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Papo com Emily Carroll, a autora de Floresta dos Medos: “Às vezes parece patético criar uma ficção de horror em um mundo onde o horror é tão real e imediato”

Floresta dos Medos é o álbum de estreia da quadrinista canadense Emily Carroll e também o primeiro trabalho dela publicado em português. O livro de 208 páginas recém-lançado no Brasil pela editora DarkSide Books é uma coletânea de cinco contos de horror que rendeu à autora o prêmio Eisner em 2015 de Melhor Graphic Novel na categoria Republicação.

“Muitos dos meus medos moldam o tipo de histórias que eu conto e as minhas ansiedades ganham forma nos meus desenhos”, conta Carroll em conversa com o blog, falando sobre o ponto de partida de suas histórias e da estética de seus trabalhos.

Fascinada por histórias de terror desde a infância, a quadrinista alterna temas e estilos em cada um dos contos de Floresta dos Medos. A primeira delas apresenta três irmãs no aguardo do pai desaparecido; a segunda mostra uma fantasma à espera de uma oportunidade de vingança; a terceira trata de um conflito entre irmãos; a quarta é protagonizada por amigas que resolvem explorar os dons mediúnicos de uma delas por meio de um golpe; e a quinta, com ares de trabalho do magaká Junji Ito, narra o primeiro contato de uma jovem com a esposa de seu irmão.

Na entrevista a seguir, Carroll lembrou de seus primeiros contatos com HQs e histórias de terror, falou sobre a construção de Floresta dos Medos, tratou da relação entre histórias de horror e a realidade aterrorizante de um mundo ultraconservador e analisou a onde recente de filmes de terror de sucesso – como Nós, Corra!, A Bruxa, Hereditário. Papo massa, saca só:

“Eu escolhi o horror porque eu tenho sido uma fã do gênero toda a minha vida”

Um quadro de Floresta dos Medos, HQ de Emily Carroll publicada pela editora DarkSide Books

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de quadrinhos na sua vida?

As seções de quadrinhos dos jornais! Eu tinha alguns favoritos (como Garfield ou The Far Side), mas eu realmente lia tudo todos os dias, mesmo que não entendesse as piadas ou achasse chato. Basicamente, eu lia qualquer coisa que eu pudesse colocar em minhas mãos. Às vezes meus pais me compravam revistas do Archie, mas eu também roubava muito Homem-Aranha e X-Men do meu irmão mais velho.

Quais as técnicas utilizadas por você para a criação de Floresta dos Medos?

Floresta dos Medos é toda desenhada com caneta (e às vezes pincel) e tinta, depois colorida no Photoshop com algumas ferramentas básicas. Eu também utilizei alguns elementos tradicionais que desenhei à mão (como borrões de tinta, borrões de grafite e respingos), escaneei e rearranjei no Photoshop para criar textura em algumas cenas. Muito do trabalho é reorganizado e cortado depois de digitalizado.

“Acho que esse é meu lema quando se trata de arte: quando fico na dúvida, vou no vermelho”

Um quadro de Floresta dos Medos, HQ de Emily Carroll publicada pela editora DarkSide Books

Você se lembra do momento em que começou a desenvolver Floresta do Medos? Se sim, você pode falar um pouco sobre ele, por favor?

Não houve um momento específico – há anos venho criando pequenas histórias e contando histórias em geral, mas não aconteceu até que começasse a fazer histórias em quadrinhos e postá-las na internet, aí eu descobri que qualquer pessoa poderia ter interesse nelas. Eu escolhi contos porque eu gosto de trabalhar de forma rápida e objetiva, estou sempre ansiosa para trabalhar na próxima história, e eu escolhi o horror porque eu tenho sido uma fã do gênero durante toda a minha vida e senti que tinha uma perspectiva que poderia funcionar bem para esse tipo de história.

Você pode me falar um pouco sobre a sua abordagem em relação a cores? Quais são os seus critérios para determinar a paleta de cores de um livro?

Eu gosto de definir a paleta de cores muito cedo, e geralmente preciso de muita brincadeira no Photoshop (para não mencionar alguns acidentes felizes) antes de ter uma idéia do que a paleta será e, portanto, qual será a atmosfera que o quadrinho acabará tendo. Se a narrativa é mais formal e mais parecida com um conto de fadas, escolho uma paleta menos realista – se é uma história e conversa mais natural, escolho cores mais naturais e mais suaves. Tendo dito isso, eu prefiro cores vivas justapostas contra um monte de preto pesado, especialmente vermelho. Acho que esse é meu lema quando se trata de arte: quando fico na dúvida, vou no vermelho.

