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30 Dias de Noite, Emily Carroll, Charles Burns, Fabien Vehlmann + Kerascoët e HQs nacionais: os próximos lançamentos da DarkSide Books em 2019

Os editores da DarkSide Books planejam dar continuidade à expansão da linha de quadrinhos da editora em 2019. O selo DarkSide Graphic Novels foi iniciado em 2017, com títulos como Meu Amigo Dahmer e Black Hole, ganhou aquisições de peso em 2018 com o lançamento de obras internacionais como Black Dog, de Dave McKean, e Refugiados, de Kate Evans. No ano passado saíram os primeiros quadrinhos nacionais, com Samurai Shirô, de Danilo Beyruth, e Imaginário Coletivo, de Wesley Rodrigues.

Em papo por email com o blog, o editor Bruno Dorigatti promete títulos impactantes para os próximos meses. Em seguida ao lançamento do mangá A Menina do Outro Lado, já chegou em algumas livrarias a coletânea de HQs de horror Floresta dos Medos, de Emily Carroll. O próximo lançamento será Big Baby, com algumas das primeiras HQs de Charles Burns. Depois virão Jolies Ténèbres (ainda sem título em português), trabalho de Fabien Vehlmann e Kerascoët presente em várias listas de melhores do ano em 2014, e uma edição comemorativa de 30 Dias de Noite, de Steve Niles e Ben Templesmith.

“Temos alguns projetos de HQs nacionais em desenvolvimento, ainda para 2019, mas que não podemos comentar agora”, adianta o editor. Na conversa a seguir, Dorigatti também fala sobre a repercussão dos lançamentos da linha de quadrinhos da DarkSide no ano passado, as principais lições que a editora tirou da crise das grandes livrarias e o retrocesso político pelo qual passa a sociedade brasileira com o governo de Jair Bolsonaro. Papo massa, saca só:

Páginas de Floresta dos Medos, HQ de Emily Carroll publicada pela DarkSide Books em 2019

Você pode, por favor, adiantar e comentar alguns dos lançamentos da editora para 2019?

Começamos o ano publicando nosso segundo mangá, A Menina do Outro Lado, do Nagabe; em breve já sai o segundo volume. Publicamos também o aguardado Floresta dos Medos, de Emily Carroll e suas histórias góticas; Francis, da italiana Louptyn, fantasia que dialoga com a produção japonesa; e Big Baby, compilação de histórias curtas do personagem do título, de Charles Burns. No prelo, temos Jolies Ténèbres (título a definir), com roteiro de Fabien Vehlmann e arte de Kerascoët. Ainda no semestre, saem as HQs da nossa parceria com a Image Comics; e uma edição comemorativa do clássico 30 Dias de Noite, de Steve Niles e Bem Templesmith.

E, no momento, temos alguns projetos de HQs nacionais em desenvolvimento, ainda para 2019, mas que não podemos comentar agora.

A capa de Big Baby, HQ do quadrinista Charles Burns que será publicada pela DarkSide Books em 2019

Como foi o retorno da editora em relação à linha de quadrinhos em 2018? Entre os meus títulos preferidos publicados por vocês ano passado estão Black Dog e Refugiados, que tipo de resposta vocês tiveram em relação a esses trabalhos?

O retorno dos leitores tem sido surpreendente. Nossos leitores e fãs que não eram leitores de HQs estão mergulhando nelas e compreendendo que o gênero hoje tem produzido muita coisa que foge dos padrões já estabelecidos. E os leitores de HQs seguem pedindo títulos já consagrados lá fora e que não haviam tido uma oportunidade por aqui, como Meu Amigo Dahmer, Creepshow, N. e Wytches. Ou estavam esgotados, caso de Black Hole e O Corvo.

Clássicos como a adaptação de Paraíso Perdido, de John Milton, pelo artista espanhol Pablo Auladell foi uma grata surpresa, com uma reação bastante empolgada dos leitores. E publicar a adaptação oficial de Yellow Submarine nos 50 anos da animação é algo que muito nos orgulha.

Black Dog tem maravilhado os leitores que conheciam o trabalho de Dave McKean sobretudo por conta de Sandman. Vimos a HQ mencionada em várias listas de melhores do ano dos blogs e canais dedicados ao gênero.

Refugiados é uma excelente obra de jornalismo em quadrinhos da britânica Kate Evans, e consideramos fundamental e cada vez mais necessário abordarmos questões urgentes, como a imigração, a crise dos refugiados, o aumento da xenofobia e do racismo.

Quadros de Black Dog, HQ de Dave McKean publicada pela DarkSide Books em 2018

Em 2018 a DarkSide investiu pela primeira vez em HQs nacionais. Qual balanço vocês fazem dessa experiência? Há planos para outras HQs de autores brasileiros para 2019?

Sempre foi o nosso desejo, e enfim conseguimos colocar nas ruas duas HQs bem diferentes, mas igualmente desafiadoras. Imaginário Coletivo é um projeto de alguns anos do Wesley Rodrigues, um dos grandes animadores brasileiros, uma fantasia surreal da qual éramos grandes fãs aqui na editora. Já com Samurai Shirô, é incrível ver o Danilo Beyruth se debruçar sobre uma história contemporânea, focada na cultural oriental e sua relação com a cidade de São Paulo.

