Vitralizado

HQ

Confira a primeira arte de Dédales, próximo álbum de Charles Burns

Os editores da francesa Éditions Cornélius anunciaram pelo Twitter: “É a grande novidade do dia! No mês de outubro publicaremos, com exclusividade mundial, o primeiro volume da nova série de Charles Burns! O livro tem como título Dédales. Junto com o anúncio eles divulgaram essa arte aqui em cima, uma pequena prévia da HQ. Ao pé da letra, “dédales” pode ser traduzido como “labirintos” para o português.

Lembrando que eu já tinha chamado atenção por aqui para o lançamento de Free Shit. O livro será um coletânea de 208 páginas em preto e branco reunindo a íntegra das 25 edições do zine homônimo produzido desde o ano 2000 pelo autor de Black Hole e distribuído apenas para amigos dele. O lançamento tá previsto pra setembro de 2019.

(valeu pela dica, Filipe!)

Entrevistas / HQ

Papo com Ing Lee, a autora de Karaokê Box: “Gosto muito de ir a karaokês porque lá não preciso estar necessariamente falando dos meus sentimentos pra poder expressá-los”

Karaokê Box é o primeiro projeto solo da quadrinista Ing Lee. Uma das autoras da revista Sam Taegeuk (finalista do prêmio Dente de Ouro 2019 na categoria Quadrinhos) e uma das editoras da coletânea A Criatura, ela narra em seu mais recente trabalho uma noitada em um karaokê no bairro da Liberdade, em São Paulo.

Em conversa com o blog por email, a autora conta como a HQ começou a ganhar forma durante uma ida dela ao karaokê no qual a história é ambientada enquanto ela passava por um momento de introspecção. “Não sou uma pessoa muito boa pra lidar com sentimentos”, diz Lee. “Daí creio que tentar extravasar isso artisticamente seja uma forma mais ou menos saudável, um processo meio ressignificativo e de cura até”, afirma.

Há dois eventos de lançamento para Karaokê Box marcados para as próximas semanas: o primeiro deles na próxima sexta-feira, dia 17 de maio, a partir das 18h, na loja da Ugra, em São Paulo; e o segundo na cidade natal da autora, Belo Horizonte, no Calabouço Karaokê, dia 23 de maio, a partir das 19h30.

Na conversa a seguir, Ing Lee conta um pouco mais sobre as origens de Karaokê Box, comenta a decisão de imprimir as 24 páginas do quadrinho em risografia, fala sobre a paixão dela por karaokês e revela as músicas que ela mais gosta de cantar. Saca só:

“Ouvi muito Depeche Mode, New Order, Tears for Fears e Pet Shop Boys enquanto desenhava”

Ilustrações de Karaokê Box, trabalho da quadrinista Ing Lee

Eu queria saber um pouco mais sobre os seus gostos e as suas influências. O que você gosta de ler, ouvir e assistir? Tem algum artista com alguma influência maior no seu trabalho? Tem algum artista em particular que você admira e serve de inspiração para você?

Eu gosto muito de cinema leste-asiático, principalmente taiwaneses e sul-coreanos. Meus filmes preferidos são Yi Yi (2000); That Day, on The Beach (1983); e Terrorizers (1986), do Edward Yang; Rebels of Neon God (1992), do Tsai Ming-Liang; Chungking Express (1994), do Wong Kar-Wai, e mais outros nessa pegada de melancolia urbana, que me inspiram bastante nos meus trabalhos envolvendo HQs. De mangá, amo Akira (Katsuhiro Otomo), Oyasumi Punpun (Asano Inio) e Tekkonkinkreet (Taiyo Matsumoto), e tenho eles como referência para mim no que diz sobre quadrinhos. Agora, de música, posso dizer que minha playlist durante todo o processo dessa HQ consistiu em músicas dos anos 80, hehehe. Ouvi muito Depeche Mode, New Order, Tears for Fears e Pet Shop Boys enquanto desenhava!

Um quadro de Karaokê Box, trabalho da quadrinista Ing Lee

Você poderia me falar um pouco sobre a origem de Karaokê Box? Como e quando surgiu a ideia de fazer essa HQ?

Então… A ideia veio do nada. Assim, veio no meio de um rolê que eu tava dando com um querido amigo (oi Thiago Han!!) em que fomos só nós dois pra uma cabine de karaokê às 14-15h, em plena segunda-feira. Daí tive algumas ideias de falas que foram o ponto de partida de uma história em quadrinhos que se passasse num karaokê. Eu tava tendo um momento meio introspectivo… Digo, passando por umas questões íntimas difíceis de lidar e fiquei pensando que gosto muito de ir a karaokês com meus amigos, porque lá não preciso estar necessariamente falando diretamente dos meus sentimentos pra poder expressá-los – e, bem, isso inclusive virou uma fala na história. Não sou uma pessoa muito boa pra lidar com sentimentos, daí creio que tentar extravasar isso artisticamente seja uma forma mais ou menos saudável, um processo meio ressignificativo e de cura até.

