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Vitralizado Recomenda #0021: Os Flintstones – Volume 1 (Panini), por Mark Russell e Steve Pugh

Eu estava curioso em relação a essa coleção recente de quadrinhos publicados pela DC Comics com os personagens da Hanna-Barbera. Aliás, o meu interesse era principalmente em Os Flintstones (Panini), com roteiro do Mark Russell e desenhos do Steve Pugh. Sites estrangeiros que respeito vinham elogiando a HQ, especialmente pelas reflexões que ela propõe, com diversas críticas relacionadas a questões como machismo, especismo, racismo e consumismo.

Gosto cada vez menos da estética convencional, pouco inventiva e conservadora dos quadrinhos da Marvel e da DC e o trabalho de Russell e Pugh não difere em termos visuais do que é apresentado nos gibis mais banais de super-heróis, mas gosto como uma HQ mainstream, distribuído em bancas e com personagens beirando aos 60 anos de existência subverte as possíveis expectativas criada em torno de seu título. A quarta das seis edições presentes nessa coletânea, sobre a origem do conceito de casamento e a relação dos personagens principais com seus bens, é especialmente brilhante.

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Vitralizado Recomenda #0020: Ghost World (Nemo), por Daniel Clowes

Eu assino o prefácio da edição de 20 anos do clássico Ghost World, do Daniel Clowes, recém-lançada no Brasil pela editora Nemo. O título é um dos meus quadrinhos preferidos e poucos autores moldaram a minha vivência como leitor de HQs como Clowes – aliás, tanto ele quanto o quadrinista Charles Burns, com Black Hole, de volta às livrarias pela DarkSide Books (e considero maravilhoso que as obras-primas de ambos estejam sendo relançadas em português em um intervalo tão curto de tempo). Reproduzo a seguir dois parágrafos do texto que assino na publicação da Nemo e deixo o resto para você ler na versão impressa. Ó:

“Ghost World mostra o cotidiano de duas jovens recém-saídas da escola e ainda indecisas sobre as próximas etapas de suas vidas. São garotas no final da adolescência com quase nada para fazer além de lamentar suas frustrações amorosas e sexuais, zombar de ex-colegas de escola supostamente encaminhados profissionalmente e apostar que qualquer um sentado ao lado em um restaurante pode ser um serial killer ou membro de seita satânica.

Um leitor menos atento diria se tratar de um gibi sobre o nada. Uma mescla de Seinfeld com versões suburbanas e da Geração X pré-Millennials das protagonistas da série de TV Girls. Mas Ghost World é muito mais que isso e não está limitada à misantropia superficial de suas personagens principais. É um quadrinho tragicômico protagonizado por jovens repletas de nuances e contradições, dignas da preocupação de Clowes em ser fiel à complexidade juvenil”

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Vitralizado Recomenda #0019: Terreno (independente), por Paulo Crumbim

O quadrinista Paulo Crumbim adaptou para o formato de HQ parte do já lendário vídeo da TV Folha com o título “Vou Transferir a Cracolândia pra lá”, diz Silvio Santos a Zé Celso sobre Teatro Oficina. A gravação mostra uma reunião com a presença do prefeito de São Paulo, João Dória, do diretor do Teatro Oficina e do dono do SBT na sede do canal de televisão. O debate do trio é centrado em uma disputa que ocorre há 37 anos entre o dramaturgo e o apresentador pelo uso do terreno ao lado do Oficina no bairro do Bixiga em São Paulo – pertencente a Silvio Santos e no qual o apresentador pretende construir um conjunto de torres residenciais que poderiam ferir o projeto arquitetônico de Lina Bo Bardi para o teatro.

A adaptação de Crumbim foi batizada de Terreno. Mesmo tendo apenas 10 páginas, é um dos quadrinhos mais relevantes do ano pela atualidade do tema que aborda e pela maestria como o autor retrata os personagens de sua história. Acredite, quanto menos você souber sobre as escolhas do quadrinista na forma de apresentar Dória, Silvio Santos e Zé Celso, mais interessante será a sua leitura. Apenas adianto por aqui que a obra é extremamente fiel ao apresentar os discursos convenientemente hipócritas do prefeito paulistano, a ganância inescrupulosa do apresentador e o otimismo aflorado de Zé Celso. Imperdível.

