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Entrevistas / HQ

Papo com Guilherme Petreca, o autor do recém-lançado Ye, de Carnaval de Meus Demônios e Galho Seco

O traço de Guilherme Petreca é um dos mais belos e singulares dos quadrinhos brasileiros. A primeira obra em formato de HQ do autor foi o curtíssimo Galho Seco, trabalho independente lançado em 2014 e com apenas 12 páginas. No final de 2015 ele publicou Carnaval de Meus Demônios, pela Balão Editorial. Apesar da qualidade de ambas as obras, elas servem apenas como um cartão de visitas, as duas são curtas demais e apenas instigam os possíveis dotes de Petreca como autor de uma HQ. Recém-lançado pela editora Veneta, Ye é o passo seguinte e mais ousado do quadrinista.

As 176 páginas do álbum infantojuvenil de Petreca focam nos esforços do inocente Ye em busca de sua voz e identidade em uma jornada por um mundo habitado por bruxas, demônios e piratas. O inimigo do herói é um rei que abastece seus poderes com o medo de seus súditos. O título é explicitamente influenciado por romances/quadrinhos/filmes de formação, com um diálogo imenso com as animações de Hayao Miyazaki. Tudo isso dentro de uma estética única, que mescla ambientações urbanas que remetem a cidades da Europa Oriental a vestimentas e feições que parecem vindas da América do Sul.

Em produção desde 2014, quando foi anunciado como um dos projetos financiados pelo Proac, Ye talvez seja apenas curto demais. Apesar de ser o mais longo projeto de Petreca, ele pede mais páginas, para aprofundar principalmente as personalidades e nuances de seus coadjuvantes. Ainda assim, é um grande trabalho, com um preto e branco belíssimo e uma arte sem igual. Bati um papo por email com o quadrinista. Conversamos sobre suas inspirações em Ye, seus métodos de produção, suas experiências com as editoras com as quais trabalhou e também sobre seus próximos projeto. Conversa bem boa. Ó:

“O Ye é trapaceado, não tem voz, vive com medo. Diante do cenário político atual é como me sinto. A solução é matarmos os reis”

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Entrevistas / HQ

Papo com Shiko

Para escrever sobre o lançamento de Lavagem pra Rolling Stone conversei durante pouco mais de uma hora com o Shiko. Já havia feito uma breve entrevista com ele antes, na época do lançamento de Piteco – Ingá, mas dessa vez foi ao vivo e o papo rendeu pra caramba. No final de 2015 prevejo Lavagem entre nas primeiras posições de muitas listas de melhores quadrinhos do ano. Os desenhos realistas do Shiko no álbum casaram com uma trama extremamente simples ambientada maior parte do tempo na cabeça de sua protagonista. Um tremendo thriller psicológico de um dos principais artistas brasileiros contemporâneos. Durante a nossa conversa, o Shiko falou sobre a produção da HQ, regionalismo em quadrinhos, feminismo e política. Papo legal demais de fazer e revisado pelo Lielson (valeu!). Ó:

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Entrevistas / HQ

Papo com Marcelo D’Salete – Volume 2

Na primeira vez que conversei com o Marcelo D’Salete, ele me adiantou um pouco sobre o trabalho que estava produzindo. Na época ainda sem nome, o quadrinho seria ambientado no Brasil colonial. Pouco mais de um ano depois, Cumbe chegou às livrarias como candidato potencial a uma das melhores hqs lançadas no Brasil em 2014. Lançado pela Editora Veneta e custando R$29,90, o livro com 176 páginas apresenta quatro contos protagonizados por escravos e é mais um dos títulos produzidos graças a verbas oriunda do Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo (ProAC). A arte em preto e branco do autor sai da São Paulo urbana de álbuns anteriores como Noite Luz e Encruzilhada. O vasto trabalho de pesquisa para o livro resultou em três páginas de glossário que aprofundam ainda mais a experiência de leitura. No final do quadrinho, fica a ânsia por mais páginas e histórias. Conversei com o Marcelo sobre a produção do livro e ele promete para breve um projeto ainda mais ambicioso sobre o mesmo tema. Segue o nosso papo:

