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Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #6: “Um certo desprendimento ajuda”

Chega ao fim hoje a série Thiago Souto e a Av. Paulista, na qual o quadrinista fala sobre os bastidores, as inspirações e as influências de seu mais recente trabalho. Por muito tempo tentei me convencer de que te amava (Balão Editorial) conta com a minha participação no papel de editor e narra um passeio pela principal via de São Paulo em um domingo, quando ela é fechada para carros e aberta para pedestres, ciclistas e skatistas. Nesse capítulo final da série, Souto fala sobre a repercussão inicial da HQ após seu lançamento na Comic Con Experience 2018, comenta os sentimentos dele em relação ao livro finalmente impresso e faz um balanço inicial do projeto.

Você confere todos os posts da série Thiago Souto e a Av. Paulista clicando aqui. Ao longo das últimas seis semanas, o autor expôs aqui no Vitralizado muitas das reflexões e dos sentimentos decorrentes da produção e do lançamento da HQ, sua primeira em seguida a Labirinto (Mino). No pé do post de hoje, como material bônus, dou um breve relato sobre essa minha parceria com o autor.

Aproveito a deixa para reforçar o convite: está marcado para sábado (15/12), na loja da Ugra (R. Augusta, 1371, loja 116, São Paulo), a partir das 16h, o evento oficial de lançamento de Por muito tempo tentei me convencer de que te amava. Eu estarei por lá com o Thiago Souto para uma conversa sobre a obra mediada pelo jornalista Thiago Borges, editor do blog O Quadro e o Risco, seguida por uma sessão de autógrafos com o autor. Vamos?

Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #6: “Um certo desprendimento ajuda”

“Espaço pra diálogo”

“Eu fiquei bem satisfeito com o livro impresso, ele ficou bonito e o formato é bem legal, agradável pra ler. É um livro pequeno, bom pra manusear. Acho que deu um espaço bom pros desenhos. Gostei muito da escolha que fizemos pro papel e a impressão ficou ótima. O resultado do livro, como produto e objeto, ficou ótimo. Isso teve reflexo na Comic Con, as pessoas pegavam, manuseavam e ficavam interessadas. Isso abre espaço pra diálogo”.

“Eu nunca tinha feito um quadrinho com papel Pólen, só tinha trabalhado com ele em outros projetos. Enquanto fazia os desenhos coloquei um fundo meio amarelado em algumas páginas e achei que ficou legal. Funcionou quase como uma terceira cor, junto com o preto e o magenta. Ao invés do branco, esse amarelinho funcionou pra mim como uma outra cor e tornou ainda mais confortável a leitura”.

“Todo mundo odeia a Berrini”

“É um quadrinho diferente do meus trabalhos prévios. Algumas pessoas me procuraram no evento por terem ouvido falar do livro pelas redes sociais ou por conhecerem o Labirinto – um projeto bem diferente esteticamente, em termos de formato e tudo mais. A reação mais comum foi, ‘nossa, é muito diferente do que você já fez’. Eu gosto dessas reações. Por se tratar da Paulista e pela relação do personagem com a Paulista, o livro também acaba gerando uma certa identificação com a impressão que as pessoas têm da avenida. É uma relação comum para quem gosta da Paulista e de São Paulo e que também considera esses locais um pouco hostis”.  

“Também ajudaram na Comic Con os prints que imprimi com imagens do livro. Algumas pessoas viam e se interessavam pela HQ. Quando eu falava que as imagens faziam parte do livro, criava-se esse interesse por ele. Mostrar uma imagem de São Paulo para quem é de São Paulo evoca sentimentos de pertencimento e identificação e também gera interesse pelo quadrinho”.

“E muita gente que não é de São Paulo também levou o livro. Apesar de se passar em São Paulo, o quadrinho trata de uma dinâmica de relacionamento comum para quem vive em cidades grandes. Às vezes uma pessoa é de uma metrópole e o sentimento que ela tem é muito parecido com o que é apresentado no livro. Também estamos falando de um marco da cidade, então talvez alguém de fora que tenha ido à convenção tenha levado como uma lembrança da cidade, da mesma forma que você compra um cartão postal de um marco local”. 

“Talvez se eu tivesse falando de outro marco conhecido apenas para paulistas… Não dá pra falar da [Avenida Engenheiro Luís Carlos] Berrini. Todo mundo conhece a Berrini aqui em São Paulo, mas lá fora ninguém conhece. E ninguém ama a Berrini em São Paulo, todo mundo odeia (risos)”

“Recompensa mais imediata”

“É estranha a sensação. Foram dois meses de produção e agora o livro tá pronto, sendo lançado. Isso é completamente diferente. É boa a sensação de publicar alguma coisa, de ver alguma coisa pronta e já ter algumas respostas. É tudo muito imediato e instantâneo. Você faz, tem um período de correria até fechar, a coisa fica pronta e é lançada. Comparativamente, o processo do Labirinto foi muito longo e penoso e tudo isso agora é novo para mim”.

“Embora no Mikrokosmos também tenha sido um processo muito rápido, acabou sendo muito mais solitário. No caso do Por Muito Tempo, por eu ter contado com você e com o Guilherme, acho que a recompensa foi mais imediata”.

“Passou só uma semana desse primeiro lançamento, então eu espero que seja um livro que ainda tenha um eco. O resto do balanço será saber qual vai ser esse eco e como será a repercussão ao longo dos próximos meses, o que vai reverberar. As pessoas vão continuar falando? No Labirinto teve isso: eu lancei e depois de muito tempo ainda continuam procurando. Eu tô curioso pra saber qual será a repercussão desse trabalho, principalmente por ele ter caraterísticas muito diferentes do Labirinto”.

“Um pouco mais ágil”

“A primeira lição é que mesmo trabalhando de forma independente é fundamental ter um editor. Foi uma descoberta saber que dificilmente vou querer trabalhar sem um editor. Faz bastante diferença ter com quem conversar, ter com quem dividir uma ou outra dúvida, ter alguém que possa acrescentar novas ideias ao trabalho. Acredito que isso seja bom não só para mim, mas para qualquer pessoa que vá começar a produzir. Mesmo que não seja um editor em termos formais, é bom ter por perto alguém que acompanhe o trabalho, uma ou outra pessoa que possa trazer ideias honestas, alguém comprometido em potencializar o trabalho”.