Eu meio que tenho que fazer meu TCC neste semestre, mas precisava antes fazer essa HQ… A vontade surgiu como um puta impulso e eu senti que só ia conseguir tocar outros projetos se a fizesse. Então eu fui e fiz, em uma semana mais ou menos, basicamente num modo turbo de produção, eu peidei uma HQ completamente nova! Tcharam, assim nasceu a Karaokê Box!

“Eu já tenho toda uma playlist pré-definida de músicas que sempre canto, geralmente começo com Sweet Dreams, do Eurythmics, e sempre acabo pegando alguma do Depeche Mode, é o meu ritualzinho…”

O banner do evento de lançamento de Karaokê Box, trabalho de Ing Lee, em Belo Horizonte

Você me falou que gosta muito de karaokê, por que essa paixão? Como ela surgiu?

Volta e meia acabo indo pra São Paulo né, daí desde 2014 uma das coisas que mais gosto de fazer por lá, é ir aos karaokês de cabine. É algo sagrado pra mim, parada obrigatória! Daí aproveito e chamo várias pessoas que fazia tempo que não via, mato as saudades, de quebra canto as músicas que gosto até ficar rouca – e posso até chorar no fumódromo (ou no banheiro…). Eu já tenho toda uma playlist pré-definida de músicas que sempre canto – por exemplo, geralmente começo com Sweet Dreams, do Eurythmics, e sempre acabo pegando alguma do Depeche Mode (embora ache elas difíceis de cantar), é o meu ritualzinho…

Um dos karaokês que eu mais gosto de ir é o Okuyama, que fica na Rua da Glória, tanto por ele ser mais podreira (e consequentemente, mais barato, hehe), como também é um lugar que me agrada esteticamente. E foi justamente o Okuyama que usei como cenário para a Karaokê Box, numa tentativa de resgatar um pouco o carinho que tenho pelas noitadas passadas lá com meus amigos paulistas. Também curto karaokês de palquinho, mas é que onde eu moro (Belo Horizonte), não tem nenhum de cabine privada, que você aluga a sala por hora e tem o karaokê todo pra você, então acaba virando um momento mais próximo e aconchegante entre as pessoas que estão dividindo a mesma cabine com você.

Um quadro de Karaokê Box, trabalho da quadrinista Ing Lee

Você chegou a fechar um roteiro antes de começar a desenhar o quadrinho? Você me contou que desenha com o mouse do computador, certo? Você pode contar um pouco mais sobre as suas técnicas?

Sim! O ponto de partida foi aquilo que falei acima, pensei ‘putz, vou fazer um quadrinho que se passa num karaokê e a personagem TEM que falar isso’ (que gosta de ir à karaokês porque é um lugar onde você pode se expressar sem necessariamente *falar* diretamente sobre seus sentimentos). Aí fiz todo um estudo compilando referências de fotos do Okuyama de diversos ângulos, porque eu queria retratar o lugar da forma mais fiel possível… Pesquisei pela tag marcando o lugar no Instagram de contas de terceiros, cheguei a pedir no Stories pra me mandarem fotos do local caso alguém tivesse e no meio disso uma amiga minha chegou a IR pro Okuyama só pra tirar fotos do banheiro e do fumódromo, porque eu não encontrava de jeito nenhum fotos desses ambientes, e ela morava ali perto (Samantha Oda, anja d++). Então planejei a história de acordo com os ambientes, começando pela fachada do karaokê na rua, depois entrando, subindo as escadas, indo pra cabine, depois fumódromo, banheiro e assim vai…

E, é, eu vendi minha mesa digitalizadora tem um tempo porque eu acabei me adaptando melhor com o mouse pra desenhar digitalmente do que com a mesa. Geralmente já faço tudo no formato direitinho, porque uso a ferramenta lápis no Photoshop e não vetor, pra que o traçado saia fiel na impressão.

“Desde o começo já tinha escolhido a paleta de cores, que eu gosto bastante, que é o rosa flúor, amarelo e medium blue da riso”

Ilustrações de Karaokê Box, trabalho da quadrinista Ing Lee

E eu gosto muito das suas cores. Por que essas cores? Como você define a paleta do quadrinho?

