Vitralizado

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Sábado (19/05) é dia de lançamento de Todos os Santos e papo sobre Tungstênio com Marcello Quintanilha e Heitor Dhalia em São Paulo

Ó, uma dica de programão pra sábado (19/5) caso você esteja em São Paulo: o quadrinista Marcello Quintanilha estará na sede da editora Veneta (R. Araújo, 124, 1º andar, República), a partir das 15h, para o lançamento do álbum Todos os Santos e para bater um papo com o cineasta Heitor Dhalia e os escritores e roteiristas Marçal Aquino e Fernando Bonassi sobre a adaptação para o cinema da HQ Tungstênio. O filme dirigido por Dhalia está previsto para chegar aos cinemas brasileiro em junho e já vi uns bons elogios sobre a produção. Você confere outras informações sobre o lançamento e a conversa lá na página do evento no Facebook.

Aliás, apesar de estar bem curioso pra assistir essa versão de Tungstênio para o cinema, recomendo sua presença no evento de sábado principalmente por causa de Todos os Santos. Ainda estou lendo o livro, mas adianto que é um projeto editorial muito bem sacado, fazendo um panorama da carreira de um dos quadrinistas mais interessantes do mundo hoje. Deixa passar esse não, viu?

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Raquel Vitorelo e a produção do segundo número da Série Postal 2018

A quadrinista Raquel Vitorelo reuniu um vasto conteúdo mostrando os bastidores da produção do segundo número da Série Postal 2018, o quadrinho Crônica. Assim como faço desde o início do projeto, eu vou publicando ao poucos esse material no site da coleção e depois reúno aqui no Vitralizado a íntegra do depoimento da autora e parte do material de making-of. Aliás, vale demais um pulo na página para conferir todas as imagens e rascunhos disponibilizados pela autora. E também recomendo uma visita ao site da Raquel, uma das autoras que mais chama a minha atenção na cena brasileira de quadrinhos. A seguir, Raquel Vitorelo e a produção do segundo número da Série Postal 2018:

“É uma proposta bem diferente, né? O postal tem um tamanho muito restrito. Ao mesmo tempo, isso é bem bacana, quando as coisas ficam livre demais é ainda mais difícil de pensar. Quando eu recebi o convite pra participar do projeto eu deixei um pouco essas limitações do suporte cozinhando na minha cabeça e pensei principalmente em algumas ideias que eu tinha pra quadrinho, assuntos que eu queria tratar e de qual forma eles poderiam ser melhor aproveitados pelo suporte”

“Gostar de brincar com o formato deve ter algo a ver com os meus pais, que são arquitetos. Eu cresci com eles trabalhando e eu achando que eles estavam brincando. Eu acho bacana brincar com os limites da linguagem, o papel, a dobra e como essas coisas também conversam ou não com a narrativa. Acho que não tem sentido não ter um significado narrativo algo que seria interessante de tratar. Por exemplo, no Perigeu eu fiz muitos testes aqui em casa pra ver se fazia sentido imprimir essa história num papel mais transparente”

“Já o Tomboy era uma ideia que eu tinha quase de um manifesto, uma espécie de perfomance de alguém falando com o leitor, diretamente. Uma coisa que eu gosto no Tomboy, que a princípio achei que era um defeito, mas acabei gostando, é que muita gente pega pra ler e não sabe direito por onde começar ou pra qual lado ir. De alguma forma, as pessoas acabam se cativando pelo discurso, completamente direto e pessoal pro leitor. Tentei fazer de uma forma que a própria ordem da dobra desse a ideia da ordem de leitura. É uma coisa meio linear, mas que também faz sentido se forem apenas alguns quadrinhos separados”

“Eu tentei brincar um pouco com uma falta de linearidade, misturando as legendas… Eu estava pensando nisso esses dias e me falaram uma coisa interessante: a minha proposta com esse quadrinho foi justamente misturar as legendas com as imagens que não estavam de acordo, quase como um jogo da memória em que você tem que achar o par, sabe? Essa foi a minha forma de lidar com essa linearidade meio que imposta. E eu também queria remeter um pouco aos quadradinhos do calendário, tem um diálogo interessante com as doenças crônicas, na verdade o meu tema”

