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Rogério de Campos, editor da Veneta: “Precisamos defender como pudermos as livrarias especializadas”

A chegada do épico Angola Janga – Uma História de Palmares, de Marcelo D’Salete, às livrarias estimulou o editor da obra, Rogério de Campos a refletir sobre os 11 anos de produção do álbum e algumas mudanças ocorridas na cena brasileira de quadrinhos durante o período. O texto a seguir, publicado com exclusividade pelo Vitralizado, trata principalmente dos tempos turbulentos vividos por artistas e lojas especializadas em um contexto de crise econômica e conservadorismo aflorado:

“Angola Janga, o novo livro de Marcelo D’Salete, é provavelmente o maior romance em quadrinhos já publicado por um brasileiro. São 432 páginas de uma saga a respeito dos últimos dias do quilombo dos Palmares. Ao mesmo tempo que a Veneta lança o Angola Janga no Brasil, a Fantagraphics, a mais respeitada editora de quadrinhos dos Estados Unidos, está lançando Run For it, a versão norte-americana do livro Cumbe, também do D’Salete. As primeiras resenhas que já recebeu lá são entusiasmantes: o The Huffington Post publicou um longo artigo muito elogioso, a Publishers Weekly colocou o livro como um dos principais lançamentos da temporada e a resenha no A. V. Club termina dizendo: “Run For It é certamente um dos mais belos quadrinhos do ano, mas não é apenas uma maravilha de se ver: D’Salete usa suas imagens poderosas para sensibilizar e informar o leitor. É um feito incrível em forma de história em quadrinhos”.

Ao longo deste ano, foi uma experiência muito especial acompanhar como editor a finalização do Angola Janga e ver a vitória do D’Salete depois dos 11 anos de trabalho que o livro tomou.

É também uma vitória dos quadrinhos autorais brasileiros como um todo. Daqueles que criaram o ambiente onde foi possível gerar obras como Cumbe e Angola Janga. Em primeiro lugar de artistas como a Laerte, o Allan Sieber, o Lourenço Mutarelli, o Rafael Coutinho, o Marcello Quintanilha e tantos outros que fizeram muito mais do que trabalhar em seus quadrinhos. Deram o exemplo, agitaram a cena, divulgaram outros autores. O Quintanilha, por exemplo, não apenas abriu portas para quadrinistas brasileiros com seu prêmio Angoulême e o sucesso de Tungstênio e Talco de Vidro: foi desde o início um entusiasmado divulgador do Cumbe na Europa. Não é coincidência que a editora francesa do D’Salete seja a mesma do Quintanilha.

A atual cena brasileira é resultado do esforço dos artistas; de editores como o Claudio Martini (Zarabatana), que seguiram publicando quadrinhos autorais mesmo em momentos bem difíceis da economia; dos fanzines, blogs e da porção da imprensa especializada que fez mais do que vestir a camiseta da Marvel; dos organizadores dos eventos – como o FIQ, a Bienal de Curitiba, as Jornadas Internacionais de Quadrinhos, os Encontros Lady’s Comics – que não são apenas festas de consumo, mas momentos para apresentação de novos autores e troca de ideias a respeito de como viabilizar a produção e divulgação dos quadrinhos não industriais; dos cúmplices dentro de secretarias de cultura e entidades diversas que deram um jeito de enfiar os quadrinhos nas programações. É um esforço até internacional, porque envolve também editores, agentes, tradutores e jornalistas gringos.

O principal elemento da base econômica desse boom foi o investimento governamental em programas de compras de livro para bibliotecas, subsídios para edições, subsídio para traduções de livros brasileiros no exterior, promoção de eventos e tal. O PNBE (Programa Nacional Biblioteca na Escola), principalmente, teve um papel chave nesse boom. O outro elemento fundamental para a euforia na área dos quadrinhos foi, é claro, o crescimento do mercado interno brasileiro nos anos do lulismo. Esses dois elementos estão em frangalhos depois do bombardeio das “políticas de austeridade” impostas de maneira vacilante pelo governo Dilma e de maneira feroz pelo governo golpista.

