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Papo com os autores de Neurocomic, Hana Ros e Matteo Farinella

Assim que cheguei aqui em Londres, um dos quadrinhos ocupando lugar de destaque nas vitrines das comicshops era Neurocomic. Mas confesso só ter parado pra prestar atenção na obra depois de ver ela sendo recomendada por acadêmicos e pela Wired, já em abril. Publicado pela editora londrina Nobrow, o gibi é assinado pelos neurocientistas Hana Ros e Matteo Farinella. Fiz uma entrevista imensa com a dupla, parte dela foi publicada na edição de julho da Galileu. Conversamos sobre a relação entre memória e a linguagem dos quadrinhos, a possibilidade de trabalhos científicos serem apresentados como graphic novels e a genialidade de Chris Ware. Segue o meu texto pra revista e a íntegra da nossa conversa:

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Cinema / Matérias

The Record Breaker – O campeão dos campeões

RecordBreaker

Um dos documentários mais legais que vi ano passado foi The Record Breaker, do diretor norte-americano Brian McGinn. Ele conta a história de Ashrita Furman, o cara com a maior quantidade de recordes quebrados no Livro dos Recordes. Entrevistei o diretor sobre o filme pra Galileu. Tentei de várias formas falar com o próprio Furman, mas como me explicou McGinn, ele é extremamente recluso. O que torna o documentário ainda mais interessante. Segue o meu texto e a íntegra da minha entrevista com o Brian McGinn:

MatériaRecordesGalileu

O campeão dos campeões

Documentário retrata vida do maior recordista do livro Guiness

De todas as façanhas do norte-americano Ashrita Furman, de 59 anos, a que mais impressiona é o seu número de marcas no Guinness, o livro dos recordes. Desde 1979, quando fez 27 mil polichinelos, foram cerca de 500 (o Guinness diz ter perdido parte dos registros, mas 181 delas ainda não derrubadas), o que o transformou no maior recordista da publicação.

São feitos como ingerir a maior quantidade de gelatina em um minuto com olhos vendados e mãos amarradas ou soprar um selo ao longo de 100 me- tros arrastando-se no chão com um bicho-preguiça abraçado em seu peito — é isso mesmo o que você leu. “Até o mais bobo desses recordes é praticamente impossível”, conta o cineasta Brian McGinn, autor do documentário The Record Breaker sobre a vida de Furman. O recordista cresceu cercado por livros e sofrendo bullying por ser nerd. Seus pais contam que o garoto tinha notas para entrar em Harvard, mas resolveu dar outro rumo à vida. Aos 16 anos, virou discípulo do guru indiano Sri Chinmoy (1931-2007), largou os estudos, brigou com os pais e começou uma busca pela “iluminação” por meio de uma pai- xão de infância, o Livro dos Recordes. Sua busca é sustentada pelo salário como gerente de uma loja em Nova York e por outros discípulos de Chinmoy. “Uma das lições que se aprende dele é que você só vive uma vez. Se não segue suas paixões, pode desperdiçar tempo”, diz o documentarista.

Você se lembra da primeira vez que ouviu falar de Ashrita Furman? Qual foi a primeira coisa que pensou sobre ele?

Conheci Ashrita em um artigo publicado no New York Times. Havia uma pequena nota sobre ele, acompanhada de uma foto com ele cortando uma maçã com uma espada de samurai. Pensei que era um cara interessante – quem poderia se importar tanto em ser bom em algo tão bobo? Amo filmes como O Equilibrista e O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, e estava tentando fazer um documentário com o mesmo espírito desses filmes, então o Ashrita apareceu como o personagem perfeito. Ele é tão intenso e focado, mas também pateta, e as coisas que ele estava fazendo eram absurdas. Só queria saber mais sobre ele.

Suas opiniões sobre ele mudaram muito ao longo do filme?

Fazer um filme sobre alguém sempre muda sua opinião sobre a pessoa – ao invés de ver alguém de longe, você passar a pensar nela como pessoa, com tudo que isso implica. O Ashrita continua uma espécie de enigma para mim, mas acredito que fazer o filme me ajudou a compreender o porquê dele fazer o que faz e também o que é necessário para ser o melhor em qualquer coisa que você faça: é tudo uma questão de dedicação, gasto de tempo e trabalho duro.

