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Entrevistas / HQ

Papo com Manuele Fior, o autor de A Entrevista e Cinco Mil Quilômetros Por Segundo: “Tento investigar todas as possíveis ramificações do conceito que quero trabalhar”

O quadrinista italiano Manuele Fior teve duas obras lançadas quase simultaneamente no Brasil, os álbuns A Entrevista (Mino) e Cinco Mil Quilômetros Por Segundo (Devir). As publicações são distintas em diversos aspectos, relacionados principalmente às diferenças de técnicas e estilos dos quadrinhos, mas também aos momentos destoantes da carreira do autor quando foram produzidos. Ainda desconhecido e em início de carreira na época do lançamento de Cinco Mil, Fior ganhou fama após o livro vencer o prêmio de melhor álbum do Festival de Angoulême de 2011. A Entrevista foi lançado em 2014, com o autor já reconhecido internacionalmente e com a proposta de produzir uma história de ficção científica, em nada relacionada às tramas quase autobiográficas de seus trabalhos prévios.

Eu escrevi para o jornal O Globo sobre o lançamento das duas HQs no país. Entrevistei o autor das duas obras e conversei com ele sobre a origem de cada trabalho, as técnicas utilizadas em cada HQ, suas inspirações e seus próximos projetos. Recomendo a leitura dos dois quadrinhos, uma conferida no meu texto e depois o papo a seguir, a íntegra da minha troca de emails com Fior. Saca só:

“Eu acho que tentei com esse livro colocar um pouco de ordem nos meus pensamentos, eu tinha uma vida muito nômade na época e as coisas acabaram um pouco bagunçadas”

Cinco Mil Quilômetros Por Segundo e A Entrevista foram lançados aqui no Brasil quase simultaneamente, por duas editoras diferentes. Você fica curioso em relação a esse interesse repentino no seu trabalho aqui no Brasil e na recepção das duas obras?

É claro que fico curioso. Em Portugal eu conheci alguns leitores que já conheciam o meu trabalho antes do lançamento de Cinco Mil Quilômetros Por Segundo por lá. Eu honestamente não faço ideia do que possa ter motivado que os livros tenham sido lançados em um intervalo tão curto de tempo, a única coisa que sei é que a Devir queria que o livro já estivesse publicado para o festival de Beja.

Os dois livros são muito diferentes, tantos as histórias quanto os estilos que você desenvolve em cada um. Você poderia falar um pouco da origem de cada trabalho?

Cinco Mil Quilômetros Por Segundo teve uma gestação muito problemática, eu estava morando na Noruega na época e fazendo vários trabalhos ao mesmo tempo. Eu acho que tentei com esse livro colocar um pouco de ordem nos meus pensamentos, eu tinha uma vida muito nômade na época e as coisas acabaram um pouco bagunçadas, me refiro a relacionamentos, ambições profissionais e por aí vai.

Já A Entrevista foi bem diferente, eu o fiz logo após vencer o prêmio em Angoulême, então eu estava me sentindo um pouco mais confiante com o meu trabalho. Ele foi a minha primeira tentativa de abandonar temas autobiográficos e mergulhar na ficção, na verdade ficção científica, da minha forma é claro, de maneira muito íntima.

“Não há nenhuma razão racional para o uso de cada técnica, normalmente quando a ideia de um livro vem à mente também tenho um vislumbre de como ele será”

Você utiliza técnicas muito distintas nos dois livros. Como você decide a técnica e o material que utiliza em cada obra?

A Entrevista foi feito com carvão e nanquim, já o Cinco Mil Quilômetros por Segundo em tinta acrílica. Não há nenhuma razão racional para o uso de cada técnica, normalmente quando a ideia de um livro vem à mente também tenho um vislumbre de como ele será. Depois eu busco alguma técnica que me permita chegar o mais próximo possível a essa imagem mental, é um processo que vai se definindo à medida que vou criando o quadrinho.

Da mesma forma, os dois livros são visualmente muito diferentes. Como você define a estética de cada trabalho?

Essa é uma pergunta muito complexa e abrangente, eu honestamente não tenho nenhuma resposta para ela. Eu nunca tenho um conceito estético definido, eu apenas preciso de algum esforço pessoal e a forma final acaba sendo resultado desse empenho. Eu não acho a palavra ‘estilo’ seja aplicada nesse caso.

“Eu não sou um grande admirador de histórias como apenas uma única interpretação, com apenas uma única solução no fim”

Eu fiquei fascinado com a ambientação de A Entrevista e queria saber mais sobre a sociedade futurística que você concebeu pra esse livro. Você chegou a desenvolver mais sobre esse universo que acabou ficando de fora da HQ?

Normalmente eu escrevo muito durante a criação do quadrinho, tento investigar todas as possíveis ramificações do conceito que quero trabalhar. Mas no final das contas o que você lê é o que realmente existe, não há ideias ou sequências que eu tenha desenvolvido e não estão presentes no livro.

