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Uma conversa com Carlos Neto sobre Fugir – O Relato de um Refém e os quadrinhos de Guy Delisle

Já escrevi por aqui como Fugir – O Relato de um Refém é um dos melhores quadrinhos publicados no Brasil em 2018. Eu entrevistei o autor da obra, o canadense Guy Delisle, e escrevi sobre a HQ pro UOL. Agora sentei para conversar sobre o álbum com o Carlos Neto, editor do canal Papo Zine. Chamamos atenção para o que consideramos de mais interessante na HQ e apresentamos algumas relações entre Fugir e trabalhos prévios de Delisle. Papo massa. Dá o play:

Entrevistas / HQ

Papo com Guy Delisle, o autor de Fugir – O Relato de Um Refém: “Você não sabe o que faria em uma situação tensa que nem aquela”

Fugir – O Relato de Um Refém é o mais recente trabalho do quadrinista canadense Guy Delisle publicado em português. Eu escrevi sobre a obra lançada por aqui pela Zarabatana Books para o portal UOL. No texto eu apresento algumas aspas da minha entrevista com o autor, tratando principalmente do processo de adaptação para quadrinhos do relato do trabalhador humanitário francês Christophe André sobre seus 111 dias como refém de uma milícia no Cáucaso no ano de 1997. Com 432 páginas, o livro oferece uma experiência de leitura angustiante, sempre propondo ao leitor possíveis questionamentos em relação a quais escolhas ele faria no lugar do protagonista da HQ.

Quinto livro de Delisle publicado no Brasil, Fugir é o primeiro não protagonizado pelo autor. Ao contrário dos diários de viagem Shenzhen – Uma Viagem à China, Pyongyang – Uma Viagem à Coreia do Norte, Crônicas Birmanesas, Crônicas de Jerusalém e do bem-humorado Guia de Um Pai Sem Noção, Delisle se faz presente apenas na primeira página de Fugir, entrevistando Christophe André. Ainda assim, após ambientar seus trabalhos mais conhecidos em locais com governos ditatoriais ou conhecidos pelas restrições impostas aos seus cidadãos, Fugir soa como o mais recente capítulo de uma série sobre pessoas em contextos de falta de liberdade – tópico obrigatório para um Brasil em meio a uma disputa presidencial protagonizada por um candidato militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista.

Recomendo demais a leitura de Fugir – O Relato de Um Refém e da minha matéria sobre o quadrinho para o UOL. Depois volte aqui e leia a íntegra da minha entrevista com Delisle, conversa muito interessante sobre a construção de sua HQ mais recente, a dinâmica de seu trabalho com Christophe André e as reflexões que vieram à mente dele enquanto desenvolvia o álbum. Com vocês, papo com Guy Delisle:

[A entrevista a seguir foi traduzida pelo jornalista, crítico, pesquisador e tradutor Érico Assis. Valeu pela ajuda, Érico!]

“Tínhamos que transformar isso em história em quadrinhos. E ele falou: ‘Claro, por que não?'”

Você lembra do momento em que teve a ideia de contar a história do Christophe André em HQ? Aliás, você lembra como a mídia francesa noticiou essa história?

Eu tinha lido o diário de Christophe no jornal e depois tive oportunidade de encontrá-lo num dia que ele estava com amigos da Médicos Sem Fronteiras, que me avisaram: ‘Ele vem almoçar conosco.’ Como eu já conhecia a história, comecei a fazer perguntas, mas pensei que uma pessoa que tivesse passado por uma experiência daquelas não ia gostar de contar. Fui pensando: que trauma, ele não vai falar muita coisa. Só que, na verdade, ele foi muito aberto. Contou a história inteira a todos nós, com detalhes, e aquilo foi tão fascinante que eu pensei: Uau, tínhamos que transformar isso em história em quadrinhos. E ele falou: ‘Claro, por que não?’ Levei bastante tempo, mas desde ali, desde o princípio, eu percebi que embora a maioria das pessoas que é sequestrada não goste de contar a experiência, esse cara era diferente porque ele tinha fugido. Como ele mesmo disse: ‘Fugir é a melhor terapia’. Por isso ele não se sentia vítima nem nada do tipo. Se sentia inclusive mais forte que antes do sequestro. Por isso que não tinha problema em contar.

