Vitralizado

Posts com a tag Companhia das Letras

HQ

4ª (20/3) é dia de lançamento de Minha Coisa Favorita É Monstro, de Emil Ferris, em São Paulo

Ó, tenho um convite procê: na 4ª (20/3), a partir das 19h30, eu estarei na loja Monstra, aqui em São Paulo, na companhia do editor Emílio Fraia e da quadrinista Amanda Pachoal Miranda, para conversar sobre Minha Coisa Favorita É Monstro, álbum de Emil Ferris recém-lançado em português pela Companhia das Letras. Escrevi sobre a obra para a Folha de São Paulo e publiquei aqui no blog a íntegra da minha entrevista com a autora.

Como já andei falando por aí, é improvável que saia em português uma HQ mais singular e impactante do que Minha Coisa Favorita até o final de 2019. Por isso acredito que o foco principal da nossa conversa estará nos atributos que tornam esse trabalho tão especial. Também tenho muitas curiosidades para saber mais sobre o processo de edição e adaptação da versão nacional do quadrinho, tema que com certeza será tratado durante esse papo.

Enfim, a Monstra fica no primeiro andar do número 158 da Praça Benedito Calixto. Você encontra outras informações sobre o lançamento na página do evento no Facebook. Vamos?

Entrevistas / HQ

Companhia das Letras abre 2019 com Minha Coisa Favorita é Monstro e promete André Dahmer e Caco Galhardo

A editora Companhia das Letras promete para março de 2019 o lançamento da edição brasileira de Minha Coisa Favorita é Monstro, álbum da quadrinista americana Emil Ferris vencedor de três prêmios Eisner em 2018 e do Fauve D’Or  do Festival de Angoulême em 2019. Logo em seguida, para o mês de abril, está previsto o lançamento de uma coletânea de tiras de Caco Galhardo e depois deverá ser publicada uma coletânea dedicada à série Os Malvados, de André Dahmer.

Ainda pelo selo Quadrinhos na Cia, no segundo semestre de 2019 deverá sair a HQ autobiográfica Heimat, da alemã Nora Krug. E entre as publicações ainda sem data de publicação constam uma parceria entre Lilia Schwarcz e do Spacca com um álbum sobre Lima Barreto; um livro de Rafael Sica com roteiro de Paulo Scott; a coletânea Todo Wood & Stock, com a íntegra do trabalho de Angeli com os personagens; a também coletânea Manual do Minotauro, da Laerte; a adaptação de Os Miseráveis assinada por Marcatti; a adaptação de Laura Lannes para A Obscena Senhora D, de Hilda Hilst; e O Aleph de Botafogo, parceria da escritora Simone Campos com a quadrinista Amanda Paschoal Miranda.

No post de hoje da série de entrevistas do Vitralizado com editores de quadrinhos, compartilho um papo rápido por email com o escritor Emilio Fraia, editor do selo de HQs da Companhia das Letras. Na conversa, ele fala sobre os principais lançamentos da Quadrinhos na Cia para 2019, comenta a crise das grandes livrarias e conta um pouco da repercussão de títulos lançados em 2018 – como Sem Volta, O Idiota, A Revolução dos Bichos e A Origem do Mundo. Papo massa. Ó:


Tira da personagem Lili a ex, do quadrinista Caco Galhardo

Você pode, por favor, adiantar e comentar alguns dos lançamentos da Quadrinhos na Companhia em 2019?

O mais esperado é o Minha Coisa Favorita é Monstro, da Emil Ferris (com tradução do Érico Assis), que deve ser publicado logo mais, em março. O livro foi o grande vencedor do Eisner (além da categoria principal, de Melhor Álbum, Ferris ganhou como Melhor Colorista e Melhor Roteirista/Desenhista), venceu também o prêmio principal em Angoulême, além de ter levado o Ignatz Indie Comics Award e encabeçado todas as listas de melhor graphic novel do ano. É absolutamente genial e vem se juntar a clássicos da Quadrinhos na Cia., como Maus e Persepolis.