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Entrevistas / HQ

Papo com Roger Cruz e Davi Calil, os autores de Quaisqualigundum

Fiquei sabendo da produção de Quaisqualigundum em março do ano passado, quando entrevistei o Davi Calil para uma matéria sobre quadrinistas independentes de São Paulo pro Estadão. Na época ele não revelou muito, disse que era um projeto composto “por quatro histórias interligadas protagonizado por personagens tirados de músicas do Adoniran Barbosa”.  Roteirista do gibi, o Roger Cruz é mais conhecido por suas ilustrações para editoras dos Estados Unidos, com personagens da Marvel e DC. Em 2010 ele havia feito uma primeira incursão misturando hqs e música, em Xampu – Lovely Losers, publicado pela Devir. Conversei com os dois sobre a obra, a venda a partir de hoje no site da Ugra Press. Minha matéria sobre Quaisqualigundum saiu semana passada no Globo e dá pra ser lida aqui. Segue a íntegra do nosso papo:

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Entrevistas / HQ

Papo com Paul Gravett, o curador da exposição Comics Unmasked

Provavelmente 2014 será lembrado na história das HQs britânicas como o ano da exposição Comics Unmasked. A retrospectiva apresenta o vasto e rico mundo dos quadrinhos produzidos no Reino Unido com o enorme acervo da Biblioteca Britânica. Ontem postei a minha matéria sobre o evento publicada no Estadão, com a minha conversa com o Paul Gravett, curador da exposição e autoridade mundial na linguagem sequencial. Nossa conversa foi bem mais longa e no papel só saiu um trecho. Segue a íntegra (as imagens são da assessoria da exposição, de autoria de Tony Antoniou):

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Qual a origem da exposição?

A Biblioteca Britânica tem a maior coleção de quadrinhos britânicos no mundo, mas ele ainda não havia sido exposto publicamente. Há dois anos, eu e John Harris Dunning procuramos a biblioteca e oferecemos nossos conhecimentos para produzir a primeira exposição desse material. Os quadrinhos estão cada vez mais relevantes no Reino Unido – com graphic novels ganhando prêmios literários, inspirando filmes, música, moda e games – e, principalmente, tendo seus méritos reconhecidos como expressão artística e pela dinamicidade de sua narrativa. É o momento perfeito para fazer essa declaração sobre a representatividade e vitalidade dos quadrinhos em um ambiente tão prestigioso como a Biblioteca Britânica. Além de apresentar uma imensa gama de quadrinhos, revistas e livros impressos, a Comics Unmasked também apresenta rascunhos, roteiros, artes originais, áudios, vídeos com visitas a estúdios de artistas e alguns objetos raros.

Há algum elemento padrão nos quadrinhos britânicos?

Algo recorrente que eu e John notamos foi a rebeldia. Das publicações impressas mais antigas às inovações digitais do presente, os quadrinhos britânicos sempre foram subversivos e combativos em relação a injustiças, preconceitos, questões sociais e sexuais. É um meio capaz de espalhar suas mensagens de forma muito eficaz e, ainda assim, abaixo do radar. Quadrinhos podem ser recolhidos, censurados, condenados por obscenidades e até banidos por um Ato do Parlamento, mas eles jamais serão domados e sempre serão provocantes e incontroláveis!

Esses elementos subversivos também estão presentes no gênero de super-heróis?

Com certeza. Os escritores britânicos reinterpretaram radicalmente os icônicos super-heróis norte-americanos, tornando-os mais sombrios e profundos do que nunca. Quando britânicos escrevem esses personagens, eles constantemente causam surpresas e choques, como o Alan Moore deixando a Batgirl paraplégica em A Piada Mortal e o Grant Morrison matando o Batman. Antes disso, sofrimentos reais e morte eram conceitos quase impossíveis nos quadrinhos americanos.

E quais seriam os personagens mais icônicos dos quadrinhos britânicos?

O personagem de quadrinho mais vendido no mundo na década de 1880, com mais de meio milhão de cópias de revistas vendidas por semana, era Ally Sloper, um vagabundo engraçado do Leste de Londres – a revista dele completou 130 anos dia 3 de maio. O Zé do Boné, publicado em todo o mundo, e o policial futurista e facista Juiz Dredd. Personagens femininas vão da agente secreta sexy Modesty Blaise à selvagem Tank Girl. Talvez o mais famoso de todo seja V de Vingança, inspirado em Guy Fawkes, que tentou explodir o parlamento e seu rosto virou a popular máscara de protesto utilizado por grupos como o Occupy.

