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Leia a íntegra do Catálogo HQ Brasil, com a indicação de 70 quadrinhos brasileiros lançados entre 2009 e 2018

Os organizadores do Catálogo HQ Brasil disponibilizaram para download o PDF das 150 páginas do livro. Editado pelo tradutor, pesquisador e crítico Érico Assis, o projeto é uma parceria da Bienal de Quadrinhos de Curitiba com a Embaixada do Brasil em Portugal e tem como missão divulgar as HQs brasileiras no exterior.

Coube ao editor do livro selecionar 70 dos quadrinhos brasileiros mais icônicos e representativos lançados entre 2009 e 2018 – tendo como critério mostrar representatividade regional e de gênero e temas nacionais e da cultura brasileira. Você lê mais sobre a obra na entrevista que fiz com Érico Assis sobre o projeto. E você baixa o PDF do Catálogo HQ Brasil clicando aqui.

Entrevistas / HQ

Papo com Érico Assis, editor do Catálogo HQ Brasil: “O mais importante era mostrar como essa produção nacional é variada em todos os aspectos que se puder imaginar”

Está marcado para hoje, em Lisboa, o lançamento do livro Catálogo HQ Brasil. A obra de 150 páginas é uma parceria entre a Bienal de Quadrinhos de Curitiba e a Embaixada do Brasil em Portugal e tem como missão divulgar as HQs brasileiras no exterior. Para o cargo de editor do livro foi convidado o tradutor, pesquisador e crítico Érico Assis, cabendo a ele a missão de selecionar 70 dos quadrinhos brasileiros mais icônicos e representativos lançados entre 2009 e 2018.

Ao dar início à seleção das obras, o editor recebeu alguns critérios: o Catálogo precisava mostrar representatividade regional e de gênero e temas nacionais e da cultura brasileira. Partiu de Assis a sugestão do recorte histórico de dez anos. A lista inicial de quadrinhos passava dos mil títulos, entre álbuns de editorias, publicações independentes, séries e webcomics.

“Aí nos limitamos a 70 obras ou projetos, que podiam ser devidamente apresentadas em fichinhas nas 150 páginas do catálogo impresso. Adotamos mais critérios: variedade de estilos de desenho, variedade de gênero narrativo, não repetir autores e prestigiar obras premiadas”, conta o editor em conversa com o blog.

No evento de lançamento do Catálogo HQ Brasil estarão presentes Érico Assis, os quadrinistas brasileiros André Diniz e Rodrigo Rosa e o editor português Rui Brito, da editora portuguesa Polvo, uma das que mais publica quadrinhos brasileiros no exterior. Com tiragem limitada, o catálogo terá seu pdf posteriormente disponibilizado na internet. Na entrevista a seguir, Érico Assis fala sobre os desafios de chegar aos 70 títulos presentes no livro e apresenta algumas de suas reflexões decorrentes da produção da obra. Ó: 

“O Catálogo precisava mostrar representatividade de gênero, representatividade regionaltemas nacionais e da cultura brasileira

Uma página do Catálogo HQ Brasil falando sobre a série Know-Haole do quadrinista Diego Gerlach

Você explicou no Facebook quais foram os critérios estabelecidos para chegar nesses 70 títulos presentes no catálogo, mas eu queria saber mais sobre as suas metodologias e sobre as principais reflexões que passaram pela sua cabeça enquanto listava essas obras. Houve algum método de análise específico que você estabeleceu enquanto fazia esse trabalho?

Quando fui convidado a ser editor do catálogo, tanto o pessoal da Bienal de Quadrinhos de Curitiba quanto a Embaixada já tinham alguns critérios: o Catálogo precisava mostrar representatividade de gênero (um número próximo de autoras e autores),representatividade regional (produções de todas as regiões do Brasil) e temas nacionais e da cultura brasileira. De cara, eu já propus um recorte histórico: dez anos. E fui fazer um listão do que saiu de quadrinho brasileiro entre 2009 e 2018. A lista passou de mil publicações, entre álbuns de editora, material independente, séries, webcomics etc.

Depois fechamos mais um corte, que foi o tamanho do catálogo. Aí nos limitamos a 70 obras ou projetos, que podiam ser devidamente apresentadas em fichinhas nas 150 páginas do catálogo impresso. Adotamos mais critérios: variedade de estilos de desenho, variedade de gênero narrativo, não repetir autores e prestigiar obras premiadas.

Mas o principal norte é esta palavra que eu repeti várias vezes: variedade. Se íamos juntar um naco da produção nacional de quadrinhos no mesmo pacote, o mais importante era mostrar como essa produção nacional é variada em todos os aspectos que se puder imaginar. E sugerir que aquilo é só uma introdução ao quadrinho brasileiro. 

“O critério com que eu tive mais dificuldade foi o de representatividade regional. Por um monte de motivos, temos uma concentração pesadíssima da produção no sudeste e pouquíssima, mas pouquíssima mesmo, nas regiões norte e centro-oeste”

Capas da série Know-Haole reunidas em uma das páginas do Catálogo HQ Brasil

Quais foram os principais desafios que você encontrou enquanto editava esse livro e selecionava essas 70 HQs?