Você poderia falar um pouco da dinâmica do seu trabalho com o Christophe André? Como ele recebeu a sua proposta de transformar a história dele em quadrinho?

Passamos só um dia juntos, mas ficamos em contato durante os 15 anos que eu levei para fazer o álbum. Ficamos muito amigos porque temos muito em comum. Acho que é por isso que o quadrinho está aí, pois de outro modo acho que teríamos perdido o contato. A partir da gravação eu fiz várias anotações, coloquei em ordem e comecei a trabalhar. Eu enviava as páginas pra ele, pois foi a primeira vez que coloquei palavras na boca de alguém e no começo achei muito difícil. Ficava pensando: o Christophe vai ter que ler isso aqui. Se não eu vou ficar num bloqueio constante. Então eu fazia 10 ou 15 páginas, enviava pra ele, ele me dava um retorno e eu seguia adiante. Eu não queria que ele tivesse surpresas negativas no final, quando recebesse o livro. Queria que ele soubesse o que estava no livro e concordasse com tudo.

“Um amigo tirou fotos minhas seminu na cama e no chão, que na época deu uma sensação muito esquisita, mas ajudou bastante porque optei por um desenho mais realista que o meu normal”

Uma grande diferença entre o Hostage e os seus livros de viagens é que você não teve a experiência de estar presente no local em que a sua história é ambientada. O processo de criação desse livro foi muito diferente desses outros? Você usou muitas referências fotográficas? Como decidiu o que desenhar?

Bom, a maior parte do livro se passa em uma sala onde não tem nada, e isso é bem fácil de desenhar. No resto, tirei fotos de mim mesmo amarrado a um radiador no meu estúdio. Tenho algemas que comprei porque sabia que era uma coisa que ia desenhar por 400 páginas. Um amigo tirou fotos minhas seminu na cama e no chão, que na época deu uma sensação muito esquisita, mas ajudou bastante porque optei por um desenho mais realista que o meu normal. Foram boas referências. Depois disso, quando ele foge e estamos na Chechênia, procurei imagens vilarejos na Inguchétia e na Geórgia porque na internet, quando se procura Chechênia, só se encontra lugares fechados, nada externo.

Você poderia falar um pouco das suas técnicas?

Desenho tudo no papel e depois escaneio. Eu desenhava em folhas avulsas em vez de ter uma prancha final, porque queria chegar no aspecto de rabisco. Não apagava nada. Saía desenhando e ficava com o que me deixasse satisfeito, e no fim do dia escaneava tudo e deixava a montagem da página para depois, no computador. Sombreamento e tons de cinza também foram no computador. Ou seja, metade do dia era desenhar e escrever, isso pela manhã. Aí no fim do dia eu escaneava e montava. Em um dia normal de trabalho, costumo fazer uma página.

“Christophe dizia: ‘Com uma pressão dessas, você vira uma pessoa bem diferente.'”

Mesmo não tendo tantas variações de cores, Hostage é o seu livro mais colorido, certo? Como você chegou nessa paleta específica de tons azulados e cinzas?

O desenho é simples, as cores são simples. Ele me dizia que ficou numa penumbra cinzenta. Não havia luz total no quarto. Era sempre meia luz, o tempo todo. Então resolvi mostrar isso com variações de cinza e um tom de azul. Foi isso.

Eu acho que o maior mérito do livro está em colocar na cabeça do leitor a dúvida do que ele faria no lugar do seu personagem. Você costuma especular sobre o que teria feito no lugar do seu protagonista?

