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Entrevistas / HQ

Papo com Marcelo D’Salete, o autor Angola Janga: “Temos uma subcidadania praticada e reafirmada cotidianamente. O poder permanece na mão de poucos”

Já comentei algumas vezes como considero Angola Janga – Uma História de Palmares o quadrinho brasileiro mais importante publicado em 2017. É um álbum histórico pelos 11 anos que Marcelo D’Salete passou produzindo, por causa dos temas que ele trata e pela qualidade da obra. Para escrever a minha matéria pro UOL sobre a HQ eu fiz duas entrevistas com o autor. Uma delas foi realizada antes que eu tivesse lido o livro, quando ele ainda estava sendo fechado. Nela eu pedi informações sobre o conteúdo do álbum, as pesquisas feitas pelo autor e as técnicas de produção do quadrinho.

A entrevista seguinte foi feita após a leitura do PDF da HQ, com o livro na gráfica, dias antes de sua chegada às livrarias e a publicação da minha matéria. Reúno a seguir as minhas duas conversas com D’Salete. Antes, no entanto, recomendo: leia Angola Janga, depois o meu texto no UOL e então volte pra cá e confira o nosso papo. Combinado?

– Parte 1 –

Eu queria começar sabendo sobre a origem do quadrinho. Você lembra do instante em que teve a ideia de criar Angola Janga?

Angola Janga foi um processo longo. É difícil pensar num começo. Em todo caso, um momento importante foi um curso sobre história do Brasil, focando a população negra, com o professor Petrônio Domingues. Isso cerca de 13 anos atrás. Conheci a história de Palmares com mais detalhes ali.

Você é pesquisador e sei que investiu muito tempo do desenvolvimento estudando o contexto sobre o qual iria tratar. Como foi esse trabalho de pesquisa pra produção do livro?

O trabalho de pesquisa foi muito longo. Engraçado, pois antes não tinha ideia de como isso seria extenso. É como se cada livro e tema levasse a novas pesquisas. Usei muito a biblioteca do Museu Afro Brasil no início. Foi importante para conhecer textos e imagens do período. Sobre Palmares, algumas das referências foram obras do Flávio Gomes, Décio Freitas, Clóvis Moura, Nei Lopes, Edison Carneiro, João Felício, etc. Mas fora isso, foi necessário muito mais para formar um quebra cabeça mais rico sobre o contexto e o tema.

Como disse, eu ainda não li a HQ. Você pode me falar um pouco sobre as tramas do álbum? Ele é semelhante ao Cumbe, misturando histórias fictícias, apesar de inspiradas em relatos reais?

Angola Janga é uma ficção. Me inspirei em fatos e personagens históricos, mas a narrativa é ficcional. E a ficção, em toda sua potência, pode fornecer instrumentos únicos para ver e imaginar nossa história. Um dos personagens principais é o mulato Antônio Soares. Ele é próximo de Zumbi. Há também o Ganga-Zumba, líder mais antigo de Palmares, Ganga-Zona, irmão de Zumba, Acotirene, Andala, os paulistas Domingos Jorge Velho, André Furtado. A história aborda o contexto de escravidão, as entradas contra os vários mocambos de Palmares, a tentativa de acordo de paz com Ganga-Zumba e o poder colonial, e a guerra final contra Palmares.

Este trabalho tem alguma similaridade com Cumbe. São 11 capítulos ao todo mais o posfácio. Gosto de imaginar que cada parte funciona bem isoladamente, mas eles formam uma grande narrativa no conjunto. Por outro lado, há personagens importantes que atravessam quase todos os capítulos e a narrativa tem mais a forma de um romance do que Cumbe.

Quais técnicas de ilustração você utilizou? Houve algum tipo de material específico que predominou enquanto você produzia o quadrinho?

Usei caneta nanquim e pincel com nanquim. Não usei tinta acrílica para as manchas, que era algo comum nos trabalhos anteriores. Nesses anos todos de processo, precisei rever muitas vezes o desenho, pois ele acabou mudando um bocado.

Você trabalhou com um roteiro? Houve alguma dinâmica específica de criação dos textos e da arte?

Em geral, elaboro um roteiro para começar a desenvolver a HQ. Contudo, a narrativa vai se desenvolvendo e procuro aproveitar as ideias que surgem no caminho. Muita coisa nova surge nesse processo. Em Angola Janga, aliás, muitos dos personagens foram surgindo de modo muito orgânico.

O seu trabalho é muito conhecido pela ambientação urbana e dessa vez, assim como em Cumbe, você sai desse contexto. É mais desafiador pra você trabalhar em uma HQ de época, fora dessa ambientação urbana?

Foi muito difícil, para mim, fazer essa transição. Em Cumbe, algumas páginas cheguei a fazer mais de 5 tratamentos até chegar em algo aceitável. Em Angola Janga, foram menos tratamentos, pois já havia desenvolvido mais familiaridade com o contexto. Por outro lado, foi um aprendizado imenso.

Vi definições do Cumbe como uma coletânea de histórias de resistência no Brasil colonial. O Angola Janga vai por esse mesmo caminho?

Palmares foi um evento incrível para o Brasil e para a América como um todo. Era um local onde milhares de negros e negras buscavam autonomia sobre suas vidas, fora do sistema colonial. Um conjunto de diversos mocambos, na Serra da Barriga, extremamente articulados e implicados entre si. Lá eles cultivavam seus alimentos, criavam aves e porcos, chegaram a ter até locais de forja de metais. Isso, por si só, já é uma forma de resistência enorme quanto ao poder colonial, escravocrata e genocida. Eu penso Angola Janga, do quimbundo “pequena Angola”, como uma extensão de Cumbe. Aliás, de certo modo, o contrário é o correto. Embora tenha sido publicado antes, Cumbe surgiu das pesquisas sobre Angola Janga. Os dois livros têm muito em comum.

Qual você considera ser a importância de tratar de resistência e luta em tempos tão nefastos de conservadorismo aflorado e repressão a minorias como estamos vivendo no Brasil – e no mundo?

Essa onda conservadora (e perda de direitos de muitos grupos) é contra o diálogo e qualquer interpretação diferente dos fatos e do modo de ver as coisas. Precisamos criar pontes e favorecer o diálogo. Há várias formas de tentar resistir a isso, mas não podemos esquecer de dialogar quando possível. E a resistência é imprescindível hoje.

– Parte 2 –

Você conta no fim do livro que um dos objetivos do quadrinho é “conduzir a narrativa a partir do olhar dos palmaristas”. Estamos muito viciados em ouvir e ler a nossa história sempre a partir da perspectiva dos dominantes. Qual você acredita ser a importância de ouvir e ler esse outro lado da história?

Nossa história conta com a presença e luta de grupos negros, populares e indígenas. De formas diferentes, eles se opuseram ou negociaram, quando possível, com um modelo colonial baseado em forte hierarquia social. Conhecemos a perspectiva das elites sobre isso, mas a história pela ótica dos oprimidos ainda é pouco evidente. Explorar esse universo pode ser significativo para a realidade atual. Não apenas para conhecer esses fatos, mas também para gerar novas formas de compreender a sociedade hoje. No Brasil, temos uma subcidadania praticada e reafirmada cotidianamente. O poder permanece na mão de poucos. Isso só é possível a partir de estruturas de poder e discriminação eficientes que permanecem desde o período colonial.

Você ressalta o papel significativo da ficção nesse empenho de narrar a perspectiva dos palmaristas. Ainda assim, mesmo sendo uma ficção, você vê potencial didático no trabalho que produziu?

