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HQ / Matérias

A Ocupação Laerte no Itaú Cultural

AndreSeitiDivulgaçãoItaúCultural

Começa hoje em São Paulo a Ocupação Laerte no Itaú Cultural. Quarta passada eu conversei durante mais de uma hora com a Laerte durante a montagem da exposição. Ela me falou sobre a curadoria feita pelo Rafael Coutinho, a sensação de ver seu trabalho reunido e algumas impressões dela sobre sua produção recente. Transformei a conversa em matéria pro Globo de hoje. Tá aqui. A foto aí de cima é de divulgação do Itaú Cultural e de autoria de André Seiti.

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Entrevistas / HQ / Matérias

Papo com os autores de Neurocomic, Hana Ros e Matteo Farinella

Assim que cheguei aqui em Londres, um dos quadrinhos ocupando lugar de destaque nas vitrines das comicshops era Neurocomic. Mas confesso só ter parado pra prestar atenção na obra depois de ver ela sendo recomendada por acadêmicos e pela Wired, já em abril. Publicado pela editora londrina Nobrow, o gibi é assinado pelos neurocientistas Hana Ros e Matteo Farinella. Fiz uma entrevista imensa com a dupla, parte dela foi publicada na edição de julho da Galileu. Conversamos sobre a relação entre memória e a linguagem dos quadrinhos, a possibilidade de trabalhos científicos serem apresentados como graphic novels e a genialidade de Chris Ware. Segue o meu texto pra revista e a íntegra da nossa conversa:

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HQ / Matérias

Quaisqualigundum, o samba-quadrinho de Roger Cruz e Davi Calil

A história em quadrinho Quaisqualigundum vai ser lançada dia 15 de julho. O gibi é ambientado no universo das canções de Adoniran Barbosa e é roteirizado por Roger Cruz e pintado em aquarela por Davi Calil. Já li a obra e tenho certeza que será um dos grandes lançamentos brasileiros de 2014. Conversei com os dois autores e escrevi sobre o quadrinho para o Segundo Caderno do Globo. A matéria tá disponível para leitura aqui.

MatériaQuaisOGlobo

Cinema / Matérias

Next Goal Wins: a saga de um dos piores times do mundo em busca de uma vaga na Copa

TNGW

A Copa do Mundo provavelmente estaria ainda mais emocionante caso a seleção da Samoa Americana estivesse participando do torneio. Última colocada no ranking da Fifa ao longo de vários anos, o time do arquipélago da Polinésia fez uma campanha histórica nas eliminatórias para o torneio no Brasil. No início do ano comentei sobre o documentário Next Goal Wins,  que mostra o caminho do equipe por uma vaga na Copa. Conversei com um dos diretores do filme, Steve Jamison, sobre a produção do filme. Meu texto e a entrevista com o cineasta foram publicadas no Segundo Caderno do Globo. A íntegra da matéria está aqui.

GloboNextGoalWins

Matérias

Comics Unmasked: a exposição de HQs da Biblioteca Britânica

A foto aqui de cima foi tirada na recepção da Biblioteca Britânica. O imenso painel da exposição Comics Unmasked mostra a importância do evento, realizado dentro de um dos maiores templos literários do Reino Unido. Já falei por aqui sobre alguns dos encontros realizado em paralelo à exposição – um com o John Talbot e outro com o Neil Gaiman – e em breve postarei coisas novas por aqui. Saiu no Estadão minha matéria sobre as origens e os destaques da retrospectiva. Conversei com o Paul Gravett, uma das maiores autoridades de quadrinhos do mundo e curador da exposição. As imagens são da assessoria da exposição e de autoria de Tony Antoniou. Segue o meu texto:

MatériaComicsUnmasked

Exposição em Londres mostra a origem das HQs britânicas

Mostra fica em cartaz até o dia 19 de agosto

Ramon Vitral – Londres – Especial para O Estado de S.Paulo

Entre as 14 milhões de obras presentes no acervo da Biblioteca Britânica em Londres, estão preciosidades como duas Bíblias impressas por Gutenberg na década de 1450, o manuscrito original do poema Beowulf, um caderno de anotações de Leonardo Da Vinci e a impressão mais antiga da história da humanidade – o Sutra do Diamante, datado de 868 d.C. No entanto, o destaque da programação da biblioteca em 2014 são os quadrinhos britânicos. A exposição Comics Unmasked: Art and Anarchy in the UK (Quadrinhos desmascarados: arte e anarquia no Reino Unido) estará em cartaz na galeria da biblioteca até o dia 19 de agosto.