Não sei. Christophe dizia: ‘Com uma pressão dessas, você vira uma pessoa bem diferente.’ Ele é um cara bem tranquilo e, quando pensa no que fez, é uma coisa que vai quase além da imaginação. Mas ele fez. E, como ele diz, você não é mais o mesmo. Você vira outra pessoa. Ou seja, você não sabe o que faria em uma situação tensa que nem aquela.

O quadrinho saiu em inglês como Hostage e em francês como S’Enfuir. Você que decidiu as duas versões do título? Aliás, foi difícil determinar qual seria o título?

Só escolhi o título em francês e deixei os outros a cargo de cada tradutor.

Os seus livros tratam principalmente de liberdade e de locais nos quais ela tem alguma restrição. O mundo está cada mais conservador e hostil em relação a liberdades individuais. O que você pensa sobre isso? Você é pessimista ou otimista em relação ao nosso futuro?

Depende do dia.

HQ / Matérias

Fugir – O Relato de Um Refém: Guy Delisle e os 111 dias de cativeiro de Christophe André

Eu entrevistei o quadrinista canadense Guy Delisle sobre Fugir – O Relato de Um Refém, obra recém-lançada no Brasil pela editora Zarabatana Books e uma das melhores HQs publicadas em português em 2018. O álbum adapta para quadrinhos um longo depoimento do trabalhador humanitário francês Christophe André sobre o período de 111 dias no qual ele ficou como refém de uma milícia na região do Cáucaso no ano de 1997.

Na nossa conversa, o autor falou sobre sua dinâmica com André durante a produção do livro, suas reflexões em relação ao drama vivido por seu personagem e a experiência de não dar as caras como protagonista após estrelar a tetralogia autobiográfica composta por Shenzhen – Uma Viagem à China, Pyongyang – Uma Viagem à Coreia do Norte, Crônicas Birmanesas e ‘Crônicas de Jerusalém. Esse papo virou matéria no UOL e você lê a minha matéria por aqui.

HQ

Hostage: leia depoimentos de Guy Delisle sobre a HQ que será publicada no Brasil em 2018 pela Zarabatana Books

O ano de 2018 já tem confirmado um de seus lançamentos mais importantes em língua portuguesa: a Zarabatana Books confirmou para o primeiro semestre do próximo ano a edição em português de Hostage, álbum de 436 páginas do quadrinista canadense Guy Delisle que em português ganhou o título Fugir – O Relato de Um Refém. A publicação foi uma das minhas leituras preferidas de 2017 e cheguei a comentar sobre a obra na minha matéria pro UOL sobre o primeiro volume de O Guia do Pai Sem Noção, do mesmo autor. O livro é uma longa adaptação para o formato de HQ de um relato dado a Delisle por Christophe André, funcionário da Médicos Sem Fronteiras que passou 111 dias em cativeiro na Chechênia após ser sequestrado no último dia de sua missão na região do Cáucaso em 1997. Repito: é, desde já, um dos principais lançamentos de 2018 no Brasil. Reúno a seguir algumas aspas de Delisle sobre a obra coletadas da minha entrevista com ele no mês de junho:

Sobre escrever pela primeira vez uma história protagonizada por outra pessoa: “Foi a primeira vez que isso aconteceu e eu já queria contar essa história há um bom tempo. Eu apenas continuava adiando porque estava fazendo os livros de viagens. Em determinado momento nós paramos de viajar tanto e achei que era a hora de focar nesse trabalho que queria fazer há tanto tempo. Há dois anos resolvi que deveria fazer ao invés de ficar apenas pensando nisso. Então tirei dois anos para trabalhar nesse livro, porque sabia que seria algo muito longo”

