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Entrevistas / HQ

A Plaf #2 está nas lojas: “Os quadrinhos não podem se alienar de seu papel político, democrático”

O segundo número da revista Plaf já está disponível nas principais lojas especializadas em quadrinhos do país. Editada por Paulo Floro, Carol Almeida e Dandara Palankof, a publicação tem capa assinada pelo quadrinista Mascaro, uma entrevista com o artista Marcelo D’Salete e quadrinhos de autoria de Jô Oliveira, Brendda Costa Lima, Felipe Portugal e Mascaro. Eu escrevi uma das matérias da edição, tratando dos hábitos de consumo de leitores brasileiros e sobre questões relacionadas ao comércio de HQs no país. A revista tem 60 páginas, formato 21x28cm e preço de R$ 15.

Conversei por email com um dos editores da Plaf, o jornalista Paulo Floro. Ele falou sobre os principais desafios na edição desse segundo número da publicação, as principais lições da edição de estreia, as matérias e os quadrinhos presentes na Plaf #2 e a missão de uma revista sobre quadrinhos em um contexto político conturbado, de conservadorismo aflorado e princípios democráticos em risco. Papo massa, saca só:

“Acreditamos na democracia e vamos defendê-la acima de tudo”

Duas páginas da Plaf #2 com entrevista com Marcelo D’Salete

A primeira edição da Plaf foi lançada em agosto de 2017, com a promessa de periodicidade bimestral, mas o segundo número saiu apenas em outubro de 2018. O que aconteceu? Por que esse atraso?

O que aconteceu foi uma série de problemas referentes a um edital de cultura que tínhamos vencido. A produção do número 2 se iniciou quase que ao mesmo tempo do lançamento da edição 1, mas nos vimos imersos em uma discussão em relação às regras do edital, sobretudo quanto aos prazos. Se tivéssemos sabido que existia essa possibilidade de atraso nunca teríamos divulgado a periodicidade. Tentamos de todas as maneiras explicar a importância do projeto, dos benefícios que isso trazia às publicações independentes. Esses atrasos no repasse da verba nos fizeram atrasar o lançamento da edição 2, que estava pronta. Queríamos primeiro resolver qualquer pendência primeiro.

Esse atraso afetou de alguma forma a produção da revista e o conteúdo presente nesse segundo número?

Não. A revista ficou praticamente pronta ao final do lançamento da #1. Mudamos algumas matérias, mas por uma questão editorial mesmo, não por conta do atraso. Ficamos felizes com o resultado, com as colaborações e com o incrível trabalho de diagramação de Erika Simona, que também criou nosso logo.

“Queremos discutir a forma, falar de mercado e celebrar esse divertido entretenimento que é ler um gibi, mas não podemos deixar de dar nossa contribuição sobre o que está acontecendo no Brasil”

Matéria da Plaf #2 sobre consumo de quadrinho no Brasil

Quais as principais lições que vocês tiraram do primeiro número da revista? Como vocês tentaram aplicar esse aprendizado na segunda edição?

O principal aprendizado é em relação à gestão mesmo. Acredito que agora temos mais experiência em trabalhar com editais e captação de recursos. É algo que demanda muita organização, conhecimento jurídico e paciência. Aqui em Pernambuco os artistas sempre foram bastante engajados no papel do poder público na promoção da arte e da cultura, mas os quadrinhos sempre tiveram pouca presença. Agora vejo que já existe uma organização nesse sentido, com editores e artistas mais próximos, dialogando sobre possibilidades. Espero que um dia a cena de quadrinhos possa ser articulada como a do cinema e música, que por batalharam por tantos anos hoje já possuem uma abertura bem maior junto aos espaços de discussões de políticas culturais, bem como nas empresas e editais governamentais. Mas, ao mesmo tempo, vejo que os tempos estão mais difíceis para todos. Além da cena de quadrinhos, esse movimento de união deve ser de toda a cadeia produtiva de arte e cultura.

Você pode falar um pouco mais sobre a capa desse segundo número? Por que o Cristiano Mascaro? Vocês passaram alguma pauta pra ele em relação à arte que estamparia a capa dessa edição?