A ideia do selo Graphic Novel é que ele continue a espelhar e a dialogar com as demais linhas editorias do nosso catálogo. Como disse acima, teremos novidades e mais autores nacionais em 2019.

Página de Imaginário Coletivo, HQ de Wesley Rodrigues publicada pela DarkSide Books em 2018

Quais as principais lições que a DarkSide tirou da crise das grandes livrarias que aflorou em 2018? Como a editora pretende lidar com essa crise em 2019?

O ponto pacífico, por ora, é que o modelo de consignação não pode mais ser o modelo de negócios do mercado editorial. Estamos sempre procurando abrir novas formas e novas parcerias para levar os nossos títulos para mais leitores e mais regiões do país. No final de 2018, inauguramos a nossa
nova casa, darksidebooks.com, com vendas diretas aos leitores, a Experiência Dark com produtos exclusivos (pôsteres, marcadores, luvas, sketchbooks) que acompanham alguns de nossos títulos, além do Dark Blog, que publica semanalmente novidades sobre o universo dos nossos livros.

A saída é ampliar o contato direto com os leitores, tanto de maneira on-line – apresentando e instigando os leitores a conhecer e se interessar pelos nossos lançamentos e também pelo nosso catálogo –, como participando de eventos e fazendo lançamentos, bate-papos, convescotes e outras formas de encontra e dialogar com todos aqueles que acreditam no poder das boas histórias.

Como a editora está lidando com a chegada ao poder de um governo de
extrema-direita que acabou com o Ministério da Cultura e que promete cortes em políticas públicas e sociais de fomento às artes?


O novo governo não se furta de nos decepcionar diariamente. Sabíamos que seria terrível, mas mesmo os mais céticos ainda tinham uma ponta de esperança de que não poderia ser tão medíocre, desestruturado e sem uma agenda definida. O trio de ministros ideológicos – formado pelo olavismo que sitiou e ocupou os Ministérios da Educação, das Relações Exteriores e do Meio Ambiente –, além do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, tem sido o mais preocupante.

Não só abriram mão de avanços recentes nas respectivas áreas, como têm caminhado a passos céleres rumo ao passado, sem pessoas minimamente capazes de compreender as complexidades do planeta em 2019.

O caminho é publicar obras que levem o leitor brasileiro ao diálogo e ao
questionamento. A literatura nos mostra outros pontos de vista, nos ajuda a caminhar e a encontrar novas saídas para questões urgentes e coletivas. Os temas contemporâneos sempre estiveram em nosso radar e seguimos publicando obras que certamente podem nos ajudar a encontrar saídas diante da tragédia na qual nos encontramos.

A capa de Floresta dos Medos, HQ de Emily Carroll publicada pela DarkSide Books em 2019
Entrevistas / HQ

Papo com Kate Evans, a autora de Refugiados – A Última Fronteira: “Quando as pessoas se desesperam, o extremismo floresce”

Segundo um censo da organização não governamental britânica Help Refugee, o campo de refugiados e migrantes da cidade francesa de Calais chegou a abrigar 8,143 pessoas com o objetivo de chegar ao Reino Unido via o porto do município francês ou pelo trajeto do túnel que percorre o Canal da Mancha. Desmantelado em outubro de 2016 e também conhecido como Selva de Calais, o campo é até hoje um dos principais símbolos da crise migratória mundial e foi classificado pela ONG internacional Human Rights Watch como “o inferno na terra”, por conta das condições precárias oferecidas aos seus moradores e dos abusos constantes por parte das autoridades francesas contra a população vivendo no local.

A quadrinista britânica Kate Evans narra em Refugiados – A Última Fronteira suas experiências como voluntária em Calais ao longo de três visitas feitas por ela ao campo entre outubro de 2015 e fevereiro de 2016. “Eu precisava mostrar às pessoas o que eu tinha visto”, conta a artista em entrevista ao blog sobre seu trabalho mais recente publicado em português – em 2017, a WMF Martins Fontes publicou Rosa Vermelha, projeto prévio da autora. A HQ recém-lançada no Brasil pela Darkside Books apresenta relatos colhidos por Evans durante suas idas ao campo e apresenta testemunhos de habitantes do local sobre seus dramas. As fontes da artista relatam as vidas que deixaram para trás e seus sonhos com uma possível nova vida em território britânico.

“O projeto neoliberal falhou e quando as pessoas se desesperam, o extremismo floresce”, diz Evans sobre suas interpretações em relação ao que teria dado errado na humanidade a ponto do surgimento de um ambiente como a Selva de Calais. Uma das vilãs do livro é inclusive a líder da extrema-direita francesa Marine Le Pen – aquela mesmo que criticou o candidato fascista à presidência brasileira Jair Bolsonaro, por dizer coisas “extremamente desagradáveis”. Refugiados é um livro necessário e didático. Um alerta em tempos de conservadorismo aflorado, de pouca empatia e de humanismo limitado. A seguir, papo com Kate Evans:

“Eu precisava mostrar às pessoas o que eu tinha visto”

A quadrinista Kate Evans conversando com alguns dos refugiados do campo em Calais

Você lembra do momento em que teve a ideia de criar Refugiados?