“Também foi legal trabalhar com uma editora diferente. A Balão tem uma estrutura diferente da Mino e um modo diferente de funcionar. É importante pra mim ter essas experiências distintas. Eu ainda tô no início da minha produção como quadrinista, ainda tenho que passar por muita coisa e acho muito importante viver esses processos diferentes. Existem jeitos diferentes de fazer um quadrinho e é preciso descobrir o que você prefere e onde se encaixa melhor. Essa experiência foi muito positiva nesse aspecto”.

“Já em relação ao processo de produção, eu desenvolvi esse desprendimento maior em relação ao que estava fazendo. Produzindo dentro de um prazo menor foi necessário aceitar muito mais aquilo que já foi feito. Não dá tempo de ficar revisitando o que já está pronto e já foi incorporado ao trabalho. Isso talvez traga um pouco mais de agilidade para trabalhos futuros, mesmo que eles sejam mais longos, e também me deu um pouco mais de confiança. Tá feito e não dá mais tempo de mudar? Segue em frente. No final deu certo. Claro que é sempre bom planejar e pensar bem antes de fazer as coisas, mas ter um certo desprendimento também ajuda, seja qual for a proporção do trabalho”.

BÔNUS

Nota do editor, por Ramon Vitral

Por muito tempo tentei me convencer de que te amava é a minha quarta experiência como editor de histórias em quadrinhos, a primeira em um livro impresso. Eu editei as 17 edições dos dois primeiros anos da Série Postal, trabalhei com o quadrinista Jão no desenvolvimento da ainda inédita PARAFUSO ZERO – Expansão e ainda estou envolvido em um projeto ainda não anunciado por seu autor. Ou seja, apenas uma dessas três empreitadas foi impressa, mas sendo a edição dos postais uma experiência completamente distinta da parceria com Thiago Souto no desenvolvimento de uma publicação longa.

Ainda tenho pouca bagagem como editor e a minha atuação no quadrinho de Thiago Souto se deu principalmente por meio das conversas constantes que mantivemos ao longo do período de produção da obra. Como jornalista, escrevendo sobre HQs e atualizando quase diariamente o blog, um dos meus principais objetivos sempre foi tentar compreender um pouco melhor a mente de um artista, entender melhor como alguém pensa um quadrinho, conhecer alguns dos métodos e das técnicas e acompanhar cada etapa da produção de um gibi. Editar Por muito tempo foi realizador nesses aspectos e me instigou a aprofundar ainda mais essas investigações pessoais.

Estou muito feliz pelo quadrinho que chega às lojas e tenho certeza que prendi um monte com o Thiago e com o Guilherme Kroll, editor e sócio da Balão Editorial (responsável por publicar a HQ). Agradeço aos dois pela confiança e recomendo procê a leitura imediata da HQ e dos seis posts da série Thiago Souto e a Av. Paulista. É provável que outros projetos do tipo sejam assunto aqui no Vitralizado em 2019, mas enquanto isso, deixo novamente o convite pro lançamento da HQ no sábado (15/12). Nos vemos por lá?

FIM

ANTERIORMENTE:
>> Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #6: “Um certo desprendimento ajuda”;
>> Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #5: “Um processo mais intuitivo”;
>> Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #4: “Um quadrinho com um título imenso”;
>> Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #3: “Experimento voltado para a desconstrução”;
>> Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #2: “É muita gente diferente compartilhando o mesmo espaço”;
>> Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #1: “Parecia coisa de ficção científica”.

HQ

Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #5: “Um processo mais intuitivo”

O novo álbum do quadrinista Thiago Souto está sendo lançado entre hoje (6/12) e domingo (9/12) na Comic Con Experience 2018. O artista estará autografando Por muito tempo tentei me convencer de que te amava (Balão Editorial) na mesa F36 do evento. Eu sou o editor da obra e tenho publicado no Vitralizado a série Thiago Souto e a Av. Paulista, na qual o autor fala sobre as inspirações e referências da HQ e as reflexões tidas por ele enquanto produzia o quadrinho. Na atualização de hoje, reproduzo o depoimento no qual Souto me contou sobre a arte da obra e o estilo que ele desenvolveu para esse projeto.

Como bônus do post de hoje, incluo uma breve entrevista com Guilherme Kroll, sócio-editor da Balão Editorial, responsável pela publicação da HQ. Ele fala sobre sua decisão de lançar o quadrinho e apresenta aqueles que considera os principais méritos do novo trabalho de Thiago Souto. Saca só:

Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #5: “Um processo mais intuitivo”

“Segui mais os meus instintos”

“Eu cheguei a fazer uns esboços prévios bem descompromissados, eram uns desenhos da Avenida Paulista que fiz antes de escrever o roteiro. Eles não tinham nenhum propósito relacionado especificamente à história, poderiam ser apenas ilustrações no final das contas. Quando comecei a pensar na história foi natural usar o mesmo estilo que eu já vinha adotando nesses desenhos. Talvez tenha sido um processo meio intuitivo, quase inconsciente. Pra ser bem sincero, não lembro mesmo se comecei a fazer esses desenhos da Paulista antes ou depois de começar a escrever o roteiro. Suspeito que tenha sido um pouquinho antes”.

“Acho que eu já tinha na cabeça a ideia de uma história com esse visual. Quando finalizei o roteiro, retomei aqueles desenhos, eram sobre a cidade e a Paulista, então foi natural eles entrarem na história. Mas não eram exatamente desenhos de preparação, eram ilustrações soltas e descompromissadas. Se eu colocar um desses desenhos iniciais do lado de uma página do livro impresso, existe uma diferença porque a arte foi se transformando à medida em que fui desenhando”.

“No Labirinto eu fui desenhando muito nos meus sketchbooks até chegar num estilo de desenho que eu achava que casasse direitinho com a história. No Por muito tempo não teve esse processo de ficar procurando o desenho, ele meio que surgiu e eu aceitei, desenhei da forma como ele veio. Não fiquei pirando muito se eventualmente aparecesse uma proposta mais adequada. Foi um processo mais intuitivo nesse sentido, eu segui mais os meus instintos. O que floresceu com mais força permaneceu na história”.

“Bombardeado por informações”

Páginas do novo trabalho de Thiago Souto, já na versão finalizada, sem a presença de requadros ou sarjetas

“O desenvolvimento da história e desse estilo foi engatando aos poucos. Quando fizemos a decupagem do roteiro eu ainda tinha a ideia de usar requadros, sarjetas e tudo mais. Cogitava talvez até fazer algumas experimentações, mas pretendia usar esses elementos e nas primeiras versões das páginas iniciais eles estavam lá. Nesse primeiro momento eu ainda estava pensando de uma forma mais… Tradicional? Nesse começo eu usava o requadro, mas pouco definido, quase não existiam bordas e as sarjetas não tinham uma delimitação clara. Fui desenhando as outras páginas e o processo passou a ficar mais semelhante a uma colagem”.

