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Sábado (2/12) é dia de lançamento de Labirinto, Porco Pirata e Market Garden em São Paulo

Os três mais recentes quadrinhos publicados pela editora Mino serão lançados no próximo sábado (2/12), na loja da Ugra, em São Paulo. São eles: Labirinto, de Thiago Souto; Porco Pirata, de João Azeitona; e Market Garden, de Bruno Seelig. Tenho bastante curiosidade em relação a esses dois últimos, que com certeza farão parte da minha pilha de leitura de final de ano. Em relação a Labirinto, posso adiantar que o Thiago Souto fez um trabalho belíssimo. Escrevi o texto da 4ª capa da obra, chamo atenção para o traço e as cores do álbum e também para a forma como o quadrinista administra a jornada de seus dois protagonistas. Deixa passar não, viu?

A Ugra fica no número 1371 da Rua Augusta e o lançamento tá marcado pra começar às 15h. Mais instruções, lá na página do evento no Facebook.

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A capa de Labirinto, o novo álbum do quadrinista Thiago Souto

O quadrinista Thiago Souto divulgou a capa da HQ Labirinto. O álbum foi bancado via financiamento coletivo no Catarse e será publicado pela Mino. O livro será lançado dia 2 de dezembro em uma festa na Ugra em São Paulo e também na Comic Con Experience 2017, a partir do dia 7 de dezembro. O miolo da obra tem 216 páginas e o preço ainda será anunciado. Gosto muito dos trabalhos do Thiago, passando por Mikrokosmos, lançado em 2014, e o quinto Ugrito, Time Lapse, de 2016, daí fiquei muito feliz de ser convidado por ele pra escrever o texto da 4ª capa do livro, que você confere aqui embaixo. Saca só:

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Entrevistas / HQ

Papo com Jeff Lemire, o autor de Condado de Essex: “O local e a cultura em que nascemos está intensamente marcada em cada um de nós”

As 512 páginas em preto e branco de Condado de Essex chegam ao Brasil quase 10 anos após o lançamento do primeiro dos três livros que compõem o álbum de Jeff Lemire. Transformado em um dos capítulos da versão completa publicada em português, Contos da Fazenda chegou às lojas especializadas da América do Norte em 2008. Os dois livros seguintes, que fecham a trilogia e o completam a publicação da Mino, saíram até 2009. Desde então, Lemire se tornou um dos grandes nomes do mercado norte-americano de quadrinhos. Seu principal feito está em conciliar seus trabalhos autorais com obras mais comerciais produzidas para gigantes como Marvel e DC Comics sem jamais perder seu estilo pessoal.

“Eu soube desde cedo que não conseguia desenhar nada em um estilo foto-realístico e que a minha força como artista estava na minha habilidade de expressar emoções e sensações”, resume o quadrinista em relação ao ponto forte de seu trabalho. Tanto em O Soldador Subaquático quanto em Sweet Tooth, o principal mérito de Lemire está exatamente em sua capacidade de expor os sentimentos de seus personagens. Em Condado de Essex isso é explicitado na construção de personagens como o jovem Lester e os demais moradores da região, como Lou LeBeuf, Anne Quenneville e o tio Ken em tramas sobre memória, luto e família.

Bati um papo com Lemire sobre as origens de Condado de Essex e também falamos sobre a relação das pessoas com os locais em que foram criadas, o peso do escapismo nas HQs de super-heróis, o desenvolvimento do filme de O Soldador Subaquático e as mudanças no traço e no estilo de quadrinho dele ao longo dos anos. Papo massa. Ó:

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Condado de Essex chega ao Brasil quase 10 anos após a publicação do primeiro capítulo da série. A obra trata de um garoto de uma cidade fria do Canadá e também sobre hóquei. O livro não poderia ser mais distante da realidade brasileira, mas mesmo assim saiu em português. Enquanto você produzia a HQ chegou a pensar em como essa história poderia ser universal?

Eu não fazia ideia! Eu nem mesmo imaginava que chegaria a ser publicado em inglês. Honestamente, era um momento em que eu fazia quadrinhos apenas para mim. Eu estava buscando a minha voz como quadrinista naquela época. Às vezes eu penso que quanto mais específica for uma história mais universal ela pode se tornar. E essa era uma história muito específica sobre o lugar no qual eu cresci. Ao mesmo tempo, é óbvio, fico muito emocionado com o sucesso de Condado de Essex e como pessoas do mundo todo estão tendo a oportunidade de ler o quadrinho.