Em abril, vamos publicar uma reunião de tiras, cartuns e histórias mais extensas do Caco Galhardo. Vai ser uma edição bem bonita, uma espécie de best of, com todos os personagens mais famosos dele, Chico Bacon, Pequeno Pônei, Lili a ex etc., apresentação do Reinaldo Moraes, sobrecapa que vira pôster. Devemos colocar nas livrarias também o aguardado Os malvados, do André Dahmer, que é hoje um dos principais cronistas em atividade do país.

No segundo semestre, o grande lançamento será o Heimat, da alemã Nora Krug (tradução do André Czarnobai). A autora, que tem 40 anos, viveu boa parte da vida fora da Alemanha e quando regressa ao país vai em busca da história dos avós, tentar descobrir como foi a vida deles durante a guerra. Heimat é uma palavra que significa ‘pertencer’, ‘pertencimento’. Krug conta que muitos alemães da geração dela sabem pouco do que aconteceu com suas famílias nesse período. É uma história autobiográfica, um olhar novo sobre as atrocidades do nazismo, e as técnicas de desenho e colagem que a autora usa são incríveis.

Temos no horizonte ainda uma nova parceria da Lilia Schwarcz e do Spacca com um álbum sobre o Lima Barreto; o novo livro do Rafael Sica com roteiro do Paulo Scott; o Todo Wood & Stock, do Angeli; o A Batalha, do Guazzelli com roteiro da Fernanda Veríssimo; o Manual do Minotauro, da Laerte; a adaptação do Os Miseráveis, do Marcatti; A Obscena Senhora D, da Hilda Hilst, que a Laura Lannes está fazendo; O Aleph de Botafogo, parceria da escritora Simone Campos com a quadrinista Amanda Paschoal. E mais algumas surpresas.

Tira da série Malvados, trabalho de André Dahmer que será publicado em coletânea pela Companhia das Letras

Eu queria saber mais sobre a dinâmica do seu trabalho com os autores nacionais do selo. Você é escritor e já foi roteirista de uma HQ (Campo em Branco, com DW Ribatski), como tem sido o seu diálogo com os quadrinistas brasileiros com trabalhos a serem publicados pela Quadrinhos na Companhia?

Em livros como o do Caco Galhardo, por exemplo, é mais um trabalho de selecionar e ordenar o material. Mas varia muito. No momento, há um projeto (sobre o qual não posso falar ainda) que está sendo feito a partir de um diálogo muito produtivo, desde a ideia inicial, tudo. Ou seja, não tem uma regra. Cada trabalho pede um tipo de intervenção, organização e acompanhamento.

Entre as minhas publicações preferidas da Quadrinhos na Companhia em 2018 estão Sem Volta, O Idiota, A Revolução dos Bichos e A Origem do Mundo. Qual foi o retorno do público em relação a esses títulos?

Foi muito bom. A revolução dos bichos e A origem do mundo estão indo para a primeira reimpressão. A repercussão desses dois livros, praticamente sem investimento de marketing, nos deixou bastante felizes. O Sem volta foi muito comentado (foi eleito o melhor álbum do ano pelo Globo), teve uma resposta incrível nas redes. O idiota, que é uma adaptação ousada, sem falas, um trabalho sofisticado do André Diniz, tem nos surpreendido positivamente também. Agora, claro, acredito que o mercado para este tipo de HQ, de alta qualidade narrativa e que ao mesmo tempo deseja falar com um público amplo, pode crescer muito.

E em relação a jovens autores brasileiros, o selo tem em vista projetos de autoria de novos nomes da cena nacional de HQs?

Sim, temos álbuns sendo produzidos, mas tudo ainda bastante no início.

Tira com os personagens Wood & Stock, criações de Angeli que serão reunidos em uma coletânea pela Companhia das Letras em 2019

Quais as principais lições que você, como editor da Quadrinhos na Companhia, tirou da crise das grandes livrarias em 2018? Como o selo pretende lidar com essa crise em 2019?

Quadrinhos são caros para ser impressos. Então, num momento de crise, esse tipo de livro é especialmente impactado. Acho que precisamos cada vez mais encontrar a nossa comunidade, os leitores desse tipo de trabalhos. Seja através da internet, seja em eventos ou em lojas voltadas para este público  – o trabalho que figuras como o Douglas e a Dani Utescher fazem na Ugra ou o Gui Lorandi na Monstra, por exemplo, é incrível.