“Nas nossas primeiras conversas concluímos que tudo isso pelo que passa o personagem meio que surge de uma vez só, não é que primeiro você vai sentir o cheiro do churrasquinho, depois ouvir a música, em seguida escutar as conversas e aí ver a multidão. Não, tudo meio que te arrebata de uma vez só. Quando comecei a desenhar essas cenas, comecei a pensar como uma colagem, ‘sinto o cheiro, vejo a muvuca e tudo faz parte do mesmo desenho'”.

“Quando passei a pensar dessa forma a história começou a fluir melhor. A experiência de andar na Paulista tem um pouco disso: você entra e as coisas vão acontecendo sem você ter controle do que aparece ali na sua frente. Apesar de algumas atrações se repetirem todo domingo, cada experiência é diferente e você é surpreendido cada vez que volta. De repente, trabalhando desse forma quase inconscientemente, eu trouxe um pouco dessa sensação de estar tudo acontecendo ao mesmo tempo, você não tem controle da situação e é bombardeado por informações”.

“Essa espécie de colagem foi funcionando bem à medida que eu desenhava. Quando eu percebi isso, voltei para as primeiras páginas, que tinham esse tratamento um pouco mais ‘tradicional’, e mudei um pouco o que havia feito. Os desenhos entram uns nos outros, da mesma forma que um evento acaba interferindo no outro o tempo inteiro quando você passa ali na Paulista. O som da banda interfere na apresentação do mágico, tá tudo em conflito o tempo inteiro”.

“Outro tipo de experiência”

“Uma das poucas coisas pré-definidas antes que eu começasse a desenhar foi composição do texto com as imagens, o texto fundindo com o cenário em alguns momentos. Em alguns trechos o texto praticamente faz parte do desenho. A forma como o texto seria retratado estava evidente pra gente desde o começo, então talvez essa ideia de que as coisas estão interferindo umas nas outras já tivesse maturando na minha cabeça quando eu escrevi o roteiro e na sua quando você leu o texto”.

“Duas referências em comum que tivemos para retratar esse percurso feito pelo personagem e a forma como ele e o texto se mesclam ao cenário foram o Little Nemo in Slumberland e os trabalhos do Ralph Steadman – que explora bastante essa composição entre imagens e palavras. Ele trabalha a tipografia meio como um desenho, não usa fontes aleatórias”.

“Uma referência que talvez não fique muito clara para quem lê, foi o Jiro Taniguchi, do O Homem que Passeia e do Gourmet. Esses dois livros mostram um cara andando e muito da história é da relação do personagem com o espaço. Claro que as duas obras têm histórias de fundo rolando, mas o principal é o jeito como essa pessoa enxerga o que está ao redor dela. No caso do meu personagem, é uma experiência totalmente diferente. O tema de relação com espaço é o mesmo, mas é um outro tipo de experiência”.

“Então eu voltei pro magenta…

A primeira versão de duas páginas da nova HQ de Thiago Souto, com a presença mais explícita de requadros e sarjetas

“A escolha das cores foi uma questão técnica. Rodar um livro colorido é muito caro, rodar um livro em duas cores é muito mais barato. O processo de impressão tem quatro cores e usar as cores puras acaba barateando a impressão. Na hora de escolher qual seria, eu já tinha usado o preto e tinha mais três opções, o magenta, o ciano ou o amarelo. A mais emotiva e passional era o magenta”.

“O amarelo puro pode ficar muito claro e nós imprimiríamos o livro no papel Pólen, que já é amarelado. O azul é uma cor legal, mas pra essa história não seria tão apropriada. Então eu voltei pro magenta, uma boa saída porque, no final das contas, além de tudo, a cor tem uma função narrativa muito evidente nesse quadrinho. A forma como ela se manifesta na história tem um significado”.

BÔNUS:

[[Por muito tempo tentei me convencer de que te amava foi publicado pela Balão Editorial. Na breve conversa a seguir, Guilherme Kroll, um dos sócios da editora, comenta as impressões iniciais dele sobre a obra e a decisão de participar do projeto]]

Quais as suas impressões iniciais ao saber sobre o conteúdo de Por muito tempo tentei me convencer de que te amava?

Guilherme Kroll: Eu sempre quis publicar o Thiago Souto, ele me mandou uma amostra das páginas e eu já estava convencido. Fizemos uma reunião na qual ele apresentou o texto do projeto e os seus desdobramentos e achei que o livro tinha tudo a ver com nosso catálogo.

Por que a Balão Editorial topou participar do projeto? Qual você considera o principal mérito da HQ?

Como eu falei, o livro tem tudo a ver com a gente. Uma história completa, que foge de clichês e formatos narrativos convencionais, mas sem deixar de ser acessível. Eu acho que é um gibi com muita qualidade, com muitas camadas de leitura e com uma arte exuberante. Pensando bem, a única resposta para este livro é ‘sim’. Não tinha como a gente não publicar isso.

CONTINUA…

ANTERIORMENTE:
>> Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #4: “Um quadrinho com um título imenso”;
>> Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #3: “Experimento voltado para a desconstrução”;
>> Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #2: “É muita gente diferente compartilhando o mesmo espaço”;
>> Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #1: “Parecia coisa de ficção científica”.

HQ

Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #4: “Um quadrinho com um título imenso”

Agora é oficial: a nova obra do quadrinista Thiago Souto tem o título Por tanto tempo tentei me convencer de que te amava, será publicada pela Balão Editorial e terá seu lançamento durante a Comic Con Experience 2018. O álbum conta com a minha participação no papel de editor e narra um passeio pela Avenida Paulista aos domingos, com a via fechada para carros e aberta para pedestres, ciclistas e skatistas.

Enquanto você não tem o quadrinho em mãos, recomendo a leitura da série Thiago Souto e a Av. Paulista. Publicada semanalmente aqui no blog, sempre às quintas-feiras, a série consiste na transcrição de uma série de conversas que tive com o autor, com ele falando sobre as origens do projeto, suas inspirações e o desenvolvimento da obra. No post de hoje, Souto adianta alguns detalhes do enredo do quadrinho e comenta a dinâmica de produção da HQ ao longo de seus pouco mais de dois meses de desenvolvimento.