Eu visitei Calais em outubro de 2015. Soube que iria fazer o quadrinho no minuto que eu visitei. Quando voltei para casa, tive que fazer. Eu precisava mostrar às pessoas o que eu tinha visto. Isso se tornou um post no meu blog, que depois se tornou o primeiro capítulo de Refugiados. Voltei ao acampamento mais duas vezes e percebi que tinha o suficiente para um livro.

Seu livro está sendo publicado no Brasil em um contexto de preconceitos aflorados contra minorias. Qual mensagem você espera que seus leitores tirem desse trabalho?

Que somos todos pessoas, que somos todos habitantes do mesmo planeta. Que não temos nada a temer, e temos tudo a ganhar com compaixão e cooperação. Que a construção de muros aprisiona todos nós.

A líder da extrema-direita francesa Marine Le Pen em quadro de Refugiados – A Última Fronteira

Sobre esses mesmos preconceitos e essa crescente falta de empatia, o que você acha que está acontecendo com a humanidade? E por que agora?

O projeto neoliberal falhou. As mudanças climáticas estão começando a tornar partes do planeta inabitáveis. A riqueza está subindo em espiral para os bolsos do 1%. Quando as pessoas se desesperam, o extremismo floresce. Nas palavras de Rosa Luxemburgo, nos deparamos com uma escolha simples: ‘socialismo ou barbárie’.

Uma sequência de Refugiados – A Última Fronteira

Você é otimista em relação ao nosso futuro?

Eu estou sempre otimista. Tudo é político. Cada pequeno ato de bondade e união. Tudo conta.

Você considera seu trabalho em Refugiados como jornalismo de quadrinhos?

É reportagem em quadrinhos, que é um formato já consagrado. Eu não me considero jornalista, no entanto. Eu me considero um ativista, e minha primeira responsabilidade em uma situação de crise é tentar aliviá-la, participar dela, não ficar parado tentando ‘encontrar a história’. Jornalistas aspiram à objetividade, enquanto eu uso uma abordagem novelística para colocar em camadas eventos reais com representações emotivas, a fim de evocar sentimentos específicos no leitor. Eu também moldo o ritmo da narrativa ao longo do livro em um arco emocional mais amplo – conduzo o leitor em uma jornada. Então, nesses dois aspectos, meu trabalho está mais próximo de ser uma graphic novel do que um relato jornalístico. No entanto, é tudo verdade! Eu não inventei nada!

Uma página de Refugiados – A Última Fronteira falando sobre as bordadeiras da cidade de Calais

Você poderia me contar um pouco sobre como você definiu seu estilo em Refugiados? Seu outro livro publicado aqui no Brasil, Rosa Vermelha, apresenta uma arte muito diferente desse álbum mais recente, certo?

Eu acho que ele se definiu sozinho. Uma vez que descobri que Calais era uma cidade de rendeiras, eu tinha o ‘gancho’ visual para enquadrar o trabalho. Bordas de renda branca significavam que eu precisava de páginas coloridas e um efeito de colagem. Eu provavelmente sou mais inspirada pelo trabalho da Lynda Barry em One! Hundred! Demons!, bem como pelo trabalho de lápis colorido de Raymond Brigg.

Você poderia me contar um pouco sobre suas técnicas? Que tipo de material você usa?

Lápis de cor no papel. Todos os bordados eu incluí no Photoshop. Foi bom poder usar todos os meus enfeites de renda e pedaços de coisas de artesanato e em um trabalho pra valer, ao invés de coisinhas que faço para bebês com pedaços desses materiais.

“A hostilidade, o racismo e as visões reacionárias estão em ascensão, e em resposta, as pessoas sempre se levantam onde podem protestar, proteger e ajudar”

A quadrinista Kate Evans conversando com alguns dos refugiados instalados no campo de Calais

Você tem alguma curiosidade em relação à forma como o seu trabalho será lido e interpretado em um país tão diferente do seu, como o Brasil?

Eu fico interessada em saber o que as pessoas pensarão de mim, a narradora – na verdade, uma dona de casa inglesa de meia-idade com uma vida confortável que caiu no meio de uma catástrofe. Há uma distância crítica no livro em que me apresento como uma personagem um pouco ingênua. Você pode rir de mim por ser uma pessoa branca tola e privilegiada. Eu escrevi assim de propósito.

Há um elemento de Refugiados que é universal, em que todos nós estamos vendo migração, despossessão, desespero – em toda parte a hostilidade, o racismo e as visões reacionárias estão em ascensão, e em resposta, as pessoas sempre se levantam onde podem protestar, proteger e ajudar. E há uma mensagem forte em Refugiados com a qual todos podem se identificar, o poder do amor de uma mãe por seus filhos.

A capa de Refugiados – A Última Fonteira, álbum da quadrinista Kate Evans

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Uma conversa com Wesley Rodrigues sobre a HQ Imaginário Coletivo

O Antonio Carlos da página Minhas Gibitecas gravou parte do papo que bati com o quadrinista e animador Wesley Rodrigues no sábado (4 de agosto), na loja da Ugra, durante o lançamento do álbum Imaginário Coletivo. Nesse trecho inicial da nossa conversa, o autor falou principalmente sobre a origem do projeto e algumas relações entre o universo das HQs e dos desenhos animados. O vídeo tá aqui.

