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“A melhor HQ de todos os tempos, hoje, para mim” – Matteo Farinella: Click and Drag

Convidei o neurocientista e ilustrador italiano Matteo Farinella para o terceiro post da seção “A melhor HQ de todos os tempos, hoje, para mim”. Responsável pelos desenhos de Neurocomic, lançado no início de 2014 pela britânica Nobrow, o Matteo roubou um pouco na brincadeira. Ele foi além do parágrafo único pedido, mas o que vale é o ótimo relato dele sobre o quadrinho escolhido. Se quiser saber mais sobre o trabalho do artista, fiz uma entrevistona imensa com ele em junho, tá aqui. Com vocês, Matteo Farinella e sua paixão pela obra de Randall Munroe:

“Há várias excelentes graphic novels que eu poderia escolher como meu quadrinho preferido de todos os tempos (todos os trabalhos do Chris Ware, por exemplo), mas no final das contas resolvi escolher um humilde webcomic. Mais precisamente a atualização número 1110 do xkcd do Randall Munroe, publicada no dia 19 de setembro de 2012 com o enganosamente simples título de Click and Drag (clique e arraste). Nela, uma clássica tira de três painéis é seguida por um quarto painel, bem maior, mostrando um personagem flutuando acima de uma determinada paisagem, lembrando como o mundo é GRANDE. Na verdade, esse último painel é apenas a ‘janela’ para um quadro imenso (com 2048×2048 pixels, 2592 maior do que o painel original), que pode ser explorado ao clicar e arrastar a imagem.

Sendo assim, esse é um quadrinho praticamente impossível de ser completamente descrito, e esse é precisamente a razão que considero uma ótima hq: pois só poderia ser um quadrinho. Não pode ser contado com palavras, não pode ser adaptado como um filme ou uma série de TV, é um quadrinho na sua forma mais pura. Click and Drag é construído a partir do conceito do ‘quadro infinito‘, originalmente proposto pelo Scott McCloud. No entanto, o Randall Munroe – ao contrário de muitos autores antes dele – não impõe ao leitor uma rota, não guia com mapas estranhos ou ferramentas de navegação (na verdade, não há qualquer indicação que o painel é navegável além do próprio título). Ele permite que os leitores se percam no quadro e vivam o prazer da descoberta, que é a verdadeira ‘mensagem’ do quadrinho, um tema recorrente em xkcd e um denominador comum entre arte e ciência (sendo que o Munroe é um ex-funcionário de robótica da NASA). Click and Drag é um linda tentativa de recriar esse sentimento complexo: a partir de uma perspectiva limitada do cenário, a rolagem infinita não permite saber onde exatamente você está no quadro (e o real tamanho dele), as vezes passando por vários enquadramentos vazios, até encontrar um pequeno instante de ação e seguir seu caminho. Em apenas um único (e gigante) painel, o Munroe consegue ser engraçado e profundo, provando – quase literalmente – o potencial quase infinito das histórias em quadrinhos.”

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PS: além do próprio Click and Drag, recomendo dar uma conferida nessa versão aqui do trabalho do Randall Munroe. Dá pra entender ainda melhor tudo que o Matteo quis dizer.

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“A melhor HQ de todos os tempos, hoje, para mim” – Guilherme Kroll: Os Invisíveis

Depois do Jeffrey Brown escolher o seu “melhor quadrinhos de todos os tempos, hoje”, o parágrafo da vez é assinado por Guilherme Kroll, um dos sócios da Balão Editorial. A eleita dele talvez seja a obra-prima do escritor escocês Grant Morrison, Os Invisíveis. Como o Guilherme bem lembra, os três primeiros volumes da série acabaram de ser relançados no Brasil pela Panini. Ó o que ele escreveu pro blog:

“Em 2002 eu descobria os quadrinhos ditos adultos, especialmente os do selo Vertigo. Caiu na minha mão nessa época ‘Os Invisíveis’, trabalho de Grant Morrison sobre uma unidade terrorista que lutava contra um inimigo invisível: o sistema corrupto. A HQ lidava com pirações metafísicas, teoria da conspiração, abduções alienígenas, avatares, viagens nos tempo e tudo mais que agradaria um moleque de 18 anos na época. Mas então a editora que publicava o título faliu, não terminou o gibi e eu fiquei a ver navios. Sempre que podia, voltava à obra, mas nunca me empenhei em ler as versões gringas. Com o tempo, meio que esqueci da HQ até que a Panini a retomou, já em 2014. Pensei com receio que tudo lá dentro pudesse ter envelhecido mal, mas quando a reli, foi como encontrar um velho amigo repleto de ideias piradas. Rapidamente, a publicação antiga foi alcançada e em breve lerei material inédito (pra mim) de ‘Os Invisíveis”, o que aguardo ansiosamente. Por isso, ‘A melhor HQ de todos os tempos, hoje, para mim’ é ‘Invisíveis’.”

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“A melhor HQ de todos os tempos, hoje, para mim” – Jeffrey Brown: Small In the Saddle

Começo hoje uma seção nova por aqui. Convido artistas, jornalistas, editores, amigos e leitores para escreverem, em um parágrafo, sobre o quadrinho que eles consideram ser, naquele instante, o melhor de todos os tempos. Inicio a brincadeira com uma celebridade internacional do mundo dos quadrinhos, o norte-americano Jeffrey Brown. Autor do blockbuster Darth Vader & Son, Brown fez seu nome como autor de publicações independentes como Clumsy, Unlike e Little Things. Dá pra conhecer mais sobre o artista na entrevista que fiz com ele no começo do ano. Segue o parágrafo que o Jeffrey Brown escreveu para o blog:

“De certa forma, acho meio tolo tentar e escolher o melhor livro de todos os tempos, pois o estado de espírito conta bastante – eu poderia ficar indo e voltando entre meia dúzia de livros até lembrar de uma outra graphic novel que também deveria ser considerada. Então a obra que vou escolher, que na verdade pode ser mais um livro ilustrado do que uma história em quadrinho, é Small In the Saddle, do Mark Alan Stamaty, uma história incrivelmente detalhada e muito criativa que dificulta qualquer tentativa de resumo. O enredo gira em torno de um cowboy baixinho que monta uma equipe para capturar uma gangue de cowboys sacanas, mas o que torna o livro tão impactante são os detalhes e o humor bizarro – centenas de piadas escondidas nos cenários, trocadilhos, brincadeiras com as palavras e personagens que não parecem muito normais. Infelizmente o livro não está mais em circulação, mas um livro semelhante e mais famoso do Stamaty está disponível, Who Needs Donuts?. O que torna esse o melhor livro pra mim não é apenas o fato dele ainda ser engraçado e uma leitura fascinante, mas por ser um dos livros – se não for ‘o’ livro – que descobri quando criança e me inspiraram a desenhar e ser um autor.”

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