Obrigada!! Eu sou meio metódica, gosto de já deixar tudo definido antes de começar de fato a executar o projeto, deixando o formato já planejado, assim como a paleta de cores, o número de páginas e etc. Sem isso não consigo começar a fazer, porque se não eu não visualizo como ficará o resultado aí eu travo. Então desde o começo já tinha escolhido a paleta de cores, que eu gosto bastante, que é o rosa flúor, amarelo e medium blue da riso.

Karaokê Box será impresso em risografia. Por que essa técnica? Como ela contribui para o projeto final?

Minha primeiríssima zine, A Boneca, de 2016, foi impressa em risografia, com rosa flúor e amarelo. Foi bem amador e tal, mas eu gostei bastante do resultado na época e me agrada bastante as paletas da risografia. Daí pude explorar isso no quadrinho Humanidade, publicado no Sam Taegeuk – publicação que fiz junto com Paty Baik e Monge Han e que foi impressa em riso nas cores amarelo, vermelho e azul. O resultado ficou incrível e eu queria poder fazer mais HQs com essa técnica, daí como caiu um dinheirinho aqui, não pensei duas vezes e defini desde o começo do projeto da Karaokê Box que ela seria impressa em riso. Eu também já tinha trocado ideia com o Portilho, da Entrecampo, antes e fiquei com vontade de ter um trampo com eles, daí negociamos e fechou!

Quadros de Karaokê Box, trabalho da quadrinista Ing Lee

Você já produziu HQs para coletâneas como a Parafuso #1 (ainda inédita) e a Sam Taeguk e foi uma das editora d’A Criatura, mas essa é a sua primeira publicação solo. Eu tenho curiosidade em relação às suas expectativas com essa primeira experiência solo. Quais sentimentos estão passando pela sua cabeça às vésperas do lançamento?

Eu confesso que tô um pouco ansiosa e acabei não conseguindo me conter, daí enviei pra vários amigos me darem feedback e tal, só pra eu ter certeza de que não era só uma pira aleatória minha e se ia valer à pena… E, bom, aparentemente ficou legal, então é isso! Acabou que, além do feedback, tive bastante ajuda durante o processo de feitura da minha amiga e nova produtora gráfica do Selo Pólvora, Larissa Kamei. Ela me deu vários toques muito preciosos. Acabo fazendo tudo meio na tora e no improviso, então ter esse lado mais pé no chão durante a produção foi muito positivo pra mim!

Eu pelo menos fiquei bastante satisfeita com o resultado, foi algo que fiz muito mais por mim antes de qualquer coisa, mas que também gostaria de compartilhar com o mundo e soltá-la por aí. Vamos ver, né? Espero que o pessoal goste!

Quais são seus próximos planos para quadrinhos? Você já tem algum próximo trabalho em vista?

Então… O meu TCC vai ser em quadrinhos. O nome dele é Bulgogi de Carne Moída (bulgogi é um churrasquinho bovino coreano, que eu faço uma versão meio farofa abrasileirada com carne moída). Daí eu tô até agora criando coragem pra tocar isso e parar de enrolar, mas creio que sai, na base de muita cafeína, surto e pressão! Daí tô pensando em fazer uma tiragem pequena dele e fazê-lo circular um pouco por aí. Vai ter uma temática mais autobiográfica, envolvendo questões de identidade, etnia e memória, trazendo tudo isso pros meus processos artísticos (eu faço Artes Visuais na UFMG), e na apresentação dele pra banca eu vou servir o próprio bulgogi de carne moída pro pessoal!

A capa de Karaokê Box, obra da quadrinista Ing Lee
HQ

Dog Walking 2.0, por Tom Gauld

Viu a capa dessa próxima edição da revista New Yorker? Mais uma assinada pelo quadrinista escocês Tom Gauld. A arte foi batizada de Dog Walking 2.0 e foi produzida pra edição especial de inovações da revista. Recomendo um pulo lá no site da publicação pra ler um breve papo com o autor sobre desenhar robôs e as inspirações por trás dessa arte – assim como alguns rascunhos dele pra capa aqui em cima.

Aliás, uma breve atualização sobre os dois títulos do Tom Gauld que a Todavia havia prometido. Conversei com os assessores da editora e a expectativa é que Goliath e Mooncop cheguem às livrarias “depois de junho”. Tomara que não demore mesmo. Caso saiam mesmo esse ano, serão dos títulos mais legais publicados por aqui em 2019.

Rascunhos e estudos do quadrinistas Tom Gauld para a capa da New Yorker da semana do dia 20 de maio de 2019
HQ

Je Suis Cídio #11, por João B. Godoi

O quadrinista João B. Godoi está morando na cidade de Angoulême, na França, e participando da classe internacional de quadrinhos da Ecole Européenne Supérieure de L’image (EESI). Desde sua chegada à Europa ele vem produzindo uma espécie de diário em quadrinhos batizada de Je Suis Cídio, mostrando um pouco da rotina dele em Angoulême. 