Ter segurança na minha lista e nas informações. Queria que existisse um grande cadastro dos quadrinhos publicados no Brasil…

Gostaria muito que os autores e as editoras se preocupassem em cadastrar (e verificar as informações) no que é esse grande cadastro, ou que é referência para mim e para um monte de projetos e pesquisas: o Guia dos Quadrinhos. Baseio números do mercado no que encontro por lá, mas sei que ele não responde por 100% da produção. De qualquer modo, não me pautei só pelo Guia,  e busquei informações inclusive entre os próprios autores.

Também gostaria que todo autor independente se preocupasse em ter ISBN, o que dá uma existência internacional à obra. Sei que é burocrático e que tem uma taxinha, mas ajuda a HQ a ser encontrada e respeitada.

O critério com que eu tive mais dificuldade foi o de representatividade regional. Por um monte de motivos, temos uma concentração pesadíssima da produção no sudeste e pouquíssima, mas pouquíssima mesmo, nas regiões norte e centro-oeste. As cinco regiões do Brasil têm obras no catálogo, mas a seleção representa esta disparidade de produção.

Eu já ouvi de muitos artistas sobre a importância da Rio Comic Con de 2010 para a formação deles ou como esse evento serviu de estímulo. O meu ponto: 2009/2010 parece ser um marco muito significativo para os quadrinhos brasileiros, dando início a uma onda de publicações que segue até hoje. O catálogo começa a cobrir exatamente nesse momento. Qual balanço você faz desse intervalo de 10 anos? Você consegue tirar uma lição maior ou sintetizar esse período de alguma forma?

Acho que este período teve uns elementos de estímulo que se combinaram: os festivais/feiras/convenções ganharam impulso (FiQ, Rio Comic Con, Bienal de Curitiba, CCXP); o PNBE estimulou uma pilha de editoras a publicar HQ; tem o PROAC em São Paulo; os prêmios e o reconhecimento no exterior e a contrapartida de reconhecimento nacional a Moon, Bá, Grampá, Albuquerque, Quintanilha, Reis, Deodato; o Catarse, que começou em 2011; e o momento bom da economia brasileira. Acho que são coisas que aconteceram à parte e geraram uma tempestade perfeita.

Aí a economia caiu e tudo mais caiu – com exceção da projeção dos brasileiros no exterior, que está crescendo e é reflexo tardio do período de tempestade perfeita. Não sei se dá pra tirar uma lição daí, fora a de que o mercado de quadrinhos brasileiro é muito sensível aos terremotos na economia brasileira.

“Não temos uma indústria com produção contínua nem temos uma base fiel de leitores/consumidores que dê estrutura para aguentar baques econômicos”

Uma página do Catálogo HQ Brasil falando sobre o álbum Aos Cuidados de Rafaela, parceria de Marcelo Saravá e Marco Oliveira

Ainda sobre esse mesmo intervalo: você consegue fazer um comparativo entre o universo dos quadrinhos brasileiros nos anos de 2009 e 2018? Quais você considera as principais mudanças? O que você acha que piorou? O que você acha que melhorou?

Isso daria um livro, né? Mas, pensando por alto, o que melhorou: mais (visibilidade da) diversidade de gênero entre os/as quadrinistas; mais prêmios importantes no exterior; mais publicações de brasileiros no exterior; projetos comerciais que trazem o “grande público” para o quadrinho nacional, como as Graphic MSP e a CCXP; mais graphic novels de fôlego, superando as 200 páginas.

O que piorou (ou o que poderia ter melhorado mas não melhorou): não temos uma indústria com produção contínua nem temos uma base fiel de leitores/consumidores – ou seja, um mercado forte – que dê estrutura para aguentar baques econômicos como o desses últimos quatro, cinco anos.

Pensando nesse trabalho com o catálogo e com o Fabuloso Quadrinho Brasileiro, você consegue ver algum padrão nas HQs nacionais? Digo, você vê alguma escola ou estilo predominantes? Alguma reflexão ou tendência que sejam comuns para grande parte dos autores brasileiros de quadrinhos?

Não vejo. E acho ótimo que eu não veja! Talvez só tenhamos o canibalismo: os autores brasileiros consomem HQs do mundo inteiro – gibi de super-herói, autobiografia norte-americana, BD de fantasia, shoujo – e misturam tudo na hora de fazer os seus.

Uma das páginas de Aos Cuidados de Rafaela presente no Catálogo HQ Brasil

O catálogo não trata apenas de obras, mas também de projetos – como o selo Graphic MSP e os Ugritos. Eu fico com a impressão de que esse período que o catálogo retrata é significativo não apenas em relação a autores e títulos, mas também de iniciativas e propostas editoriais. Há um peso, um envolvimento e uma presença maiores dos editores nacionais de quadrinhos nesses últimos anos?