Incluo no final do post de hoje, como material bônus, a entrevista dada por Thiago Souto ao jornalista Carlos Neto, responsável pelo canal Papo Zine. A seguir, aspas do quadrinista:

Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #4: “Um quadrinho com um título imenso”

“Tudo pelas tangentes”

“O que é Por tanto tempo tentei me convencer de que te amava? É um quadrinho com um título imenso (risos) É um livro que fala muito sobre a minha relação com a Avenida Paulista e com a cidade de São Paulo, sem ser exatamente o relato de uma experiência pessoal pela qual eu tenha passado, embora estejam presentes no quadrinho várias coisas que têm uma relação muito próxima com experiências que eu vivi”.

“É um livro que trata desse relacionamento que eu sempre tive com a Paulista e o que esse relacionamento se tornou depois que a avenida começou a abrir para pedestres aos domingos. Tem uma série de exageros no meio da história, mas esses exageros servem pra contar coisas que de fato ocorrem naquele lugar, sobre a relação das pessoas com a Paulista e com a cidade e sobre a forma como as pessoas se relacionam”.

“O livro não trata nenhum desses elementos muito diretamente, de forma específica, é tudo meio pelas tangentes. Ele conta a experiência de um personagem pra falar sobre aquele assunto, mas sem ser muito explícito. Talvez exija uma dose de imaginação e interpretação por parte de quem estiver lendo”.

“Só me liguei qual seria o visual enquanto desenhava as páginas”

“Esse quadrinho foi muito desenvolvido durante o processo de produção… Como eu posso explicar melhor? Ele não foi tão planejando, não teve um início muito pré-definido, com designs de personagens, estudos de cenário ou estudos de composição de páginas. Só durante o processo de produção eu fui descobrindo essas coisas. Só me liguei qual seria o visual enquanto desenhava as páginas”.

“Acho que a única coisa que foi mais trabalhada antes do início da produção foi o roteiro, um texto que eu tinha escrito de uma vez só. Aí eu fiz essa leitura com você. Eu falo com você ou digo que fiz essa leitura ‘com o Ramon’? (risos) Enfim, fiz uma leitura com o meu editor e a partir dessa leitura tivemos alguns insights, algumas ideias que serviram como um guia bem genérico do que se tornaria a história. Depois eu comecei a desenhar e essas ideias serviram só como um ponto de partida que acabou se transformando muito no decorrer do processo de produção”.

“Ao contrário do Labirinto, onde tudo foi mais planejado – o roteiro, o visual dos personagens, os thumbnails e tudo mais – dessa vez foi tudo acontecendo enquanto eu fazia. Isso foi interessante para mim, foi um outro jeito de enxergar o processo de fazer quadrinhos”.

“Autobiográfica até a entrada na Paulista”

“A primeira coisa que fiz no meu texto original foi a introdução, as páginas iniciais da história. Quando escrevi aquela introdução eu estava muito focado ainda na minha experiência. Dá pra dizer que o quadrinho é autobiográfico até o momento em que o personagem entra na Paulista. É a minha experiência enquanto o personagem fala da infância dele, aquilo é real, é como eu via a Paulista durante a minha infância. Essa introdução foi a primeira coisa que escrevi, depois deixei meio que guardada por uns dias”.

“Fui escrever o percurso da Paulista em outro momento e a partir daí já começou a descolar um pouco da minha realidade. Quando comecei a escrever essa segunda parte eu já passei a ver o personagem como um personagem, não era eu andando pela Paulista, embora ainda tivesse muito da minha experiência. E essa parte eu escrevi meio que de uma tacada só, fui pensando como um passeio da Paulista, passando por tal lugar, depois o seguinte, até chegar no final”.

Quando terminei fui colocando e tirando uma coisinha ou outra, mas o roteiro foi escrito dessa forma. Um primeiro momento em que eu achava que ia escrever uma história 100% pessoal e autobiográfica e o seguinte, descolado da minha experiência, vendo a coisa como uma narrativa ficcional.

“Prefiro escrever sem pensar em como eu vou desenhar

“Talvez eu tenha feito mais um guia do que um roteiro propriamente dito. Boa parte do texto inicial que eu escrevi está na história. Talvez 80% do que escrevi no meu texto inicial esteja na história. Se aquilo não for chamado de roteiro, então eu acho que não cheguei a fazer um roteiro (risos) Ou então, talvez o roteiro tenha sido feito quando nós dois sentamos pra conversar, decupar aquilo e estruturar de uma forma um pouco mais organizada”.

“Eu não tento imaginar a imagem enquanto eu tô escrevendo. Se eu ficar imaginando as coisas, eu tento impor algumas limitações que estão relacionadas à técnica do desenho. E como desenhista eu ainda me vejo tendo limitações na hora de retratar uma ideia. Se na hora que eu estivesse escrevendo fosse ficar pensando nas imagens, no enquadramento e nessas coisas, eu provavelmente iria me limitar. Eu acabaria mudando o roteiro pra tentar fazer caber dentro do que eu enxergava e poderia resultar em uma limitação técnica de desenho. Então eu prefiro escrever sem pensar em como vou desenhar”.

“Nesse quadrinho eu lidei com várias limitações pessoais. Era muito cenário e muita gente andando junta, tive que encontrar algumas soluções. De repente, se eu ficasse pensando nas soluções visuais que eu fosse dar pro roteiro, talvez eu acabasse limando coisas do roteiro por achar que eu não iria conseguir desenhar aquilo depois. Então eu escrevo sem pensar muito pra só depois me virar”.

“Em tão pouco tempo você não procrastina”

“Eu escrevi no final de setembro, nós dois sentamos para conversar na primeira quinzena de outubro e eu desenhei em um mês, no máximo. Foi desenhado em pouco menos de um mês. Foi um projeto que ocupou uns dois meses, dois meses e pouquinho”.

“Em tão pouco tempo você não procrastina, né? Você tem que fazer. É preciso resolver a coisa de alguma forma. O problema de ter muito tempo é que você acaba revisitando coisas que já estão resolvidas. Se eu fosse reler o roteiro agora talvez eu quisesse mudar uma coisa ou outra. Se eu fosse ver o desenho agora, talvez eu quisesse acertar alguma coisa ou outra”.

“Com pouco tempo você desiste de rever as coisas e segue em frente. Não é nem que você se conforma com o que foi feito, você apenas não olha pra trás por falta de tempo. Não é nem uma questão de conformidade com o que foi produzido. Você segue adiante ou não acaba o trabalho”.

“Esse processo tá sempre te empurrando e isso é bom. No Labirinto, no qual eu trabalhei por muito tempo, há algumas páginas que hoje eu acredito que poderiam ter ficado bem melhores. Mas é isso. O projeto grande é assim também, no final ele é curto porque você vai ter que correr um monte pra entregar e toda aquela procrastinação do começo precisará ser resolvido em um período reduzido de tempo. O projeto curto só não tem esse tempão antes em que você fica lá viajando, tentando mudar coisas já resolvidas”.

