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Entrevistas / HQ

Papo com Marcello Quintanilha, o autor de Luzes de Niterói: “Do meu ponto de vista, o horizonte apresenta nuvens de tempestade”

Luzes de Niterói é a primeira grande HQ brasileira a chegar às livrarias nacionais em 2019. Publicada na França e em Portugal no final de 2018, a obra de Marcello Quintanilha lançada pela editora Veneta tem 232 páginas coloridas e é livremente inspirada em um dia de caos vivido pelo pai do autor, o ex-futebolista Hélcio Quintanilha, nos anos 50. O álbum também é o primeiro projeto longo longo do quadrinista publicado em português desde Talco de Vidro (2015) e Tungstênio (2014) – nesse intervalo foram lançadas as coletâneas Hinário Nacional (2016) e Todos os Santos (2018).

Eu entrevistei o autor brasileiro residente em Barcelona e transformei essa conversa em matéria para o jornal Folha de São Paulo. Você lê o meu texto para a publicação clicando aqui. Depois, recomendo a leitura do álbum e da entrevista a seguir, a íntegra do meu bate-papo com o quadrinista. Nós conversamos sobre a relação dele com futebol, a produção de Luzes de Niterói, algumas de suas memórias de infância e as impressões dele sobre o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro. Saca só:

“O aspecto da região foi se solidificando mais e mais para mim a medida em que seus componentes iam dando adeus cotidianamente, dizimados pela locomotiva do progresso”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Luzes de Niterói é o seu primeiro livro longo desde Talco de Vidro e marca um retorno ao mundo dos subúrbios fluminenses, cenário da maior parte das suas histórias curtas. O que essa ambientação representa para você?

Não se pode voltar ao que nunca se deixou para trás. O aspecto da região foi se solidificando mais e mais para mim a medida em que seus componentes iam dando adeus cotidianamente, dizimados pela locomotiva do progresso, a medida em que as fábricas iam fechando as portas, as vilas operárias sendo descaracterizadas, os campos de futebol, loteados. O que resta, vive comigo. Essa ambientação em relação a Luzes de Niterói representa a comunhão com um país que emergia economicamente no período do pós-guerra, com sua característica indústria cinematográfica, repositório de um conjunto de coisas e valores dos quais infelizmente nos afastamos gradativamente, mas que são o alicerce da atual cultura brasileira de massas. Representa também a recuperação do mito do futebol brasileiro oriundo das fábricas, berço do esporte no país.

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Luzes de Niterói é a sua HQ mais pessoal?

Não, sob nenhuma hipótese. Todas as minhas histórias advém daquilo que me constituiu como ser humano e não estabeleço uma escala nesse campo — todas são o que eu sou.

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de quadrinhos na sua vida?

Os quadrinhos publicados nos jornais nos anos 1970, Brucutu, Dick Tracy, etc.

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de futebol na sua vida?

Uma transmissão de rádio. O timbre transistorizado da voz de Jorge Curi retinindo pela casa de luzes misteriosamente apagadas. Anos 1970.

“A coluna vertebral da HQ é integralmente baseada no que ouvi sobre o dia da temporal, assim como toda a atividade intramuros do cotidiano dos jogadores”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

O quanto da experiência do seu pai como jogador de futebol você levou para o quadrinho? Há muito dos relatos que você ouviu dele nessa HQ?

Muito, muito, muito. A coluna vertebral da HQ é integralmente baseada no que ouvi sobre o dia da temporal, assim como toda a atividade intramuros do cotidiano dos jogadores.

A literatura brasileira sobre futebol é composta principalmente por crônicas e relatos históricos e jornalísticos. Me refiro a trabalhos assinados por autores como Mário Filho, Nelson Rodrigues e, mais recentemente, Tostão. Há alguns anos foi publicado o livro O Drible, do jornalista Sérgio Rodrigues, um raro caso de literatura brasileira de ficção sobre futebol. Também não são muito comuns filmes com conteúdo ficcional sobre futebol. Você vê alguma particularidade no futebol que dificulta de alguma forma sua representação como obra de ficção?