“Políticas de austeridade”, reforma trabalhista, reforma da Previdência, cortes na Educação, Cultura e Saúde, liberação do trabalho escravo… tudo isso pode ser bom para latifundiários que exportam commodities (diminui o custo da mão de obra) e certamente é ótimo para os bancos, que ficam com um naco ainda maior do dinheiro do Estado. Mas é péssimo para o povo e, portanto, péssimo para quem vive de vender seus produtos para o povo. Como as livrarias.

A livraria em que a Veneta fez o lançamento do Cumbe, em 2014, não existe mais. Ficava na Vila Madalena, era especializada em quadrinhos e certamente uma das livrarias mais bonitas da cidade. Chamava-se Monkix. Seus donos, os irmãos Antonio e Marcelo Bicarato, queriam fazer do lugar uma referência do quadrinho autoral brasileiro. A Monkix fechou no início deste ano. Não foi a única loja especializada que fechou depois do Golpe. Várias outras fecharam.

A Monkix não apenas vendia quadrinhos. À maneira do que fazem a maior parte das livrarias especializadas, a Monkix fazia a divulgação dos quadrinhos nas suas redes sociais, promovia lançamentos, montava bancas em eventos, abria seu espaço para debates etc. E colocava em destaque, no balcão central, quadrinhos independentes que muitas vezes nem tinham como entrar nas grandes livrarias. É por tudo isso que as especializadas são agentes essenciais para a evolução dos quadrinhos no Brasil. Nomes de livreiros como o Jorge Rodrigues (Comix) ou a Mitie Taketani (Itiban) ou o Manassés Filho (Comic House) ou o Octávio da Costa (Gibiteria) ou os Utescher (Ugra) não estão nas capas dos gibis, nem nos créditos das graphic novels. Mas são pessoas essenciais para os quadrinhos brasileiros terem chegado onde chegaram. Como dono de editora, meu interesse muitas vezes é oposto ao deles. Brigamos de tempos em tempos por causa das condições de venda, por exemplo. Mas nunca perco de vista que a saúde da minha editora no longo prazo depende muito da saúde destas livrarias pequenas, especializadas.

Sei que algumas editoras, diante do trabalho que dá cuidar do Comercial, do controle de consignações, das emissões de notas, da logística (vender custa e muito), decidem simplificar e simplesmente vender seus livros em seu site, ou exclusivamente através de apenas uma grande livraria. Entendo, é mais fácil, cada um é cada um, mas eu acho que isso é um tiro no pé.

Vejo também que vários autores de livros criados com financiamento coletivo ou subsidiados pelo PROAC nem tentam fazer a distribuição em livrarias. Ouço falar de salas e garagens onde mofam caixas com centenas de livros que, afinal de contas, foram financiados com dinheiro público. Sei que, no caso do Proac, tem a cota que vai para a Secretaria para ser distribuída para as bibliotecas. Ótimo! Muito bom! Mas são as livrarias o ponto de encontro dos quadrinhos. Sem passar por elas, é muito grande a probabilidade do livro se tornar estéril, não ser conhecido por outros quadrinistas, não gerar outras obras. Se não quer passar pela chateação de aguentar editor interferindo na obra, se tem a certeza que pode fazer a divulgação sozinho, ótimo! Mas, por favor, arrume um jeito de dar a chance a seu livro de encontrar seu público, essa é uma responsabilidade social de autor.

Enfim, não dá para esperar: Fora Temer! Já! E leva junto o Henrique Meirelles!

Mas além daquilo que, como cidadãs e cidadãos, podemos fazer contra o Golpe, nós que temos interesse na sobrevivência dos quadrinhos brasileiros precisamos defender como pudermos as livrarias especializadas. Elas são nossos quilombos.”