Como a Companhia das Letras está lidando com a chegada ao poder de um governo de extrema-direita que acabou com o Ministério da Cultura e que promete cortes em políticas públicas e sociais de fomento às artes?

Com a consciência de que o momento pede a publicação de livros inteligentes e de qualidade.

Páginas de Minha Coisa Favorito é Monstro em processo de edição nos computadores da Companhia das Letras
Entrevistas / HQ

Papo com Odyr, autor de A Revolução dos Bichos em quadrinhos: “O mundo está num momento particularmente tenso para a democracia, para a igualdade e para o livre pensamento”

Três noites antes de sua morte, o velho Major, porco premiado da Granja Solar, pertencente ao Sr. Jones, convocou uma reunião no galinheiro. Consciente de seus instantes finais de vida, ele tinha como missão transmitir o que aprendeu sobre o mundo. Seu discurso expôs a vida miserável, trabalhosa e curta dele e de seus companheiros e a identidade do inimigo verdadeiro e único de todos eles: o Homem. A proposta de Major era de rebelião, eliminar o Homem para que os frutos dos trabalhos dos animais fossem apenas deles. No entanto, o porco ponderou: “Lembrai-vos de que na luta contra o Homem não devemos ser como ele”.

Quando o escritor inglês George Orwell publicou o clássico A Revolução dos Bichos em 1945, seus alvos eram claros. A obra era uma sátira à União Soviética comunista recém-saída da Segunda Guerra Mundial e a utopia comunista proposta por Josef Stalin. A primeira adaptação da obra para o formato de histórias em quadrinhos, assinada pelo brasileiro Odyr, chega às livrarias 73 anos após o lançamento do livro de Orwell. A tinta acrílica do artista gaúcho acentua ainda mais a força das metáforas do autor britânico, mais atuais e necessárias do que nunca em anos de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos, do fortalecimento de lideranças conservadoras e xenófobas ao redor do mundo e de um Brasil correndo o risco de eleger um presidente militarista pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista.

Em seguida à morte de Major, sua proposta de revolução é colocada em prática pelos porcos Napoleão e Bola-de-Neve, protagonistas da história de corrupção e traição adaptada por Odyr. “O livro vai ser atual sempre, porque os piores instintos do ser humano vão continuar sempre existindo – o desejo por poder, a covardia da cumplicidade com esse poder e a trágica aceitação desses abusos”, afirma o quadrinista em conversa por email com o blog. Ainda assim, ele pondera que talvez seja um momento particularmente conveniente para adaptar o texto de Orwell.

“O mundo parece estar num momento particularmente tenso para a democracia, para a igualdade e para o livre pensamento. Estamos aqui obviamente sofrendo com esse vírus também, com nostalgias militaristas e fantasias ditatoriais que usam paranoia e desinformação como ferramentas, exatamente como os porcos fazem no livro”, diz Odyr. No ápice das injustiças e abusos decorrentes do sistema ditatorial imposto pelos porcos, um cavalo da Granja Solar faz um lamento que soa quase como um alerta para a nossa realidade: “Não entendo. Nunca pensei que coisas assim pudessem acontecer em nossa granja”.

-X-

O quadrinho de Odyr chega às livrarias brasileiras após oito meses de produção do autor e depois de alguns anos de negociação entre a Companhia das Letras, editora de A Revolução dos Bichos no Brasil, e os detentores dos direitos da obra de Orwell. O trabalho do quadrinista brasileiro sai em português com seus direitos já vendidos para Espanha, Itália, Estados Unidos e Inglaterra. Na entrevista a seguir, o autor fala sobre as técnicas utilizadas por ele e suas escolhas ao adaptar A Revolução dos Bichos. Ele comenta a longevidade e o apelo universal da trama do escritor inglês e a experiência de narrar um dos maiores clássicos na literatura mundial em formato de HQ. A seguir, papo com Odyr:

Autoretrato do quadrinista Odyr.

Você pode contar, por favor, como essa adaptação teve início?

Foi um convite da Companhia, que retém os direitos da obra do Orwell no Brasil.