Não, não vejo. O futebol é apenas mais um item no imenso catálogo de temas que jamais encabeçaram gêneros na ficção brasileira, a ponto de serem exauridos, posteriormente redescobertos e reinventados segundo novos parâmetros, partindo de um arcabouço consistente de histórias serializadas formado ao longo do tempo, em grande medida pela incapacidade por parte de diversos setores da produção de assimilar e, sobretudo, de se apropriar de suas premissas para a conversão em narrativa ficcional ultrapassando noções pré-estabelecidas.

Há uma corrente crescente por parte de fãs de futebol que questionam os rumos do futebol mundial, inclusive aquela que prega o “ódio eterno ao futebol moderno”. O que você pensa a respeito desse tema?

Nada é eterno.

“Meu interesse era criar uma palheta extremamente limitada, objetiva, de saturação média, ao mesmo tempo que nostálgica”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Você mora em Barcelona, cidade sede de um dos times mais tradicionais e conhecidos do mundo, um time com identidade de jogo e ideologia muito característicos, mas também representante desse tão questionado futebol moderno. Pelas suas obras é possível notar uma proximidade grande sua em relação a um tipo de futebol hoje considerado romântico – na falta de uma palavra melhor. A partir dessa perspectiva, você poderia, por favor, falar algumas das suas impressões sobre o Barcelona?

Uma vez sonhei em ser torcedor do Real Madri só para ter a oportunidade de aplaudir o Barcelona de pé no 0-3 da temporada 2005-2006 no Santiago Bernabéu.

Luzes de Niterói é o seu primeiro álbum colorido após três trabalhos em preto e branco. O que motivou o seu retorno às cores?

Novamente, não há um retorno. Esta idéia só faria sentido se a ordem de publicação dos álbuns correspondesse à ordem de confecção efetiva de cada um, o que nem de longe é o caso no que refere a mim. Como já declarei em outras ocasiões, trabalho de modo absolutamente anárquico, posso estar ocupado em vários projetos ao mesmo tempo, com vários registros distintos, de modo que tudo é fruto de um fluxo constante de atividade e álbuns que tenham sido publicados antes, não necessariamente começaram a ser produzidos primeiro. Sei que parece confuso. E é.

Quanto às cores, meu interesse era criar uma palheta extremamente limitada, objetiva, de saturação média, ao mesmo tempo que nostálgica, mas não necessariamente vintage e uma boa parte da pré-produção do álbum foi consumida neste fim.

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Quais técnicas e materiais você utilizou para a produção de Luzes de Niterói?

Esboços e finalização em papel, a base de grafite, pastel oleoso e guache e cores digitais.

Eu gosto como você mantém grande parte dos quadros da HQ desalinhados, ele soam para mim como um ruído que intensifica a tensão da obra. Você pode, por favor, comentar esse recurso?

Na verdade, não mantenho grande parte dos quadros desalinhados, mas sim todos eles. Isto decorre do propósito de reforçar o quadro como unidade narrativa, em oposição à idéia de que esta unidade esteja sujeita à página, prescindindo dela como marco rítmico da leitura.

“Minha intenção, se podemos utilizar esta palavra, é a comunicação mais honesta em qualquer etapa da narrativa e todos os estágios da obra são tratados sob os mesmos fundamentos”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Eu gostei bastante de Luzes de Niterói, sendo a minha sequência preferida aquela na qual o Hélcio vê o ‘filme da vida dele’ enquanto tenta retornar à superfície. Enquanto lia, percebi que fui prendendo a respiração junto com o personagem. Foi essa a sua intenção? Houve alguma particularidade na construção dessa sequência enquanto você produzia o quadrinho?

Não, não houve nenhuma. Minha intenção, se podemos utilizar esta palavra, é a comunicação mais honesta em qualquer etapa da narrativa e todos os estágios da obra são tratados sob os mesmos fundamentos. Acredito muito na musicalidade do texto e no papel que esta musicalidade pode desempenhar uma vez codificada em quadrinhos, imbricando seu léxico de símbolos, criando um andamento peculiar, marcado por esse compasso, na minha forma de ver, oposto ao senso comum de ‘efeito cinematográfico’.