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Sábado (4/8) é dia de lançamento de Imaginário Coletivo, HQ de Wesley Rodrigues e primeiro quadrinho nacional da editora DarkSide Books

Ei, tem programa pra sábado (4/8)? Estarei na loja da Ugra, aqui em São Paulo, para mediar uma conversa com o quadrinista e animador Wesley Rodrigues sobre o lançamento de Imaginário Coletivo, primeiro quadrinho solo do autor e primeira HQ nacional da editora DarkSide Books. Rodrigues é o homenageado da atual edição do festival Anima Mundi e narra nas 472 páginas de Imaginário Coletivo uma trama fantástica sobre uma vaca que sonha em ser um pássaro. Certeza de papo muito bom sobre a produção do livro e possíveis diálogos entre as linguagens dos quadrinhos e da animação.

A conversa começa às 16h e a Ugra fica na loja 116 da Galeria Ouro Velho (Rua Augusta, 1371). Você confere outras informações sobre o papo na página do evento no Facebook e vê uma prévia do trabalho de Wesley Rodrigues em Imaginário Coletivo por aqui. E aí, vamos?

HQ

Confira as prévias de Shirô, de Danilo Beyruth, e Imaginário Coletivo, de Wesley Rodrigues, as primeiras HQs nacionais da DarkSide Books

A editora DarkSide Books anunciou os títulos e os autores de suas primeiras HQs nacionais, uma assinada pelo quadrinista Danilo Beyruth e outra pelo animador e quadrinista Wesley Rodrigues. Com lançamento marcado para o dia 27 de julho, às 19h30, na Casa França Brasil, no Rio de Janeiro, Imaginário Coletivo é o primeiro quadrinho autoral de Rodrigues. Grande homenageado na atual edição do festival Anima Mundi, ele possui em seu currículo prêmios conquistados nos festivais de Gramado, Animage (PE), FICA/GO e no próprio Anima Mundi. Em 2012 ele ilustrou a HQ Luiz Gonzaga: Asa Branca – O Menino Cantador, roteirizada pelo escritor e historiador Maurício Barros de Castro.

Segundo os editores da DarkSide Books, as 492 páginas do primeiro quadrinho solo de Rodrigues são uma fábula sobre liberdade e força de vontade. “O leitor acompanha as aventuras de uma vaca que queria ser pássaro. Ou seria um pássaro que nasceu vaca? Durante essa viagem fantástica, é impossível não se perguntar: será que sou tudo aquilo que eu poderia ser?”, diz a sinopse da HQ.

Já o álbum de Danielo Beyruth é um trhiller ambientado no bairro paulistano da Liberdade, envolvendo samurais modernos, a máfia japonesa e o empenho de uma estudante para enfrentar fantasmas de seu passado para sobreviver à Yakuza. O livro tem lançamento previsto para a Bienal de Quadrinhos de Curitiba, em setembro. O álbum marca o retorno do autor às HQs autorais após um período trabalhando para o mercado norte-americano de HQs, assinando a arte de publicações da editora Marvel Comics.

Em sua primeira experiência com autores brasileiros, a DarkSide faz duas investidas interessantes e coerentes com a diversidade de cena nacional de HQs. Beyruth é um autor consagrado e maduro, com três álbuns publicados pelo selo Graphic MSP e domínio narrativo da linguagem dos quadrinhos. Enquanto isso, Wesley Rodrigues fez sua carreira em outro campo de atuação e pode trazer frescor e perspectivas novas sempre bem-vindas para um meio já caracterizado por sua agitação criativa. Aguardo os dois títulos com ansiedade. A seguir, páginas e capas de Imaginário Coletivo e Shirô:

Entrevistas / HQ

Papo com Dave McKean, o capista de Sandman e autor de Black Dog: “A arte é uma máquina de empatia, ela permite que enxerguemos pelos olhos de outras pessoas – algo importante como nunca”

O quadrinista britânico Dave McKean veio ao Brasil para o lançamento da edição nacional de Black Dog: Os Sonhos de Paul Nash. O livro foi publicado pela editora DarkSide Books e terá uma sessão de autógrafos com a presença do autor na próxima quinta-feira, dia 7 de junho, no Rio de Janeiro (você confere outras informações sobre o evento por aqui). Dias antes da chegada de McKean ao país e de sua passagem pelo Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) em Belo Horizonte, fiz uma longa entrevista por email com o autor. O papo virou matéria para o UOL, que você lê aqui.

Reproduzo a seguir a íntegra da nossa conversa. Um papo sobre Paul Nash, Black Dog, extremismos, tecnologias, super-heróis, música e arte. Saca só:

Você se lembra da primeira vez que ouviu falar do Paul Nash? Você se lembra das suas primeiras impressões sobre o trabalho dele?