Você lembra do seu primeiro contato com A Revolução dos Bichos?

Quando o convite surgiu, eu tive sinceras dúvidas se tinha lido o livro – é um desses livros tão onipresentes que você tem quase certeza que já leu. Mas não tinha lido quando jovem, só a adaptação do Chico Buarque, Fazenda Modelo e não lembro o quanto é fiel ou não ao original. Mas essa sensação de conhecer a história me fez tomar a decisão temerária porém acertada de aceitar sem ter lido.

Por que adaptar A Revolução dos Bichos para quadrinhos?

Eu sempre me pergunto sobre a necessidade de adaptar uma obra que funciona perfeitamente em si para outra linguagem. Mas acho que você pode criar novos leitores para o original. E oferecer uma outra experiência – no caso dos quadrinhos, tão apropriados para esse tipo de realismo mágico, você pode realmente colocar as pessoas dentro daquela experiência, mostrar a cor e a textura desse mundo onde a história acontece.

“Eu sempre me pergunto sobre a necessidade de adaptar uma obra que funciona perfeitamente em si para outra linguagem”

O livro original do George Orwell foi publicado em 1945 e esse seu trabalho é a primeira adaptação da obra para quadrinhos. Há todo um gênero de adaptações de obras literárias para a linguagem dos quadrinhos. Você vê alguma razão para Revolução dos Bichos só estar sendo transformada agora em HQ?

Não sei, aí são especulações mercadológicas – uma combinação de fatores, imagino: o prestígio crescente dos quadrinhos, os direitos da obra estarem nas mãos de um editor que visualiza essa possibilidade, encontrar o artista certo, ter o projeto aprovado pelos herdeiros… as condições certas podem não ter se materializado antes.

Você fez uso de tinta acrílica pra produzir esse trabalho, certo? Você pode explicar essa escolha, por favor?

É o material que venho usando predominantemente nos últimos anos, em minha pesquisa pessoal. Meus primeiros dois livros são feitos a nanquim, mas eu vinha sentindo uma insatisfação com a natureza tão exata do material. Pintar mudou tudo -meu desenho, minha visão da arte e do mundo. E depois de alguns anos pintando, finalmente surgiu a oportunidade perfeita para colocar a técnica em uso, num livro muito rico em oportunidades – muita natureza, todos esses fantásticos animais. E acho que serve bem ao livro, a criar uma realidade, um mundo com cor, luz, sombra, peso, textura.

“Ainda que obviamente usando uma porcentagem muito pequena do texto, não tem uma palavra ali que não seja do Orwell”

Chama atenção no livro a sua fidelidade ao texto original. Você sempre esteve decidido a reproduzir ao máximo o texto do Orwell? Por que a sua escolha por essa manutenção do texto original?

Sim, ainda que obviamente usando uma porcentagem muito pequena do texto, não tem uma palavra ali que não seja do Orwell. Também não tem grande edição da minha parte em alterar a ordem dos acontecimentos ou propor um tom diferente ao livro. Minha idéia era realmente fazer uma adaptação fiel em espírito, já que o livro me parece funcionar perfeitamente no que se propõe – as escolhas estão em cenas ou personagens cortados ou, ao contrário, em cenas expandidas. Aí entra a personalidade de quem adapta – estar mais interessado em algumas coisas, menos em outras.

Você poderia falar um pouco, por favor, sobre esse processo de adaptação e transformação de texto no combo texto+desenhos? Como foi o desenvolvimento desse projeto?

Meu processo é bastante direto, tem o mínimo de etapas possível. Me interessa demais a primeira leitura, as imagens que se formam imediatamente em sua mente ao ler, o leitor em ação. Tanto que, como tinha uma idéia geral do livro, fiz algo francamente irresponsável: fui lendo e adaptando. Minhas emoções e surpresas com o livro entrando diretamente no trabalho. Tive que fazer um tanto de pesquisa visual de referências, mas também tento gastar o mínimo de tempo nessa etapa, onde o sujeito pode se perder pra sempre na internet – tento simplesmente encontrar a referência mais próxima do que está na minha cabeça, conforme vou precisando.

