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Entrevistas / HQ

Papo com os autores da coletânea Porta do Inferno: “A gente vê o diabo diariamente e faz de conta que não”

Os editores e quadrinistas Lobo Ramirez (Escória Comix) e Luiz Berger (Gordo Seboso) uniram forças para lançar a coletânea Porta do Inferno. O álbum de 76 páginas reúne histórias assinadas pelos dois editores e outros quatro artistas: Emily Bonna, Victor Bello, Diego Gerlach e o quadrinista mexicano Abraham Diaz. A obra tem início com um enredo assinado por Berger mostrando a abertura da porta do inferno na terra e as HQs seguintes apresentam algumas das consequências desse ocorrido, tendo o narrador Caio Tira-na-Cara como o responsável por conduzir o leitor ao longo do álbum.

Autor do épico ASTEROIDES – Estrelas em Fúria, lançado em março de 2018, em parceria da Escória Comix com a Ugra Press, Lobo Ramirez é das figuras mais ativas da cena brasileira de quadrinhos. Em 2017 ele publicou os celebrados NÓIA – Uma História de Vingança (Escória Comix/Vibe Troncha Comix), de Diego Gerlach, e os dois volumes do já clássico Úlcera Vórtex, de Victor Bello. Nove meses após ASTEROIDES, ele publica a parceria com Berger para encerrar o ano de seu selo pessoal com a coletânea de histórias de horror, morte e destruição protagonizadas pelos demônios de Porta do Inferno.

Após responder à breve entrevista a seguir e revelar o primeiro lançamento de sua editora para 2019 (O Alpinista, de Victor Bello), Lobo Ramirez entrevistou cada um dos cinco autores de Porta do Inferno para o Vitralizado. Nas conversas, os artistas falam sobre as inspirações para suas histórias na publicação e expõem suas suspeitas em relação à vinda do anticristo à terra. Saca só:

– LOBO RAMIREZ –

As portas do inferno estão abertas em território brasileiro?

Lobo Ramirez: Escancaradas.

Qual foi a inspiração de vocês para esse formato, com vários autores escrevendo histórias com a mesma temática?

Lobo Ramirez: A real é que esse era pra ser um quadrinho longo do Berger, mas ele desencanou de terminar e eu fiquei enchendo o saco pra lançar porque as páginas eram fodas. Então surgiu a ideia de chamar um pessoal e continuar a historia do ponto que ele parou. Eu não sei se tem alguma coisa nesse formato específico, já deve ter, mas de toda forma eu achei interessante o resultado e quero tentar outros títulos nesse mesmo estilo.

Quais será a próxima investida da Escória Comix?

Lobo Ramirez: Bom, oficialmente confirmado e em produção é um quadrinho do Victor Bello cujo título revelarei exclusivamente agora: O Alpinista, um gibi que ele vem produzindo desde o começo de 2018. Mas já tenho previstos outros 14 títulos novos para 2019, então vai ser um ano de varias investidas. Deus me acuda.

Um painel do quadrinista Luiz Berger presente em Porta do Inferno

– LUIZ BERGER –

LOBO RAMIREZ: Você já participou, como convidado e editor, de diversas antologias de quadrinhos, reunindo nomes nacionais e internacionais. Alguns nomes se repetem nessas publicações, por que Porta do Inferno é diferente das outras?

Luiz Berger: Sim, vários nomes se repetem e acho que vão continuar se repetindo nas próximas antologias. Eu gosto de seguir uma linha editorial com uma identidade, que é bem parecida, ou até igual, à do lobo ramirez. O que difere a Porta do Inferno das anteriores, é que nessa não são só histórias que seguem um tema, como a revista Goró, que reunia histórias sobre bebida, colocadas meio que em ordem aleatória. Nesse caso, as histórias começam do mesmo ponto, da porta do inferno que foi aberta no final da primeira história do gibi, e todas estão conectadas pelos comentários do personagem-narrador Caio Tiro-na-Cara, como em várias revistas de terror dos anos 50. Acho que essa revista está muito mais bem amarrada que as anteriores.

LOBO RAMIREZ: Quando você vai largar mão de ser trouxa e começar a produzir quadrinhos de merda com mais frequência?

Luiz Berger: Acho que esse ano eu volto a fazer com muito mais frequência. Editar essa revista me deu um belo ânimo pra voltar com o Gordo Seboso.

– ABRAHAM DIAZ –

LOBO RAMIREZ: Você já participou de várias antologias de quadrinhos, incluindo Goró (Gordo Seboso), que tem três dos quadrinistas presentes na Porta do Inferno. Há muitos outros quadrinistas nesse meio mais podre no México? Ou você acha que há uma cota de retardados dos quadrinhos por país?

ABRAHAM DIAZ: No México, o quadrinho marginal está apenas começando a se desenvolver. Sem dúvida, há muitos cartunistas começando a publicar quadrinhos podres e eu acho que nos próximos anos haverá um boom nos quadrinhos mexicanos e na arte em geral.

LOBO RAMIREZ: Você acha que Porta do Inferno é mais uma imagem de um bando de marginais falando sobre o diabo, cocô, violência e blasfêmias gratuitas?

ABRAHAM DIAZ: Sim, eu acho que Porta do Inferno é isso, mas eu também acho que não poderia ser outra coisa hahaha

– EMILLY BONNA –

LOBO RAMIREZ: Conte-nos um pouco sobre sua relação com quadrinhos. Você tem um trabalho com ilustração, mas já tinha feito quadrinhos antes? Qual a diferença entre produzir um quadrinho e uma ilustração?

Emilly Bonna: Na infância não cheguei a ler muitos quadrinhos, mas me chamava atenção a estrutura deles, que possibilitava contar histórias através de desenhos. Comecei a fazer breves historinhas pra mim mesma aos nove anos e, conforme foi passando os anos, continuei fazendo quadrinhos e zines bem amadores e com pouca circulação. Na ilustração eu posso passar uma ideia rápida do que quero expressar e nos quadrinhos as formas de explorar um tema são mais amplas.

LOBO RAMIREZ: Por que você aceitou fazer parte desta patotinha horrível de pessoas degeneradas? Não tem medo do que vão falar de você na igreja?