Em Angola Janga a ficção tem um papel fundamental. Considero que ela é essencial para contar, com a força que espero, uma narrativa como a de Palmares. Os fatos históricos ainda são pouco acessíveis a grande parte da população. Neste sentido, a ficção e os quadrinhos podem tecer pontes interessantes para quem deseja conhecer mais. Se isso pode ser usado para fins didáticos, outras pessoas poderão dizer. Cumbe obteve uma boa aceitação nesse universo. Ele foi indicado para leitura em escolas de Portugal e distribuído em bibliotecas de São Paulo. Angola Janga pode ter uma trajetória semelhante.

No seu texto no final do livro você também fala da necessidade de administrar ficção e realidade e de suas decisões voltadas para tornar a narrativa mais concisa e interessante. Você poderia, por favor, falar mais sobre essa dinâmica de administrar essa relação entre fatos e ficção?

Angola Janga é uma ficção que dialoga com fatos históricos. Procurei usar a ficção e os quadrinhos da maneira mais eficaz para esse fim. A história dos mocambos de Palmares é enorme e eu precisava ser conciso ao contá-la. Tentei evitar dados desnecessários, repetitivos etc. Se pudesse e tivesse mais tempo, ainda acrescentaria mais capítulos, mas penso que o livro já tem uma boa extensão como está. O personagem Antônio Soares, por exemplo, surge na história conhecida de Palmares apenas como um dos últimos malungos ao lado de Zumbi na Serra dois Irmãos, em Viçosa, Alagoas. Ao fazer a trama, ele me pareceu o personagem ideal para acompanhar a maior parte da história.

Um tema que considerei muito constante no quadrinho tá sintetizado em uma fala que diz “o futuro é mais do que disputa entre nós”. Você considera uma constante história essa estratégia dos opressores de colocar os oprimidos uns contra os outros?

Não saberia dizer se é uma constante. Mas, certamente, isso ocorreu em nossa história. A estratégia portuguesa utilizou esse dispositivo contra indígenas e africanos. Não apenas os portugueses fizeram isso, mas holandeses, espanhóis, franceses etc. Principalmente no período colonial, além das divisões provocadas pelos colonizadores entre diferentes etnias e povos, os grupos negros armados contra outros exércitos foram os primeiros também a serem traídos. Como exemplo, basta lembrar dos lanceiros negros no sul.

Me chamou muita atenção no livro como você trabalha com elementos icônicos e simbolismos no livro. O capítulo 4, Cicatrizes, é repleto desses símbolos e no glossário do livro você explica o significado de alguns deles. Como foi o trabalho de chegar nesses ícones e incluí-los na trama?

Este foi um processo longo e demorado. Meu jeito de contar é com pouco texto. Não queria fazer Palmares de uma maneira muito diferente disso. A narrativa precisava ser contada de modo significativo em termos de imagem. Desconhecemos absurdamente as culturas de origem banto que formaram nosso país, seus conceitos, modo de ver as coisas e símbolos. Por esse motivo, além de autores nacionais, precisei recorrer a estudiosos africanos. Isso me ajudou a conhecer e compreender alguns símbolos. O povo tchokwe, do nordeste de Angola, por exemplo, tem um rico universo de desenhos chamados sona. São antigos desenhos feitos na areia, cheios de mensagens e significados. Além deles, tem os adinkra, de origem ashanti, do centro-oeste africano. Bem, tentei inseri-los na trama de maneira apropriada, condensando ideias, momentos e sentimentos.

Nesse quarto capítulo eu também acho muito interessante um trabalho de você faz que parece o zoom de uma câmera. Você foca em elementos muito específicos, depois vai abrindo o plano e em seguida dá o zoom outra vez. Você pode comentar, por favor, o uso dessa técnica?

Esse é um recurso usado por diversos autores. Talvez seja uma influência do cinema também. Tenho dificuldade em pensar a construção da página de quadrinhos de outro modo. Considero monótono trabalhar com o personagem em plano inteiro. Muitas vezes, num quadro, ideias podem ser sintetizadas a partir do foco em objetos ou pequenas ações. Por outro lado, é preciso abrir o plano para situar melhor a ação e fornecer mais elementos ao leitor. Gosto de usar esses recursos ao construir as páginas.

O sétimo capítulo, Selvagens, é focado principalmente nos bandeirantes. Há uma citação no livro que define os bandeirantes como “uma tropa de choque a serviço do colonialismo português” e essa interpretação tem se fortalecido ao longo dos últimos anos – os protestos constantes feitos no Monumento às Bandeiras em frente ao Parque do Ibirapuera são um bom exemplo disso. Qual você acredita ser a importância de revisitar, questionar e reinterpretar a história como é contada nas escolas?

Monumentos são utilizados para marcar o tempo, o espaço e configurar um modo de ver a história de um grupo. Hoje, os bandeirantes não sintetizam mais uma narrativa nacional significativa para grande parte da população. Eles foram parte responsável pela matança e extermínio de muitos povos indígenas. Precisamos construir uma leitura mais complexa desses monumentos hoje. Um monumento não precisa ser permanente. Ele pode ser retirado, alterado, como já aconteceu em muitos locais. Em todo caso, algo que precisamos muito, imagino, é ter espaço para outros monumentos, evidenciando outros lados da história. Em São Paulo, por exemplo, os monumentos que mostram a história da população negra são pouquíssimos. Com certeza, grande parte das pessoas não consegue nem ao menos citar um deles.

Qual a maior lição que você teve enquanto produzia esse livro? Houve alguma interpretação ou perspectiva sua em particular que mudou profundamente enquanto pesquisava e criava a HQ?

Muita coisa mudou nesses últimos 11 anos, desde quando fiz o primeiro roteiro para Angola Janga. Alterou o meu modo de compreender o passado e também o presente, em especial sobre os antigos e novos mocambos. Os remanescentes de quilombos atuais, com suas diferentes origens, ainda resistem e atestam a violência de nossa história. Ainda hoje, essas pessoas estão sistematicamente ameaçadas por fazendeiros, empreendimentos milionários etc. De certo modo, isso remete a ausência de reforma agrária desde o pós-abolição. Um elemento a mais que agrava brutalmente o desnível social em que vivemos. Neste ano, os conflitos envolvendo terras aumentaram e tendem a aumentar ainda mais devido aos interesses dos grupos mais poderosos e a falta de uma legislação contra essas ameaças.

AngolaJanagaCapa

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3ª (21/11) é dia de lançamento de Angola Janga e bate-papo com Marcelo D’Salete e André Toral em SP

Vou mediar uma conversa com os quadrinistas Marcelo D’Salete e André Toral em mais um evento de lançamento do excelente Angola Janga – Uma História de Palmares. O papo rola amanhã (21/11), a partir das 19h, na Geek do Conjunto Nacional aqui em São Paulo. Quem foi ao lançamento na Ugra viu o quanto o D’Salete tem a dizer sobre as reflexões feitas por ele enquanto produzia o álbum. E a presença do André Toral, autor de Holandeses, amplia bastante o debate sobre as pesquisas de ambos para a criação de seus títulos mais recentes. E aí, vamos? Suspeito que vai lotar, viu? Chegue cedo! Mais informações lá na página do evento no Facebook.

