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Entrevistas / HQ

Papo com Marcelo D’Salete, o autor Angola Janga: “Temos uma subcidadania praticada e reafirmada cotidianamente. O poder permanece na mão de poucos”

Já comentei algumas vezes como considero Angola Janga – Uma História de Palmares o quadrinho brasileiro mais importante publicado em 2017. É um álbum histórico pelos 11 anos que Marcelo D’Salete passou produzindo, por causa dos temas que ele trata e pela qualidade da obra. Para escrever a minha matéria pro UOL sobre a HQ eu fiz duas entrevistas com o autor. Uma delas foi realizada antes que eu tivesse lido o livro, quando ele ainda estava sendo fechado. Nela eu pedi informações sobre o conteúdo do álbum, as pesquisas feitas pelo autor e as técnicas de produção do quadrinho.

A entrevista seguinte foi feita após a leitura do PDF da HQ, com o livro na gráfica, dias antes de sua chegada às livrarias e a publicação da minha matéria. Reúno a seguir as minhas duas conversas com D’Salete. Antes, no entanto, recomendo: leia Angola Janga, depois o meu texto no UOL e então volte pra cá e confira o nosso papo. Combinado?

– Parte 1 –

Eu queria começar sabendo sobre a origem do quadrinho. Você lembra do instante em que teve a ideia de criar Angola Janga?

Angola Janga foi um processo longo. É difícil pensar num começo. Em todo caso, um momento importante foi um curso sobre história do Brasil, focando a população negra, com o professor Petrônio Domingues. Isso cerca de 13 anos atrás. Conheci a história de Palmares com mais detalhes ali.

Você é pesquisador e sei que investiu muito tempo do desenvolvimento estudando o contexto sobre o qual iria tratar. Como foi esse trabalho de pesquisa pra produção do livro?

O trabalho de pesquisa foi muito longo. Engraçado, pois antes não tinha ideia de como isso seria extenso. É como se cada livro e tema levasse a novas pesquisas. Usei muito a biblioteca do Museu Afro Brasil no início. Foi importante para conhecer textos e imagens do período. Sobre Palmares, algumas das referências foram obras do Flávio Gomes, Décio Freitas, Clóvis Moura, Nei Lopes, Edison Carneiro, João Felício, etc. Mas fora isso, foi necessário muito mais para formar um quebra cabeça mais rico sobre o contexto e o tema.

Como disse, eu ainda não li a HQ. Você pode me falar um pouco sobre as tramas do álbum? Ele é semelhante ao Cumbe, misturando histórias fictícias, apesar de inspiradas em relatos reais?

Angola Janga é uma ficção. Me inspirei em fatos e personagens históricos, mas a narrativa é ficcional. E a ficção, em toda sua potência, pode fornecer instrumentos únicos para ver e imaginar nossa história. Um dos personagens principais é o mulato Antônio Soares. Ele é próximo de Zumbi. Há também o Ganga-Zumba, líder mais antigo de Palmares, Ganga-Zona, irmão de Zumba, Acotirene, Andala, os paulistas Domingos Jorge Velho, André Furtado. A história aborda o contexto de escravidão, as entradas contra os vários mocambos de Palmares, a tentativa de acordo de paz com Ganga-Zumba e o poder colonial, e a guerra final contra Palmares.

Este trabalho tem alguma similaridade com Cumbe. São 11 capítulos ao todo mais o posfácio. Gosto de imaginar que cada parte funciona bem isoladamente, mas eles formam uma grande narrativa no conjunto. Por outro lado, há personagens importantes que atravessam quase todos os capítulos e a narrativa tem mais a forma de um romance do que Cumbe.

Quais técnicas de ilustração você utilizou? Houve algum tipo de material específico que predominou enquanto você produzia o quadrinho?

Usei caneta nanquim e pincel com nanquim. Não usei tinta acrílica para as manchas, que era algo comum nos trabalhos anteriores. Nesses anos todos de processo, precisei rever muitas vezes o desenho, pois ele acabou mudando um bocado.

Você trabalhou com um roteiro? Houve alguma dinâmica específica de criação dos textos e da arte?

Em geral, elaboro um roteiro para começar a desenvolver a HQ. Contudo, a narrativa vai se desenvolvendo e procuro aproveitar as ideias que surgem no caminho. Muita coisa nova surge nesse processo. Em Angola Janga, aliás, muitos dos personagens foram surgindo de modo muito orgânico.