Ainda sobre as origens do livro, você se lembra do momento em que teve a ideia de contar essa história?

Antes de fazer o Condado eu passei quase cinco anos fazendo todos os tipo diferentes de quadrinhos, muitos deles não eram muito bons. Eu estava apenas tentandovários tipos de estilos e histórias, tentando experimentar e me encontrar como um autor.

Em algum momento eu dei um passo atrás e decidi que precisava ser mais honesto e sincero e eu precisava contar uma história. Nessa época eu já estava morando na cidade, em Toronto, por mais ou menos uma década e já conseguia olhar para o local em que cresci com certa perspectiva e aí a história começou a surgir para mim.

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Condado de Essex trata das memórias de um lugar e como as histórias desse local podem influenciar todos os seus habitantes. Você vê muito impacto dos lugares em que vivemos na definição de quem somos?

Eu acredito que eles sejam incrivelmente importantes. O local e a cultura em que nascemos está intensamente marcada em cada um de nós, mesmo que nós nos mudemos e passemos a morar em outros locais eu acredito que o local em que vivemos os nossos primeiros anos e a juventude tem um impacto imenso.

Um dos focos do livro está na relação dos personagens com hóquei. Imagino que o esporte tenha para vocês, canadenses, uma relação parecida com a nossa com o futebol. Qual importância do hóquei na sua vida? Há algum significado mais profundo nessa relação entre canadenses e hóquei no livro que talvez só seja compreensível para vocês?

Eu acho que essa é uma ótima comparação entre hóquei e futebol. É um esporte que tem um peso imenso na nossa cultura aqui. Eu cresci jogando hóquei, comecei quando tinha uns sete anos. Na verdade ainda jogo. A história do esporte era algo que me interessava muito quando escrevi o Condado de Essex. Me pareceu um ótima ideia criar um paralelo entre a história do lugar com a história do esporte e com as diferentes “famílias” que possuímos… Parentes de sangue e companheiros de equipe.

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Outro tópico importante no livro é a relação entre os personagens com super-heróis. Não quadrinhos, mas super-heróis, um conceito muito ligado à cultura norte-americana. Super-heróis foram muito importantes na sua infância?

Eles forma extremamente importantes para mim. Eles eram o meu escape e a coisa que mantinha a minha imaginação ativa quando criança. Eu cresci desenhando quadrinhos de super-heróis e copiando as ilustrações que mais gostava deles. O quadrinho que o Lester desenha em Condado de Essex era um dos meus desenhos feitos durante a infância. Eu ainda amo super-heróis e gosto de explorar diferentes aspectos deles nos meus trabalhos recentes para a Marvel e para a DC e também na minha série, Black Hammer.

Tanto em O Condado de Essex quanto em Sweet Tooth as histórias são apresentadas na maior parte do tempo a partir de perspectivas infantis. É interessante pra você colocar crianças como protagonistas?

Eu amo escrever personagens que sejam crianças. Eu acho as vozes delas muito fáceis de serem encontradas. E amo a imaginação farta que elas possuem. Eu também acho que as crianças sentem tudo de forma muito mais intensa que os adultos. Tudo tem um peso maior e mais importante quando você é criança. Eu amo investir nessas sensações de encantamento, inocência e mistério.

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O seu traço é muito particular e característico. Você vê muita mudança nele desde o lançamento de Condado de Essex? Aliás, você acha que tem um estilo de desenho? Se sim, como o define?

O meu estilo é muito particular. Eu soube desde cedo que não conseguia desenhar nada em um estilo foto-realístico e que a minha força como artista estava na minha habilidade de expressar emoções e sensações ao invés de realismo. Então eu aceitei e abracei essa ideia. Eu acho que o meu estilo evoluiu muito desde Condado de Essex. Hoje eu estou colorindo todas as minhas artes, dando um aspecto ainda mais orgânico ao meu trabalho.

É difícil para você adaptar o seu estilo entre seus trabalhos mais autorais e obras para editoras mais comerciais como Marvel e DC?