Emilly Bonna: Eu estava no culto da igreja Deus é Amor e no meio da oração, Jesus, na forma do piolho da irmã que estava na cadeira da frente, me disse: ‘Participe de uma HQ de alto grau satânico para enaltecer o Diabo, tô brigado com meu pai Deus, quero deixar o véio puto’. E então cumpri o pedido de Cristo, amém. Não tenho medo do que vão falar pois já envenenei todos os membros da igreja com cianeto misturado no suquinhos Tang de uva.

– VICTOR BELLO –

LOBO RAMIREZ: Na história Fuim, o Xupador de Ossos, mesmo em poucas páginas, você insere uma vasta gama de personagens e parece que a qualquer momento podemos acompanhar qualquer um deles com uma história diferente. Nessa história específica, quais foram suas inspirações para os personagens?

VICTOR BELLO: Nessa história eu quis fazer uma investigação estilo Arquivo X. O demônio não teve uma inspiração específica, mas os personagens da gangue que trafica cascos de tartaruga eu me inspirei em personagens aleatórios de filmes da produtora Troma, gente esquisita. Outros, como as vítimas, busquei as características em típicos personagens que morrem em filmes slashers, então uma das vítimas é um jovem pixador que usa drogas, o outro é um pescador que pesca tartaruga em extinção. São pessoas que num filme slasher são descartáveis. O jovem pixador é parecido também com personagens de propaganda cristã anti-drogas.

LOBO RAMIREZ: Não te incomoda os editores dessa revista claramente estarem ganhando milhões às custas de jovens talentos?

VICTOR BELLO: Incomoda. E me incomoda tanto que pretendo roubar toda a fortuna desses dois em um golpe que já está em curso e assim montar minha própria editora. Os contratarei com carteira assinada, pagarei um salário e os tratarei com toda decência.

– DIEGO GERLACH –

LOBO RAMIREZ: Fazer parte do gibi Porta do Inferno é mais uma de suas participações numa antologia de quadrinhos. Qual o lugar você enxerga que essa história tem dentro do seu trabalho? Ela dialoga de alguma forma com a sua produção atual ou cada título,  cada quadrinho, se adequa a necessidades específicas?

DIEGO GERLACH: Acho que tem as duas coisas, sempre dialoga com as outras HQs que tenho feito e por outro lado também sempre supre uma necessidade específica. Essa HQ pra Porta do Inferno tem umas coisas que vinha fazendo em outros trabalhos (grids fixos, desenho digital fotoreferenciado), mas ao mesmo tempo a demanda era específica (e inédita pra mim): uma HQ de terror com uma pegada clássica. Levou um bom tempo pra ser concluída, ela meio que mudou de rumo e acabei incorporando alguns elementos de uma lenda urbana que me foi contada algumas vezes na época em que fazia catequese. O terço final foi criado no intervalo do primeiro pro segundo turno das eleições de 2018.

LOBO RAMIREZ: Você acha que o verdadeiro anticristo vira à terra como um homem de deus?

DIEGO GERLACH: Como ateu criado no catolicismo, o diabo pra mim é o conceito alegórico definitivo… Mesmo que não exista um ‘verdadeiro’. Tem vários ‘homens de deus’ que são o diabo em pessoa (preciso dar exemplos…?), vão na direção diametralmente oposta dos ensinamentos do mito crístico. É isso: a gente vê o diabo diariamente e faz de conta que não. (Como curiosidade, meu avô queria que eu me tornasse padre.)

HQ

Papo com João Pinheiro e Diego Gerlach, autores da Cavalo de Teta #2: “Saímos da condição de país soberano e ‘democrático’ para uma nova colônia em apenas dois anos”

A segunda edição da revista Cavalo de Teta será lançada amanhã (3/11), no primeiro dia da Feira Des.Gráfica 2018, realizada no Museu da Imagem e do Som de São Paulo. A publicação é editada pelo quadrinista João Pinheiro e conta com HQs de autoria dele e outros quatro artistas: Alves, Diego Gerlach, MZK e Schiavon. Autor de obras como Keuroac, Burroughs e Carolina (em parceria com Sirlene Barbosa) e idealizador da Cavalo de Teta, João Pinheiro respondeu a algumas perguntas enviadas a ele sobre o desenvolvimento desse segundo número da revista e alguns dos temas abordados na publicação. A conversa ainda conta com a contribuição de Gerlach para duas perguntas.

Na entrevista, os artistas justificam o subtítulo ‘Edição Pós-Brasil’ na capa da revista, analisam causas e consequências da vitória de um presidente de extrema-direita nas eleições presidenciais brasileiras de 2018, cogitam possibilidades para o futuro da revista e refletem sobre o papel potencial das histórias em quadrinhos em tempos de reacionarismo aflorado. “A arte tem papel fundamental em tempos difíceis, tradicionalmente é quando o público mais corre atrás de entretenimento e reflexão em torno do caos cotidiano”, diz Gerlach. Saca só:

“Os 350 anos de escravidão deixaram traumas profundos na nossa alma e problemas estruturais na sociedade”

Vocês chamaram esse segundo número da Cavalo de Teta de ‘Edição pós-Brasil’. O que vocês querem dizer com esse subtítulo?

João Pinheiro: Quer dizer que venderam o Brasil. Que o Brasil, como nós conhecíamos, acabou de fato. Depois que a casa grande surtou e botou seus capatazes pra correr com os ‘escravizados’ de volta pra senzala à força, uma pá de ideia furada sobre o brasileiro foi pro saco (só pra quem ainda não sabia, claro): ‘Somos um povo miscigenado que convive harmoniosamente e não há racismo ou preconceito social’. Mentira. A maioria dos brasileiros não conhece cidadania e os 350 anos de escravidão deixaram traumas profundos na nossa alma e problemas estruturais na sociedade. Tivemos a oportunidade de olhar no espelho e o reflexo assustou muita gente. E depois, saímos da condição de país soberano e ‘democrático’ para uma nova colônia em apenas dois anos, pois pra a classe dominante, que tomou o poder à força em 2016, foda-se esse lance de soberania popular. Brasil? Pátria? Piada. Estão pouco se lixando pro povo. Na verdade, odeiam o povo. Se acham donos do país, são um punhado de gente, e são desde sempre entreguistas e predadores vorazes, escravagistas e mafiosos. Voltamos a ser a Terra de Vera Cruz, mas agora sob o julgo do imperialismo norte americano. Por isso pós-Brasil.