O seu trabalho é muito conhecido pela ambientação urbana e dessa vez, assim como em Cumbe, você sai desse contexto. É mais desafiador pra você trabalhar em uma HQ de época, fora dessa ambientação urbana?

Foi muito difícil, para mim, fazer essa transição. Em Cumbe, algumas páginas cheguei a fazer mais de 5 tratamentos até chegar em algo aceitável. Em Angola Janga, foram menos tratamentos, pois já havia desenvolvido mais familiaridade com o contexto. Por outro lado, foi um aprendizado imenso.

Vi definições do Cumbe como uma coletânea de histórias de resistência no Brasil colonial. O Angola Janga vai por esse mesmo caminho?

Palmares foi um evento incrível para o Brasil e para a América como um todo. Era um local onde milhares de negros e negras buscavam autonomia sobre suas vidas, fora do sistema colonial. Um conjunto de diversos mocambos, na Serra da Barriga, extremamente articulados e implicados entre si. Lá eles cultivavam seus alimentos, criavam aves e porcos, chegaram a ter até locais de forja de metais. Isso, por si só, já é uma forma de resistência enorme quanto ao poder colonial, escravocrata e genocida. Eu penso Angola Janga, do quimbundo “pequena Angola”, como uma extensão de Cumbe. Aliás, de certo modo, o contrário é o correto. Embora tenha sido publicado antes, Cumbe surgiu das pesquisas sobre Angola Janga. Os dois livros têm muito em comum.

Qual você considera ser a importância de tratar de resistência e luta em tempos tão nefastos de conservadorismo aflorado e repressão a minorias como estamos vivendo no Brasil – e no mundo?

Essa onda conservadora (e perda de direitos de muitos grupos) é contra o diálogo e qualquer interpretação diferente dos fatos e do modo de ver as coisas. Precisamos criar pontes e favorecer o diálogo. Há várias formas de tentar resistir a isso, mas não podemos esquecer de dialogar quando possível. E a resistência é imprescindível hoje.

– Parte 2 –

Você conta no fim do livro que um dos objetivos do quadrinho é “conduzir a narrativa a partir do olhar dos palmaristas”. Estamos muito viciados em ouvir e ler a nossa história sempre a partir da perspectiva dos dominantes. Qual você acredita ser a importância de ouvir e ler esse outro lado da história?

Nossa história conta com a presença e luta de grupos negros, populares e indígenas. De formas diferentes, eles se opuseram ou negociaram, quando possível, com um modelo colonial baseado em forte hierarquia social. Conhecemos a perspectiva das elites sobre isso, mas a história pela ótica dos oprimidos ainda é pouco evidente. Explorar esse universo pode ser significativo para a realidade atual. Não apenas para conhecer esses fatos, mas também para gerar novas formas de compreender a sociedade hoje. No Brasil, temos uma subcidadania praticada e reafirmada cotidianamente. O poder permanece na mão de poucos. Isso só é possível a partir de estruturas de poder e discriminação eficientes que permanecem desde o período colonial.

Você ressalta o papel significativo da ficção nesse empenho de narrar a perspectiva dos palmaristas. Ainda assim, mesmo sendo uma ficção, você vê potencial didático no trabalho que produziu?

Em Angola Janga a ficção tem um papel fundamental. Considero que ela é essencial para contar, com a força que espero, uma narrativa como a de Palmares. Os fatos históricos ainda são pouco acessíveis a grande parte da população. Neste sentido, a ficção e os quadrinhos podem tecer pontes interessantes para quem deseja conhecer mais. Se isso pode ser usado para fins didáticos, outras pessoas poderão dizer. Cumbe obteve uma boa aceitação nesse universo. Ele foi indicado para leitura em escolas de Portugal e distribuído em bibliotecas de São Paulo. Angola Janga pode ter uma trajetória semelhante.

No seu texto no final do livro você também fala da necessidade de administrar ficção e realidade e de suas decisões voltadas para tornar a narrativa mais concisa e interessante. Você poderia, por favor, falar mais sobre essa dinâmica de administrar essa relação entre fatos e ficção?