Eu também gostaria de saber mais sobre a sua abordagem em relação ao design de cada página. Você constrói uma página em função de quadros individuais ou tendo em vista a página inteira? Como isso funciona para você?

Eu visualizo a página inteira de uma só vez, de modo que os painéis funcionem por conta própria e uns com os outros, fazendo da página inteira uma peça coesa. Eu não tenho certeza se isso é realmente benéfico para a narrativa ou não, mas é apenas uma espécie de indulgência artística minha. É provavelmente por isso que gosto de fazer tantas splash pages ou páginas duplas – gosto de imagens grandes e repentinas após um período de painéis minúsculos, por exemplo.

“Corra! é um exemplo de como o horror pode amplificar a realidade para realmente sublinhar os aspectos horripilantes do nosso dia a dia”

Um quadro de Floresta dos Medos, HQ de Emily Carroll publicada pela editora DarkSide Books

Eu estava pensando nessa espécie de renascença recente do horror na cultura pop. Estou pensando principalmente em filmes – produções como Nós, Corra!, A Bruxa, Hereditário,… Você vê alguma razão particular para esse interesse crescente nos últimos tempos?

Como alguém que sempre foi do terror (especialmente filmes – comecei a assistí-los com meu pai e meu irmão mais velho quando eu tinha mais ou menos três anos), tem sido difícil para mim reconhecer que exista algum tipo de renascimento. Boas obras do gênero têm sido feitas há muito tempo, embora eu ache animador ver isso atingir um público tão mainstream. Ainda não assisti Nós, mas Corra! é ótimo e obviamente poderoso em sua capacidade de se conectar, dada a enorme (justamente merecida) recepção que recebeu. É um exemplo artístico importante de como o horror pode amplificar a realidade para realmente sublinhar os aspectos horripilantes do nosso dia a dia. Seu sucesso é massivo, não apenas para o horror, mas para o cinema e a cultura como um todo.

Há um conservadorismo crescente no nosso mundo. Políticos como Trump nos Estados Unidos e Bolsonaro aqui no Brasil são sintomas explícitos desse mundo cada vez mais xenófobo, homofóbico e hostil em que vivemos. Como a ficção e histórias em quadrinhos são capazes de lidar e, de alguma forma, confrontar essa realidade?

Oh deus, por onde começar. Às vezes parece muito patético estar criando uma ficção de horror em um mundo onde tanto horror é real e imediato (e esse sempre foi o caso). Eu vou dizer que muitos dos meus medos (ser uma mulher, ser gay, estar sempre preocupada com pessoas amadas) moldam o tipo de histórias que eu conto e as minhas ansiedades ganham forma nos meus desenhos. Embora uma ampla gama de pessoas pareça gostar de meus quadrinhos, eu suspeito que as pessoas que podem se relacionar com esses medos e vê-los pelo que realmente são, acabam sendo as mais conectadas com o meu trabalho. Então, talvez essa conexão nos ajude a lidar com isso. É bom encontrarmos uns aos outros e saber que não estamos sozinhos em nossa dor.

Aliás, você é otimista em relação ao nosso futuro?

Cara, ultimamente eu tenho levado um dia de cada vez. Eu sou conhecida por entrar em pânico sobre o futuro. Eu tento me concentrar em qual será a melhor opção para o próximo passo, e como eu posso estar à disposição para as pessoas hoje.

“O medo de fazer ‘quadrinhos errados’, ou não fazer ‘quadrinhos de verdade’, me impediu de tentar por tantos anos”

Um quadro de Floresta dos Medos, HQ de Emily Carroll publicada pela editora DarkSide Books

Eu gostaria de saber o que são quadrinhos para você. Você tem alguma definição pessoal?

Na verdade não. Honestamente, eu faço quadrinhos porque é fácil para mim combinar desenhos com texto – e mais do que isso, eu apenas gosto de desenhar. Imagino que, se não pudesse desenhar, ainda estaria contando histórias, mas talvez escrevendo livros ou peças de teatro. Eu também hesito em definir quadrinhos porque era o medo de ‘fazer quadrinhos errados’, ou não fazer ‘quadrinhos de verdade’, me impediu de tentar por tantos anos.