“As artes são sempre vítimas preferenciais dos sistemas de governo em contextos de crise, sejam econômicas ou institucionais”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

O que você tem lido, ouvido e assistido ultimamente? Há alguma obra em particular, seja filme, livro ou música que tenha chamado sua atenção recentemente?

Of Human Bondage, de John Cromwell; Cidades Mortas, de Monteiro Lobato; Pelote das la Fumée, de Miroslav Sekulic-Struja e Arraial da Curva Torta, com Capitão Furtado.

Desde 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita que acabou com o Ministério da Cultura e promete cortes em políticas públicas e sociais de fomento às artes. Como você acredita que a sociedade brasileira será afetada por essa realidade?

As artes são sempre vítimas preferenciais dos sistemas de governo em contextos de crise, sejam econômicas ou institucionais. Sintomaticamente, nos últimos tempos nos deparamos frequentemente com o diagnóstico de “crise de representatividade” como um dos alicerces da campanha do atual presidente, o que sempre considerei uma afirmação fascinante, porque ela define que a classe política deixou de representar os anseios da população, o que traz implícito a idéia de que em momento determinado ela se constituiu de fato em porta voz das aspirações dos cidadãos. Uma olhadela na história da república, no entanto, nos trará uma percepção ligeiramente diferente dessa.

Do meu ponto de vista, o horizonte apresenta nuvens de tempestade. 

A capa de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta
HQ / Matérias

Luzes de Niterói: Marcello Quintanilha, quadrinhos, futebol e memórias

O mais novo trabalho do quadrinista Marcello Quintanilha finalmente chegou às livrarias brasileiras. Publicado pela editora Veneta alguns meses após seu lançamento na França e em Portugal, Luzes de Niterói é livremente inspirado em um dia de caos vivido pelo pai do artista na década de 50, quando Hélcio Carneiro Quintanilha era jogador de futebol. Tão impactante quanto os trabalhos recentes mais aclamados do quadrinista, Tungstênio e Talco de Vidro, Luzes de Niterói constará em muitas listas de melhores do ano quando 2019 chegar ao fim.

Eu entrevistei Quintanilha sobre as inspirações por trás de seu novo álbum e o desenvolvimento da HQ. Transformei essa conversa em texto publicado hoje, no caderno Ilustrada do jornal Folha de São Paulo. Você lê a minha matéria clicando aqui.

Entrevistas / HQ

O Manifesto Comunista em Quadrinhos, Marcello Quintanilha, Ed Piskor, Camilo Solano e Juscelino Neco: confira os lançamentos da Veneta para os primeiros meses de 2019

A editora Veneta adiantou para o Vitralizado os principais lançamentos do selo nos quatro primeiros meses de 2019. Além do já anunciado e aguardado Luzes de Niterói, do quadrinista Marcello Quintanilha, para fevereiro está prevista chegada às lojas de O Manifesto do Partido Comunista em Quadrinhos, adaptação assinada pelo britânico Martin Rowson para o texto escrito em 1848 por Karl Marx e Friedrich Engels.

“Rowson transforma em desenhos a lógica furiosa e sarcástica de Marx. Até os não-marxistas irão se divertir”, promete o editor Rogério de Campos em papo com o blog em relação ao trabalho do quadrinista inglês, cartunista do jornal The Guardian.

Para março está agendado o segundo volume da série Hip Hop Genealogia, do quadrinista norte-americano Ed Piskorentrevistado aqui no blog em 2016, quando saiu o primeiro volume da coleção em português. Outra novidade é o livro Uma História da Tatuagem no Brasil, de Silvana Jeha. Em abril deverão chegar às lojas Fio do Vento, próxima HQ de Camilo Solano, e a adaptação ainda sem título de Juscelino Neco para o clássico Reanimator (1985).