Você poderia me contar um pouco sobre a produção desse segundo número? Como foi a dinâmica do seu trabalho com o Alves, o Gerlach, o MZK e o Schiavon? Foi muito diferente do processo do primeiro número?

João Pinheiro: Mantemos um grupo de mensagens onde trocamos ideias e informações, mas cada um tem total liberdade para criar a partir do tema sugerido. Nosso papo é muito informal e no final das contas meu único trabalho e encher o saco dos manos com prazos e coordenar a finalização da revista. Nesse sentido, a Cavalo de Teta acaba sendo resultado de uma criação coletiva de fato. Preciso dizer que esses caras, meus cupinchas, são gênios da HQ nacional que admiro fanaticamente e a quem hoje tenho orgulho de chamar de amigos, e eles não dão ponto sem nó.

“A imagem da capa é uma extensão dessa ‘festa nacional’ que reúne os cidadãos de bem fascistas, membros do poder judiciário, batedores de panela com suas camisas da CBF, o sapo da Fiesp, a representação da justiça embriagada dançando no centro furando o boneco do ex-presidente Lula com sua espada enquanto tucanos voam livres ao redor de um Sérgio Moro gigante com chapéu de tio Sam”

Eu gostei muito da capa da revista. Me fale sobre ela, por favor? O que você quis retratar nessa arte?

João Pinheiro: A ideia da capa pintou quando vi as fotos de uma festa organizada pelo dono do Bahamas, Oscar Maroni, em comemoração ao decreto de prisão de Luiz Inácio Lula da Silva. Na foto, divulgada fartamente nas redes na época, o tipo, vestido de irmão metralha, subjuga uma mulher nua tapando sua boca com uma das mãos num gesto extremamente agressivo, em cima de um palco rodeado por marmanjos em êxtase engolindo suas bebida grátis (segundo a imprensa foram distribuídas 9.000 latas de cerveja); Acima dele, no palco montado em frente ao Bahamas, uma espécie de altar exibia as fotos dos juízes Cármen Lúcia, do STF, e Sérgio Moro, responsável pela Lava Jato. Toda aquela encenação me pareceu a iconografia do horror e um instantâneo do proto-fascismo que levantou o pescoço desde 2013 nos espaços públicos e que finalmente, hoje já sabemos, saiu vitorioso de todo esse processo fraudulento ‘elegendo’ um candidato abertamente fascista. A imagem da capa é uma extensão dessa ‘festa nacional’ que reúne os cidadãos de bem fascistas, membros do poder judiciário, batedores de panela com suas camisas da CBF, o sapo da Fiesp, a representação da justiça embriagada dançando no centro furando o boneco do ex-presidente Lula com sua espada enquanto tucanos voam livres ao redor de um Sérgio Moro gigante (estilo boneco de Olinda) com chapéu de tio Sam. Muita bebida, talheres chiques, milionários e um representante da fé ali no meio da muvuca. Obviamente a capa é muito mais suave e chega a ser ingênua perto da cena distópica do horror que a inspirou.

Algumas das HQs da Cavalo de Teta #2 tratam de possíveis causas e desdobramentos do contexto político em que estamos inseridos. Você vê algum ponto de origem fundamental pra essa nossa realidade atual? E o que você imagina para o nosso futuro?

João Pinheiro: É complexo, mas acredito na tese de que a guinada à extrema direita no Brasil, mas que também está ocorrendo em vários outros países, segue a agenda imposta pelo sistema financeiro global centrado em Wall Street – que domina virtualmente o Ocidente inteiro – e não podia simplesmente aceitar a soberania nacional, em sua completa expressão, de um ator regional da importância do Brasil. Segundo essa tese, a ofensiva começa a ser posta em prática já em 2006 e se acentua a partir da crise financeira internacional de 2008 que arrasou a economia mundial. Como dizem: siga o dinheiro. Daí, para implementar as tais reformas (fiscal e tributária) exigidas pelo mercado foi preciso destruir a nossa já falha democracia com o auxílio de agentes internos que pudessem ser corrompidos, começando pelo sistema judiciário e legislativo aliados aos barões da mídia – que incapazes de apresentar um projeto para o país, haviam sido derrotados em quatro eleições consecutivas. Estamos no meio de uma guerra com o imperialismo e até agora estamos levando um cacete daqueles.

Ninguém consegue prever ao certo o que vai acontecer, mas acho que a possibilidade de um golpe militar aberto não pode ser descartada. Além disso, alguns economistas preveem uma nova crise financeira mundial a estourar a partir do ano que vem e parece que a tomada das riquezas naturais brasileiras (petróleo, Aquífero Guarani, Amazônia, minério e etc) são fundamentais no fechamento das contas do dito mercado e principalmente para salvar a economia norte americana.

Diego Gerlach: O começo do nosso fundo do poço foi em Junho de 2013, quando a insatisfação com a crise econômica que se anunciava explodiu, usando o reajuste dos preços das passagens de ônibus como fagulha, o que iniciou uma série de protestos violentos que, além de explicitarem uma insatisfação até então não-articulada, geraram um efeito dominó de equívocos, que enfraqueceu a base do governo e abriu espaço amplo para o populismo de direita. No Brasil, a bomba caiu no colo do PT (envolvido numa série de escândalos de corrupção que receberam incessante cobertura midiática), mas o bom-senso indica que poderia ter sido qualquer outro partido. Junho de 2013 começou a terminar quando foi divulgado o resultado das eleições de domingo passado.