Hoje compartilho a 11ª atualização de Je Suis Cídio aqui no blog. Vocês conferem os seis capítulos prévios do projeto clicando nos links a seguir: Je Suis Cídio #1Je Suis Cídio #2Je Suis Cídio #3Je Suis Cídio #4Je Suis Cídio #5Je Suis Cídio #6Je Suis Cídio #7Je Suis Cídio #8, Je Suis Cídio #9 e Je Suis Cídio #10.

Entrevistas / HQ

Papo com Panhoca, editor da revista Pé-de-Cabra: “É como se o país inteiro tivesse contraído um vírus da imbecilidade máxima”

Há dois eventos marcados para o lançamento do segundo número da revista Pé-de-Cabra. O primeiro deles rola no próximo sábado, dia 11 de maio, a partir das 16h, na loja da Ugra, em São Paulo – um bate-papo mediado pelo jornalista Carlos Neto com a presença do editor Panhoca e dos quadrinistas Kainã Lacerda e Lobo Ramirez. O segundo evento ocorre no sábado seguinte, dia 18 de maio, a partir das 16h, na Itiban Comic Shop, em Curitiba – uma conversa entre Panhoca e a quadrinista Cynthia B. com mediação de Alessandro Andreola. (Na imagem acima, quadros do editorial de Panhoca para a Pé-de-Cabra #2)

Tendo como tema ‘doença’, o segundo número da Pé-de-Cabra chega às lojas especializadas pouco mais de um ano após o lançamento da primeira edição. Dessa vez, as 100 páginas da publicação contaram com a participação de 42 artistas, sendo a quadrinista Emilly Bonna, autora de Esgoto Carcerário (Escória Comix), a responsável pela capa da edição.

Conversei com Panhoca sobre esse segundo número da Pé-de-Cabra, tão impactante quanto o primeiro e candidato potencial a uma das melhores coletâneas de humor gráfico publicadas no Brasil em 2019. Na entrevista abaixo ele explica a escolha do tema da revista, comenta alguns dos quadrinhos impressos na edição, fala sobre o trabalho dele como editor e adianta algumas novidades do selo Pé-de-Cabra – estão previstas para breve coletâneas e publicações de trabalhos inéditos de artistas como Pedro D’Apremont, Diego Gerlach e Galvão Bertazzi.

Recomendo a leitura das duas Pé-de-Cabra, da minha conversa com Panhoca na época do lançamento da primeira edição da revista e também do papo a seguir. Saca só:

“Do sistema político ao teu tio fazendo piada no zapzap, tá tudo completamente fodido”

Quadros da HQ de Bruno Guma para a segunda edição da Pé-de-Cabra

Por que ‘doença’ como o tema dessa segunda edição?

Bicho, eu acho que o país tá fodido. Tipo, fodido de verdade. Os acontecimentos do fim do ano passado fizeram eu me tocar que a gente não caminha seguro. Do sistema político ao teu tio fazendo piada no zapzap, tá tudo completamente fodido. É como se o país inteiro tivesse contraído um vírus da imbecilidade máxima e prosperassem sintomas de ódio raivoso na população inteira. Eu sou um cara que vê muita TV aberta – SBT, RedeTV, o lixo mesmo – e quanto mais eu assistia, mais eu lembrava de um documentário que vi uma vez sobre cães com raiva em Moscou. Aí uma coisa meio que puxou a outra, acho que era a hora e a vez de uma revista sobre doença. Ou talvez seja porque A Zica e a Prego já tinham usado todos os temas legais que eu pensei. Acho que um pouco dos dois.

Eu acho que Emilly Bonna conseguiu uma arte tão impactante quanto a produzida pelo Pochet para o primeiro número. Você sempre teve ela em mente para produzir essa capa? Você passou alguma encomenda específica para ela na produção dessa arte?

Sim, desde o começo eu já tinha a Emilly em mente por causa de uma pintura que vi no instagram quando me apresentaram o trampo dela (essa aqui). Não foi nenhum pedido específico, só chamei a Emilly e ela topou. Acho o trabalho dela de uma qualidade absurda e fico feliz de vê-la lançando o Esgoto Carcerário. Se tivesse que apostar em algum artista como próximo HIT nacional da HQ brasileira eu botaria ela fácil nessa lista.