Fiz uma breve entrevista por email com Rogério de Campos, editor da Veneta, sobre esses primeiros lançamentos do selo em 2019. Ele também comentou a repercussão de alguns dos títulos publicados pela editora no ano passado e perspectivas relacionadas ao mercado editorial brasileiro em crise. Saca só:

Quadro de Luzes de Niterói, o mais recente trabalho de Marcello Quintanilha

Você pode, por favor, comentar alguns dos lançamentos da editora em 2019?

Pensamos aqui a respeito da Veneta ficar mais comportada, mais adaptada aos novos tempos medievais. Mas não é de nossa natureza, assim um dos primeiros lançamentos do ano é o Manifesto Comunista em Quadrinhos. Uma adaptação criada pelo celebrado desenhista e escritor inglês Martin Rowson, o grande herdeiro da tradição inglesa do sarcasmo desenhado, uma tradição que vem lá dos tempos do James Gillray e que gerou o Monty Python, por exemplo. E Rowson transforma em desenhos a lógica furiosa e sarcástica de Marx. Até os não-marxistas irão se divertir. Mas não é recomendável para crianças: elas podem se tornar comunistas!

Três das principais publicações da Veneta em 2018 foram A Terra dos Filhos, Ayako e O Perfeito Estranho. Qual foi o retorno do público em relação a esses títulos? Vocês planejam publicar outras HQs do Gipi no Brasil? Há planos para mais mangás e outros quadrinhos do Osamu Tezuka?

A recepção foi ótima, não é? E veja: A Terra dos Filhos é o mais recente livro de um autor contemporâneo, o italiano Gipi. Ayako é uma HQ publicada originalmente em 1972 e O Perfeito Estranho reúne HQs que Krigstein criou na década de 50. No entanto, todas as três são igualmente vivas, surpreendentes. Ou seja, encontramos o novo em todos os lugares, até no passado.

Quadro de Luzes de Niterói, o mais recente trabalho de Marcello Quintanilha

Os dois nomes mais consagrados dos quadrinhos brasileiros contemporâneos são publicados pela Veneta, Marcelo D’Salete e Marcello Quintanilha. Além do já anunciado Luzes de Niterói, há planos para outras obras deles para breve?

Acho que uma das razões da minha boa relação com os autores é que eu não costumo chateá-los tanto com cobranças. Os livros vêm no seu tempo.

E em relação a jovens autores brasileiros, vocês têm em vista projetos de autoria de novos nomes da cena nacional de HQs?

Sim! Aliás autores e autoras. É uma pena o mercado brasileiro estar essa lástima, porque a produção de quadrinhos de hoje é talvez a melhor de todos os tempos. Gostaria de lançar vários novos autores por mês.

Quais as principais lições que a Veneta tirou da crise das grandes livrarias que aflorou em 2018? Como a editora pretende lidar com essa crise em 2019?

Grandes mesmo são as pequenas.

Como a editora está lidando com a chegada ao poder de um governo de extrema-direita que acabou com o Ministério da Cultura e que promete cortes em políticas públicas e sociais de fomento às artes?

Prefiro não comentar. Do jeito que a foi a primeira semana do governo, arrisca ser ex-governo quando você publicar a entrevista.

A capa da edição norte-americana do segundo volume da série Hip Hop Genealogia, do quadrinista Ed Piskor
HQ

“Marcello Quintanilha vai tecendo sua pequena história secreta do Brasil”, diz Rogério de Campos sobre Luzes de Niterói, o novo álbum do autor de Tungstênio e Talco de Vidro

Está no ar a campanha de financiamento coletivo do álbum Luzes de Niterói, novo álbum do quadrinista Marcello Quintanilha. O quadrinho será o primeiro projeto longo do autor desde o lançamento de Talco de Vidro, em 2015. Segundo a sinopse oficial do projeto, a HQ marca um retorno de seu autor à cidade onde nasceu e cresceu, Niterói, em uma trama baseada em fatos ocorridos nos anos 50 envolvendo pescadores, futebol, a vedete Luz del Fuego e o primeiro campo naturista do Brasil. A página do projeto no Catarse pode ser acessada aqui.

