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Cinema / Retrospectiva 2013

Retrospectiva Vitralizado 2013 – Gravidade

GravidadePôster

Até tentei fazer uma lista de melhores filmes de 2013. Fui ao cinema 106 vezes no ano e fiquei confuso pra caramba em relação à ordem dos dez primeiros. Desisti no final das contas, mas sabia que Gravidade ficaria em primeiro lugar. Assim como Pacific Rim, o filme explora toda a magnitude e grandiosidade permitidas em uma tela de cinema. O espaço apresentado ao longo dos 90 minutos do filme é mais impressionante do que qualquer registro presente em documentários filmados em alta definição, por satélites reais, e exibidos em canais como National Geographic e Discovery Channel. Além das técnicas e efeitos irretocáveis, o diretor construiu personagens profundos, com dilemas e histórias de vida que emergem à medida que suas esperanças começam a diminuir. Melhor do ano. Fácil, fácil.

-Mais sobre Gravidade no Vitralizado: Aningaaq: o spin-off de Gravidade, Gravidade e a busca por Deus, Gravidade, O cinema de Alfonso Cuarón.

Cinema

Aningaaq: o spin-off de Gravidade

Aningaaq

Você viu Gravidade né? Lembra da cena que a Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock) consegue fazer contato com a Terra, mas não na Nasa, com um civil em uma língua que ela não entende? O Jonás Cuarón, filho do diretor Alfonso Cuarón, e co-autor do roteiro do filme, produziu um curta mostrando a versão terrestre desse diálogo. São só sete minutos, mas muito mais emocionantes do que 90% dos longas que vi em 2013. O filminho vai estar nos extras de dvds e blu-rays de Gravidade e a Warner deve indicar pra disputa do Oscar de curta. Assiste aí:

Cinema

Gravidade e a busca por Deus

Gravidade

Uma das coisas que mais gosto em Gravidade é o fato do filme do Cuarón ser muito pouco didático. Tirando duas cenas bastante autoexplicativas – a entrada da Sandra Bullock na estação russa e a sequência final – o filme inteiro é bastante legível, mas cheio de nuances e possibilidades de leituras que vão muito além da sinopse básica de “thriller-espacial-sobre-dois-astronautas-abandonados-na-atmosfera-terrestre”. Das muitas interpretações possíveis para as várias metáforas presentes no longa, uma das leituras mais bem sacadas que vi foi a do André.

Assim como outras pessoas, ele também interpretou o filme como uma imensa alegoria religiosa, mas com alguns dos melhores argumentos que encontrei. De referências explícitas, como o santinho presente na estação russa e a estátua de Buda na nave chinesa, a outras mais elaboradas, como o nome do personagem de George Clooney – Matt em inglês significa presente de Deus e no filme inteiro ele trabalha como o anjo da guarda da Ryan de Bullock, né não?   Segue o começo da análise dele. O resto tá aqui, cheio de spoiler.

A busca por Deus e a elevação espiritual em Gravidade

“Minha visão do nosso planeta foi um vislumbre de divindade” – Edgar Mitchell

“Olhar este tipo de criação lá fora e não acreditar em Deus é impossível para mim…apenas reforçou minha fé. Eu gostaria que houvessem palavras para descrever como é” – John Glenn

“Eu senti o poder de Deus como nunca senti antes” – James Irwin

Os exemplos são infinitos. Astronautas que dizem ter uma revelação divina em sua primeira experiência no espaço, ao olhar para a Terra do lado “de fora”. O motivo, a priori, parece ser simples: no espaço, você está desprovido da maior força terrena, aquela que melhor caracteriza tudo o que está “vivo”: a gravidade. Como alguns também descrevem, a sensação é de como estar fora do corpo, flutuando num estado de sublimação existencial. Visualizar a Terra de fora, para estes, é um choque de perspectiva; é como observar a si mesmo, num “extra-vida”; como estar “próximo de Deus”.

E é exatamente este choque existencial que “Gravidade” explora de forma tão autêntica. Que o filme na verdade é sobre o ‘renascimento’ da personagem de Sandra Bullock é bem claro (a cena em que ela adormece flutuando em posição fetal, assim como a iconográfica cena final, são bastante óbvias na referência e deixam bem explícito o que quer ser dito). Entretanto, se “Deus está nos detalhes”, são nos simbolismos e nas sutilezas espalhadas ao longo do filme que o tornam uma obra tão rica, complexa e significativa para os nossos tempos. Porém, como sempre, a leitura que eles permitem vai depender do quão aberto o espectador está.

Muito se tem comparado “Gravidade” com o “2001″ de Kubrick e, de fato, talvez seja a primeira vez desde então que um filme de espaço se utiliza da tecnologia de sua época com maestria e visual tão impressionante para discursar sobre a existência humana. Mas se para Kubrick o conhecimento humano leva ao exterior e à expansão espacial, para Alfónso Cuarón leva ao interior, à libertação do espírito, ao retorno à natureza e à redescoberta da essência humana.

E é a partir dessa premissa que pretendo me aprofundar aqui. Não é porque o filme possui ritmo frenético do gênero ação e carece dos momentos contemplativos de “2001” ou “Solaris” que ele também não tenha sua complexidade metafísica e autenticamente autoral (sempre achei, aliás, a ideia comum entre os cinéfilos mais xiitas de que só é possível alcançar “profundidade” com contemplação uma grande falácia).

Antes de qualquer coisa, que fique claro que esta leitura do filme é alegórica, pessoal, e obviamente não é a única possível, não é exclusiva nem absoluta, tampouco acredito que seja mero delírio associativo, já que Cuarón já havia recheado seu excelente “Filhos da Esperança” com diversas imagens icônicas e referências religiosas.

Continua.