A minha sensação lendo A Entrevista foi semelhante a de assistir a um filme dos irmãos Coen. Tudo soa como uma enorme conspiração, há muitas ideias não desenvolvidas e implícitas, mas a trama principal é focada nesse sujeito ordinário lidando com pequenos ocorridos extraordinários. Isso faz sentido para você?

Na verdade, a minha referência cinematográfica foi a Trilogia da Incomunicabilidade – A Aventura, A Noite, O Eclipse -, do Michelangelo Antonioni. Se você é familiarizado com esses filmes, encontrará o mesmo fascínio pelo desconhecido, pela psicologia distorcida de personagens agindo enquanto refletem sobre suas existências e suas motivações. Eu não sou um grande admirador de histórias como apenas uma única interpretação, com apenas uma única solução no fim.

Sobre Cinco Mil Quilômetros por Segundo: quais eram os principais sentimentos que você tinha intenção de transmitir enquanto criava a HQ?

Os meus próprios sentimentos na verdade, os meus medos e o meu deboche pelo período que estava vivendo. Foi uma forma de exorcizar alguns dos medos e dos arrependimentos que eu tinha, e impus toda essa carga para os meus pobres três personagens, que vivem, sofrem e perdem exatamente como aconteceu comigo.

No que você está trabalhando atualmente? Tem mais diálogo com o Cinco Mil Quilômetros por Segundo ou com A Entrevista?

Estou no meio de uma graphic novel longa chamada Celestia, uma história de ficção científica ambientada em Veneza. É uma trama totalmente nova na qual eu decidi usar a personagem Dora, que já apareceu em A Entrevista.

Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo atualmente?

Definitivamente The World of Edena, a edição completa. Eu já havia lido alguns capítulos dessa obra prima do Moebius, mas reler na íntegra está explodindo a minha cabeça, é uma inspiração eterna.

Entrevistas / HQ

Papo com Seth, o autor de A Vida é Boa, Se Você Não Fraquejar: “Não tenho interesse em tramas. Eu olho para tudo o que faço como um meio de expressar ideias e sentimentos”

Já comentei por aqui como considero A Vida é Boa, Se Você Não Fraquejar (Mino) um dos melhores títulos publicados no Brasil em 2018. O quadrinista canadense Seth é um dos meus autores preferidos e eu achava uma pena que somente um outro título dele havia saído por aqui até então – o excelente Wimbledon Green, pela Bolha. Entrei em contato com o artista para falar sobre o lançamento de A Vida é Boa em português e tratar de alguns temas recorrentes em outros de seus trabalhos. Esse papo virou matéria na Folha de São Paulo e você lê esse conteúdo por aqui. A seguir, reproduzo a íntegra da minha entrevista com o quadrinista:

Você se lembra do momento em que teve a ideia de criar A Vida É Boa, Se Você Não Fraquejar?

Na verdade eu não me lembro quando as primeiras ideias para o livro vieram à minha mente. Foi há muito tempo (em meados dos anos 90) e eu sinto como se fosse uma outra pessoa que fez esse livro. Eu me lembro de que era mais um processo mental pelo qual eu passava do que uma ideia repentina para uma história. Eu já estava fazendo alguns quadrinhos autobiográficos na época e não estava muito feliz com eles. Eles eram, de alguma forma, não-sequenciais. Mais piadas do que histórias. Foi nessa época que concluí que eu precisava contar histórias que eram menos sobre ‘coisas que aconteceram’ e mais sobre os aspectos mais sutis da vida. Memórias, pensamentos, sentimentos. Coisas intangíveis.

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“Da forma como eu vejo, eu não estou escrevendo um filme blockbuster, então não preciso me preocupar em fazer o meu trabalho comercialmente aceitável”

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Você poderia, por favor, falar um pouco mais sobre o processo de criação desse livro? Aliás, você poderia contar um pouco dos seus métodos de produção? Você tem um processo particular que funciona para todos os livros ou varia?

Eu levo muito tempo para finalizar um livro. Eu passei 20 anos fazendo a graphic novel Clyde Fans! A Vida É Boa levou apenas três ou quatro anos, acho. Seja como for, você passa muito tempo pensando sobre o próximo livro enquanto finaliza aquele em que está trabalhando. Quando digo ‘pensando’ me refiro principalmente a deixar as ideias virem de forma lenta e se combinarem com outros conceitos presentes no seu cérebro. Eu escrevo muitas notas. Uma narrativa vai se desenvolvendo pedacinho por pedacinho. Eu nunca me preocupo em relação a uma trama. Não tenho interesse em tramas. Eu apenas olhos para tudo o que faço (graphic novels, pinturas, fotografias, objetos, qualquer coisa) como um meio de expressar ideias e sentimentos. Eu não me preocupo muito se estou me conectando com um público. Da forma como eu vejo, eu não estou escrevendo um filme blockbuster, então não preciso me preocupar em fazer o meu trabalho comercialmente aceitável.