O que você pensa quando um trabalho seu é publicado em um país como o Brasil? Somos todos ocidentais, mas vivemos culturas muito diferentes. Você tem alguma curiosidade em relação à forma como um trabalho seu será lido e interpretado por pessoas de um ambiente tão diferente dos seu?

Eu acho que isso é parte de publicar qualquer trabalho – a partir de determinado ponto, muito disso está nas mãos dos leitores e o que eles estão trazendo para isso. Eu vou dizer que a maioria das histórias em Floresta dos Medos são baseadas em narrativas orais, como contos de fadas ou histórias de acampamento, e uma tradição oral como essa é bem universal. Eu acho que vou só ficar ligada!

No que você está trabalhando atualmente? Você tem algum livro novo nos seus planos?

Eu estou! Estou trabalhando em uma novela gráfica nova, ainda não anunciada, que também será de horror, mas será minha primeira vez escrevendo e desenhando algo longo, ao contrário de histórias curtas. Eu também tenho um novo quadrinho de horror semi-surreal, semi-gótico, que sai nesta primavera chamado When I Arrived at the Castle.

Um quadro de Floresta dos Medos, HQ de Emily Carroll publicada pela editora DarkSide Books

Você pode me falar um pouco sobre o seu ambiente de trabalho?

Eu tenho um pequeno escritório em casa, com duas mesas – uma para o meu computador, uma para o meu material mais tradicional (embora eu acabe fazendo a maior parte do desenho na frente da TV, pra falar a verdade). Eu trabalho principalmente no computador hoje em dia, então é tudo bem limpinho. Eu também tenho duas estantes de quadrinhos e materiais de referência, e uma cadeira próxima para que eu, idealmente, pudesse ler… mas é o meu gato que está sempre dormindo por lá.

A última! Você pode recomendar algo que esteja lendo /assistindo/ ouvindo no momento?

Acabei de ler uma coleção de contos do Paul Trembley, cujo trabalho eu gosto muito, ele é um escritor de terror que brinca muito com questionamentos sobre a realidade, a nossa sanidade, o uso do narrador, etc. No ano passado eu também gostei muito do livro HEX, do Thomas Olde Heuvelt, um horror holandês muito divertido sobre uma bruxa (e é aterrorizante). Eu também peguei Gingerbread, da Helen Oyeyemi, que eu não li ainda, mas ela é uma das minhas autoras favoritas e eu recomendo de verdade qualquer trabalho dela.

A capa de Floresta dos Medos, HQ de Emily Carroll publicada pela editora DarkSide Books
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30 Dias de Noite, Emily Carroll, Charles Burns, Fabien Vehlmann + Kerascoët e HQs nacionais: os próximos lançamentos da DarkSide Books em 2019

Os editores da DarkSide Books planejam dar continuidade à expansão da linha de quadrinhos da editora em 2019. O selo DarkSide Graphic Novels foi iniciado em 2017, com títulos como Meu Amigo Dahmer e Black Hole, ganhou aquisições de peso em 2018 com o lançamento de obras internacionais como Black Dog, de Dave McKean, e Refugiados, de Kate Evans. No ano passado saíram os primeiros quadrinhos nacionais, com Samurai Shirô, de Danilo Beyruth, e Imaginário Coletivo, de Wesley Rodrigues.

Em papo por email com o blog, o editor Bruno Dorigatti promete títulos impactantes para os próximos meses. Em seguida ao lançamento do mangá A Menina do Outro Lado, já chegou em algumas livrarias a coletânea de HQs de horror Floresta dos Medos, de Emily Carroll. O próximo lançamento será Big Baby, com algumas das primeiras HQs de Charles Burns. Depois virão Jolies Ténèbres (ainda sem título em português), trabalho de Fabien Vehlmann e Kerascoët presente em várias listas de melhores do ano em 2014, e uma edição comemorativa de 30 Dias de Noite, de Steve Niles e Ben Templesmith.

“Temos alguns projetos de HQs nacionais em desenvolvimento, ainda para 2019, mas que não podemos comentar agora”, adianta o editor. Na conversa a seguir, Dorigatti também fala sobre a repercussão dos lançamentos da linha de quadrinhos da DarkSide no ano passado, as principais lições que a editora tirou da crise das grandes livrarias e o retrocesso político pelo qual passa a sociedade brasileira com o governo de Jair Bolsonaro. Papo massa, saca só:

Páginas de Floresta dos Medos, HQ de Emily Carroll publicada pela DarkSide Books em 2019

Você pode, por favor, adiantar e comentar alguns dos lançamentos da editora para 2019?