Para a capa do segundo número queríamos um artista pernambucano, este foi nosso primeiro pensamento quando começamos a desenhar o número 2. E Mascaro sempre foi alguém que admiramos. Ele foi um dos criadores da Ragu, revista pioneira em Pernambuco e no Brasil. Até hoje acho impactante uma HQ que ele fez para a Ragu que trazia os meninos de rua gigantes. Lembro de ter ficado emocionado de verdade lendo aquela história e ainda hoje sinto o impacto quando releio. Mascaro sempre uniu a busca por uma inovação na forma e na narrativa com questões sociais no roteiro. Pra gente que tem a Ragu como uma das maiores inspirações, ter Mascaro nesta edição é uma honra. A gente pediu uma HQ a ele, mas não pautamos nenhum tema. Como já sabíamos do seu estilo a confiança de que sairia algo incrível era total. Ele fez uma história incrível, que lembra um lambe-lambe, ao mesmo tempo em que se assemelha a um ensaio visual, bem inovador mesmo. E bastante atual para representar essa crise moral e política em que vivemos. Em relação à capa dissemos apenas o tom do editorial, que conclama os leitores a irem pra rua comprar gibi, de fortalecer a circulação autoral de quadrinhos, de celebrar leitores e lojistas.

Página da HQ de Jô Oliveira presente no segundo número da revista Plaf

O que vocês destacam nesse segundo número da revista? 

Para esse segundo número a gente quis debater um pouco o mercado editorial brasileiro, dar nossa contribuição em um debate que é bastante complexo e que possui diversas abordagens. Então em um primeiro momento a proposta foi falar da lógica de consumo, o modo como consumimos quadrinhos. Tem ainda uma entrevista com Marcelo D’Salete sobre Angola Janga e a representação da negritude nos quadrinhos. Quando ele venceu o prêmio Eisner, a revista estava pronta, mas não tinha ido à gráfica ainda e por isso conseguimos incluir essa informação, que é um registro poderoso. D’Salete é uma voz importante não só nos quadrinhos brasileiros, mas da cultura como um todo. O trabalho que ele vem fazendo de pautar uma nova perspectiva de nossa história é algo importante, urgente, muda paradigmas da história dos negros e negras no país. Destaco também o perfil de Jô Oliveira, que é um quadrinista pernambucano que tem um trabalho muito importante, mas pouco reconhecido. Ele é mais publicado no exterior do que aqui. E tem a cobertura que fiz do Festival de Angoulême, que neste ano teve uma boa presença de brasileiros. E tem ainda um perfil da Marca de Fantasia, editoria da Paraíba feita por um homem só, o Henrique Magalhães.

De quadrinhos temos a HQ de Mascaro, que já citei, que é bem legal. Chamamos Roberta Cirne por ter um estilo muito particular, um traço barroco, denso, que curtimos muito. Ela se dedica a pesquisar histórias de terror no Recife e faz parte de uma cena de horror que vem crescendo em Pernambuco nas HQs, no cinema, teatro. Já Brendda Lima é um nome importante dessa nova geração de quadrinistas que se dedicam a trabalhos mais autobiográficos, já acompanhávamos há um tempo as HQs dela na web. E teve Felipe Portugal, que trouxe um ensaio em primeira pessoa, inclusive citando a revista. Já a HQ de Jô Oliveira era um trabalho que ele tinha guardado e nos cedeu depois do perfil que fizemos com ele. Imagina a nossa alegria quando ele nos mandou? Não chegou a ser intencional, mas ficamos felizes em saber que todos os quadrinhos desta edição são de autores nordestinos.

Uma página do quadrinho de Brendda Costa Lima para a Plaf #2

Eu fico curioso em relação a essa missão dupla da Plaf, como uma revista de quadrinhos e sobre quadrinhos. É muito distinta a experiência de editar uma matéria ou uma crítica e editar uma HQ? Aliás, como é a dinâmica de vocês com os quadrinistas? Vocês pautam os temas sobre os quais eles devem tratar?