Acho que não é desses últimos anos, pois começou antes. A Conrad e a Desiderata, por exemplo, foram marcantes para gerar essa nova fase do quadrinho brasileiro, mas são do início do século e nem aparecem no catálogo.

Por outro lado, sim, concordo que tem iniciativas editoriais inéditas. Duas das maiores editoras do mercado livreiro, a Companhia das Letras e a Autêntica, lançaram selos com bons quadrinhos nacionais: Quadrinhos na Cia. (2009) e Nemo (2011). A Barba Negra (2011) e a Veneta (2012) se mexeram para colocar autores nacionais no exterior. E a Graphic MSP foi um projeto marcante por divulgar nomes pouco conhecidos do grande público – e divulgando mesmo, dando ênfase aos autores – ao que é o grande público do quadrinho no Brasil, o material da MSP.

“O que aconteceu nesses últimos anos é que existiu um ambiente bom, com incentivos para váááários autores botarem suas verdades para fora e, dessa massa gigante, apareceu um bom número de obras excepcionais”

Uma página do Catálogo HQ Brasil falando sobre o álbum Castanha do Pará, de Gidalti Jr.

Você falou no Facebook sobre esse período de excelente difusão do quadrinho brasileiro no exterior, com cada vez mais álbuns nacionais saindo nos Estados Unidos e na Europa, prêmios importantes, agentes e tradutores ligados nos autores nacionais. Você vê alguma causa específica para esse interesse lá de fora no que tá sendo produzido por aqui?

A causa seria o Brasil fazer quadrinho bom? 🙂

Não sei responder muito mais que isso. Não é uma coisa que dê para se projetar: “vamos fazer quadrinhos que interessem aos gringos”. Acho que isso não existe. Sou da opinião que os autores têm que produzir o que querem, o que acham de maior verdade em si e querem botar para fora. Se isso vai fechar com o que o mercado – interno ou externo – quer ler, são outros quinhentos.

O que aconteceu nesses últimos anos é que existiu um ambiente bom, com incentivos para váááários autores botarem suas verdades para fora e, dessa massa gigante, apareceu um bom número de obras excepcionais. O que é excepcional circula entre a crítica, entre os leitores, entre os prêmios e chega aos olhos e ouvidos dos estrangeiros. Com alguns empurrõezinhos, como o Catálogo. 

Qualidade é um conceito bem abstrato e pessoal e pelo que entendi o catálogo não entra nesse mérito. Mas, eu queria saber, desses 70 títulos você tem um preferido? E tem algum deles que você acha como o mais interessante ou representativo desse período de 10 anos retratado no livro?

Pois é, você tem que dar critérios para definir o que é “qualidade”. Muitas das obras que selecionamos foram premiadas (HQ Mix, Angelo Agostini, Jabuti, Eisner etc.), o que dá para dizer que é um crivo de “qualidade” que não vem só de nós, organizadores do Catálogo.

Também não quis me deixar levar pelo meu gosto. Tem muita coisa que eu adoro que não está ali (Maya, do Denny Chang, Dinâmica de Bruto do Maron, Daytripper) e que não está por ene motivos. Tem várias obras de que eu, pessoalmente, não gosto, mas que se encaixavam nos critérios. Mas se for para escolher um preferido no Catálogo, eu iria de Mensur, do Rafael Coutinho.

A capa do Catálogo HQ Brasil
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Traduzir de pé: Érico Assis e a tradução de Intrusos, o primeiro álbum solo de Adrian Tomine publicado no Brasil

Intrusos é o primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil. O quadrinho lançado por aqui pela Nemo saiu originalmente em 2015, pela editora canadense Drawn & Quarterly, com o título Killing and Dying. Eu convidei o tradutor, pesquisador, jornalista e crítico Érico Assis, responsável pela tradução de Intrusos, para falar um pouco sobre a escolha do título nacional da HQ. Com vocês, Érico Assis:

Traduzir de pé, por Érico Assis

KILLING AND DYING.


MATAR E MORRER.

Ou MATANDO E MORRENDO.

Fácil de traduzir, né. Então, por que INTRUSOS?

Tem muita coisa em tradução que é fácil. Aqui não foi um caso.

A capa da edição brasileira de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine, publicada pela editora Nemo com o título Intrusos

Estou tão ou mais feliz que você que um álbum solo do Adrian Tomine vai sair no Brasil. Começaram pelo último, ok, mas sua missão é comprar dez exemplares e dar de presente. É assim que você convence a Nemo de que Shortcomings, Summer Blonde, Sleepwalk e outros valem a pena.

Mas por que este título? Porque tradução, às vezes, não é fácil. E por que é o título de um outro conto do mesmo álbum. Que é uma coleção de contos.

“Killing and Dying” também é o título de um dos contos de Intrusos. O conto trata de uma família – pai, mãe e filha – em que a filha quer ser comediante. Stand-up comedian, gente que faz “comédia de pé”. E como comediante a filha é, digamos, fraquinha.

Killing, na gíria do stand-up, tem sentido positivo: é quando a pessoa no palco está mandando bem, arrasando. “Matando” a plateia (de rir).

