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Entrevistas / HQ

Papo com Pedro D’Apremont, autor de Notas do Underground: “A graça da série era justamente me soltar e fazer as coisas sem muito filtro”

Há dois eventos marcados para o lançamento do álbum Notas do Underground, do quadrinista Pedro D’Apremont: o primeiro no próximo sábado, dia 15 de junho, na Loja Monstra, em São Paulo, e o segundo no sábado seguinte, dia 22 de junho, na Itiban Comic Shop, em Curitiba. Na capital paulista, D’Apremont estará na companhia do editor da obra e do selo Pé-de-Cabra, Carlos Panhoca, da artista Arame Surtado e do editor Lobo Ramirez – que estarão lançando a revista Ketacop pelo selo Escória Comix. Já no evento no Paraná, também estará sendo lançada a nona edição da revista Weird Comix, do quadrinista Fábio Vermelho.

As 44 páginas coloridas de Notas do Underground reúnem pela primeira vez em português as sete histórias em quadrinhos publicadas por D’Apremont no site americano da revista Vice protagonizadas por músicos, fãs de música e figuras pouco usuais do punk e do metal.

“Desde a adolescência que sou apaixonado por metal e punk, toquei em bandas, contribuí pra blogs de resenha de discos, fui em centenas de shows, etc”, conta o quadrinista em conversa com o blog. “Me amarro em explorar microgêneros estranhos, discos raros e subculturas associadas a todo tipo de música e lugar, então esse tema de música underground sempre me foi muito querido”, explica o autor em relação ao tema da coletânea publicada pelo selo Pé-de-Cabra.

Reproduzo a seguir a íntegra da entrevista com D’Apremont, na qual ele fala mais sobre o desenvolvimento das histórias que estão impressas em Notas do Underground, expõe algumas de suas técnicas e influências e comenta a sua paixão pelos trabalhos do quadrinista Peter Bagge. Papo bem massa, saca só:

“Resolvi que ia voltar a fazer histórias curtas sobre coisas que eu gosto, não importa o quão de nicho elas são”

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

Eu queria saber como o Notas do Undergound teve início. A revista é uma coletânea das histórias que você publicou na Vice, certo? Mas como começou esse projeto com a Vice? Eles te passaram um tema ou você que sugeriu? Quanto tempo durou a parceria com eles? Que tipo de retorno você teve dos editores e dos leitores?

Eu e o Gabriel Góes já fazíamos a série Vania pra Vice desde 2016 (que também foi compilada e saiu como um gibi pela Ugra Press em 2017, Anexia é um Paraíso). Eu sempre gostei de fazer HQs pro portal deles porque o editor da seção de quadrinhos, o Nick Gazin, tinha uma preferência por histórias curtas e experimentais, o que criava uma espécie de laboratório onde nós podíamos testar diferentes formatos, estilos, narrativas e ver o que funcionava bem ou não. O problema é que como o Vania era um projeto a quatro mãos, as historias demoravam a sair e dependiam muito da disponibilidade não só minha como a do Góes também. Entre uma HQ do Vania e outra, a ideia de começar uma série paralela só minha, com historias mais soltas e sem necessariamente personagens recorrentes, foi fermentando na minha cabeça.

Acho que fazer quadrinhos sobre música foi uma sugestão da Cynthia Bonacossa na época em que a gente dividia um estúdio.  Por volta de 2016 e começo de 2017 eu andava super frustrado com meu trabalho. Me dediquei a vários projetos que já não me davam prazer em produzir e ao que tudo indicava, não iam muito a lugar nenhum. O mercado pra ilustração estava (e continua) péssimo e os poucos trampos freelancer que eu pegava eram bem merda. Desenhar, de repente, não era mais divertido e não me dava nenhum tesão. Pra tentar reverter essa situação resolvi que ia voltar a fazer histórias curtas sobre coisas que eu gosto, não importa o quão de nicho elas são. Desde a adolescência que sou apaixonado por metal e punk, toquei em bandas, contribuí pra blogs de resenha de discos, fui em centenas de shows, etc. Mas também sempre ouvi mil coisas diferentes e me amarro em explorar microgêneros estranhos, discos raros e subculturas associadas a todo tipo de música e lugar, então esse tema de música underground sempre me foi muito querido.

