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Papo com as editoras da revista A Criatura: “Tendo em vista a conjuntura política atual, surge a urgência de reafirmação da potência revolucionária das publicações independentes”

Está marcado para as 14h de domingo (16/12), em Belo Horizonte, o lançamento da revista A Criatura. A publicação é editada pelas artistas Clarice G. Lacerda, Ing Lee e Maria Trika e reúne o trabalho de 29 mulheres em homenagem ao aniversário de 200 anos do clássico Frankenstein ou O Prometeu Moderno, de Mary Shelley. Você confere outras informações sobre a festa de lançamento da revista na página do evento no Facebook. Além de um bate-papo com a presença das três editoras e de algumas das artistas presentes na publicação, o evento contará com uma exposição de trabalhos impressos na revista e show da banda Não Não-Eu.

As 76 páginas em preto e branco de A Criatura apresentam trabalhos de 29 artistas de estilos e origens distintos, além das três editoras e da responsável pelo projeto gráfico da publicação. A obra também marca a estreia do selo A Zica – capitaneado pelos editores da revista homônima que recentemente chegou ao seu quinto número.

Enviei algumas perguntas por email para Clarice G. Lacerda, Ing Lee e Maria Trika perguntado sobre o projeto. As três falaram sobre a origem d’A Criatura, justificaram a decisão de homenagear a obra-prima de Mary Shelley, trataram do processo de edição da revista e ressaltaram a importância de uma publicação independente composta apenas por trabalhos de artistas mulheres em um contexto de conservadorismo aflorado no país. Reproduzo a seguir a lista com os nomes das 33 artistas envolvidas na produção d’A Criatura e, em seguida, a íntegra da minha conversa com as três editoras da publicação. Ó:

(na imagem que abre o post, trabalho da artista Abajur presente na revista A Criatura)

Qual é a origem da Criatura? Como esse projeto teve início?

Maria Trika: A Criatura partiu de um convite dos meninos d’A Zica zine, que tinha acabado de lançar sua quinta edição através de um financiamento coletivo. O financiamento arrecadou mais do que o necessário e por isso eles decidiram investir no selo A Zica, com o objetivo de expandir e incentivar outras publicações independentes, com um recorte específico. Daí os meninos selecionaram eu, Ing e Cla para mergulharmos nessa e editar a publicação com total autonomia, sendo idealizada e realizada exclusivamente por mulheres, com o apoio financeiro d’A Zica.

Clarice G. Lacerda: Como a Maria colocou, A Criatura surgiu por um convite dos editores d’A Zica. Como felizmente a meta do financiamento coletivo foi inclusive ultrapassada, e tendo os editores recebido críticas sobre um desequilíbrio entre o número de artistas mulheres x artistas homens selecionadas para A Zica #5, optou-se que esta outra publicação, primeira a ser lançada pelo selo A Zica, fosse produzida apenas por mulheres. Em nosso primeiro encontro, os editores da Zica nos sugeriram um viés de trabalho que abordasse a colagem, ou o remix, como me lembro do João Perdigão dizer. E havia também a questão histórica: 2018 marcava o aniversário de 200 anos da criação do Frankenstein ou O Moderno Prometeu, da Mary Shelley. Colocado isso na reunião geral, eu, Ing e Maria seguimos com a conversa, pensando os possíveis de um modo feminino de trabalho, e nos perguntando o que poderia significar isso editorialmente. Conversamos um bocado sobre a obra literária e a autora que optamos por homenagear, era muito impactante pra nós imaginar uma jovem inglesa criando aquela narrativa duzentos anos atrás! Entendemos que esse monstro nunca teve nome próprio, e assim batizamos nosso projeto com o mesmo termo utilizado para nominar tal ser, assim surgiu A Criatura. Nos pareceu instigante pensar as relações entre o clássico, pioneiro da ficção científica, e as muitas formas como seguimos com o desafio de criar, de forma contínua, as mulheres que queremos ser. Decidimos que nossa metodologia de trabalho com A Criatura seria distinta daquela adotada pela A Zica, não nos interessava receber trabalhos prontos para selecionar. A chamada aberta que lançamos era sobretudo um convite ao encontro, ao diálogo, às trocas possíveis quando afirmamos o lugar de fala de cada uma. O desejo era de partilhar leituras e olhares sobre o Frankenstein, enxergar como o livro poderia reverberar hoje, como a obra, produzida num contexto tão distinto do nosso, poderia gerar ligações com o que está sendo produzido contemporaneamente por um grupo heterogêneo de mulheres.