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Vitralizado Recomenda #0018: Quase Um Ano (independente), por Deborah Salles

Você encontra grande parte do trabalho da quadrinista Deborah Salles no Medium. Quase Um Ano (independente) reúne trechos desse material e outros quadrinhos até então inéditos assinados por ela. O álbum recém-lançado pela autora é uma coletânea de reflexões e crônicas cotidianas sobre tópicos rotineiros – como a dificuldade de chegar a tempo para uma aula da faculdade, a escolha de um filme, encontros com amigos e reuniões familiares. O mérito maior da autora é prender a atenção do leitor com temas tão banais, criando um diálogo com obras de gigantes como Harvey Pekar e Adrian Tomine – aliás, ambos mencionados no álbum de Salles. A forma como a autora usa referências fotográficas para construir sua arte é um dos pontos altos do quadrinho, assim como os ótimos textos e diálogos verossímeis da HQ. Já estou no aguardo por outras obras da artista.

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Vitralizado Recomenda #0017: Soco™ – Volume 1 (Beleléu), por Gabriel Góes

As 64 páginas de Soco™ – Volume 1 (Beleléu) servem de introdução para o vasto universo do herói Billy Soco do quadrinista Gabriel Góes. O álbum intercala duas aventuras protagonizadas pelo personagem: uma na qual ele defende sua cidade do monstruoso macaco-robô-gigante Judas 9 e outra em uma dimensão alternativa pré-histórica ambientada por dinossauros e aterrorizada pelos vilões Crom e Zerg.

Góes investe em traços distintos para cada uma das tramas, o presente tem cara de desenho do canal Cartoon Network e o passado é preto e branco, sujo e tosco como os primeiros zines do autor com o personagem. Além da versatilidade de Góes também chama atenção a grandiosidade do universo de Billy Soco, explicitada nos produtos com anúncios no interior da revista. Aguardo ansiosamente pela continuação.

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Vitralizado Recomenda #0016: Moby Dick (Pipoca & Nanquim), por Chabouté e Herman Melville

Eu nunca li o Moby Dick original de Herman Melville. Sabia da história sobre a caça à baleia branca e confesso o meu preconceito em relação a um enredo tratando de um grupo de pescadores caçando uma das criaturas mais bonitas da natureza. O Moby Dick (Pipoca e Nanquim) do quadrinista francês Chabouté tirou muito dessa minha cisma com a história. A trama trata exatamente de um grupo de ignorantes fadados à perdição por seguirem à risca as ordens de um capitão obcecado com um animal. O preto e branco de Chabouté é impressionante e acentua ainda mais o drama da tripulação do navio The Pequod. As proporções grandiosas do álbum e o formato luxuoso da publicação são coerentes com o tom épico da história. É mais um acerto da Pipoca & Nanquim e torço para que abra as portas para a chegada de outros trabalhos de Chabouté em português.

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Vitralizado Recomenda #0015: O Bulevar dos Sonhos Partidos (todavia), por Kim Deitch com Simon Deitch

O foco de O Bulevar dos Sonhos Partidos (todavia) está na relação doentia entre o animador Ted Mishkin e seu personagem Waldo, um gato “charmoso e fofo por fora” mas por dentro sendo “pura maldade”. Brilhantemente escrito e ilustrado pelos irmãos Kim e Simon Deitch, o primeiro quadrinho da editora todavia mistura ficção e realidade para mostrar os bastidores da construção da indústria norte-americana de animação entre a década de 1910 e os anos 90. A singularidade dos designs das páginas do livro impressionam, assim como o preto e branco de alto contraste. Ainda assim, o destaque do álbum é o clima conspiratório crescente de seu enredo. Sem dúvidas, uma das grandes HQs lançadas no Brasil em 2017.

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Vitralizado Recomenda #0014: Congestionamento (independente), por André Valente

As 12 páginas de Congestionamento (independente) surgiram a partir de um exercício proposto pela crítica e pesquisadora Maria Clara Carneiro no blog Balbúrdia: criar uma história inteira repetindo sempre o mesmo quadro. Recomendo todos os textos difundindo e motivando atividades Oulipo-oubapianas vindos do Balbúrdia, mas o que inspirou o trabalho mais recente de André Valente você lê aqui. Congestionamento apresenta oito personagens presos no trânsito de uma cidade e suas reações e atividades dentro de seus veículos. Tenho cada vez mais interesse em HQs construídas a partir de restrições espaciais, focadas em explorar alguma perspectiva pouco usual da linguagem dos quadrinhos, e fico impressionado como Valente sempre supre essas minhas expectativas.

[PS: o Lielson explica aqui como comprar o Congestionamento.]