A impressão que eu tenho é que o editor começou a gostar mais dos meus quadrinhos com o tempo haha. No começo ele criticava muito meus roteiros, mas à medida que o tempo foi passando meus enredos foram ficando mais sólidos, mais parecidos com uma história com início, meio e fim e não só uma piada, e senti que ele as aprovava com mais entusiasmo. Eu não faço a menor ideia se os leitores gostaram desde que a Vice acabou com a sessão de comentários. Mas mais gente começou a me seguir e acompanhar meu trabalho desde que eu comecei essas hqs, o que é um bom sinal.

A série se encerrou no começo desse ano, quando a sessão de quarinhos do portal da Vice foi abandonada. Uma pena, tinha muita gente boa publicando lá. RIP.

O cartaz dos eventos de lançamento de Notas de Underground, nova HQ de Pedro D’Apremont, na Loja Monstra, em São Paulo, e na Itiban Comic Shop, em Curitiba

Você tinha um ponto de partida em comum para cada uma das HQs? Digo, algumas me soam como ficção, outras parecem ter elementos autobiográficos e outras são autobiográficas ao pé da letra. Você mantém algum caderno de ideias para essas histórias? Você conversava com amigos sobre histórias ambientadas no universo que é retratado na série?

Na verdade o único ponto de partida era que as historias tinham que se relacionar de algum jeito com o tema central da série. Fora isso era meio vale-tudo mesmo, o que foi bom, pois me fez experimentar com vários tipos de narrativa. Às vezes me dava na telha contar de um bar horrível que eu frequentava e fechou por causa de uma briga de faca, às vezes eu imaginava uma HQ em que uma banda de Black Metal se perdia na floresta enquanto gravava um clipe… A princípio eu usava tudo que dava espaço pra contar uma historia com começo, meio e fim em poucas páginas. A graça da série nesse primeiro momento era justamente me soltar e fazer as coisas sem muito filtro.

Depois de um certo tempo percebi que as HQs estritamente autobiográficas eram as que eu menos gostava de produzir. Sempre fica um pouco aquela dúvida no final de “será que eu só acho essa historia interessante por que ela aconteceu comigo?” ou: “será que essa é uma historia engraçada de se ouvir num bar mas não funciona como quadrinho?”. As minhas histórias fictícias quase sempre têm uma situação que aconteceu comigo ou com amigos e conhecidos misturada no meio, então acabei aposentando as auto-biográficas stricto sensu mais pra frente. Até porque parece que todo mundo produz quadrinhos autobiográficos hoje em dia. Eu mesmo já estou bem enjoado do gênero.

Em geral quando tenho uma ideia pra um roteiro novo eu a anoto num caderno. As primeiras anotações são sempre ideias super soltas, mas a partir delas eu vou dando carne à historia até ela parecer bem firme. Eu costumava evitar falar sobre minhas ideias antes de ter terminado meus quadrinhos, muito por medo de zicar mesmo, mas alguns dos roteiros dessa série eu discuti com o Nick Gazin antes. Primeiro porque se ele não gostasse do meu quadrinho ele não era publicado e eu não era pago haha. Mas depois vi que as críticas que ele fazia aos meus roteiros estavam me ajudando a fazer quadrinhos cada vez melhores e passei a curtir muito essa fase do processo.

“Tenho gostado cada vez mais de escrever tudo antes de fazer o planejamento visual, mas ainda sou muito inquieto, fico querendo desenhar logo”

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

Você pode contar um pouco sobre os seus métodos de produção dessas HQs? Você chegava a finalizar um roteiro antes de começar a desenhar? A coisa saia toda ao mesmo tempo? Você seguia algum padrão específico na produção desses quadrinhos?

As primeiras historias eu fiz sem um roteiro escrito, só storyboard. Eu sempre faço storyboards porque eles me ajudam a planejar tudo bem mais rápido e ter uma ideia do tamanho da HQ no final, mas eu tenho pouquíssima paciência pra sentar em frente ao computador e ficar escrevendo no Word. Um pouco mais pra frente eu passei a escrever roteiros “de verdade” porque as HQs foram ficando mais compridas e verborrágicas, e organizá-las direto no storyboard ficou muito difícil. Tenho gostado cada vez mais de escrever tudo antes de fazer o planejamento visual, mas ainda sou muito inquieto, fico querendo desenhar logo.

Eu também queria saber sobre os materiais que você usa. Você usa tinta e papel ou trabalha com o digital? 