Começamos o ano publicando nosso segundo mangá, A Menina do Outro Lado, do Nagabe; em breve já sai o segundo volume. Publicamos também o aguardado Floresta dos Medos, de Emily Carroll e suas histórias góticas; Francis, da italiana Louptyn, fantasia que dialoga com a produção japonesa; e Big Baby, compilação de histórias curtas do personagem do título, de Charles Burns. No prelo, temos Jolies Ténèbres (título a definir), com roteiro de Fabien Vehlmann e arte de Kerascoët. Ainda no semestre, saem as HQs da nossa parceria com a Image Comics; e uma edição comemorativa do clássico 30 Dias de Noite, de Steve Niles e Bem Templesmith.

E, no momento, temos alguns projetos de HQs nacionais em desenvolvimento, ainda para 2019, mas que não podemos comentar agora.

A capa de Big Baby, HQ do quadrinista Charles Burns que será publicada pela DarkSide Books em 2019

Como foi o retorno da editora em relação à linha de quadrinhos em 2018? Entre os meus títulos preferidos publicados por vocês ano passado estão Black Dog e Refugiados, que tipo de resposta vocês tiveram em relação a esses trabalhos?

O retorno dos leitores tem sido surpreendente. Nossos leitores e fãs que não eram leitores de HQs estão mergulhando nelas e compreendendo que o gênero hoje tem produzido muita coisa que foge dos padrões já estabelecidos. E os leitores de HQs seguem pedindo títulos já consagrados lá fora e que não haviam tido uma oportunidade por aqui, como Meu Amigo Dahmer, Creepshow, N. e Wytches. Ou estavam esgotados, caso de Black Hole e O Corvo.

Clássicos como a adaptação de Paraíso Perdido, de John Milton, pelo artista espanhol Pablo Auladell foi uma grata surpresa, com uma reação bastante empolgada dos leitores. E publicar a adaptação oficial de Yellow Submarine nos 50 anos da animação é algo que muito nos orgulha.

Black Dog tem maravilhado os leitores que conheciam o trabalho de Dave McKean sobretudo por conta de Sandman. Vimos a HQ mencionada em várias listas de melhores do ano dos blogs e canais dedicados ao gênero.

Refugiados é uma excelente obra de jornalismo em quadrinhos da britânica Kate Evans, e consideramos fundamental e cada vez mais necessário abordarmos questões urgentes, como a imigração, a crise dos refugiados, o aumento da xenofobia e do racismo.

Quadros de Black Dog, HQ de Dave McKean publicada pela DarkSide Books em 2018

Em 2018 a DarkSide investiu pela primeira vez em HQs nacionais. Qual balanço vocês fazem dessa experiência? Há planos para outras HQs de autores brasileiros para 2019?

Sempre foi o nosso desejo, e enfim conseguimos colocar nas ruas duas HQs bem diferentes, mas igualmente desafiadoras. Imaginário Coletivo é um projeto de alguns anos do Wesley Rodrigues, um dos grandes animadores brasileiros, uma fantasia surreal da qual éramos grandes fãs aqui na editora. Já com Samurai Shirô, é incrível ver o Danilo Beyruth se debruçar sobre uma história contemporânea, focada na cultural oriental e sua relação com a cidade de São Paulo.

A ideia do selo Graphic Novel é que ele continue a espelhar e a dialogar com as demais linhas editorias do nosso catálogo. Como disse acima, teremos novidades e mais autores nacionais em 2019.

Página de Imaginário Coletivo, HQ de Wesley Rodrigues publicada pela DarkSide Books em 2018

Quais as principais lições que a DarkSide tirou da crise das grandes livrarias que aflorou em 2018? Como a editora pretende lidar com essa crise em 2019?

O ponto pacífico, por ora, é que o modelo de consignação não pode mais ser o modelo de negócios do mercado editorial. Estamos sempre procurando abrir novas formas e novas parcerias para levar os nossos títulos para mais leitores e mais regiões do país. No final de 2018, inauguramos a nossa
nova casa, darksidebooks.com, com vendas diretas aos leitores, a Experiência Dark com produtos exclusivos (pôsteres, marcadores, luvas, sketchbooks) que acompanham alguns de nossos títulos, além do Dark Blog, que publica semanalmente novidades sobre o universo dos nossos livros.