Quando eu comecei a escrever para outros artista eu lutei muito para levar o meu próprio estilo para esses trabalhos porque os meus desenhos e o meu estilo de ilustração tinham um peso grande no que eu fazia. Mas com o passar dos anos eu fui ficando cada vez melhor em me colocar no trabalho de outras formas. É claro, os trabalhos em que desenho serão sempre mais pessoais do que aqueles em que não desenho. Eu apenas entrego mais de mim quando desenho. Mas também tenho melhorado em me colocar em outros trabalhos.

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Como anda a adaptação de O Soldador Subaquático para o cinema? O roteiro já está pronto? Há algum cronograma da produção?

Não há muita coisa para contar. Hollywood tem um ritmo muito lento quando comparada com os quadrinhos. Tudo o que posso dizer a esse ponto é que o Ryan Gosling e seus sócios da Waypoint Entertainment compraram os direitos do livro e estão trabalho no desenvolvimento da adaptação.

Você está trabalhando em algum livro novo no momento? Você pode falar um pouco sobre ele?

No momento eu estou escrevendo e desenhando uma série chamada Royal City. Praticamente uma continuação de Condado de Essex em muitos aspectos. Trata de família, luto e memória.

Você pode recomendar alguma coisa que esteja lendo, ouvindo ou assistindo no momento?

No momento eu estou obcecado com os livros do Haruki Murakami e com a mais recente temporada de Twin Peaks!

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Janaína de Luna, Lauro Larsen e Carlos Junqueira falam sobre Os Morcegos-Cérebro de Vênus e Outras Histórias. Assista!

O Carlos Neto do Papo Zine gravou quase a íntegra da minha conversa com Janaína de Luna, Lauro Larsen e Carlos Junqueira sobre Os Morcegos-Cérebro de Vênus e Outras Histórias que rolou lá na Ugra no dia 12 de agosto. Gostei muito desse papo. Conversamos sobre a origem do livro, os métodos de restauração dos quadrinhos e ainda rolaram algumas revelações interessantes sobre os próximos títulos da Coleção Incendiária. Vale tirar uma horinha aí pra assistir com calma. Dá o play:

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Sábado (12/8), às 16h: uma conversa na Ugra Press com os editores de Os Morcegos-Cérebro de Vênus e Outras Histórias

Já falei um monte por aqui como Os Morcegos-Cérebro de Vênus e Outras Histórias é uma das granes sacadas editoriais publicadas no Brasil em 2017 – tanto na minha matéria sobre o livro pro UOL quanto na entrevista com os editores do álbum. Sábado agora, dia 12 de agosto, estarei com o Lauro Larsen, o Carlos Junqueira e a Janaína de Luna da Mino na loja da Ugra aqui em São Paulo pra conversar sobre o projeto. O papo tá marcado pra começar às 16h e a ideia é conversar um pouco sobre quadrinhos pré-Comic Coe, o contexto político e cultural do período, curiosidades sobre a produção do livro e o futuro da Coleção Incenciária. Imperdível, viu? Recomendo que você presença lá na página do evento no Facebook.

Entrevistas / HQ

Papo com Lauro Larsen e Carlos Junqueira, os editores de Os Morcegos-Cérebro de Vênus e Outras Histórias: “O Código mutilou a indústria no seu momento de maior explosão criativa”

O trabalho de Lauro Larsen e Carlos Junqueira na restauração e edição dos quadrinhos presentes na coletânea Os Morcegos-Cérebro de Vênus e Outras Histórias resultou em um dos projetos editoriais mais interessantes publicados no Brasil em 2017. Como expliquei na minha matéria sobre o álbum para o UOL, a obra é uma coletânea de HQs norte-americanas de ficção científica produzidas entre 1939 e 1954, quando foi instaurado o catastrófico Comics Code Authority – código de autocensura focado em prezar pelo bom mocismo e a civilidade do conteúdo publicado nas HQs da época.

A coletânea publicada pela Mino presta um serviço imenso resgatando clássicos e várias obras esquecidas, mas de um vanguardismo ímpar mesmo nos dias de hoje. Publico a seguir a íntegra da minha conversa com os dois idealizadores do álbum. Recomendo antes uma lida na minha matéria pra você sacar ainda mais sobre o projeto. Aí depois volta aqui pra ler o que os editores disseram da obra. Papo bem massa e instigante em relação ao futuro da Coleção Incendiária. Ó:

“Era um período de ebulição criativa, de busca selvagem por chocar e surpreender os leitores”

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Como surgiu a ideia desse projeto?