“É um retorno [de Quintanilha] ao mundo dos subúrbios fluminenses, que foi o cenário da maior parte de suas histórias curtas, que fizeram sua fama”, conta o editor da obra e dono da editora Veneta, Rogério de Campos, em papo rápido por email com o blog. A expectativa é que o livro chegue aos apoiadores da campanha de financiamento coletivo em janeiro de 2019.

Na entrevista a seguir, o editor de Quintanilha fala sobre Luzes de Niterói, comenta o retorno do artista às cores após uma leva recente de publicações em preto e branco, trata da repercussão da adaptação de Tungstênio para o cinema, explica a opção pelo financiamento coletivo e promete novas formas de chegar aos leitores da Veneta em tempos de crise no mercado editorial. Ele também adianta a inclusão de novas opções de recompensas para a campanha de financiamento do quadrinho para os próximos dias. A seguir, Rogério de Campos:

Luzes de Niterói é o primeiro trabalho longo do Marcello Quintanilha desde Talco de Vidro. Quais são as suas impressões em relação a esse quadrinho?

Sim. É a primeira história longa desde Talco de Vidro e, ao mesmo tempo, um retorno ao mundo dos subúrbios fluminenses, que foi o cenário da maior parte de suas histórias curtas, que fizeram sua fama. É um retorno a temas que ele abordou em outros livros. O futebol, a praia, a pesca ilegal, a amizade e seus sacrifícios. Um retorno a seu pai, a experiência dele como jogador de futebol. Nesse reatar das linhas, o Quintanilha vai tecendo sua pequena história secreta do Brasil.

Você é um grande admirador de HQs em preto e branco. Luzes de Niterói marca o retorno do Marcello Quintanilha às cores depois de uma leva recente de quadrinhos em preto e branco. Como você avalia a presença das cores nesse projeto?

O que fazer se os artistas não obedecem a ninguém, muito menos a seus editores? Um dos prêmios da campanha de financiamento coletivo é justamente uma gravura com a reprodução da primeira página da HQ apenas no traço. É uma beleza! Mas além do problema que é a teimosia do Quintanilha, tem o problema dele ser tão talentoso como colorista. O resultado final, colorido, ficou lindo.

Você consegue mensurar o impacto do lançamento da adaptação de Tungstênio para o cinema na recepção dos quadrinhos do Marcello Quintanilha? Vocês notaram mais interesse por parte do público e dos livreiros nas obras assinadas por ele?

Serviu para muita coisa. Mas principalmente para mostrar a um público amplo a dimensão da narrativa de Quintanilha. Mais ainda: para mostrar o nível das novas narrativas dos quadrinhos autorais brasileiros. Imagino que para quem se acostumou a pensar em quadrinhos tendo como referência a produção industrial dos gibis infanto-juvenis norte-americanos deve ter sido uma surpresa.

Luzes de Niterói é a primeira campanha de financiamento coletivo da Veneta. Por que essa opção? Por que essa primeira investida no Catarse com um trabalho do Marcello Quintanilha?

O problema de pagamento das duas grandes redes de livrarias, fez a gente acelerar o trabalho para estrearmos esse modo de financiamento. Mas já há anos que considerávamos fazer isso. E o novo livro do Quintanilha pareceu uma ótima oportunidade: é um livro com 240 páginas, colorido, papel couché, capa dura… enfim, um livro que sairia muito caro se fosse depender apenas da venda em livrarias. Além do mais, deu a oportunidade de fazermos prêmios muito bacanas, as risografias estão ficando muito bonitas e eu finalmente terei um jogo de futebol de botão desenhado pelo Quintanilha!

A Veneta tem planos de investir em outros projetos de financiamento coletivo em seguida a Luzes de Niterói?

Sim! E vamos inventar outras formas de chegarmos aos nossos leitores.