Eu escrevo uma espécie de roteiro, mas muito do planejamento pra valer de uma história é feito página a página. Eu planejava mais as coisas no início da minha carreira. Hoje em dia eu confio bastante na espontaneidade. Eu acho que ela mantém o trabalho fresco.

Eu sempre penso nos vários níveis de exposição em quadrinhos autobiográficos. O Chester Brown, por exemplo, é um caso extremo, ele é muito explícito em relação às experiência de vida dele. O Adrian Tomine e a Alison Bechdel tem propostas diferentes em relação à forma como retratam suas vidas pessoas. A Vida É Boa, Se Você Não Fraquejar é sobre uma jornada sua, mas não completamente factual. O quanto de você está realmente exposto no livro?

A maior parte dos elementos no livro sobre mim são verdade. Vários dos detalhes da história são inventados, mas os trechos pessoais, pelo menos a maior parte, são precisos. Eu me utilizei como personagem principal por saber que o leitor se relacionaria mais com a história se a aceitasse como uma verdade. Não é um truque ou uma farsa. Apenas um mecanismo para que o leitor se importe mais com o Kalo.

No momento eu estou trabalhando em uma espécie de memória em quadrinhos com o título Nothing Lasts [Nada é eterno, em tradução livre]. Ela é cheia de detalhes reveladores da minha vida… mas é apenas tão reveladora quanto eu quero que seja. Eu jamais vou me expor como o Chester Brown ou o Joe Matt. Eu sou uma pessoa muito mais discreta. Nós três valorizamos bastante a ideia de honestidade em quadrinhos autobiográficos… Mas obviamente, de nós três, eu sou aquele com a menor disposição de ‘contar tudo’. De vez em quando eu acredito que o trabalho de ficção que eu fiz é mais revelador que as coisas autobiográficas.

Esse não é o seu primeiro trabalho sobre um personagem colecionador ou obcecado com algua coisas. Colecionismo e obsessões são características muito relacionadas a leitores de quadrinhos. Você se considera um colecionador? Se sim, o que você coleciona? Você se considera obcecado por alguma coisa?

Eu com certeza sou um colecionador! Eu sempre fui um colecionador e sempre serei um colecionador. Eu gosto de colecionar. Há algo muito prazeroso para mim em encontrar coisas e colocá-las juntas. É um processo que, por si só, já prezo muito. É claro, eu gosto de possuir coisas, mas de vez em quando eu também acho que colecionar é mais interessante do que a própria coleção. Eu sou o que pode ser chamado de ‘colecionador em série’ – o que significa que eu coleciono alguma coisa por um tempo, me canso e passo a colecionar alguma outra coisa.

Muito do que eu coleciono molda o trabalho que eu faço. Visualmente e (obviamente) no tipo de história que eu escrevo. Eu acho colecionadores interessantes – também leio muitos livros sobre esse assunto. Quando eu crio um personagem, uma das primeiras coisas que eu me pergunto é, ‘O que ele coleciona?’

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“À medida que a cultura de fãs se tornou cada vez mais a forma predominante de cultura pop, eu acho que esse aspecto inerente da nostalgia passou a ser espertamente vendido para as pessoas”

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Eu vejo uma relação entre colecionismo e consumismo. Eu não sei se você concorda, mas nos dias de hoje, mais do que nunca, vejo a produção de obras de cultura pop e de arte cada vez mais ditadas por esse mesmo consumismo. O que você pensa dessa relação e dos rumos que ela tem dado às nossas culturas e formas de arte?

Sim, eu também vejo isso. É interessante por eu não acreditar que essa conexão era tão intensa há algumas décadas. Tem muito a ver com a cultura de fãs, eu acho. Nos anos 60 e 70 a cultura de fãs ainda não era mainstream e durante seu desenvolvimento era inicialmente uma cultura de nostalgia. Adultos dando continuidade a seus interesses de infância e tentando colecionar livros, quadrinhos e qualquer coisa que os mantivessem conectados aos seus interesses de infância. À medida que a cultura de fãs se tornou cada vez mais a forma predominante de cultura pop, eu acho que esse aspecto inerente da nostalgia passou a ser espertamente vendido para as pessoas. Elas estão dispostas a comprar ‘conforto’. A maioria das coleções de hoje não tem nada a ver com a busca por objetos de apelo estético difíceis de encontrar ou da busca e da pesquisa por informações culturais obscuras. A maioria das coleções de hoje (na cultura mainstream) é simplesmente a compra de um monte de itens de cultura pop de marca, da mesma forma que as pessoas comem um monte de porcaria.

E eu também vejo muita nostalgia nos seus livros. Como as suas memórias ditam o desenvolvimento dos seus trabalhos?

Todos os meus trabalhos tratam de ‘olhar para trás’. Eu tendo a resistir à palavra ‘nostalgia’ por ela ser carregada de muitos significados. Ela sempre implica em uma espécie de interpretação sentimentalista e otimista da vida. Eu sou uma pessoa sentimental… e eu sou uma pessoa nostálgica.. mas eu gosto de pensar que estou tentando apresentar um ‘olhar para trás’ mais complexo no meu trabalho. Eu quase sempre tento evitar essa perspectiva ingênua. Dito isto, eu não estou interessado na cultura atual e à medida que envelheço o meu trabalho se torna cada vez mais enraizado no passado. Não por eu acreditar que ‘eram tempos melhores’, mas pelo fato dos meus interesses serem do passado.