Angola Janga é uma ficção que dialoga com fatos históricos. Procurei usar a ficção e os quadrinhos da maneira mais eficaz para esse fim. A história dos mocambos de Palmares é enorme e eu precisava ser conciso ao contá-la. Tentei evitar dados desnecessários, repetitivos etc. Se pudesse e tivesse mais tempo, ainda acrescentaria mais capítulos, mas penso que o livro já tem uma boa extensão como está. O personagem Antônio Soares, por exemplo, surge na história conhecida de Palmares apenas como um dos últimos malungos ao lado de Zumbi na Serra dois Irmãos, em Viçosa, Alagoas. Ao fazer a trama, ele me pareceu o personagem ideal para acompanhar a maior parte da história.

Um tema que considerei muito constante no quadrinho tá sintetizado em uma fala que diz “o futuro é mais do que disputa entre nós”. Você considera uma constante história essa estratégia dos opressores de colocar os oprimidos uns contra os outros?

Não saberia dizer se é uma constante. Mas, certamente, isso ocorreu em nossa história. A estratégia portuguesa utilizou esse dispositivo contra indígenas e africanos. Não apenas os portugueses fizeram isso, mas holandeses, espanhóis, franceses etc. Principalmente no período colonial, além das divisões provocadas pelos colonizadores entre diferentes etnias e povos, os grupos negros armados contra outros exércitos foram os primeiros também a serem traídos. Como exemplo, basta lembrar dos lanceiros negros no sul.

Me chamou muita atenção no livro como você trabalha com elementos icônicos e simbolismos no livro. O capítulo 4, Cicatrizes, é repleto desses símbolos e no glossário do livro você explica o significado de alguns deles. Como foi o trabalho de chegar nesses ícones e incluí-los na trama?

Este foi um processo longo e demorado. Meu jeito de contar é com pouco texto. Não queria fazer Palmares de uma maneira muito diferente disso. A narrativa precisava ser contada de modo significativo em termos de imagem. Desconhecemos absurdamente as culturas de origem banto que formaram nosso país, seus conceitos, modo de ver as coisas e símbolos. Por esse motivo, além de autores nacionais, precisei recorrer a estudiosos africanos. Isso me ajudou a conhecer e compreender alguns símbolos. O povo tchokwe, do nordeste de Angola, por exemplo, tem um rico universo de desenhos chamados sona. São antigos desenhos feitos na areia, cheios de mensagens e significados. Além deles, tem os adinkra, de origem ashanti, do centro-oeste africano. Bem, tentei inseri-los na trama de maneira apropriada, condensando ideias, momentos e sentimentos.

Nesse quarto capítulo eu também acho muito interessante um trabalho de você faz que parece o zoom de uma câmera. Você foca em elementos muito específicos, depois vai abrindo o plano e em seguida dá o zoom outra vez. Você pode comentar, por favor, o uso dessa técnica?

Esse é um recurso usado por diversos autores. Talvez seja uma influência do cinema também. Tenho dificuldade em pensar a construção da página de quadrinhos de outro modo. Considero monótono trabalhar com o personagem em plano inteiro. Muitas vezes, num quadro, ideias podem ser sintetizadas a partir do foco em objetos ou pequenas ações. Por outro lado, é preciso abrir o plano para situar melhor a ação e fornecer mais elementos ao leitor. Gosto de usar esses recursos ao construir as páginas.

O sétimo capítulo, Selvagens, é focado principalmente nos bandeirantes. Há uma citação no livro que define os bandeirantes como “uma tropa de choque a serviço do colonialismo português” e essa interpretação tem se fortalecido ao longo dos últimos anos – os protestos constantes feitos no Monumento às Bandeiras em frente ao Parque do Ibirapuera são um bom exemplo disso. Qual você acredita ser a importância de revisitar, questionar e reinterpretar a história como é contada nas escolas?

Monumentos são utilizados para marcar o tempo, o espaço e configurar um modo de ver a história de um grupo. Hoje, os bandeirantes não sintetizam mais uma narrativa nacional significativa para grande parte da população. Eles foram parte responsável pela matança e extermínio de muitos povos indígenas. Precisamos construir uma leitura mais complexa desses monumentos hoje. Um monumento não precisa ser permanente. Ele pode ser retirado, alterado, como já aconteceu em muitos locais. Em todo caso, algo que precisamos muito, imagino, é ter espaço para outros monumentos, evidenciando outros lados da história. Em São Paulo, por exemplo, os monumentos que mostram a história da população negra são pouquíssimos. Com certeza, grande parte das pessoas não consegue nem ao menos citar um deles.