Tirando as cores (que são feitas no Photoshop) faço tudo do jeito mais tradicional possível. Uso pincel, bico de pena, nanquim e canetinhas.

Na hora de finalizar meus desenhos eu sigo o mesmo método do Peter Bagge: pincel nos personagens e objetos moles ou fofos e bico de pena/caneta nos objetos mais retos ou sólidos. É meio estranho mas funciona bem.

Ultimamente eu tenho substituido as canetinhas por bico de pena, porque elas ficaram muito vagabundas e caras. A tinta dessas UniPin apaga muito quando você usa a borracha, e isso é um inferno quando você vai escanear a página.

“Aposto que se algum outro cartunista visse meu processo do começo ao fim ia ficar chocado com o quão tosco ele é”

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

Você pode falar sobre a paleta de cores? Acredito que exista uma paleta predominante nas histórias, certo?

Sim, todas as historias seguem mais ou menos a mesma paleta. Como o tema que conecta todas as historias é muito solto, achei que eu precisava compensar isso fazendo elas com visual bem coerente entre si.

Eu sou um péssimo colorista e não me lembro exatamente como cheguei nessa paleta. Mas tenho quase certeza que comecei copiando as cores de algum quadrinho ou ilustração que eu gosto e fui ajustando os tons e valores de cada cor individual até chegar em algo que me agradava e diferia o suficiente do material original no qual eu me inspirei. Eu não tenho uma educação formal em artes plásticas ou design, então muitas vezes faço as coisas na base da tentativa e erro. Aposto que se algum outro cartunista visse meu processo do começo ao fim ia ficar chocado com o quão tosco ele é. Também apago tudo mil vezes e encho a página de corretivo.

Aos poucos fui fazendo pequenas mudanças na paleta, mas ela permaneceu praticamente a mesma desde o começo da série. Fui acrescentando sombra e focos de luz nas últimas histórias e diferentes tonalidades de acordo com a hora do dia, mas sempre fico cabreiro de tentar complicar demais as coisas e estragar tudo. Em geral trabalho melhor com paletas bem reduzidas.

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

A capa dessa edição é sensacional. Como você chegou nela? Foi difícil definir essa capa?

Pô, valeu! Haha

Eu fiz várias capas antes de chegar nessa. Uma delas acabei usando de 4ª capa. O desenho ficou legal e tudo mais, mas achei que tinha alguma coisa faltando. Mandei pro Nick Gazin e pedi a opinião dele. Ele disse que o que faltava algum elemento mais humano. Não tem nenhuma pessoa no desenho, só uns amplificadores quebrados, com várias garrafas, latas de cerveja e bitucas de cigarro em cima.  Ninguém ia se identificar com essa imagem.

Na versão final eu quis dar uma ideia de movimento, de quebradeira, bem forte. Uma das primeiras coisas que me vieram à cabeça foi um mosh gigante e alguém pulando do palco. Aí foi questão de olhar um monte de referências (umas fotos do Fugazi tocando ao vivo, principalmente) e tentar descobrir o jeito mais dinâmico de desenhar a capa. Depois disso foi tranquilo.

O título originalmente ia ser no estilo de um logo de banda metal extremo, completamente ilegível, mas me convenceram de que era uma péssima ideia.

“Talvez a minha coisa favorita das HQs nacionais são aquelas histórias longas dos Pirata do Tietê, tanto pelo desenho insano quanto pelos enredos”

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

Eu vejo no seu traço e nas histórias que você conta uma relação com autores americanos que se propõe a narrar eventos banais e corriqueiros – e torná-los de alguma forma interessantes e/ou engraçados. Tô pensando nuns quadrinistas-cronistas como o Daniel Clowes e o Charles Burns, por exemplo. Essa galera é influência pra você? 

Sim, sou fã dos dois! Vivo relendo os livros do Clowes que eu tenho aqui em casa e nunca me canso deles. Sou muito influenciado pelas coisas da Laerte e do Angeli da época da Circo e Chiclete com Banana também, que tinham essa coisa de misturar o dia a dia na cidade de São Paulo com situações bem absurdas e escrotas. Talvez a minha coisa favorita das HQs nacionais são aquelas histórias longas dos Pirata do Tietê, tanto pelo desenho insano quanto pelos enredos.