Aliás, quanto tempo levou a produção da obra até o seu lançamento?

Entre as primeiras páginas produzidas como teste para serem aprovadas pelos herdeiros e o sinal verde para começar o livro se passou algum tempo, não lembro quanto, mas a realização em si foi rápida – oito meses. Tendo a ser rápido – mesmo com a pintura, faço entre uma página a duas por dia, em média.

“Tive que fazer um tanto de pesquisa visual de referências, mas também tento gastar o mínimo de tempo nessa etapa, onde o sujeito pode se perder pra sempre na internet”

Tendo passado todo esse tempo produzindo o quadrinho, qual o sentimento de vê-lo saindo agora? Eu vi um post seu no Twitter sobre o cheiro do livro. Quais são as suas sensações após todo esse período de investimento em um projeto e finalmente tê-lo em mãos?

A alegria verdadeira e duradoura pra mim está no trabalho, em estar dentro de um projeto, acordar todo dia sabendo o que você tem pra fazer, vendo aquelas páginas prontas todo dia. A alegria com o livro pronto dura dez minutos. Não vejo a hora de começar outro.

O livro do George Orwell foi escrito durante a Segunda Guerra Mundial, em um contexto de conflitos bélicos e ideológicos aflorados. Como A Revolução dos Bichos ainda se faz relevante nos dias de hoje?Você vê alguma relação do quadrinho a realidade brasileira atual?

O livro vai ser atual sempre, porque os piores instintos do ser humano vão continuar sempre existindo – o desejo por poder, a covardia da cumplicidade com esse poder e a trágica aceitação desses abusos. Mas sim, o mundo parece estar num momento particularmente tenso para a democracia, para a igualdade e para o livre pensamento. Estamos aqui obviamente sofrendo com esse vírus também, com nostalgias militaristas e fantasias ditatoriais que usam paranoia e desinformação como ferramentas, exatamente como os porcos fazem no livro.

“O livro vai ser atual sempre, porque os piores instintos do ser humano vão continuar sempre existindo – o desejo por poder, a covardia da cumplicidade com esse poder e a trágica aceitação desses abusos”

Desse período seu de envolvimento com o livro do Orwell, quais as principais conclusões e lições que você tirou da obra? Quais você considera as principais possíveis contribuições do livro dele pra nossa sociedade?

A defesa apaixonada da liberdade de pensamento e ação, do pensamento crítico como uma última linha de defesa.

Eu vi um tuíte recente seu sobre como quadrinhos são “um vírus que, se você contrai quando jovem, nunca se recupera”. Qual a memória mais antiga que você tem de quadrinhos na sua vida?

Lembro que meus avós tinham exemplares do O Gibi, que eram, além de objetos maravilhosos em seu vasto formato, uma amostragem sensacional de cartuns, tiras e quadrinhos clássicos, tanto de humor quanto de aventura. E um tio tinha um baú cheio de Asterix e Lucky Luke. Juntando isso tudo, vi grandes coisas no começo de minha formação, tive sorte.

Também sobre a sua relação com quadrinhos: o que são quadrinhos, hoje, para você?

Não sei até que ponto é uma experiência comum, mas fazer quadrinhos me tirou a vontade de ler quadrinhos. Não leio quase nada – ou não gosto da arte e não consigo ler ou gosto DEMAIS da arte e me aflige, me obceca e fico olhando tracinho por tracinho de um quadrinho até abandonar por receio de querer fazer exatamente aquilo. Então de vez em quando passo os olhos por algo, pra ver o que um colega está fazendo. Mas minha obsessão está em fazer – ali é que está a felicidade pra mim hoje.

A Revolução dos Bichos acabou de chegar às lojas e talvez essa seja uma pergunta um pouco injusta, mas você já tem algum próximo trabalho em vista?

Estou sempre fazendo cartuns e pintando quando não estou em um projeto longo – não entendo férias, não sei viver sem trabalhar – um dia sem produzir me parece perdido. Tem um livro de cartuns já na Companhia – se chama No Fundo do Poço Tem Uma Piada. Tem um outro livro de cartuns em processo. Mas a Revolução dos Bichos me lembrou da completa felicidade que é estar dentro de um projeto longo, ter uma missão, um motivo para acordar todos os dias. Quero fazer outra adaptação, ainda não me decidi por qual, mas não vejo a hora de começar.