Dying, na gíria do stand-up, é o inverso: o ou a comediante é um fracasso. Vacilou, flopou. “Morreu” no palco.

Para complicar, o Tomine encaixou um duplo sentido em cima de dying: tem uma morte no conto. Ninguém mata (killing) ninguém, mas tem uma morte.

Então: Arrasos e Fiascos? Arrasou e Vacilou? Fulminadas e Mancadas?  E Tropeços? E Encalhadas? E Flopou?

Não gostei de nenhum. Nem os editores. Confesso que teve um momento em que eu defendi Matar e Morrer, e que o leitor juntasse os pontinhos com “matar de rir” e com a morte na trama. Não me convenci e também não convenci os editores, a Carol Christo e o Eduardo Soares. (O problema de trabalhar com editores bons é que eles são bons.)

Killing and Dying já tinha sido publicado em outros países, então fui atrás das soluções dos coleguinhas tradutores. Não é um recurso que eu uso muito – por falta de tempo e por falta de existência de edições estrangeiras – mas, neste caso, podia.

Vincenzo Filosa foi de Morire in Piedi na edição italiana. “Morrer de pé”. Parece boa jogada com “Comédia de Pé”… se uma parte significativa do leitorado brasileiro entendesse o termo “comédia de pé”, ou não falasse (como eu falo) “comédia de pé” com ironia escorrendo no cantinho da boca. Não rola.

A capa da edição italiana de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine

Aí descobri que os franceses – ou o tradutor Eric Moreau, no caso – foram de Les Intrus. “Os Intrusos”. É o título do último conto do álbum, “Intruders”. Quer dizer então que os franceses jogaram a toalha e resolveram batizar a coleção com o título de um conto diferente? Que espertinhos.

A capa da edição francesa de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine

Não foram os únicos. Raúl Sastre foi de Intrusos na Espanha. Björn Laser foi de Eindringlinge (Intrusos) na Alemanha. Parece que os franceses, que publicaram quase simultâneos com o original canadense/americano, lançaram moda.

A capa da edição espanhola de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine
A capa da edição alemã de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine

(Cabe aqui o comentário de que mudanças no título “fortes” como esta geralmente têm que passar por aprovação do autor ou da editora de origem. Não sei como foi neste caso e não me meti nessas negociações. [E nunca conversei com o Adrian Tomine.] Mas o fato de uma editora estrangeira ter conseguido mudar o título – ou três editoras, no caso – é sinal de que autor/editora original topam alterar o título.)

(Segundo a Drawn & Quarterly, a editora original, há também edições polonesa, chinesa e japonesa. Mas, destas, só consegui encontrar a capa da japonesa, que diz… Killing and Dying, em inglês.)

A capa da edição japonesa de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine

Resolvi seguir a moda. Mas não só pela moda. Em mais de uma resenha que eu li, “Intrusos” é considerado o ponto alto da coleção de contos, talvez o ponto alto da carreira de Tomine como contista, ou sua consagração como herdeiro do gekigá. O Douglas Wolk – não é qualquer crítico, é o Douglas Wolk – diz na resenha da Artforum que “Intrusos” podia ser o título da coleção porque todos os contos tratam, de certo modo, de homens de merda que atrapalham a vida de mulheres. Os intrometidos, os intrusos. Obrigado, Douglas Wolk.

Sim, Intruders podia ter sido o título original, só que Intruders é o nome de outros 142 livros, de um filme de terror recente com o Clive Owen e provavelmente de 7 pornôs. Killing and Dying é mais potente, sonoro, bonito e muito bem sacado para o conto que nomeia – mas só funciona com todos estes sentidos em inglês. Matar e Morrer seria potente, sonoro e bonito, mas não teria nada a ver com o conto.

Aliás, o conto segue na coleção e ganhou um título que veio de um dos editores, o Eduardo Soares (também tradutor experiente). Deixo para você mesmo descobrir quando comprar seus dez exemplares.

Trocar o título para Intrusos foi a melhor solução até onde minha capacidade como tradutor permite. Nada impede que você deixe um comentário logo abaixo com uma tradução genial de Killing and Dying, sonora, potente e com duplos ou triplos sentidos geniais que se encaixam no conto. Se for mesmo, você vai ouvir um TUNC: minha testa batendo na mesa.

Quadro de Intrusos, o primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil
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Confira a capa e a sinopse de Rusty Brown, a próxima HQ de Chris Ware

Os editores da Pantheon Graphic Library divulgaram a capa de Rusty Brown, próxima obra do quadrinista Chris Ware, autor de Building Stories e Jimmy Corrigan. O livro de 352 páginas já está em pré-venda no site da editora e tem lançamento previsto para o dia 24 de setembro de 2019. Na opinião daquele que aqui escreve, trata-se do quadrinho mais aguardado do ano e gibi mais importante da temporada. E quem não concorda não entende nada de HQ (brincadeira, ok? Ou talvez eu esteja falando sério. Não, não, só uma piada hehe Sem essa, é sério).