A minha HQ pra CdT2 se situa num hipotético futuro pós-apocalíptico no Planalto Central. No meu caso, a eleição do Bolsonaro figura como detalhe quase incidental na história (o foco principal da HQ é meu asco em relação a religiões organizadas), era algo que já estava no ar fazia algum tempo, mesmo que eu (e quase metade dos eleitores do Brasil) tenhamos feito o possível pra evitar que isso acontecesse. Brexit me surpreendeu (e olha que vivi na Inglaterra por quase três anos na década passada). Já a eleição de Trump nem tanto. E isso porque pouco antes das eleições americanas de 2016 assisti Hypernormalization, documentário político do inglês Adam Curtis, que parecia também já ter captado as cataclísmicas mudanças em andamento e deixava no ar a provável eleição do POTUS twitteiro. Acho Hypernormalization e também o livro Capitalist Realism, de Mark Fischer, fundamentais pra entender o momento atual do ocidente. Em comum, as duas obras explicam onde as esquerdas se perderam (e onde podem se reinventar), e o imenso preço que o capitalismo avançado (onde corporações são mais poderosas que qualquer estadista, e líderes só se veem capazes de inspirar as massas ao propor mudanças radicais e em grande medida irrealizáveis) cobra da nossa psique e do tecido social como um todo, nos conduzindo aos atuais momentos de crise.

E, no momento, não há consenso na esquerda. Dentro da própria CdT2, tivemos discussões muito interessantes, mas que não apontavam necessariamente para uma concordância plena, apenas um apaziguamento em torno de objetivos imediatos (impedir o avanço do fascismo).

Qual você acredita ser o potencial das histórias em quadrinhos dentro desse contexto de conservadorismo aflorado em que estamos afundando?

João Pinheiro: Vejo como potencial pólo de resistência cultural, mas infelizmente ainda com muito pouco alcance. Por outro lado, os chargistas, na minha opinião, são o que há de melhor da crítica política feita nesse último período.

Diego Gerlach: A arte tem papel fundamental em tempos difíceis, tradicionalmente é quando o público mais corre atrás de entretenimento e reflexão em torno do caos cotidiano. Só espero que reste alguém disposto a ler, e a que as ameaças de censura que pairam no ar não se confirmem. Porque se elas se confirmarem, nós vamos ter que intensificar o foco ainda mais, rir ainda mais do meme perigoso que nosso país optou por eleger.

Qual é o futuro da Cavalo de Teta? Vocês já têm planos para uma terceira edição?

João Pinheiro: Sim, temos e se possível gostaria de ampliar a revista convidando outros autores a participar. Porque o Brasil pode acabar, mas os quadrinhos não.

HQ

Série Postal + Know-Haole + Diego Gerlach na Feria Des.Gráfica 2018

Ei, tá em São Paulo? Tem programa pra sábado (3/11) e domingo (4/11)? Recomendo um pulo no Museu da Imagem e do Som (MIS) para a edição de 2018 da Feira Des.Gráfica. O evento vai marcar o lançamento oficial da sexta edição da Série Postal 2018, de autoria do quadrinista Diego Gerlach. Os postais poderão ser retirados de graça na mesa do artista. Aliás, novidade boa: o Diego Gerlach estará relançando no evento os três primeiros números da série Know-Haole, revista do artista na qual foram apresentados todos os personagens presentes na última edição da coleção de 2018 da Série Postal. Tremenda oportunidade, viu? A Know-Haole é das empreitadas que mais curto nos quadrinhos nacionais e pela qual fico cada vez mais ansioso para os próximos números.

A Des.Gráfica rola sábado de 12h às 20h e domingo das 12h às 19h. Você confere a programação completa do evento e os expositores que estarão presentes na página da feira, clicando aqui. Enquanto isso, deixo a seguir uma prévia dessa edições #1, #2 e #3 do Know-Haole que o Diego Gerlach me enviou, junto com um textinho falando sobre esses relançamentos, além do resumo de cada número. Saca só:

“Na Des.Gráfica 2018, a Vibe Tronxa Comix vai ter pela primeira vez à disposição todo o catálogo de seu carro-chefe, o zine Know-Haole. KH é um zine de quadrinhos criado por Diego Gerlach em 2012 e publicado até os dias atuais, e que já conta com 8 edições.

Após a terceira edição, a série entrou num hiato, sendo que o quarto número retornaria só dois anos depois, com o thriller político Eduardo Cunha é o Bandido da Luz Vermelha, que obteve relativo sucesso entre crítica e leitores e reacendeu o interesse em torno do título.

Com esse modesto sucesso, leitores da VTC passaram a demandar as ‘lendárias’ três primeiras edições – que, verdade seja dita, não venderam tanto assim em sua época… Mas, que de todo modo, acabam de ser reimpresssas!”

Know-Haole #1 (R$ 5) – Publicado originalmente em 2012. Tiras, gags e histórias curtas foram o disparo inicial. Inclui ‘Vae victis, panaca!’, primeira HQ na série a ‘se inspirar’ em quadrinhos já existentes, utilizando em sua maioria desenhos copiados de uma HQ de Jambo e Ruivão.

Know-Haole #2 (R$ 10) – Originalmente publicada em 2013. Primeira edição a utilizar o modelo que se tornou padrão no título, onde uma história (autocontida) ocupa toda a publicação. Essa HQ foi criada em cerca de uma semana, após Gerlach perder as primeiras páginas do que seria a segunda edição num assalto. Em Propriedades da Hortelã, temos a introdução de Gilso, o cãozinho maroto que rapidamente se tornou o mascote da Vibe Tronxa (além de outros personagens que apareceriam em tramas posteriores, como Tenente Deoclécio e o Mendigo Sem Nome).

Know-Haole #3 (R$ 10) – Originalmente publicada em 2013. Provavelmente a edição da série que menos circulou (até hoje tinham sido feitas apenas cerca de 60 cópias). Essa foi a única edição a ser ‘recauchutada’ para republicação, com novas retículas e um acabamento gráfico mais efetivo do que a versão original (a história permanece intocada). Em Negativado temos mais uma aventura de Gilso, dessa vez acuado pela morte e às voltas com novos personagens, como Cadelão, o Bonde do Ágio e a vingativa cabeça de Yukio Mishima.