Eu vi uma definição sua de quadrinhos como ‘design + poesia’. Você pode falar um pouco mais sobre essa sua interpretação?

Essa é uma discussão muito longa! Recomendo esse link em que falo sobre isso com detalhes: https://bit.ly/2IQBTOQ

Vou dizer que ainda concordo com essas ideias. Mais e mais pelo fato do meu trabalho atual ainda ser regulado e ditado por ritmo. Eu uso muito mais painéis nas páginas do que estava acostumado e de vez em quando eu já não completo mais uma frase inteira em um único painel. O ritmo de como a página de um quadrinho é lida é muito importante para mim. O elemento mais importante na verdade. Todo o resto está subordinado a essa ritmo – desenhos, cores e até a estrutura das frases.

O que mais te interessa em quadrinhos hoje em dia? Há alguma coisa que você acredita que possa ser feito com essa linguagem que você ainda gostaria de ver?

O que mais me interessa – no meu próprio trabalho – é a atmosfera e a descrição. Eu quero gastar mais tempo escrevendo quadrinhos que sejam essencialmente sobre lugares. Eu gosto de descrever coisas e lugares mais do que contar histórias… E por isso acredito que os meus trabalhos que saírem em breve serão principalmente nessa direção. Eu suspeito que seja estranho um escritor não ser muito interessado em personagens, tramas ou conflitos. Esses são supostamente os elementos essenciais de uma história, mas eu acho que uma história pode ser interessante por razões menos óbvias. O meu próximo livro será praticamente composto integralmente de descrições de um lugar e de um período pelos olhos de um narrador. Eu estou muito ansioso por escrevê-lo.

O que você pensa quando um trabalho seu é publicado em um país como o Brasil? Somos todos americanos, mas são culturas muito diferentes. Você tem alguma curiosidade em relação à forma como um trabalho seu será lido e interpretado por pessoas de um ambiente tão diferente dos seu?

Essa é a uma pergunta interessante. Às vezes eu imagino se o que estou escrevendo aqui no Canadá faz sentido em outras culturas. Com certeza um país com o Brasil tem uma cultura muito diferente do Canadá… E mesmo assim, como você diz, nós somos todos americanos e temos muito em comum. Em relação a isso eu não faço ideia nem como o meu trabalho é visto por canadenses. Na maioria das vezes eu escrevo pensando em mim como a minha audiência primária. Eu sei que acho empolgante ver a obra rodar o mundo. Uma das coisas mais difíceis é que você nunca sabe se as traduções são boas ou não. E é claro, o mesmo também vale no inverso, quando você lê um livro traduzido para o inglês.

Você pode me dizer por que Seth?

Na verdade é um pouco constrangedor. É um nome que eu escolhi para mim quando estava nos meus 20 e poucos anos. Eu era um jovem punk roqueiro na época e estava procurando por pseudônimo meio assustador e gótico e Seth foi o escolhido. Hoje eu não me importo muito mais com ele, já estou usando há mais de 30 anos e parece mais com o meu nome real do que o meu nome de batismo, Gregory. Já estou acostumado. A única coisa que sou grato é por ter escolhido um nome de verdade – eu poderia ter escolhido algo muito pior, como Monster Zero ou Marylin Manson ou algo igualmente horrível.

No que você está trabalhando atualmente? Você tem algum livro novo nos seus planos?

Como falei anteriormente, eu estou trabalhando em um livro de memórias chamado Nothing Lasts que vou serializar em Palookaville e em breve começarei um livro (esse que será muito descritivo) batizado de The Royal. Estou sempre trabalho em vários trabalhos visuais também. Desenhos, dobraduras e vários objetos que estou construindo. A vida no estúdio é o que mais valorizo – conectando várias ideias e vendo onde elas podem me levar.

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?

Nos últimos dois anos eu tenho reescutado obsessivamente um áudiolivro da Virginia Woolf, To The Lighthouse. Um trabalho maravilhoso de narração da Juliet Stevenson! Aqui está o link pra ele: https://adbl.co/2NpDVbX

Eu tenho me dedicado muito aos livros da saudosa Anita Brookner. Ela escreveu 24 livros e eu li 20 deles nos últimos dois anos. Eles são lentos e contemplativos e muito melancólicos, de forma muito austera. Ela é a minha escritora favorita hoje… Tendo tirado a Alice Munroe do topo do ranking!

Eu também tenho assistido a muito dos episódios clássico antigos do Perry Mason com o Raymond Burr. Esse pode ter sido o programa de TV mais formulaico da história. Todo episódio é praticamente o mesmo e mesmo assim eles são muito prazerosos de assistir. Quase hipnóticos.