Qual a maior lição que você teve enquanto produzia esse livro? Houve alguma interpretação ou perspectiva sua em particular que mudou profundamente enquanto pesquisava e criava a HQ?

Muita coisa mudou nesses últimos 11 anos, desde quando fiz o primeiro roteiro para Angola Janga. Alterou o meu modo de compreender o passado e também o presente, em especial sobre os antigos e novos mocambos. Os remanescentes de quilombos atuais, com suas diferentes origens, ainda resistem e atestam a violência de nossa história. Ainda hoje, essas pessoas estão sistematicamente ameaçadas por fazendeiros, empreendimentos milionários etc. De certo modo, isso remete a ausência de reforma agrária desde o pós-abolição. Um elemento a mais que agrava brutalmente o desnível social em que vivemos. Neste ano, os conflitos envolvendo terras aumentaram e tendem a aumentar ainda mais devido aos interesses dos grupos mais poderosos e a falta de uma legislação contra essas ameaças.

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Marcelo D’Salete e as origens de Angola Janga – Uma História de Palmares

Eu e o Lielson Zeni do Balbúrdia batermos um papo breve, mas muito interessante com o Marcelo D’Salete sobre a criação de Angola Janga – Uma História de Palmares. A conversa rolou no dia do lançamento do livro na loja da Ugra, 14 de novembro, aqui em São Paulo, e foi filmada pelo Carlos Neto do Papo Zine. Em breve publico por aqui a íntegra da minha entrevista com o autor que culminou na minha matéria pro UOL. Enquanto isso, dá o play:

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3ª (21/11) é dia de lançamento de Angola Janga e bate-papo com Marcelo D’Salete e André Toral em SP

Vou mediar uma conversa com os quadrinistas Marcelo D’Salete e André Toral em mais um evento de lançamento do excelente Angola Janga – Uma História de Palmares. O papo rola amanhã (21/11), a partir das 19h, na Geek do Conjunto Nacional aqui em São Paulo. Quem foi ao lançamento na Ugra viu o quanto o D’Salete tem a dizer sobre as reflexões feitas por ele enquanto produzia o álbum. E a presença do André Toral, autor de Holandeses, amplia bastante o debate sobre as pesquisas de ambos para a criação de seus títulos mais recentes. E aí, vamos? Suspeito que vai lotar, viu? Chegue cedo! Mais informações lá na página do evento no Facebook.

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Rogério de Campos, editor da Veneta: “Precisamos defender como pudermos as livrarias especializadas”

A chegada do épico Angola Janga – Uma História de Palmares, de Marcelo D’Salete, às livrarias estimulou o editor da obra, Rogério de Campos a refletir sobre os 11 anos de produção do álbum e algumas mudanças ocorridas na cena brasileira de quadrinhos durante o período. O texto a seguir, publicado com exclusividade pelo Vitralizado, trata principalmente dos tempos turbulentos vividos por artistas e lojas especializadas em um contexto de crise econômica e conservadorismo aflorado:

“Angola Janga, o novo livro de Marcelo D’Salete, é provavelmente o maior romance em quadrinhos já publicado por um brasileiro. São 432 páginas de uma saga a respeito dos últimos dias do quilombo dos Palmares. Ao mesmo tempo que a Veneta lança o Angola Janga no Brasil, a Fantagraphics, a mais respeitada editora de quadrinhos dos Estados Unidos, está lançando Run For it, a versão norte-americana do livro Cumbe, também do D’Salete. As primeiras resenhas que já recebeu lá são entusiasmantes: o The Huffington Post publicou um longo artigo muito elogioso, a Publishers Weekly colocou o livro como um dos principais lançamentos da temporada e a resenha no A. V. Club termina dizendo: “Run For It é certamente um dos mais belos quadrinhos do ano, mas não é apenas uma maravilha de se ver: D’Salete usa suas imagens poderosas para sensibilizar e informar o leitor. É um feito incrível em forma de história em quadrinhos”.