A saída é ampliar o contato direto com os leitores, tanto de maneira on-line – apresentando e instigando os leitores a conhecer e se interessar pelos nossos lançamentos e também pelo nosso catálogo –, como participando de eventos e fazendo lançamentos, bate-papos, convescotes e outras formas de encontra e dialogar com todos aqueles que acreditam no poder das boas histórias.

Como a editora está lidando com a chegada ao poder de um governo de
extrema-direita que acabou com o Ministério da Cultura e que promete cortes em políticas públicas e sociais de fomento às artes?


O novo governo não se furta de nos decepcionar diariamente. Sabíamos que seria terrível, mas mesmo os mais céticos ainda tinham uma ponta de esperança de que não poderia ser tão medíocre, desestruturado e sem uma agenda definida. O trio de ministros ideológicos – formado pelo olavismo que sitiou e ocupou os Ministérios da Educação, das Relações Exteriores e do Meio Ambiente –, além do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, tem sido o mais preocupante.

Não só abriram mão de avanços recentes nas respectivas áreas, como têm caminhado a passos céleres rumo ao passado, sem pessoas minimamente capazes de compreender as complexidades do planeta em 2019.

O caminho é publicar obras que levem o leitor brasileiro ao diálogo e ao
questionamento. A literatura nos mostra outros pontos de vista, nos ajuda a caminhar e a encontrar novas saídas para questões urgentes e coletivas. Os temas contemporâneos sempre estiveram em nosso radar e seguimos publicando obras que certamente podem nos ajudar a encontrar saídas diante da tragédia na qual nos encontramos.

A capa de Floresta dos Medos, HQ de Emily Carroll publicada pela DarkSide Books em 2019
Entrevistas / HQ

Papo com Kate Evans, a autora de Refugiados – A Última Fronteira: “Quando as pessoas se desesperam, o extremismo floresce”

Segundo um censo da organização não governamental britânica Help Refugee, o campo de refugiados e migrantes da cidade francesa de Calais chegou a abrigar 8,143 pessoas com o objetivo de chegar ao Reino Unido via o porto do município francês ou pelo trajeto do túnel que percorre o Canal da Mancha. Desmantelado em outubro de 2016 e também conhecido como Selva de Calais, o campo é até hoje um dos principais símbolos da crise migratória mundial e foi classificado pela ONG internacional Human Rights Watch como “o inferno na terra”, por conta das condições precárias oferecidas aos seus moradores e dos abusos constantes por parte das autoridades francesas contra a população vivendo no local.

A quadrinista britânica Kate Evans narra em Refugiados – A Última Fronteira suas experiências como voluntária em Calais ao longo de três visitas feitas por ela ao campo entre outubro de 2015 e fevereiro de 2016. “Eu precisava mostrar às pessoas o que eu tinha visto”, conta a artista em entrevista ao blog sobre seu trabalho mais recente publicado em português – em 2017, a WMF Martins Fontes publicou Rosa Vermelha, projeto prévio da autora. A HQ recém-lançada no Brasil pela Darkside Books apresenta relatos colhidos por Evans durante suas idas ao campo e apresenta testemunhos de habitantes do local sobre seus dramas. As fontes da artista relatam as vidas que deixaram para trás e seus sonhos com uma possível nova vida em território britânico.

“O projeto neoliberal falhou e quando as pessoas se desesperam, o extremismo floresce”, diz Evans sobre suas interpretações em relação ao que teria dado errado na humanidade a ponto do surgimento de um ambiente como a Selva de Calais. Uma das vilãs do livro é inclusive a líder da extrema-direita francesa Marine Le Pen – aquela mesmo que criticou o candidato fascista à presidência brasileira Jair Bolsonaro, por dizer coisas “extremamente desagradáveis”. Refugiados é um livro necessário e didático. Um alerta em tempos de conservadorismo aflorado, de pouca empatia e de humanismo limitado. A seguir, papo com Kate Evans:

“Eu precisava mostrar às pessoas o que eu tinha visto”

A quadrinista Kate Evans conversando com alguns dos refugiados do campo em Calais

Você lembra do momento em que teve a ideia de criar Refugiados?