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Qual a principal diferença entre os autores Britânicos e norte-americanos?

É a ousadia e a audácia, que talvez venha parcialmente do fato dos autores britânicos terem uma perspectiva distanciada dos Estados Unidos e do gênero de super-heróis. Como um ex-império, conseguimos sentir amor e repulsa por eles ao mesmo tempo, percebemos a mágica e o absurdo desse universo. Isso também é influência dos nosso próprios quadrinhos, de tiras infantis semanais como The Beano a publicações underground ou a ficção científica distópica da 2000AD. Essas publicações deram tons, energias e ironias completamente diferentes para nossos escritores e artistas.

Qual a importância da revista Warrior para os quadrinhos britânicos?

Como a 2000AD, a Warrior serviu de vitrine e porta de entrada para vários autores e séries, como V de Vingança e Miracleman. O seu editor, Dez Skinn, foi uma figura crucial e revolucionária para os quadrinhos britânicos. A Warrior transformou em definitivo o nosso mercado. Foi uma pena a revista ter sido encerrada, o que fez V e Miracleman terem sido continuadas por publicações americanas.

Alguns dos autores mais aclamados e respeitados hoje são britânicos, como Alan Moore, Neil Gaiman e Grant Morrison. Você vê algum padrão no trabalho deles?

Eles são leitores vorazes, muito bem informados e curiosos, interessados em questões que vão muito além de suas paixões por quadrinhos. Eles são magos da linguagem, têm pleno comando e consciência da capacidade da escrita de entrar na mente e nos corações das pessoas. Eles ajudaram a elevar os quadrinhos a um patamar sem precedentes na história.

Também há muitos artistas britânicos. Você vê algum padrão no trabalho de ilustradores como David Lloyd, Frank Quitely, Dave GIbbons e outros?

Muitos artistas britânicos construíram seus estilos a partir do trabalhos de outros ilustradores britânicos, mas também incorporando influências de desenhistas americanos, europeus e japoneses. O resultado disso é não existir um padrão, ou uma escola. São todos extremamente inovadores e originais.

Quem compõe a geração mais recente de quadrinistas britânicos?

Toda geração traz novos e mais talentosos artistas. As gerações mais recentes trouxeram muitas mulheres para o meio, como Simone Lia, Nicola Streeten e Karrie Fransman. No momento, alguns grandes mestres estão no auge, como Dave McKean, Posy Simmonds, Pat Mills, Bryan Talbot e Kelvin O’Neill. A mais nova geração é marcada por nomes como Kieron Gillen, Luke Pearson, Isabel Greeberg, Christian Ward, Frazer Irving, Si Spurrier, Krent Able e o mais novo presente na Comics Unmasked, com 13 anos, Zoom Rockman.

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WMentrevista

E aí, curtiu o visual novo do OEsquema? Algumas coisas ainda estão entrando no lugar e daqui a pouco tá tudo nos trinques, se tiver algum pitaco manda aí. Pra comemorar a mudança, reuni aqui algumas das entrevistas publicadas no Vitralizado. O blog tá bem próximo dos mil posts e talvez você não tenha visto toda a galera que entrevistei nesses quase dois anos de conteúdo aleatório justaposto em sequência deliberada. Prometo mais pra breve e avisa aí se tiver alguma sugestão de papo bom a ser feito.

Jeffrey Brown (autor de Kids Are Weird e Darth Vader & Son);
Andrew DeGraff (artista do New York Times);
Chris Ware (autor de Building Stories);
Ricardo Coimbra (um dos artistas da revista Xula);
Alexandre O. Philippe (diretor de O Povo Contra George Lucas e A Vida e os Tempos de Paul, O Polvo Vidente e Doc of the Dead);
Luciana Foraciepe (criadora da página Maria Nanquim e editora da revista Xula);
Marcus Alqueres (diretor de The Flying Man);
Lucy Knisley (autora de Relish: My Life in the Kitchen);
Greg Tocchini (ilustrador da série Low da Image Comics);
Marcelo d’Salete (autor de Encruzilhada e Noite Luz);
Glenn McDonald (engenheiro de software especialista em dados musicais);
Heitor Yida (um dos autores do Gibi Gibi);
David Lloyd (ilustrador de V de Vingança e criador do projeto Acces Weekly);
Matt Zoller Seitz (autor do livro The Wes Anderson Collection);
Rafael Coutinho (autor da série O Beijo Adolescente);
Adam WarRock (rapper norte-americano);
Renato Guedes (ilustrador da futura Graphic MSP do Papa-Capim);
Craig Thompson (autor de Blankets e Habibi).

