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Cinema

O Black Album dos Beatles, produzido por Richard Linklater e Ethan Hawke para Boyhood

Acho difícil pra caramba escrever sobre Boyhood. Em poucas palavras, ficarei bastante surpreso caso veja algo melhor nos cinemas em 2014. O filme foi produzido ao longo de 12 anos por Richard Linklater. Com os mesmos atores, ele contou 12 anos da vida de uma família, focando no crescimento de um dos filhos. Ele começa com o garoto aos seis anos, com os pais recém-separados, e segue até os 18. O ponto é que esse esforço todo do Linklater para filmar ao longo de mais de uma década é quase detalhe quando o filme é projetado. A passagem é tão sutil que as vezes nem lembramos que estamos vendo o tempo passar de verdade na tela. Foda demais.

Boyhood-Black-Album1

Quando o protagonista já tá lá pelos 15 anos o pai dele dá de presente para o garoto uma coletânea dos Beatles. O nome da mixtape presente no cd é Black Album e reúne as principais obras dos quatro Beatles após o término da banda. No entanto a coletânea foi produzida de verdade pelo Ethan Hawke, intérprete do pai do protagonista do filme, para sua filha na vida real. Fiquei sabendo dessa história via BuzzFeed, que publicou a carta produzida pelo ator para sua filha e adaptada para o personagem principal do filme, Mason. Na cena que o presente é mencionado, parte dessa explicação é citada pelo pai do garoto.

Segue a tradução da carta do personagem com a explicação do presente e em seguida a lista com todas as músicas dos três CDs da coletânea. O original, em inglês, tá lá no BuzzFeed:

“Mason,

Eu queria te dar de presente de aniversário algo que dinheiro não pode comprar, algo que apenas um pai pode dar para um filho, como uma relíquia de família. Isso é o melhor que consegui. E desde já, minhas desculpas.

Meu presente para você: O BLACK ALBUM DOS BEATLES.

O único trabalho do qual fiz parte e pelo qual sinto algum orgulho por envolver algo nascido em um espírito de colaboração – a ideia não pertence a ninguém especificamente, mas surge daquela magia criativa imprevisível que acontece quando energias colidem.

Isso é o melhor trabalho solo de John, Paul, George e Ringo pós-Beatles. Eu basicamente reuni a banda exclusivamente para você. Tem essa coisa que acontece quando você ouve muito dos trabalhos solos deles separadamente – muito Lennon: de repente há um pequeno clima de egocentrismo; muito Paul e pode ficar sentimental – vamos assumir, há um transtorno de personalidade meio patético aqui; muito George: ok, todos temos o nosso lado espiritual, mas só é legal por seis minutos, certo? Ringo: ele é engraçado, irreverente e cool, mas ele não consegue cantar – ele teve alguns hits nos anos 70 (até mais que Lennon), mas você não vai pra casa e se matar de ouvir um Ringo Starr do início ao fim, você simplesmente não vai fazer isso. Quando você junta os trabalhos deles, no entanto, quando você coloca um do lado do outro e deixa fluir – eles aprimoram-se e você começar a ouvir: O S B E A T L E S.

Apenas escute o CD inteiro, ok?

Acho que talvez seja o fato do Lennon ter sido baleado e morto aos 40 (um das últimas músicas compostas por ele foi Life Begins at 40, que ele escreveu pro Ringo – e eu não consegui me convencer a incluir a canção no mix pois ironia da situação ainda não é engraçada pra mim) e eu acabei de chegar aos 40 e isso resultou no BLACK ALBUM. Eu ouço essas canções e por alguma razão (talvez o sofrimento constante e transformador do divórcio com a sua mãe) me encho de tristeza pelo término amargo da amizade entre John e Paul. Eu sei, eu sei, eu sei, isso não tem nada a ver comigo, mas caramba, me explique mais uma vez porque o amor não pode durar para sempre. Por quê ficamos egoístas? Por quê eles ficaram? Por quê costumamos ver dons como possíveis ameaças e diferenças como deficiências? Por quê não conseguimos perceber que nossos atritos podem ser utilizados para polir as qualidades de outra pessoa?

Li uma história sobre a morte da mãe do John:

Ele era um adolescente revoltado – com um canivete no bolso, cigarro nos lábios e sexo na cabeça. No funeral da mãe desequilibrada e recém-falecida (que ele havia acabado de ficar mais próximo), ele – bêbado e puto – socou um membro da banda e deu o fora. Alguns anos mais novo, o Paul – um moleque que ainda não ligava muito pra garotas, ainda UNCOOL e presente na banda graças às suas habilidades com a guitarra apesar de ser meio infantil – correu atrás do John na rua dizendo: “John, por quê você está sendo tão babaca?”.

O John respondeu, “Minha mãe acabou de morrer, porra!”

E o Paul disse, “Você nunca perguntou sobre a minha mãe.”

“O que tem ela?”

“Ela também está morta.”