“A Biblioteca Britânica tem a maior coleção de quadrinhos britânicos no mundo, mas ela ainda não havia sido exposta publicamente”, explica um dos dois curadores do evento, o jornalista inglês Paul Gravett, em entrevista ao Estado. Com seu colega John Harris Dunning, Gravett concebeu uma retrospectiva separada por seis temas e ambientes: violência, sociedade britânica, política, sexo, estilos e autores e linguagem.

O Estado esteve presente no primeiro dia do evento. A sala inicial da exposição reúne definições sobre quadrinhos de vários artistas e autores impressas nas paredes. Em seguida, o visitante é recepcionado por vários manequins encapuzados utilizando a máscara do protagonista da série V de Vingança. Segundo Paul Gravett, a rebeldia do herói sintetiza um dos elementos mais constantes dos gibis produzidos no Reino Unido.

“Das publicações impressas mais antigas às inovações digitais do presente, os quadrinhos britânicos sempre foram subversivos e combativos em relação a injustiças, preconceitos, questões sociais e sexuais”, analisa o curador. O processo de escolha do material exposto começou em 2012, a seleção final veio a público no momento que Gravett acredita ser o mais propício para tratar do assunto. “Os quadrinhos estão cada vez mais relevantes no Reino Unido – com graphic novels ganhando prêmios literários, inspirando filmes, música, moda e games – e, principalmente, tendo seus méritos reconhecidos como expressão artística e pelo dinamismo de sua narrativa.”

A mostra reúne impressões e artes originais datadas desde o início do século 19 até roteiros e publicações recentes de autores como Alan Moore, Neil Gaiman e Grant Morrison. Estão presentes um tabloide policial de 1888, noticiando um dos ataques de Jack, O Estripador, tiras sobre a luta das mulheres pelo voto universal, obras tratando do início do movimento punk, a chegada de Margaret Thatcher ao poder, a ficção científica distópica da editora 2000AD e a relação entre alguns autores e o ocultismo. A imensa presença de autores britânicos na indústria norte-americana de quadrinhos também recebe atenção especial.

“Os escritores britânicos reinterpretaram radicalmente os icônicos super-heróis norte-americanos, tornando-os mais sombrios e profundos do que nunca”, explica o curador. “Quando britânicos escrevem esses personagens, eles constantemente causam surpresas e choques, como o Alan Moore deixando a Batgirl paraplégica em A Piada Mortal e o Grant Morrison matando o Batman. Antes disso, sofrimentos reais e morte eram conceitos quase impossíveis nos quadrinhos americanos.”

Mestres no palco. Junto com a Comics Unmasked, uma série de outros eventos ligados a quadrinhos estão marcados para a Biblioteca Britânica até o fim de agosto. São palestras com artistas e escritores como Neil Gaiman, Dave McKean, Robert Crumb, Alejandro Jodorowsky, Melinda Gebbie e Bryan Lee O’Malley. O primeiro encontro foi com o quadrinista Bryan Talbot.

Chamado de “David Bowie dos quadrinhos”, pela versatilidade de seu traço, Talbot lançou no evento sua mais recente produção. Roteirizada por sua mulher, Mary Talbot, e também com ilustrações de Kate Charlesworth, Sally Heathcote: Suffragette conta a história da luta das mulheres pelo direito ao voto.

Autor de graphic novels como Luther Arkwright, Alice in Sunderland, GrandVille e, a mais recente e premiada, Dotter of Her Father’s Eyes, Talbot lembrou do seu início de carreira, quando ganhava menos de 10£ por página. Hoje, segundo ele, seus métodos de desenho não mudaram muito. “Posso passar anos elaborando o conceito de uma HQ e trabalhando em rascunhos, já em algumas outras eu consigo criar todo um enredo em menos de um dia”, disse no auditório da Biblioteca Britânica.

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Entrevista. Paul Gravett, curador da exposição Comics Unmasked.

Paul Gravett já publicou livros sobre mangás e história dos quadrinhos. Uma das maiores autoridades mundiais no assunto, o jornalista e curador da exposição na Biblioteca Britânica conversou com o Estado sobre o evento e seus grandes nomes.

Quais são os personagens mais icônicos das HQs britânicas?