Sobre se colocar no lugar de Christophe André: “Eu já tinha pensando nisso antes mesmo de começar a trabalhar no livro. Quando eu conversava informalmente com ele já ficava imaginando ‘Uau! O que eu faria na situação dele?’. Mesmo antes da ideia do livro existir eu já me relacionava com a história do Christophe. Todo mundo pode se relacionar com a ideia de ser sequestrado de alguma forma, você está no lugar errado e no momento errado e então vira um refém. Então é uma história muito envolvente e achei que seria interessante de contar em formato de história em quadrinhos. E sobre a forma como você reagiria em uma situação como aquela: na verdade é impossível saber. O Christophe me explicou que não era a mesma pessoa que passou aquele período sequestrado. No período em que passou sequestrado ele estava sob muito estress e apenas reagia diferente da forma como reagiria em uma situação cotidiana de sua vida normal. Por mais que você pense “eu faria isso ou aquilo”, você agiria de outra forma naquela situação, você também seria outra pessoa”

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Sobre a produção do quadrinho: “Eu sempre mantive contato com o Christophe e estamos lançando o livro juntos aqui na França. Enquanto fazia o livro eu mandava as páginas para ele e ele lia e me retornava com alguns comentários. Eu não queria que ele recebesse o livro pronto e dissesse que eu deveria ser mais preciso em relação a alguma coisa ou que isso e aquilo não havia acontecido. Pra evitar isso eu enviava as páginas enquanto produzia e fizemos algumas mudanças aqui e ali. Para mim era muito importante que fosse o mais fiel possível à realidade”

Sobre as cores da HQ: “No Crônicas de Jerusalém também tem algumas cores. Eu gosto de cores, mas a estética desse livro é de pouco texto e de desenhos muito simples. Queria que as cores também fossem simples. Eu queria que tudo fosse tão simples quanto o contexto no qual o personagem estava vivendo. A comida era simples, ele não tinha mais nada. Enfim, queria simplicidade e o traço e as cores precisavam seguir isso. Pensei em fazer em preto e branco, mas fiz a capa e gostei do azul e achei que aquela cor dialogava com a situação”

Entrevistas / HQ

Papo com Guy Delisle, o autor de O Guia do Pai Sem Noção e Hostage: “Todo mundo pode se relacionar com a ideia de ser sequestrado de alguma forma, você está no lugar errado e no momento errado e então vira um refém”

O quadrinista canadense Guy Delisle acabou de publicar na América do Norte e na França o aclamado Hostage, já apontado por muitos especialistas como um dos grandes quadrinhos de 2017. O título narra o período de 111 dias no qual o funcionário da Médicos Sem Fronteiras Christophe André passou como refém de uma milícia no Cáucaso em 1997. Enquanto isso, no Brasil, chegou às livrarias o primeiro volume de O Guia do Pai Sem Noção, série de três livros no qual ele narra histórias engraçadas vividas por ele e seus dois filhos.

Entrevistei o quadrinista por telefone e transformei a minha conversa em matéria publicado no UOL. No meu texto, falo sobre o conteúdo de Hostage e de O Guia do Pai Sem Noção, comento um pouco mais sobre a trajetória do autor e também de seus trabalhos prévios sobre suas viagens a Shenzhen, Jerusalém, Burma e Pyongyang. Recomendo um pulo no UOL pra leitura do meu texto. Depois volta pra cá e dá uma lida na íntegra da nossa conversa. Ó:

“Eu fiz vários livros sobre viagens e aí resolvi que queria fazer algo menor, com humor. Nada relacionado a política ou geografia, apenas eu e as crianças”

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Você lembra do momento em que teve a ideia de criar a série do Guia do Pai Sem Noção?

Há um bom tempo eu tentei uma história, a primeira, e coloquei no meu blog. Depois eu recebi uma carta de um pai dizendo que ele e a esposa haviam esquecido a mesma coisa que eu, de colocar a tal recompensa do Rato do Dente. Foi engraçado. Era a minha primeira vez publicando na internet, então fiz a segunda e depois de algumas histórias o meu editor me ligou e disse que deveríamos transformar aquilo em um livro, que seria divertido. ‘Sim, claro! Por que não?’, então continuei fazendo as histórias. No começo eu não tinha em mente publicar isso em um livro, mas acabou acontecendo.