Ao longo deste ano, foi uma experiência muito especial acompanhar como editor a finalização do Angola Janga e ver a vitória do D’Salete depois dos 11 anos de trabalho que o livro tomou.

É também uma vitória dos quadrinhos autorais brasileiros como um todo. Daqueles que criaram o ambiente onde foi possível gerar obras como Cumbe e Angola Janga. Em primeiro lugar de artistas como a Laerte, o Allan Sieber, o Lourenço Mutarelli, o Rafael Coutinho, o Marcello Quintanilha e tantos outros que fizeram muito mais do que trabalhar em seus quadrinhos. Deram o exemplo, agitaram a cena, divulgaram outros autores. O Quintanilha, por exemplo, não apenas abriu portas para quadrinistas brasileiros com seu prêmio Angoulême e o sucesso de Tungstênio e Talco de Vidro: foi desde o início um entusiasmado divulgador do Cumbe na Europa. Não é coincidência que a editora francesa do D’Salete seja a mesma do Quintanilha.

A atual cena brasileira é resultado do esforço dos artistas; de editores como o Claudio Martini (Zarabatana), que seguiram publicando quadrinhos autorais mesmo em momentos bem difíceis da economia; dos fanzines, blogs e da porção da imprensa especializada que fez mais do que vestir a camiseta da Marvel; dos organizadores dos eventos – como o FIQ, a Bienal de Curitiba, as Jornadas Internacionais de Quadrinhos, os Encontros Lady’s Comics – que não são apenas festas de consumo, mas momentos para apresentação de novos autores e troca de ideias a respeito de como viabilizar a produção e divulgação dos quadrinhos não industriais; dos cúmplices dentro de secretarias de cultura e entidades diversas que deram um jeito de enfiar os quadrinhos nas programações. É um esforço até internacional, porque envolve também editores, agentes, tradutores e jornalistas gringos.

O principal elemento da base econômica desse boom foi o investimento governamental em programas de compras de livro para bibliotecas, subsídios para edições, subsídio para traduções de livros brasileiros no exterior, promoção de eventos e tal. O PNBE (Programa Nacional Biblioteca na Escola), principalmente, teve um papel chave nesse boom. O outro elemento fundamental para a euforia na área dos quadrinhos foi, é claro, o crescimento do mercado interno brasileiro nos anos do lulismo. Esses dois elementos estão em frangalhos depois do bombardeio das “políticas de austeridade” impostas de maneira vacilante pelo governo Dilma e de maneira feroz pelo governo golpista.

“Políticas de austeridade”, reforma trabalhista, reforma da Previdência, cortes na Educação, Cultura e Saúde, liberação do trabalho escravo… tudo isso pode ser bom para latifundiários que exportam commodities (diminui o custo da mão de obra) e certamente é ótimo para os bancos, que ficam com um naco ainda maior do dinheiro do Estado. Mas é péssimo para o povo e, portanto, péssimo para quem vive de vender seus produtos para o povo. Como as livrarias.

A livraria em que a Veneta fez o lançamento do Cumbe, em 2014, não existe mais. Ficava na Vila Madalena, era especializada em quadrinhos e certamente uma das livrarias mais bonitas da cidade. Chamava-se Monkix. Seus donos, os irmãos Antonio e Marcelo Bicarato, queriam fazer do lugar uma referência do quadrinho autoral brasileiro. A Monkix fechou no início deste ano. Não foi a única loja especializada que fechou depois do Golpe. Várias outras fecharam.

A Monkix não apenas vendia quadrinhos. À maneira do que fazem a maior parte das livrarias especializadas, a Monkix fazia a divulgação dos quadrinhos nas suas redes sociais, promovia lançamentos, montava bancas em eventos, abria seu espaço para debates etc. E colocava em destaque, no balcão central, quadrinhos independentes que muitas vezes nem tinham como entrar nas grandes livrarias. É por tudo isso que as especializadas são agentes essenciais para a evolução dos quadrinhos no Brasil. Nomes de livreiros como o Jorge Rodrigues (Comix) ou a Mitie Taketani (Itiban) ou o Manassés Filho (Comic House) ou o Octávio da Costa (Gibiteria) ou os Utescher (Ugra) não estão nas capas dos gibis, nem nos créditos das graphic novels. Mas são pessoas essenciais para os quadrinhos brasileiros terem chegado onde chegaram. Como dono de editora, meu interesse muitas vezes é oposto ao deles. Brigamos de tempos em tempos por causa das condições de venda, por exemplo. Mas nunca perco de vista que a saúde da minha editora no longo prazo depende muito da saúde destas livrarias pequenas, especializadas.