HQ

Sábado (26/5) é dia de lançamento de Garotos do Reservatório, HQ de Celio Cecare e Fábio Cobiaco

O roteirista Celio Cecare e o ilustrador Fábio Cobiaco lançam no sábado (26/5) o álbum Garotos do Reservatório. A sessão de autógrafos do álbum da editora Mino rola a partir das 15h, na loja da Ugra (Rua Augusta, 1371 – loja 116), aqui em São Paulo. Você confere outras informações sobre o lançamento na página do evento no Facebook.

Quadrinho de estreia de Celio Cecare e primeiro trabalho de Fábio Cobiaco em seguida ao excelente Mayo, Garotos do Reservatório apresenta uma trama intimista, com diálogo rápidos e várias referências a obras da cultura pop. Tradutor de alguns títulos da editora Mino, Cecare respondeu a algumas perguntas por email sobre as origens do projeto, suas inspirações e referências e a dinâmica do trabalho com Cobiaco. Saca só:

Garotos do Reservatório é o seu primeiro quadrinho publicado, certo? Acho que leitores mais atentos vão lembrar do seu nome nos créditos de algumas publicações da Mino como tradutor, mas você poderia falar um pouco de você e como surge o seu envolvimento com quadrinhos?

É estranho porque o meu envolvimento com quadrinhos começa mesmo antes mesmo de saber ler, muito desenho animado da Filmation e os desenhos ‘animados’ da Marvel que passavam em um canal que pegava todo chuviscado (e que você tinha que sintonizar o tempo todo no UHF) e junto com tudo isso tinha meu avô e a minha mãe, que me davam gibis sempre quando a gente saía (quando eu tinha 6 ele me deu Cavaleiro das Trevas #4, só fui saber o começo da história, uns cinco anos depois.). Mas quando gibis me arrebataram completamente eu já era bem mais velho. Eu tinha nove anos e um dia passei na banca antes da escola pra comprar um livro e o dinheiro só dava para uma HQ (usada) e aí eu peguei Novos Titãs #19 e aquilo arrebentou minha cabeça, era o meio de Contrato de Judas e aí você tem na mesma HQ uma perseguição linda, o Dick Grayson (spoilers) virando Asa Noturna e a origem do Exterminador, era impossível colocar o gibi de lado… E era exatamente o que a professora queria que eu fizesse e então levei minha primeira advertência. A partir daí foi ladeira abaixo tanto em advertências quanto em quadrinhos. Depois de um tempo veio a vontade de escrever, primeiro histórias curtas, depois roteiros e etc.

Você pode falar um pouco sobre as origens da HQ? Você se lembra do instante em que teve a ideia de contar a história de Garotos do Reservatório?

Comecei a escrever em 2012 como um conto, depois de ver Cães de Aluguel pela sei lá qual vez. Eu tinha 32 anos e comecei a perceber que o pessoal que passou a adolescência inteira comigo não estava mais por ali, aí você exponencia essa situação corriqueira ao máximo e surge prisão, redenção, etc… Mas eu sentia que não tinha conseguido explorar ao máximo essa nostalgia e fui fazendo novas versões, mais quebras e tal até sair o roteiro com o qual trabalhamos. Aí a Jana (editora da Mino) deu mais uma espremida e apontou o que funcionava ou não para tirar o máximo possível da HQ.

Como rolou o convite para que o Fabio Cobiaco ilustrasse o seu roteiro? Você poderia, por favor, falar um pouco da dinâmica de trabalho de vocês?

Eu sou apaixonado por HQs e sempre quando posso pego uma commission ou uma arte original e o Fábio é o Fábio Cobiaco. Um traço lindo e uma arte que me faz babar demais. Logo após conhecê-lo no lançamento de Mayo eu pedi pra ele duas commissions e o resultado foi incrível, sério um lance de cair o queixo, depois de um tempo juntei mais uma grana e pedi mais duas e depois mais uma arte original de Mayo. Até que achando chata tanta tietagem, mandei o Garotos do Reservatório para ele ler, era mais um lance de falar ‘ah, eu escrevo’, para não ficar parecendo Louca Obsessão. Depois de um tempo, quando era pra mandar as commissions, ele falou ‘Cara, topa fazer essa em parceria?’. Nem passava isso pela minha cabeça, mas falei ‘Claro, vamos sim’ e depois de um tempo começaram a aparecer designs, rascunhos e páginas. E é um lance louco porque você começa a ver todo aquele universo que começou, mas era sem forma e ele se torna mais concreto, daí você não consegue mais imaginar ele de outra forma. Rolou uma síntese muito legal entre o texto e a arte, ele captou incrivelmente bem a essência da história.

Durante a leitura do quadrinho eu fui sacando algumas referências principalmente a filmes e músicas. Quais são as suas principais influências? E outra pergunta: o que você mais leu, ouviu e assistiu enquanto concebia a história de Garotos do Reservatório?