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Sábado (22/7), a partir das 16h, na Ugra: uma conversa com Rogério de Campos sobre A Vida Secreta de Londres

Sábado (22/7) estarei na Ugra a partir das 16h pra conversar com o editor da Veneta, Rogério de Campos, sobre a coletânea A Vida Secreta de Londres. Acho um papo bem promissor e sobre um dos grandes lançamentos de 2017 – não é todo dia que você vê por aí um álbum com trabalhos de Alan Moore, Neil Gaiman, Dave McKean, Iain Sinclair e Melinda Gebbie. Recomendo uma lida na minha matéria sobre o livro lá no UOL pra você sacar mais sobre o projeto. Ó a sinopse do que deve rolar lá na Ugra, tirada da página do evento no Facebook:

“O quadrinista e editor argentino Oscar Zarate reuniu artistas como Alan Moore, Neil Gaiman, Dave McKean, Iain Sinclair e Melinda Gebbie para expor alguns dos segredos da capital inglesa no álbum A Vida Secreta de Londres. A coletânea recém-publicada no Brasil pela Editora Veneta será lançada oficialmente na Ugra Press, no dia 22 de julho, com um bate papo entre o editor brasileiro da obra, Rogério de Campos, e o jornalista Ramon Vitral.

A conversa vai tratar das origens do projeto de Zarate, das diferentes vertentes dos quadrinhos britânicos representadas no livro, da relação das cidades com as pessoas que nelas habitam e da conturbada realidade política e social de Londres em meio à saída eminente do Reino Unido da União Européia”

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A leva mais recente de HQs brasileiras publicadas na Europa

Escrevi pro UOL sobre a leva mais recente de quadrinhos brasileiros publicados na Europa, principalmente na França e em Portugal, e também sobre o impacto da vitória de Marcello Quintanilha no Festival de Angoulême para os autores nacionais. Conversei com os editores Rui Brito e Rogério de Campos e com os quadrinistas Marcello Quintanilha, Felipe Nunes, Julia Bax, Cynthia Bonacossa, Wagner Willian, Fábio Moon e Gabriel Bá. Papos bem legais. A íntegra do texto tá aqui.

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Papo com Rogério de Campos: “O que está aquém no momento é a reflexão sobre quadrinhos no Brasil”

O momento extraordinário das histórias em quadrinhos brasileiras está fundamentado principalmente na qualidade das HQs lançadas por aqui ao longo dos últimos meses. O ano passado ficou marcado por uma quantidade inédita de publicações, pelo aumento no número de festivais e eventos relacionados a quadrinhos e na investida em diferentes formatos e estilos por parte de artistas e editores. Em meio a toda essa agitação, o editor Rogério de Campos publicou Imageria. Coletânea com vários trabalhos e artistas precursores da linguagem das histórias em quadrinhos, o livro apresenta pela primeira vez em formato impresso no Brasil obras de autores como Rodolph Töpffer, William Hogarth e Richard F. Outcault.

Ao longo das 360 páginas do livro, o editor reúne e investiga elementos em comum em títulos essenciais para a compreensão da origem e da composição das HQs como linguagem. “Depois que pesquisei tudo fiquei mais confuso do que no início. Não espere achar respostas sobre o que são quadrinhos. Você vai achar desenhos, histórias, histórias em quadrinhos, mas não explicação”, esclareceu o editor em uma conversa de quase duras horas realizada no final de janeiro na sede da editora Veneta.

Ao longo de seus mais de 30 anos trabalhando com histórias em quadrinhos, Rogério de Campos foi responsável pela introdução de alguns dos títulos e das empreitadas mais célebres do mercado brasileiro de HQs. Criador das lendárias revistas Animal e General, um dos responsáveis pela chegada dos mangás no Brasil no final dos anos 90 e atualmente editor de quadrinhos aclamados, como os títulos de Marcello Quintanilha e Marcelo D’Salette, Rogério de Campos tem muito a dizer não apenas sobre a produção de Imageria, mas também sobre a atual efervescência do mercado brasileiro de HQs.

“Me interessa o quadrinho vivo. Me interessa a invenção. Me interessou fazer o Imageria. Me interessa fazer uma coisa quando olho e digo: ‘nunca vi isso antes’. Gosto de publicar coisas que nunca vi antes. Até o julgamento estético é posterior.”

Imageria7

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