“Algumas coisas fugiram do controle e eu acabei me metendo numa porradaria física por política no corredor do meu prédio”

A capa do segundo número da revista Pé-de-Cabra, com arte assinada pela quadrinista Emilly Bonna

A primeira Pé-de-Cabra foi o seu primeiro trabalho como editor. Na nossa conversa quando esse número de estreia saiu, você comentou como foi uma experiência muito mais complicada do que o esperado. Como foi a produção desse segundo número?

Nessa segunda eu tive um problema inesperado no meio do processo. Algumas coisas fugiram do controle e eu acabei me metendo numa porradaria física por política no corredor do meu prédio e isso complicou muito minha vida naquele apartamento. Então enquanto eu montava a segunda edição, eu também estava em processo de mudança. Além disso eu recebi bem mais trabalhos do que da outra vez e isso dificultou a seleção. Mais uma vez, se não fosse o meu comparsa Junior (que é quem faz a parte gráfica da porra toda), eu iria entregar algo altamente porco e frustante. No final tudo deu certo na hora que tinha que dar.

“Se eu fosse vocês eu começava a guardar moedas pra comprar a Pé-de-Cabra 18, a revista à prova de vacilos”

Trecho da HQ de Pedro D’Apremont para o segundo número da revista Pé-de-Cabra

Aliás, você pode falar um pouco sobre como foi a repercussão da convocatória dessa segunda edição? Quantos trabalhos foram enviados?

Bom, se não me engano foram 207 trabalhos recebidos. Uma boa parte estava completamente fora do padrão que daria pra adaptar pro que estava sendo pedido. Por um lado ficou mais fácil selecionar os trabalhos, porque todos tinham a mesma temática, o problema de contraste imenso que tive na primeira edição foi bem mais de boa. Por outro lado, tinha trampo que não acabava mais. Tive de cortar mais coisas do que eu gostaria e ver mais e mais gente puta comigo. É meio masoquista esse rolê. Você fica lá todo dia enchendo o saco de todo mundo pra mandar trabalho e depois corta um monte e geral fica bolada. A vantagem é que grande parte deles não se conhecem, caso contrário eu tava morto. Mexer com ânimos num país armamentista é sempre meio estranho. A gente acaba vendo que tem muita gente boa no nosso meio, mas ele não é imune a filho da puta. Isso tem em todo canto. Sempre tem alguém que leva pro lado pessoal e vem vomitar merda pro teu lado.

Na nossa primeira entrevista você também comentou como a revista era totalmente diferente do projeto que você havia pensado inicialmente. Hoje, com o segundo número impresso, ele é muito diferente do que você achou que seria quando começou a desenvolvê-lo?

Acho que depois da primeira eu fui sacando melhor o que eu realmente queria. As coisas que não curti tanto na primeira não se repetiram na segunda e espero que na terceira a revista esteja melhor que a segunda. Quando eu pego as antologias brasileiras eu sempre fico comparando uma edição com a outra, olhando por cima eu arrisco dizer que todas elas só melhoram. Meu objetivo é esse, fazer sempre uma revista melhor que a outra e não morrer no processo. Se eu fosse vocês eu começava a guardar moedas pra comprar a Pé-de-Cabra 18, a revista à prova de vacilos.

“Na real eu posso ficar elogiando todo mundo que participou porque não me arrependo de nenhuma escolha dessa revista”

O cartaz do evento de lançamento da Pé-de-Cabra #2 em Curitiba, na Itiban Comic Shop

O que mais te surpreendeu nesse número? Há algum trabalho específico impresso na revista que te marcou de alguma forma?

Me surpreendeu a quantidade de artista que tá rolando por aí e eu nunca tinha ouvido falar. Marcio Bocchini e Gabriela Gulich eu conheci só quando recebi e fiquei bem impactado com a qualidade do trampo. O que mais tem no Brasil é doente, fico feliz de ter uma seleção boa disso. Além disso eu fico feliz quando recebo trabalho de gente que eu curto desde os meus primeiros passos na trajetória de leitor. A Cynthia e o Doug Firmino por exemplo eu acompanho o trabalho há uns bons anos e fico bem orgulhoso de ter publicado página deles. Na real eu posso ficar elogiando todo mundo que participou porque não me arrependo de nenhuma escolha dessa revista. Vocês tão todos de parabéns, rapeize. Se eu fosse o professor de artes de vocês, vocês nunca repetiriam de ano.

O banner do evento do evento de lançamento da Pé-de-Cabra #2, em São Paulo, na loja da Ugra

Você chegou a comentar como o primeiro número tinha uma linha editorial de certa forma centrada em oposição e niilismo. Ela se manteve nessa segunda edição?