HQ

Cavalo de Teta: confira a capa e uma prévia do segundo número da revista editada por João Pinheiro

Maravilha essa capa do segundo número da Cavalo de Teta, hein? O quadrinista João Pinheiro prometeu pra novembro o lançamento de mais uma edição da coletânea capitaneada por ele, com quadrinhos de MZK, Diego Gerlach, Schiavon e Evandro Alves – dessa vez com uma participação especial do escritor Ferréz. Enquanto no primeiro número, publicado no ano passado, a proposta era ser um “gibi na medida pro nosso atual Brasil Fazendão”, a promessa do editor pra essa segunda edição é que ela está “maravilhosamente apocalíptica – igualzinho na vida real”. Tô curioso aqui, viu? Saca só essa prévia divulgada lá no site do João Pinheiro:

Entrevistas / HQ

A Zica está de volta: “Não estamos aqui para publicar historinhas sobre crises existenciais românticas, estamos aqui pra zoar o plantão”

A revista A Zica está de volta. O quinto número da publicação editada por Luiz Navarro, Marcos Batista e João Perdigão será lançado no sábado (22/9), na galeria de arte Mama/Cadela, em Belo Horizonte – você confere outras informações sobre a festa na página do evento no Facebook. Com capa assinada pelo quadrinista Diego Gerlach, o mais novo número da publicação iniciada em 2010 teve como tema ‘vermes, astronautas e América Latina’ e contou com a participação de 64 artistas.

“‘América Latina’ foi uma escolha política mesmo, para trazermos o olhar para a nossa própria identidade cultural”, conta Luiz Navarro. Em entrevista ao blog, Batista, Navarro e Perdigão falam sobre o processo de edição desse quinto número, tratam dos desafios de dar vida a uma obra independente de mais de 132 páginas via financiamento coletivo, cogitam o futuro da publicação e contam como o caos político brasileiro e dos demais países latino-americanos pesou no desenvolvimento da obra.

Reproduzo a seguir os nomes de todos os envolvidos no projeto e logo depois a íntegra da minha conversa com os editores. Ó: Adão Iturrasgarai, Vinicius Capo (AKOP), Allan Sieber, Annima de Mattos Aruan Emiele, Bernardo Pádua, Breno Ferreira, Carolina Deptulski, Onofre, Warley Desali, Diego Gerlach, Emilly Bonna, Emmanuel Alcala, Estan de Lau, Fabio Cobiaco, Fernando Torelly, Flávio Duarte, Froiid, Gabriel Cerqueira, Gabriel Nascimento, Guilherme Boschi, Guto Respi, Henrique Mourão, Henrique Oliveira, Ian Indiano, Joao Henrique Belo, José Lucas Queiroz, Rafael la Cruz, Larissa Reis, Ana Luiza Lacerda, LOR, Lucas Borges, Luciano Irrthum, Luiz Navarro, Luiza Maximo, Luiza Nasser, Marco Vieira, Marcos Batista, Maria Trika, Mariana Moyses, Matheus Lopes, Maurício Falleiro, Morgana Azul, Narowe, Nava (Latino Toons), Nicole Wafer, Osvaldo Reis, Carlos Panhoca, Paola Rodrigues, Pedro Vó, Matheus Frasan Praia Podre, Ricardo Coimbra, Rodrigo Terra Vargas, Rogério Rodrigues, Rosana Oliveira, Luís Teixeira, Estêvão Vieira, Tenesmo, Thiago Souza, Toni Cesar Graton, Victor Stephan, Xablutz, Yalaki De Sucre, Benson Chin, Estevam Gomes, Hugo de Paula, Batista, Warley Desali, Aline Lemos, Dayane Lima, Binho Barreto e Diego Sanchez.

“A Zica um trampo gigante, um rabo de foguete que a gente topa pegar porque não é só de nós três, é literalmente coletivo”

Trabalho de Adão Iturrusgarai para A Zica #5

Vocês lembram do momento em que decidiram produzir esse número novo da Zica? Antes de vocês darem início à campanha de financiamento coletivo houve algum instante específico em que você decidiram que ela iria acontecer?

Batista: Em 2016, na primeira edição da feira Des.gráfica, o Gerlach veio conversar comigo sobre a Zica, falando como era massa e perguntando quando sairia a próxima. Eu fiquei sem graça de falar para ele que a revista tinha acabado, que fazer a número quatro esmigalhou nossos nervos e que a gente não pensava em fazer mais revista, hehe. E então, além dele mais algumas pessoas vieram me perguntar sobre a revista e a contar casos de carinho com ela, aí percebi que a Zica não era nossa, era de muito mais gente, e de volta a Belo Horizonte, se não me engano reavivei o grupo de chat da Zica, ‘Ei galera, acho que temos que fazer mais algumas Zica…’.

João: Corroborando com o que o Batista falou, realmente, depois da #4, parecia que acabou mesmo, foi bem desgastante – mas olha, isto acontecia desde a #2 (2012). Início de 2017, propus aos caras de voltar, mas como nosso $ havia esgotado, o financiamento era a única forma de reavivar. Topamos, numa ideia que foi praticamente a refundação d’A Zica, pois conseguimos colocar na revista tudo que sempre sonhamos, mas tínhamos limitação financeira – agora não mais.

Luiz: A Zica é assim, é um trampo gigante, um rabo de foguete que a gente topa pegar porque não é só de nós três, é literalmente coletivo, como o Batista falou. Depois da última edição, talvez eu fosse o mais relutante dos três em publicar uma nova edição. Daí Batista e João chamaram pra conversar, sentamos numa mesa e eles colocaram a ideia em pauta, já tava rolando essa possibilidade de um financiamento coletivo. Combinamos uma nova configuração de trabalho pra não ficarmos batendo cabeça em cada detalhe, o que definitivamente é inviável. Isso foi muito importante. Daí pra frente assumimos o risco mais uma vez e mergulhamos nessa loucura de produção que é fazer a Zica. E a campanha, logo que começou, nos trouxe de novo o prazer todo de envolver um monte de gente além de nós mesmos pra fazer a revista acontecer. Isso é muito bom e muito gratificante.

“‘América Latina’ foi uma escolha política mesmo, para trazermos o olhar para a nossa própria identidade cultural”

Trabalho de Aruan Emile para A Zica #5

Porque Vermes, Atronautas e América Latina? Aliás, como vocês determinam os temas de cada edição?