“É uma afirmação da vida e de suas potencialidades tratar as dores que se carrega como combustível para criação de algo”

Trabalho de Paula Puiupo presente na revista A Criatura

Por que homenagear a Mary Shelley e os 200 anos da publicação de Frankstein?

Ing Lee: A obra dela foi inegavelmente um grande marco para a história da ficção científica. A narrativa de Frankenstein teve diversos desdobramentos ao longo de todos estes anos, possuindo relevância até os dias de hoje, por ser uma história que não apenas refletia os anseios de seu tempo, como também questões inerentes à existência humana, ou, ainda, como se lida com a diferença e o lugar do ‘outro’ na sociedade, cujas estruturas de poder marginalizam individualidades consideradas fora da norma vigente.

Maria Trika: Motivos não faltam, na minha opinião. Mary Shelley além de ser uma grande escritora, foi uma das poucas mulheres autoras (mas não foi a única, vale ressaltar outras precursoras como Ann Radcliffe e Jane Austen) da Literatura Gótica, durante o século 19, criando uma de suas maiores obras. Além disso, pessoalmente, tenho grande fascínio por Frankenstein, por suas peculiaridades perante aos demais clássicos sobre monstros, devido ao fato de sua monstruosidade estar relacionada diretamente a questões mais internas e abstratas como a memória, o olhar e a concepção de determinados conceitos como corpo, vida e morte.

Clarice G. Lacerda: Como a Ing colocou, a homenagem se justifica pela relevância que o livro tem ainda hoje, que o torna tão atual, pela muitas formas como ainda é possível acessá-lo e tecer caminhos de reflexão. Trata-se de uma narrativa densa, que coloca a relação morte-vida em primeiro plano, como colocado pela Maria, que não esconde o lado mais escuro, sombrio e monstruoso que todas nós temos. A narrativa trata do gesto da criação de uma forma não idealizada, mas sim problematizada eticamente, apontando as motivações e os perigos de uma ambição desmedida em desvendar os mistérios, quando há desejo excessivo de controle e poder. Mary Shelley me parece ter elaborado muitos aspectos de sua biografia, rica em doloridos desafios, na produção desta obra, e isso para mim é de relevância ímpar, de valor atemporal. É uma afirmação da vida e de suas potencialidades tratar as dores que se carrega como combustível para criação de algo, e não para a mortificação ou vitimização paralisante do sujeito. Nos debruçarmos sobre a trajetória da autora e mergulharmos em sua obra foi uma oportunidade de atualizarmos esse gesto afirmativo perante a realidade, especialmente quando vivenciávamos um período eleitoral bastante cruel. Foi uma chance de reformularmos perguntas juntamente com as artistas e a publicação é um conjunto de respostas possíveis, são trabalhos que nos colocam diante de mulheres que existem por que criam, resistem, insistem. Mulheres cheias de coragem, que estão abertas a enxergar e encaram de frente o monstro.

O evento de lançamento da revista A Criatura está marcado para o dia 16 de dezembro de 2018 em Belo Horizonte

Vocês podem falar um pouco, por favor, sobre o conteúdo d’A Criatura? Que tipo de trabalho está presentes na revista? Não é uma publicação exclusivamente de quadrinhos, correto?

Ing Lee: A publicação não se limita aos quadrinhos, abrangendo fazeres artísticos que vão desde as artes gráficas até a escrita. Tivemos inscrições de artistas de trajetórias bastante distintas e chegamos a selecionar algumas que trabalham com performance, que se interessaram pelo nosso projeto e se propuseram a experimentar outras linguagens.

Maria Trika: Correto. A publicação não é exclusivamente de quadrinhos. Na real, o conteúdo da revista é uma diversidade de trabalhos artísticos de mulheres que admiramos, que acreditamos na potência dos trabalhos e que teriam haver com a proposta d’A Criatura.

Clarice G. Lacerda: O conteúdo dA Criatura é muito heterogêneo, o que reflete também a equipe editorial formado por nós três. O grupo é formado por artistas de idades e localidades diferentes, que investigam linguagens e modos distintos de produção, o que colaborou para riqueza e potência da publicação, que contempla a diversidade, tramando relações entre singularidades. Em tempos de ‘outrofobia’ (citando um autor, Alex Castro) essa convivência editorial me parece ter grande relevância, para não dizer que se trata de uma proposição necessária.


“O conteúdo da revista é uma diversidade de trabalhos artísticos de mulheres que admiramos”

Trabalho da artista Si Ying Man presente na revista A Criatura

Vocês podem comentar, por favor, o processo de curadoria da revista? Como vocês chegaram nessas 33 artistas que tiveram trabalhos impressos nessa primeira edição?

Maria Trika: A ideia da curadoria das 29 artistas se deu da seguinte forma: após diversas conversas entre nós, as editoras, optamos por fazer abrir uma chamada para mulheres – cis e trans – artistas. No entanto, ao invés de analisarmos trabalhos já prontos, pedimos as candidatas que enviassem seus portfólios e uma ‘carta de intenção’ (só que sem tanta formalidade hahaha) dizendo porquê gostariam de participar d’A Criatura. Optamos por essa forma por acreditarmos em um processo mais harmonioso, cuidadoso, subjetivo e acolhedor, já que desde o início fez-se claro que A Criatura demandaria um trabalho em conjunto, diferente dos moldes normativos (estabelecidos, em boa parte – se não por inteiro – por homens brancos héteros, seguindo uma lógica quase que fálica de lidar com as coisas), que aparentemente, levam o título de alcançarem maior ‘produtividade’.

Ing Lee: Assim como a Maria disse acima, optamos por um processo diferente do que A Zica propõe: ao invés de selecionarmos pelos trabalhos já feitos, selecionaríamos primeiramente as artistas e só assim se iniciaria a feitura dos trabalhos para a publicação, que foi acompanhada de uma forma mais individualizada e levando em conta as particularidades de cada uma. Foi um processo que nós editoras pensamos ser mais acolhedor e visando estabelecer um vínculo mais próximo das artistas envolvidas.

Clarice G. Lacerda: 33 é o total de mulheres da equipe: três editoras, eu, Ing, Maria; Ana Paula Garcia, artista gráfica que integrou a equipe; e as 29 mulheres criadoras. Na real selecionamos 30 mulheres a partir da chamada aberta, mas uma delas optou por se dedicar integralmente à campanha do Haddad depois do resultado do segundo turno da eleição presidencial. Daí ficamos com esse número meio curioso, 29, pois não havíamos selecionado suplentes. Como Ing e Maria disserem, a seleção foi feita a partir da análise das trajetórias e pesquisas das inscritas, recebemos 95 inscrições no total. Levamos em consideração a relação entre o percurso de cada uma com o universo técnico e simbólico da colagem, e as conversas possíveis com questões que nos interessavam na leitura do Frankenstein. Como cada editora tem um perfil muito distinto, ponderamos juntas para chegarmos num grupo que contemplasse as diferenças que já identificávamos entre nós três.


“O resultado final da publicação é uma evidência da consistência que essa escolha editorial mais afetiva proporcionou para A Criatura”

Trabalho de artista Maira Públio presente na revista A Criatura

Vocês podem falar um pouco, por favor, sobre o processo de edição da revista? Como foi o trabalho de editar e reunir todas as publicações que vocês receberam?