Influência é algo complicado de falar porque sempre vai ter mais nomes do que você consegue mencionar, mas citando pouca gente, acho que na literatura seria Fitzgerald e Hunter S. Thompson, em seriados David Chase, Aaron Sorkin e aí tem mais um punhado de pessoas que me influenciaram de uma maneira ou outra: Mitch Hedberg, Marc Maron, Bill Hicks, Dan Harmon, Tarantino e Kevin Smith.

Quando comecei a pensar na história do Garotos do Reservatório eu tentei focar no que eu e meus amigos consumíamos de cultura pop nessa época e não dá pra lembrar dos anos 90 sem pensar em Tarantino, é como se toda uma geração meio que surgisse ali. Tarantino e então Rodriguez, Kevin Smith, eram pessoas que consumiam mais ou menos o que a gente consumia. Era bizarro ver citações a Quarteto Fantástico e a Star Wars nos filmes por ser o tipo de conversa que a gente fazia: horas sentados no bar conversando sobre como seria Star Wars – Episódio I (e em nenhuma dessas horas falamos de midchlorians, não importa o quão bêbado a gente estivesse), falando sobre algum seriado antigo e diversas noites em que passávamos vendo um filme atrás do outro. Nesse sentido, o Cães de Aluguel é um ponto de referência para mim, foi uma validação pra essas conversas que sempre tive e um catalizador de muitos filmes ruins tentando emular aquilo – mas também tem muita coisa boa que teve uma chance pelo sucesso do filme e que não aconteceria em outras circunstâncias.

Você conseguiria imaginar uma trilha sonora pra sua história? 

Além das óbvias C.R.E.A.M. do Wu Tang Clan e Rise do Pil, ia ter Velvet Underground (Oh! Sweet Nuthin!), The Clash (Death or Glory, por mais que eu queira I fought the Law, ia ser muito manjada), Warren Zevon (I Was in The House When the House Burned Down), Morrissey (First of the Gang to Die), Grateful Dead (So Many Roads), Pulp (We are the Boyz), Iggy Pop (Real Wild Child) e, finalmente, Summer of Drugs da Victoria Williams.

HQ

Três Buracos: o quadrinista Shiko fala sobre as origens, influências, técnicas e inspirações de sua próxima HQ

O primeiro trabalho longo do quadrinista Shiko desde o lançamento de Lavagem, em 2015, tem lançamento previsto para agosto de 2018. O álbum foi batizado de Três Buracos, será publicado pela Editora Mino e terá arte em preto e branco e cerca de 100 páginas. A HQ é ambientada em um garimpo no interior da Paraíba e é protagonizada por uma mulher chamada Tânia. Três Buracos também é o nome da cidade fantasma na qual a personagem principal vive, assombrada por uma maldição deixada por seu pai. “Como gênero, é um quadrinho que fica entre o faroeste e o terror, mas em um ambiente contemporâneo”, conta Shiko em conversa com o blog.

De acordo com o autor, Três Buracos é o primeiro quadrinho dele ambientado na região na qual foi criado, no sertão da Paraíba. “É uma paisagem absolutamente familiar para mim, então facilita. O tipo físico, o modo como as pessoas se vestem, as paisagens, os objetos…”, lista o quadrinista. No depoimento abaixo, Shiko fala sobre as origens do projeto, as influências dos filmes do italiano Sergio Leone e a estética e suas inspirações pro gibi. Confira aspas de Shiko junto com o booktrailer de seu próximo trabalho:

Novo Faroeste

“A história se passa em um garimpo no interior da Paraíba. É o único lugar do mundo em que existe o garimpo da Turmalina Azul, por isso também conhecida como Turmalina Paraíba. É uma pedra muito valiosa, alguns dizem ser a mais preciosa do mundo. Aí, em algum momento, a maldição de um morto faz com que esse garimpo venha a ser abandonado e a cidade ao redor dele se torne uma cidade fantasma, restando apenas uma mulher, chamada Tânia.”

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“Quando o pai da Tânia é morto, o garimpo acaba, o irmão dela vai embora e vira um ladrão. Ela não consegue sair de Três Buracos por ser assombrada pelo espírito do pai. É uma história de botija, um mito sertanejo de tesouro escondido. O tesouro tá enterrado, escondido, e a alma da pessoa que escondeu não consegue partir, fica presa na terra até que alguém desenterre esse tesouro. Aí essa filha é assombrada pelo espírito do pai e não consegue abandonar esse lugar.”

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“A personagem vive num limiar onírico. O bonito de botija, é que o morto aparece sempre nos seus sonhos, para pedir que você desenterre aquele tesouro que prende ele à terra. Então como ela tá sempre nessa fronteira entre o que é sonho e o que é vigília, tem hora hora que os meus quadros estão mais livres, até por esses elementos oníricos da narrativa.”

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“A história é um faroeste por ter esses vários elementos do gênero: enforcamento, garimpo e assalto a banco. Aqui no nordeste, no sertão, é o que estamos chamando de Novo Faroeste, com assalto a caixas eletrônicos e tal. Então, como gênero é um quadrinho que fica entre o faroeste e o terror, mas em um ambiente contemporâneo.”