BÔNUS:

CONTINUA…

ANTERIORMENTE:

>> Thiago Souto e a AV. Paulista – Parte #3: “Experimento voltado para a desconstrução”;
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Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #3: “Experimento voltado para a desconstrução”

Estamos a poucos dias do anúncio do título, da editora e da sinopse do próximo quadrinho do artista Thiago Souto. Estou trabalhando no projeto como editor e tenho publicado por aqui nas últimas três semanas a série Thiago Souto e a Av. Paulista, na qual o quadrinista fala sobre suas inspirações e o desenvolvimento da HQ. O álbum tem como foco a via mais famosa da maior cidade brasileira e a dinâmica de seu funcionamento aos domingos, quando é fechada para carros e aberta para pedestres, skatistas e ciclistas.

Após falar sobre suas memórias antigas relacionadas à Avenida Paulista e lembrar de suas primeiras idas ao local com ele aberto para os pedestres, hoje o autor trata da origem de seu novo quadrinho e das reflexões que o inspiraram a desenvolver esse novo projeto e faz um comparativo com sua obra prévia, Labirinto (Mino). Recomendo o seu retorno ao blog nos próximos dias para novidades sobre a HQ. Enquanto isso, aspas de Thiago Souto:

Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #3: “Experimento voltado para a desconstrução”

“Bolhas sociais”

“No começo íamos à Paulista pra a Alice brincar e eu e a minha esposa darmos uma andada. Nesse início eu não tinha essa percepção do monte de coisa que acontecia ao mesmo tempo. O sentimento na época era mais de encantamento com o espaço, aquele centro de comércio e negócios agora aberto para pessoas, convívio e interação. Era isso que me impressionava quando fomos pelas primeiras vezes. Conforme o tempo foi passando, fui observando outras coisas e superando esse sentimento de deslumbramento. Eu passei a me perguntar: ‘Como pode tanta gente? Como tem tanta gente e tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo?’. Eram muitas coisas contrastantes. A música das bandas, por exemplo, você entrava na Paulista e estava tocando forró, dois passos depois era rock, três passos e você ouvia funk,… ‘Cara, como tá acontecendo tudo isso junto?'”.

“Você via uma família ‘comportada’ e ‘tradicional’ andando ao lado do cara loucaço. E todo mundo fechado no seu próprio rolê, sem se dar conta de que tudo aquilo estava acontecendo no mesmo espaço”.

“Quando comecei a perceber isso, pensei que talvez fosse possível fazer alguma coisa… Talvez uma história que não precisasse de um roteiro tradicional. Não precisava ser sobre o personagem que começa a história de tal jeito, passa por toda uma saga e acaba diferente. Talvez o movimento da história não precisasses ser sobre os conflitos de um personagem ou sobre o que acontece com ele, mas mais sobre o fluxo de um determinado lugar. As coisas estariam acontecendo e ele percebendo aquilo tudo. Seria uma experiência meio estranha – no bom sentido, para quem gosta de coisas estranhas (risos) Seria chamar atenção para as coisas que ninguém tá ligando muito, do que está acontecendo enquanto estão todos fechados em suas próprias histórias”.

“Jornadas diferentes”

“Como eu acabei de sair de um trabalho com uma estrutura narrativa bastante tradicional, o Labirinto, eu tava afim de fazer uma coisa que fugisse disso, pra poder continuar em movimento. Eu não achava que estaria indo pra frente se fizesse uma história igual à anterior, no sentido da forma. Não que eu não vá fazer novamente uma história naqueles moldes, mas me permitir algo diferente, em relação ao uso da linguagem, é uma forma de romper um pouco a inércia, de propor uma experimentação. Não uma experimentação no sentido pretensioso da palavra, a ideia não era tentar fazer algo diferente de tudo o que já foi feito, não. Digo experimentação no sentido de tentar algo me desafiasse de alguma maneira”.

“Acho que há algumas formas de fazer essa experimentação. Antes do Labirinto eu tinha tido um processo de experimentação muito relacionado ao aprendizado. Era o meu contato com a produção de um quadrinho, então eu estava descobrindo, tudo era novo. Até então eu compreendia o processo como um leitor que gostaria de fazer quadrinhos, mas não como alguém que produzia já há algum tempo e parou pra pensar na linguagem e tudo mais. Era mais uma experimentação por parte de alguém descobrindo a linguagem. Isso é muito legal, você tem muita liberdade e não está preso a nenhum tipo de amarra”.

“O Labirinto foi história muito longa, um processo de produção mais fechado dentro de uma estrutura tradicional no sentido do uso da linguagem. Que me fez aprender muito sobre esses elementos. Mas quando acabei o Labirinto, comecei a ter vontade de experimentar coisas diferentes, desta vez uma experimentação mais voltada para a desconstrução do que pro aprendizado, como havia sido antes. Eu já compreendia um pouco melhor da linguagem e queria experimentar com o que havia aprendido nesses processos”.

“No caso de um personagem principal, por exemplo. Um protagonista geralmente é trabalhado de determinada forma, ele tem suas relações de conflito e vão surgindo tensões crescentes até chegar em um momento de clímax. Quando pensei a história da Avenida Paulista concluí que não precisava trabalhar o personagem principal exatamente dessa forma. Pensei que ele poderia ter uma jornada diferente. Da mesma forma, também optei por trabalhar o desenho de forma diferente, removendo os requadros, por exemplo. É uma experimentação distinta da qual me propunha no começo. Então foi isso, a intenção era trabalhar algo novo para mim com quadrinhos”.

“Todo mundo no seu próprio microcosmo”

“E a ideia era expressar isso tudo tratando desse lugar democrático, que permite livremente toda forma de manifestação, sejam lá quais forem as bandeiras… Às vezes com a borracha da polícia, né? (risos) Então não tão livremente assim, mas mesmo assim você tem todo tipo de pessoa lá, do cara mais conservador ao mais progressista”.

“É engraçado… Eu lembro que no começo algumas pessoas evitavam ir à Paulista por essa abertura aos domingos ser muito associada à gestão do Haddad e do PT. Mas o espaço de convivência acabou se mostrando maior do que isso, as pessoas conseguiram até deixar isso de lado. O que é impressionante quando você leva em conta essa aversão tão gigantesca que existe ao PT . Mas todas as pessoas tomaram aquele espaço como sendo delas e assim foi realizado o objetivo de fato da proposta: ser um espaço democrático. É isso que é o melhor, mesmo sendo um espaço meio esquizofrênico, também frequentado por pessoas que flertam com o fim desse espaço democrático”.

“E é isso, você tem lá o cara pedindo intervenção militar e pessoas manifestando as causas mais progressistas, contra o racismo, contra a homofobia… Enfim, a Paulista sempre foi esse espaço democrático. É o palco da Parada do Orgulho LGBT, por exemplo, mas o movimento Cansei também usou a Paulista de palco. Quando você abre aos domingos, tudo isso é ainda mais potencializado. Todo tipo de gente convivendo, todos mais ou menos fechados no próprio microcosmo, mas as pessoas estão lá e na maioria das vezes de forma pacífica”.

CONTINUA…

ANTERIORMENTE:

>> Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #2: “É muita gente diferente compartilhando o mesmo espaço”;
>>Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #1: “Parecia coisa de ficção científica”.

HQ

Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #2: “É muita gente diferente compartilhando o mesmo espaço”

Está no ar o segundo post da série Thiago Souto e a Av. Paulista. O projeto consiste na reunião de depoimentos de Thiago Souto, autor de Labirinto, sobre os bastidores e os temas abordados por ele em sua próxima HQ, na qual eu estou trabalhando como editor. O título do álbum, a editora responsável por sua publicação e a sinopse da obra serão anunciados nos próximos dias. Por enquanto, adianto que a obra será lançada na Comic Con Experience 2018, é ambientada na Avenida Paulista e aborda a dinâmica de  funcionamento da via aos domingos, quando é fechada para veículos e fica aberta exclusivamente para pedestres, ciclistas e skatistas.

Após comentar sobre suas lembranças mais antigas da Avenida Paulista no post de abertura da série, o artista fala agora sobre suas idas iniciais ao local após a abertura para pedestre aos domingos. A medida foi implementada em outubro de 2015 com o objetivo de fazer a população local se apropriar da cidade e o quadrinista tem estado rotineiramente no local aos domingos desde então. A seguir, aspas de Thiago Souto:

Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #2: “É muita gente diferente compartilhando o mesmo espaço”

“É preciso ocupar as ruas”

“Eu não lembro exatamente da minha primeira ida à Paulista aos domingos com ela fechada para carros. É engraçado: a Paulista sempre foi esse lugar democrático em que todo mundo ia pra expressar suas reivindicações e suas ideias, independentemente de quais elas fossem. A abertura dela aos domingos para pedestres fez parte desse movimento da gestão passada da Prefeitura de fazer a cidade e as ruas mais voltadas para as pessoas. Eu simpatizo bastante com a proposta, então lembro que as minhas primeiras idas nela aos domingos, exclusiva para pedestres, foi porque eu acreditava nisso. Óbvio, a Paulista tinha toda essa carga emocional para mim, mas a abertura aos domingos foi um projeto que tomei pra mim. ‘Isso tem que dar certo’, então vamos”.

“Tinha toda uma onda mais conservadora que achava a iniciativa uma péssima ideia, inventavam desculpas completamente absurdas. Eram pessoas que não saiam de casa a não ser para ir a um shopping e falavam besteiras em relação ao projeto. Mesmo que na época, por causa da novidade, alguns questionamentos fossem relevantes, valia à pena fazer um teste, ver o que ia acontecer. Então era importante estar na avenida aos domingos, para que aquilo desse certo. Então minhas idas iniciais foram muito nesse sentido”.

“Não sei se isso corresponde à realidade, mas lembro que uma impressão que eu tinha em relação às pessoas que iam naquela época inicial, nos primeiros fins de semana, era de um sentimento parecido com o que eu e a minha esposa tínhamos: é preciso ocupar as ruas, é preciso ocupar a Paulista para que essas ideias continuem vigorando. A partir do momento que ela ficasse vazia sabíamos que ia ter um carniceiro pronto pra queimar o filme. Íamos e as pessoas que víamos por lá tinham essa mesma vibe. As pessoas iam com essa energia de fazer coisas na rua, começavam a criar uma relação com aquele ambiente. Você via que as bandas e os músicos passavam a te reconhecer, te viam na semana seguinte e cumprimentavam. Então rolava uma cumplicidade entre as pessoas que iam nessa fase inicial e as que estavam por lá fazendo alguma atividade”.

“No nosso caso, por causa da Alice, minha filha, víamos sempre o pessoal das bolhas de sabão, as meninas que levavam bambolês e alguns grupos específicos. Eram bandas que eu, minha esposa e minha filha gostávamos muito e sempre assistíamos”.

“Se é pra ser democrático, então vamos ser democráticos de verdade”

“É engraçado, você vê diversidade nas pessoas que andam por lá, sejam pelas camisas ou qualquer outra coisa. E isso é bom no final das contas. Se é pra ser democrático, então vamos ser democráticos de verdade. Tava claro que a Paulista não era de um grupinho fechado de pessoas que simpatizam com um ou outro grupo político. Aí você ia vendo outros tipos ocupando aquele lugar e a Paulista começou a ficar mais cheia aos domingos e outras atrações começaram a aparecer. Depois de um tempo ela passou a ser usada com mais intensidade aos domingos para manifestações políticas, de todos os tipos inclusive. Aliás, algumas dessas manifestações não teriam público nenhum não fosse a Paulista aberta para os pedestres, elas se aproveitavam para planfetar pra quem estivesse passando”.

“Ainda vamos lá aos domingos, mas não com a mesma frequência do começo, até por ela estar ficando realmente muito cheia. Continua sendo uma experiência legal. Atualmente ela está muito mais com a vibe desse meu novo quadrinho do que na fase inicial, quando a sensação era mais de celebrar a ocupação da cidade, hoje já virou parte da rotina. Acredito que não há nenhuma hipótese dela voltar a funcionar aos domingos para carros”.

“Espécie de rugido…”

“Tem uma imagem que é muito impressionante para mim, me marcou principalmente nas primeiras vezes em que estive na Paulista aos domingos aberta só para pedestres: a hora, naquela época às 17h, em que a avenida é aberta para os carros. É uma transformação brutal. Em um momento você só escuta as vozes e o barulho da música, mas a medida em que os carros vão chegando, você começa a ouvir uma espécie de rugido. Era impressionante como o ambiente se transformava em questão de minutos.

“Toda essa inversão ligada à proposta inicial de tornar a Paulista mais humana tinha como objetivo mostrar como aqueles lugares poderiam ser muito mais aproveitados se as pessoas pudessem andar por eles, pudessem ter uma relação diferente que não envolvia o fluxo por carro ou ônibus. A mesma coisa vale pro Minhocão, que acho que já abria aos domingos antes da Paulista. É um lugar super barulhento que de repente tem gente andando e crianças brincando”.

