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Traço: três noites de HQs, músicas e reflexões sobre produção e consumo de arte e cultura em Belo Horizonte

Acompanhei durante três noites em Belo Horizonte os quatros debates e sete shows da mais recente edição do festival Traço – Música e Desenhos ao Vivo*. Cerca de uma semana antes do evento começar, publiquei por aqui uma entrevista com o Jão, quadrinista e um dos organizadores do Traço junto com a jornalista Helen Murta. No meu texto, foquei no principal chamariz do festival, a reunião em um mesmo palco de músicos e quadrinistas/ilustradores nacionais. No término da minha primeira noite em BH ficou claro para mim que a proposta do evento é bem mais ampla: a reunião entre autores de HQs/desenhistas e músicos é a síntese de um encontro que se propõe a debater os rumos da forma como se vende, consome e pensa arte e cultura nos dias atuais.

Antes dos shows realizados no palco da casa A Autêntica entre os dias 4 e 6 de agosto, quadrinistas, músicos e produtores de diversas áreas de atuação debateram questões relacionadas ao mercado editorial, à receptividade do público a obras autorais e à busca por novas possilidades de fazer arte e viver de cultura.

Sara Não Tem Nome com Lovelove6 (Foto: Luiz Carlos Oliveira e Luiza Palhares)

Sara Não Tem Nome com Lovelove6 (Foto: Luiz Carlos Oliveira e Luiza Palhares)

Em seguida, as apresentações casadas entre ilustradores, bandas e cantores refletiam algumas dessas mesmas questões, colocavam artistas em ação fora de suas zonas de conforto e propunham novos cenários e perspectivas para o uso de suas respectivas linguagens. Ao longo dos três dias de evento, foram apresentadas parcerias entre Di Souza e Criola, Iconili e André Dahmer, Fadarobocoptubarão e Jão, O Lendário Chucrobillyman e Rafael Coutinho, Astigmatrio e Alves, Sara Não Tem Nome e Lovelove6 e Curumin e Karina Buhr. Variou de show para show a dinâmica entre quadrinistas/ilustradores e seus colegas de apresentação: enquanto alguns dos desenhistas pareciam ter elaborado seus trabalhos antes de cada show, outros pareciam ter subido ao palco dispostos a conceber ao vivo suas ilustrações.

Debate com Gabriela Carvalho, Ione de Medeiros, Jonnatha Horta Fortes, Leo Moraes, Rodrigo Cunha e Helen Murta (Foto: Luiz Carlos Oliveira)

Debate com Gabriela Carvalho, Ione de Medeiros, Jonnatha Horta Fortes, Leo Moraes, Rodrigo Cunha e Helen Murta
(Foto: Luiz Carlos Oliveira)

Após o meu retorno de Belo Horizonte, mandei um longo email com várias perguntas aos dois responsáveis pelo evento. Helen Murta e Jão fizeram um balanço sobre a mais recente realização do Traço, casada com uma edição da feira de publicações independentes Faísca – ambos eventos realizados pela Pulo Comunicação e Arte (produtora cultural de propriedade dos dois). Eles também comentaram alguns dos tópicos mais constantes debatidos durante as conversas entre seus convidados. Recomendo a leitura da minha entrevista curta com o Jão feita previamente ao evento e um assistida no vídeo a seguir, que lista a programação do Festival. Depois, tira um tempinho aí pra ler o nosso papo, conversa bem boa mesmo. Ó:

Eu queria que vocês falassem um pouco de cada performance durante os shows, tanto das bandas quando dos artistas. Em relação aos quadrinistas, foram dinâmicas muito diferentes. A maior parte delas parece ter sido freestyle, outras parecem ter sido pensadas previamente aos shows e outras em parceria com os músicos. Alguma apresentação específica chamou a atenção de vocês? Jão, em relação ao seu trabalho durante o show do Fadarobocoptubarão: o quanto você já tinha pensado da sua ilustração quando começou a criar?