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Rogério de Campos, editor da Veneta: “Precisamos defender como pudermos as livrarias especializadas”

A chegada do épico Angola Janga – Uma História de Palmares, de Marcelo D’Salete, às livrarias estimulou o editor da obra, Rogério de Campos a refletir sobre os 11 anos de produção do álbum e algumas mudanças ocorridas na cena brasileira de quadrinhos durante o período. O texto a seguir, publicado com exclusividade pelo Vitralizado, trata principalmente dos tempos turbulentos vividos por artistas e lojas especializadas em um contexto de crise econômica e conservadorismo aflorado:

“Angola Janga, o novo livro de Marcelo D’Salete, é provavelmente o maior romance em quadrinhos já publicado por um brasileiro. São 432 páginas de uma saga a respeito dos últimos dias do quilombo dos Palmares. Ao mesmo tempo que a Veneta lança o Angola Janga no Brasil, a Fantagraphics, a mais respeitada editora de quadrinhos dos Estados Unidos, está lançando Run For it, a versão norte-americana do livro Cumbe, também do D’Salete. As primeiras resenhas que já recebeu lá são entusiasmantes: o The Huffington Post publicou um longo artigo muito elogioso, a Publishers Weekly colocou o livro como um dos principais lançamentos da temporada e a resenha no A. V. Club termina dizendo: “Run For It é certamente um dos mais belos quadrinhos do ano, mas não é apenas uma maravilha de se ver: D’Salete usa suas imagens poderosas para sensibilizar e informar o leitor. É um feito incrível em forma de história em quadrinhos”.

Ao longo deste ano, foi uma experiência muito especial acompanhar como editor a finalização do Angola Janga e ver a vitória do D’Salete depois dos 11 anos de trabalho que o livro tomou.

É também uma vitória dos quadrinhos autorais brasileiros como um todo. Daqueles que criaram o ambiente onde foi possível gerar obras como Cumbe e Angola Janga. Em primeiro lugar de artistas como a Laerte, o Allan Sieber, o Lourenço Mutarelli, o Rafael Coutinho, o Marcello Quintanilha e tantos outros que fizeram muito mais do que trabalhar em seus quadrinhos. Deram o exemplo, agitaram a cena, divulgaram outros autores. O Quintanilha, por exemplo, não apenas abriu portas para quadrinistas brasileiros com seu prêmio Angoulême e o sucesso de Tungstênio e Talco de Vidro: foi desde o início um entusiasmado divulgador do Cumbe na Europa. Não é coincidência que a editora francesa do D’Salete seja a mesma do Quintanilha.

A atual cena brasileira é resultado do esforço dos artistas; de editores como o Claudio Martini (Zarabatana), que seguiram publicando quadrinhos autorais mesmo em momentos bem difíceis da economia; dos fanzines, blogs e da porção da imprensa especializada que fez mais do que vestir a camiseta da Marvel; dos organizadores dos eventos – como o FIQ, a Bienal de Curitiba, as Jornadas Internacionais de Quadrinhos, os Encontros Lady’s Comics – que não são apenas festas de consumo, mas momentos para apresentação de novos autores e troca de ideias a respeito de como viabilizar a produção e divulgação dos quadrinhos não industriais; dos cúmplices dentro de secretarias de cultura e entidades diversas que deram um jeito de enfiar os quadrinhos nas programações. É um esforço até internacional, porque envolve também editores, agentes, tradutores e jornalistas gringos.

O principal elemento da base econômica desse boom foi o investimento governamental em programas de compras de livro para bibliotecas, subsídios para edições, subsídio para traduções de livros brasileiros no exterior, promoção de eventos e tal. O PNBE (Programa Nacional Biblioteca na Escola), principalmente, teve um papel chave nesse boom. O outro elemento fundamental para a euforia na área dos quadrinhos foi, é claro, o crescimento do mercado interno brasileiro nos anos do lulismo. Esses dois elementos estão em frangalhos depois do bombardeio das “políticas de austeridade” impostas de maneira vacilante pelo governo Dilma e de maneira feroz pelo governo golpista.

“Políticas de austeridade”, reforma trabalhista, reforma da Previdência, cortes na Educação, Cultura e Saúde, liberação do trabalho escravo… tudo isso pode ser bom para latifundiários que exportam commodities (diminui o custo da mão de obra) e certamente é ótimo para os bancos, que ficam com um naco ainda maior do dinheiro do Estado. Mas é péssimo para o povo e, portanto, péssimo para quem vive de vender seus produtos para o povo. Como as livrarias.

A livraria em que a Veneta fez o lançamento do Cumbe, em 2014, não existe mais. Ficava na Vila Madalena, era especializada em quadrinhos e certamente uma das livrarias mais bonitas da cidade. Chamava-se Monkix. Seus donos, os irmãos Antonio e Marcelo Bicarato, queriam fazer do lugar uma referência do quadrinho autoral brasileiro. A Monkix fechou no início deste ano. Não foi a única loja especializada que fechou depois do Golpe. Várias outras fecharam.

A Monkix não apenas vendia quadrinhos. À maneira do que fazem a maior parte das livrarias especializadas, a Monkix fazia a divulgação dos quadrinhos nas suas redes sociais, promovia lançamentos, montava bancas em eventos, abria seu espaço para debates etc. E colocava em destaque, no balcão central, quadrinhos independentes que muitas vezes nem tinham como entrar nas grandes livrarias. É por tudo isso que as especializadas são agentes essenciais para a evolução dos quadrinhos no Brasil. Nomes de livreiros como o Jorge Rodrigues (Comix) ou a Mitie Taketani (Itiban) ou o Manassés Filho (Comic House) ou o Octávio da Costa (Gibiteria) ou os Utescher (Ugra) não estão nas capas dos gibis, nem nos créditos das graphic novels. Mas são pessoas essenciais para os quadrinhos brasileiros terem chegado onde chegaram. Como dono de editora, meu interesse muitas vezes é oposto ao deles. Brigamos de tempos em tempos por causa das condições de venda, por exemplo. Mas nunca perco de vista que a saúde da minha editora no longo prazo depende muito da saúde destas livrarias pequenas, especializadas.

Sei que algumas editoras, diante do trabalho que dá cuidar do Comercial, do controle de consignações, das emissões de notas, da logística (vender custa e muito), decidem simplificar e simplesmente vender seus livros em seu site, ou exclusivamente através de apenas uma grande livraria. Entendo, é mais fácil, cada um é cada um, mas eu acho que isso é um tiro no pé.

Vejo também que vários autores de livros criados com financiamento coletivo ou subsidiados pelo PROAC nem tentam fazer a distribuição em livrarias. Ouço falar de salas e garagens onde mofam caixas com centenas de livros que, afinal de contas, foram financiados com dinheiro público. Sei que, no caso do Proac, tem a cota que vai para a Secretaria para ser distribuída para as bibliotecas. Ótimo! Muito bom! Mas são as livrarias o ponto de encontro dos quadrinhos. Sem passar por elas, é muito grande a probabilidade do livro se tornar estéril, não ser conhecido por outros quadrinistas, não gerar outras obras. Se não quer passar pela chateação de aguentar editor interferindo na obra, se tem a certeza que pode fazer a divulgação sozinho, ótimo! Mas, por favor, arrume um jeito de dar a chance a seu livro de encontrar seu público, essa é uma responsabilidade social de autor.

Enfim, não dá para esperar: Fora Temer! Já! E leva junto o Henrique Meirelles!

Mas além daquilo que, como cidadãs e cidadãos, podemos fazer contra o Golpe, nós que temos interesse na sobrevivência dos quadrinhos brasileiros precisamos defender como pudermos as livrarias especializadas. Elas são nossos quilombos.”

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3ª (14/11) é dia de lançamento de Angola Janga – Uma História de Palmares e bate-papo com Marcelo D’Salete na Ugra

Ó, anota aí, programão pra amanhã (3ª, 14/11): o Marcelo D’Salete lança o aguardado Angola Janga – Uma História de Palmares na loja da Ugra aqui em São Paulo. A partir das 18h, antes da sessão de autógrafos, eu estarei por lá junto com o Lielson Zeni pra conversar com o quadrinista sobre as origens do projeto e a produção do quadrinho. Já comentei por aqui como considero esse álbum novo do autor de Cumbe e Encruzilhada a HQ brasileira mais importante publicada no país em 2017 e acho essa uma tremenda oportunidade pra ouvir ao vivo o que ele tem a dizer sobre o livro. De prévia, recomendo a minha matéria pro UOL sobre a HQ.