O Érico Assis que me deu o toque das informações recém-divulgadas sobre o livro. Ele também traduziu aqui pro blog a sinopse e os textos presentes na capa da HQ (só abrir a imagem em outra aba/janela que você vê uma versão grandona – e lá no site da Pantheon tem uma versão gigante, em alta, procê baixar). Valeu Érico! Saca só:

HUMILDEMENTE
baseado nas pista abaixo, preencha as caixinhas horizontais com expressões fonêmicas condensadas usualmente associadas a fenômenos da experiência isolados e descubra o nome do garoto que todo mundo no colégio odeia. (Abra e descubra: pistas.)
1. Canetinhas Crayola
2. Tortinha Hostess
3. Mini-rosas de água cristalina com simetria hexalateral que apagam as fronteiras de todo local, objeto e ideia mundanos.
4. Câmera Zenith
5. Cigarros Marlboro

EXPERIMENTO CIENTÍFICO: Todo enrosco, bagunça ou confusão pode ser organizado imediatamente ao se acoplar a sua inverso. Experimente!

HORIZONTAIS
1. tensão inquantificável ao despertar quando se sente odor de folhas úmidas caídas
4. momento em que se atinge a maturidade involuntariamente, como memória
6. minúscula cratera/lago mágico na calçada, agora consertado, estranho
7. sozinho em sonho, cadáveres reclinados em poltronas da sala de estar
8. armação de recordações armazenadas e recuperadas
9. som noturno de angústia que ninguém ouviu
12. nome do primeiro bicho de estimação
13. amigo especial feito com bola de fita adesiva
14. cristal de gelo partido ao meio, encontrado no cabelo

VERTICAIS
1. cheiro de sanduíche gelado
2. rosto de outra pessoa
3. olhos fechados
4. cintilante
5. -floco

E agora a sinopse de Rusty Brown:

“Rusty Brown é a articulação 100% interativa, 100% colorida de inter-relações espaço-temporais entre seis consciências plenas em um só dia no meio-oeste norte-americano e a minúscula partícula humana que estas involuntariamente orbitam. Cumulação dispersa e especial, floco de neve das maiores temáticas e dos menores momentos da vida, Rusty Brown almeja, literária e literalmente, nada menos que a coalescência de um hemisfério de toda a existência em uma só história ilustrada com qualidade museica, disposta com a devida perícia a fim de apresentar a ilusão inefável, empática e convincente da experiência tanto a leitores curiosos quanto à vida humana quanto aos tradicionais fãs da realidade comum. Da infância à velhice, não há trama congelada que não degele na trama de contos de uma criança que desperta sem superpoderes, um adolescente que cresce e vira déspota paterno, um pai que guarda seus pesares na superfície do planeta Marte e uma mulher em fins de terceira idade que busca o amor de uma só pessoa no planeta Terra”.

Entrevistas / HQ

Papo com Jeff Smith, o autor de Bone: “A filosofia de Peanuts, os estilos de Carl Barks e de Walt Kelly, a humanidade de Krazy Kat são o que me trouxe aos quadrinhos”

Entrevistei o quadrinista Jeff Smith, autor do clássico Bone, sobre o lançamento do primeiro volume da versão em cores da série no Brasil. A obra rendeu dez prêmios Eisner e 11 Harvey ao autor e fez dele um dos grandes nomes dos quadrinhos mundiais. A promessa da editora Todavia é que as duas coletâneas que fecham a coleção sejam lançadas no país até o final de 2019. Transformei a minha conversa com o artista em matéria para o jornal Folha de São Paulo e você confere o meu texto clicando aqui – recomendo a leitura da matéria para que você compreenda um pouco mais da jornada de Smith e Bone até o lançamento dessa edição brasileira.

Reproduzo a seguir a íntegra da minha entrevista com Jeff Smith. Na nossa conversa ele falou sobre as origens dos primos Bone ainda na sua infância, comentou as principais influências de sua formação como artista, abordou os desafios de manter uma série independente de 55 edições ao longo de 13 anos e adiantou um pouco sobre seu próximo projeto. A entrevista foi traduzida pelo jornalista, crítico, pesquisador e tradutor Érico Assis (valeu pela ajuda, Érico!). Papo massa, saca só:

“Era fim dos anos 1970. Tolkien, Moebius e, óbvio, Star Wars. Foi chute e gol. Logo eu me dei conta que preferia cultura pop a artes plásticas”

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de quadrinhos na sua vida? Eu li que os seus pais eram leitores de quadrinhos, correto?

Meu pai gostava da Mad e lia ela pra mim quando eu era pequeno. Eu amava os desenhos, principalmente Spy v. Spy e os cartuns do Don Martin. Lembro de aprender a ler sozinho com um livrinho de tiras dos Peanuts. Ainda tenho esse livrinho!

Também li que você começou a criar os personagens e o universo de Bone quando era muito jovem. Qual foi o momento em que você decidiu transformar todos esses conceitos em uma série? Você lembra do instante em que decidiu explorar o mundo de Bone?