Essa missão dupla realmente é um desafio massa de se ter, nos dá uma instiga de pensar o cenário de quadrinhos de maneira crítica com matérias e textos ao mesmo tempo em que buscamos dar espaço para artistas que admiramos. Em geral damos liberdade para os quadrinistas, no sentido de estilo, roteiro, narrativa. O que acontece é que muitas vezes pautamos o quadrinista em relação a algum tema ou ideia. Por exemplo: sempre admiramos os quadrinhos que Felipe Portugal postava em que ele aparecia como um alter-ego refletindo sobre diversos temas e tentando explicar algum conceito. Então pedimos algo parecido a ele, mas sem dizer um tema. E o resultado superou nossas expectativas. Na edição 1 queríamos uma HQ que falasse sobre o Recife e se passasse no Recife e convidamos Raoni Assis pela ligação afetiva que ele tem com a cidade enquanto artista, o que deu origem à HQ sobre o OcupeEstelita. Acreditamos que podemos comunicar através das HQs que trazemos na Plaf e por isso sempre estamos em diálogo aberto com os autores.

O Brasil está passando por uma imensa crise editorial e corre o risco de eleger para a presidência um indivíduo militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista (nota do editor: a entrevista foi feita antes do resultado do segundo turno da eleição presidencial). Qual vocês acreditam ser o papel da Plaf dentro desse contexto nefasto? Como a revista se posiciona em relação a esse cenário?

Acreditamos na democracia e vamos defendê-la acima de tudo. Desde o número 1 estamos falando editorialmente sobre o que pensamos, colocando a arte como um espaço de diálogo e reflexão. Os quadrinhos não podem se alienar de seu papel político, democrático. Queremos discutir a forma, falar de mercado e celebrar esse divertido entretenimento que é ler um gibi, mas não podemos deixar de dar nossa contribuição sobre o que está acontecendo no Brasil. Com muita humildade espero que a Plaf possa proporcionar informação para resistir nesses tempos duros. Fiquei feliz de ver uma movimentação nas redes em torno da hashtag #desenhospelademocracia com vários artistas trazendo conteúdo antifascista, debatendo as eleições deste ano. Ninguém mais hoje pode ficar neutro, sobretudo no que diz respeito à perda de direitos e retrocessos na democracia.

Página do quadrinho de Mascaro para a segunda edição da Plaf

Quais as principais lições que vocês tiraram desse segundo número? Como vocês pretendem aplicar esse aprendizado nas próximas edições?

O maior aprendizado diz respeito à gestão de um projeto como a Plaf, que envolve custos relativamente altos de produção e impressão. Queremos aplicar essa experiência para as próximas edições, sobretudo quanto aos prazos. Quando terminamos de editar a revista, a colocamos em pré-venda por acreditar que tudo sairia dentro do nosso cronograma. O resultado é que atrasamos, o que frustrou a expectativa de muita gente. Quando a revista finalmente saiu mandamos uma cartinha pedindo desculpas. Isso é algo que dificilmente faríamos. Também ficamos mais experientes com relação à distribuição, que era algo bastante novo para todo mundo na equipe. É bem mais complexo do que despachar pelos Correios. Envolve gestão de estoque, prestação de conta, loja online, etc, o que melhorou bastante. Aproveito para agradecer a todo mundo que apoia a revista e dizer que somos gratos por todo o carinho que recebemos até agora. O retorno foi bem positivo da número 1 e espero que essa edição 2 tenha o mesmo sucesso.

O que vocês podem adiantar sobre os próximos números da revista? Qual é o futuro da Plaf?

Queremos muito retomar nossos planos de ter quatro edições por ano, mas agora preferimos não mais falar de uma data exata de lançamento da número 3. Esperamos bastante conseguir capitalizar a revista para que ela tenha sustentabilidade a longo prazo. Esperamos sensibilizar marcas e empresas do enorme potencial que a publicação possui, do diálogo que mantém com diversos públicos, pensar parcerias. Para esse número 2, que acabou de sair, ainda queremos fazer mais lançamentos. O mercado vive um momento muito complicado e nem arrisco a fazer uma previsão, mas com certeza vamos manter o nosso projeto editorial de falar de quadrinhos de uma maneira plural, inclusiva, dando destaque para a produção brasileira. Quem quiser embarcar nesse projeto conosco, será super bem-vindx. 🙂

A capa da Plaf #2

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Confira a capa da 2ª edição da revista Plaf, com arte de Christiano Mascaro

Taí a belíssima capa da segunda edição da revista Plaf, assinada pelo artista pernambucano Christiano Mascaro, um dos editores/fundadores da revista Ragu. A publicação entra em pré-venda na semana que vem no site da Plaf e reúne HQs inéditas assinadas por Brendda Costa Lima, Roberta Cirne, Felipe Portugal e Jão.