Mas meu favorito de todos os americanos em relação a roteiro é o Peter Bagge. Quase todo ano eu releio Hate de cabo a rabo, e cada vez mais me impressiona como cada personagem ali dentro parece real. Quanto mais tempo passa mais me identifico com o Buddy Bradley e é meio assustador o quanto que eu passei por situações parecidas com a de alguns personagens depois de ter lido Hate.

É dose, sou muito paga-pau da “geração Fantagraphics” mesmo.

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

E eu fiquei pensando também na relação do livro com os primeiros quadrinhos do Joe Sacco. Acho que você não se propõe a fazer jornalismo, mas tá ali registrando e narrando o que viu – e também tem o termo “notas” no título, presente constantemente nos quadrinhos do Joe Sacco. Ele também foi/é uma influência pra você?

Na verdade não. Eu li O Derrotista quando estava na faculdade e gostei bastante, mas os quadrinhos dele nunca mexeram muito comigo.
O título do meu gibi é uma brincadeira com o Notas do Subterrâneo do Dostoiévski. Nas traduções em português às vezes ele aparece como “Diário do Subterrâneo” também, mas preferi usar a palavra ‘notas’ porque tem uma conotação mais informal que se relaciona bem com as historias curtas. Além do mais, ‘diário’ ia fazer parecer que o gibi inteiro é composto por historias autobiográficas.

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

No que você está trabalhando atualmente? Você tem algum livro novo nos seus planos?

Estou terminando uma HQ do Harry e do André, aqueles dois personagens adolescentes que aparecem algumas vezes no Notas. Não sei ainda o que vou fazer com ela, nem aonde essa história vai ser publicada, já que eu não estou mais na Vice e fechei meu Tumblr. Veremos qual espaço virtual passarei a habitar!

Espero nos próximos meses terminar um projeto grande que eu negligenciei completamente no último ano, mas não vou falar muito aqui pra não zicar. E também quando você fala que vai fazer uma coisa as pessoas vão cobrar depois, é mó chato.

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

A última! Você pode recomendar algo que esteja lendo /assistindo/ ouvindo no momento?

Esses dias quase que só tenho assistido/lido mangás e animes dos anos 80. Finalmente peguei Berserk pra ler uns meses atrás e já virou uma das minhas HQs favoritas.  O negócio é desgraceira atrás de desgraceira e tem um ritmo absurdo. Cada volume é um disco de Death Metal em forma de gibi, dá vontade de fumar um cigarro depois de terminar de ler. Fora isso tenho acompanhado JoJo’s Bizarre Adventure religiosamente, mas tudo que o mundo menos precisa agora é de mais alguém falando de JoJo.

De música não tenho descoberto nada muito novo… Tem um DJ de House que eu tenho ouvido sem parar quando estou desenhando, chamado Bill Jobs. Se alguém quiser uma recomendação de um som bem obscuro, ouça Circle Of Ouroborus. Principalmente um split deles com o Drowning The Light que chama Moonflares. Essa banda é criminalmente desconhecida, e eu acho ela muito única. Escute sem saber o que esperar.

Pode uma recomendação de videogame também? Joguem Nidhogg.

A capa de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont
HQ

Está no ar a convocatória para a segunda edição da Revista Pé-de-Cabra

A Pé-de-Cabra foi uma das belas novidades dos quadrinhos brasileiros de 2018. O segundo número da publicação tá previsto pro primeiro semestre de 2019 e o editor do projeto, Carlos Panhoca, divulgou hoje a convocatória para artistas interessados em participar da revista. O tema dessa segunda edição será ‘doença’ e as regras para o envio de trabalhos estão disponíveis lá na página da Pé-de-Cabra no Facebook. Reproduzo a seguir a lista com as exigências para participar da revista e deixo aqui o link da minha entrevista com Panhoca, feita na época do lançamento da primeira edição. Saca só:

(a arte da chamada da convocatória é assinada pelo Bernardo França)