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“Eu estava falando com a minha mãe e ela sugeriu que daria pra ler os quadrinhos do postal em uma outra ordem. Foi engraçado ela sugerir isso, algo que eu nunca tinha reparado. Eu estava lendo recentemente sobre os requadros no Japão, nos mangás. Tem uma pesquisadora americana que mora no Japão há muitos anos e ela reparou que as páginas de mangá no Japão nunca tem uma encruzilhada. Como no Japão eles têm uma leitura da direita pra esquerda e de cima pra baixo, eles não têm uma hierarquia do que vem primeiro, se é na horizontal ou na vertical. Eles evitam as encruzilhadas para a ordem de leitura ficar mais evidente. O quadrinho que eu fiz foi com régua, direitinho, cortando na metade as proporções e tal e é isso que permite que ele tenha uma leitura meio diversificada. Foi algo que não pensei muito, mas vendo agora acho que ficou bacana, passa essa ideia eterna de dor e sofrimento da qual você não pode sair (risos)”

“Tem muita coisa que fazemos de forma intuitiva e isso que é legal em quadrinhos – em outras formas de expressão também, mas principalmente em quadrinhos: as leituras ficam muito abertas, existem muitas coisas que escrevemos e só descobrimos depois com a leitura de outras pessoas”

“Esse espaço mais limitado do cartão postal me fez pensar que eu conseguiria tratar bem essa questão da repetição e de uma calendário eterno dentro desse formato. O outro tema que eu tinha pensando não ia nessa proposta, era algo muito diferente. Acho que de vez em quando a gente saca umas pautas que estão em alta, mas entre tratar de uma pauta de um jeito ruim e não tratar da pauta, eu prefiro não tratar”

“Hoje eu acho que escolhi muito bem a cor, ainda mais com essa laminação fosca que ficou muito dá hora (risos) A ideia era que o postal tivesse uma cor vibrante, quase irritante mesmo. Eu não sei até que ponto posso dar spoilers, mas durante todos os quadros eu trato um pouco dos sintomas que eu tenho, eu tenho muita sensibilidade à luz. Enquanto eu desenhava, fui percebendo que o desenho estava mexendo com os meus sintomas e gatilhos”

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“A primeira versão que eu fiz foi azul, um azul bem escuro que passava uma sensação completamente diferente, meio triste, e não era isso que eu queria passar. Sem contar que estava mais convencional. Acho que seria interessante colocar uma cor ironicamente alegre (risos). Esse amerelão tem um pouco das versões em verde e vermelho, que eu também fiz. Esse contraste das cores complementares dá uma sensação agressiva, acho que essa é a palavra”

“Eu fiquei olhando em volta e pensando em coisas do meu dia a dia, completamente cotidianas, mas permeadas pela presença constante de uma doença. Pensei em coisas que não remetem necessariamente a um sintoma, mas fazem parte de uma existência conjunta com essa experiência de uma doença crônica”

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“Eu tenho enxaqueca crônica. Muitas pessoas têm enxaqueca e não sabem muito bem como lidar com isso. Eu tenho pesquisado muito a respeito e descobri que é uma das principais causas de invalidez no trabalho no mundo. As pessoas não têm muita noção que é um distúrbio muito comum, muita gente acha que não é nada demais e relativiza o problema”

“Eu costumo desenhar as coisas no papel, com lápis e lapiseira. Eu peguei o verso de um papel usado. Fiz um esboço e passei a limpo em um papel vegetal. Usei um grafite 0.9. Sempre trato no Photoshop, as cores são Photoshop. Eu faço muita mistureba, gosto de escanear muita coisa e vou mexendo milhões de vezes. Essas cores finais, primeiro eu pintei com um brush e fui mexendo nas configurações dele, de forma que ele misturasse as cores conforme a pressão da caneta do tablet. Depois eu manipulei as cores até elas ficarem mais saturadas e deu nisso”

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“Eu tive que refazer algumas vezes as letras, fiquei com medo de não dar leitura, por ser manual e tão pequenininha. Geralmente eu tenho esse receio. Eu sou designer e gosto de letras pitititicas, mas tem sempre o risco das pessoas não conseguirem ler. Fiquei fazendo vários testes. Primeiro eu escrevi a lápis, mas como o lápis tem essa textura meio ruidosa, ficou sujo demais. Aí refiz tudo no Photoshop também”