Nesse segundo número eu assino um texto sobre alguns hábitos de consumo de leitores de quadrinhos no país e o reflexo desses costumos na forma como se edita/vende/pensa HQ no Brasil. Segundo os editores Paulo Floro, Dandara Palankof e Carol Almeida, um dos pontos altos da revista é a uma longa entrevista com o quadrinista Marcelo D’Salete sobre Angola Janga e a representação dos negros nos quadrinhos nacionais. Quero muito, viu?

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Meia hora de conversa com Paulo Floro sobre o primeiro número da revista Plaf

Só fiquei sabendo agora: o pessoal do site Cabruuum filmou meia hora da minha conversa com o Paulo Floro, um dos editores da Plaf, durante o lançamento da revista aqui em São Paulo. O papo rolou na Ugra aqui em São Paulo no dia 30 de setembro e curti bastante o evento. Conversamos sobre a origem do projeto, as pautas da primeira edição e o futuro da publicação. Dá o play:

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Sábado (30/9) é dia de lançamento da Plaf #1 em São Paulo

Ó que massa: o primeiro número da Plaf terá um evento de lançamento em São Paulo no sábado (30/9), a partir das 16h, na loja da Ugra. A festa vai contar com um bate-papo com o Paulo Floro, um dos editores da revista junto com a Carol Almeida e a Dandara Palankof. Serei o responsável por mediar essa conversa com o Paulo e vou querer saber sobre a produção desse primeiro número da Plaf, do futuro da revista e alguns pitacos dele em relação ao jornalismo especializado em quadrinhos no Brasil.

Certeza de papo bom. Tive um prazer imenso em participar da edição de estreia da revista e tô muito curioso em relação aos próximos números. E acho ótimo conversar com o Paulo sobre esse momento de agitação também nos meios de comunicação especializados em HQs por aqui. E aí, vamos? Vai ser massa, viu? Dá um pulo lá na página do evento no Facebook.

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Sábado (2/9) é dia de lançamento da revista Plaf #1 na EV Store de Recife

Sábado (2/9) é dia de lançamento do primeiro número da Plaf em Recife. A festa rola na EV Store (Rua Conselheiro Portela, 417, Espinheiro) a partir das 15h e você confere todas as instruções de como chegar ao evento na página do lançamento no Facebook. A revista estará sendo vendida por R$15 e a promessa é de boa música e a companhia dos editores da publicação e anfitriões da festa – Carol Almeida, Dandara Palankof e Paulo Floro.

Já leu a primeira edição da revista? O que achou? Confesso que tô aqui já no aguardo do segundo número, mas por enquanto acho que vale parabenizar os três idealizadores do projeto e comemorar. É uma edição histórica e fico muito feliz de fazer parte disso com uma matéria. Vida longa à Plaf! Aproveito a deixa pra listar os lugares em que a Plaf tá a venda. Além da loja online da própria revista, você também pode comprar esse primeiro número em Recife, João Pessoa, São Paulo e Curitiba. Ó:

RECIFE:
Fênix Geek House
Rua Conselheiro Portela 665 – Espinheiro
Tel: (81) 3268-2536

Banca Guararapes
Av. Guararapes 223 – Centro
Tel: (81) 3224-5842

Bogart Café
R. Afonso Pena 96 – Santo Amaro
Tel:: (81) 3040-2243

EV Store
Rua Conselheiro Portela 417 – Espinheiro
Tel: (81) 3204-0973

JOÃO PESSOA
Comic House

Av. Nego 255 – Tambaú
Tel: (83) 3227-0656

SÃO PAULO
Ugra Press

Rua Augusta 1371 – Loja 116
Tel: (11) 3589-5459

Gibiteria
Praça Benedito Calixto 158 – 1o Andar – Pinheiros
Tel: (11) 3167-4838

CURITIBA
Itiban Comic Shop
Avenida Silva Jardim 845
Tel: (41) 3232-5367

 

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A capa da 1ª edição da Plaf, a mais nova revista brasileira sobre HQs: “Temos como desafio mostrar os quadrinhos como uma arte que dialoga com o mundo”