Batista: Não sei responder porque, mas de uma lista de temas que cada uma monta formamos uma maior, e vamos debatendo. Vermes creio que foi o único consenso que saiu dessa lista, e meu voto nele foi pela molecagem que ele carrega em si, o terror, o nojo, a surpresa, o gore que ele podia representar. Astronauta fica na conta do Luiz – nessa edição decidimos nomeá-lo editor chefe, e com isso ele ganhou direito a escolher um tema, e foi esse. E América Latina surgiu após termos definido por Michael Jackson, mas deu uma semana e os outros editores não sentiam firmeza nele. A troca foi bem-vinda pois a Zica sempre tem um tema que é a tônica do seu ano de edição (bullying em 2012, vandalismo em 2013, Rússia em 2015,…), e América Latina está em mais uma de suas notórias ebulições políticas.

João: Quanto aos temas, tem que ter uma liga ilustrativa pra que vire desenho, e que seja inspiradora criticamente ou zoeira, além do fator nonsense. Todo ano tem algum tema mais universal que os outros. Desde a #0: morte, putaria, apocalipse, trevas, Rússia e agora acho que seja América Latina. Só pra completar aqui: bullying foi o tema que achei mais mal-escolhido até hoje, já que a tônica para escolher trabalhos é originalidade e ironia, com bullying acho bem difícil fazer piada sem soar babaca – poderia ter sido meme ou coisa assim, seria mais inspirador. Além do tema universal, sempre tem um tema que não tem nada a ver com os outros, algo pra desconstruir – na #0 classe média, na #1 propaganda, na #2 a tentativa com ‘bullying’, só na #3 que foi tudo darkzera (gosto desse número por ele ser uma ‘cartilha educativa’ de 2013), na #4, dinossauro, e agora astronautas.

Luiz: O momento de escolher os temas é um dos mais divertidos da Zica. Depois da listinha que cada um faz, a gente senta só os três, um olha pra cara do outro, dá um trago numa cerveja ou num cigarro e fala: ‘e aí, qual vai ser?’. A gente se diverte, zoa pra caramba nessa tal reunião. Fala um monte de merda. Sai um monte de coisa que a princípio parece genial, daí passa um tempo alguém fala: ‘peraí galera, cês já pensaram que é bem possível que com esse tema vai ter maluco que vai desenhar um monte de besteira assim ou assado?’. Daí tem que pensar em outro. Foi assim com o Michael Jackson, que era pra ser um dos temas dessa última edição. É um tema incrível, mas corria grande risco de cair num lugar comum de caricaturas clichê. Claro que a maioria dos artistas que manda trampo pra Zica é bem criativo e vai além do óbvio. Mas a gente pensa nessas possibilidades e tenta evitar essas armadilhas. Sobre os temas que definimos, na minha opinião a escolha foi pelo seguinte: ‘vermes’ tem esse tom meio zuero e nojentinho; ‘astronautas’ por todo o potencial narrativo e mitológico que ele traz, além de um potencial iconográfico e ilustrativo muito bom também. E ‘América Latina’ foi uma escolha política mesmo, para trazermos o olhar para a nossa própria identidade cultural. Na real, é uma loucura pensar que essas três palavrinhas que saem dessa reunião vão nortear o nosso trabalho e nossa vida nos próximos muitos meses. E mais loucura ainda pensar em três temas e não ter a menor ideia do que vai sair disso, o que os artistas vão conseguir transformar e produzir com eles.

“Saímos do formatinho e do material convencional de gráfica e arriscamos num projeto editorial vistoso, com mais espaço para os trabalhos”

Trabalho de Narowe para A Zica #5

Eu imagino que cada número da Zica tenha suas peculiaridades em relação a edição e produção. O que houve de mais singular durante o desenvolvimento desse quinto número?

Batista: Para mim, a mudança de formato tanto da revista quanto do modo de trabalho quebrou alguns paradigmas e redefiniu uma nova forma de existirmos. Saímos do formatinho e do material convencional de gráfica e arriscamos num projeto editorial vistoso, com mais espaço para os trabalhos. Por mim, depois dessa mudança, nem sei se a próxima edição terá o mesmo tamanho, por exemplo, não sei mais se A Zica deve seguir um tamanho standard ou cada número é um número. E a forma de trabalhar, com designers responsáveis pelo projeto, e com um de nós destacado como editor-chefe, ajudou muito a ordenar o fluxo de trabalho e a agilidade nas decisões.

João: Além da ousadia do projeto, que foi o mais experimental até hoje, teve o rodízio do editor principal, que nesta edição é o Luiz. O que houve de mais singular, pra mim, além de aumentar o formato, de fazermos stickers, patch fotozine e dois posters em serigrafia foi a concepção de A Criatura, que é um projeto bem ousado que convidamos três editoras para selecionar trampos de minas que ainda tá em andamento. Já fizemos uma coisa ou outra extra A Zica antes, mas só coisa de tiragem pequena. Finalmente uma produção no nosso selo com uma tiragem de circulação razoável e com outra editoria que a gente provocou, que são a Ing Lee (uma quadrinista fodona), a Maria Trilka (que produz colagens inventivas e estuda cinema), e a Clarice G. Lacerda, que é uma editora experiente com larga experiência no mundo das artes.

Luiz: Como João e Batista disseram, essa foi a edição mais ousada da revista até agora. Sem dúvida nenhuma, a gente deu um passo além. Pegamos várias ideias e desejos que já tínhamos e falamos: ‘é agora!’. Talvez o principal, na minha opinião, tenha sido o fato de decidirmos investir num projeto gráfico bem elaborado. Pra isso, precisamos sair do ‘do-it-yourself’ que manteve a Zica lindamente em edições anteriores e contratamos dois designers, Matheus Ferreira e Bruno Rios, pra nos ajudar nessa empreitada. A gente deu uma certa autonomia para eles sugerirem e criarem de acordo com aquilo que eles achavam que podia ficar legal. E essa colaboração deles fez toda a diferença.

Trabalho de Praia Podre para A Zica #5

Quais eram as principais expectativas que vocês tinham em relação a esse número e o que mais surpreendeu vocês nessa edição?