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Clean Break passado a limpo #1: Felipe Nunes e as origens de sua próxima HQ

O quadrinista Felipe Nunes colocou no ar no Catarse a campanha de financiamento de seu novo quadrinho. Batizado de Clean Break, o projeto é o primeiro do autor em seguida aos sucessos Klaus, Dodô e O Segredo da Floresta. Desenhado com o preto e branco de alto contraste já característico de Nunes e com personagens antropomorfizados, o quadrinho é protagonizado pelos agentes do Departamento de Causas Vulgares da Cidade Velha, Alberico DeLucca e Silas Cástan, com o auxílio da jovem recruta Tarsila Kopf. O trio investiga um crime em um mundo no qual o açúcar foi proibido e a população vive a ditadura de um estilo de vida inflexivelmente saudável.

Eu já li uma primeira parte do álbum e acho muito promissor o universo que Nunes está construindo. Clean Break rompe com as tramas primariamente infantis dos três trabalhos prévios do autor e explicita a vontade dele em investir em outros temas, gêneros e estilos. A partir de hoje dou início a uma série de posts nos quais Nunes fala um pouco sobre as origens, as inspirações e o desenvolvimento da HQ. A seguir, Felipe Nunes:

Clean Break passado a limpo #1: Felipe Nunes e as origens de sua nova HQ

“Não me lembro exatamente em que momento da minha carreira eu decidi contar o tipo de história que vinha fazendo e que me colocou numa luz maior (Klaus e Dodô), mas por um tempo eu acreditei firmemente naquilo. Conseguia ver a maneira de fazer meu trabalho, os objetivos que buscava ali e me sentia confortável coordenando histórias de aparência inocente que tratassem de temas sérios – e tentando não ser tão didáticas quanto a maioria das coisas que via no gênero”.

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“Entre o fim do Dodô e o término de O Segredo da Floresta, tive um limbo de quase um ano sem escrever nada e foi onde passei pelas maiores mudanças da minha vida. Ali, construí parâmetros por inúmeras situações e ciclos que me fizeram mudar profundamente como pessoa, e naturalmente senti que começava a ver um cenário possível pra tentar arriscar outros tipos de história que gostava e consumia muito no cinema e na literatura, mas achava que nunca poderia contar (principalmente sci-fi, noir e suspense psicológico)”.

“Já tinha tido uma outra idéia (mencionada na entrevista pro Quadrinhos pra Barbados) que flertava com um romance adulto com crimes e cheguei a escrever 150 páginas e fazer mais de 70 em thumbnails, ou seja, um gibi pronto que nunca acabei – mas ali senti que conseguiria trabalhar em função da LINGUAGEM, e não dos meus gostos – ou seja, me desdobrar com narrativa, composição, design de personagem e o que fosse pra conseguir desenhar e contar o tipo de história que quisesse) e essa idéia era bem semelhante em núcleos, mas comecei a flertar com distopias e acabei chegando nessa conclusão – eu queria contar uma história policial, de investigação, eu tinha um bom cenário pra trabalhar isso (discutir política de drogas, higienização e controle social num contexto 2018) e tempo. Pela primeira vez senti que deveria dar mais espaço do que imaginava pra trama e cheguei em 200 páginas. Mas tudo mudou nessa história – sinto que pouca coisa se aproxima do outro Felipe, sintético, direto e objetivo em construir sentimento. Nessa história as coisas estão mais soltas, dispersas no ar, e me preocupo mais em criar essa caixa de percepção do que apontar o dedo pras coisas. Espero que funcione”.

Cinema

Little White Lies #75: Can Movies Save The World?

A minha revista favorita chega ao número 75. Os editores da Little White Lies optaram por uma proposta um pouco diferente na 75ª edição da publicação, fugindo do tradicional rosto que estampa a capa e investiram num número comemorativo com o questionamento ‘Can Movies Save The World?’. Lá no site do periódico consta que a edição vem com textos assinados por Guillermo del Toro, os irmão Safdie, J.A. Bayona, Colin Trevorrow e outros, todos dizendo o que filmariam para evitar a aniquilação total. Quero ler.