O mais vendido no mundo, na década de 1880, era Ally Sloper, o primeiro superastro das histórias em quadrinhos, que estreou há exatos 130 anos, em 3 de maio de 1884, e durou até os anos 1920. Herói nacional, o personagem zombava dos ingleses e de seus costumes. E há ainda o Zé do Boné e o policial futurista e fascista Juiz Dredd. Personagens femininas vão da agente secreta sexy Modesty Blaise à selvagem Tank Girl. Talvez o mais famoso de todos seja V de Vingança.

Qual a diferença entre autores ingleses e norte-americanos?

É a ousadia e a audácia, que talvez venha parcialmente do fato de os autores britânicos terem uma perspectiva distanciada dos Estados Unidos e do gênero de super-heróis. Como um ex-império, conseguimos sentir amor e repulsa por eles e, ao mesmo tempo, percebemos a mágica e o absurdo desse universo. Isso também é influência dos nossos quadrinhos, de tiras infantis semanais como The Beano a publicações underground ou a ficção científica distópica da 2000AD. Essas publicações deram tons, energias e ironias completamente diferentes para nossos escritores e artistas.

Qual a importância da revista Warrior para HQs britânicos?

Como a 2000AD, a Warrior serviu de vitrine e porta de entrada para vários autores e séries, como V de Vingança e Miracleman. O seu editor, Dez Skinn, foi uma figura crucial e revolucionária para os quadrinhos britânicos. A Warrior, que funcionou entre março de 1982 e janeiro de 1985, transformou em definitivo o nosso mercado.

Alguns dos autores mais respeitados hoje são britânicos, como Alan Moore, Neil Gaiman e Grant Morrison. Você vê algum padrão no trabalho deles?

O que eles têm em comum é que são leitores vorazes, muito bem informados e curiosos, interessados em questões que vão além de suas paixões por quadrinhos. São magos da linguagem.

Quem faz parte da mais nova geração de quadrinistas britânicos?

Há mais mulheres no meio agora, como Simone Lia, Nicola Streeten e Karrie Fransman. Alguns grandes mestres estão no auge, como Dave McKean, Pat Mills, Bryan Talbot e Kelvin O’Neill. A mais nova geração é marcada por nomes como Kieron Gillen, Luke Pearson, Isabel Greeberg, Christian Ward, e o mais novo, presente na Comics Unmasked, com 13 anos, Zoom Rockman.

Post com um agradecimento especial para a minha amiga Julia Fernandes, que me falou da exposição assim que cheguei aqui em Londres. Valeu, Juliette!

Cinema / Matérias

The Record Breaker – O campeão dos campeões

RecordBreaker

Um dos documentários mais legais que vi ano passado foi The Record Breaker, do diretor norte-americano Brian McGinn. Ele conta a história de Ashrita Furman, o cara com a maior quantidade de recordes quebrados no Livro dos Recordes. Entrevistei o diretor sobre o filme pra Galileu. Tentei de várias formas falar com o próprio Furman, mas como me explicou McGinn, ele é extremamente recluso. O que torna o documentário ainda mais interessante. Segue o meu texto e a íntegra da minha entrevista com o Brian McGinn:

MatériaRecordesGalileu

O campeão dos campeões

Documentário retrata vida do maior recordista do livro Guiness

De todas as façanhas do norte-americano Ashrita Furman, de 59 anos, a que mais impressiona é o seu número de marcas no Guinness, o livro dos recordes. Desde 1979, quando fez 27 mil polichinelos, foram cerca de 500 (o Guinness diz ter perdido parte dos registros, mas 181 delas ainda não derrubadas), o que o transformou no maior recordista da publicação.

São feitos como ingerir a maior quantidade de gelatina em um minuto com olhos vendados e mãos amarradas ou soprar um selo ao longo de 100 me- tros arrastando-se no chão com um bicho-preguiça abraçado em seu peito — é isso mesmo o que você leu. “Até o mais bobo desses recordes é praticamente impossível”, conta o cineasta Brian McGinn, autor do documentário The Record Breaker sobre a vida de Furman. O recordista cresceu cercado por livros e sofrendo bullying por ser nerd. Seus pais contam que o garoto tinha notas para entrar em Harvard, mas resolveu dar outro rumo à vida. Aos 16 anos, virou discípulo do guru indiano Sri Chinmoy (1931-2007), largou os estudos, brigou com os pais e começou uma busca pela “iluminação” por meio de uma pai- xão de infância, o Livro dos Recordes. Sua busca é sustentada pelo salário como gerente de uma loja em Nova York e por outros discípulos de Chinmoy. “Uma das lições que se aprende dele é que você só vive uma vez. Se não segue suas paixões, pode desperdiçar tempo”, diz o documentarista.