Mesa de Dissecação: Marcelo D’Salete + lançamento Angola Janga
Quando: 3ª, 14 de novembro, a partir das 18h.
Onde: Ugra (Rua Augusta, 1371, loja 116, Galeria Ouro Velho).
Página do evento no Facebook.
Grátis.

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A capa de Diastrofismo Humano, próximo álbum da série Love & Rockets que será lançado no Brasil

O pessoal da editora Veneta acabou de divulgar a capa do próximo álbum da série Love and Rockets lançado em português. Diastrofismo Humano é provavelmente o trabalho mais aclamado de Gilbert Hernandez e tá previsto para chegar às livrarias a partir da segunda quinzena de novembro. Massa hein? Tô com o pé atrás em relação à capa, assim como não gostei muito da capa de Sopa de Lágrimas lançada no ano passado, mas espero ver ao vivo pra dar o meu veredito. De qualquer forma, com certeza uma das grandes obras publicadas no Brasil em 2017. Ó a sinopse divulgada pela editora:

“Um serial killer ataca a plácida Palomar. E os crimes dele, ainda que tão terríveis, são apenas mais uma das facetas da modernidade que começa a rachar a tranquilidade da pequena cidade centro-americana. Aquele mundo ensolarado começa a sentir a sutil aproximação de nuvens angustiantes. As verdades se revelam e elementos do passado retornam para assombrar os vivos”

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A capa de Angola Janga – Uma História de Palmares a nova HQ de Marcelo D’Salete

Você provavelmente já viu por aí, mas acho importante o registro: taí a capa de Angola Janga – Uma História de Palmares, o tão aguardado álbum de Marcelo D’Salete, primeiro em seguida ao aclamado Cumbe. É com certeza um dos quadrinhos brasileiros mais esperados de 2017 e uma das minhas principais apostas para muitas listas de melhores HQs do ano. São 432 páginas em preto e branco, produzidas ao longo de 11 anos pelo autor. Saca a sinopse divulgada pela editora Veneta:

“Angola Janga, “pequena Angola” ou, como dizem os livros de história, Palmares. Por mais de cem anos, foi como um reino africano dentro da América do Sul. E, apesar do nome, não tão pequeno: Macaco, a capital de Angola Janga, tinha uma população equivalente a das maiores cidades brasileiras da época.

Formada no fim do século XVI, em Pernambuco, a partir dos mocambos criados por fugitivos da escravidão, Angola Janga cresceu, organizou-se e resistiu aos ataques dos militares holandeses e das forças coloniais portuguesas. Tornou-se o grande alvo do ódio dos colonizadores e um símbolo de liberdade para os escravizados. Seu maior líder, Zumbi, virou lenda e inspirou a criação do Dia da Consciência Negra.

Durante onze anos, Marcelo D’Salete, autor de Encruzilhada e do sucesso internacional Cumbe, pesquisou e preparou-se para contar a história dessa rebelião que tornou-se nação, referência maior da luta contra a opressão e o racismo no Brasil. O resultado é um épico no qual o destino do país é decidido em batalhas sangrentas, mas que demonstra a delicada flexibilidade da resistência às derrotas.

Um grandioso romance histórico em quadrinhos que fala de Zumbi, e de vários outros personagens complexos como Ganga Zumba, Domingos Jorge Velho, Ganga Zona e diversos homens e mulheres que compõe o retrato de um momento definidor do Brasil.”

Entrevistas / HQ

Papo com Nick Sousanis, o autor de Desaplanar: “O que mais me estimula nas HQs é a capacidade de reunir num único formato os aspectos sequenciais e simultâneos da consciência”

Poucas HQs geraram tanta repercussão fora do universo dos quadrinhos nos últimos anos quanto Desaplanar de Nick Sousanis. Como você provavelmente já ouviu falar por aí, o álbum é a primeira tese de doutorado da Universidade de Columbia apresentada em formato de história em quadrinhos, questionando a primazia da palavra escrita e defendendo a simbiose entre texto e imagem – sendo a linguagem das HQs a suposta representação perfeita dessa união. Recomendo o meu texto pra Folha de São Paulo sobre o gibi publicado por aqui pela Veneta.

Aproveito a vinda de Sousanis ao Brasil nos próximos dias para reproduzir a íntegra da nossa conversa. O autor é um dos convidados da 4ª edição das Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos da USP, iniciadas hoje, e também irá participar de um bate-papo no Istituto Europeo di Design (IED) de São Paulo na próxima quinta-feira (24/8). A seguir, a minha entrevista com o quadrinista:

“Os quadrinhos não só nos permitem respirar tanto no mundo das imagens quanto no dos textos como nos possibilitam ter experiências de simultaneidade e sequencialidade, o que lhes dá enorme poder diante de narrativas complexas ou para explorar ideias a fundo”

Você se lembra do momento em que teve a ideia de criar Desaplanar?

É difícil dizer se houve um momento em particular. O que posso dizer é: quando decidi voltar aos estudos e trabalhar no meu doutorado, eu sabia que queria fazer meu trabalho sobre quadrinhos. Eu havia retornado a fazer quadrinhos alguns anos antes (publiquei o meu próprio quadrinho durante o ensino médio) e estava muito empolgado com o potencial educacional do que eu estava fazendo – me permitia combinar o meu amor pela produção com o meu interesse em educação. Os meus pensamentos iniciais ao entrar no programa de doutorado eram de produzir um quadrinho como tese sobre algum tópico educacional – possivelmente física, já que o meu pai era um professor de física (e eu costumava fazer desenhos do Batman que ele utilizava para ilustrar problemas para suas aulas) e eu achava que um livro no formato de quadrinhos funcionaria bem. Quando entrei no programa, percebi que o que eu estava tentando fazer era mais radical do que eu esperava (com o sucesso de coisas como Maus, Desvendando os Quadrinhos, Watchmen, Fun Home, etc – eu presumi que o debate em relação à presença de quadrinhos na academia já havia sido superado. Ainda não foi.). Então enquanto eu estava desenvolvendo o trabalho, ele começou a mudar e se tornar muito mais sobre o próprio projeto. Parte disso veio das minhas conferências sobre o uso de quadrinhos na academia e comecei a fazer quadrinhos sobre coisas que explorava nas minhas palestras. O meu trabalho, mesmo as semi-paródias de quadrinhos de super-heróis que fazia quando criança, sempre teve como base meta-comentários, então não é tão surpreendente assim que esse tenha sido o caminho que eu segui.