HQ / Matérias

Charles Burns e o lançamento da trilogia Sem Volta em português

Eu entrevistei o quadrinista americano Charles Burns, autor da obra-prima Black Hole (DarkSide Books), e a conversa virou matéria de capa da edição de domingo (6/5) do caderno Ilustrada do jornal Folha de São Paulo. O papo teve como foco o lançamento da edição brasileira da trilogia Last Look, publicada em português pela Companhia das Letras com o título Sem Volta e com tradução do quadrinista Diego Gerlach. Também conversamos sobre a influência do trabalho do belga Hergé no trabalho dele, do diálogo entre Sem Volta e o clássico Black Hole e da experiência dele publicando na Europa no início da carreira. Você lê a matéria por aqui.

HQ

4ª (18/4) é dia de lançamento de O Idiota, a nova HQ de André Diniz, em SP

Você já leu a minha resenha sobre a adaptação do André Diniz para O Idiota, do Fiódor Dostoiévski? Gosto principalmente das limitações textuais autoimpostas pelo autor e da independência da HQ em relação à obra original. Por isso tudo, recomendo um pulo no evento de lançamento do quadrinho aqui em São Paulo, marcado para a próxima 4ª (18/4), a partir das 19h, na Livraria Martins Fontes, no número 509 da Avenida Paulista. Nos vemos por lá?

HQ

Repeteco: Seconds de Bryan Lee O’Malley ganha capa e título em português

Taí. Demorou bastante, mas como prometido pelo pessoal da Companhia das Letras ao Bryan Lee O’Malley, Seconds será lançado no Brasil em outubro de 2016. A capa é essa aqui em cima e o título é uma escolha ousada do tradutor Érico Assis – ainda tô aqui maquinando sobre a minha opinião em relação a Repeteco, mas faz sentido dentro do contexto no qual o termo “seconds” é aplicado na HQ. Com 336 páginas, o livro vai sair por R$59,90.

O Bryan Lee O’Malley vai viver sempre às sombras de Scott Pilgrim – que eu gosto pra caramba, mas tá longe de ser a melhor HQ de todos os tempos, apesar de ter conseguido capturar uma espécie de zeitgeist de uma geração como poucas conseguiram. Seconds vai nessa mesma onda e o resultado é excelente. É uma obra definitivamente mais elaborada e madura que Scott Pilgrim.

Ah, vale também uma lida no texto que o Érico Assis publicou no Facebook anunciando o título, ó:

“A maior dificuldade de traduzir HQ não é se adequar ao tamanho do balão. Não é escrever um diálogo que pareça gente falando, não é acertar as referências a histórias (e traduções) antigas. Também não é achar um jeito de encaixar uma equivalência a um anagrama com triplo sentido que o Grant Morrison empanqueca numa alusão a um pastiche de autor da Era de Prata. Não é ser fiel (muitas aspas) ao autor. Nem é o prazo. A maior dificuldade de traduzir HQ é a mesma (pelo menos pra mim) de qualquer tradução: achar a palavra certa para comunicar aquilo que eu quero comunicar com o impacto (potência, suavidade, ambiguidade, graça, tristeza, empatia) que eu gostaria que tivesse na cabeça do leitor – supondo qual era o impacto que o autor queria.

E aí, tá confirmado: SECONDS, do Bryan Lee O’Malley, vai se chamar REPETECO no Brasil. Imagino que surpreenda alguns. Certamente me surpreende: não é toda vez que proponho um título diferente, arriscado, e a editora aceita. No caso, sei até que a tradução foi defendida contra quem queria manter em inglês – e só tenho a agradecer ao André [Conti, editor da obra no Brasil].

Agora, POR QUE se chama “Repeteco”, vou deixar pra quem ler. E todo aquele parágrafo de introdução não é pra dizer que eu acertei, mas sim pra dizer que, nesse negócio de tradução, eu nunca sei se acertei, ou em que grau acertei ou passei longe. Leiam e, por favor, me digam.”