Imagino que seja difícil para ele conseguir financiamento para as quebras de recordes, mas acho que deve ser ainda mais difícil produzir um filme sobre alguém tão excêntrico. Como seus produtores reagiram quando você resolveu filmar o documentário?

Os projetos do Ashrita são financiados de algumas formas: o pai dele dá o dinheiro, o grupo espiritual dele paga para seus seguidores divulgarem sua causa e várias iniciativas ele faz perto de casa.

Em relação ao gasto no documentário, é sempre difícil financiar qualquer tipo de filme. Minha sorte ao fazer The Record Breaker foi que meu produtor amou o tema – e realmente, ao longo das filmagens, investidores disseram: “amamos o assunto e nossa audiência vai amar o filme, só descubra o que está além da quebra de recordes e estamos dentro”. Então eu apenas foquei em descobrir qual seria a história humana que iríamos contar. Depois disso, o dinheiro foi moleza.

De onde você acha que vem a origem da obsessão dele com recordes?

Acho que a obsessão do Ashrita com a quebra de recordes decorre da relação com o guru espiritual dele e, um pouco antes, provavelmente tem suas origens na relação com o pai, que era um poderoso advogado em Nova York. O Ashrita tinha um perfil de criança estudiosa, nerd, e se dar bem em um ambiente atlético é algo atraente pra ele. Ele credita todos seus recordes às suas práticas espirituais. Como uma pessoa sem crenças, sou mais cético em relação ao poder da religião, mas acho interessante pois essas práticas realmente ajudaram ele a acreditar nas suas habilidades, deram a ele a crença de que ele poderia realizar qualquer coisa.

Quanto tempo você passou com ele fazendo o filme?

Levei mais ou menos um ano tentando convencer o Ashrita a fazer o filme comigo, depois filmamos em cerca de três semanas e mais um ano de produção.

E qual dos recordes dele você acha mais absurdo?

Ele tem o recorde de comer maior quantidade de gelatina em 60 segundos com uma venda e as mãos amarradas para trás. O que quer dizer que ele fica enfiando a cara em uma bacia gigante cheia de gelatina e come como um louco ao longo de um minuto. É bem engraçado e bastante absurdo.

Os recordes dele são bastante impressionantes. Mas a história fica ainda mais interessante quando ficamos sabendo das notas altas e todas as possibilidade de carreira que ele teve. Na sua opinião, o que significa hoje em dia abandonar tudo para viver de sonhos como o Ashrita fez?

Histórias como a dele, de pessoas que seguiram rumos alternativos à norma cultural, são inspiradoras nos dias de hoje pois há mais pessoas optando por rotas mais seguras em suas vidas e carreiras. Escolher realizar seus sonhos, ainda mais quando eles são repletos de atividades bobas e engraçadas, é admirável quando você não sabe como vai arrumar dinheiro, pagar o aluguel, a comida e tudo mais que você precisa para sobreviver. Acho que uma das lições do filme é que você só vive uma vez. Se você não segue suas paixões, pode acabar desperdiçando seu tempo na Terra.

O Ashrita diz no filme que a maioria dos recordes que ele quebra são coisas de criança e que o estilo de vida que ele leva é justificado pela busca por iluminação. Você acha que ele se considera próximo do sucesso dessa missão?

Ele se considera uma pessoa “a procura”, o que acho que quer dizer que ele nunca vai alcançar a iluminação, mas sua missão será eterna. O fato de Ashrita mensurar seu sucesso espiritual pelo Guinness World Records é uma das coisas que tornam ele um personagem interessante.Sempre procuro por personagens que sejam complicados e humanos e amo que exista uma certa ironia nessa busca: ele está numa missão espiritual, mas também quer acumular recordes no Guinness, algo aparentemente pouco espiritual.

Apesar dos recordes serem bastante infantis, eles não parecem muito fáceis. Você tentou praticar algum deles?

Até o mais bobo dos recordes é quase impossível de fazer. As pessoas sempre dizem “eu faria isso” quando acompanham o Ashrita em ação, mas quando elas tentam não é nada fácil. Tentei vários deles enquanto o Ashrita treinava e achei todos difíceis.

O pai dele diz no documentário que o Ashrita é a pessoa mais feliz que ele conhece. Você teve a mesma impressão?