Você se lembra da primeira vez que ouviu falar de Ashrita Furman? Qual foi a primeira coisa que pensou sobre ele?

Conheci Ashrita em um artigo publicado no New York Times. Havia uma pequena nota sobre ele, acompanhada de uma foto com ele cortando uma maçã com uma espada de samurai. Pensei que era um cara interessante – quem poderia se importar tanto em ser bom em algo tão bobo? Amo filmes como O Equilibrista e O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, e estava tentando fazer um documentário com o mesmo espírito desses filmes, então o Ashrita apareceu como o personagem perfeito. Ele é tão intenso e focado, mas também pateta, e as coisas que ele estava fazendo eram absurdas. Só queria saber mais sobre ele.

Suas opiniões sobre ele mudaram muito ao longo do filme?

Fazer um filme sobre alguém sempre muda sua opinião sobre a pessoa – ao invés de ver alguém de longe, você passar a pensar nela como pessoa, com tudo que isso implica. O Ashrita continua uma espécie de enigma para mim, mas acredito que fazer o filme me ajudou a compreender o porquê dele fazer o que faz e também o que é necessário para ser o melhor em qualquer coisa que você faça: é tudo uma questão de dedicação, gasto de tempo e trabalho duro.

Imagino que seja difícil para ele conseguir financiamento para as quebras de recordes, mas acho que deve ser ainda mais difícil produzir um filme sobre alguém tão excêntrico. Como seus produtores reagiram quando você resolveu filmar o documentário?

Os projetos do Ashrita são financiados de algumas formas: o pai dele dá o dinheiro, o grupo espiritual dele paga para seus seguidores divulgarem sua causa e várias iniciativas ele faz perto de casa.

Em relação ao gasto no documentário, é sempre difícil financiar qualquer tipo de filme. Minha sorte ao fazer The Record Breaker foi que meu produtor amou o tema – e realmente, ao longo das filmagens, investidores disseram: “amamos o assunto e nossa audiência vai amar o filme, só descubra o que está além da quebra de recordes e estamos dentro”. Então eu apenas foquei em descobrir qual seria a história humana que iríamos contar. Depois disso, o dinheiro foi moleza.

De onde você acha que vem a origem da obsessão dele com recordes?

Acho que a obsessão do Ashrita com a quebra de recordes decorre da relação com o guru espiritual dele e, um pouco antes, provavelmente tem suas origens na relação com o pai, que era um poderoso advogado em Nova York. O Ashrita tinha um perfil de criança estudiosa, nerd, e se dar bem em um ambiente atlético é algo atraente pra ele. Ele credita todos seus recordes às suas práticas espirituais. Como uma pessoa sem crenças, sou mais cético em relação ao poder da religião, mas acho interessante pois essas práticas realmente ajudaram ele a acreditar nas suas habilidades, deram a ele a crença de que ele poderia realizar qualquer coisa.

Quanto tempo você passou com ele fazendo o filme?

Levei mais ou menos um ano tentando convencer o Ashrita a fazer o filme comigo, depois filmamos em cerca de três semanas e mais um ano de produção.

E qual dos recordes dele você acha mais absurdo?

Ele tem o recorde de comer maior quantidade de gelatina em 60 segundos com uma venda e as mãos amarradas para trás. O que quer dizer que ele fica enfiando a cara em uma bacia gigante cheia de gelatina e come como um louco ao longo de um minuto. É bem engraçado e bastante absurdo.

Os recordes dele são bastante impressionantes. Mas a história fica ainda mais interessante quando ficamos sabendo das notas altas e todas as possibilidade de carreira que ele teve. Na sua opinião, o que significa hoje em dia abandonar tudo para viver de sonhos como o Ashrita fez?

Histórias como a dele, de pessoas que seguiram rumos alternativos à norma cultural, são inspiradoras nos dias de hoje pois há mais pessoas optando por rotas mais seguras em suas vidas e carreiras. Escolher realizar seus sonhos, ainda mais quando eles são repletos de atividades bobas e engraçadas, é admirável quando você não sabe como vai arrumar dinheiro, pagar o aluguel, a comida e tudo mais que você precisa para sobreviver. Acho que uma das lições do filme é que você só vive uma vez. Se você não segue suas paixões, pode acabar desperdiçando seu tempo na Terra.

O Ashrita diz no filme que a maioria dos recordes que ele quebra são coisas de criança e que o estilo de vida que ele leva é justificado pela busca por iluminação. Você acha que ele se considera próximo do sucesso dessa missão?