A primeira edição da revista Plaf será lançada no final do mês de agosto, com a arte da capa assinada pela quadrinista Lu Caffagi. A publicação terá 64 páginas, custará R$ 15 e foi editada pelos jornalistas Carol Almeida, Dandara Palankof e Paulo Floro. O primeiro número será vendido em lojas especializadas de Recife, João Pessoa, São Paulo e Curitiba. “A ideia principal era fazer uma revista que traduzisse bem o momento atual dos quadrinhos no Brasil”, diz Floro. Além de falar sobre a cena nacional de HQs em reportagens, entrevistas e resenhas, a Plaf também terá quadrinhos inéditos assinados por Lu Cafaggi, João Lin, Caio Oliveira e Raoni Assis.

A Plaf terá periodicidade bimestral, com seus quatro primeiros números produzidos com incentivo do Funcultura (Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura, do Governo do Estado de Pernambuco). O slogan da revista é “O mundo dos quadrinhos é o mundo todo” e o material de divulgação do periódico promete “foco na produção autoral e na diversidade temática, abordando desde autores brasileiros até produções estrangeiras”. A publicação também é uma iniciativa da Revista O Grito!. Segundo os editores, “a ideia é que outras publicações sejam lançadas, sempre tendo como proposta a valorização da cena independente”.

No sumário desse primeiro número da Plaf consta uma matéria minha sobre os ciclos produtivos das HQs brasileiras, inspirada nos meus dois cursos realizados na Ugra em 2016. Dentre os destaques da edição estão uma entrevista com o quadrinista André Dahmer, um infográfico sobre as andanças de Tintin pelo mundo e uma coluna sobre Maria Aparecida Godoy, uma das primeiras roteiristas brasileiras a ganhar destaque no mercado editorial. Também focada na cena pernambucana e nordestina de quadrinhos, a Plaf também virá com uma reportagem sobre a Ragu, importante publicação de quadrinhos de Recife. Um dos quadrinhos impressos é assinado por Raoni Assis e Rodrigo Acioli tratando do Ocupe Estelita, movimento que questiona a especulação imobiliária em uma área histórica do Recife. Lu Caffagi, Renata Rinaldi, João Lin e Caio Oliveira assinam as demais HQs.

Fiz uma entrevista por email com Paulo Floro e Dandara Palankof sobre as origens da Plaf, a linha editorial do projeto, o conteúdo desse primeiro número e os planos para o futuro da publicação. Ó:

“O mundo dos quadrinhos é o mundo todo”

É daquelas perguntas meio óbvias, mas essenciais. Qual é a origem da revista? Vocês lembram do momento em que surgiu a ideia da Plaf?

Paulo: Eu sempre quis criar algum produto derivado da cobertura de quadrinhos que fazíamos na Revista O Grito!, mas não sabia bem o quê. Desde o início, lá em 2008, 2009, quando criamos o site tínhamos como proposta falar de HQs sem ter o nicho geek/nerd como norte, apostando em um olhar mais alternativo, autoral, “indie”, que era a nossa proposta pra falar de música, por exemplo. E sempre amei revistas impressos, como colecionador mesmo, aí fui amadurecendo a ideia de criar um título impresso. Com o crescimento do cenário de quadrinhos brasileiro, com autores nacionais ganhando cada vez mais destaques e a chegada de obras estrangeiras por aqui, novas editoras, toda essa efervescência, criei esse projeto de uma revista sobre esse momento, que comentasse tudo isso. Tentei por dois anos que ela fosse aprovada em um edital de cultura daqui de Pernambuco (o Funcultura) até que fosse aprovado. Sabia que seria caro fazer a revista com o formato que imaginamos. Para a empreitada chamei Dandara Palankof, que é uma amiga pessoal, colega de mestrado (onde pesquisa quadrinhos, assim como eu) e que assina uma coluna n’O Grito! sobre mulheres e HQs, além de ser tradutora para editoras como Mino e Panini. E convidei também Carol Almeida, que foi uma das primeiras pessoas a escrever sobre quadrinhos com regularidade na imprensa daqui e que sempre admirei muito. Eu só concebi o projeto inicial da revista, mas de resto tudo foi criado em conjunto, o formato, as seções, pautas, HQs, tudo. E chamamos Erika Simona, que é uma designer que já colaborou com O Grito! e que tem uma visão muito criativa e elegante.