O Ashrita é uma pessoa muito animada. Os momentos em que ele está quebrando recordes são com certeza seus instantes mais felizes, você vê a alegria no rosto dele. Tenho certeza que ele tem seus momentos de tristeza, como qualquer pessoa, mas prefiro pensar nele como um pessoa feliz, empolgada e um pouco infantil.

Por quanto tempo o Ashrita e o pai pararam de conversar?

Isso nunca ficou claro pra mim. O Ashrita diz que foram alguns anos e o pai falou em seis meses. Mas foi um período significativo. Ele também teve alguns desentendimentos com a mãe, mas não consegui incluir esse enredo na versão final do filme.

Li algumas críticas do seu filme comparando Ashrita a Forrest Gump e a alguns personagens de filmes do Wes Anderson. O que você acha dessas comparações?

Sou um grande fã de Wes Anderson, então é uma honra ter o filme comparado ao trabalho dele. Acho que o nosso filme tem um personagem peculiar, mas trata de temas universais – sobre família, como você vive sua vida e como ser feliz. Nesse sentido, Record Breaker é provavelmente semelhante ao trabalho do Wes – a princípio é estranho e engraçado, mas ao analisar um pouco mais, é na verdade sobre como todos nós vivemos.

Há alguma história peculiar que você vivenciou com o Ashrita e não entrou no filme?

Acho que a mais reveladora sobre ele é uma que está no filme, quando ele tenta estabelecer um recorde pessoal de tempo na retirada do lixo. Ela mostra como natureza competitiva dele e o esforço contínuo dele para se superar superar tomou conta da vida dele. É uma cena engraçada, mas mostra como você precisa ser se quiser ser tão bom quanto ele na hora de quebrar recordes. Uma outra que ficou fora da versão final: quando filmávamos em Londres, ele estabeleceu o recorde em andar com os sapatos mais pesados. Jantamos e fomos imediatamente para uma loja de calçados para que ele quebrasse novamente a marca com um peso extra. Então ele queria quebrar um recorde que ele havia estabelecido mais cedo naquele mesmo dia. Isso diz muito sobre a motivação.

Cinema / Matérias

Agenda cheia

Escrevi pra edição de janeiro da Galileu sobre os principais lançamentos previstos para as salas de cinema em 2014. Conversei com um monte de gente legal sobre a transformação do calendário dos blockbusters e bati um papo com o ilustrador Mike Deodato sobre as grandes estreias da Marvel agendadas para os próximos meses. Só clicar nas páginas pra ver o pdf. Segue a matéria:

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Agenda cheia

Questionado por público e crítica, o formato blockbuster tem lançamentos para quase todos os meses de 2014

O calendário de estreias dos arrasa-quarteirões de 2014 está definido, mas assombrado pela agenda do ano que vem. O Episódio VII de Guerra nas Estrelas chega aos cinemas dia 18 de dezembro de 2015 e será o primeiro filme da saga do clã Skywalker lançado fora do mês de maio. A estreia no final do ano que vem quebra um padrão estabelecido pelo próprio George Lucas com seu amigo Steven Spielberg nos anos 1970 — quando produziram Tubarão (1975) e o primeiro Guerra nas Estrelas (1977) — que concebeu o próprio conceito de blockbuster: apesar das estreias mais barulhentas de 2014 estarem previstas para maio, há grandes lançamentos de Hollywood espalhados por todo o ano, e não apenas concentrados no verão do hemisfério norte, como era a regra.

“Alguns dos filmes de 2013, que pareciam ideias originais e não eram baseados em livros ou quadrinhos e nem continuações, são muito fracos”, analisa o crítico de cinema da revista britânica Little White Lies, Adam Lee Davies. Para ele, o fracasso comercial de obras como Depois da Terra, Oblivion e Elysium deve explicar a tendência crescente de sequências e adaptações chegando às telas em 2014. Davies acha que há apenas um lançamento que foge deste padrão este ano: a ficção científica Interstellar, do diretor Christopher Nolan. “O enredo está sendo mantido em segredo, como o Nolan costuma fazer, mas parece tratar de viagem no tempo e universos paralelos e isso é promissor, visto o que ele fez em A Origem”, aposta.