Helen: Tenho bastante dificuldade em destacar uma apresentação. Escolhemos os trabalhos para estarem ali por realmente gostarmos de cada um deles, e pela vontade de vê-los em outros âmbitos, que não o da produção particular de cada desenhista ou de cada banda.

De qualquer forma, penso em um destaque como um todo. Depois que pensamos a junção das bandas e desenhistas, lá na fase de pré-produção do festival, mesmo já tendo em mente que cada performance será uma experimentação – que o trabalho de música e desenhos realmente vai surgir na hora, sendo ele planejado previamente ou não –, o que acontece ao vivo sempre me surpreende. Pra mim, é esta a melhor parte do Traço: as apresentações serem inusitadas, inesperadas, mesmo pra quem criou e organiza o festival.

Di Souza com Criola (Foto: Luiz Carlos Oliveira)

Di Souza com Criola (Foto: Luiz Carlos Oliveira)

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HQ

Música e desenhos ao vivo no festival Traço em Belo Horizonte

Gosto bastante de ver quadrinistas/ilustradores em ação fora de suas zonas de conforto e também propondo novas possibilidades de uso da linguagem das HQs. O conceito do festival Traço – Música e Desenhos ao Vivo em Belo Horizonte investe exatamente nessas ideias. Marcado pra rolar na capital de Minas Gerais entre os dias 4 e 6 de agosto de 2016 na casa de shows A Autêntica, o evento é organizado pelo quadrinista Jão e pela jornalista Helen Murta e reúne em um mesmo palco vários músicos a alguns dos autores de HQs mais interessantes da cena nacional.

Para essa próxima edição do evento, além de artistas mineiros, também foram convidados autores de outros estados, como André Dahmer, Lovelove6, Rafael Coutinho e a Karina Buhr (pra desenhar e não cantar) e bandas como O Lendário Chucrobillyman e Curumin. Além das apresentações ao vivo, o festival também contará com lançamentos de livros e alguns debates com temas bem interessantes (Vida selvagem: Pagando as Contas com Quadrinhos, Ebulição: Mercado Gráfico Agora e Produção de Risco: Lugares e Possibilidades da Cultura).

Um dos responsáveis pelo festival e autor do excelente Baixo Centro, lançado ano passado pela editora Miguilim, o Jão bateu um papo por email comigo falando sobre as origens do evento, a dinâmica da produção ao vivo de uma obra com música tocando e a experiência de assistir esse tipo de apresentação. Segue o papo e o teaser do evento, com a parte de animação produzida também pelo Jão:

Quais são os critérios para a escolha dessa determinada seleção de músicos e artistas do festival e como foi feita a combinação de ilustradores/músicos?

A curadoria do festival sempre foi feita pensando em mostrar um panorama do que é produzido em termos de música e artes visuais aqui em Belo Horizonte. De minha parte, que cuido mais especificamente da seleção de desenhistas, gosto de convidar os quadrinistas que admiro, mas sempre aparecem artistas de outras áreas como pintura, ilustração, artes gráficas, grafite. Da parte musical, na qual a curadoria é feita pela produtora e jornalista Helen Murta, as escolhas são bem voltadas para a produção independente e ela também segue o princípio da variedade de estilos e formatos.

Já a combinação é feita a partir das atrações que gostaríamos de incluir no festival, mas, muitas vezes, a escolha de um desenhista determina qual banda chamaremos e vice-versa. Nossa ideia é proporcionar uma experiência inédita para o público, então tentamos formatar performances que se aproximem ao máximo desse ideal, embora, em algumas oportunidades, tenhamos partido mais de uma provocação, reunindo banda e desenhista com trabalhos que não se aproximavam, para ver o que sairia daquela apresentação. Normalmente nós marcamos reuniões de criação também, que é uma oportunidade para os músicos e desenhistas alinharem suas propostas. Nem sempre é possível, mas muitas coisas legais já saíram desses encontros.

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