Eu visitei Calais em outubro de 2015. Soube que iria fazer o quadrinho no minuto que eu visitei. Quando voltei para casa, tive que fazer. Eu precisava mostrar às pessoas o que eu tinha visto. Isso se tornou um post no meu blog, que depois se tornou o primeiro capítulo de Refugiados. Voltei ao acampamento mais duas vezes e percebi que tinha o suficiente para um livro.

Seu livro está sendo publicado no Brasil em um contexto de preconceitos aflorados contra minorias. Qual mensagem você espera que seus leitores tirem desse trabalho?

Que somos todos pessoas, que somos todos habitantes do mesmo planeta. Que não temos nada a temer, e temos tudo a ganhar com compaixão e cooperação. Que a construção de muros aprisiona todos nós.

A líder da extrema-direita francesa Marine Le Pen em quadro de Refugiados – A Última Fronteira

Sobre esses mesmos preconceitos e essa crescente falta de empatia, o que você acha que está acontecendo com a humanidade? E por que agora?

O projeto neoliberal falhou. As mudanças climáticas estão começando a tornar partes do planeta inabitáveis. A riqueza está subindo em espiral para os bolsos do 1%. Quando as pessoas se desesperam, o extremismo floresce. Nas palavras de Rosa Luxemburgo, nos deparamos com uma escolha simples: ‘socialismo ou barbárie’.

Uma sequência de Refugiados – A Última Fronteira

Você é otimista em relação ao nosso futuro?

Eu estou sempre otimista. Tudo é político. Cada pequeno ato de bondade e união. Tudo conta.

Você considera seu trabalho em Refugiados como jornalismo de quadrinhos?

É reportagem em quadrinhos, que é um formato já consagrado. Eu não me considero jornalista, no entanto. Eu me considero um ativista, e minha primeira responsabilidade em uma situação de crise é tentar aliviá-la, participar dela, não ficar parado tentando ‘encontrar a história’. Jornalistas aspiram à objetividade, enquanto eu uso uma abordagem novelística para colocar em camadas eventos reais com representações emotivas, a fim de evocar sentimentos específicos no leitor. Eu também moldo o ritmo da narrativa ao longo do livro em um arco emocional mais amplo – conduzo o leitor em uma jornada. Então, nesses dois aspectos, meu trabalho está mais próximo de ser uma graphic novel do que um relato jornalístico. No entanto, é tudo verdade! Eu não inventei nada!

Uma página de Refugiados – A Última Fronteira falando sobre as bordadeiras da cidade de Calais

Você poderia me contar um pouco sobre como você definiu seu estilo em Refugiados? Seu outro livro publicado aqui no Brasil, Rosa Vermelha, apresenta uma arte muito diferente desse álbum mais recente, certo?

Eu acho que ele se definiu sozinho. Uma vez que descobri que Calais era uma cidade de rendeiras, eu tinha o ‘gancho’ visual para enquadrar o trabalho. Bordas de renda branca significavam que eu precisava de páginas coloridas e um efeito de colagem. Eu provavelmente sou mais inspirada pelo trabalho da Lynda Barry em One! Hundred! Demons!, bem como pelo trabalho de lápis colorido de Raymond Brigg.

Você poderia me contar um pouco sobre suas técnicas? Que tipo de material você usa?

Lápis de cor no papel. Todos os bordados eu incluí no Photoshop. Foi bom poder usar todos os meus enfeites de renda e pedaços de coisas de artesanato e em um trabalho pra valer, ao invés de coisinhas que faço para bebês com pedaços desses materiais.

“A hostilidade, o racismo e as visões reacionárias estão em ascensão, e em resposta, as pessoas sempre se levantam onde podem protestar, proteger e ajudar”

A quadrinista Kate Evans conversando com alguns dos refugiados instalados no campo de Calais

Você tem alguma curiosidade em relação à forma como o seu trabalho será lido e interpretado em um país tão diferente do seu, como o Brasil?

Eu fico interessada em saber o que as pessoas pensarão de mim, a narradora – na verdade, uma dona de casa inglesa de meia-idade com uma vida confortável que caiu no meio de uma catástrofe. Há uma distância crítica no livro em que me apresento como uma personagem um pouco ingênua. Você pode rir de mim por ser uma pessoa branca tola e privilegiada. Eu escrevi assim de propósito.

Há um elemento de Refugiados que é universal, em que todos nós estamos vendo migração, despossessão, desespero – em toda parte a hostilidade, o racismo e as visões reacionárias estão em ascensão, e em resposta, as pessoas sempre se levantam onde podem protestar, proteger e ajudar. E há uma mensagem forte em Refugiados com a qual todos podem se identificar, o poder do amor de uma mãe por seus filhos.