Batista: Minha principal expectativa era em relação a atender o Catarse. Não é fácil fazer pré-campanha, campanha e pós-campanha. Estamos no pós-campanha e ainda temos muito trabalho pela frente, e isso ainda me causa borboletas no estômago. E o que mais me surpreendeu é o apoio recebido por quem contribuiu no Catarse ou de outras formas, como enviando trabalhos para vendermos e usarmos o dinheiro na campanha. De fato, a Zica é do povo!

João: Conseguir captar um trabalho com um valor acima da média no Catarse foi uma façanha. A nossa expectativa de apoios iniciais foi abaixo do esperado. A partir desta constatação levantamos de outra forma, vindo pra realidade e o que mais me surpreendeu nesta campanha foi a mobilização que fizemos off-line, com eventos de arte no mundo real, que deu super certo e ajudou a alavancar o financiamento coletivo de uma forma que não imaginávamos.Torço para que a publicação ainda me surpreenda positivamente a partir de quando estiver circulando entre seus leitores.

Luiz: O financiamento coletivo foi muito emocionante e, apesar da tensão que é normal que rolasse, eu pessoalmente achei bem divertido (vão me cobrar vacilo por dizer isso! hahaha!). Mas além do financiamento, a gente tinha a expectativa de que essa fosse a edição mais especial já produzida. E sem dúvida alcançamos esse objetivo, a revista tá incrível de bonita. Essa dinâmica de abrir chamada e receber trabalho é muito divertida por isso também: sempre nos surpreendemos quando recebemos trabalhos fodas de vários artistas fodas, alguns menos e outros mais conhecidos. Mas, pra mim, a ilustra do Gerlach (que foi convidado) na capa, foi a mais impactante. É impressionante a capacidade que ele tem de construir uma narrativa num único quadro, cheio de detalhes e referências.

Trabalho de Benson Chin para A Zica #5

Uma das propostas da Zica é também servir de vitrine para novos talentos. Nesse novo número, quais novos talentos chamaram mais atenção de vocês?

Batista: Vou falar da Luiza Maximo, que não sei se é bem um novo talento, mas é a primeira vez que ela pinta na revista e tive oportunidade de ver suas aquarelas e sai com lágrimas nos olhos. Tem o Maurício Falleiros, que para mim é a maior aquisição do humor gráfico nacional dos últimos dois anos, e o Allan Sieber, que não é um talento novo mas tem mostrado uma nova face de sua produção como pintor, e nos mandou uma pintura que me deixou arrepiado, e que eu acho a mais bonita das que tive oportunidade de ver.

João: Quanto ao quesito revelação, também gostei muito do quadrinho da Luiza Reis e do Aruan Mattos (apesar de não ser uma revelação pra mim, já admirava o trabalho dele enquanto artista plástico, não sabia que ele fazia quadrinhos) e da ilustra do Toni Cesar Graton. Ah, os posters do Hugo e do Estevam também ficaram sensacionais – já que fora de BH eles são revelação também, pode falar.

Luiz: Essa pergunta é muito boa e tem muito a ver com a anterior, porque uma das melhores coisas da Zica, para nós e acredito que também para quem a lê, é descobrir novos artistas muito fodas. Nessa edição, talvez eu posso citar o Toni Cesar Graton ou a Paola Rodrigues.

“No número zero colocamos o preço na capa, era R$5, coisa que posteriormente nos arrependemos, coisa horrível colocar preço, a gente faz é arte e não $, porra”

Trabalho de Toni Cesar Graton para A Zica #5

De 2010 pra cá, do lançamento do número zero da revista até hoje, quais vocês consideram as principais transformações desse cenário de quadrinhos/publicações independentes no qual A Zica está inserido? Como essas mudanças se fazem presentes na revista?

Batista: Bem, acho que a Zica é a única revista que continua sendo publicada desde aquele tempo. Hoje em dia os autores e editores têm investido em trabalhos maiores (hqs e novelas gráficas), coletâneas de trabalho de um autor só ou publicações de coletivos, mas que dificilmente passa de 8 autores. Isso muito graças ao incentivo dos financiamentos coletivos ou pequenas editoras que se formaram. E no momento esse formato ‘revista grande com um tanto de trabalhos’ está sumido. Tínhamos a Quase, Tarja Preta, SAMBA, Grafitti 76%, Prego e algumas outras, que hoje ou estão extintas ou estão adormecidas por seus editores estarem tratando de outros trampos (mas uma hora voltam a publicar, dedos cruzados). Então acho legal numa feira ver que vários autores têm seus próprios livros, mas poucos têm uma publicação colaborativa com mais de 50 autores com uma grande mostra de estilos e linguagens. E que estamos ai fazendo esse tipo de publicação.

João: A transformação veio de centenas ou milhares de talentos revelados no cenário independente desde então e obviamente do mercado que amadureceu e ficou mais plural, aberto a novas experiências. A análise do Batista sobre publicações alternativas tá ótima, a única publicação mais substancial que apareceu na nossa pegada nesses últimos anos foi a Pé de Cabra, cujo editor, Panhoca foi nosso colaborador e apoiador – dos mais empolgados inclusive. Voltando no tempo, pra ilustrar como o mercado era tacanho em 2010, não havia o costume de vender zine (a maioria era distribuição 0800), no número zero colocamos o preço na capa, era $5 – coisa que posteriormente nos arrependemos, coisa horrível colocar preço, a gente faz é arte e não $ porra. As mudanças presentes na revista são através do sangue novo dos artistas que conhecemos através dela e de novos produtos que produzimos, como o patch desenhado pelo Paulo Marcelo Oz, mas se for olhar, sticker, por exemplo, é algo que eu e o Luiz fazíamos/conhecíamos desde 2005 e a gente gosta muito desta cultura de rua, de onde viemos, nunca nos desligamos dela – inclusive o Luiz fez um livro contando o histórico disto aqui em BH, o Pele de Propaganda: Lambes e Stickers em Belo Horizonte [2000-2010], que inclusive voltará a ser vendido no lançamento d’A Zica #5 – momento jabá.

Luiz: Obrigado, João, pelo jabá! Hahahah. E concordo com o que disseram. Quando começamos, o cenário era bem diferente. As revistas primas da Zica que o Batista citou ainda eram bem vivas e nossas maiores referências. Rolava ainda, naquela época, um tesão em se fazer revistas colaborativas de quadrinhos de humor hardcore. Depois a galera deu vazão a outros projetos, o que é normal. A cena de feiras de publicações também mudou muito! Antes havia uma ou outra feira ou festival. Agora rola um calendário com dezenas ao longo do ano no país inteiro. Mas publicações com a proposta como a da Zica já não são tão comuns.

“Não estamos aqui para publicar historinhas sobre crises existenciais românticas, estamos aqui pra zoar o plantão”

Trabalho de Victor Stephan para A Zica #5

Esse quinto número d’A Zica tá saindo às vésperas das eleições de 2018, em meio a um contexto de conservadorismo crescente e crise aflorada. Qual vocês consideram ser o papel de uma publicação independente, com ares subversivos, como A Zica, dentro desse cenário?

Batista: Nosso papel é continuar publicando a revista, ato que por si só é uma resposta a esses tempos. Desde o codex até a impressão digital, quem escreve, desenha, imprime e publica sempre é alvo de crises políticas. Não passamos por nada de novo. Imprimir e editar o que se vive em seu tempo é o grande barato. Deixar o registro das crises, e documentar os erros e acertos de nossos tempos, creio ser a parte mais importante do nosso papel. A gente não responde ao presente, a gente é uma caixa de areia para artistas e leitores pensarem o futuro.

João: Olha, a gente mudou o tema de Michael Jackson para América Latina durante este contexto, para dar vazão a trabalhos politizados, mas não apenas. Isto não quer dizer levantar bandeira e pronto, já que material panfletário/partidário não é nossa onda. Mas ser politizado chega a ser necessário neste momento em que afirmar que a terra não é plana é política, que tristeza né? Tem até um trabalho que publicamos do Maurício Falleiros com a frase ‘Onda conservadora invade América Latina’ que ilustra bem a pergunta, ou seja: ‘This is America…Latina também’. Nosso papel é editar, fazer a revista e pronto, mas não uma coisa que você lê agora e só entende agora, não é nosso interesse, a gente pensa em publicar algo que se for lido daqui 10, 20, 50 anos, a pessoa vai entender. Inclusive, tem uma coisa sobre a criação d’A Zica que nunca falamos em entrevista, nem é nada definitivo, mas A Zica foi criada depois de já termos passado por algumas decepções institucionais e a ideia era que a publicação sempre fosse feita autonomamente. Nunca nos inscrevemos em Lei de Incentivo (até porque, não queremos camisa de força, mas isto também pode mudar, não somos quadrados, mas nunca foi a tônica, quando alguém propuser isto, vou ser advogado do diabo). Engraçado, agora com a chegada galopante do liberalismo sem freio e a eminente ameaça de extinção deste tipo de patrocínio com o abandono de políticas culturais, dá até vontade de ser subversivo de verdade.

Luiz: Concordo com praticamente tudo o que João e Batista disseram, mas acho importante sermos mais explícitos nesse ponto. A Zica é uma publicação que tem uma intenção e uma força política, sim. Isso é muito importante e temos que saber reconhecer. Dada a situação crítica da política institucional e do clima do país, com revisionismos de fatos históricos e de uma força cada vez maior que o reacionarismo e o fascismo ganham no Brasil, publicar uma revista com ‘ares subversivos’, como você disse, é uma necessidade. É claro que fugimos de panfletagem ideológica, mas um trabalho artístico não precisa ser panfletário para ser político. A Zica nasceu para ser provocativa mesmo. Para ser um contraponto a caretice, a pensamentos conservadores, inclusive no mundinho das artes gráficas. Não estamos aqui para publicar historinhas sobre crises existenciais românticas, estamos aqui pra zoar o plantão. E também pra provocar a reflexão nos artistas, para tirá-los de uma zona de conforto e de repente se colocarem pra pensar no lugar onde vivem e o que vivem, sobre a sua própria realidade no mundo, e não apenas no seu umbigo.

Qual o futuro da Zica? Vocês já estão cogitando um sexto número?

Batista: O futuro da Zica é uma briga eterna entre seus editores sendo mediada por um carinho enorme do público. Essa relação é boa, tem funcionado até aqui e seguirá pelas edições 6, 7, 8 e tantas outras que virão, no formato que vierem.

João: Só espero que tenhamos bala na agulha pra continuar. Assim como desejo que o Batista seja o próximo editor, espero que eu também tenha espaço pra ser, completando o rodízio dos editores em novos formatos.

Luiz É isso aí! E que sejamos cada vez mais ousados nas nossas propostas, com cada vez mais fôlego e paz de espírito para encarar a produção e que pelo menos ganhemos algum troquinho!

A capa de Diego Gerlach para A Zica #5

HQ

Série Postal 2018: a HQ produzida por Diego Gerlach para a coleção

Aqui está a arte de Diego Gerlach para o quinto e último número da Série Postal 2018. A HQ foi batizada pelo quadrinista com o título Eu Espio Você, Você Me Espia e está ambientada dentro do Gilsoverso, universo povoado pelos personagens do autor com os protagonistas do selo Vibe Tronxa Comix e da série Know-Haole. O quadrinho começará a ser distribuído de graça nos próximos dias em lojas especializadas de São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Goiânia – você confere os pontos de distribuição no tumblr da Série Postal e na fanpage do projeto. O lançamento da HQ ocorrerá em evento em São Paulo, com a presença do autor, mas ainda sem data confirmada.

A Série Postal 2018 teve sua primeira edição lançada no mês de março, com um trabalho do quadrinista Alexandre Lourenço. O segundo número foi publicado em abril, com uma HQ da artista Raquel Vitorelo. A terceira edição, batizado de Ausência de Si, é da autora Cecília Silveira. O quarto número foi lançado no mês de junho, com arte da quadrinista Deborah Salles. As 12 edições prévias do projeto foram assinadas por Mariana Paraizo, Jão, Felipe Nunes, Daniel Lopes, Paula Puiupo, Manzanna, Felipe Portugal, Bárbara Malagoli, Bianca Pinheiro, Taís Koshino, Pedro Cobiaco e Pedro Franz.