HQ

Sábado (20/10) é dia de lançamento de Ar Condicionado, de Gustavo Piqueira

Tem programa pra sábado (20/10)? Então deixo aqui o convite pro lançamento do álbum Ar Condicionado, HQ do designer Gustavo Piqueira publicada pela editora Veneta. O evento rola na Ugra, a partir das 16h e eu estarei por lá pra mediar a conversa que antecederá a sessão de autógrafos do livro, com a presença do autor e do editor da Veneta, Rogério de Campos. A obra é a primeira história em quadrinhos de Piqueira, um dos designers brasileiros mais premiados da atualidade, responsável pelos projetos gráficos e pelas capas de obras como Do Inferno, Ayako, Imageria e Terra dos Filhos. Promessa de papo bem bom, viu?

Aliás, você já chegou a dar uma conferida em Ar Condicionado? Recomendo. É daquelas obras pouco usuais e provocantes que fazem pensar bastante sobre as possibilidades da linguagem dos quadrinhos. O álbum mistura texto e imagem de forma como poucas vezes já vi dentro de uma trama interessante sobre solidão. O papo no sábado tá marcado pra começar às 16h e a Ugra fica na Rua Augusta, número 1371, loja 116. Você encontra outras informações pro lançamento lá na página do evento no Facebook. Enquanto isso, dá uma conferida nessa prévia do quadrinho:

HQ

Será apenas justo que Marcelo D’Salete chegue ao final de 2018 com troféus dos prêmios Eisner, HQMix, Jabuti e Grampo

“Cumbe foi uma primeira forma de abordar a história dos povos africanos e negros escravizados no Brasil. Ainda tenho o projeto de elaborar uma narrativa sobre a história do Quilombo dos Palmares. Esse é com certeza o meu projeto mais ambicioso por enquanto. Pretendo ter tudo pronto nos próximos anos. Quando o projeto estiver mais próximo do fim devo começar a me preocupar com a forma de publicação. Além desse, ainda tenho muitas histórias sobre a nossa sociedade atual para contar. Ideias não faltam.”

As aspas aqui em cima foram tiradas da entrevista dada pelo quadrinista Marcelo D’Salete ao blog em setembro de 2014, logo em seguida ao lançamento de Cumbe. A versão norte-americana do álbum foi lançada nos Estados Unidos pela editora Fantagraphics no final de 2017 com o título Run For It: Stories of Slaves Who Fought for Their Freedom. Na noite de sexta-feira passada, dia 20 de julho de 2018, o livro ganhou o Prêmio Eisner de melhor edição americana de material estrangeiro. O Eisner é o maior prêmio da indústria norte-americana de quadrinhos.

Os irmãos e quadrinistas brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá já haviam vencido o Prêmio Eisner em 2008, pela antologia 5 (junto com Rafael Grampá), em 2011, por Daytripper (melhor série limitada), e em 2016, (melhor adaptação), por Dois Irmãos, inspirado no livro homônimo de Milton Hatoum. Individualmente, Moon ganhou pela HQ online Sugarshock! (escrita por Joss Whedon, para a revista Dark Horse Presents) e Bá, também sozinho, levou pela minissérie The Umbrella Academy (escrita por Gerard Way). A comoção em torno do reconhecimento de Cumbe é maior do que a ocorrida em seguida às vitórias dos gêmeos paulistanos – por parte de quadrinistas, da mídia especializada e de leitores não habituais de quadrinhos. Mesmo ambientado no Brasil colonial, Cumbe trata do Brasil de hoje. O quadrinho de D’Salete dialoga com uma sociedade em crise e expõe a origem de vários de seus principais problemas.

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“Esse lançamento foi um momento de inflexão total na minha trajetória. Na época, pensava seriamente se continuava a produzir e publicar do mesmo modo. Apesar das críticas positivas, meus livros anteriores não tinham chegado a um público muito amplo. Cumbe rompeu todas as expectativas. Não apenas pela premiação atual, mas por ter tido uma ótima recepção pelo público em diversos locais.”