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Vida longa aos zumbis

Entrevistei pra edição de janeiro da Galileu o cineasta Alexandre O. Philippe. Ele é o responsável por alguns dos documentários mais bem-humorados e inteligentes dos últimos anos, como O Povo Contra George Lucas e A Vida e os Tempos de Paul, O Polvo Vidente. Ele vai lançar, ainda em 2014, Doc of the Dead, sobre a relação entre a cultura pop e os zumbis. Bem legal a conversa com ele. Olha aí:

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Vida longa aos zumbis

O diretor Alexandre O. Philippe se especializou em documentar nichos da cultura pop — e agora irá falar sobre o culto aos mortos-vivos

documentário de estreia do franco-suíço Alexandre O. Philippe foi lançado em 2003 e conta a história de uma galinha zumbi. Ou quase isso. Em setembro de 1945, um fazendeiro do Colorado resolveu servir um frango assado para sua sogra. Ele cortou parcialmente a cabeça do galo Mike e o corpo da ave saiu correndo pela sua cozinha. A criatura viveu decapitada ao longo de 18 meses e sua história pode ser assistida em Chick Flick: The Miracle Mike History.

Dez anos depois, ele termina o que pretende ser o registro definitivo sobre a cultura zumbi, em Doc of the Dead (Documentário dos Mortos). Em seu currículo também constam Earthlings (2004), sobre os fãs de Jornada nas Estrelas, The People Vs George Lucas (2010), com o embate entre o criador de Guerra nas Estrelas e seus súditos, e o excêntrico A Vida e os Tempos de Paul, o Polvo Vidente (2010), protagonizado pelo molusco adivinho da Copa da África do Sul. Em entrevista por telefone a GALILEU, o cineasta ressaltou a importância de preservar a cultura pop.

O que dá para adiantar sobre seu Doc of the Dead?
Sua versão final fica pronta em janeiro. Será o documentário definitivo sobre a cultura zumbi, tratando do assunto por uma perspectiva bem ampla. Começando pelos zumbis da religião vodu, passando pelos filmes de George Romero e pelos blockbusters que deram origem a todo esse culto recente.

Como você analisa a recente popularização dos zumbis?
Eles foram alternativos durante muito tempo. Em locadoras, os filmes de zumbi ficavam num cantinho escuro que as pessoas não costumavam frequentar. A virada aconteceu no início dos anos 2000, quando surgiu [a série]Walking Dead, O Guia de Sobrevivência Zumbi, Guerra Mundial Z [dois livros de Max Brooks, o último virou filme], convenções de fãs de zumbis… Toda cultura de fã possui o que chamo de “ponto de virada”: há várias coisas acontecendo ao mesmo tempo e não dá pra parar, é como uma avalanche e leva todos os seus seguidores juntos. Geeks e fãs sempre existiram, mas nem sempre se expõem. Quando um determinado grupo de pessoas se sente à vontade para assumir com orgulho seus gostos, a mídia se aproxima, outras pessoas ficam interessadas e o fenômeno cresce. É quando ocorre o “ponto de virada”. Hoje é cool ser nerd ou geek e não importa qual a sua obra de culto. As pessoas te aceitam.

A indústria do entretenimento é cíclica. Qual o futuro dos zumbis?
Não sei se é possível prever. É como a bolsa de valores. Algumas pessoas já cogitaram o fim, mas a moda continua crescendo. São fenômenos imprevisíveis. As pessoas fazem filmes de zumbis há anos e hoje o Arnold Schwarzenegger está filmando um, o Elijah Wood também. Filmes de zumbis tratam de metáforas muito adaptáveis. Acho que as pessoas estão apenas começando a ver o potencial do tema e não veremos seu final tão cedo.

Seus documentários tratam de temas que envolvem muita paixão e fanatismo. Há um padrão na origem desses cultos?
Talvez o padrão seja exatamente a paixão. Precisamos dar mais atenção para as coisas que nos fazem sorrir. Perdemos cerca de 50% dos filmes produzidos antes da década de 50. Claro, filmes deterioram, mas demoraram décadas para que as pessoas notassem que filmes são produtos culturais importantes. Não podemos deixar que a mesma coisa aconteça com a cultura pop, ela precisa ser documentada e preservada. E também apreciada e não vista como um prazer com culpa.