A falta de originalidade predominante em Hollywood não é a única crise em vigência na indústria de cinema norte-americana. Em uma palestra realizada em junho do ano passado, George Lucas e Steven Spielberg previram o fim da era dos blockbusters e contaram estar passando por dificuldades para seguirem com seus projetos. Segundo eles, o conteúdo autoral de séries produzidas diretamente para a televisão e o crescimento da indústria de games são alguns dos elementos que estão contribuindo para a dúvida com relação ao sistema de produção e ao financiamento por parte dos grandes estúdios.

Para o editor-chefe da revista Rolling Stone, Pablo Miyazawa, as transformações citadas por Lucas e Spielberg estão inseridas em um cenário maior: “A TV e os games estão conseguindo compreender a demanda, decifrar o zeitgeist, melhor que as outras mídias. Mas não acho que o exemplo dessas mídias possa se aplicar a Hollywood”. Para ele, o cinema precisa se reinventar. “A tendência é que o cinema tenha que depender cada vez mais de artifícios como o 4D para atrair multidões e se diferenciar de outras experiências. A charada é como entregar esse tipo de recurso a um preço mais acessível, de modo que justifique ao consumidor sair de casa e gastar dinheiro.”

Além da terceira parte de O Hobbit, do terceiro Jogos Vorazes e X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido, Miyazawa diz ter curiosidade em relação a Need for Speed, adaptação do jogo de corrida, e a versão para cinema do musical da Broadway Into the Woods, com Meryl Streep e Johnny Depp.

Outra tendência, de acordo com o crítico de cinema do site Omelete, Marcelo Hessel, é a garantia de pelo menos um blockbuster por estúdio. “Com a falta de dinheiro, muitos deles reduziram o número de filmes produzidos e a tendência é apostar nas franquias conhecidas”, explica. Em suas apostas para 2014, Hessel cita a nova versão de Godzilla, a continuação de Planeta dos Macacos e o novo capítulo da versão cinematográfica do Universo Marvel, Guardiões da Galáxia. “Os filmes-eventos vão continuar sendo os produtos já testados junto ao público e novamente teremos surpresas de bilheteria fora da curva, como Gravidade em 2013”, diz.

Também curiosa em relação ao novo X-Men, ao segundo Espetacular Homem-Aranha e Godzilla, a jornalista Ana Maria Bahiana crê que o formato de blockbuster tende a sobreviver graças ao público de outros países além dos EUA: “O modelo vai continuar enquanto mercados internacionais — como o Brasil — estiverem em expansão, aumentando o número de telas e trazendo a receita que ainda pode suportar o formato. Mas há um limite”

Rumo ao espaço

Abril e maio seguem sendo meses mais concorridos para blockbusters. Em 2014, o período verá uma guerra entre os personagens da Marvel Comics nos cinemas. Dona dos direitos do Homem-Aranha nas telas, a Sony lança mais um filme do herói, a Fox reforça suas produções com os mutantes dos X-Men e o estúdio Marvel lança o segundo Capitão América (foto). Em agosto será a vez de Guardiões da Galáxia, também da Marvel. “Ver personagens que criei, como o Patriota de Ferro, ganharem vida nas telas é muito emocionante”, conta o ilustrador brasileiro Mike Deodato Jr. Desenhista da Marvel, ele aposta no filme do grupo intergalático como o destaque de 2014: “Vai ser o grande teste deles. Se conseguirem fazer sucesso com personagens tão desconhecidos, o estúdio ficará entre os maiores do mundo em termos de poder e influência, acredito”.

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Vida longa aos zumbis

Entrevistei pra edição de janeiro da Galileu o cineasta Alexandre O. Philippe. Ele é o responsável por alguns dos documentários mais bem-humorados e inteligentes dos últimos anos, como O Povo Contra George Lucas e A Vida e os Tempos de Paul, O Polvo Vidente. Ele vai lançar, ainda em 2014, Doc of the Dead, sobre a relação entre a cultura pop e os zumbis. Bem legal a conversa com ele. Olha aí:

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Vida longa aos zumbis

O diretor Alexandre O. Philippe se especializou em documentar nichos da cultura pop — e agora irá falar sobre o culto aos mortos-vivos

documentário de estreia do franco-suíço Alexandre O. Philippe foi lançado em 2003 e conta a história de uma galinha zumbi. Ou quase isso. Em setembro de 1945, um fazendeiro do Colorado resolveu servir um frango assado para sua sogra. Ele cortou parcialmente a cabeça do galo Mike e o corpo da ave saiu correndo pela sua cozinha. A criatura viveu decapitada ao longo de 18 meses e sua história pode ser assistida em Chick Flick: The Miracle Mike History.

Dez anos depois, ele termina o que pretende ser o registro definitivo sobre a cultura zumbi, em Doc of the Dead (Documentário dos Mortos). Em seu currículo também constam Earthlings (2004), sobre os fãs de Jornada nas Estrelas, The People Vs George Lucas (2010), com o embate entre o criador de Guerra nas Estrelas e seus súditos, e o excêntrico A Vida e os Tempos de Paul, o Polvo Vidente (2010), protagonizado pelo molusco adivinho da Copa da África do Sul. Em entrevista por telefone a GALILEU, o cineasta ressaltou a importância de preservar a cultura pop.

O que dá para adiantar sobre seu Doc of the Dead?
Sua versão final fica pronta em janeiro. Será o documentário definitivo sobre a cultura zumbi, tratando do assunto por uma perspectiva bem ampla. Começando pelos zumbis da religião vodu, passando pelos filmes de George Romero e pelos blockbusters que deram origem a todo esse culto recente.

Como você analisa a recente popularização dos zumbis?
Eles foram alternativos durante muito tempo. Em locadoras, os filmes de zumbi ficavam num cantinho escuro que as pessoas não costumavam frequentar. A virada aconteceu no início dos anos 2000, quando surgiu [a série]Walking Dead, O Guia de Sobrevivência Zumbi, Guerra Mundial Z [dois livros de Max Brooks, o último virou filme], convenções de fãs de zumbis… Toda cultura de fã possui o que chamo de “ponto de virada”: há várias coisas acontecendo ao mesmo tempo e não dá pra parar, é como uma avalanche e leva todos os seus seguidores juntos. Geeks e fãs sempre existiram, mas nem sempre se expõem. Quando um determinado grupo de pessoas se sente à vontade para assumir com orgulho seus gostos, a mídia se aproxima, outras pessoas ficam interessadas e o fenômeno cresce. É quando ocorre o “ponto de virada”. Hoje é cool ser nerd ou geek e não importa qual a sua obra de culto. As pessoas te aceitam.

A indústria do entretenimento é cíclica. Qual o futuro dos zumbis?
Não sei se é possível prever. É como a bolsa de valores. Algumas pessoas já cogitaram o fim, mas a moda continua crescendo. São fenômenos imprevisíveis. As pessoas fazem filmes de zumbis há anos e hoje o Arnold Schwarzenegger está filmando um, o Elijah Wood também. Filmes de zumbis tratam de metáforas muito adaptáveis. Acho que as pessoas estão apenas começando a ver o potencial do tema e não veremos seu final tão cedo.

Seus documentários tratam de temas que envolvem muita paixão e fanatismo. Há um padrão na origem desses cultos?
Talvez o padrão seja exatamente a paixão. Precisamos dar mais atenção para as coisas que nos fazem sorrir. Perdemos cerca de 50% dos filmes produzidos antes da década de 50. Claro, filmes deterioram, mas demoraram décadas para que as pessoas notassem que filmes são produtos culturais importantes. Não podemos deixar que a mesma coisa aconteça com a cultura pop, ela precisa ser documentada e preservada. E também apreciada e não vista como um prazer com culpa.

Além do fanatismo, os seus documentários tratam de assuntos um pouco excêntricos. Como você escolhe os temas?
São esses temas que caem no meu colo [ri]. São sempre relacionados à cultura pop e estão em voga, precisam ser abordados naquele instante. Eles envolvem discussões passionais e questões que ainda não foram abordadas com a profundidade necessária. Quando filmei Paul, as pessoas da minha equipe não acreditavam que aquilo poderia resultar num documentário. Ele trata de um momento muito específico e restrito da nossa história. O mesmo acontece com os zumbis. As pessoas que não entendem essa cultura podem achar ridículo, mas quero apresentar um olhar diferente. Hoje, 12 anos após meu primeiro documentário, percebi que minha missão talvez seja fazer as pessoas verem a cultura pop de uma maneira diferente.