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Sábado (12/5) é dia de lançamento de Todos os Santos, o novo álbum de Marcello Quintanilha, em Curitiba

Caso você esteja em Curitiba no próximo sábado (12/5), o programa do dia será o lançamento de Todos os Santos, novo álbum do quadrinista Marcello Quintanilha, publicado pela editora Veneta. A obra reúne ilustrações, entrevistas e quadrinhos de diferentes fases da carreira de um dos mais celebrados quadrinistas brasileiros da atualidade, autor de clássicos modernos como Tungstênio e Talco de Vidro. O lançamento rola na Itiban Comic Shop (Avenida Silva Jardim, 845), a partir das 16h. Antes da sessão de autógrafos, rola um papo com o autor mediado pelos pesquisadores Liber Paz e Marden Machado. Você encontra outras informações sobre o lançamento lá na página do evento no Facebook.

Entrevistas / HQ

Papo com Charles Burns, o autor de Black Hole e da trilogia Sem Volta

Até o final de 2019 estarão disponíveis no Brasil as principais obras do quadrinista Charles Burns. A Companhia das Letras acabou de publicar o trabalho mais recente do autor, a trilogia Sem Volta, reunida em um único volume. No ano passado, a editora DarkSide Books publicou a obra-prima do artista, o clássico Black Hole. Para o segundo semestre de 2018, a mesma DarkSide promete Big Baby – seguido por Skin Deep e El Borabah até o final do ano que vem.

O foco da minha matéria sobre o trabalho de Burns para a Folha de São Paulo foi em Sem Volta, quadrinho mais recente do autor e recém-chegado às livrarias e lojas especializadas brasileiras. Você lê a íntegra do meu texto, tratando dos temas das obras e falando desse momento especial para os leitores de Burns no país, por aqui. Mas o papo rendeu e ainda falamos de outros assuntos, principalmente sobre as transformações do estilo dos quadrinista e dos temas abordados por ele em suas HQs ao longo de sua carreira.

Ainda deu tempo de conversarmos sobre Tintim, Hergé, Raw, Frigidaire, Lorenzo Mattotti e as várias leituras que impactaram na formação do autor. A seguir, papo com Charles Burns:

Quadros de Sem Volta, HQ de Charles Burns publicada no Brasil pela editora Companhia das Letras

Black Hole foi publicado pela primeira vez no Brasil há 20 anos e foi republicado por aqui quase simultaneamente ao seu livro mais recente, Sem Volta. Também estão previstos para breve o lançamento de El Borbah, Big Baby e Skin Deep. Eu fico curioso em relação ao que você pensa sobre todo esse interesse no seu trabalho aqui no Brasil…

Para ser sincero, não sei muito a respeito disso. É óbvio, é algo que me deixa feliz. Mas acho que são apenas os resultados dos trabalhos dos meus agentes, pois os livros estão sendo publicados. Eu jamais imaginaria que algo assim poderia estar ocorrendo no Brasil (risos)

E você fica curioso em relação a como os seus livros são recebidos em outros países? Como eles podem ser lidos em uma cultura tão diferente da sua?

Eu não sei… Quero dizer, eu espero que culturalmente exista algo universal que será compreendido em culturas diferentes. Talvez a cultura americana, a cultura pop feita nos Estados Unidos, seja legível em vários lugares. Mas não sei mesmo.

Um dos primeiros países no qual os meus livros foram traduzidos foi a Espanha, há muito, muito tempo. Eu lembro de um sentimento, de como era incrível ver um trabalho encontrar o seu caminho para outra cultura, em outro país. É algo que me faz surtar um pouco, pensar que o meu trabalho está sendo lido no Brasil, está sendo lido, sei lá, na Finlândia ou na Rússia. Mas é impossível para mim cogitar como eles serão recebidos culturalmente.

Quadros de Sem Volta, HQ de Charles Burns publicada no Brasil pela editora Companhia das Letras

Há um intervalo de 20 anos entre Black Hole e a trilogia Sem Volta. O quanto os seus métodos e as suas técnicas mudaram ao longo desse período?

Muito gradualmente. Eu olho para trás… Eu não costumo rever meus trabalhos antigos, mas às vezes eu pego algum deles e tenho a sensação de estar olhando para outro autor. Eu reconheço algumas coisas sobre o trabalho e as histórias, temas presentes em todos os meus livros, mas às vezes me parecem… Não irreconhecíveis, mas sim, às vezes me parecem que são de outra pessoa, como se eu fosse um outro autor nessas épocas.