“Para mandar trabalhos para essa edição você precisa cumprir isso aqui ó:
01. Os trabalhos podem ser histórias em quadrinhos, colagens, ilustrações ou fotografia, de 1/2 a 6 páginas, no formato 16 x 24,5 cm;
02. Os trabalhos devem ser em preto e branco porque gastamos muita grana com remédio e não temos dinheiro pra fazer uma revista colorida;
03. Os trabalhos devem ser inéditos;
04. Não mande pra gente o mesmo trabalho que vocês estão mandando pra outras revistas porque isso fode com os dois;
05. Conteúdos racistas, xenofóbicos, homofóbicos serão excluídos e o autor devidamente esculachado publicamente. Pense seis vezes antes de mandar merda;
06. Serão avaliados os trabalhos enviados até o dia 20 de fevereiro de 2019;
07. Envie os trabalhos para [email protected] escaneados em 300 dpi e tratados. Imagens com baixa resolução ou sem tratamento serão dispensadas.
08. Os trabalhos enviados deverão dialogar com o tema Doença. Pode pirar à vontade em cima do tema;
09. Cada participante selecionado leva 5 revistas para casa (infelizmente a gente é fodido e é o jeito que conseguimos pagar).
10. Não será analisado o portfólio ou os nomes de quem enviou artes, apenas a artes que foi enviada”

Entrevistas / HQ

Papo com Panhoca, o editor da revista Pé-de-Cabra: “Selecionei os trabalhos que se manifestam diretamente contra qualquer forma de poder”

No próximo sábado, dia 17 de março, a partir das 16h, rola o lançamento do primeiro número da revista Pé- de-Cabra em São Paulo, na loja da Ugra Press. Eu vou mediar o bate-papo, seguido de sessão de autógrafos, com o editor Panhoca e seis dos 53 artistas com trabalhos impressos na publicação (Kellen Carvalho, Fabiane Langona, Carambola da Silva, Rafa Campos Rocha, Rebeca Catarina e Diego Esteves). Já li esse primeiro número da Pé-de-Cabra e achei demais a curadoria e toda a linha editorial da revista. Em tempos nefastos de conservadorismo aflorado, é um lançamento necessário, questionando morais, establishments e poderes da sociedade brasileira.

Você confere outras informações sobre a festa de lançamento no sábado aqui na página do evento no Facebook. Enquanto isso, recomendo uma lida no papo que bati por email com o editor Panhoca sobre as origens do projeto, a seleção dos artistas participantes a partir de uma convocatória no Facebook, o desenvolvimento da revista e o futuro da publicação. Dá uma lida:

Eu queria saber do estalo, do momento em que você teve a ideia de fazer a revista. Você lembra? Houve alguma motivação maior que te fez levar esse projeto pra frente? 

Cara, eu acho que rolou mais de um momento. Eu lia muito gibi gringo na faculdade e meu contato com o gibi nacional era muito com coisa dos anos 80: Animal, Udigrudi, Lucife, Circo, essas coisas. Aí teve a Gibicon em Curitiba (agora virou Bienal) e a Mitie, da Itiban, hospedou o Gerlach lá em casa. Nesse momento eu tive um contato com muito artista que o cara me mostrou. Talvez seja aí. Teve o lançamento da última Prego que foi bem importante também. O Alex, editor da Prego, disse que ia pra Portugal. Aí eu comecei a pensar nas revistas que eu curto no formato coletivo mesmo. A Samba tá parada. A Gibi Gibi eu acho que acabou. A Prego deve entrar em hiato. Aí acho que aproveitei um vácuo pra fazer. Ou talvez tenha sido numa vez que eu fui falar bêbado com o Chico Felix no show da banda dele. ‘Ei, Chico, tô fazendo uma revista e tá cheia de artista foda. Você não faz a foto de capa do facebook?’. Eu nem tinha falado com ninguém. A mentira é a base da verdade hahaha

Me fala, por favor, um pouco do passo a passo entre esse instante em que você teve a ideia e até o lançamento? Por que a opção pela convocatória? Como vocês chegaram nesse projeto gráfico? Como rolou o contato com o Pochep? 

Cara, eu me fodi muito como marinheiro de primeira viagem. Eu consultei uma galera que eu converso mais no meio. Rafa Campos, Gerlach, Pablo Carranza, Pedro D’Apremont. Todo mundo falou que mandaria coisa por eu ser amigo, mas que dava pra tentar visgar uma galera mais nova. Eu queria fazer uma convocatória porque eu sabia que eu conseguiria chamar a galera de Curitiba que eu gosto muito do trabalho, mas não conheço direito. Apostei que isso ia chamar muita gente nova. O projeto gráfico saiu através de um estudo das outras revistas que curto. Se não fosse o Júnior (que fez o projeto gráfico) eu ainda estaria batendo a cabeça na parede. A minha primeira ideia era extremamente parecida com a Prego. No final ela foi ficando bem mais elegante que o previsto. Com o Pochep eu tinha conversado a primeira na exposição dele na Bienal de Quadrinhos. Eu não falo francês. Ele não fala português. Quando eu fico bêbado eu tento arranhar um alemão. Foi assim o primeiro diálogo hahaha. Depois disso foram horas e horas de Google tradutor. Eu não fazia ideia do que eu tava mandando de mensagem e ele respondia com um português extremamente coloquial de Google Translator.