No meu primeiro semestre no programa de doutorado (eu não consigo contar direito essa história de forma linear), o meu orientador, professor Ruth Vinz, nos mandou estudar algum pesquisador que respeitássemos e que lêssemos tudo que ele tivesse feito para que aprendessemos a partir da perspectiva particular dessas pessoas em relação a pesquisa. Eu escolhi o Alan Moore (o que funcionou, mas acabou sendo uma escolha pouco ortodoxa, para dizer o mínimo em uma classe de pesquisadores de educação) e apesar de eu já ser muito bem versado nos seus trabalhos, eu reli e sintetizei tudo o que poderia sobre ele – e também me aprofundei em teorias sobre quadrinhos de maneira geral. Ao longo desse processo eu comecei a pensar na forma como a página estática e plana [‘flat’, em inglês] de um quadrinho poderia conter mais informações do que parecia possível –a meu ver, mais do que um texto conseguiria. De alguma forma, a página estava ‘desaplanando’ [‘unflattening’, em inglês] para mim. O termo ficou na minha cabeça. Ao mesmo tempo, o meu programa de doutorado era em estudos interdisciplinares em educação (antes eu fiz um mestrado em estudos interdisciplinares em matemática e arte, então isso fazia sentido para mim). Eu estava muito interessado na necessidade de perspectivas multidisciplinares. Eu utilizei a metáfora do parallax para um quadrinho curto que fiz sobre a produção da pesquisa e me referi a isso como ‘desaplanar’. Ao mesmo tempo, estavau estudando em uma faculdade de educação – muito preocupada com o que está acontecendo com os sistemas de avaliação de instituições americanas de educação e muito interessada em formas de educação que fujam à norma. Eu queria falar sobre a incorporação de disciplinas múltiplas – e muito importante, formas múltiplas de trabalho. Foi aí que a ideia de ‘Desplanar’ ficou muito mais política, por eu estar buscando reverter preconceitos relacionados ao uso de ferramentas visuais para estimular o pensamento. Então eu passei a difundir não apenas os quadrinhos como uma forma legítima de discurso acadêmico, mas também a ideia mais ampla de que devemos questionar o predomínio da palavra escrita e começar a apresentar novas possibilidades. Então isso tudo, pra fechar o ciclo, passou a ser o argumento para a sua própria existência, assim como para outras coisas semelhantes. O termo ‘desaplanar’ ganhou uma multiplicidade de significados relacionados a educação, interdisciplinaridade e interação imagem-texto, bem como significados ligados ao ponto de partida: quadrinhos são legais. Foi definitivamente mais uma emersão orgânica ao longo do tempo do que um único momento!

Desaplanar

Como foi a produção do livro? Você trabalhou com um roteiro? Quanto tempo você demorou para terminar?

Não houve um roteiro. Sempre me perguntam: ‘você escreveu primeiro as palavras ou começou pelos desenhos?’ E eu respondo: ‘sim’. É basicamente aquele ponto do trabalho em que imagens e texto juntos permitem que você entenda as coisas de forma que não é possível com apenas um deles – tudo diz respeito a múltiplas perspectivas. O trabalho surge dos meus rascunhos. Eu tenho ideias que tenho curiosidade de explorar, para compreender melhor para mim, para compartilhar – e eu crio mapas de esboços e enquanto trabalho com eles aprendo qual é o meu caminho. (Muitos dos meus mapas de esboços são reproduzidos no final de ‘Desaplanar’ e compartilhei muitos outros no meu site, www.spinweaveandcut.com). Posso dizer com certeza que se eu tivesse escrito primeiro um roteiro e depois tentado ilustrar, seria um projeto diferente e teria ido a um caminho completamente distinto. Muito do livro tomou aquela forma por eu ver coisas nos meus rascunhos que despertavam uma ideia e me indicavam para outras pesquisas. Eu nunca tentei ‘fazer caber’ um desenho em alguma coisa que eu tivesse escrito. Disto isto, palavras com certeza têm um papel fundamental. Os meus esboços são repletos de palavras, e palavras são um gatilho para desenhos, assim como desenhos sugerem palavras que os acompanhem. Apesar de não haver um roteiro, havia uma espécie de sinopse. A verdadeira sinopse (também presente no final do livro) foi rabiscada em duas largas folhas de papel jornal após um noite sem sono na qual eu finalmente encontrei uma forma de organizar todas as ideais com as quais eu estava trabalhando em uma sequência coerente. Mas ao mesmo tempo, eu mantinha as minhas notas em um documento de Word – citações, referências, notas para mim, diálogos e mesmo descrições de imagens e cenas. Eu digitava isso tudo e ia desenhar a partir dessas ideias junto com os meus mapas de esboços. A utilidade das palavras é que elas são facilmente adaptáveis e, talvez ainda mais importante, fáceis de encontrar. No final eu tinha quase 100 páginas de papel jornal e quatro cadernos em aspiral repletos de rascunhos e ideias. Ao digitar isso tudo eu assegurei que não perderia rumo das coisas que queria incluir mesmo que eu não pudesse as encontrar imediatamente no meio de tudo isso!

Esse foi o processo para o livro, mas acabou sendo mais ou menos a mesma coisa para cada uma das páginas. Uma vez que eu transformava um capítulo em esboço, eu pegava cada uma das páginas (ou ocasionalmente uma sequência interligada de páginas) e começava a rabiscar o que eu poderia fazer ali.

“Eu realmente não quis definir ‘unflattening’, pelo menos não com mais palavras. Em todo o meu trabalho, pelo uso de metáforas, tento criar coisas que possam ser lidas de formas diferentes dependendo de quem estiver lendo”

O fato de eu não usar um narrador visível, de não ter um personagem recorrente (com exceção dos flutuantes anônimos do primeiro capítulo) e nenhuma história, significava que eu precisava resolver o que fazer em cada página – das metáforas que eu utilizava às formas como eu organizava a leitura. E essa solução só vem a partir dos desenhos e da minha imersão, de tentar coisas diferentes e confiar que isso vai me conduzir a algum lugar interessante. Constantemente isso significava retornar aos livros para pesquisar mais ou algo novo incitado pelos meus desenhos e que fará algum diálogo com o que eu já estava trabalhando.

Em relação ao tempo… Essas são coisas difíceis de dizer. Do primeiro esboço oficial que eu criei ao final foram quase três anos. Se é da primeira página que eu realmente desenhei, foram quase dois anos e meio. Eu já estava trabalhando em muitas dessas ideias no meu primeiro ano na faculdade e várias delas muito antes disso – coisas como aquelas figuras planando vieram de um painel que eu fiz em Detroit quase uma década antes.

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Eu gosto do título do livro em português. ‘Desaplanar’ é quase literal em relação ao original e também não está presente no nosso dicionário. Acho engraçado como a palavra ‘Unflattening’ pode ter várias interpretações mesmo não tendo nenhum sentido em particular. Foi muito importante para você chegar ao título do quadrinho? Em algum momento você cogitou como poderia ser desafiador traduzir esse título para outras línguas?

Ah! Até agora eu não sabia o significado de ‘desaplanar’! E o Google Translate aparentemente me explicou errado, como um amigo brasileiro me explicou. Se eu estou entendendo corretamente a tradução dele, acho que tem o sentido certo. E sim, ‘unflattening’ não é bem uma palavra em inglês. É aparetentemente utilizada para se referir a algo em codificação computacional (como eu vim a descobrir apenas depois da publicação de ‘Unflattening’), mas não é algo que consta em dicionários. Eu ofereço uma espécie de definição no início do livro, mas a palavra só aparece lá, é introduzida na página seguinte e uma terceira vez logo no fim. Eu realmente não quis definir ‘unflattening’, pelo menos não com mais palavras. Em todo o meu trabalho, pelo uso de metáforas, tento criar coisas que possam ser lidas de formas diferentes dependendo de quem estiver lendo. Eu queria que ‘Unflattening’ tivesse essa espécie de significado variável também – é algo diferente para cada leitor. Eu prefiro que você sinta o que é ao invés de conseguir articular com palavras. Isso também constitui o argumento do livro – certas coisas vão além do que palavras conseguem expressar e até podem soar irracionais, mas, parafraseando a filósofa Susanne Langer, elas apenas não cabem na estrutura da linguagem.