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“Na época do Black Hole eu havia chegado em um ponto da minha vida no qual eu queria arriscar, eu queria estar envolvido em histórias mais longas”

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Há algum desafio distinto entre criar uma história curta como a de Big Baby ou de Skin Depp e obras mais longas como Black Hole e Sem Volta?

Na época do Black Hole eu havia chegado em um ponto da minha vida no qual eu queria arriscar, eu queria estar envolvido em histórias mais longas. Acho que antes disso, eu não sei… Eu sentia que estava aprendendo lentamente a como escrever e desenhar (risos) Por muitos anos. Então naturalmente eu fazia coisas menores, me parecia mais natural fazer trabalhos menores. Mas houve um momento específico em que eu compreendi que tinha uma história mais longa para contar. Eu acho que existe uma frustração no fato de quadrinhos implicarem em tanto sofrimento e lentidão para serem criados, pelo menos para mim. É frustrante que eles demorem tanto para serem finalizados.

Ilustrações de Charles Burns para Black Hole, publicado no Brasil pela DarkSide Books

Você já morou em muitos lugares, em várias cidades dos Estados Unidos e também em outros países. Você vê muita influência dos lugares em que viveu nos seus trabalhos?

Sim, eu acho que sim. Durante a minha vida eu também vivi na Itália e passei por outros lugares da Europa. Eu acho que esse lugares diferentes… Estamos falando sobre culturas diferentes, mesmo em cidades da América do Norte eram partes muito diferentes do país e culturas diferentes, então sei lá. A Costa Leste, onde vivo atualmente é muito diferente da Costa Noroeste, de Seattle. Eu sei que todas essas coisas tiveram alguma influência em mim. Acho que também socialmente, eu me mudei bastante e precisei me reestabelecer em cada lugar, o ambiente teve algum impacto também.

E o que você pode contar sobre o seu período na Itália? Eu vejo um diálogo muito grande entre a cena italiana de quadrinhos do começo dos anos 80, publicações como a Frigidaire, e o que vocês estavam fazendo na Raw…

Eu morei em Roma exatamente no começo dos anos 80, em 83 ou 84. Esse foi um período no qual havia muita coisa acontecendo na Itália. A revista Frigidaire estava sendo publicada, assim como outras que saiam na mesma época. Eu conheci outros cartunistas. Então sim, foi um período muito empolgante. Especialmente para mim, estando em outra cultura e envolvido em outra cena.

Quadros de Sem Volta, HQ de Charles Burns publicada no Brasil pela editora Companhia das Letras

Dessa geração de artistas italianos dos anos 80, algum deles teve um impacto maior no seu trabalho?

Eu trabalhei com um grupo de cartunistas do qual ainda tenho amigos, o Lorenzo Mattotti é um bom amigo, o Igor Tuvery, mais conhecido como Igort, também – ele está publicando os meus quadrinhos na Itália. Esses tipos de conexões foram importantes para mim. Eu me lembro de um amigo dizendo que eu morei na Itália, mas isso não teve nenhum impacto no meu estilo, na minha arte. Acho que as principais influências que eu tive quando era mais novo foram atitudes e ideias, me vejo influenciado hoje muito mais por isso do que por aspectos relacionados à narrativa ou ao desenho.

Sem Volta é colorido, mas o seu trabalho é muito caracterizado pelo preto e branco de alto contraste, pelo protagonismo de personagens novos e por um tom sobrenatural das histórias. Você vê esses elementos como parte do seu estilo? Aliás, você consegue definir um estilo específico seu?

Há alguma coisa… Eu acho que o meu trabalho é reconhecível, há uma certa estética específica, na linha, na luz e no contraste. Ele surgiu com um diálogo intenso com o quadrinho norte-americano clássico que eu cresci lendo. Ele começou com esse tipo de visual e depois não sei se consigo defini-lo mais. Não consigo pensar numa resposta. Eu acredito que ele foi sendo construído com o passar do tempo, havia um visual específico e um tipo de imagem que me atraiam e eu desenvolvi lentamente a partir daí. Ocasionalmente eu vejo o trabalho de alguma outra pessoa e tenho essa sensação de ver alguma influência minha, que talvez a pessoa tenha visto o meu trabalho ou tenha referências semelhantes às minhas. Mas sim, é difícil encontrar de onde tudo isso veio.