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Calvin vive

Dia 31 de dezembro de 2013 completou 18 anos de encerramento de Calvin & Haroldo, no final do ano passado foi lançado um documentário sobre a série do Bill Watterson, pra 2014 há algumas reedições da série previstas para serem lançadas e rolou um boato de uma possível cinebiografia do autor das tiras. Conversei com o diretor de Dear Mr. Watterson e com mais um pessoal bem legal pra escrever sobre a maioridade  de Calvin e Haroldo na edição de janeiro da Galileu.

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Calvin vive

18 anos após o encerramento de Calvin & Haroldo, a série ganha documentários, reimpressões e até uma possível cinebiografia de seu criador

Um convite era feito no último quadrinho de uma tira publicada há 18 anos: “O mundo é mágico, Haroldo, meu chapa… vamos explorá-lo!”. O chamado era feito por Calvin para seu tigre de pano Haroldo, protagonistas da tira que deixou de ser publicada no dia 31 de dezembro de 1995, ao chegar ao número 3.160. O recado não ficava só na ficção: era feito pelo autor da série, Bill Watterson, como consolo para seus leitores, que lamentariam o fim da tira. Dezoito anos depois do quadrinho derradeiro, a exploração do universo de Calvin & Haroldo é crescente e as notícias mais recentes relacionadas à obra cogitam a possibilidade de cinebiografia produzida por Leonardo DiCaprio sobre a vida do recluso autor.

O esforço do quadrinista para evitar qualquer forma de aparição pública e sua postura irrevogável em relação ao não-licenciamento dos direitos de suas criações não foram suficientes para conter uma onda crescente de interesse em relação a sua obra nos últimos meses. No fim de 2013 foi lançado o documentário Dear Mr. Watterson (Querido Sr. Watterson, em português) quando também foram disponibilizadas na Amazon versões em ebooks para três coletâneas de Calvin & Haroldo.

No Brasil, para 2014, estão previstos os lançamentos das quatro compilações. A Conrad, editora da série no país, cogita publicar as tiras em um aplicativo para celulares e estuda como lançar uma edição nacional para a enorme caixa luxuosa contendo três livros com a coleção completa da série.

“Calvin e Haroldo é tão bom que independe de merchandising e, ainda bem, Bill Watterson nunca precisou disso para viver de seus quadrinhos”, comemora o diretor do documentário Joel Allen Schroeder em entrevista a GALILEU. Em Dear Mr. Watterson ele tenta entender o culto à obra e a adoração aos personagens, apesar da relutância do autor em ganhar milhões de dólares com qualquer produto relacionado às suas criações além da reimpressão das tiras. Financiado coletivamente pela internet, o filme pode ser comprado em DVD e Blu-Ray no site dearmrwatterson.com.

Nascido no dia 5 de julho de 1958, Bill Watterson mora na pequena cidade de Cleveland Heights, no estado de Ohio, nos EUA. Em rara entrevista, publicada na edição de dezembro da revista norte-americana Mental Floss, reafirmou seus princípios contrários a qualquer produto ou continuação relacionado aos quadrinhos. “Um novo trabalho requer uma certa dose de paciência e energia e sempre há o risco de frustração. Você não pode culpar as pessoas por preferirem o que já conhecem e gostam. O ponto negativo, óbvio, é que previsibilidade é algo chato. Repetição é a morte da mágica”, disse.

As crenças do autor não impediram que fãs dessem continuidade às aventuras de Calvin. A ilustradora norte-americana Terra Snover, por exemplo, fez sucesso com Bacon & Hobbes (hobbes-bacon.com), HQ protagonizada por Haroldo e por Bacon, a filha de Calvin. “Não fui a primeira a fazer isso, criaram a história e perguntei se poderia levar adiante”, conta em referência ao trabalho original do site pantsareoverrated.com.