A capa de Refugiados – A Última Fonteira, álbum da quadrinista Kate Evans

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Uma conversa com Wesley Rodrigues sobre a HQ Imaginário Coletivo

O Antonio Carlos da página Minhas Gibitecas gravou parte do papo que bati com o quadrinista e animador Wesley Rodrigues no sábado (4 de agosto), na loja da Ugra, durante o lançamento do álbum Imaginário Coletivo. Nesse trecho inicial da nossa conversa, o autor falou principalmente sobre a origem do projeto e algumas relações entre o universo das HQs e dos desenhos animados. O vídeo tá aqui.

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Sábado (4/8) é dia de lançamento de Imaginário Coletivo, HQ de Wesley Rodrigues e primeiro quadrinho nacional da editora DarkSide Books

Ei, tem programa pra sábado (4/8)? Estarei na loja da Ugra, aqui em São Paulo, para mediar uma conversa com o quadrinista e animador Wesley Rodrigues sobre o lançamento de Imaginário Coletivo, primeiro quadrinho solo do autor e primeira HQ nacional da editora DarkSide Books. Rodrigues é o homenageado da atual edição do festival Anima Mundi e narra nas 472 páginas de Imaginário Coletivo uma trama fantástica sobre uma vaca que sonha em ser um pássaro. Certeza de papo muito bom sobre a produção do livro e possíveis diálogos entre as linguagens dos quadrinhos e da animação.

A conversa começa às 16h e a Ugra fica na loja 116 da Galeria Ouro Velho (Rua Augusta, 1371). Você confere outras informações sobre o papo na página do evento no Facebook e vê uma prévia do trabalho de Wesley Rodrigues em Imaginário Coletivo por aqui. E aí, vamos?

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Confira as prévias de Shirô, de Danilo Beyruth, e Imaginário Coletivo, de Wesley Rodrigues, as primeiras HQs nacionais da DarkSide Books

A editora DarkSide Books anunciou os títulos e os autores de suas primeiras HQs nacionais, uma assinada pelo quadrinista Danilo Beyruth e outra pelo animador e quadrinista Wesley Rodrigues. Com lançamento marcado para o dia 27 de julho, às 19h30, na Casa França Brasil, no Rio de Janeiro, Imaginário Coletivo é o primeiro quadrinho autoral de Rodrigues. Grande homenageado na atual edição do festival Anima Mundi, ele possui em seu currículo prêmios conquistados nos festivais de Gramado, Animage (PE), FICA/GO e no próprio Anima Mundi. Em 2012 ele ilustrou a HQ Luiz Gonzaga: Asa Branca – O Menino Cantador, roteirizada pelo escritor e historiador Maurício Barros de Castro.

Segundo os editores da DarkSide Books, as 492 páginas do primeiro quadrinho solo de Rodrigues são uma fábula sobre liberdade e força de vontade. “O leitor acompanha as aventuras de uma vaca que queria ser pássaro. Ou seria um pássaro que nasceu vaca? Durante essa viagem fantástica, é impossível não se perguntar: será que sou tudo aquilo que eu poderia ser?”, diz a sinopse da HQ.

Já o álbum de Danielo Beyruth é um trhiller ambientado no bairro paulistano da Liberdade, envolvendo samurais modernos, a máfia japonesa e o empenho de uma estudante para enfrentar fantasmas de seu passado para sobreviver à Yakuza. O livro tem lançamento previsto para a Bienal de Quadrinhos de Curitiba, em setembro. O álbum marca o retorno do autor às HQs autorais após um período trabalhando para o mercado norte-americano de HQs, assinando a arte de publicações da editora Marvel Comics.

Em sua primeira experiência com autores brasileiros, a DarkSide faz duas investidas interessantes e coerentes com a diversidade de cena nacional de HQs. Beyruth é um autor consagrado e maduro, com três álbuns publicados pelo selo Graphic MSP e domínio narrativo da linguagem dos quadrinhos. Enquanto isso, Wesley Rodrigues fez sua carreira em outro campo de atuação e pode trazer frescor e perspectivas novas sempre bem-vindas para um meio já caracterizado por sua agitação criativa. Aguardo os dois títulos com ansiedade. A seguir, páginas e capas de Imaginário Coletivo e Shirô: