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Vitralizado Recomenda #0024: Know-Haole #8 – Santuários & Altares (Vibe Tronxa Comix), por Diego Gerlach

Já ouvi de editores que o raciocínio não procede, mas vejo uma relação direta entre a onipresença da Amazon no mercado editorial e a diminuição explícita no número de HQs autorais brasileiras publicadas por editoras nacionais no ano de 2018. Com exceção de Eles Estão Por Aí, trabalho de Bianca Pinheiro e Greg Stella, lançado pela Todavia, e O Idiota, de André Diniz, pela Companhia das Letras, não li nenhum outro grande quadrinho nacional autoral que tenha saído pelas casas editoriais responsáveis pelos principais lançamentos dos últimos anos. Não é barato nem fácil publicar obras estrangeiras em português, mas é mais prático e seguro do que investir a longo prazo e apostar em talentos ainda desconhecidos das HQs brasileiras.

Azar das editoras. Os quadrinhos nacionais mais relevantes de 2018 até o momento, além dos dois citados anteriormente, são projetos independentes, publicações sem a pompa de qualquer capa dura ou de impressões luxuosas fomentadas por colecionistas e adoradores de lombadas. As publicações brasileiras que mais me interessaram até o momento foram os zines mais recentes de Paulo Crumbim; Me Leve Quando Sair, de Jéssica Groke; Tilt, de Raquel Vitorelo; Hibernáculo, de Amanda Paschoal Miranda; os números mais recentes da coleção Ugrito; Sonoria, de Bruno Pirata; Asteróides, de Lobo Ramirez; a quinta Zica e a primeira Pé-de-Cabra. Tenho certeza da existência de mais coisa boa, independente e autoral por aí que deixei passar. No topo dessa minha lista tá o mais recente número da revista pessoal do quadrinista Diego Gerlach, Know-Haole #8 – Santuários & Altares, publicada pela Vibe Tronxa Comix.

Quanto menos você souber da proposta desse oitavo Know-Haole, mais interessante será sua experiência. Incluindo capa e quarta capa, trata-se de um gibi de 36 páginas que narra uma história transcorrida no intervalo de alguns poucos segundos. Publicação caseira, com grampo, sem qualquer luxo, em preto e branco, com o traço característico do autor, elegante e barata. Arrume logo a sua edição. E não se engane: a história dos quadrinhos brasileiros acontece em lojas especializadas e feiras de publicações independentes, não nos guichês virtuais e assépticos da Amazon.

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Vitralizado Recomenda #0023: TILT (independente), por Raquel Vitorelo

Desde as minhas leituras de Tomboy e Perigeu estou sempre no aguardo do trabalho seguinte da quadrinista Raquel Vitoreloaté por isso a convidei para ilustrar a segunda edição da Série Postal 2018. A publicação mais recente de Vitorelo foi lançada no FIQ 2018: TILT é uma espécie de diário ilustrado, narrado em primeira pessoa e expondo reflexões sobre seus dramas com ansiedade, religião e enxaqueca. Gosto muito do contraste entre o traço com jeitão de mangá da artista e as várias colagens e sobreposições de imagens, que vão desde radiografias a recortes de páginas de agendas. Tudo isso muito bem amarrado com um ótimo texto. Leia logo, ok?

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Vitralizado Recomenda #0022: A Vida É Boa, Se Você Não Fraquejar (Mino), por Seth

Ainda devo escrever um pouco mais sobre A Vida É Boa, Se Você Não Fraquejar (Mino) por aqui, mas me adianto para recomendar que você corra atrás dessa HQ o quanto antes. O álbum do canadense Seth é uma das publicações mais inesperadas e importantes de 2018 no Brasil. Inesperada por ser um trabalho antigo do autor, ainda de seu começo de carreira e ganha edição em português sem nenhum gancho específico que justifique a publicação nesse momento – além da própria excelência da HQ. Importante por ser uma das principais obras de uma das gerações mais prolíficas de artistas norte-americanos com publicações autorais/pessoais encabeçada por gênios como Chris Ware, Chester Brown, Daniel Clowes, Charles Burns e o próprio Seth.

A Vida É Boa, Se Você Não Fraquejar é um relato parcialmente autobiográfico no qual Seth relata sua busca por informações sobre o cartunista Kalo. A edição da Mino tá bem bonita e a tradução de Dandara Palankof adapta muito bem o ótimo texto original pro português. Sério, deixa passar esse não. E aproveito pra voltar a recomendar o também excelente Wimbledon Green, publicado por aqui em 2014 pela Bolha. Ambas as obras muito fora da curva.

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Vitralizado Recomenda #0021: Os Flintstones – Volume 1 (Panini), por Mark Russell e Steve Pugh

Eu estava curioso em relação a essa coleção recente de quadrinhos publicados pela DC Comics com os personagens da Hanna-Barbera. Aliás, o meu interesse era principalmente em Os Flintstones (Panini), com roteiro do Mark Russell e desenhos do Steve Pugh. Sites estrangeiros que respeito vinham elogiando a HQ, especialmente pelas reflexões que ela propõe, com diversas críticas relacionadas a questões como machismo, especismo, racismo e consumismo.

Gosto cada vez menos da estética convencional, pouco inventiva e conservadora dos quadrinhos da Marvel e da DC e o trabalho de Russell e Pugh não difere em termos visuais do que é apresentado nos gibis mais banais de super-heróis, mas gosto como uma HQ mainstream, distribuído em bancas e com personagens beirando aos 60 anos de existência subverte as possíveis expectativas criada em torno de seu título. A quarta das seis edições presentes nessa coletânea, sobre a origem do conceito de casamento e a relação dos personagens principais com seus bens, é especialmente brilhante.

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Vitralizado Recomenda #0020: Ghost World (Nemo), por Daniel Clowes

Eu assino o prefácio da edição de 20 anos do clássico Ghost World, do Daniel Clowes, recém-lançada no Brasil pela editora Nemo. O título é um dos meus quadrinhos preferidos e poucos autores moldaram a minha vivência como leitor de HQs como Clowes – aliás, tanto ele quanto o quadrinista Charles Burns, com Black Hole, de volta às livrarias pela DarkSide Books (e considero maravilhoso que as obras-primas de ambos estejam sendo relançadas em português em um intervalo tão curto de tempo). Reproduzo a seguir dois parágrafos do texto que assino na publicação da Nemo e deixo o resto para você ler na versão impressa. Ó:

“Ghost World mostra o cotidiano de duas jovens recém-saídas da escola e ainda indecisas sobre as próximas etapas de suas vidas. São garotas no final da adolescência com quase nada para fazer além de lamentar suas frustrações amorosas e sexuais, zombar de ex-colegas de escola supostamente encaminhados profissionalmente e apostar que qualquer um sentado ao lado em um restaurante pode ser um serial killer ou membro de seita satânica.

Um leitor menos atento diria se tratar de um gibi sobre o nada. Uma mescla de Seinfeld com versões suburbanas e da Geração X pré-Millennials das protagonistas da série de TV Girls. Mas Ghost World é muito mais que isso e não está limitada à misantropia superficial de suas personagens principais. É um quadrinho tragicômico protagonizado por jovens repletas de nuances e contradições, dignas da preocupação de Clowes em ser fiel à complexidade juvenil”

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Vitralizado Recomenda #0019: Terreno (independente), por Paulo Crumbim

O quadrinista Paulo Crumbim adaptou para o formato de HQ parte do já lendário vídeo da TV Folha com o título “Vou Transferir a Cracolândia pra lá”, diz Silvio Santos a Zé Celso sobre Teatro Oficina. A gravação mostra uma reunião com a presença do prefeito de São Paulo, João Dória, do diretor do Teatro Oficina e do dono do SBT na sede do canal de televisão. O debate do trio é centrado em uma disputa que ocorre há 37 anos entre o dramaturgo e o apresentador pelo uso do terreno ao lado do Oficina no bairro do Bixiga em São Paulo – pertencente a Silvio Santos e no qual o apresentador pretende construir um conjunto de torres residenciais que poderiam ferir o projeto arquitetônico de Lina Bo Bardi para o teatro.

A adaptação de Crumbim foi batizada de Terreno. Mesmo tendo apenas 10 páginas, é um dos quadrinhos mais relevantes do ano pela atualidade do tema que aborda e pela maestria como o autor retrata os personagens de sua história. Acredite, quanto menos você souber sobre as escolhas do quadrinista na forma de apresentar Dória, Silvio Santos e Zé Celso, mais interessante será a sua leitura. Apenas adianto por aqui que a obra é extremamente fiel ao apresentar os discursos convenientemente hipócritas do prefeito paulistano, a ganância inescrupulosa do apresentador e o otimismo aflorado de Zé Celso. Imperdível.