Sei que algumas editoras, diante do trabalho que dá cuidar do Comercial, do controle de consignações, das emissões de notas, da logística (vender custa e muito), decidem simplificar e simplesmente vender seus livros em seu site, ou exclusivamente através de apenas uma grande livraria. Entendo, é mais fácil, cada um é cada um, mas eu acho que isso é um tiro no pé.

Vejo também que vários autores de livros criados com financiamento coletivo ou subsidiados pelo PROAC nem tentam fazer a distribuição em livrarias. Ouço falar de salas e garagens onde mofam caixas com centenas de livros que, afinal de contas, foram financiados com dinheiro público. Sei que, no caso do Proac, tem a cota que vai para a Secretaria para ser distribuída para as bibliotecas. Ótimo! Muito bom! Mas são as livrarias o ponto de encontro dos quadrinhos. Sem passar por elas, é muito grande a probabilidade do livro se tornar estéril, não ser conhecido por outros quadrinistas, não gerar outras obras. Se não quer passar pela chateação de aguentar editor interferindo na obra, se tem a certeza que pode fazer a divulgação sozinho, ótimo! Mas, por favor, arrume um jeito de dar a chance a seu livro de encontrar seu público, essa é uma responsabilidade social de autor.

Enfim, não dá para esperar: Fora Temer! Já! E leva junto o Henrique Meirelles!

Mas além daquilo que, como cidadãs e cidadãos, podemos fazer contra o Golpe, nós que temos interesse na sobrevivência dos quadrinhos brasileiros precisamos defender como pudermos as livrarias especializadas. Elas são nossos quilombos.”

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3ª (14/11) é dia de lançamento de Angola Janga – Uma História de Palmares e bate-papo com Marcelo D’Salete na Ugra

Ó, anota aí, programão pra amanhã (3ª, 14/11): o Marcelo D’Salete lança o aguardado Angola Janga – Uma História de Palmares na loja da Ugra aqui em São Paulo. A partir das 18h, antes da sessão de autógrafos, eu estarei por lá junto com o Lielson Zeni pra conversar com o quadrinista sobre as origens do projeto e a produção do quadrinho. Já comentei por aqui como considero esse álbum novo do autor de Cumbe e Encruzilhada a HQ brasileira mais importante publicada no país em 2017 e acho essa uma tremenda oportunidade pra ouvir ao vivo o que ele tem a dizer sobre o livro. De prévia, recomendo a minha matéria pro UOL sobre a HQ.

Mesa de Dissecação: Marcelo D’Salete + lançamento Angola Janga
Quando: 3ª, 14 de novembro, a partir das 18h.
Onde: Ugra (Rua Augusta, 1371, loja 116, Galeria Ouro Velho).
Página do evento no Facebook.
Grátis.

HQ / Matérias

Marcelo D’Salete e os 11 anos de produção de Angola Janga

É difícil pensar em um quadrinho nacional tão aguardado quanto o Angola Janga do Marcelo D’Salete. O álbum começou a ser produzido em 2006 e foi precedido pelo excelente Cumbe em 2014. Já tendo lido o quadrinho, posso adiantar: ele atende às expectativas e é, provavelmente, a HQ brasileira mais importante publicada no Brasil em 2017. Conversei com o autor sobre o livro, suas inspirações, as técnicas utilizadas por ele e suas principais reflexões após os mais de 10 anos de produção das 432 páginas da obra. O papo virou matéria no UOL e você lê aqui.

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Sábado (28/10) é dia de bate-papo com Sirlene Barbosa, João Pinheiro e Marcelo D’Salete na Quanta Academia de Artes

Ó, anota aí, programão pra sábado (28/10): três dos quadrinistas brasileiros mais interessantes dos últimos anos participarão de uma conversa na sede da Quanta Academia de Artes a partir das 18h30. O papo contará com a presença de Sirlene Barbosa e João Pinheiro, autores do aclamado Carolina, e Marcelo D’Salete, de Cumbe e do aguardado Angola Janga. O evento será simultâneo à abertura da exposição Narrativas Negras, com originais do Marcelo D’Salete.