Eles se abraçaram no meio da rua. Aparentemente o John disse, “Podemos por favor começar uma porra de banda de rock’n’roll?”.

Essa história respondeu a dúvida presente no meu cérebro ao longo de todo minha vida como ouvinte de música: Se os Beatles estiveram juntos ao longo de apenas 10 anos e os membros da banda eram tão novos ao longo desse período, como eles conseguiram escrever Help, Fool on the Hill, Eleanor Rigby, Yesterday, e A Day in the Life? Eles eram apenas caras de 25 anos cercados por garotas em frente aos seus hotéis e com direito ao tanto de champagne que um moleque consegue beber. Como eles conseguiram desenvolver suas mentes para feitos artísticos tão grandiosos?

Eles conseguiram pois estavam sofrendo. Eles sabiam que o amor não dura pra sempre. Eles descobriram isso ainda muito novos.

No BLACK ALBUM é possível ouvir os caras cantando sobre a vida adulta: casamento, paternidade, sobriedade, crescimento espiritual, a vacuidade do sucesso material – Starting Over, Maybe I’m Amazed, Beautiful Boy, The No No Song, God – e eles ainda estão plenamente conscientes desse fato: o amor não é eterno.

Eu não quero que isso seja verdade. Eu quero Lennon/McCartney escrevendo lindamente juntos para sempre, mas esse é o objetivo? Da mesma forma, se o objetivo de uma rosa fosse durar para sempre, seria feita de pedra, certo? Então como lidamos com essa ideia com graça e maturidade? Se você é romântico, como eu, é difícil não tentar encontrar algum indício da retomada da amizade entre eles. Todos os sinais apontavam para isso.

Quando Paul esteve no SNL recentemente, ele tocou praticamente apenas canções do Lennon. E ele fez isso explicitamente feliz.

Ouça Here Today do Paul.

Você consegue escutar Two of Us (a última canção que eles escreveram juntos) e não sofrer um pouco? O que estavam pensando aqueles dois garotos sem as mães, que outro dia estavam abraçados no meio da rua, quando eles escreveram “The two of us have memories longer then the road that stretches out ahead”?

A dinâmica da separação deles, como em qualquer divórcio, é um mistério. Alguns dizem que Paul, o pupilo, havia superado John, o mentor, e eles não conseguiam chegar a um novo equilíbrio. Outros dizem que o Paul era um pentelho que pegou todos os direitos das canções dos outros três. E ainda tem os que falam que sem o Brian Epstein não havia mediador entre os egos deles. Vai saber.

Eu toquei Hey Jude pra sua irmã outro dia e ela ouviu várias vezes. Contei pra ela que a música foi escrita por McCarney para o filho de Lennon após o divórcio de seu pai e ela prestou ainda mais atenção. O George uma vez disse que Hey Jude foi o início do fim dos Beatles. O Brian Epstein havia acabado de morrer e John e Paul estavam sozinhos para administrar o recém-criado selo Apple. Eles gravaram Hey Jude e Revolution como single. Normalmente, o Brian decidia qual música seria ladoA e qual seria lado B, mas agora estava por conta deles. O John acreditava que Revolution era uma canção de rock política importante e que eles precisavam se colocar como uma banda adulta. O Paul achava que Revolution era brilhante, mas os Beatles eram uma banda essencialmente pop e então eles deviam abrir com Hey Jude. Ele sabia que seria um hit monstruoso e que política deveria vir num lado B subversivo. Eles votaram. Hey Jude venceu por 3 a 1. O George disse que o John sentiu uma espécie de golpe de estado por parte do Paul. Ele não estava explicitamente triste, mas ele começou a recuar. Não era mais a banda dele.

A ironia/lição dessa história está em uma outra história que ouvi: assim que Hey Jude/Revolution ficou pronto, os garotos tiveram a ideia maquiavélica de levar o single novo para uma festa de lançamento do novo disco dos Rolling Stones. O Mick Jagger diz que assim que os quatro chegaram e deixaram escapar estavam com o single, todo mundo clamou por escutar tão logo terminou o lado um do disco dos Stones. Assim que os Beatles começaram a tocar, o single ficou virando de um lado pro outro. O lado dois de Beggar’s Banquet dos Stones jamais chegou perto da agulha.

Então não importa o quão louco o John fosse, ele não era tão louco assim…

Um vez perguntaram ao John se ele voltaria a tocar com o Paul, ele respondeu: “A dúvida pra mim é o que tocar. É tudo pela música. Nós tocamos bem juntos – se ele tiver uma ideia e precisar de mim, eu estaria interessado”.

Eu amo isso.

Talvez a lição seja: o amor não dura pra sempre, mas a música que o amor cria talvez sim.

Eu e sua mãe não conseguimos fazer o amor durar pra sempre, mas você é a nossa música, meu amigo.

“And in the end, the love you take is equal to the love…”

Eu te amo. Feliz aniversário.

Seu Pai.”