Ele se considera uma pessoa “a procura”, o que acho que quer dizer que ele nunca vai alcançar a iluminação, mas sua missão será eterna. O fato de Ashrita mensurar seu sucesso espiritual pelo Guinness World Records é uma das coisas que tornam ele um personagem interessante.Sempre procuro por personagens que sejam complicados e humanos e amo que exista uma certa ironia nessa busca: ele está numa missão espiritual, mas também quer acumular recordes no Guinness, algo aparentemente pouco espiritual.

Apesar dos recordes serem bastante infantis, eles não parecem muito fáceis. Você tentou praticar algum deles?

Até o mais bobo dos recordes é quase impossível de fazer. As pessoas sempre dizem “eu faria isso” quando acompanham o Ashrita em ação, mas quando elas tentam não é nada fácil. Tentei vários deles enquanto o Ashrita treinava e achei todos difíceis.

O pai dele diz no documentário que o Ashrita é a pessoa mais feliz que ele conhece. Você teve a mesma impressão?

O Ashrita é uma pessoa muito animada. Os momentos em que ele está quebrando recordes são com certeza seus instantes mais felizes, você vê a alegria no rosto dele. Tenho certeza que ele tem seus momentos de tristeza, como qualquer pessoa, mas prefiro pensar nele como um pessoa feliz, empolgada e um pouco infantil.

Por quanto tempo o Ashrita e o pai pararam de conversar?

Isso nunca ficou claro pra mim. O Ashrita diz que foram alguns anos e o pai falou em seis meses. Mas foi um período significativo. Ele também teve alguns desentendimentos com a mãe, mas não consegui incluir esse enredo na versão final do filme.

Li algumas críticas do seu filme comparando Ashrita a Forrest Gump e a alguns personagens de filmes do Wes Anderson. O que você acha dessas comparações?

Sou um grande fã de Wes Anderson, então é uma honra ter o filme comparado ao trabalho dele. Acho que o nosso filme tem um personagem peculiar, mas trata de temas universais – sobre família, como você vive sua vida e como ser feliz. Nesse sentido, Record Breaker é provavelmente semelhante ao trabalho do Wes – a princípio é estranho e engraçado, mas ao analisar um pouco mais, é na verdade sobre como todos nós vivemos.

Há alguma história peculiar que você vivenciou com o Ashrita e não entrou no filme?

Acho que a mais reveladora sobre ele é uma que está no filme, quando ele tenta estabelecer um recorde pessoal de tempo na retirada do lixo. Ela mostra como natureza competitiva dele e o esforço contínuo dele para se superar superar tomou conta da vida dele. É uma cena engraçada, mas mostra como você precisa ser se quiser ser tão bom quanto ele na hora de quebrar recordes. Uma outra que ficou fora da versão final: quando filmávamos em Londres, ele estabeleceu o recorde em andar com os sapatos mais pesados. Jantamos e fomos imediatamente para uma loja de calçados para que ele quebrasse novamente a marca com um peso extra. Então ele queria quebrar um recorde que ele havia estabelecido mais cedo naquele mesmo dia. Isso diz muito sobre a motivação.

Literatura / Matérias

The Martian: um relato de sobrevivência em Marte

Nos meus primeiros dias em Londres vi no metrô uma propaganda sobre o livro The Martian, recém-lançado e de autoria do engenheiro de software norte-americano Andy Weir. Terminei de ler a obra em alguns poucos dias e entrevistei o autor. Descobri que o livro será lançado no Brasil em breve e que a Fox comprou os direitos de adaptação para cinema ou televisão. Transformei isso tudo em uma matéria publicada hoje no Estadão:

TheMartianEstadão

Um relato de sobrevivência em Marte

Ficção científica criada por engenheiro de software faz sucesso na Nasa e deve virar filme pelos estúdios Fox

Ramon Vitral – Londres – Especial para O Estado de S.Paulo

O 17.º astronauta a pisar em Marte não poderia imaginar seu destino fatídico. Tido como morto por seus companheiros de missão, ele foi deixado no planeta vermelho com estoque limitado de alimento e sem qualquer forma de comunicação com a Terra. O engenheiro de software norte-americano Andy Weir também não imaginava que seu conto de ficção científica publicado em um site pessoal ganharia uma versão impressa por um dos maiores grupos editorias dos Estados Unidos e teria seus direitos para o cinema comprados pela 20th Century Fox.