Quem vai? Alguém podia filmar, hein? Enfim, segue o serviço: sábado (28/10), às 18h30 na Quanta Academia de Artes (Rua Doutor José de Queirós Aranha, 246, Vila Mariana, São Paulo, SP).

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A capa de Angola Janga – Uma História de Palmares a nova HQ de Marcelo D’Salete

Você provavelmente já viu por aí, mas acho importante o registro: taí a capa de Angola Janga – Uma História de Palmares, o tão aguardado álbum de Marcelo D’Salete, primeiro em seguida ao aclamado Cumbe. É com certeza um dos quadrinhos brasileiros mais esperados de 2017 e uma das minhas principais apostas para muitas listas de melhores HQs do ano. São 432 páginas em preto e branco, produzidas ao longo de 11 anos pelo autor. Saca a sinopse divulgada pela editora Veneta:

“Angola Janga, “pequena Angola” ou, como dizem os livros de história, Palmares. Por mais de cem anos, foi como um reino africano dentro da América do Sul. E, apesar do nome, não tão pequeno: Macaco, a capital de Angola Janga, tinha uma população equivalente a das maiores cidades brasileiras da época.

Formada no fim do século XVI, em Pernambuco, a partir dos mocambos criados por fugitivos da escravidão, Angola Janga cresceu, organizou-se e resistiu aos ataques dos militares holandeses e das forças coloniais portuguesas. Tornou-se o grande alvo do ódio dos colonizadores e um símbolo de liberdade para os escravizados. Seu maior líder, Zumbi, virou lenda e inspirou a criação do Dia da Consciência Negra.

Durante onze anos, Marcelo D’Salete, autor de Encruzilhada e do sucesso internacional Cumbe, pesquisou e preparou-se para contar a história dessa rebelião que tornou-se nação, referência maior da luta contra a opressão e o racismo no Brasil. O resultado é um épico no qual o destino do país é decidido em batalhas sangrentas, mas que demonstra a delicada flexibilidade da resistência às derrotas.

Um grandioso romance histórico em quadrinhos que fala de Zumbi, e de vários outros personagens complexos como Ganga Zumba, Domingos Jorge Velho, Ganga Zona e diversos homens e mulheres que compõe o retrato de um momento definidor do Brasil.”

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## Retrospectiva Vitralizado 2016 ## Encruzilhada (Veneta), por Marcelo D’Salete

Tremenda sacada dos editores da Veneta: reunir em uma única coletânea vários trabalhos curtos de Marcelo D’Salete. Cumbe foi lançada já como uma das obras-primas dos quadrinhos nacionais. O próximo projeto do quadrinista, Angola Janga, começou a ser produzido em 2006 e deve sair em 2017. Encruzilhada é uma ótima porta de entrada para o universo de um dos principais autores das HQs brasileiras contemporâneas.

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Angola Janga: uma página do próximo álbum de Marcelo D’Salete

O tão aguardado projeto do Marcelo D’Salete sobre Palmares foi um dos selecionados na edição de 2016 do Proac. Aliás, Angola Janga ficou entre os finalistas em duas categorias do programa de incentivo do governo do estado de São Paulo, Quadrinhos e Culturas Negras. O quadrinista utilizou sua conta no Facebook para falar um pouco sobre o resultado dos editais e ainda divulgar uma página da obra. Ó:

“Caros, o projeto Angola Janga, sobre Palmares, foi selecionado em dois editais do Proac. Uma grande honra. Devo escolher um deles para seguir com esta narrativa, que começou longe, em 2006, e agora chega em sua reta final. Agradeço aos colegas e parabenizo cada concorrente. Com certeza, no meio de tantos projetos, há inúmeros de grande qualidade. O ano de 2017 aguarda muitas novidades. E o Proac continua sendo um apoio importante para esse meio. Segue uma página do novo livro”.

Taí, fácil, fácil um dos quadrinhos mais promissores de 2017. Enquanto isso, vou ali reler meu Cumbe e recomendo a todos o mesmo – assim como a releituras das duas entrevistas que publiquei por aqui com o autor (uma aqui e outra aqui) e aquele ótimo vídeo com o quadrinista publicado no canal do Ferréz no YouTube.


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