Um painel de Sem Volta, HQ de Charles Burns publicada no Brasil pela editora Companhia das Letras

O preto e branco é algo muito característico dessa sua geração, das publicações do Raw. Você tinha alguma motivação especial para o uso do preto e branco no início da sua carreira além do fato de ser mais barato de imprimir?

Sim, existiam restrições financeiras. A revista Raw era auto-publicada, pelo menos a primeira versão dela era bancada pelo Art Spiegelman e pela Françoise Mouly, então lembro de até terem algumas cores ocasionalmente, na capa ou em alguma história, mas existiam limitações financeiras. Eu acho que todas essas questões financeiras tiveram uma influência no meu trabalho. Eu via reimpressões de quadrinhos antigos baratos e em preto e branco e notava um certo estilo… Quando você está criando e sabe que será impresso em preto e branco e que talvez a qualidade do papel não seja tão boa, isso implica em um empenho maior para a arte. Talvez eu tenha sido muito influenciado por esses quadrinhos baratos e em preto e branco, eu gostava do visual deles e desde cedo tentei emular essa estética.

Quadros de Sem Volta, HQ de Charles Burns publicada no Brasil pela editora Companhia das Letras

Quando penso em autores contemporâneos a você, como o Chris Ware e o Daniel Clowes, vejo uma diversidade muito grande nos estilos e nas obras, mas é um grupo de pessoas geralmente lembrado como parte de uma mesma geração. Você vê algum padrão e diálogo específico esse o seu trabalho e os desses colegas?

Hummm… Eu posso ver isso mais no que diz respeito aos temas ou às influências. Mas você está certo, eu acho que há essa diversidade. Eu suspeito que talvez o único ponto em comum seja que todos nós estávamos obcecados com os nossos ídolos e as nossas ideias. E quando eu penso em artistas da revista Raw também há, por exemplo, o Gary Panter, que também é um pintor e um músico com obras muito diversas. A minha percepção da revista Raw é que ela foi uma das primeiras publicações nos Estados Unidos unicamente focada, por falta de uma palavra melhor, em quadrinhos de arte. Quadrinho de arte centrados principalmente no aspecto estético. Acho que eventualmente essa linha acabou indo mais para narrativa ou em um foco maior em histórias e enredos. Mas acho que no começo o principal interesse era no aspecto gráfico.

Você começou a publicar com 20 e poucos anos, a idade da maior parte dos seus personagens. Houve alguma mudança na sua experiência criando esses personagens e na abordagem dos dramas vivenciados por eles agora que até suas filhas estão mais velhas que seus protagonistas?

(risos) Essa é uma boa pergunta, eu me pergunto ela constantemente e não tenho uma boa resposta. Acho que parte da resposta é: eu tenho pouco interesse na minha vida adulta e de meia-idade, suspeito. Eu não tenho uma boa resposta.

Auto-retrato de Charles Burns presente na edição de Black Hole da DarkSide Books

Você se lembra do momento em que teve a ideia que deu origem à trilogia Sem Volta?

Provavelmente… Eu posso olhar em cadernos antigos e ver várias coisas que datam de muito tempo atrás. Existem vários fragmentos de ideias que foram se construindo aos poucos. Não houve um momento exato em que a ideia surgiu formada na minha cabeça. Posso encontrar anotações de algumas ideias que surgiram quando eu estava nos meus vinte, trinta ou quarenta anos. O que acho que acontece comigo é que eu tenho uma ideia inicial de como será a história e enquanto trabalho eu acabo encontrando qual será a história verdadeira. Com Sem Volta, por exemplo, eu inicialmente estava trabalhando em uma ideia que tinha sobre música punk e no final das contas a história não tem nada a ver com esse universo.

Sobre música punk?

Quando comecei a história, as minhas primeiras ideias eram tratar de um período específico da minha vida, no final dos anos 70, e do meu interesse em música punk, mas acabou se afastando disso.

Painel de Sem Volta, HQ de Charles Burns publicada no Brasil pela editora Companhia das Letras

E sobre o diálogo do livro com Tintim, como ele surgiu? Você se lembra dos seus primeiros contatos com os livros do Hergé?