Carlos Junqueira: Como colecionador fascinado pela Era de Ouro dos Quadrinhos, estou sempre procurando relançamentos desse tipo de material, principalmente no mercado norte-americano. Reparei que em muitas dessas edições as imagens pareciam simplesmente retiradas de páginas escaneadas da internet e impressas em papel. Por achar que conseguiria fazer algo melhor, comecei a desenvolver um meio de restaurar essas revistas e tentar deixar a arte com a melhor qualidade possível – e posso dizer que ficaram melhores do que as arte originalmente publicadas, por causa da qualidade de impressão daquela época. Assim que vi os primeiros resultados da restauração, pensei na hora que precisava lançar este material impresso! Como estaria apresentando artes com mais de 60 anos para um público novo, decidi pelo preto e branco. Devido à colorização utilizada na época, muitos dos desenhos foram prejudicados. Mostrei estas páginas para meu amigo e também colecionador Lauro Larsen e ele pensou a mesma coisa, precisávamos lançar esse material! A partir daí desenvolvemos a ideia de montar uma coletânea e tentar lançar via financiamento coletivo, mas assim que apresentamos o projeto para a Janaína de Luna, ela topou na hora lançar o livro pela Mino.

Lauro Larsen: O projeto partiu das experimentações do Carlos Junqueira com restauro de arquivos digitais. Assim que comecei a ver os resultados sabia que o destino natural seria montar uma antologia, o que eu não tinha previsto era a magnitude que o projeto iria tomar. Eu realmente não tinha dado conta do tanto de trabalho que envolveria a feitura. É bom salientar que o projeto do livro e totalmente nacional, não tínhamos um livro importado de base. Desde o recorte para a escolha das histórias, passando pela adaptação dos abres das HQs, tudo foi feito com o maior perfeccionismo.

Outro desafio inédito, pelo menos para mim, era como dar um destino editorial para o livro. Eu já não faço parte do conselho editorial da Mino, o que significou que quando começamos esse projeto eu ainda não sabia como ia conseguir publicar. A primeira ideia seria o Catarse, mas eu nunca fui um entusiasta deste tipo de financiamento e achava que sem o apoio de uma editora não conseguiria o patamar de excelência que eu via como única opção para o livro.

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Qual vocês consideram ser a principal importância de resgatar esse material?

Carlos Junqueira: Acredito que a principal importância deste trabalho está no resgate de artistas desconhecidos ou mesmo famosos, mas em começo de carreira naquela época, que produziram uma quantidade enorme de histórias, que hoje em dia são raríssimas, e apresentá-los para uma nova geração de leitores.

Lauro Larsen: Esse material representa o ápice da Era de Ouro, quando imaginação e experimentação ainda eram a regra do jogo. É importante para todo leitor ou profissional de HQ conhecer essas histórias, elas ajudaram a fundar o quadrinho moderno.

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Vocês estabeleceram dois recortes: pré-Comics Code e histórias do gênero de ficção científica. O que motivou esse filtro?

Carlos Junqueira: Acredito que antes do Comics Code os artistas tinham total liberdade de expressão sob o que estavam produzindo, isso caracterizou as artes e os enredos dessas histórias produzidas pré-Code e depois se perdeu. Além disso, é um material muito difícil de se encontrar por conta da grande quantidade de revistas que foram destruídas, literalmente queimadas, por serem apontadas como causa da ‘delinquência’ da juventude daquela época. Quase todos os relançamentos com material desta época gira em torno do tema terror, mas a quantidade de quadrinhos produzidos de ficção científica durante esse mesmo período foi muito marcante e vem sendo negligenciada pelas editoras até hoje. Juntando a isso tudo a nossa grande paixão pessoal pelo gênero, foi fácil chegar nesse filtro.