The Martian (O Marciano, 385 páginas, US$15) chegou às livrarias dos Estados Unidos e da Inglaterra no início de fevereiro, pela Crown, um dos selos da Random House. O livro tem previsão de lançamento no Brasil no segundo semestre de 2014, pela Editora Arqueiro, sem nome e preços definidos.

Os primeiros boatos sobre o filme ligam o roteirista de Guerra Mundial Z, Cloverfield e do seriado Lost, Drew Gorddard, à direção. Mais recentemente, sites norte-americanos especializados em bastidores de Hollywood cogitaram que o ator Matt Damon poderia protagonizar a produção.

“Eu postava cada um dos capítulos no meu site. Então resolvi publicar na Amazon para as pessoas lerem mais facilmente em seus e-readers. Vendeu muito bem e isso chamou a atenção da editora”, explica Andy Weir em entrevista por e-mail.

Ainda trabalhando em tempo integral como engenheiro, Weir tem recebido críticas bastante positivas por seu primeiro romance. “Essa é uma ficção científica em um nível que nem mesmo Arthur C. Clarke chegou”, exaltou o diário nova-iorquino The Wall Street Journal em referência a um dos cânones do gênero, o autor de 2001: Uma Odisseia no Espaço, morto em 2008.

Em seguida à entrevista ao Estado, Weir publicou em sua página no Facebook que as próximas semanas seriam as últimas nas empresa de computação na qual trabalhou nos últimos anos. “Tenho uma oportunidade para trabalhar com o emprego dos meus sonhos e preciso arriscar. Caso contrário, eu me arrependeria pelo resto da minha vida”, avisou na rede social.

Estratégia. O livro de Andy Weir é contado a partir dos registros do protagonista em seu computador pessoal. Já consciente após ser atingido por uma tempestade de areia, o engenheiro mecânico Mark Watney retorna ao acampamento da segunda missão tripulada da Nasa a Marte. Com ração para apenas 50 dias e 300 litros de água, o herói passa a pensar uma estratégia para sobreviver até a próxima viagem da Nasa ao planeta, em aproximadamente quatro anos.

As soluções mirabolantes criadas pelo engenheiro Mark Watney para tentar resistir até o retorno de uma nave terrestre são um dos pontos altos do livro.

Na internet, Andy Weir foi celebrado pelo bom uso de seus conhecimentos científicos no romance e foi respaldado por empregados da própria agência espacial americana. “Recebi vários e-mails de funcionários da Nasa que gostaram bastante”, conta o engenheiro de software.

Na entrevista abaixo, o autor contou ter criado um programa de computador para simular a rota mais precisa entre a Terra e Marte presente em sua obra.

Entrevista. Andy Weir, engenheiro de software e escritor independente.

‘Sempre fui fã de viagens espaciais’

AndyWeir

Como surgiu a ideia do livro?

Estava imaginando como seria uma missão tripulada a Marte. Passei a considerar todas as formas possíveis de tudo dar errado e como a tripulação agiria. Percebi como essas vá- rias falhas poderiam resultar em uma história bastante inte- ressante. Depois levei três anos para escrever.

Sua formação como engenheiro ajudou na produção do livro?

Sempre fui grande fã de viagens espaciais tripuladas, en- tão comecei a escrever já com um enorme conhecimento da área. A partir daí fiz uma pesquisa enorme. Minha profissão também fez muita diferença. Eu precisei criar alguns programas de computação que simulassem a órbita do percurso que os astronautas fazem entre a Terra e Marte e depois o caminho de volta.

Como o livro acabou sendo publicado por uma grande editora?

Inicialmente eu postava cada um dos capítulos no meu site. Então resolvi publicar na Amazon para as pessoas lerem mais facilmente em seus e-readers. Vendeu muito bem e isso chamou a atenção dos editores da Crown, uma divisão da Random House.

E o quanto você precisou pesquisar além dos seus conhecimentos?

Gastei um tempo enorme fazendo pesquisas e toda a matemática do livro, mas eu gosto desse tipo de coisa, então não foi um problema pra mim. Para cada novo problema que o Mark enfrentava eu tentava encontrar a solução.

Depois que o livro foi lançado você parou de trabalhar como engenheiro?

Ainda estou trabalhando em tempo integral como engenheiro. Caso consiga um adiantamento para o próximo livro, pretendo largar o emprego e viver apenas como escritor.

Sobre o que será esse segundo livro?

Será uma ficção científica intensa, como The Martian.

Você soube de alguém da Nasa que tenha lido o livro?

Não soube de qualquer comentário oficial da Nasa sobre o livro, mas recebi vários e-mails de funcionários.