Eu cresci próximo de Cookham, local no qual o Stanley Spencer viveu e pintou durante toda a vida. O Spencer estava no Slade com o Nash e um grupo importante de jovens artistas que se tornaram os primeiros modernistas britânicos. Inspirados por influências vanguardistas da Europa, eles abordavam temas referentes aos século 20 e brincavam com Expressionismo, Vorticismo, Surrealismo e todas as outras escolas que estivessem por perto, tentando dar sentido a um mundo moderno mecanizado. Então eu soube sobre o Nash quando ainda era muito jovem, e ele também nasceu perto do local onde eu cresci, por isso eu conhecia muito bem as paisagens e as árvores que ele pintava. Eu acredito que provavelmente preferia outros artistas quando era mais jovem – com trabalhos mais estilizados e obviamente com imagens mais surrealistas. Foi apenas muito tempo depois que eu comecei a apreciar o poder simbólico e a objetividade de suas pinturas da Primeira Guerra Mundial.

Como veio o convite para você criar esse livro? Você teve alguma reserva em criar um livro sobre um artista sendo você também um artista?

Eu fui procurado pela 14-18 Now Foundation de Londres para propor uma graphic novel e um projeto de performance com algum foco na Primeira Guerra Mundial. Eles encomendaram cerca de 20 obras de arte de diferentes mídias a cada ano entre 2014 e 2018 para marcar o centenário da Grande Guerra. Eu imediatamente pensei que gostaria de concentrar na experiência de um homem, nada na escala da guerra ou relacionado a aspectos geo-políticos, tecnológicos ou de batalhas, mas apenas pensar em em alguém indo àquele contexto, a primeira guerra mundial e industrial moderna. Eu achei que seria interessante ver isso tudo sob a perspectiva de uma pessoa criativa, fosse um escritor, um poeta ou um artista. O Nash me pareceu o mais poderoso desses artistas da Primeira Guerra Mundial. Não o melhor tecnicamente, também não era o mais extrovertido e nem um homem que viveu uma guerra dura, mas por algum motivo ele foi aquele que conseguiu encontrar uma linguagem para expressar a brutalidade e o niilismo não apenas da Primeira Guerra Mundial, mas de qualquer guerra – as imagens dele ainda são relevantes nos dias de hoje. E ele encontrou a própria voz nas trincheiras. Ele foi a Ypres como um simbolista romântico em crise e retornou para a Inglaterra transformando, raivoso, socialista e motivado por mostrar seus conterrâneos o que era passar por aquele inferno. Então foi uma escolha inteiramente minha e não tive qualquer preocupação em relação a representar a vida de outro artista. Foi quase o contrário, eu senti uma conexão intensa com o Nash por causa do passado da família dele e por ele ter vivido e trabalhado em lugares que eu conheço muito bem, além do desejo dele de expressar a própria consciência em seu trabalho. Nenhuma das paisagens dele eram realmente realistas, elas são sonhos ou interpretações psicológicas do mundo real mescladas com os sentimentos dele.

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“Eu sempre vou ao roteiro e pergunto o que ele deseja. Eu não tenho um estilo, eu apenos uso qualquer coisa que a história pedir”

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E foi difícil criar um diálogo entre a sua arte e a do Paul Nash? Aliás, foi desafiador criar esse diálogo e não se limitar a ser uma homenagem ao trabalho dele?

É realmente um diálogo. Eu li tudo o que poderia encontrar do Nash e fui ver vários dos trabalhos dele nas salas do acervo do Imperial War Museum. Então eu tive uma impressão bem completa do homem, como ele pensava e como escrevia para outras pessoas – ele era um pródigo escritor de cartas. Quais eram os demônios internos dele, suas ansiedades e como eles expressava todas essas coisas em seu trabalho. Já que já existia muito material biográfico e autobiográfico sobre o Nash, eu decidi estruturar o livro como uma série de sonhos. As pinturas do Nash são cenários de sonhos – são espaços construídos a partir de de diferentes observações e depois misturados com as ansiedades problemáticas dele. Pensei que cada capítulo poderia ser uma sonho sobre um momento crucial da vida dele durante esses anos de formações, desde pouco antes da guerra até alguns anos depois. Eles podiam ser uma terra de ninguém na qual eu poderia falar com ele e fazer perguntas e tentar compreendê-las às minha maneira – por exemplo, por que ele nunca mais desenhou ou pintou pessoas após encerrar as encomendas que recebeu focadas na guerra?

Você tem um estilo muito característico, mas as suas técnicas e a sua arte variam bastante de livro para livro. Como você definiu as técnicas e os estilos que utilizaria em Black Dog? Você poderia falar um pouco sobre como define suas técnicas e estilos de trabalho pra trabalho?

Eu sempre tento encontrar um tom de voz favorável à atmosfera, ao clima e ao panorama emocional de cada livro. Cada capítulo e cada sonho de Black Dog são muito diferentes. Alguns tratam das brincadeiras de infância dele com o irmão John, imaginando árvores como gigantes e guardiões. Outros capítulos envolviam a passagem enevoada das docas de Southampton para a França, a vida nas trincheiras, o cumprimento de ordens e a busca por alívio nos detalhes da natureza em meio a um campo de batalho desolado. Cada um desses cenários é um espaço físico e emocional específico, então eu realmente precisava encontrar a forma certa de apresentar visualmente cada capítulo, capturar o clima e expressar as emoções. Um porto sujo e com neblina parece como acrílico e grafite em papel de aquarela amassado. o barulho de um grupo de estudantes em Londres em um pub parece mais detalhado, com linhas de caneta e traços mais bem definidos nos copos e nas decorações do lugar. Então eu sempre vou ao roteiro e pergunto o que ele deseja. Eu não tenho um estilo, eu apenos uso qualquer coisa que a história pedir.

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“Não podemos esquecer que liberdades que tomamos como garantidas na verdade vieram sob um custo imenso. A arte é uma máquina de empatia, ela permite que enxerguemos pelos olhos de outras pessoas – algo importante hoje como nunca”

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Você pode descrever cada etapa da criação de Black Dog?

Eu fiz muita pesquisa e várias anotações e depois reuni todas essas anotações em pequenos arcos narrativos que iriam compor cada capítulo. Cada parte precisava apresentar um ponto importante da vida do Nash durante esses anos de guerra. Eu comecei escrevendo a narração e os diálogos sempre que parecia apropriado, tirando frases das cartas dele e imaginando uma conversa em fluxo dentro dessas circunstâncias. Parte da narração eu pensei que poderia refletir os hábitos inicias dele de escrever versos poéticos em seus desenhos. Esse texto virou letra das músicas para a parte de performance desse projeto. Quando tinha um capítulo já mais bem desenvolvido, eu rascunhava como as páginas ficariam e depois as desenhava ou pintava. Algumas dessas páginas eu precisava refazer enquanto buscava o estilo certo que o roteiro pedia. Mas uma vez que já tivesse um ou dois painéis bem resolvidos, o resto fluia muito bem. Eu mantive o processo muito aberto e improvisei até o final. Eu ainda estava reescrevendo e reformatando o final do livro até os últimos dias. Isso me permitiu fazer todo tipo de conexão que eu tenho certeza que teria deixado passar se tivesse tudo fechado logo no início do processo.

De quais aspectos de Black Dog você tem mais orgulho?

De vários na verdade. Eu acho que pode ser o livro do qual tenho mais orgulho. Eu acho que o tema dele valeu o meu investimento e o Nash é um artista que merece ser mais conhecido – ele é completamente desconhecido fora da Inglaterra. Eu gosto de várias das artes e acho que o padrão das ilustrações e da narrativa são bons. Eu amei ter escrito e me senti estimulado a continuar escrevendo os meus próprios livros e também fiquei muito feliz por ser parte de um projeto tão forte envolvendo outros artistas. A apresentação ao vivo ocorreu no Tate, no memorial Somme em Amiens e também repetimos em vários festivais desde então. Esse lado do projeto tem sido maravilhoso e, outra vez, muito estimulante a continuar compondo e escrevendo músicas.

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“A terra é uma bagunça cada vez maior, precisando de soluções globais. Nacionalistas não acreditam em soluções globais, então não acreditam em problemas globais, por isso eles ignoram as evidências e contorcem a verdade para que ela fique coerente com a perspectiva insular de mundo que possuem”

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O Paul Nash parecia muito atormentado pelos tempos de guerra nos quais ele viveu, principalmente pelo que testemunhou no exército. Estamos vivendo um período muito belicoso da humanidade. Quais lições você acredita que podemos tirar das artes e das vivências do Paul Nash?

Que guerras precisam ser evitadas. Há falcões no poder no momento que nunca viveram em períodos de guerra e estão começando a sentir que esse possa ser uma forma legítima de lidar com desentendimentos. Após à Segunda Guerra Mundial, tivemos um senso social crescente de que deveríamos nos ajudar e oferecer apoio uns aos outros – o nascimento do NHS e outros programas sociais no Reino Unido e o empenho para unificação da Europa. Estamos começando a esquecer essas coisas e as pessoas estão novamente se escondendo sob argumentos nacionalistas e egoístas. É por isso que memoriais, comemorações e o hábito de contar essas histórias desses períodos são tão importantes, não podemos esquecer que essas liberdade que tomamos como garantidas na verdade vieram sob um custo imenso. A arte é uma máquina de empatia, ela permite que enxerguemos pelos olhos de outras pessoas – algo importante hoje como nunca.

Sobre esse mesmo período atual de extremismos: os cidadãos do Reino Unido estão testemunhando um crescimento de ideias conservadoras e xenófobas – aliás, algo que parece estar ocorrendo no mundo inteiro. Você é otimista em relação ao nosso futuro?

Não muito. Isso é algo em certo nível geracional. Eu fico emocionado que a geração dos meus filhos esteja muito mais tranquila em relação a questões de identidade cultural, identidade sexual e mudanças tecnológicas. A maior parte deles votou (se tiver votado) para que continuássemos na Europa e continua a votar por iniciativas e partidos mais responsáveis socialmente. Então os reacionários egoístas e cegos vão desaparecer e espero que uma geração mais esclarecida fique com o poder. No entanto, pode ser que não estejamos vivos para testemunhar isso. A terra é uma bagunça cada vez maior, precisando de soluções globais. Nacionalistas não acreditam em soluções globais, então não acreditam em problemas globais, por isso eles ignoram as evidências e contorcem a verdade para que ela fique coerente com a perspectiva insular de mundo que possuem. Eu acredito que as distorções decorrentes da internet em tudo são as questões mais alarmantes do momento. Sem dúvida tivemos muitos benefícios com a conectividade, mas estamos recusando a lidar com o impacto negativo da perda de confiança e compreensão do mundo real. Trump, Putin e outros são as criaturas de um mundo incapaz de separar realidade de ficção. Isso me fez mais determinado do que nunca para ficar do lado que acredito ser o certo. Eu costumava achar que a fantasia e ficção eram benignas, agora eu acho que são mais insidiosas do que isso.

Você tem muitos trabalhos em parceria com escritores, pensadores e artistas incríveis. Black Dog é um trabalho solo. É muito diferente para você criar algo individualmente e em parceria com outra pessoa?

É maravilhoso passar alguns períodos no universo de outra pessoa, mas é muito mais recompensador ilustrar meus próprios roteiros. Eu tenho a liberdade de ir aonde o roteiro me levar.

Sobre essas parcerias: imagino que sejam experiências muito interessantes, poder criar e dialogar com autores como Neil Gaiman, Richard Dawkins, Tori Amos, Alice Cooper, Alan Moore, Iain Sinclair… Como você define essas experiências? Alguma específica dessas teve algum impacto maior em particular em você?

Elas são todas muito diferentes. Foi maravilhoso trabalhar durante um ano com o Richard Dawkins e ele teve um impacto enorme no direcionamento do meu trabalho em relação à ciência e à realidade. No ano seguinte eu passei com a Wildworks e o Michael Sheen dirigindo The Gospel of Us e participando do projeto Passion of Port Talbot, uma reconstrução secular da história da Páscoa. Trabalhar com o Bill Mitchel na Wildworks mudou completamente a minha forma de trabalhar, longe da busca obsessiva por controle total e em busca de uma abordagem mais divertida e improvisada no desenvolvimento de um projeto.

Você fez capas para CDs e também é músico. Como é para você o trabalho de criar esse tipo de capa? Que tipo de diálogo você tem com as bandas e os artistas antes começar a criar?

Também são todos muito diferentes. Alguns gostam de me deixar trabalhar sozinho e aí eu crio o que considero o que melhor captura o clima da música. Alguns gostam de ser mais participativos, oferecendo ideias que eu possa desenvolver. Eu não me incomodo com nenhuma das duas formas. São geralmente projetos curtos, então fico feliz em explorar uma atmosfera durante um ou dois dias antes de retornar ao meu próprio mundo.

Alguns de seus trabalhos mais famosos foram as capas de Sandman. O quanto esses trabalhos foram importantes para a sua carreira? Você pode falar um pouco da dinâmica da sua parceria com o Neil Gaiman?

Elas acabaram se tornando um diário de sete anos, enquanto eu explorava ilustração, fotografia, colagens, designs, desenhos e ferramentas digitals. Era ótimo ter uma janela inteira todo mês para experimentar algo novo, ilustrando um arco longo de histórias aberto à minha interpretação. Quando começamos eu tinha acesso às páginas internas, mas no final eu só tinha uma ou duas linhas de descrição do que aconteceria nos meses seguintes. É surpreendente como as capas acabaram casando tão bem com as páginas internas, principalmente por eu ter poucas referências com as quais trabalhar.

E qual você considera a principal diferença de criar a capa de um livro, de um disco e de um quadrinho?

Elas são semelhantes por serem todas janelas para o conteúdo da obra, o primeiro ponto de conexão entre um consumidor potencial e o conteúdo. Elas servem como filtros pelos quais ouvimos as músicas ou começamos a ler um livro. Eu acho que elas funcionam melhor quando são abertas e simbólicas, ao invés de pedantemente descritivas.

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“Eu ainda faço trabalhos para um mundo físico e não estou interessado em adaptar o que eu faço para o que me parece ser uma experiência virtual muito limitada”

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Estamos vivendo em tempos muito digitais. Ebooks, webcomics e arquivos de músicas ainda têm capas, mas é uma relação distinta entre esses produtos e seus consumidores. Essa diferença é muito grande pra você, não apenas como um criador, mas também como leitor, ouvinte e consumidor?

Eu ainda sou um grande consumidor dos objetos físicos. Eu compro CDs, blu-rays e livros. Eu não leio em tablets e não faço download de música. Eu prefiro música que tenha contexto, que seja parte de um corpo de trabalho de uma pessoa ou de um grupo de pessoas, de uma localização geográfica específica, de um período histórico específico e que seja conectado a outros criadores em uma rede de conexões e forças sociais – música é uma forma de aprender sobre o mundo, não apenas uma amontoado aleatório de sons. Eu prefiro livros que venham com espíritos, cheiros e artisticamente trabalhados. Eles crescem e envelhecem comigo. Eu tenho consciência que gerações mais novas que não tenham crescido tão apegadas em um mundo de objetos físicos não tenham essas mesmas conexões emocionais, mas temo que é assim que me sinto sobre isso. Então eu ainda faço trabalhos para um mundo físico e não estou interessado em adaptar o que eu faço para o que me parece ser uma experiência virtual muito limitada. Eu acredito que a realidade virtual é um meio imensamente promissor, mas precisa ser explorado como uma linguagem independente, não como a adaptação de um filme ou livro. São linguagens completamente diferentes – um livro ou um filme são formas narrativas, realidade virtual não, ela tem uma natureza exploratória.