Ufa. Demais né? As canções do BLACK ALBUM, com playlists que criei para cada um dos discos:

Disco 1:
1. Paul McCartney & Wings, “Band on the Run”
2. George Harrison, “My Sweet Lord”
3. John Lennon feat. The Flux Fiddlers & the Plastic Ono Band, “Jealous Guy”
4. Ringo Starr, “Photograph”
5. John Lennon, “How?”
6. Paul McCartney, “Every Night”
7. George Harrison, “Blow Away”
8. Paul McCartney, “Maybe I’m Amazed”
9. John Lennon, “Woman”
10.Paul McCartney & Wings, “Jet”
11. John Lennon, “Stand by Me”
12. Ringo Starr, “No No Song”
13. Paul McCartney, “Junk”
14. John Lennon, “Love”
15. Paul McCartney & Linda McCartney, “The Back Seat of My Car”
16. John Lennon, “Watching the Wheels”
17. John Lennon, “Mind Games”
18. Paul McCartney & Wings, “Bluebird”
19. John Lennon, “Beautiful Boy (Darling Boy)” 20. George Harrison, “What Is Life”

Disco 2:
1. John Lennon, “God”
2. Wings, “Listen to What the Man Said”
3. John Lennon, “Crippled Inside”
4. Ringo Starr, “You’re Sixteen You’re Beautiful (And You’re Mine)”
5. Paul McCartney & Wings, “Let Me Roll It”
6. John Lennon & The Plastic Ono Band, “Power to the People”
7. Paul McCartney, “Another Day”
8. George Harrison, “If Not For You (2001 Digital Remaster)”
9. John Lennon, “(Just Like) Starting Over”
10. Wings, “Let ‘Em In”
11. John Lennon, “Mother”
12. Paul McCartney & Wings, “Helen Wheels”
13. John Lennon, “I Found Out”
14. Paul McCartney & Linda McCartney, “Uncle Albert / Admiral Halsey”
15. John Lennon, Yoko Ono & The Plastic Ono Band, “Instant Karma! (We All Shine On)”
15. George Harrison, “Not Guilty (2004 Digital Remaster)”
16. Paul McCartney & Linda McCartney, “Heart of the Country”
17. John Lennon, “Oh Yoko!”
18. Wings, “Mull of Kintyre”
19. Ringo Starr, “It Don’t Come Easy”

Disco 3:
1. John Lennon, “Grow Old With Me (2010 Remaster)”
2. Wings, “Silly Love Songs”
3. The Beatles, “Real Love”
4. Paul McCartney & Wings, “My Love”
5. John Lennon, “Oh My Love”
6. George Harrison, “Give Me Love (Give Me Peace on Earth)”
7. Paul McCartney, “Pipes of Peace”
8. John Lennon, “Imagine”
9. Paul McCartney, “Here Today”
10. George Harrison, “All Things Must Pass”
11. Paul McCartney, “And I Love Her (Live on MTV Unplugged)”

13 comentários O Black Album dos Beatles, produzido por Richard Linklater e Ethan Hawke para Boyhood

  1. Guilherme Martins

    Cara, obrigado por me contar isso. Eu tenho uma compilação de Beatles pós Beatles, baseado numa ideia do meu padrinho, mas são só as músicas “pra cima”. Eu não teria a capacidade de elaborar esse Black Album, a gente deve ter noção das nossas limitações. Mas ficou perfeito. Obrigado – e agradeçamos ao Linklater.

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  6. Rodrigo Alves Castro

    O filme é bom e, quando vi a cena o pai presenteando o filho dentro do carro com esse CD, fui logo atrás, no momento estou ouvindo a faixa “Jet”, de Paul….

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  7. Assis Furriel

    Essa ideia é demais e digo que há muitos anos, ainda na época dos k7s tive essa ideia e montei a minha própria lista dos ex-beatles. Só não teve o Ringo, pois não tinha acesso a nada dele. Portanto, não só gostei como me identifiquei com o ator. No entanto, tenho uma crítica quanto ai setlist. Teve pouco George. Na minha fita eu dividi igualmente. Não seria justo o George continuar diminuído medmo depous do final da banda. A obra dele pós Beatles talvez seja melhor que a dos companheiros. Bem, pelo menos é o que eu penso. De todo modo, a ideia poderia ser comercializada. Nós fans agradeceriamos.

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    1. Carlos Sanches

      Verdade! Concordo!. Eu tinha feito a minha lista tb e inclui Ringo. The weight of the world é linda e The Heartbeat do mesmo album de 92. Do George inclui Beware of Darkness, Run of the mill, Isnt it a pitty, I got my mind Set on you, Love comes to everyone. No more Lonely Nights e Young Boy do Paul não poderiam ficar de fora, além de uma joia escondida do Album McCartney 2 de 1980 chamada One of these days. De resto minha seleção ficou igual. Coloquei tudo no Pen Drive e é impressionante como a magia acontece quando mesmo assim colocamos os quatro juntos. Inclusive o Ringo toca em muitos discos dos outros três. Na paro de ouvir em casa e no carro

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