Você já tinha trabalhado com edição/curadoria antes? Como foi esse trabalho de seleção de quais trabalhos entrariam e quais ficariam de fora desse primeiro número? Aliás, quantos quadrinhos você recebeu?

Foi minha primeira experiência como editor. Foi bem mais complicado do que eu esperava. Chegaram mais de 200 trabalhos. Só das 19h do último dia até as 23h59 foram mais de 70. Muita coisa boa ficou de fora. Tem uns amigos que tão bravos comigo porque cortei o trabalho deles. Mas tem de saber separar as coisas. Tinha coisa que era extremamente séria e de qualidade fodona, mas que tive de cortar por contrastar demais com o tom da revista. Acabei usando os trabalhos que se manifestam diretamente contra qualquer forma de poder. Não acho que a revista é panfletária, mas ela tem uma carga de revolta contra as autoridades. Eu fui detido duas vezes por desacato. Acho que é algo com o que eu me identifico.

E aí, a revista finalizada, o quanto ela é diferente, hoje, do projeto que você pensou inicialmente?

Totalmente. Eu ia fazer 44 páginas. Achei que ia ser mais agressiva. Quando eu pensei no Pochep eu tinha em mente uma capa mais gay. Uns marinheiros se beijando, sei lá. Não quis sugerir nada porque gosto de deixar a galera com liberdade pra criar. Quando chegou a capa muita gente me disse ‘Eu gostei, achei que ia ser mais punk, sujo’. Muita gente disse o contrário pelo mesmo motivo. No final acho que a galera que me conhece do rolê tava esperando algo que você olhasse e dissesse ‘porra, isso não é da Escória Comix?’. No final eu gostei muito mais desse resultado mais elegante. Lombada quadrada. 100 páginas. Acho ela lindona.

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“O suplemento MAU é uma das melhores coisas que eu já li. Boto junto com, sei lá, Dostoiévski em termos de importância na minha formação”

– X –

Durante todo esse processo de produção da revista, desde o momento que você apresentou essa ideia ao público até hoje, com ela pronta, o que mais te surpreendeu? Há algum trabalho específico que te marcou de alguma forma nessa jornada?

Porra, o que mais me surpreendeu foi a quantidade de trabalhos. E trabalhos de muita gente que eu sou fã. O Batista é um cara que eu não conheço e gosto muito do trabalho dele. Caio Gomez, Victor Belo, Rebeca, Kellen… vai longe a lista das pessoas que nunca vi pessoalmente mas gosto muito do trampo. Eu fiquei bem feliz também de publicar o trabalho da Grace Wilson, da Escócia. Não me lembro de ter visto nada dela por aqui antes.

Na convocatória pra revista você insiste na ideia do incômodo, que a união dos incomodados pode resultar no incômodo ainda maior. Eu vejo esse foco no incômodo na maior parte dos trabalhos da revista. Você, como editor, vê um padrão maior percorrendo os trabalhos impressos na revista?

Eu acho que rola uma insatisfação geral com tudo. De certa forma, todo trabalho ali é uma oposição a algum tipo de poder. Ou vai pra um rolê mais niilista. Mas acho que todo mundo se opõe a alguma coisa.

Você escreve no editorial como o país tá fudido e como estamos vivendo num contexto de moralismo crescente. O Brasil tem um histórico de publicações voltadas para o humor gráfico que marcaram época em períodos parecidos da nossa história recente. Qual potencial você vê para a Pé-de-Cabra nesse nosso contexto atual?