“A ideia é tornar os quadrinhos – ou melhor, o debate sobre os quadrinhos – popular no Brasil”

Eu ainda não li a Plaf, mas pelo release, pela capa e pelo que vocês me adiantaram, a linha editorial dela parece ser muito focada na diversidade dos quadrinhos brasileiros – seja de estilos, gêneros, regiões… Como vocês chegaram nesse foco?

Paulo: Sim, a ideia principal era fazer uma revista que traduzisse bem o momento atual dos quadrinhos no Brasil. Tanto em relação aos trabalhos autorais daqui quanto em relação à produção estrangeira que está saindo no país. Queremos falar também de mercado, de quadrinhos na universidade, olhar para todos os lados, sabe, mas sem nunca esquecer as HQs como uma expressão artística própria, autoral, criativa. Quando nos reunimos pela primeira vez decidimos estabelecer que a Plaf teria como desafio mostrar os quadrinhos como uma arte que dialoga com o mundo, por isso bolamos o slogan “o mundo dos quadrinhos é o mundo todo”. Você vê isso acontecer com outras artes o tempo todo: cinema para falar de conflitos mundiais, literatura para comentar relações sociais, temas como feminismo, raça, gênero, artes visuais como alegorias para momentos políticos, etc. Mas com quadrinhos sinto essa tendência de se fechar, falar com um só público, analisar a obra de maneira fechada. Hoje não podemos falar de alguém como Dahmer ou D’Salete apenas pelo fato de seus trabalhos serem narrativamente incríveis. Nem com os comics americanos podemos fazer isso, imagine autores brasileiros ousados como esses? Aí demilitamos esse foco. Para o primeiro número nossa matéria principal é sobre quadrinhos LGBT e queer, pois quisemos marcar território, falar com propriedade de algo que sabemos na pele já que a revista tem duas lésbicas e um cara gay como editores hehe.

O segundo foco foi falar de quadrinhos do Nordeste. Tem muita coisa incrível por aqui que não consegue projeção. Queremos também incentivar a produção local, sobretudo aqui de Recife. Nesse número temos uma matéria sobre a Ragu, que é uma revista super importante para os quadrinhos e que sempre admiramos enquanto leitores. Esperamos que ela retorne em breve, pois sua importância para a arte das HQs ainda precisa ser mais reconhecida. E chamamos nomes veteranos para assinar HQs, caso de João Lin e de um mais novo, Raoni Assis, que é também artista plástico.

E o terceiro foco da revista é mostrar que os quadrinhos são bem legais, populares, instigantes e que todo mundo deveria ler! Tem quadrinho pra todos os gostos. Nos preocupamos em deixar o texto bem gostoso de ler, ainda que se aprofundem bastante nos temas. O importante é que a gente quis afastar um tom mais acadêmico, distanciado, pelo contrário, queremos a Plaf o mais pop possível. Por conta do incentivo do edital deu para vender a revista por R$ 15, o que é bem barato para a qualidade do papel, tamanho, etc. Mas a ideia é tornar os quadrinhos – ou melhor, o debate sobre os quadrinhos – popular no Brasil.

A revista mescla matérias e resenhas com histórias em quadrinhos. Como foi o trabalho de chegar nas pautas e nos autores que entrariam nessa edição? Vocês sugeriram temas para os quadrinistas?