A segunda é mais ácida que a primeira. Acho que tem uma veia cômica mais forte. Talvez por ter mais HQ que ilustração ou algo assim. De certa forma, todo mundo parece bem acostumado com a desgraça. Parece que o estrago é tão comum na nossa vida que não resta outra coisa senão rir e apertar umas espinhas. O clima de 2019 ainda é meio de abate. Todo mundo parece cabisbaixo e vidrado no celular esperando qual a desgraça cotidiana pra rir. ‘HAHA OLHA QUE IMBECIL, CORTOU VERBA DA UNB’, ‘HAHA SOBE NA GOIABEIRA’ e por aí vai. A gente tá se fodendo à rodo e ninguém sabe o que fazer nem como se organizar. Pelo menos pra tirar sarro tá um prato cheio.

“Eu nunca imaginei que essa merda toda estava do nosso lado. Pra mim era meia dúzia de gato pingado frustrado por ser calvo e não ter grana pra comprar uma moto”

Quadros do trabalho de Marcio Bocchini para a Pé-de-Cabra #2

Em março de 2018, quando a primeira Pé-de-Cabra saiu, as perspectivas eram as piores possíveis. Pouco mais de um ano depois, taí Bolsonaro eleito e nós a caminho do fundo do poço. Qual você acredita ser o papel potencial de uma revista independente de história em quadrinhos de tons subversivos em meio a essa realidade?

Em momento algum eu acreditei que ele venceria. Até o resultado do primeiro turno eu não havia percebido o poder de alienação que as redes sociais tinham em pessoas tão próximas. Tenho amigos que fecharam o pau com o próprio pai. Eu nunca imaginei que essa merda toda estava do nosso lado. Pra mim era meia dúzia de gato pingado frustrado por ser calvo e não ter grana pra comprar uma moto e entrar pra um moto clube do ABC. Aí, de repente, não são os nazistas de sempre. Você descobre que teu tio é um merda, teu cachorro é um merda, teu chefe você sempre soube porque não existe chefe que não seja um merda, né? Mas enfim, posso ficar o dia inteiro xingando. Você devia me ver bêbado. Sobre a revista eu não sei, eu meio que sempre erro meus chutes. Acho que ela pode entreter a galera que tá bitoladona com política e dar uma respirada a mais. Acho que ela pode meter todo mundo numa cela também. O negócio tá tão tenso que teve deputado federal chamando a ONU por causa de UM ÚNICO CARA COM UM NUNCHAKU falando em meter porrada em fascista e divulgando o ótimo gibi PORTA DO INFERNO (leiam, rapeize). Queria dar uma revista pra esse cara, ele merece. A gente ouve tanta história de gerações que enfrentaram a ditadura e a censura e fica nessa de surtar por causa de violência e perseguição. Espero que eu esteja fazendo a minha parte.

Quadros da HQ de Diego Gomes para a segunda edição da Pé-de-Cabra

Você já tem um terceiro número da Pé-de-Cabra em mente? No ano passado você publico pelo selo Pé-de-Cabra a HQ Realidade, do Cristiano Onofre, você planeja outras publicações do tipo? 

Sempre tenho. Por enquanto fico entre TV e Monstro como temas, mas tem muito chão até a próxima. Tudo pode mudar. Minha ideia sempre é ter a Pé-de-Cabra anual e ir lançando gibis com histórias de um único artista conforme a grana permitir. O próximo da lista é o Pedro D’Apremont com o Notas do Underground, uma compilação das HQs dele sobre rolê em shows e ambiente de música. Uns punk cheirando na calçada, metaleiros nazistas jogando RPG, hipsters sendo babaca, o pacote completo. Depois disso deve sair uma só de tiras do Galvão Bertazzi, uma compilação das histórias do Gerlach e mais uns outros projetos que ainda caminham pelas sombras. Ou seja, quando mais vocês comprarem mais eu lanço coisa nova.

Trecho do trabalho de Diego Gerlach para o segundo número da revista Pé-de-Cabra


HQ

Papo com Emily Carroll, a autora de Floresta dos Medos: “Às vezes parece patético criar uma ficção de horror em um mundo onde o horror é tão real e imediato”

Floresta dos Medos é o álbum de estreia da quadrinista canadense Emily Carroll e também o primeiro trabalho dela publicado em português. O livro de 208 páginas recém-lançado no Brasil pela editora DarkSide Books é uma coletânea de cinco contos de horror que rendeu à autora o prêmio Eisner em 2015 de Melhor Graphic Novel na categoria Republicação.

“Muitos dos meus medos moldam o tipo de histórias que eu conto e as minhas ansiedades ganham forma nos meus desenhos”, conta Carroll em conversa com o blog, falando sobre o ponto de partida de suas histórias e da estética de seus trabalhos.