“Eu gosto muito de andar, então o que for possível fazer a pé é melhor para mim. Quando você anda, tem uma relação muito diferente com o espaço que está ocupando. Até mesmo nesse momento da Paulista da semana, caótica, andando você passa a reparar mais o ambiente e as pessoas. De carro você não vê nada, só o cara que tá querendo te fuder no carro da frente (risos)”

“Tudo vira diversão”

“Quando a abertura pra pedestres aos domingos começou a valer, íamos pelo menos três domingos por mês. Hoje vamos, no máximo, uma vez por mês. Mas tem, sim, isso da rotina. No começo, tinham algumas bandas que gostávamos de ver. Por exemplo, o Grande Grupo Viajante, que ficava ali em frente ao Conjunto Nacional. Eles misturavam rock, brega, forró, funk, o tecno-brega do Pará, era bem divertido. Uma menina tocava sax e outra trompete, tinha um cara que tocava guitarra, um vocalista que fazia uma espécie de rap, um tecladista, um baixo… Era um grupo grande e eles estavam sempre lá. Íamos tanto que decoramos as músicas. A Alice adorava. Mas a rua acaba sendo muito dinâmica, alguns grupos, como esse, você não vê mais por lá. Pelo menos não encontrei nas últimas vez em que fui”.

“Sempre começamos os nossos passeios na Consolação, ali por perto do Metrô Consolação, subimos, almoçamos ali na Augusta, depois vamos em direção à Paulista e ao Conjunto Nacional. Aí andamos, andamos bastante, andamos e paramos no que gostamos”.

“Gostávamos bastante de parar com as meninas do bambolê. Nessa época do Grande Grupo Viajante tinha um grupo de meninas que ficava ali por perto que levava vários bambolês e a Alice tinha aprendido a girar e curtia. Era no mínimo meia hora parado por ali. Um pouco mais pra frente tinha um cara que fazia bolha de sabão gigante. Mais meia hora, pelo menos. Sabe aquelas saídas de ar do metrô? Fica uma ventania imensa e a Alice subia e ficava jogando jogando água pra ver a água flutuar… Crianças se divertem muito facilmente. É muita imaginação e ficávamos por lá esperando, olhando e chamando, ‘vamos, vamos ver o que tem mais pra frente’ (risos). Acaba sendo um parque grandão para as crianças”.

“Quem é pai talvez entenda: já é uma diversão ficar só olhando o seu filho brincar. Eu nunca fui o tiozão das crianças, mas depois que a Alice nasceu mudou a dinâmica. Você também passa a se divertir com muito menos, ver ela brincando passa a ser parte do entretenimento. Ela aprendeu a rodar bambolê na Paulista, por exemplo. Depois de umas três ou quatro vezes indo aos domingos. Teve épocas que de dentro do metrô, da Ana Rosa até a Consolação ela ficava girando (risos). Só isso já é parte da diversão”.

“Cada um no seu rolê”

“É muita gente diferente compartilhando o mesmo espaço. Mas nem sempre parecem estar no mesmo lugar. Cada um tá muito no seu próprio rolê. Eu tô fazendo isso aqui e não me importo muito o que tá rolando ali. Quando você para e olha tudo que tá acontecendo ao redor, você percebe como é esquizofrênica a coisa. Você tem de tudo. O cara de bicicleta, o cara do show, o louco dançando na rua, alguém pedindo intervenção militar em frente à FIESP, sabe? Essas merdas todas e tudo ao mesmo tempo, agora. Uma loucura, uma montanha-russa, mas ninguém está nem aí”.

“De certa forma as pessoas mantém a dinâmica que elas se comportam na cidade durante a semana, algo bem individualista, cada um na sua. Tirando quando tem um show com muita gente e acaba unindo muitas pessoas. Também naquelas, né? Todo mundo vendo, mas o nível de interação entre as pessoas não é muito grande. Sinto que isso se intensificou com o aumento do número de pessoas que passaram a ir aos domingos. Com menos gente, as pessoas interagiam um pouco mais, mas acho que isso é natural e, sei lá, tudo bem”.

CONTINUA…

ANTERIORMENTE:

>>Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #1: “Parecia coisa de ficção científica”.

HQ

Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #1: “Parecia coisa de ficção científica”

O próximo álbum do quadrinista Thiago Souto será lançado na Comic Con Experience 2018. O título, a editora, a sinopse e as especificações técnicas da obra serão revelados nas próximas semanas. Primeira HQ do artista em seguida a Labirinto (2017), a obra contará com a minha participação no papel de editor.

Sem entregar muito sobre a trama, adianto que o álbum tem como foco a Avenida Paulista e dinâmica de funcionamento da via aos domingos, quando é fechada para a circulação de veículos e fica aberta exclusivamente para pedestres, ciclistas e skatistas. Dou início hoje à série de posts Thiago Souto e a Av. Paulista, na qual o autor fala sobre sua relação com os 2,7 km mais famosos de São Paulo e o desenvolvimento desse seu próximo projeto.

A série seguirá ao longo das próximas semanas, sempre às quintas-feiras. No post de hoje, o quadrinista fala sobre suas memórias mais antigas relacionadas à Avenida Paulista e as lembranças que guarda de suas idas ao local durante a infância. A seguir, aspas de Thiago Souto:

Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #1: “Parecia coisa de ficção científica”

“Super Quadra Morumbi”

“Eu não tenho uma lembrança específica, mais clara e objetiva da minha primeira ida à Avenida Paulista, nada do tipo ‘fui com os meus pais dar uma volta e aconteceu isso, isso e isso’. Tenho uma memória mais antiga, de quando era criança, de ir pra Paulista e andar por aquela região usando o metrô. Eu morava em um bairro afastado do centro, um bairro chamado Super Quadra Morumbi, que ficava… Seguindo a Avenida Giovanni Gronchi, bem pra frente, depois do estádio do Morumbi, você vira numa ruazinha entre o Campo Limpo e Taboão da Serra. Continua sendo um bairro bem residencial, porque fica nesse finalzinho da cidade. Se você dá mais um passo, tá no Taboão, dá outro passo, tá no Campo Limpo, os lugares mais próximos dali. Não leva a lugar nenhum, é o final da cidade. Até hoje tem pouco prédio e as ruas são pouco movimentadas”.

“Eu devia ter por volta de uns seis anos quando mudei pra lá. Antes eu morei no Cambuci, foi lá que eu nasci. Depois passei um ano morando no Arraial d’Ajuda, na Bahia, com os meus pais, que eram de uma vertente hippie. Voltei pra São Paulo, acho que ficamos um tempinho no Cambuci, depois outro período no Sumaré e então fomos pra esse bairro chamado Super Quadra Morumbi. Os meus avós maternos também tinham saído do Cambuci e ido morar lá nesse meio tempo em que ficamos na Bahia. Então fomos pra perto da casa deles e de alguns tios que moravam por lá também. Meus pais trabalhavam fora e deixavam eu e o meu irmão aos cuidados dos meus avós quando precisavam”.

“As estações de metrô pareciam naves espaciais”

“Então eu cresci nessa região muito afastada do centro de São Paulo, era quase como morar numa cidade de interior, inclusive pela distância. Tinham pouquíssimas linhas de ônibus e as linhas que passavam mais perto ainda eram afastadas da nossa casa. O meu pai trabalhava ali perto da Rua Pedro de Toledo e a família dele também morava naquela região, mais perto da Paulista. Aí que começam as minhas memórias mais relacionadas à Paulista. Lembro de quando criança usarmos o metrô e eu ficava muito fascinado, era quase ficção científica. Eu não tinha assistido Akira ou Balde Runner na época, mas quando vi fiz uma relação imediata com essa sensação de andar de metrô. Eu lembro da Linha Azul, ou da Verde, e as estações pareciam partes de naves espaciais. Nessa época, eu com uns oito ou nove anos, quando íamos dar uma volta na Paulista, eu achava estar num lugar meio extraterrestre. Eu ficava muito fascinado. Principalmente depois que descobri que aquele lugar era na mesma cidade que eu morava, embora fosse muito diferente da região em que eu vivia. Passei a sentir até um certo orgulho. ‘Olha, eu também moro aqui!’ (risos)”

“A memória afetiva é nesse sentido. Apesar de não viver naquela região central, onde tudo era ‘mais desenvolvido’ – grandes aspas, por favor -, eu sentia como se aquilo fizesse parte da minha vida também, embora não fizesse. Eu sentia um certo orgulho disso”.

“Imaginário de realidades alternativas”

“Ir à Paulista naquela época soava como uma aventura, sabe? Pra uma criança de oito ou nove anos, vivendo numa região afastada, era quase uma aventura. Era sair para conhecer um lugar meio alienígena, com esses prédios bem altos, com um monte de gente andando. Não era apenas a infraestrutura, a coisa de concreto e vidro impressionante, mas também a quantidade de gente circulando. Eu estava acostumado com um lugar em que eu via sempre as mesmas pessoas, sempre pouca gente andando pela rua e as coisas tinham horários muito pré-definidos para acontecer, com uma rotina bem pacata. Ir pra Paulista alimentava um pouco a minha imaginação, eu via um monte de gente diferente. Não importava muito o que eu ia fazer, era mais pela experiência sensorial de poder ver aquelas coisas. Toda criança tem esse imaginário de realidades alternativas: você vê um programa de TV e se imagina dentro de uma aventura espacial, por exemplo. Pra mim, pegar o metrô, ir pra Paulista e passear por ela me dava um ambiente real onde eu podia projetar toda essa minha fantasia. Era meio como uma materialização desse universo interno que eu ia criando”.

“O meu pai gosta muito de museus e exposições, então o vão livre do MASP tinha um significado especial pra mim. Lembro de ir ao MASP e tenho memórias muito fortes do vão naquela época, tanto com a feira que rola até hoje por ali quanto sem ela. Aquela construção sempre teve uma proporção muito gigantesca pra mim. Outro lugar era o prédio da Caixa, que tinha umas cadeiras e bancos de concreto, com formato circular. Por algum motivo era um lugar especial, eu também via ali algo de outro mundo. Acho que fecharam a entrada desse prédio e não sei se ainda dá pra circular mais por ali. Indo além da Paulista, todas essas construções de concreto muito grandes, como as estruturas do Memorial da América Latina, acabam sendo meio áridas e com muito vazio ao redor. Senti algo parecido quando fui a Brasília. Não são lugares muito convidativos, não são muitos humanos e nem orgânicos, parecem inclusive afastar um pouco. Não tem árvore, não tem cobertura, você fica muito exposto e é visto por todos os cantos. Tanto no vão do MASP quanto no prédio da Caixa eu tinha essa sensação”.

“Todo mundo sabia chegar na Paulista”

“Esses passeios eram muito com o meu pai, minha mãe e o meu irmão. Depois que eu fiquei mais velho passei a ir mais sozinho. Ia de ônibus e de metrô. Já com uns 14 anos eu ia pra lá com amigos de colégio, pegava ônibus pro centro, pra região da Galeria do Rock. Estudávamos de manhã, saíamos da escola de mochila e tudo, íamos pra [Avenida Professor] Francisco Moratto, perto do nosso colégio, e ali tinha um monte de ônibus, vários atravessavam a [Avenida] Rebouças, em sentido ao centro da cidade. Quando aprendi a fazer esse circuito de ônibus, em direção à Galeria do Rock, comecei a ir com esses amigos ou sozinho mesmo, só pra passear. Mas não era com tanta frequência assim”.

“Depois, já com uns 20 anos, aí sim passei a ir muito na Paulista. Passei a buscar coisas mais distantes daquela realidade do bairro em que eu cresci. Até os meus 16 ou 17 anos, até eu sair do colegial, apesar de ter contatos com algumas pessoas de fora do bairro, o meu círculo de amizade era muito restrito àquela região em que cresci. Depois que comecei a fazer faculdade e a sair mais, passei a ir mais pra Paulista. Acabava sendo um ponto de encontro fácil pra todo mundo. Todo mundo sabia chegar na Paulista. Depois que saí da casa da minha mãe, fui morar na Vila Madalena, próximo da estação de metrô e passei a ir direto pra lá, muitas vezes sem qualquer tipo de programação. Ia pra Paulista só pra andar. Às vezes descia na estação Clínicas e ia andando até a Paulista, andava por ela toda e voltava só pra poder andar mais. Simples assim, gostava de andar por lá e observar. Foi quando a Paulista se tornou algo mais comum pra mim, assim como a própria cidade de São Paulo. De certa forma, isso também me aproximou dos problemas da cidade, que se materializam bastante naquela região, né? Pelo menos para mim, ela é meio que uma síntese do que é a cidade. Se você quiser saber um resumão de São Paulo, é só ir da Consolação até a Bernardino de Campos e você vai ter uma ideia do que é isso aqui”.

CONTINUA…