Paulo: Desde o início nos empolgamos com a ideia de trazer HQs inéditas, o que acredito aumentou o valor simbólico da revista. Cada artista que chamamos teve uma história diferente. A capa decidimos chamar a Lu Cafaggi pois queríamos uma arte delicada como o estilo dela. Aí aproveitamos e pedimos uma HQ. Dissemos a ela o tema principal da edição, que era LGBT e quadrinhos e ela nos entregou uma história linda sobre um casal de meninas. Com João Lin decidimos dar carta livre, pois o estilo dele é bem experimental e ousado e decidimos não interferir nada no processo criativo. Renata Rinaldi é um nome que sempre admiramos e que vem do quadrinho independente e queríamos alguém desse meio, que é mais ousado. Amo os zines dela desde que conheci no FIQ de 2015. Para a HQ de fechamento pensamos em colocar uma tira de humor e um dos nomes que mais curtimos é Caio Oliveira, do Piauí. E a história do Ocupe Estelita surgiu já na nossa primeira reunião de pauta. Quando convidamos Raoni Assis já foi falando dessa pauta. Iríamos chamar Raoni para a revista de uma maneira ou de outra, pois acho que ele é um dos autores mais interessantes no momento em Pernambuco, mas a HQ que ele criou sobre o movimento é algo que vai ficar pra sempre, ficamos bem felizes com o resultado. Cineastas locais têm comentado bastante sobre o mal da especulação imobiliária e a destruição da memória aqui no Recife e agora os quadrinhos também trazem uma contribuição. Isso é muito legal e nos dá muito orgulho.

Recife é um pólo cultural brasileiro e movimentos como o Ocupe Estelita mostraram um pouco do ativismo dessa cena artística local. A Plaf também reflete sobre essa agitação rolando por aí?

Paulo: A gente espera que sim! Tentamos fazer isso com a cobertura na Revista O Grito!, destacando autores que tratam de assuntos importante à cidade. Com a Plaf queremos que os quadrinhos também sirvam como uma expressão artística relevante para debates. Você pega o movimento Ocupe Estelita e vê vários artistas engajados, de música a cinema, passando por artes visuais e teatro. Agora os quadrinhos também estão chegando. O ponto crucial é que a cena de quadrinhos estava adormecida por aqui, mas está ressurgindo. No passado tínhamos um evento de porte, o Festival Internacional de Humor e Quadrinhos, que trouxe até Will Eisner, tínhamos a Ragu, etc, mas foi arrefecendo. Quando eu e Dandara fomos ao FIQ de 2015 as pessoas não paravam de nos perguntar, “porra, cadê os gibis de Recife?, “Vocês tem uma produção gigante de filmes, discos, mas não vemos as HQs”, etc. Agora isso já está mudando: na Comic-Con Experience Tour, que rolou esse ano, pudemos ver muitos lançamentos pernambucanos, além de muitos autores da Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte e Piauí. Ficamos bem felizes. Não quero ter a pretensão de dizer que a Plaf vai significar uma retomada da produção local, mas queremos ajudar de alguma maneira.

“É importante que todo meio, toda expressão artística – tudo que atinge um público intelectualmente e emocionalmente – sofra uma reflexão”

A produção de conteúdo sobre quadrinhos na internet brasileira tá cada vez mais voltada pro consumo. Desde a chegada da Amazon no Brasil há uma proliferação de canais no YouTube e sites especializados voltados pra indicação da compra de HQs – e acredito que isso acaba esvaziando um pouco o debate. Qual vocês consideram ser a importância de se refletir sobre HQs e aprofundar a conversa como a Plaf se propõe a fazer?

Dandara: Realmente, a discussão sobre as histórias em quadrinhos na mídia, hoje, se limita basicamente às resenhas – não que elas não sejam importantes; uma revista como a que nos propusemos a fazer, inclusive, precisa ter uma seção de resenhas – assim como fazem outras publicações, como o Suplemento. Mas a discussão não pode se encerrar em quais os gibis mais maneiros pra comprar no mês. É importante que todo meio, toda expressão artística – tudo que atinge um público intelectualmente e emocionalmente – sofra uma reflexão. Sobre sua história, seus lugares na sociedade, seus discursos. É justamente por percebermos esse vácuo que a Plaf foi criada: pra somar, pra agregar ao público leitor, em formação ou veterano, mais espectros sobre esse mundo tão plural, em gêneros, formatos e mensagens, que são as histórias em quadrinhos.

Quais os planos de vocês pro futuro da revista? A segunda edição já está em produção?

Paulo: A gente aprovou quatro números nesse edital de cultura, então temos planos de manter esse mesmo preço por esse período. A nossa meta é dar vida longa à publicação. Para isso estamos fazendo um caixa para lançar a revista a partir do número cinco. Depois da estreia vamos cair em campo em busca de apoio para financiar a revista e acreditamos que ela tem um potencial enorme de crescer e atingir muitos outros públicos. Estamos já trabalhando no número 2 e estamos empolgadíssimos.