Lembro, sim. Depois do ensino médio, quando entrei na universidade, os Bones foram parar na mesma caixa das coisas de criança. Estudei artes plásticas, mas na época tinha uma onda de fantasia na cultura pop. Era fim dos anos 1970. Tolkien, Moebius e, óbvio, Star Wars. Foi chute e gol. Logo eu me dei conta que preferia cultura pop a artes plásticas. Em 1979, desenterrei os três primos Bone e comecei a trabalhar com essa ideia de como eles podiam se encaixar em um mundo vasto e de fantasia.

“Eu sabia que personagem de cartum tinha quatro dedos, nariz gigante e pé gigante, então desenhei assim”

Por que Bones? Em termos de fantasia estamos muito mais acostumados com criaturas como elfos, trolls e hobbits, conceitos de certa forma muito mais identificáveis e acessíveis para os leitores, você não acha?

Era o que eu tinha na mão. Eles eram meus! Como você mesmo lembrou, eu inventei os três quando tinha uns cinco anos. Eu sabia que personagem de cartum tinha quatro dedos, nariz gigante e pé gigante, então desenhei assim. E eles parecem ossinhos [bones]! O importante era eles terem personalidade. Já estavam lá, nos gibis toscos que eu fiz quando era criança, o carinha normal, o avarento e o pateta.

No final das contas, Bone é uma história com início, meio e fim em mais de 1400 páginas de quadrinhos, desenvolvidas por você ao longo de mais de 13 anos. O quanto da história você já tinha definida quando começou a publicar a série? O quanto você já sabia dos rumos e do fim da história quando ela teve início?

Minha primeira rodada com o Bone impresso foi uma tira diária no jornal da faculdade. Acho que eu recebia sete dólares por tira. Foi o que eu fiz, cinco dias por semana, durante quatro anos. Como eu tive esse tempo todo, consegui errar bastante e aprender o ofício, mas também brotaram umas coisas que eu ia usar depois. Fone Bone gamado na menina da fazenda, a Espinho. A misteriosa relação entre Vovó Ben e o Dragão Vermelho. A jornada de Fone Bone e Smiley Bone às montanhas para devolver o filhote perdido. O primeiro encontro com Queixo Duro, o leão gigante, e aquela figura meio Morte que mandava nas Ratazanas; tudo virou baliza no épico que depois eu tracei pra revista. O que aconteceu com a tira foi que, como toda tira, ela não tinha fim. Era uma série infinita de piadinhas e aventuras. Eu queria uma trama de verdade, e tramas têm fim. Quando eu inventei o final, consegui usar esses pontos de parada pra criar uma trama, no que eu esperava que virasse uma série em quadrinhos épica.

“Quando eu inventei o final, consegui usar esses pontos de parada pra criar uma trama, no que eu esperava que virasse uma série em quadrinhos épica.”

Ainda sobre Bone ser essa imensa saga de 1400 páginas: você tinha consciência da etapa da história em que você se encontrava enquanto desenvolvia o quadrinho?

Tinha, sim. Tinha que ter. Estava sempre ciente da narrativa, mas às vezes me perdia na selva. Eu tinha o hábito muito ruim de fugir no roteiro quando surgia uma coisa engraçada. Humor é um ímã, no meu caso. Talvez me dê mais trabalho pra voltar à trama, mas vale a pena expandir. Eu tinha uns arquivos e anotações para não sair muito da linha, em todo caso.

Você pensa sobre as experiências distintas entre ler Bone como foi lançado originalmente e nessas coletâneas imensas? O que você acha que alguém que nunca leu Bone pode ganhar tendo acesso à sua história pela primeira vez nessas edições gigantescas?

Se estes volumes mais recentes, e lindos, são seu primeiro contato com Bone, você vai sentir toda a textura e ritmo da trama, a jornada, como um romance ou um filme. Os leitores originais de Bone tiveram a experiência seriada, de uma série em quadrinhos que saía mais ou menos de dois em dois meses. Durante treze anos, cada edição tinha que se sustentar por si só e fazer o leitor voltar pedindo mais. Tenha em mente que, naquela época, a ideia de histórias mais compridas, ou graphic novels, ainda estava no início. Não sei se alguém notou que as aventuras dos Bone estavam se armando para uma conclusão até chegarmos bem pertinho do final! Claro que eu sabia, e por isso que, mais ou menos uma vez por ano, Vijaya e eu republicávamos os gibis em livro, para os novos leitores ficarem em dia. Eram os nove volumes que você precisava ler. Em preto e branco.

Edições em preto e branco são muito mais baratas do que coloridas, ainda mais no caso se publicações independentes, como era o seu caso quando começou com Bone. Quais são os benefícios para a história do preto e branco original do seu trabalho?

Eu gosto de gibi em preto e branco. Os gibis originais de Bone, a série, eram em preto e branco. Isso em parte porque eu não tinha dinheiro pra pagar por cores, mas também porque as tiras que eu adorava, como Peanuts e Dick Tracy, eram em preto e branco. Mas não há como discutir que as versões coloridas fazem mais sucesso.