Eu não pensava como ‘Unflattening’ seria traduzido até acabar sendo traduzido. Eu tive algumas idas e vindas com o editor francês em relação a isso, com a ajuda da minha esposa e de alguns amigos fluentes em francês (algo que não sou). A escolha deles ‘Le Déploiement’ é, se eu entendi corretamente, bastante diferente da forma como o título será publicado no brasil. Não sei como isso afeta o leitor. Os editores coreanos deixaram em inglês. E ainda não tenho certeza do significado em sérvio. É muito importante para mim que a palavra – seja lá qual for a tradução – reproduza esse mesmo sentimentos de ação e continuidade. É por isso que corrijo rapidamente todas as pessoas que referem ao título em inglês como ‘Unflattened’. É exatamente o conceito errado! Implica algo que esteja finalizado, para o que já sabemos todas as respostas. Eu quero o verbo no gerúndio em inglês indique algo que está em processo, inacabado (e interminável), nos deixe mais com questões do que respostas definitivas. Isso está mais alinhado com a tradição americana e pragmática do Dewey e do James – e seus trabalhos lidam de forma internsa com o que eu acredito ser o significado de ‘Unflattening’. E talvez o livro seja um esforço meu para compreender esse único termo e abordá-lo em suas mais diferentes direções possíveis. Unflattening não é o somatório de todo o livro, é a questão que divide o livro.

Um dos principais focos do livro está na relação entre imagens e texto e é difícil imaginar muitas linguagens tão dependentes dessa relação quanto as histórias em quadrinhos. Há muitas definições para o que é um quadrinho, mas eu gostaria de saber o que são quadrinhos para você. Você tem algum definição em particular?

Muito do que eu acredito que quadrinhos sejam vem das minhas aulas sobre quadrinhos e da produção desse livro. Eu certamente fui muito influenciado pelo que o Scott McCloud produziu no seminal Entendendo os Quadrinhos e que continua a ser verdade ainda nos dias de hoje. A definição dele realmente abriu as portas para se pensar que quadrinhos como alguma coisa. Em relação a definições particulares, eu fui em direções diferentes. As teorias do Thierry Groenstee em O Sistema dos Quadrinhos realmente ressoaram em relação a como me vejo fazendo quadrinhos. (E em uma reviravolta adorável, o Thierry acabou publicando a edição francesa de Unflattening). Se o McCloud enfatiza a natureza sequencial dos quadrinhos, o Groensteen aponta para a natureza interconectada da página. Costumo falar de todas essas coisas (bem como da interação palavra-desenho) como ativos dos quadrinhos. Jeitos de dizer algo nos quadrinhos que não poderia ser dito de outra forma. Como eu digo em ‘Desaplanar’, o que mais me estimula nos quadrinhos é a capacidade de reunir num único formato os aspectos sequenciais e simultâneos da consciência. Isso é o que eu enfatizo nas minhas aulas e palestras sobre quadrinhos. E isso é uma outra forma de desaplanar – e eu acho, como digo no livro, que é como percebemos as coisas nas nossas cabeças. Quero dizer, nós testemunhamos o tempo passar de forma sequencial – os ponteiros do relógio avançam, mudamos de uma atividade para outra, e assim por diante. Mas, ao mesmo tempo, os pensamentos estão sempre à deriva, acontecendo todos de uma vez. Os quadrinhos não só nos permitem respirar tanto no mundo das imagens quanto no dos textos como nos possibilitam ter experiências de simultaneidade e sequencialidade, o que lhes dá enorme poder diante de narrativas complexas ou para explorar ideias a fundo. Então, para mim, é a habilidade de capturar tanto os momentos sequenciais, mas também todos aqueles tangenciais e não-lineares e as camadas de experiência que não se adequam confortavelmente em um pedaço de papel com linhas ou em mídias baseadas na passagem do tempo, mas que conseguem ser produzidas maravilhosamente nessa forma estática, plana e espertamente dinâmica.

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Uma definição muito popular do que é quadrinho vem do Scott McCloud, como “imagens pictóricas justapostas em sequência deliberada”. Há alguns anos o Chris Ware publicou o Building Stories, uma publicação sem leitura deliberada pelo autor e com 87 bilhões, 178 milhões, 291 mil e 200 diferentes possibilidades de leitura. Você acha importante experimentar e oferecer novas possibilidades para os seus leitores em relação a como quadrinhos podem ser compreendidos?

Ah! Eu deveria ter lido antes as suas perguntas! Como eu mencionei a definição do McCloud sobre quadrinhos anteriormente eu tinha começado a escrever alguma coisa sobre as ideias do Ware sobre memórias e quadrinhos – e acabei deixando de fora. E caramba, eu nunca tinha visto alguém calcular o número de possibilidades de leitura de Building Stories! Para a sua pergunta, é importante para mim. Como disse anteriormente, eu não tenho personagens ou uma história, então cada página eu estou tentando dar forma à ideia que quero passar – quais metáforas usar, o que aquilo se parece e como conduzo o leitor por isso? Isso significa, pelo menos para esse projeto, que nenhuma das minhas páginas repetiria a estrutura de outra. Cada layout do livro é diferente. Isso começou um pouco por acidente. A minha esposa passava por onde eu estava desenhando, via uma nova página e dizia, ‘Eu não tinha visto essa antes’. Alguns dias depois ela volta e dizia a mesma coisa e em algum momento eu decidi que não repetiria nenhuma composição no livro. (Há uma sequência no segundo interlúdio que é deliberadamente repetida como uma forma de mostrar repetição, mas a cada repetição começa a desconstruir essa estrutura até que ela deixa de existir por completo). Eu amo o que o Ware está fazendo com o formato e tive uma ótima experiência explorando formatos e histórias diferentes com os meus alunos. Eu acredito que enquanto gosto de experimentar em cada página, provavelmente também sou um pouco conservador em termos de formato. Gosto de fazer coisas que possa segurar nas mãos, passar as páginas e ler como eu fazia quando tinha cinco anos. Mas se a ideia pedisse uma variação de formato eu teria seguido até ver onde ela me levaria. Eu tive alunos que construíram alguns quadrinhos maravilhosos em três dimensões e que exploraram suas ideias de formas únicas. Eles me inspiram bastante – e eu tive essa experiência com o meu mural em Detroit que parecia outra coisa dependendo do ângulo do qual você o observava. Acho que ainda tenho tanto a aprender sobre fazer quadrinhos que posso esperar um pouco para testar os limites dos formatos tradicionais.

Eu também gosto da definição do Art Spiegelman sobre quadrinhos, como tempo no espaço. Quando penso nisso lembro de uma fala da Susan Sontag em que ela diz que “O tempo existe com o objetivo de evitar que tudo aconteça ao mesmo tempo…e o espaço existe para que tudo não aconteça com você”. Cada uma das páginas de ‘Desplanar’ possui designs muito específicos e investem em relações distintas entre o tempo e o espaço. Você reflete muito sobre essa relação entre tempo e espaço?

Outra vez, eu deveria ter lido antes as suas perguntas! Eu constantemente me refiro à ideia do Spiegelman do espaço “arquitetônico” da página e, como já falei, me preocupo o tempo com essa estrutura. Como mover alguém pela página, como as peças se encaixam e como essas mesmas constrições acabam dando forma às ideias que eu coloco na página. Para mim, trata-se realmente de fazer uso daquele espaço – as limitações de uma página que me instigam a criar novas ideias. E talvez tenha sido por isso que respondi a pergunta anterior daquela forma – eu estou tão intrigado por estar preso nessa caixa que é a página (e outras regras que determino previamente) e tento descobrir uma forma de escapar. Na página na qual me refiro à definição do Scott McCloud definição de quadrinhos, no espaço em que escrevi ‘a passagem do tempo é escrita em espaço’, eu redesenhei um calendário lunar Paleolítico – mostrando as fases da lua. Essencialmente, é a passagem do tempo desenhada em espaço. Por isso, acabo vendo calendários como espécies de quadrinhos. E eu acho (e isso é algo que espero abordar na continuação de ‘Desaplanar’) que as observações da passagem do tempo, da percepção de como as coisas mudam e de seu registro, é crítico para como nos tornamos humanos. E como eu já disse, os quadrinhos realmente nos permitem jogar com o tempo e o espaço de maneiras poderosas.