Aguadas de cinza

“É preto e branco, mas diferente do Lavagem, que tem aquele preto e branco duro, meio Mozart Couto, esse agora tem aguadas de cinza, mais parecido com o Azul Indiferente do Céu.”

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“Os enquadramentos são mais soltos, talvez mais Cinemascope, muitas vezes mais horizontais. Foi uma influência mesmo dessa fotografia do cinema italiano de faroeste. Os quadros tem um formato mais horizontal, mais Cinemascope mesmo.”

Sergio Leone

“Eu não consigo escapar do faroeste italiano, né? Mesmo tentando escapar, chegou uma hora que eu desisti. É uma referência muito presente, não vou ficar brigando com isso. É uma referência mesmo, nos quadros, nos planos abertos sem texto, nos silêncios, nas esperas, na contemplação e até no ritmo de algumas coisas. Tanto que no final, em uma das últimas cenas, eu faço uma referência aberta mesmo ao Sérgio Leone.”

Paisagem real

“Existe aqui na Paraíba uma cidade chamada São José da Batalha, no Sertão da Paraíba, com um garimpo de Turmalina. Chegou a passar no Fantástico uma história bem louca quando descobriram que essas pedras eram negociadas pra uma galera do Qatar que financiava o Estado Islâmico (risos). Enfim, isso existe aqui no interior da Paraíba, mas o meu quadrinho não tem nenhuma obrigação com essa realidade, é uma ficção sobre uma realidade que existe. O nome da cidade não é esse, eu parto de uma paisagem real para criar uma ficção completamente livre.”

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“Talvez esse seja o meu primeiro quadrinho que se passa na região de onde eu sou, do sertão da Paraíba. Nunca fiz um quadrinho que se passasse no local em que eu vivi até os 20 anos, quando comecei a fazer quadrinho e tal. É uma paisagem absolutamente familiar para mim, então facilita. O tipo físico, o modo como as pessoas se vestem, as paisagens, os objetos…”

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“O meu avô foi garimpeiro. Então sempre passava na casa dele algum amigo de viagem, de um garimpo pro outro. Na casa do meu avô, onde passei grande parte da minha vida, sempre tinham calhas e ferramentas de garimpo que as pessoas deixavam por lá enquanto iam resolver outras coisas. É uma realidade muito presente essa vida no sertão, então tenho um compromisso com essa realidade na hora de fazer o quadrinho, são coisas que conheço há muito tempo.”

HQ

4ª (28/3) é dia de bate-papo com Janaína de Luna, editora da Mino, em São Paulo

Ei, anima dar um pulo na loja da Ugra, aqui em São Paulo, amanhã (28/3), no fim da tarde? Eu estarei por lá a partir das 18h30 pra um papo com a Janaína de Luna, editora da Mino, para saber um pouco mais sobre os lançamentos mais recentes do selo, publicações previstas para os próximos meses – como a aguardadíssima A Vida É Boa, Se Você Não Fraquejar do canadense Seth -, e projetos futuros envolvendo novos autores. Promessa de papo bom, viu? Lembrando: amanhã, 28 de março, a partir das 18h30, na loja da Ugra (Rua Augusta, 1371, loja 116). Você confere outras informações do bate-papo lá na página do evento no Facebook.

Ah, aproveitando que o assunto é Mino, deixo o aviso: dê um pulo aqui no blog amanhã de manhã, lá pelas 11h. Terei novidades quentíssimas sobre um dos próximos projeto da editora. Coisa grande, bem massa e sobre a qual pretendo tratar bastante no bate-papo na Ugra. Apareça!

Entrevistas / HQ

Papo com Michael DeForge, o autor de Formigueiro [por Diego Gerlach]

Fiz o meio de campo para uma entrevista envolvendo dois dos meus quadrinistas preferidos: o canadense Michael DeForge, autor de Formigueiro, publicado no final do ano passado no Brasil pela editora Mino, e o brasileiro Diego Gerlach – tradutor de Formigueiro, editor da Vibe Tronxa Comix, responsável pela série Know-Haole e autor do zine Pirarucu (encartado no primeiro número da revista Baiacu). O texto a seguir, assim como as perguntas respondidas por DeForge, são de autoria de Gerlach:

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por Diego Gerlach

Em pouco mais de 10 anos de atividade, o quadrinista canadense Michael DeForge já conta com uma extensa lista de publicações e prêmios em seu currículo. Ele é um dos principais nomes de uma nova geração de quadrinistas autorais norte-americanos que passaram a ser conhecidos amplamente após o advento da internet e das redes sociais. Ainda não tão conhecido no Brasil, no final de 2017 a Editora Mino publicou Formigueiro, talvez seu trabalho mais conhecido e aclamado (originalmente serializado online). (Disclaimer: Coube a mim fazer a tradução.)