Quando o primeiro livro do Guia foi publicado os seus trabalhos mais famosos eram as obras de viagens. O Guia também é em primeira pessoa, mas é um gênero completamente diferente. Foi difícil pra você mudar o tema e o tom pra esse trabalho?

Eu fiz vários livros sobre viagens, depois do livro sobre Jerusalém, uma obra bem grande, e aí resolvi que queria fazer algo menor, com humor. Nada relacionado a política ou geografia, apenas eu e as crianças. Como eu estava mais em casa, de vez em quando alguma coisa acontecia. ‘Bem, isso é engraçado, talvez eu devesse fazer alguma coisa com isso’. Então a primeira aconteceu, depois a segunda e tudo isso acabou virando o livro.

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Os seus filhos já leram os livros? Como eles reagiram de se verem retratados como personagens de quadrinhos?

Hoje eles leem os livros, mas quando eu publiquei o primeiro eu não queria que o meu filho mais velho lesse. Mas como muitas crianças na escola dele estavam lendo achei que poderia ser um pouco constrangedor para ele e aí lemos juntos. Expliquei pra ele o que eram aquelas histórias, que elas estavam ali por serem engraçadas, para fazer graça com a realidade. Hoje os dois gostam dos Guias e eu também continuo gostando, então está tudo bem. Não tem nenhum problema.

E como foi a recepção da crítica em relação a esse contraste entre o Guia e seus trabalhos prévios?

Não saíram muitas críticas. Quando é humor parece que as pessoas não escrevem resenhas, elas devem ficar guardadas para outros tipos de livros (risos) Fiz algumas participações em programas de TV e de rádio, mas não muita coisa. Na verdade não me importo muito com isso. O livro funcionou bem, nós vendemos 100 mil cópias do primeiro, o que é o suficiente para mim (risos)

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Tanto os livros de viagens quanto os Guias são com você como personagem e sempre mostrando o seu ponto de vista. Como foi criar a partir da história de alguém em Hostage?

Foi a primeira vez que isso aconteceu e eu já queria contar essa história há um bom tempo. Eu apenas continuava adiando porque estava fazendo os livros de viagens. Em determinado momento nós paramos de viajar tanto e achei que era a hora de focar nesse trabalho que queria fazer há tanto tempo. Há dois anos resolvi que deveria fazer ao invés de ficar apenas pensando nisso. Então tirei dois anos para trabalhar nesse livro, porque sabia que seria algo muito longo.

Li uma entrevista na qual você fala que não considera os seus livros de viagens jornalísticos. Em qual gênero você define Hostage? É trabalho documental e quase jornalístico, concorda?

Eu acredito que alguém possa vê-lo dessa forma, mas… Quando eu penso em jornalismo tenho em mente um repórter que vai em algum lugar para falar sobre alguma coisa. Nesse caso eu estava contando a história do Christophe André, que havia me impressionado e era uma ótima história a ser contada, por ele ter sobrevivido a muita coisa e ter conseguido escapar. Sempre foi um livro muito interessante de trabalhar e não penso se é jornalismo ou não. Também não sei se é uma novela, talvez esteja mais para uma memória ou algo do tipo.

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Enquanto eu lia Hostage me colocava no lugar do Christophe André o tempo todo, sempre pensando o que poderia fazer no lugar dele. Você também fez isso? Cogitou como responderia e reagiria estando no lugar dele?

Eu já tinha pensando nisso antes mesmo de começar a trabalhar no livro. Quando eu conversava informalmente com ele já ficava imaginando “Uau! O que eu faria na situação dele?”. Mesmo antes da ideia do livro existir eu já me relacionava com a história do Christophe. Todo mundo pode se relacionar com a ideia de ser sequestrado de alguma forma, você está no lugar errado e no momento errado e então vira um refém. Então é uma história muito envolvente e achei que seria interessante de contar em formato de história em quadrinhos.