Lauro Larsen: Sabe, eu acho que aconteceu algo bem singular nesse período de 10 ou 15 anos que precede o Código. É uma mistura bem inusitada, em primeiro lugar existia o Macartismo, uma caça às bruxas promovida por pessoas e senhoras católicas com muito pouco a fazer. Em segundo lugar, existia um anseio desmedido dos donos das editoras e estúdios por produzir material em massa seguindo modismos de gênero e sem muita preocupação com o conteúdo desde que conseguisse atrair o máximo de leitores possível. No meio disso tudo, eu acredito que grande parte dos autores que produziam quadrinhos somente como um modo de sustento começou, a ver o real potencial de suas artes e importar suas ideias e seus desejos. Eles pouco se importavam se era uma aventura ambientada no espaço ou em uma cripta… Era um período de ebulição criativa, de afirmação das revistas em quadrinhos que se afastavam do seu primo rico, as tiras de jornais. Era uma fase de busca selvagem por chocar e surpreender os leitores e tudo isso é muito fascinante. São trabalhos que continuam a influenciar até hoje.

A escolha do tema de ficção científica é bem mais simples. Tínhamos que começar de algum lugar e, realmente, você não encontra tantas antologias de ficção como as de terror e até de romance. A ideia era trazer um material relevante, até mesmo para leitores acostumados a comprar essas antologias importadas.

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Na apresentação do trabalho vocês falam como conseguiram os scans dessas obras em domínio público em sites focados em preservação da história dos quadrinhos. Em quais condições estavam esses scans? Eles eram feitos a partir das edições originais? Quanto tempo levou pra recuperar todas essas HQs presentes no livro?

Carlos Junqueira:
A maioria destes scans possui uma ótima qualidade para se ler no computador ou em tablets, mas quando impressas ficam serrilhadas. Se você reparar bem, a maior parte das revistas sendo impressas hoje, por diversas editoras diferentes, vem do mesmo scan, apenas com tratamentos de imagem diferente e, em sua grande maioria, as editoras mantém as revistas com suas cores originais. Foi graças ao trabalho dos responsáveis por esses sites e de colecionadores que emprestam suas revistas para serem escaneadas que todos estes relançamentos estão sendo possíveis. Sem esse material online disponível, seria impossível pensar em um projeto como o nosso, devido ao alto custo para se adquirir as revistas originais, sem falar no tempo necessário para encontrá-las.

Do começo do processo até o produto final que temos agora, já se passaram quase dois anos de tentativas e erros até chegar ao melhor resultado possível, sempre trabalhando em cima do material disponível online. Cada página é tratada manualmente para remover toda a cor e restaurar todas as imperfeições, chegando a demorar até uma hora por página, dependo da qualidade do scan. Para chegarmos às 31 histórias do livro, cheguei a tratar mais de 150 HQs, que foram sendo filtradas até chegar à seleção final.

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Eu contei o nome de 23 autores nas biografias do livro. Há alguns artistas mais conhecidos, como Alex Toth, Jack Kirby e Joe Kubert, mas outros que imagino que poucos leitores conheçam. Desses nomes mais desconhecidos, há algum trabalho que chamou a sua atenção por algum motivo especial?

Carlos Junqueira: Para mim, a qualidade artística do trabalho produzido nesta época pelo Basil Wolverton, que depois ficou mais conhecido por seu trabalho de humor para a revista Mad, estava muito além do que vinha sendo feito por seus companheiros. Se você folhear as revistas originais em que estes trabalhos aparecem, não tem como comparar as outras histórias contidas nas publicações com as dele. Ele estava anos luz à frente do que estava sendo produzido.

Lauro Larsen: Fletcher Hanks, sem dúvidas. Ele tinha uma imagética selvagem, um destempero alucinado que impressiona até hoje. Não é de se surpreender que muitas de suas historias foram republicadas pela notória revista RAW, sem contar os livros dedicados a ele pela Fantagraphics.

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Eu fico muito impressionado com a criatividade não só dos enredos como também das artes e dos designs de páginas dos quadrinhos do livro. Você consegue fazer um comparativo entre esse conteúdo produzido até 1954 e ficções científicas e HQs norte-americanas do nosso presente? É generalista falar de todo um gênero e até de uma indústria, mas você vê muita influência dos trabalhos desses artistas em publicações recentes? Vê algum tipo de retrocesso ou avanço em relação a o que esses quadrinistas faziam e o que é feito nos dias de hoje?