Fascinada por histórias de terror desde a infância, a quadrinista alterna temas e estilos em cada um dos contos de Floresta dos Medos. A primeira delas apresenta três irmãs no aguardo do pai desaparecido; a segunda mostra uma fantasma à espera de uma oportunidade de vingança; a terceira trata de um conflito entre irmãos; a quarta é protagonizada por amigas que resolvem explorar os dons mediúnicos de uma delas por meio de um golpe; e a quinta, com ares de trabalho do magaká Junji Ito, narra o primeiro contato de uma jovem com a esposa de seu irmão.

Na entrevista a seguir, Carroll lembrou de seus primeiros contatos com HQs e histórias de terror, falou sobre a construção de Floresta dos Medos, tratou da relação entre histórias de horror e a realidade aterrorizante de um mundo ultraconservador e analisou a onde recente de filmes de terror de sucesso – como Nós, Corra!, A Bruxa, Hereditário. Papo massa, saca só:

“Eu escolhi o horror porque eu tenho sido uma fã do gênero toda a minha vida”

Um quadro de Floresta dos Medos, HQ de Emily Carroll publicada pela editora DarkSide Books

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de quadrinhos na sua vida?

As seções de quadrinhos dos jornais! Eu tinha alguns favoritos (como Garfield ou The Far Side), mas eu realmente lia tudo todos os dias, mesmo que não entendesse as piadas ou achasse chato. Basicamente, eu lia qualquer coisa que eu pudesse colocar em minhas mãos. Às vezes meus pais me compravam revistas do Archie, mas eu também roubava muito Homem-Aranha e X-Men do meu irmão mais velho.

Quais as técnicas utilizadas por você para a criação de Floresta dos Medos?

Floresta dos Medos é toda desenhada com caneta (e às vezes pincel) e tinta, depois colorida no Photoshop com algumas ferramentas básicas. Eu também utilizei alguns elementos tradicionais que desenhei à mão (como borrões de tinta, borrões de grafite e respingos), escaneei e rearranjei no Photoshop para criar textura em algumas cenas. Muito do trabalho é reorganizado e cortado depois de digitalizado.

“Acho que esse é meu lema quando se trata de arte: quando fico na dúvida, vou no vermelho”

Um quadro de Floresta dos Medos, HQ de Emily Carroll publicada pela editora DarkSide Books

Você se lembra do momento em que começou a desenvolver Floresta do Medos? Se sim, você pode falar um pouco sobre ele, por favor?

Não houve um momento específico – há anos venho criando pequenas histórias e contando histórias em geral, mas não aconteceu até que começasse a fazer histórias em quadrinhos e postá-las na internet, aí eu descobri que qualquer pessoa poderia ter interesse nelas. Eu escolhi contos porque eu gosto de trabalhar de forma rápida e objetiva, estou sempre ansiosa para trabalhar na próxima história, e eu escolhi o horror porque eu tenho sido uma fã do gênero durante toda a minha vida e senti que tinha uma perspectiva que poderia funcionar bem para esse tipo de história.

Você pode me falar um pouco sobre a sua abordagem em relação a cores? Quais são os seus critérios para determinar a paleta de cores de um livro?

Eu gosto de definir a paleta de cores muito cedo, e geralmente preciso de muita brincadeira no Photoshop (para não mencionar alguns acidentes felizes) antes de ter uma idéia do que a paleta será e, portanto, qual será a atmosfera que o quadrinho acabará tendo. Se a narrativa é mais formal e mais parecida com um conto de fadas, escolho uma paleta menos realista – se é uma história e conversa mais natural, escolho cores mais naturais e mais suaves. Tendo dito isso, eu prefiro cores vivas justapostas contra um monte de preto pesado, especialmente vermelho. Acho que esse é meu lema quando se trata de arte: quando fico na dúvida, vou no vermelho.

Eu também gostaria de saber mais sobre a sua abordagem em relação ao design de cada página. Você constrói uma página em função de quadros individuais ou tendo em vista a página inteira? Como isso funciona para você?

Eu visualizo a página inteira de uma só vez, de modo que os painéis funcionem por conta própria e uns com os outros, fazendo da página inteira uma peça coesa. Eu não tenho certeza se isso é realmente benéfico para a narrativa ou não, mas é apenas uma espécie de indulgência artística minha. É provavelmente por isso que gosto de fazer tantas splash pages ou páginas duplas – gosto de imagens grandes e repentinas após um período de painéis minúsculos, por exemplo.