Além do fanatismo, os seus documentários tratam de assuntos um pouco excêntricos. Como você escolhe os temas?
São esses temas que caem no meu colo [ri]. São sempre relacionados à cultura pop e estão em voga, precisam ser abordados naquele instante. Eles envolvem discussões passionais e questões que ainda não foram abordadas com a profundidade necessária. Quando filmei Paul, as pessoas da minha equipe não acreditavam que aquilo poderia resultar num documentário. Ele trata de um momento muito específico e restrito da nossa história. O mesmo acontece com os zumbis. As pessoas que não entendem essa cultura podem achar ridículo, mas quero apresentar um olhar diferente. Hoje, 12 anos após meu primeiro documentário, percebi que minha missão talvez seja fazer as pessoas verem a cultura pop de uma maneira diferente.

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Cinema / Entrevistas

Papo com Greg Tocchini

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Quando escrevi pro Estadão sobre a nova leva de graphic novels da Maurício de Sousa Produções, um dos projetos que mais me animou foi o da Turma da Mata. O gibi vai ser produzido por Grag Tocchini, Artur Fujita e Davi Calil. Conversei com todos eles durante a produção da matéria, mas consegui aproveitar pouco do nosso papo por falta de espaço. Aí o Greg Tocchini foi anunciado como um dos autores de LOW, uma das próximas séries lançadas pela Image, e achei uma ótima deixa pra voltar a falar com ele, dessa vez pro site da Galileu. Segue o papo:

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A agenda lotada de Greg Tocchini

Desenhista brasileiro lança série nos EUA em julho e impressiona a indústria de quadrinhos

Eu acho que Greg Tocchini é provavelmente um dos maiores artistas surgidos nos quadrinhos nos últimos 20 anos”. A avaliação sobre o artista brasileiro Greg Tochhini veio de um dos autores mais vendidos e aclamados da indústria de quadrinhos norte-americana, o escocês Mark Millar. Responsável por títulos levados para o cinema, como os dois Kick Ass e O Procurado, o roteirista fez sua afirmação no Twitter, quando o Tocchini foi anunciado como artista da mais nova série da editora Image Comics, LOW. Com lançamento agendado para julho, o gibi mensal de ficção científica está previsto para durar 60 edições.

Além do novo título nos Estados Unidos, Tocchini também será um dos responsáveis pelo álbum protagonizado pela Turma da Mata da série de graphic novels da Maurício de Sousa Produções. “Todos os projetos possuem em comum o fato de eu participar da criação e do roteiro além da arte, coisa que venho buscando há algum tempo”, explica o desenhista em entrevista à GALILEU. Além dos dois potenciais blockbusters, ele continua a compor a equipe do coletivo de quadrinistas independentes Dead Hamsters.

Em seguida ao elogio de Millar, Tocchini teve sua arte também ressaltada por outra estrela das revistas de super-heróis dos Estados Unidos, o ilustrador Adam Hughes. “Naquele dia eu voltei do trabalho pra casa com uma enorme sensação de que tudo vale a pena e me sentindo muito honrado, sou muito fã do trabalho deles e há muito tempo”, conta o autor paulistano com trabalhos já publicados nas gigantes Marvel e DC e na europeia LeLombard. Na conversa com a GALILEU, ele falou sobre as origens de LOW, comentou a experiência de trabalhar com editoras internacionais e adiantou sobre o andamento do esperado trabalho com os amigos do elefante Jotalhão.

Como surgiu o convite para participar de LOW?
A ideia do LOW surgiu em 2009/10. Na época eu trabalhava com o Rick Remender no The Last Days of The American Crime. Durante a produção da HQ ele me perguntou qual seria nosso próximo projeto juntos e o que eu gostaria de desenhar. Respondi a ele da melhor maneira que pude, fiz um desenho. De uma astronauta tirando seu traje em um cenário de ficção cientifica. Foi o primeiro desenho do LOW. O Rick juntou algumas idéias que tinha tido ao ler uma National Geographic anos atrás, sobre a expansão do sol e a inevitabilidade de que as estrelas do nosso sistema em seu caminho serão consumidas no processo. E criamos o universo da série. De lá pra cá foram alguns anos de conversa, desenvolvimento, venda do projeto e negociação. Essa ultima parte sendo com certeza a pior parte pra mim. Eu queria sentar na prancheta e sair desenhado. Agora, depois de 5 anos desde que fiz o primeiro desenho vamos lançar a série. Foi uma longa caminhada até aqui. E somente para que pudéssemos começar a odisseia que será fazer toda a série. Não poderia estar mais feliz.

