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Entrevistas / HQ

Papo com Lovelove6, autora de Lombra, 19ª edição da coleção Ugrito: “Esse formatinho me encorajou a experimentar uma história em quadrinhos sem texto pela primeira vez”

A quadrinista Lovelove6 é a autora da 19ª edição da coleção Ugrito, publicada pelo selo Ugra Press. Batizada de Lombra, a HQ será lançada no sábado (3 de agosto), na loja da Ugra, em São Paulo, a partir das 16h – você confere outras informações sobre o lançamento na página do evento no Facebook

A HQ de 16 páginas é o primeiro trabalho de Lovelove6 integralmente sem texto e a sinopse oficial de Lombra fala em como a autora leva seus leitores a um ambiente onírico para apresentar “uma história sobre vulnerabilidade, coragem e esperança”.

Bati um papo por email com a quadrinista na qual ela falou sobre o ponto de partida de Lombra, apresentou as técnicas utilizadas por ela durante a produção do quadrinho e expôs seu interesse crescente por narrativas longas. Papo massa, saca só:

“Tenho me interessado muito mais por novelas gráficas e ficcionais, tramas de estruturas tradicionais e com uma estética e pensamento mais próximos do cinema”

Um dos personagens de Lombra, HQ de Lovelove6 publicada na 19ª edição da coleção Ugrito

Uma das graças dos Ugritos está na forma como cada autor faz uso desse formato pequeno e curto, com um número limitado de páginas. Foi desafiador pra você trabalhar dentro dessas restrições?

Tanto o tamanho pequeno quanto o número limitado de páginas são regras que eu tenho aplicado nos meus quadrinhos mais recentes, então por um lado eu estava confiante em relação ao formato do Ugrito. Esse formatinho me encorajou a experimentar uma história em quadrinhos sem texto pela primeira vez.

O conflito do Ugrito para mim foi definir o estilo de narrativa, porque inicialmente eu queria fazer uma história que me parecia ser melhor contada num estilo autobiográfico e de fluxo de pensamento, como as histórias que desenhei para o site A Nébula em 2015 e 2016. 

Atualmente porém eu tenho me interessado muito mais por novelas gráficas e ficcionais, tramas de estruturas tradicionais e com uma estética e pensamento mais próximos do cinema. 

Eu me sinto traindo um pouco os quadrinhos limitando as possibilidades dessa linguagem incrível aos limites das visualidades e narrativas cinematográficas, mas ao mesmo tempo eu tenho sentido que gosto mais de inventar histórias do que de desenhar.

Um dia eu queria mesmo é que me pagassem pra consultoria de roteiros, tipo script doctor, então a minha ideia é fazer muitas mais narrativas como a da Lombra pra construir essa moral. =p

Uma página de Lombra, HQ de Lovelove6 publicada na 19ª edição da coleção Ugrito

Qual foi o ponto de partida dessa história? Teve alguma reflexão ou inspiração em particular que te motivou a criar a trama de Lombra?

Um dia eu ganhei um bud de maconha que era muito cheiroso e em vez de fumar eu o guardei pra continuar sentindo o cheirinho toda noite. Foi assim que surgiu a ideia da história Lombra.

Você pode me falar, por favor, um pouco sobre suas técnicas? Você chegou a fechar um roteiro antes de começar a desenvolver Lombra? Você usa papel ou trabalha no computador? Como foi o desenvolvimento dessa HQ?

Como é uma história curta e sem diálogos, que eu já vinha elaborando na cabeça há muito tempo, comecei direto com os esboços em miniatura das páginas.  

Depois desenho maior e com a ajuda de uma mesa de luz passo todos os desenhos a limpo em folhas de gramatura boa, que recebem a arte final com uma pen brush e nanquim. 

Detalho e corrijo com guache branca e pincel, depois faço o tratamento e adiciono os tons de cinza digitalmente no computador. A imagem a seguir compara o esboço em miniatura com a página desenhada.

O esboço em miniatura em comparação com uma página desenhada de Lombra, HQ de Lovelove6 publicada na 19ª edição da coleção Ugrito

Lombra me fez pensar sobre confronto e esperança. Esses temas são caros para você?

Sou bem familiarizada com a ideia de confronto, mas não costumo pensar sobre ‘ter esperança’, talvez porque eu associe esperança a ter sorte. 

O que pesou para terminar a Lombra de forma esperançosa foi considerar a recepção e satisfação de leitores, mas nas minhas primeiras ideias da história, ela tinha um final niilista sem-vergonha. O que você acha, eu tomei a decisão certa?

Não faço ideia. Confesso ficar curioso em relação ao final niilista sem-vergonha, acho que ele pode entrar numa versão com extras do Ugrito… Você costuma levar em conta as possíveis recepções dos seus leitores quando está produzindo seus trabalhos?

Sim, com certeza. Costumo publicar muitos dos meus quadrinhos à medida que os desenho e leitores vão acompanhando, dando suas opiniões, compartilhando teorias e seus próprios conhecimentos sobre os temas. Por meio dessas respostas eu consigo ajustar e enriquecer a forma como estou construindo e comunicando a minha história. 

Sendo autora independente também preciso ser minha própria editora, tenho que fazer histórias que sejam boas e que também as pessoas queiram comprar. Espero que eu acerte mais do que falhe.

“A impunidade é a prova de que as instituições governamentais do Brasil são uma farsa”

Uma página de Lombra, HQ de Lovelove6 publicada na 19ª edição da coleção Ugrito

Aliás, falando em esperança, desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que é a nossa sociedade hoje. Você é otimista em relação ao nosso futuro?