Você pode falar um pouco sobre as principais diferenças e semelhanças entre criar uma ilustração, fazer um quadrinho, escrever uma música e gravar um filme?

Apenas observe as qualidade intrínsecas de cada um desses formatos. Ilustrações são expressões curtas de ideias estáticas, um quadrinho expande isso para sequências narrativas, para que você possa explorar emoções e ideias de forma muito mais extensas. Música é abstração, é provavelmente a forma de arte mais poderosa por ultrapassar todas as lógicas e despertar conexões emocionais instantâneas. Filmes são massivamente complexos e estão constantemente comprometidos, mas quando funcionam podem recriar versões do mundo em formar extraordinariamente vívidas – talvez o mais próximo que existe de um sonho.

Você tem todas essas áreas de interesse e atuação. Você consegue definir o que você faz em uma única palavra? Qual você considera ser a sua profissão?

Eu tento não fazer isso. Os italianos têm uma palavra, ‘creativo’. Fico feliz com ela.

O seu trabalho ficou famoso nos Estados Unidos principalmente por conta de suas parcerias com o Neil Gaiman em Sandman e Orquídea Negra e com o Grant Morrison em Asilo Arkham. Como foi para você essas primeiras experiências no mercado editorial norte-americano? Foi um período muito produtivo para você e seus colegas britânico, correto?

Foi um grande momento para entrar nessa área, os editores estavam em busca de novas vozes e nós trouxemos um frescor europeu e uma arrogância juvenil para o mercado. A maioria dos meios têm esses momentos de ouro, quando estão afundando e precisam de rejuvenescimento, e se você tiver sorte pode encontrar um lugar para brincar, se divertir e começar uma carreira. Mas esses momentos nunca duram. Eventualmente, as companhias acabam definindo seus trabalhos por termos financeiros e esse momento de liberdade e anarquia criativa chega ao fim. Eu gostei de fazer esse trabalho e de conhecer essas pessoas, mas eu precisei seguir com a minha vida depois de alguns anos – fazer esses trabalhos deixou de ser um interesse real para mim.

Você não fez muitos quadrinhos de super-heróis, mas ilustrou muitos livros publicados por essa indústria. O que você acha da indústria norte-americana de quadrinhos e seus super-heróis nos dias de hoje?

Eu acho que são uma imensa porcaria – um veneno que destruiu o meio dos quadrinhos nos Estados Unidos e agora arruinou a indústria de cinema. São fantasias de poder de crianças para uma cultura infantilizada e amedrontada. Muito deprimente.

O que mais te interessa em artes gráficas e no mundo dos quadrinhos hoje? Há algum tipo particular de trabalho ou algum artista que te interessa mais atualmente?

Com exceção dos quadrinhos mainstream da Marvel e da DC Comics, os quadrinhos estão passando por uma era de ouro de criatividade. Todas as novas vozes estão sendo ouvidas ao redor do mundo e sendo expressas em estilos sem qualquer peso nostálgico de quadrinhos antigos. Eu continuo encontrando novos artistas para exaltar, de Mattotti a Jorge Gonzales, do Pedrosa ao Auladell.

O que você pensa quando um trabalho seu é publicado em um país como o Brasil? Somos todos ocidentais, mas vivemos culturas muito diferentes. Você tem alguma curiosidade em relação à forma como um trabalho seu será lido e interpretado por pessoas de um ambiente tão diferente dos seu?

Óbvio, é maravilhoso ver como os livros serão recebidos. E também incrível ver como livros estão sendo criados em outros trabalhos. Eu sempre tento encontrar uma loja local de CDs em qualquer lugar que eu vá e pergunto por recomendações de lançamentos musicais locais.

No que você está trabalhando atualmente? Você tem algum livro novo nos seus planos?

Eu estou finalizando um livro de pinturas e ilustrações inspiradas em filmes mudos, eu acabei de terminar um livro com o escritor americano Jack Gantos, eu estou para começar uma graphic novel que escrevi sobre natureza, luto e monstros (da espécie política). Eu ainda estou trabalhando em Caligaro, minha graphic novel inspirada em O Cabinete do Dr. Caligari. E também tenho algumas outras coisas em andamento, incluindo um novo filme chamado Wolf’s Child.

A última! Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?

Eu tenho lido muitos textos sobre viagens e natureza, principalmente do Patrick Leigh Fermor e Robert Macfarlane. Eu costumo assistir a documentários ao invés de assistir a dramas na TV, então deixei passar várias das séries mais populares. Eu tenho gostado de séries escandinávas noir como The Bridge. O meu gosto por filmes mudou muito, estou cada vez mais impaciente com coisas mainstream pré-digeridas e formatadas. Todos esses filmes me parecem a mesma coisa para mim. Então eu tendo a buscar vozes singulares como Herzog, Enyedi e Svankmajer, e é ótimo encontrar vozes originais em filmes como Três Anúncios Para Um Crime e um favorito recente, The Mountain. Música? Praticamente qualquer coisa, me principalmente música ambiente e orquestras. Jazz europeu e escandinavo, a música folk contemporânea está passando por um renascimento no Reino Unido no momento.