E sobre a forma como você reagiria em uma situação como aquela: na verdade é impossível saber. O Christophe me explicou que não era a mesma pessoa que passou aquele período sequestrado. No período em que passou sequestrado ele estava sob muito estress e apenas reagia diferente da forma como reagiria em uma situação cotidiana de sua vida normal. Por mais que você pense “eu faria isso ou aquilo”, você agiria de outra forma naquela situação, você também seria outra pessoa.

Você criou o livro a partir de suas conversas com o Christophe André. Como foi a produção a partir do momento em que encerrou a coleta desses depoimentos?

Eu sempre mantive contato com o Christophe e estamos lançando o livro juntos aqui na França. Enquanto fazia o livro eu mandava as páginas para ele e ele lia e me retornava com alguns comentários. Eu não queria que ele recebesse o livro pronto e dissesse que eu deveria ser mais preciso em relação a alguma coisa ou que isso e aquilo não havia acontecido. Pra evitar isso eu enviava as páginas enquanto produzia e fizemos algumas mudanças aqui e ali. Para mim era muito importante que fosse o mais fiel possível à realidade.

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Você não costuma usar muitas cores nos seus trabalhos. Como você chegou nessa paleta de cores azulada de Hostage?

No Crônicas de Jerusalém também tem algumas cores. Eu gosto de cores, mas a estética desse livro é de pouco texto e de desenhos muito simples. Queria que as cores também fossem simples. Eu queria que tudo fosse tão simples quanto o contexto no qual o personagem estava vivendo. A comida era simples, ele não tinha mais nada. Enfim, queria simplicidade e o traço e as cores precisavam seguir isso. Pensei em fazer em preto e branco, mas fiz a capa e gostei do azul e achei que aquela cor dialogava com a situação.

A maior parte dos seus livros, incluindo Hostage, é ambientada em lugares nos quais liberdades individuais são muito limitadas. Pelas suas experiências nesses locais, você fica assustado quando vê o aumento da popularidade e a chegada ao poder de indivíduos como Trump e Le Pen? Você teme ver na França a perda de liberdades individuais como viu nos países em que visitou?

Pode acontecer e por isso os movimentos de esquerda precisam ser fortes. Os franceses estão bastante conscientes disso tudo. Há muito debate sobre esse cenário, não sabemos o que pode acontecer e a Le Pen pode retornar, então precisamos ficar atentos. A eleição foi importante por mostrar que podemos evitar isso.

O Trump também foi uma decepção muito grande, mas é um risco que corremos com uma eleição e com o sistema democrático. A mesma coisa aconteceu aqui na Europa com o Brexit. Os britânicos estão começando a negociação para sair. Felizmente isso não representará o colapso da União Européia, mas há muito que se fazer a partir de agora.

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HQ / Matérias

Guy Delisle fala sobre a rotina com os filhos apresentada em O Guia do Pai Sem Noção e revela os bastidores da produção de Hostage

O canadense Guy Delisle é autor de alguns dos quadrinhos que mais gosto. Em 2017 ele está em alta em seguida ao lançamento do primeiro volume de O Guia do Pai Sem Noção por aqui pela Zarabatana e da publicação de Hostage lá fora pela Drawn & Quarterly. A única coisa em comum entre os dois título é o autor: enquanto um mostra a rotina de Delisle como pai de família, o outro é uma adaptação com mais de 400 páginas para o formato de quadrinho de um depoimento dado a ele por funcionário da Médico Sem Fronteiras que passou 111 dias como refém de uma milícia no Cáucaso em 1997. Entrei em contato com o quadrinista para falar sobre essas duas obras e nosso papo virou matéria no UOL. Vai lá dar um lida.

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