Putz, não sei. Eu não acho que ninguém vá matar um presidente ou governador, mas eu acho a revista muito boa. Os tempos de tiragens enormes acho que não voltam mais. Não sei se ela vai marcar uma geração, mas acho que pode marcar certos indivíduos. Quando eu li minha primeira Animal eu tinha uns oito anos. Aquilo moldou muito minha relação com os quadrinhos e me voltou pra um lance mais punk na minha postura de vida. Eu trabalho como bibliotecário há seis anos e o suplemento MAU é, pra mim, uma das melhores coisas que eu já li. Boto junto com, sei lá, Dostoiévski em termos de importância na minha formação.

O primeiro número da revista acabou de sair, mas eu queria saber sobre os seus planos para os próximos. Você já está trabalhando numa próxima edição?

Já. Eu sou um megalomaníaco. Pra ter ideia, no período de convocatória eu mandei email até pro Jamie Hewllet mandar coisa hahaha Foi assim que o Russell Taysom mandou a página dele. Sou fã da Flabby Dagger e aí o cara me mandou a página. Foi foda. A segunda vai depender de eu vender a primeira bem. Assim que ela se pagar eu faço a segunda. Minha ideia era fazer ela anual, lançar outra convocatória em novembro. Dessa vez eu penso em fazer ela temática, pra eu ter menos dor de cabeça pra selecionar os trabalhos. Não sei, vamos ver o que vem por aí.

HQ

Sábado (10/3) é dia de lançamento da revista Pé-de-Cabra em Curitiba

Tô bastante curioso pra ler o primeiro número da Pé-de-Cabra. Como já comentei por aqui, a revista editada pelo Carlos Panhoca reúne alguns dos principais nomes dos quadrinhos de humor do país – e também conta com a participação de estrangeiros, como o francês Pochep, autor da arte da capa da publicação. Enfim, tudo isso pra dizer que o primeiro evento de lançamento da Pé-de-Cabra rola sábado (10/3), na Itiban Comic Shop de Curitiba, a partir das 16h. O lançamento será precedido por um bate-papo mediado pela jornalista Fernanda Maldonado com a presença de Carlos Panhoca e três dos artistas com trabalhos publicados na revista: Diego Gerlach, Pietro Luigi e Chico Félix.

Lembrando: a Pé-de-Cabra tem 100 páginas e preço de R$ 24. A Itiban Comic Shop fica no número 845 da Avenida Silva Jardim de Curitiba. Outras informações sobre o lançamento você confere na página do evento no Facebook.

HQ

Confira a capa do francês Pochep para a Pé-de-Cabra #1 e os nomes dos artistas presentes na publicação

Taí capa do primeiro número da revista Pé-de-Cabra, revista colabortativa de artes e quadrinhos independentes editada por Carlos Panhoca. A bela arte que estampa a capa desse primeiro número é assinada pelo francês Pochep. A revista custará R$ 24, terá 100 páginas, tamanho 19,8×28 cm, revisão de Fernanda Maldonado e projeto gráfico de Júnior Gonçalves. Segundo os responsáveis pela revista, a data de lançamento da publicação será anunciada em breve lá na página da Pé-de-Cabra no Facebook. Hoje, junto com a divulgação da capa, foram revelados os nomes dos artistas com trabalhos selecionados para esse número de estreia da revista. Ó que timaço:

Allan Sieber, Quadrinhos Psicóticos (Bruno Marafigo), Caio Gomez, Carambola da Silva, Carlos Carcassa (Portugal), Chico Félix, Cristiano Onofre, Diego Esteves, Diego Gerlach, Emilly Bonna, Fabiane Langona, Fábio Vermelho, Felipe Cesar, Fernando Barth, Fronha, Galvão Bertazzi, Grace Wilson (Escócia), Guilherme Caldas, Half Bob (França), Jonathan Fernandes, Julian Alexander Brzozowski, Kellen Carvalho, combigode – leo prado, Lucas Torres Stoffel, Marcelo Draw or Die, Marco Vieira, Marcos Batista, Mariana Pajuaba, Mário de Alencar, Maurício Falleiros, Morris Vogel (Suíça), That Murilo Ferrari, Pablo Carranza, Panhoca, Pedro D’Apremont, Pietro Luigi, Rafa Campos, Rafael Gbur, Rafael Panegalli, Rebeca Catarina, Russell Taysom (Inglaterra), Samuel Teixeira Rodrigues, Sandro França, Solano Gualda, Stephanie Faria, Stêvz, Theo Szczepanski, Victor Bello, Yago Ballarini, Yuri Kulisky.