É uma história repleta de revelações tão hilárias quanto desconcertantes. DeForge utiliza as interações de uma colônia de formigas vagamente antromorfizadas como trampolim para elaborar sobre questões existenciais profundas, sempre ameaçadas pela implacável sombra do determinismo biológico. A arte é minimalista e expressiva, com um estilo orgulhosamente bidimensional, preenchido por um tornado de cores cítricas. O emprego de um tipo de desenho que parece mais adequado a um livro infantil numa trama pontuada por relações disfuncionais, guerra interespécies e atos de mesquinhez de toda sorte, é grande parte do atrativo.

(DeForge já havia sido publicado no Brasil anteriormente: algumas ilustrações originais contidas na antologia independente Gibi Gibi # 2, editada e publicada em 2013 por Mateus Acioli, Heitor Yida e Luiz Berger.)

Com a ajuda de Ramon Vitral na intermediação, fiz algumas perguntas a DeForge, que nos mandou respostas tão concisas e discretas quanto seu estilo de desenho.

Lembro de ter visto seu trabalho por volta de 2008, ainda através do Flickr, quando você costumava assinar como KING TRASH. Se não estou enganado, os trabalhos eram em sua maioria posters, flyers e experimentos em ilustração, com texto aparecendo apenas em alguns casos. Não eram bem quadrinhos, mas lembro de ficar impressionado com o design agressivo, às vezes beirando a ilegibilidade – aquilo me inspirou um bocado, pois estava experimentando com o mesmo tipo de coisa na época. Em seguida, comecei a tentar fazer quadrinhos, e logo um monte de blogs falavam desse sujeito, Michael DeForge, que fazia quadrinhos fantásticos, e quando finalmente descobri que ‘vocês’ eram a mesma pessoa, fiquei bastante surpreso. Nessa época (em que assinava com pseudônimo), você já produzia ou tentava produzir quadrinhos?

Estava sempre fazendo quadrinhos, histórias curtas, experimentos, esse tipo de coisa. Mas foi só em Lose # 1 que realmente comecei a esboçar a direção que queria seguir. Desenhar para quadrinhos é muito diferente de fazer desenhos ‘normais’, e levou um bocado de tempo e várias tentativas frustradas para me dar conta disso.

Creio que foi num texto escrito por Nick Gazin em que li pela primeira vez que você desenha suas digitalmente, de modo que no fim não tem um original ‘físico’ da página concluída. Gostaria de saber se esse ainda é seu processo, e o que o fez sentir que esse era o caminho a seguir?

Sim, a maioria dos meus quadrinhos são desenhados digitalmente hoje em dia. É simplesmente mais rápido para mim, e isso é tudo que importa. Sempre pendi para um estilo bastante limpo, de linhas estéreis, de modo que a transição não foi muito difícil.

Na introdução para A Body Beneath (compilação com histórias curtas do autor pinçadas da série Lose, publicada em 2014 pela editora canadense Koyama Press), você expressou certo senso de desconforto quanto à qualidade de alguns de seus quadrinhos mais antigos. Agora que algum tempo se passou desde a publicação inicial de Formigueiro, como se sente em relação a esse trabalho?

Creio que é natural sentir ao menos algum senso de ambivalência a respeito do trabalho, conforme ele envelhece. Sinto que sou uma pessoa totalmente diferente daquela que criou Formigueiro e, de certa forma, é verdade. Não sinto vergonha de Formigueiro. Fico feliz de tê-lo desenhado, tendo em vista que aprendi tanto enquanto fazia isso. Definitivamente, há alguns quadrinhos que desenhei na vida que faria sumir se pudesse, e Formigueiro não é uma deles (ainda).

Você costuma reler seu material para aprender com erros passados, ou é algo que só acontece de fato quando você tem que preparar uma nova compilação do seu trabalho?

Tento não reler com muita frequência, mas às vezes é útil. Eu me repito um bocado. É inevitável, a maioria dos autores acaba retornando a certos temas, ou certos eventos, e acho que na verdade é bom reexaminá-los de diferentes perspectivas. Às vezes tenho medo de estar reescrevendo alguma de minhas histórias antigas palavra por palavra, então preciso dar uma folheada pra me certificar de que isso não está acontecendo.

Você é um autor bastante produtivo e ainda tem um emprego ‘oficial’ a gerenciar (DeForge trabalha na equipe de criação do desenho Hora de Aventura, exibido pela Cartoon Network). Ainda encontra tempo para ler tanto quadrinhos quanto gostaria?

Não me mantenho tão atualizado quando costumava, mas ainda me divirto lendo quadrinhos novos. Acabei de ler Pretending is Lying, da Dominique Goblet, que foi traduzido para o inglês ano passado, e amei.

Qual foi a melhor coisa que alguém já disse a você sobre um dos seus quadrinhos?

Estou desenhando uma tira diária, e gosto de ouvir o que as pessoas que acompanham dizem todos os dias. Costumava ler tiras assim quando era criança, e fico feliz de saber que um punhado de pessoas tem esse tipo de relação com meu trabalho.