Clarice G. Lacerda: Não recebemos publicações. As inscritas nos enviaram portfólios, sites pessoais, etc., para que pudéssemos conhecê-las um pouco. Cada editora teve a chance de se posicionar criticamente diante da trajetória das inscritas, e assim chegamos no grupo de 30, que depois passou a ser de 29. Confiamos nas mulheres que selecionamos, confiamos na abertura ao diálogo, confiamos em nós mesmas, e isso se refletiu na riqueza do processo editorial. Depois da seleção, fizemos uma reunião geral com todas as selecionadas, antes delas produzirem os trabalhos para A Criatura. Nesta ocasião, já havíamos definido o formato estrutural do projeto gráfico, que foi apresentado para o grupo: cada mulher criadora ocuparia o espaço de uma lâmina, frente e verso, e faria também uma parte do corpo, a ser escolhida livremente, para um pôster que a Ana Paula Garcia, nossa artista gráfica, iria compor. A publicação é na verdade um bloco, composto por este conjunto de lâminas, e um pôster que, dobrado, funciona como sobrecapa. É um corpo gráfico formado por partes distintas, que pode ser fragmentado de acordo com o desejo do leitor. Cada parte tem sua autonomia – tanto no bloco como no pôster –, e o conjunto conforma uma composição inusitada, tem um estranhamento ali que nos conecta muito com a ideia do monstro, da criatura da Mary Shelley. O bloco é formado por esses encontros, um tanto ocasionais, pois seguimos a ordem alfabética para ordenação das lâminas. Ao longo do processo criativo, dividimos o grupo das 29 selecionadas entre as três editoras, e assim pudemos dar assistência direta e ter uma interlocução mais próxima com as mulheres em seu processo criativo. Foi essencial esse tipo de metodologia pautada no acolhimento e no diálogo, sinto que o resultado final da publicação é uma evidência da consistência que essa escolha editorial mais afetiva proporcionou para A Criatura.

Maria Trika: Acredito que a Cla pode dizer melhor sobre isso, por ter mais experiência nessa questão. Talvez, eu consiga dizer mais sobre o processo afetivo, desde sua concepção, já estava estabelecido que A Criatura lidaria com muita pluralidade, por tratar-se de sensibilidades, subjetividades e, literalmente, corpos diferentes unidos para criar um só – que seria a publicação. Diante desse fato, nos, editoras, optamos por transformar essa união em potência de vida e não de morte. Transformar em vida, a junção de várias partes mortas (não necessariamente), como acontece com a criatura do livro. A partir daí, o processo foi de muita paciência, dedicação, respeito e aprendizado. Digo por mim, mas isso foi extremamente desafiador em certos momentos. Cada um habita o mundo de um jeito e fazer com que a diversidade mantenha-se enquanto potência, exige que a gente se flexibilize em alguns pontos, se desapegue de outros, resista em alguns momentos, fale e, principalmente, pare para ouvir e olhar o outro – de fato – (taí algo revolucionário, na atual conjuntura mundial e brasileira). E essa movimentação-dança entre sua existência e a do outro já é um aprendizado imenso, agora imagine isso enquanto ponto de partida para criar algo-outro corpo-mundo.

Quais as principais expectativas que vocês tinham em relação à revista e o que mais surpreendeu vocês em relação ao resultado final?

Clarice G. Lacerda: Eu tinha a expectativa de que uma metodologia editorial baseada em acolhimento, empatia, diálogo e reflexão conjunta gerasse uma publicação consistente, que desse um passo além, e mais aprofundado, em relação ao lugar comum, e um tanto simplista, que costumamos tratar a ideia de monstruosidade. O que me surpreendeu foi a maneira generosa e engajada como as mulheres realmente toparam encarar de frente a tarefa, enquanto atravessávamos um período de muita instabilidade no Brasil, a coragem do grupo em superar os efeitos deste terror e se afirmar criativamente no mundo chega a me dar arrepios. Os trabalhos d’A Criatura demonstram uma disposição, um fôlego para desmontar e reordenar formas de encarar ‘o lado mais negro’ que me chega como sopro de lucidez e saúde num contexto apinhado de perversidades. É muito bom se surpreender com a força feminina, dá uma esperança e um aconchego, estamos juntas e somos fortes.

Ing Lee: Nunca tive experiência como editora antes, então pra mim tudo foi muito novo e diferente, não tinha muito como prever o que sairia dali, mas desde o início fiquei bem animada com a proposta! O resultado final foi incrível, fico feliz por poder participar de uma iniciativa que abre espaço para várias mulheres criadoras de lugares e vivências tão distintas entre si. Tivemos a presença de artistas mais experientes e outras mais novas, combinação que deu super certo e que foi muito gratificante.

Maria Trika: A gente sempre se surpreende quando a ideia torna-se corpo, né?! E nesse caso a surpresa foi enorme, não por esperar menos das meninas ou algo assim, muito pelo contrário. A surpresa se deu porque ficou ‘lindimais’ e sentir esse encantamento, orgulho e admiração de uma só vez surpreende a capacidade de sentir da gente.