E o que você pode adiantar sobre o enredo?
LOW é uma ficção cientifica que se passa no fundo do mar. Em um futuro distante a Terra é maltratada pela radiação solar e a humanidade se muda para cidades blindadas rivais no fundo do mar. A superfície do planeta tornou-se um deserto queimado e inabitável. Aí uma sonda estelar retorna com informações sobre um possível planeta alternativo para se viver. Mas a sonda pousa, por acidente, na terra, e não no oceano. E as comunidades humanas remanescentes aventuram-se na mais mortal das terras, a superfície, para recuperar a sonda e as informações de esperança que ela trás.

Durante o anúncio do título o roteirista comentou que seriam cerca de 60 edições. Você já se envolveu em um projeto tão longo?
Eu nunca me envolvi num projeto como o LOW. Em todos os aspectos. Da criação ao desenvolvimento do projeto, o planejamento, a execução da arte, a liberdade artística,… LOW é novo. Temos uma grande história para contar. E eu quero muito contar o final dessa historia.

A origem da Image está muito ligada aos direitos dos autores e recentemente ela está acumulando vários sucessos de vendas e crítica. Como está sendo a experiência com a editora?
Está sendo uma experiência única. Mas também, é a primeira editora que eu trabalho com um projeto autoral. Desejo que a experiência traga bons e prósperos frutos.

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Você já produziu para a Marvel também. Há muita diferença entre uma editora e outra?
Empresas diferentes, filosofias e gestões diferentes. Já trabalhei para a Marvel, DC, Dark Horse, Radical Comics, LeLombard e agora a Image. Todas me deram grandes oportunidades de trabalho para cada etapa da minha carreira. Pude trabalhar com muitos bons projetos, autores e editores. Mas nunca tinha entrado numa editora como autor do projeto. E há diferenças claras nisto. Posso e devo opinar mais sobre as direções que o projeto tomará, por exemplo.

Como está encaminhada a produção da graphic novel para a Maurício de Sousa Produções?
Estamos trabalhando o roteiro, que está bem adiantado. Já fizemos e descartamos algumas versões e estamos indo para a final agora. Aprovado o roteiro, começamos a produção da arte.

Você está produzindo a revista da Image, a graphic da MSP e continua com os trabalhos independentes da Dead Hamster. São públicos e universos muito diferentes?
Não vejo a questão como públicos ou universos diferentes. Vejo sobre a ótica do autoral. Todos os trabalhos que estou envolvido atualmente são autorais. O LOW eu divido a autoria com o Rick. A Graphic da Turma da Mata está sendo feita a seis mãos. Eu, o Artur Fujita e o Davi Calil que dividimos um estúdio. E o Dead Hamster é um coletivo de artistas publicando seus trabalhos autorais. Todos os projetos possuem em comum o fato de eu participar da criação e do roteiro além da arte, coisa que venho buscando há algum tempo. E todos os projetos possuem um potencial internacional, ou seja, podem alcançar um grande público não só aqui como em outros mercados.

E o que você achou do comentário do Mark Millar sobre o seu trabalho no Twitter? Você gostaria de trabalhar com ele?
Naquele dia eu voltei do trabalho pra casa com uma enorme sensação de que tudo vale a pena e me sentindo muito honrado. Não só pelas palavras do Millar como as do Hugues. Sou muito fã do trabalho deles e há muito tempo. Fui influenciado por seus trabalhos inspiradores e de repente receber um elogio tão grande dos profissionais que você admira me fizeram sentir que estou indo pelo caminho certo. Não conheço o Millar pessoalmente, espero poder remediar isso em breve em alguma convenção. E se eu gostaria de trabalhar com ele? É claro que sim, mas só talvez daqui uns cinco anos, quando eu tiver cumprido a odisseia atual de trabalhos.

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