Você poderia falar um pouco sobre a sua decisão de colorir Bone? Você sempre teve em mente a possibilidade de lançar uma versão colorida?

A decisão de colorir foi, em parte, pragmática e, em parte, inspiração. Pragmática porque a maior editora de livros infantis do mundo, a Scholastic, nos procurou e queria lançar um selo de graphic novels com Bone. Uma das maneiras de renovar a história era colorir. No início eu hesitei, mas fui buscar conselhos com um dos meus ídolos, Art Spiegelman, criador da biografia gráfica Maus. Foi o Art quem me incentivou a colorir. Quando eu perguntei por quê – já que Maus, uma das inspirações para eu investir nos quadrinhos como minha arte, é em preto e branco – ele respondeu o seguinte: ‘Maus trata da guerra e devia ser em preto & branco, mas Bone trata da vida e só vai estar acabada quando estiver colorida.’

“Não sei se alguém notou que as aventuras dos Bone estavam se armando para uma conclusão até chegarmos bem pertinho do final”

Eu li uma resenha famosa de Bone, publicada pela revista Time, que diz que a série é ‘a melhor graphic novel para todas as idades já publicada’. Você tinha um público específico em mente quando começou a produzir Bone? Quais foram as suas impressões quando Bone começou a ser lida tanto por adultos quanto por crianças?

Fiquei surpreso. Quando eu lancei Bone, havia pouquíssimas crianças comprando ou lendo revistas em quadrinhos nos EUA. Isso mudou aos poucos. As graphic novels e o mangá ajudaram. Talvez eu nem devesse me surpreender, já que me esforcei para criar o gibi que eu queria ler quando criança! Hoje em dia, quando eu faço sessões de autógrafos, a fila tem adultos e crianças misturados.

Eu li várias entrevistas nas quais você fala sobre a influência de tiras de jornais na sua formação. Você poderia falar um pouco como essa influência se fez presente em Bone?

No timing do humor, quem sabe? A filosofia de Peanuts, os estilos de Carl Barks e de Walt Kelly, a humanidade de Krazy Kat são o que me trouxe aos quadrinhos. Ao mesmo tempo, são o que me prendem na prancheta.

“Quando alguém pergunta no que você trabalha, você diz ‘Eu desenho quadrinhos’ e respondem: ‘Massa! Que interessante!’ Isso não acontecia, sabe?”

Bone foi publicado pela primeira vez nos anos 90 e quase 30 anos depois nós ainda estamos aqui falando sobre essa série. O quanto você acha que o mundo dos quadrinhos mudou desde o começo da sua carreira?

Ih, cara. Tanta coisa. Tem resenhas de quadrinhos em jornais e revistas. Os gibis voltaram às mãos de milhões de crianças, você compra gibis onde tiver livros, música ou filmes. Hoje todos os filmes são de super-heróis. Quando alguém pergunta no que você trabalha, você diz ‘Eu desenho quadrinhos’ e respondem: ‘Massa! Que interessante!’ Isso não acontecia, sabe?

O que são quadrinhos para você, hoje?

Não sei uma definição específica, mas sei quando funciona. Quando uma série de imagens com palavras e figuras começa a se mexer, a transmitir tempo e espaço, aquilo ganha vida. Quando isso acontece, o leitor embarca na viagem.

Qual é o seu próximo trabalho? Você está desenvolvendo algum projeto novo no momento?

Estou trabalhando em um projeto chamado Tuki and the Dinga. É a reformulação de um projeto que eu larguei há uns anos e agora quero retomar. Ele se passa na aurora da nossa espécie, há dois milhões de anos.

A última! Você poderia recomendar algo que tenha lido, visto ou ouvido recentemente?

Recomendo tudo que foi escrito ou desenhado pelos fabulosos irmãos Bá e Moon. Atualmente estou lendo Macanudo, do argentino Liniers, e tenho uma compilação de discos ao vivo do Tom Petty em looping perpétuo. Agora eu vou fazer um sanduíche. Obrigado mais uma vez pela atenção! Tudo de bom!

HQ

Começa na 5ª (6/9) a Bienal de Quadrinhos de Curitiba 2018

A Bienal de Quadrinhos de Curitiba 2018 terá início amanhã (6/9) e recomendo fortemente sua ida ao evento, no Museu Municipal de Arte da capital paranaense entre 5ª e domingo (9/9). Junto com o Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, trata-se da principal festividade de HQs do país. Não poderei estar presente por questões profissionais, mas insisto que você dê uma olhada na programação e tente dar um pulo no evento. Lembrando que a entrada será gratuita e a feira e as conversas do encontro contarão com a presença de grandes mestres e novos talentos das HQs brasileiras.

Eu bati um papo rápido por email com o tradutor, jornalista e crítico Érico Assis, cocurador da Bienal junto com Mitie Taketani, propietária da Itiban Comic Shop, uma das principais lojas de quadrinhos do país. Na conversa a seguir, ele comenta sobre o tema do evento (A Cidade em Quadrinhos), destaca a presença do lendário Julio Shimamoto, chama atenção para alguns pontos da programação e fala de suas expectativas para o próximos dias. Saca só:

Por que A Cidade Em Quadrinhos como tema da Bienal?