“Não estamos reafirmando um suposto feminino docilizado e bem comportado, estamos revelando o monstro, olhando ele nos olhos, arrancando suas vísceras e fazendo arte com elas, criando outra coisa, parindo o novo”

Trabalho da artista Elisa Carareto presente na revista A Criatura

A revista está saindo às vésperas da posse de Jair Bolsonaro na presidência e em um contexto de conservadorismo crescente no país. Qual vocês consideram o papel potencial de uma publicação independente como A Criatura, editada por mulheres e com obras apenas de mulheres, dentro desse cenário catastrófico?

Clarice G. Lacerda: Como disse antes, A Criatura, em seu próprio processo de criação, já refletiu muito uma das respostas que nos foi possível dar para esse tipo de cenário. Para mim, a catástrofe, como tudo, é transitória. Não creio ser produtivo exaltar uma narrativa dramática, de lamento e vitimização. Enxergo nesses momentos de crise uma oportunidade de desmoronamento e renascimento únicas, é um presente dependendo da forma como optamos encarar e nos posicionar diante da dor e do horror, que são essencialmente parte da vida desde que o mundo é mundo. Aqui reside a beleza da escolha e do livre arbítrio, do sujeito que é autor real de sua narrativa de vida singular. Sinto que a escolha do Frankenstein e a escuta da voz de Mary Shelley foram muito acertadas para esse momento. Não estamos reafirmando um suposto feminino docilizado e bem comportado, estamos revelando o monstro, olhando ele nos olhos, arrancando suas vísceras e fazendo arte com elas, criando outra coisa, parindo o novo. A potência do feminino, para mim, está muito nisso, no dom de gestar a vida no escuro das entranhas, de suportar a dor dilacerante para dar à luz ao outro. É a beleza da cadela lambendo a cria recém-nascida e comendo a própria placenta para ter energia e assim gerar o leite que amamentará a ninhada. O amor é também escatológico, tudo que vive gera resto. Falo da gestação, do parto e da criação como forças simbólicas, para além daquela fisiologia literal. É a força enlaçada da vida e da morte, pulsantes nisso que nada nem ninguém poderá calar, como dizem algumas mulheres que muito admiro, a força que faz o novo vir é inegociável. É isso, diante do horror, a nossa resposta foi criar A Criatura, e ela veio em bloco.

Ing Lee: Não é de hoje que corpos racializados, LGBTQ+, periféricos, de mulheres e pessoas com deficiência sofrem com marginalizações… A luta segue como sempre seguiu, ela é contínua e forte. Mas é preciso repensar e redefinir estratégias de resistência. Tendo em vista a conjuntura política atual, surge a urgência de reafirmação da potência revolucionária das publicações independentes. Penso esta postura não somente em relação à nossa Criatura, mas para o cenário independente como um todo, que é justamente buscar meios de resistir por meio da união e acolhimento, priorizando a circulação dos trabalhos e ocupando espaços.

Maria Trika: A resposta é meio manjada já né. As mulheres, xs negrxs, LGBTQ+ e as pessoas periféricas, representam tudo que o governo que o dito novo presidente da república, ou pelo menos a imagem dele, é contra, que matar, aniquilar, violentar, oprimir e repreender. Por isso A Criatura já é parida no mundo calcada com o signo de resistência.


“É muito bom se surpreender com a força feminina, dá uma esperança e um aconchego, estamos juntas e somos fortes”

Há planos para que A Criatura seja uma publicação periódica? 

Clarice G. Lacerda: Estou completamente dedicada à parir, como o devido cuidado e rigor, essa Criatura que será lançada muito breve. Não gestamos gêmeos, vai vir um ser só por agora. O depois, é sempre um mistério.

Ing Lee: Por enquanto não temos nenhuma previsão disso. Não vejo sentido em uma continuidade d’A Criatura em si, mas espero que nossa publicação engatilhe novas articulações do gênero e estou sempre aberta à novas propostas!

Maria Trika: Isso ainda não foi conversado formalmente, mas nunca se sabe.

A capa e a 4ª capa da revista A Criatura