Editor da Maurício de Sousa Produções e responsável por pensar nos novos projetos relacionados à Turma da Mônica, Sidney Gusman crê que a postura de Watterson contribuiu para o crescimento do culto da série: “Por dar a ela um caráter finito, que nenhuma outra até então tinha”. Para ele, a receita de sucesso da série não tem segredo: “Creio que manter os personagens atuais geração após geração é um desafio e tanto. E poucos conseguem vencê-lo. Os que conseguiram estão aí até hoje, renovando seu público. E há, claro, casos como Calvin que continua atravessando gerações por sua qualidade atemporal”.

Protagonista ausente

Em busca pela compreensão do fenômeno Calvin, Joel Allen Schroeder conversou com leitores, editores e autores de publicações contemporâneas à tira, iniciada no dia 18 de novembro de 1988. Nem todos seus entrevistados apreciam a postura pouco social de Bill Watterson: “É natural que as pessoas queiram saber mais sobre ele. E como ele criou algo tão maravilhoso, há a crença que possa fazer ainda mais”, explica.

As reflexões propostas pelo documentário foram destaque nas críticas na imprensa norte-americana. O Hollywood Reporter ressaltou a análise sobre a perda de espaço dos quadrinhos em jornais após o fim da tira. Já o New York Times elogiou o espaço dado a outros cartunistas para falar sobre a obra de Watterson. Outro ponto enaltecido é a ida à cidade na qual Watterson foi criado e viveu por anos, Chagrin Falls, também em Ohio. Em uma das melhores sequências, são mostrados os locais que serviram de inspiração para os cenários das tiras. Ruas, prédios e praças são facilmente identificáveis.

Schroeder optou por não tentar entrar em contato com seu protagonista. “Eu teria amado falar com ele, mas sabia que as chances eram quase nulas. Não queria que o foco fosse a busca por ele, por isso decidi limitar ao máximo a intrusão à sua vida”, explicou.

Nos últimos meses, GALILEU tentou entrar em contato com o autor, mas, como consta no site da editora, “infelizmente, Bill Watterson não está disponível para entrevistas”.

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Entrevista com Marcus Alqueres, o diretor de The Flying Man

Entrevistei o diretor Marcus Alqueres pra edição de outubro de Galileu. Ele é o responsável por um dos filmes mais legais de 2013, o curta Flying Man. Já tinha postado a produção por aqui ano passado, mas confere ela aí de novo antes de ler a nossa conversa.

O brasiliense voador

Com Flying Man, Marcus Alqueres pode ter conseguido ingresso para entrar em Hollywood

Com seu The Flying Man, o brasiliense Marcus Alqueres, 35 anos, segue a mesma estratégia de nomes como Neill Blomkamp (Distrito 9 e Elysium) e Feder Alvarez (A Morte do Demônio), que dirigiram seus primeiros longas após o sucesso de produções de curta duração. Com custo que, segundo ele, “equivale a apenas uma fração do que se paga em editais de curtas no BRasil”, ele alcançou quase 500 mil visualizações em apenas um mês online. Formado em desenho industrial e residente no Canadá desde 2005, ele não é novato na indústria e já prestou serviços de animação e efeitos especiais em filmes como 300 e As Aventuras de Tintim. Galileu conversou com ele por e-mail.

Você esperava que a repercussão de The Flying Man seria tamanha? 
Trabalhando por tanto tempo em alguma coisa você cria expectativas, é natural, mas quando realmente acontece é diferente, muita coisa te pega de surpresa. É sempre bom ver o reconhecimento do seu trabalho ainda mais quando vem de pessoas que você admira.

Como surgiu história de ‘The Flying Man’?
Exatamente do fato de nunca ter visto algo no cinema que explorasse um super-herói ou vigilante pelo ponto de vista da população. Sempre imaginava como uma sociedade reagiria com um homem voando pela cidade. Nos filmes que vemos estamos sempre na ótica deles, quando na realidade pouco saberíamos a respeito. Além disso adicionei o fato do herói não ser politicamente correto e operar através de sua lógica própria, desconsiderando as leis locais. Isso criaria um impacto muito maior.

O Neill Blomkamp filmou Distrito 9 após o sucesso do curta Alive in Joburg. O Sam Raimi convidou o Fede Alvarez para dirigir a refilmagem de Evil Dead após assistir Ataque de Pánico. Qual o papel dessas produções independentes e digitais para Hollywood?
A indústria de cinema está sempre a procura de projetos que possam ter retorno financeiro. Quando se tem um curta metragem na internet chamando a atenção de muita gente, isso funciona como uma prova de que existe um público forte para aquela ideia. Então esse curtas conseguem mostrar ao mesmo tempo que aquela ideia é interessante quando executada corretamente e que existe uma audiência que potencialmente pagaria para ver mais.