Por um lado, a organização do evento viu que a cidade é um tema recorrente em todo tipo de quadrinho. A gente tem Gotham City, Metrópolis, Patópolis, Palomar, Cidades Obscuras, Sin City, aldeias gaulesas, a Nova York do Eisner. Às vezes essas cidades são personagens das HQs, às vezes há cidades reais que inspiram obras. Quadrinistas brasileiros têm produzido muito material de destaque onde a cidade é um aspecto importante: Quintanilha com Salvador e Niterói, o D’Salete e os quilombos, Luli Penna e São Paulo, Ana Koehler e Porto Alegre, o Rafael Sica e as fachadas de qualquer cidade.

Por outro lado, Curitiba é uma cidade reconhecida internacionalmente pela arquitetura e pelo urbanismo. Vem gente do mundo inteiro estudar Curitiba como cidade que é. Quadrinistas locais, como o José Aguiar em Coisas de Adornar Paredes ou o Guilherme Caldas em Ditadura Abaixo e outros trabalhos, acabam representando Curitiba.

Por esses dois lados, parece um tema bem apropriado para um evento de quadrinhos específico desta cidade.

Quais são as suas principais expectativas em relação à Bienal?

Acho que é a mesma de qualquer evento: bastante público conversando sobre quadrinhos e com os quadrinistas, e também comprando quadrinhos desses mesmos quadrinistas. Teremos 120 mesas na Feira de Quadrinhos, com gente que traz publicações do país inteiro. Só percorrer este espaço, ver essa gente e escolher um quadrinho que agrada já tomaria uma semana – e você tem só quatro dias.

Além disso, temos 70 convidados que vão se espalhar pela nossa programação. Temos mesas para conversar sobre mercado, sobre mangá, para quadrinistas iniciantes, sabatinas com nossos convidados principais e, claro, sobre o tema do evento: cidade e quadrinhos.

Além da presença de grandes nomes dos quadrinhos nacionais, você destaca algum aspecto específico da programação?

Sem querer insistir nos grandes nomes, mas já insistindo, e também sem desmerecer todos os outros convidados, eu queria ressaltar a participação do Júlio Shimamoto. Shimamoto é um nome lendário no quadrinho brasileiro, pouco ou nunca participou de eventos e aceitou comparecer à Bienal por intermédio do Márcio Paixão Junior, seu colaborador no álbum Cidade de Sangue. Aliás, a proposta veio do Márcio. Shimamoto está com 79 anos, temos uma logística especial para recebê-lo e espero que quem comparecer possa reconhecer (ou conhecer) e homenagear o mestre. E que ele goste da experiência, claro.

Quanto ao restante da programação, eu tenho um orgulho umbiguista de ter convencido minha colega na curadoria, a Mitie Taketani, e os organizadores a deixar mesas com o tema “que horas o quadrinista acorda?”, “quando o quadrinista estuda?” e “o que o quadrinista tretou no twitter?”. Eu sou vidrado em conhecer o processo de trabalho, o cotidiano, e acho que este “eixo labuta” pode render papos importantes para quem quer fazer HQs, quem estuda HQs ou só curiosos como eu. Agradeço muito aos quadrinistas que toparam entrar nestas mesas, como Alexandre Lourenço, Fefê Torquato, Chiquinha, Cris Eiko e outros.

Na coletânea O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 você teve uma experiência como curador e editor do álbum. É muito diferente essa experiência agora com a Bienal?

Bem diferente. No Fabuloso eu ajudei a selecionar trabalhos para compor um livro que devia representar uma época. Na Bienal ajudei a selecionar pessoas para compor um evento que tem que atrair mais pessoas, dentro de um tema de discussão.

A Bienal está sendo realizada no mesmo ano do FIQ. Em termos de produção independente e autoral, são dois eventos com propostas parecidas. No que você acha que os dois festivais se distinguem?

Um é em Curitiba, o outro é em Belo Horizonte. Acho que eles absorvem um pouco da identidade local, principalmente pela participação maciça dos quadrinistas locais. No mais, os dois são lugares para tomar cerveja com os quadrinistas.

Da Bienal de 2016 para essa atual aumentou ainda mais a crise econômica pela qual o país está passando. Quais foram os principais desafios de montar uma programação e fazer uma seleção de artistas convidados dentro desse contexto?

Fazer um evento igual ou parecido com o de outros anos, mas com menos grana: acho que está sendo o desafio de todo mundo. Do ponto de vista de curador, não pudemos convidar todos quadrinistas internacionais e nacionais que queríamos. Mesmo assim, acho que tivemos muita sorte nos aceites de convidados – e do pessoal que vem para a Feira -, que me parecem uma fatia expressiva do quadrinho brasileiro. Se brinca bastante que FIQ e Bienal de Curitiba são a Reunião Anual da Firma Quadrinho Nacional. Acho que este objetivo a gente vai cumprir.