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Foi receptivo o retorno que você teve do mundo acadêmico em relação a Desplanar? Você acha importante a experimentação em relação a formatos, como você fez, nesse universo da academia?

O mundo acadêmico tem sido extremamente receptivo a Desaplanar, certamente muito mais do que eu poderia ter esperado ou antecipado. Antes mesmo de eu começar a desenhar o livro, as pessoas começaram a falar sobre o que eu estava planejando e isso resultou em um artigo no Chronicle of Higher Education e em vários olhos para o trabalho desde o começo. Acho que acabou saindo em um momento particular da história em que trabalhos acadêmicos de várias área (talvez principalmente de humanidades digitais) estão famintos por novas formas de estudos e eu estava lá. O momento também coincidiu com um crescimento imenso de interesse por quadrinhos em geral, principalmente por educadores. Tive sorte de fazer esse trabalho enquanto essas duas forças estavam em movimento, o que resultou em várias oportunidades de compartilhar meu estudo em outras universidades e conferências antes mesmo de concluir a tese e publicá-la. Eu tenho estado emocionado com universidades que escolheram o livro como leitura para seus calouros e também em suas disciplinas. Eu fiquei chocado quando Desaplanar ganhou o prêmio do American Publishers Awards for Professsional and Schorlarly Excellence de 2016 em Humanidades! É não apenas o primeiro quadrinho a vencer esse prêmio, mas o primeiro quadrinho mesmo a ter sido indicado a ele. E eu espero que abra mais uma porta na qual os quadrinhos possam entrar e não voltar a serem questionados.

“O que mais me estimula nos quadrinhos é a capacidade de reunir num único formato os aspectos sequenciais e simultâneos da consciência”

Um dos meus objetivos com esse trabalho era de que importava menos o fato de eu ser o primeiro a fazer isso do que o de não ser o último. Eu queria que esse trabalho ajudasse outras pessoas a fazer suas próprias explorações. Com certeza ajudou o fato da Columbia ter me graduado e acho que a impressão pela Harvard University Press também ajudou muito. Se você está estudando e tem uma ideia que não se parece com nada que veio antes, você passa a ter mais alguma coisa para apontar e dizer que há um precedente. Já vi isso acontecer e estou confiante que mais mudanças virão.

Também quero deixar claro que não fiz isso para que todos façam suas dissertações em histórias em quadrinhos! 🙂 Na verdade, quero que seja perfeitamente aceitável que estejam todos aptos a fazer e, mais importante, que todos os formatos que as pessoas tiverem para se fazerem compreensíveis possam ser incorporados para o trabalho, ao invés de dar com a porta na cara por alguém ter dito que não poderia ser assim. Eu gostaria de nos ver seguindo adiante em direção a um lugar no qual a qualidade do trabalho e o domínio do seu argumento e da sua forma são o que importa.

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Você está trabalhando em algum projeto novo no momento? 

Sim, um livro complementar ao Desaplanar que vai sair pela Harvard University Press também. E ah, se tenho dificuldade para falar de um livro que terminei há três anos, é ainda mais difícil falar sobre um que ainda estou desenvolvendo 🙂 Mas vou tentar. Eu acho que se Desaplanar argumentou a favor da sua própria existência, esse próximo vai tratar do aspecto mais prático das coisas. É uma lembrança de onde viemos e das criaturas curiosas e divertidas como começamos – e o motivo de ser importante continuarmos fazendo essas coisas. Desaplanar era uma tentativa de pensar como o mundo e particularmente o ensino poderia ser para a minha então não-nascida filha (ela nasceu três semanas antes de eu defender a minha dissertação). Dessa vez eu definitivamente fui afetado pela experiência de aprender com ela, assim como das minhas aulas e de querer ajudar as pessoas a reaprender a importância de fazer perguntas e a saber que são capazes de atos criativos. Eu vejo isso como algo muito mais criativo do que o primeiro e muito mais autocontido.

A última! Você pode recomendar alguma coisa que tenha lido, assistido ou ouvido recentemente?

Cara, sou terrível pra esse tipo de coisa… Eu estou lendo como um maluco agora – coisas sobre cognição, evolução humana, gestos, matemática e as origens das linguagens – tudo voltado para esse próximo trabalho, mas não tenho certeza como muito disso seria de interesse geral. Uma das minhas descobertas recentes de quadrinhos foi a graphic novel sem palavras do Marc-Antoine Matthieu. A minha filha leu e releu algumas vezes. É um quadrinho brilhante e inspirador. Nós também acabamos de ler o The Walking Man do Jiro Tamiguchi, que acabou de sair em inglês (apesar de também ser quase sem palavras) e também já esgotou. É um quadrinho poético sobre um homem andando e noticiando o mundo ao seu redor. Curioso, os dois títulos que mencionei mostram alguém andando e descobrindo coisas. Há muitos bons quadrinhos saindo agora, eu li o assustadoramente belo The Best We Could Do do Thi Bui e ele realmente fala da forma dos quadrinhos para contar histórias que precisam ser lidas. Oh, eu e minha esposa acabamos de assistir Mulher-Maravilha e adoramos!

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HQ

Estão abertas as inscrições para o bate-papo gratuito com Nick Sousanis, o autor de Desaplanar, no IED São Paulo

Estão abertas as inscrições para o bate-papo gratuito com quadrinista e pesquisador Nick Sousanis, autor de Desaplanar, no Istituto Europeo di Design (IED) de São Paulo na próxima quinta-feira (24/8), das 19h30 às 22h30. As inscrições podem ser feitas na página da instituição (clicando aqui). A conversa ainda contará com a presença do tradutor da obra, Érico Assis, e de dois professores do IED, o designer Rodrigo Silveira e o ilustrador e animador Daniel Grizante.

Se tiver interesse, recomendo ir correndo fazer a inscrição, pois as vagas são limitadas. O IED São Paulo fica no número 617 da Rua Maranhão em Higienópolis. Eu vou, vamos? Saca só a minha matéria com o autor publicada na Ilustríssima da Folha de São Paulo.

HQ / Matérias

Nick Sousanis, Desaplanar e a multiplicidade de perspectivas das histórias em quadrinhos

Fiz uma longa entrevista com o quadrinista e pesquisador Nick Sousanis sobre Desaplanar, primeira tese de doutorado publicada em formato de HQ na Universidade de Columbia. O livro saiu lá fora com o título de Unflattening e chega às livrarias brasileiras até o final do mês pela Veneta, com tradução do Érico Assis. Transformei a minha conversa com o autor em matéria, publicada na edição de ontem da Ilustríssima da Folha de São Paulo. Dos meus papos preferidos e definitivamente um dos que mais me fez pensar em relação a o que é possível se fazer com uma HQ. Sem dúvidas, um dos grandes álbuns publicados em português em 2017. Dá um pulo lá no site da Folha pra ler o meu texto.

“Testemunhamos o tempo passar de forma sequencial –os ponteiros do relógio avançam, mudamos de uma atividade para outra, e assim por diante. Mas, ao mesmo tempo, os pensamentos estão sempre à deriva, acontecendo todos de uma vez. Os quadrinhos não só nos permitem respirar tanto no mundo das imagens quanto no dos textos como nos possibilitam ter experiências de simultaneidade e sequencialidade, o que lhes dá enorme poder diante de narrativas complexas ou para explorar ideias a fundo”, Nick Sousanis

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Entrevistas / HQ

Papo com Oscar Zarate, quadrinista e editor de A Vida Secreta de Londres: “Mais do que o editor de um livro eu me senti como o diretor de um orquestra”

Eu conversei com o quadrinista e editor argentino Oscar Zarate sobre o livro A Vida Secreta de Londres. O álbum recém-publicado por aqui pela Veneta chama atenção principalmente por reunir trabalhos de Alan Moore e Neil Gaiman. No entanto, os méritos da coletânea vão muito além da presença de dois dos maiores quadrinistas britânicos de todos os tempos. Em um período no qual se reflete tanto sobre o propósito das cidades e a relação de pessoas com os espaços urbanos nas quais elas vivem, o livro faz pensar principalmente sobre a influência desses espaços em seus moradores.