Lauro Larsen: Bom, podemos dizer que esse período e a fundação do que se tornou o quadrinho moderno, em todos os graus. Você tem gente como Jack Kirby, Steve Ditko e Joe Kubert, que praticamente pavimentaram todo o quadrinho mainstream americano. Não existiria o mercado de super-heróis sem Jack Kirby. Por outro lado, você tem caras como Basil Wolverton e o Fletcher Hanks e fica claro o impacto que eles têm num quadrinho mais underground americano. Caras como o Charles Burns tem muita influência destes autores.

É complicado a questão do retrocesso. É claro que o Código mutilou a indústria no seu momento de maior explosão criativa e o cenário seria muito diferente sem ele, mas as coisas são como são. E muito dessa base foi usada na indústria de super-heróis da Era de Prata.

Carlos Junqueira: Acredito que muitas dessas artes poderiam estar sendo produzidas hoje em dia, de tão avançadas que eram para a época em que foram lançadas – e creio que a maioria dos leitores acreditaria se falássemos que são criações dos dias atuais.

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Qual balanço você faz em relação ao conteúdo que vocês selecionaram para o livro? Quando você vê todo esse material reunido, qual você considera ser o maior legado desses artistas para a linguagem dos quadrinhos?

Carlos Junqueira: Estou muito contente com o resultado final do livro, acho que conseguimos chegar onde queríamos: um produto de qualidade, feito com muito respeito pelos artistas envolvidos e principalmente respeito pelos fãs. Acho que muitos descobrirão gênios completamente desconhecidos e, assim como nós, vão se apaixonar pelos seus trabalhos.

Lauro Larsen: Não tem como quantificar o legado destes artistas para o quadrinho moderno. Acho que o livro dá um escopo bem completo do que era produzido nesses anos selvagens e eu não podia estar mais contente com todo o trabalho, acho que vai agradar tanto a jovens leitores quanto a leitores hardcore.

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O livro sai com o selo Coleção Incendiária. Quais são os planos de vocês para essa coleção?

Carlos Junqueira: O plano é conseguir chegar o mais longe possível (risos) Vai depender da recepção dos leitores. O que posso adiantar é que além de terror e ficção científica, esse período ainda teve uma quantidade enorme de histórias de outros gêneros, como western, super-heróis, romance e etc. Durante esses dois anos de projeto já restaurei mais de duas mil páginas, de diversos outros temas. Quem sabe o que pode vir por aí? Western? Terror? Só o tempo dirá…

Lauro Larsen: A Coleção Incendiária é auto-explicativa, né? A ideia é conseguir apresentar o maior número de gêneros que permeavam o quadrinho pré-Code, sempre com todo esmero e cuidado que essas obras merecem. E vou te falar, com o barulho que o anúncio do projeto conseguiu, estou bem confiante que não vai demorar muito para vermos um segundo volume da coleção.

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HQ / Matérias

Bar, O Miolo Frito e os bastidores de um boteco de São Paulo

Já comentei por aqui o tanto que gostei de Bar, álbum dos caras do Miolo Frito publicado há alguns meses pela Mino. Agora eu escrevi pra Rolling Stone de julho uma resenha da HQ. O meu texto sobre o quadrinho foi impresso do lado de críticas sobre o Paciência do Daniel Clowes e uma compilação de contos do Dostoiévski – o que considero um tremendo feito pra um quadrinho sobre um boteco pé sujo de São Paulo. Chamei atenção principalmente pra arte incrível e pro entrosamento de Breno Ferreira, Benson Chin, Adriano Rampazzo e Thiago A.M.S., dessa vez com a participação de Shun Izumi. Recomendo o meu texto na revista e, mais uma vez, o gibi.

HQ / Matérias

Os Morcegos-Cérebro de Vênus e Outras Histórias e o despertar da Era de Ouro dos quadrinhos norte-americanos

O trabalho de Carlos Junqueira e Lauro Larsen na coletânea Os Morcegos-Cérebro de Vênus e Outras Histórias resultou em uma dos álbuns mais interessantes e divertidos publicados no Brasil em 2017. Os dois editores do projeto restauraram 29 histórias em quadrinhos de ficção científica lançadas nos Estados Unidos entre 1939 e 1954 e assinadas por autores do naipe de Jack Kirby, Alex Toth, Steve Ditko e Wally Wood. É um quadrinho mais sensacional que o outro numa edição de 208 páginas com acabamento de luxo. Conversei com os dois idealizadores do álbum e transformei nosso papo em matéria pro UOL, dá uma lida.

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