Sim. É relativamente pouco usual para um americano da minha geração crescer tendo acesso ao Tintim e aos trabalhos do Hergé. Mas havia alguns livros dele publicados nos Estados Unidos – que me deram mesmo antes que eu soubesse ler, eu devia ter quatro ou cinco anos. Com certeza eles tiveram um impacto imenso na minha vida, talvez não um impacto no estilo, mas as histórias e a atmosfera com certeza impactaram a minha formação.

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“Acho que o meu trabalho mais atual seja mais focado em experiências em primeira pessoa. As minhas próprias experiências em primeira pessoa. Na verdade, experiências mais internas”

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Os seus livros me soam como crônicas de jovens em uma realidade muito americana. Você vê muito contraste entre a América de Trump e de Obama? Se sim, esse contraste tem alguma influência nas histórias que você conta?

Eu sempre me mantive distante da ideia de trabalhos distintamente políticos. Talvez o meu trabalho inicial fosse mais focado em temas mais específicos da cultura americana. Acho que o meu trabalho mais atual seja mais focado em experiências em primeira pessoa. As minhas próprias experiências em primeira pessoa. Na verdade, experiências mais internas. É claro que essas experiências internas precisam estar conscientes do mundo exterior, mas não estou interessado em escrever qualquer coisa sobre política americana ou cultura americana por si só.

E o que te interessa mais em quadrinhos hoje em dia? Há alguma coisa específica que você gostaria de ver sendo explorada?

Nada especificamente. Há alguns artistas que sempre estou interessado em saber o que estão fazendo, pessoas que estejam criando algo novo, mas não consigo pensar em nada que estou esperando ver existindo – acho que esse seria o trabalho que eu iria estar fazendo. Estou sempre interessado em trabalhos fortes, vigorosos e pessoais.

A capa de Big Baby, trabalho do quadrinista Charles Burns que será publicado no Brasil pela DarkSide Books

Quais as memórias mais antigas que você tem de quadrinhos na sua memória?

Provavelmente apenas quadrinhos infantis americanos típicos. Provavelmente Walt Disney e coisas do tipo. Mas como disse, o impacto mais forte foi a descoberta do Tintim e dos livros do Hergé. Eles me pareciam muito mais maduros e tiveram um impacto imenso em mim. O meu pai era muito interessado em quadrinhos e eu lia muito das coisas dele, mas na verdade isso foi antes que eu soubesse ler de verdade.

É engraçado você mencionar o Tintim, principalmente por causa da linha clara…

Sim, a linha clara. Acho que quando era mais novo eu até tentei trabalhar nesse estilo, mas por algum motivo não funcionou. A atmosfera que eu tento criar é um pouco mais sombria.

Sobre essa atmosfera. O que você pensa quando classificam seus trabalhos como quadrinhos de terror ou horror?

Eu não fico surpreso. Eu não tenho nenhuma intenção específica de aterrorizar ninguém ou fazer qualquer coisa que seja horrorizante. Há alguns elementos que podem ser classificados dessa forma, mas eu sempre brinco e digo que os meus quadrinhos são histórias de amor (risos).

A capa de Big Baby, trabalho do quadrinista Charles Burns que será publicado no Brasil pela DarkSide Books

No que você está trabalhando no momento? Você já tem algum livro novo em mente?

Nada em particular. Para mim, um livro ou uma história não existem enquanto não estejam publicados. Eu estou trabalhando em uns dois livros e espero que eles vejam a luz do dia. Eu nunca pressuponho que tudo em que eu estou trabalhando vá funcionar, é sempre parte de um processo em andamento de ver o que vai sobreviver e acabará sendo publicando. É um processo em andamento até virar um livro físico.

Há alguma coisa que você tenha lido, ouvido ou assistido recentemente que te impressionou e você possa recomendar?

Acho que o livro mais incrível que li recentemente foi Monograph, um trabalho espantoso. Eu sou amigo do Chris [Ware] e ele não é sigiloso, mas nunca fala do trabalho que está fazendo. Ver o produto final é algo sensacional. Eu tive planos de fazer um livro não igual ao dele (risos), mas de ilustrações e quadrinhos, um livro de arte reunindo vários trabalhos. Eu fico muito feliz do meu não ter sido publicado no mesmo ano que o dele. Tenho muita sorte.

A capa de Sem Volta, trabalho do quadrinista Charles Burns publicado pela editora Companhia das Letras