Tenho um medo mórbido do futuro e ontem mesmo eu estava pesquisando sobre como conseguir um emprego no Peru ou na China (spoilers: sendo quadrinista não tem como). 

Tem esse governo ideologicamente escroto, tem o genocídio indígena, a treta da Vaza Jato e das milícias associadas à família Bolsonaro, que levam ao assassinato da Marielle Franco e ao genocídio da juventude negra.

A impunidade é a prova de que as instituições governamentais do Brasil são uma farsa.

Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Tenho ouvido muito ao podcast gringo Writing Excuses, sobre como desenvolver bons roteiros e histórias.

A capa de Lombra, HQ de Lovelove6 publicada na 19ª edição da série Ugrito
HQ

Dois eventos sobre quadrinhos na LAJE: Clube do Desenho #01 (com LoveLove6 & Lucas Gehre) e zine-oficina com Fábio Zimbres

Tá bem massa a programação de eventos sobre quadrinhos da LAJE aqui em São Paulo, hein? Dois deles, legais pra caramba, estão marcados pra rolar nos próximos dias – sendo um deles de graça. Na 5ª agora, dia 16, entre as 19h e 23h, rola a primeira edição do Clube do Desenho, com a presença de Lucas Gehre e da LoveLove6. Segundo os organizadores, a ideia do encontro é não só desenhar, mas criar um espaço para troca de experiências entre os artistas  e o público presente. De graça, é só ir. Dá uma sacada na página do evento no Facebook.

O outro evento bem promissor, marcado pros dias 25 e 26 de março, é a criação da Revista Troglo 01, um zine-oficina com o gigante Fábio Zimbres. Lá na página de inscrição do evento diz que a publicação será o projeto final da oficina. A matrícula sair por R$300 e pode ser feito no site da Laje.

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Entrevistas / HQ

Papo com as autoras de Topografias: “Todas nós possuímos uma certa inquietação na forma de narrar”

O álbum Topografias será lançado amanhã (16/7) na Gibiteria, aqui em São Paulo, a partir das 16h. A coletânea chega às lojas especializadas já como um dos grandes trabalhos em quadrinhos publicados no Brasil em 2016. As seis autoras responsáveis pela obra são algumas das quadrinistas mais interessantes em atividade no país hoje. Todas elas também com grandes obras publicadas em 2015: Julia Balthazar (Internet Friends), Bárbara Malagoli (Glitter Galaxxia), Lovelove6 (Garota Siririca), Mariana Paraizo (O Ateneu), Puiupo (Úlcera) e Taís Koshino (Coral).

Com histórias principalmente sobre relacionamentos e de ficção científica, Topografias impressiona principalmente pelas diferentes técnicas utilizadas por cada uma de suas autoras, assim como os estilos individuais de cada trabalho. Publicado pelo Selo Piqui de Brasília, o livro não só reúne boas histórias como propõe reflexões sobre várias possibilidades das linguagens dos quadrinhos. Conversei com as autoras do álbum por email. Uma das responsáveis pelo Selo Piqui, Taís Koshino me falou sobre a origem do projeto, a escolha do tema da obra e a dinâmica de produção do livro. Também fiz perguntas individuais sobre questões relacionadas às histórias de cada uma das artistas. Segue o papo:

[OBS: também recomendo a leitura da entrevista dada pelas quadrinistas à Ovelha e da resenha do Topografias feita pela Laura Athyde lá no Minas Nerds]

“Dentro de cada história de Topografias, há um universo particular, onde percebemos um tipo diferente de experimento, seja através da técnica utilizada, da composição da página, da escrita ou da própria narrativa”

Taís Koshino (Teneusca):

Quando e como surgiu a Topografias?

Nós nos conhecemos pessoalmente no FIQ de 2015. Todas nós já conhecíamos e admirávamos o trabalho uma das outras, através da internet. Durante o evento, constatamos o que já sabíamos: que poucas autoras mulheres são chamadas ou conseguem participar de antologias e coletâneas de quadrinhos. Decidimos pensar em algo pra responder a isso. A vontade de fazer uma publicação com pessoas que você admira vem de forma natural. Ao percebermos a força que nossos trabalhos poderiam ter juntos, todas se animaram com a ideia de uma publicação coletiva. Tornar isso realidade era a parte difícil. Eu era a única que, além de autora, já possuía uma editora independente (o Selo Piqui), então fiquei responsável pela organização e produção gráfica do projeto, que tomou forma como o Topografias, lançado oito meses depois, na Feira DENTE.

No site da revista diz que o tema do projeto “é a passagem, o percurso”, como vocês definiram esse foco e por que ele?

Assim que o FIQ acabou, já criamos um grupo online para nos comunicarmos e darmos continuidade ao projeto, porém, percebemos a necessidade de um tema que guiasse todas as histórias. Eu fiquei incumbida de dar três sugestões de tema a serem votados pelas autoras, e passagem/percurso foi o tema vencedor.

O tema é amplo e possibilita várias formas de abordagem que foram adaptadas pelo estilo de cada autora. A sua potência subjetiva abre muitas possibilidades de interpretação e nos remete a nossa própria história: perdas, procuras e descobertas, o que estamos passando e já passamos em nossas próprias carreiras como artistas. É um tema intimista e afetuoso, que deu uma fluidez ao livro, transformando-o em mais um percurso dos percursos criados pelas autoras.

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