Transformei a minha conversa com Oscar Zarate em matéria pro UOL e recomendo bastante a leitura pra você saber mais sobre o projeto. Reproduzo a seguir a íntegra da nossa conversa e lembro que amanhã (22/7), a partir das 16h, estarei com o editor brasileiro do quadrinho, Rogério de Campos, lá na Ugra, pra um papo não apenas sobre o livro, mas também sobre HQs britânicas, psicogeografia e a conturbada realidade política e social de Londres em meio à saída eminente do Reino Unido da União Européia. Confirma presença lá na página do evento no Face e, em seguida, volta aqui pra ler a entrevista. Ó:

“Há um determinado horário do dia, quando os pubs fecham e outros tipos de sons ganham vida, que os prédios passam a contar suas próprias histórias, caso você tenha interesse em ouvi-las”

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Como surgiu a ideia do livro? Por que Londres?

Estou morando em Londres há pelo menos 40 anos, eu escolhi viver aqui e amo essa cidade. É um lugar que está sempre me inspirando com novas ideias de histórias e para a maior parte das minhas graphic novels. Qualquer coisa que eu tenha interesse em contar e desenhar, Londres é o local no qual essas coisas existem. O que despertou a concepção de A Vida Secreta de Londres foi o meu interesse em um determinado horário do dia, quando os pubs fecham e um outro tipo de silêncio e barulho começam a ganhar vida na cidade. Os prédios passam a contar suas próprias histórias, caso você tenha interesse em ouvi-las.

Como foi a produção do livro? Os escritores e desenhistas podiam escolher os locais e personagens com os quais poderiam trabalhar? Coube a você montar as equipes criativas de cada história?

Como editor do livro eu tinha um mapa mental de como ele ficaria, do tom e do ritmo de cada história. Eram histórias que viajariam por toda Londres. Quando comecei a pensar os nomes daqueles que seriam os escritores, poetas, cineastas, comediantes e artistas que poderiam contribuir no livro, obviamente, eu pensei naqueles que já tinham um alguma relação com Londres em seus trabalhos e muito deles eram meus amigos também. Eu fui muito beneficiado pela oferta que tinha, com tantos talentos à minha disposição. Eu sabia que o Iain Sinclair queria escrever sobre o Rio Tâmisa, então tinha que pensar quem seria o artista para um escritor tão visionário e singular, aí cheguei no Dave McKean, seus trabalhos casam muito bem com a narrativa original do Iain. O Neil Gaiman estava morando por um tempo na região de Earl’s Court e perguntei se ele queria escrever sobre a vizinhança dele, um lugar único em Londres, no qual as pessoas estão sempre de passagem, sempre em trânsito, ficando apenas por breve períodos, ele disse sim e pensei no artista Warren Pleece, que tinha na época uma arte muito inquieta, passando uma sensação de agitação. O Alan Moore queria escrever uma espécie de epílogo para Do Inferno e como eu já tinha trabalhado com ele em A Small Killing foi natural que eu fizesse os desenhos.

Eu realmente gostei muito de trabalhar nesse livro. Quando penso no período de criação de A Vida Secreta de Londres eu sinto como se ele fosse a consequência direta de um esforço coletivo, de ouvir os autores e os artistas em relação a o que eles gostariam de contar e pensar qual artista trabalharia com cada escritor ou com qual artista cada escritor combinava. Mais do que o editor de um livro eu me senti como o diretor de um orquestra.

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Eu li uma resenha do álbum que diz que ele consegue fazer moradores de Londres verem a cidade de uma forma nova. Você tinha preocupação em surpreender os londrinos em relação às histórias presentes no livro?

Uma das vantagens de ser um estrangeiro é que você pode ver a cidade a partir de uma outra perspectiva, com um olhar mais fresco. Você acaba percebendo algumas coisas, coisas que um morador local não verá, peculiaridades que um londrino não vai pensar muito a respeito, mas que você consegue notar por ter vindo de fora. Você ainda acrescenta o olhar de outra cultura. Os autores e artista ficaram estimulados com a minha curiosidade sobre Londres.

Qual a importância do preto e branco para criar a atmosfera sombria do livro?

Pra mim, o preto e branco contém todas as cores necessárias para expressar a atmosfera sombria de A Vida Secreta de Londres.

Você ilustrou a história do Alan Moore e já tinha trabalhado com ele em A Small Killing. Os roteiros dele são muito famosos pelo excesso de detalhes. O que você pode dizer sobre trabalhar com ele? Os roteiros são realmente tão impressionantes como dizem?

Eu já conhecia os roteiros cheios de detalhes do Alan e tive a oportunidade de ver os roteiros de Do Inferno. Garoto, como ele escreve!

Trabalhar com ele em A Small Killing foi uma experiência diferente. Eu procurei o Alan com uma ideia que queria fazer. Falei com ele sobre esse garotinho, alguém sendo observado e etc e ele disse que sim, que gostava da minha ideia básica e que nós dois iríamos trabalhar juntos. Nós nos encontrávamos com muita frequência, em Northampton, onde ele vive, ou em Londres, onde eu vivo. Sempre conversávamos sobre o livro e a história cresceu de forma bastante orgânica, a partir desses encontros. Depois o Alan escreveu.

Como refletimos muito sobre a história eu estava muito familiarizado em relação a como ela seria – na verdade, o que ele escreveu era muito melhor do que eu esperava. Acredito que o Alan tinha consciência da nossa relação de proximidade e fez um roteiro bastante objetivo. O que eu sei é que, nem antes ou depois de A Small Killing, o Alan nunca trabalhou de forma tão próxima de alguém na construção de um livro. Trabalhar com o Alan é trabalhar com alguém que sabe escutar, uma pessoa incrivelmente generosa para se compartilhar ideias.

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O quanto você acha que o estilo de escrita do Alan Moore mudou desde a primeira vez que você trabalhou com ele?

Acredito que o Alan esteja escrevendo gradualmente cada vez menos para quadrinhos e cada vez mais focado nos seus trabalhos literários.

Londres tem sido alvo constante de atentados terroristas. Como você vê a cidade e os londrinos lidando com essas tragédias?

Poucos países europeus estão vivendo e sofrendo esses tipos de horrores como o Reino Unido. É a vida que estamos tendo agora. Como cidadão não é possível fazer muita coisa, você apenas segue vivendo sua vida tentando não pensar muito a respeito. Mas os governos poderiam fazer alguma coisa, como parar de vender armas para países repressores do Oriente Médio ou parar de bombardear outros países apenas por petróleo. Provavelmente não acabaria com esse tipo de horror em cidades como Londres, mas acredito que já ajudaria. Há outras questões tão importantes quanto esses ataques, como por exemplo a forma como o Reino Unido fará sua saída da União Europeia. A Inglaterra está uma bagunça. São tempos difíceis mas interessantes também, precisamos observar como todo esse horror será resolvido. Acho que a questão pode merecer uma resposta melhor, mas é assim que me sinto.

E como você acredita que quadrinhos e as artes podem ser úteis em um contexto mundial de radicalismo e conservadorismo como nos dias de hoje?

Nos quadrinhos, nas artes, como em tudo na vida, é sempre uma questão de qual lado você está. Você escolhe o seu lado e depois age. É muito importante escolher.

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