Você foi procurado por algum estúdio, produtora ou diretor após o lançamento do curta?
Sim, o interesse está sendo grande, estou trabalhando em parceria com agentes a fim de achar o melhor lugar para produzir o The Flying Man.

O George Lucas e o Spielberg deram na Universidade da Califórnia no começo de junho. Uma das falas do próprio Lucas foi: “Os estúdios estão obcecados em gastar muito para ter um retorno enorme, e isso não vai funcionar para sempre”. O que pensa a respeito?
Eu concordo, principalmente depois desse ano, com a maioria dos blockbusters decepcionaram nas bilheterias. Já existe uma corrida para explorar filmes produzidos de forma mais independente e barata mas que conseguem apoio de estúdios para ter uma divulgação maior. Esse ano mesmo tiveram filmes produzidos com quatro milhões de dólares que tiveram mais bilheteria que muitos que custaram 100 milhões. Um filme grande de estúdio tem que fazer mais de 500 milhões em bilheteria apenas para não ter prejuízo, não tem como manter esse sistema por muito tempo.

Nesse contexto de mudanças, como o formato digital facilita a entrada de novos nomes no mercado?
Hoje em dia com um capital de giro muito baixo você já tem acesso a muita coisa. Câmeras estão mais baratas que nunca, computadores e softwares estão a disposição. A tecnologia não impõe mais restrições como antigamente, isso democratiza muito a aparição de novos talentos. Antigamente só quem tinha acesso a certos equipamentos tinha oportunidade de se mostrar. A parte de divulgação também evoluiu: dez anos atrás, o caminho mais correto era inscrever em festivais, esperar meses para ser selecionado, gastar dinheiro criando sua cópia em filme e um outro tanto para pode enviar. No final de tudo apenas umas poucas centenas quando não dezenas de pessoas veriam seu trabalho, era uma loteria. Hoje em dia, colocando no You Tube ou no Vimeo, seu trabalho tem a chance de ser visto por milhares ou até milhões de pessoas em muito pouco tempo, atraindo a atenção do seu público alvo com muito mais eficiência. E, logicamente, você ainda pode aplicar para os mesmos festivais só que de forma digital, o que facilita bastante.

Quais lições os grandes estúdios podem tirar de produções como ‘The Flying Man’?
Difícil falar. Produções como a minha não custam tanto pois as pessoas sabem que você não tem um orçamento e muitas vezes não vão te cobrar ou cobram uma taxa diferenciada. Se, por exemplo, eu tivesse filmado com atores sindicalizados, eu teria gastos que eu não tive, como seguros, refeições extras dentre outras normas. O mesmo acontece com produções grandes, existe um sistema que provavelmente já está inflacionado e fica muito difícil cortar certos custos. Por outro lado existem outros formatos, sendo cada vez mais utilizados hoje em dia, no qual os profissionais ganham uma cota no filme em troca de cobrarem menos dos produtores. Se o filme é um sucesso financeiro todos ganham, caso contrário o risco e dividido entre todos. A criatividade ajuda também a abaixar custos. A solução mais fácil é jogar dinheiro para arrumar qualquer problema, já em The Flying Man a falta de capital me fez gerar soluções que não me custaram nada, mas que tiveram resultados satisfatórios.

Quando você filmou o curta, tinha em mente um passado para o personagem e futuras histórias traçadas pra ele?
Sim, eu ja tinha uma base para ele. Ter um passado te ajuda a escrever cenas para qualquer personagem. Logicamente estou evoluindo a história para uma possível adaptação para o cinema. Aguardem.

Blockbuster de bolso

Todos estão em choque com o surgimento do homem voador. As autoridades seguem os destino da criatura, em vão. A partir de dado momento, ele passa a capturar pessoas aleatórias e jogá-las do céu. Instaurado o pânico, a polícia detecta o padrão: ele só ataca quem tem fichas criminais. O final da história – ou apenas o começo se Hollywood não deixar passar – você assiste em http://vimeo.com/69882318