Essa segunda fala foi tirada do Facebook de D’Salete, em mensagem compartilhada por ele algumas horas após o anúncio de sua vitória no Eisner. Entre os trabalhos prévios mencionados por ele constam Noite Luz (2008), publicado pela Via Lettera; Encruzilhada, lançado originalmente em 2011 pela Leya e depois republicado pela Veneta em 2017; e Risco, também de 2014, como parte da coleção Franca da Editora Cachalote.

Ainda há muito a ser redescoberto do trabalho de D’Salete. Obras com forte ambientação urbana mostrando um país moderno com preconceitos e desigualdades em vigor desde o Brasil colonial.

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“Muita coisa mudou nesses últimos 11 anos, desde quando fiz o primeiro roteiro para Angola Janga. Alterou o meu modo de compreender o passado e também o presente, em especial sobre os antigos e novos mocambos. Os remanescentes de quilombos atuais, com suas diferentes origens, ainda resistem e atestam a violência de nossa história. Ainda hoje, essas pessoas estão sistematicamente ameaçadas por fazendeiros, empreendimentos milionários etc. De certo modo, isso remete a ausência de reforma agrária desde o pós-abolição. Um elemento a mais que agrava brutalmente o desnível social em que vivemos.”

A comoção nacional e internacional em torno de Cumbe é merecida. Mas é Angola Janga a verdadeira obra-prima de D’Salete. Lançada no final de 2017, vencedora do Prêmio Grampo 2018, já publicada na França, a obra até o momento teve seus direitos de publicação vendidos para Alemanha, Itália, Portugal e Estados Unidos – também pela Fantagraphics.

As 432 páginas de Angola Janga tornam o premiado Cumbe uma espécie de prévia desse trabalho maior. Trata-se de uma obra definitiva. Mesmo apenas um ano após sua publicação, já é visto como um dos melhores e mais importantes quadrinhos brasileiros de todos os tempos. Ao contar a história do Quilombo dos Palmares pela perspectiva daqueles que o fundaram e construíram, D’Salete propõe uma releitura sobre a luta de grupos negros, populares e indígenas contra um modelo de sociedade construído a partir de violência, racismo, discriminação, desigualdade e tudo o que há de mais errado na sociedade brasileira.

Caso o livro não ganhe todos os troféus em que foi inscrito no Prêmio HQMix 2018 e também não leve o Prêmio Jabuti na categoria Histórias em Quadrinhos, nada mais fará sentido. Será apenas justo que D’Salete chegue ao final de 2018 com troféus do Eisner, HQMix, Jabuti e Grampo. Um feito que dificilmente voltará a ser alcançado.

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PS: A vitória de D’Salete no Eisner ocorre pouco mais de dois anos após Marcello Quintanilha levar o prêmio de melhor HQ policial no Festival de Angoulême de 2016, por Tungstênio. Ambas as obras foram publicadas no Brasil pela Editora Veneta, casa dos dois autores no país. O selo editado por Rogério de Campos abriga a vanguarda das HQs nacionais, traduz para o português alguns dos títulos mais importantes da história da linguagem e tem alcance fora do nicho de leitores de quadrinhos como nenhuma outra editora especializada. É essencial estar atento ao filtro, à linha editorial, aos autores e às publicações da editora.

*Entrevistas com Marcelo D’Salete publicadas no Vitralizado:
>> Papo com Marcelo D’Salete, o autor Angola Janga: “Temos uma subcidadania praticada e reafirmada cotidianamente. O poder permanece na mão de poucos”;
>> Marcelo D’Salete e as origens de Angola Janga – Uma História de Palmares;
>> Papo com Marcelo D’Salete – Volume 2;
>> Papo com Marcelo D’Salete;
>> Marcelo D’Salete e as origens de Angola Janga – Uma História de Palmares;

*Leia também:
>> Marcelo D’Salete fala sobre HQs, personagens da periferia e sua relação com a cidade de São Paulo;
>> Rogério de Campos, editor da Veneta: “Precisamos defender como pudermos as livrarias especializadas”;
>> Papo com Rogério de Campos: “O que está aquém no momento é a reflexão sobre quadrinhos no Brasil”;