisa boa.

Li uma matéria sobre o seu trabalho no Buzzfeed em que seus quadrinhos são comparados aos livros do Haruki Murakami. Assim como as suas HQs, os trabalhos dele também são marcados por finais abertos e enigmáticos. Você já leu algum livro dele?

Eu li alguns livros dele e não gostei tanto assim. Não sei precisamente a razão disso. Há uma certa simploriedade na linguagem, não sei. Não senti nenhuma grande conexão com os personagens.

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Eu vejo alguma conexão entre seus quadrinhos com desenhos como Adventure Time e Ricky and Morty, os dois investindo no mesmo estilo nonsense e no absurdo. Não sei se é um gênero, mas você vê algum motivo para o sucesso desse estilo nos dias de hoje?

Não conheço esses desenhos. Eu gosto do absurdo. De Magritte e Eugène Ionesco até Monty Phyton. Qual a razão do sucesso desse gênero? Eu não sei. Talvez porque o mundo está ficando cada vez mais absurdo? Quem vai saber? Tenho certeza que alguém já publicou um estudo sobre isso.

Você trabalha com designs de páginas muito específicos. Li que você é um grande admirador do Hergé e o considera um mestre do storytelling. Como essa narrativa dele influenciou o seu trabalho?

Sim, eu gosto de trabalhar com um grid específico e com um um uso tradicional de painéis e storytelling. O trabalho do Hergé é um bom exemplo desse storytelling claro e convidativo. Eu acho que um quadrinho deve ser fácil de ler, mesmo que seja uma história sombria ou mais complexa. Você não deve achar que é garantido que alguém vai querer ler o seu livro. É preciso ser tentador para aquele leitor que dá uma espiada nas primeiras páginas em uma livraria, para que ele continue lendo e queira descobrir o que vai acontecer a seguir.

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Você pode me contar um pouco sobre a dinâmica do seu trabalho? Você costuma trabalhar com roteiros fechados? Há alguma técnica ou método que você costuma utilizar nos seus quadrinhos?

Não, não costumo trabalhar com roteiros. É tudo improvisado, geralmente desenhado já na página. Eu costumo trabalhar em 20 ou 30 páginas ao mesmo tempo, desenhando um pouco e depois arte-finalizando. Estou acostumado a primeiro desenhar os personagens e só depois fazer os cenários. Às vezes eu começo escrevendo alguns trechos de diálogo, outras vezes os desenhos vem primeiro e crio os diálogos depois. Em cenas mais complicadas também costumo fazer thumbnails antes de começar a desenhar.

Os seus quadrinhos são muito identificáveis. Você acha que já tem um estilo definido? Foi muito difícil chegar nessa forma como você desenha e escreve nos dias de hoje?

Eu acho que tenho um estilo. Os personagens antropomorfizados e o estilo seguindo a linha clara. Demorou um tempo para chegar aí. O meu primeiro álbum foi desenhado com um estilo muito realista, mas não fiquei muito feliz com o resultado e demorou muito tempo pra finalizar, então passei a tentar outros estilos e os personagens antropomorfizados surgiram. Eles pareciam encaixar no tipo de histórias que eu queria contar: fábulas. Acredito que eles também sejam mais universais. Todo mundo consegue se identificar com o Pato Donald ou o Mickey Mouse.

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Eu acompanho o seu blog e você gosta muito de filmes clássicos e antigos. Mas você também costuma fazer comentários sobre blockbusters. Você tem algum gosto em particular para filmes ou topa assistir qualquer coisa que chegue a você?

Hoje estou mais por fora de filmes do que há alguns anos. Escrevo menos resenhas e assisto menos filmes. Ocasionalmente vejo algum filme da Marvel ou algum Missão Impossível e ainda me divirto com eles caso sejam bem feitos. Caso contrário eu prefiro filmes mudos ou produções dos anos 70, de qualquer gênero, de verdade. Seja western, ficção científica ou noir. Gosto de diretores com visões peculiares, como Jim Jarmusch, Hal Hartley, Wes Anderson e Aki Kaurismâki.

No blog você falado muito sobre as suas leituras das obras do Julio Cortázar. Há algum motivo em particular para a leitura desses trabalhos recentemente? O que mais você tem lido, visto e ouvido recentemente que recomendaria?

Sim, eu descobri o Cortázar recentemente, senti uma conexão muito grande com o trabalho dele. Por enquanto só li seus contos, ainda não li nenhum dos romances. Gosto do mistério e da ambiguidade de seus trabalhos. No momento estou lendo o livro mais recente do John Irving, mesmo sendo um pouco longo e não sendo seu melhor trabalho. Ainda gosto de livros dele como The Hotel New Hampshire e Cider House Rules. Tenho tentado ler vários clássico que havia evitado até então, como Kafka, Camus e Joyce. Espero encarar Ulysses ainda esse ano. Além de Cortázar, o Denis Johnson é provavelmente minha descoberta mais recente. Jesus’s Son e Angels são livro incríveis. Como disse, tenho visto menos filmes. Gostei de O Lagosta.

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