“Corra! é um exemplo de como o horror pode amplificar a realidade para realmente sublinhar os aspectos horripilantes do nosso dia a dia”

Um quadro de Floresta dos Medos, HQ de Emily Carroll publicada pela editora DarkSide Books

Eu estava pensando nessa espécie de renascença recente do horror na cultura pop. Estou pensando principalmente em filmes – produções como Nós, Corra!, A Bruxa, Hereditário,… Você vê alguma razão particular para esse interesse crescente nos últimos tempos?

Como alguém que sempre foi do terror (especialmente filmes – comecei a assistí-los com meu pai e meu irmão mais velho quando eu tinha mais ou menos três anos), tem sido difícil para mim reconhecer que exista algum tipo de renascimento. Boas obras do gênero têm sido feitas há muito tempo, embora eu ache animador ver isso atingir um público tão mainstream. Ainda não assisti Nós, mas Corra! é ótimo e obviamente poderoso em sua capacidade de se conectar, dada a enorme (justamente merecida) recepção que recebeu. É um exemplo artístico importante de como o horror pode amplificar a realidade para realmente sublinhar os aspectos horripilantes do nosso dia a dia. Seu sucesso é massivo, não apenas para o horror, mas para o cinema e a cultura como um todo.

Há um conservadorismo crescente no nosso mundo. Políticos como Trump nos Estados Unidos e Bolsonaro aqui no Brasil são sintomas explícitos desse mundo cada vez mais xenófobo, homofóbico e hostil em que vivemos. Como a ficção e histórias em quadrinhos são capazes de lidar e, de alguma forma, confrontar essa realidade?

Oh deus, por onde começar. Às vezes parece muito patético estar criando uma ficção de horror em um mundo onde tanto horror é real e imediato (e esse sempre foi o caso). Eu vou dizer que muitos dos meus medos (ser uma mulher, ser gay, estar sempre preocupada com pessoas amadas) moldam o tipo de histórias que eu conto e as minhas ansiedades ganham forma nos meus desenhos. Embora uma ampla gama de pessoas pareça gostar de meus quadrinhos, eu suspeito que as pessoas que podem se relacionar com esses medos e vê-los pelo que realmente são, acabam sendo as mais conectadas com o meu trabalho. Então, talvez essa conexão nos ajude a lidar com isso. É bom encontrarmos uns aos outros e saber que não estamos sozinhos em nossa dor.

Aliás, você é otimista em relação ao nosso futuro?

Cara, ultimamente eu tenho levado um dia de cada vez. Eu sou conhecida por entrar em pânico sobre o futuro. Eu tento me concentrar em qual será a melhor opção para o próximo passo, e como eu posso estar à disposição para as pessoas hoje.

“O medo de fazer ‘quadrinhos errados’, ou não fazer ‘quadrinhos de verdade’, me impediu de tentar por tantos anos”

Um quadro de Floresta dos Medos, HQ de Emily Carroll publicada pela editora DarkSide Books

Eu gostaria de saber o que são quadrinhos para você. Você tem alguma definição pessoal?

Na verdade não. Honestamente, eu faço quadrinhos porque é fácil para mim combinar desenhos com texto – e mais do que isso, eu apenas gosto de desenhar. Imagino que, se não pudesse desenhar, ainda estaria contando histórias, mas talvez escrevendo livros ou peças de teatro. Eu também hesito em definir quadrinhos porque era o medo de ‘fazer quadrinhos errados’, ou não fazer ‘quadrinhos de verdade’, me impediu de tentar por tantos anos.

O que você pensa quando um trabalho seu é publicado em um país como o Brasil? Somos todos ocidentais, mas vivemos culturas muito diferentes. Você tem alguma curiosidade em relação à forma como um trabalho seu será lido e interpretado por pessoas de um ambiente tão diferente dos seu?

Eu acho que isso é parte de publicar qualquer trabalho – a partir de determinado ponto, muito disso está nas mãos dos leitores e o que eles estão trazendo para isso. Eu vou dizer que a maioria das histórias em Floresta dos Medos são baseadas em narrativas orais, como contos de fadas ou histórias de acampamento, e uma tradição oral como essa é bem universal. Eu acho que vou só ficar ligada!

No que você está trabalhando atualmente? Você tem algum livro novo nos seus planos?

Eu estou! Estou trabalhando em uma novela gráfica nova, ainda não anunciada, que também será de horror, mas será minha primeira vez escrevendo e desenhando algo longo, ao contrário de histórias curtas. Eu também tenho um novo quadrinho de horror semi-surreal, semi-gótico, que sai nesta primavera chamado When I Arrived at the Castle.

Um quadro de Floresta dos Medos, HQ de Emily Carroll publicada pela editora DarkSide Books

Você pode me falar um pouco sobre o seu ambiente de trabalho?

Eu tenho um pequeno escritório em casa, com duas mesas – uma para o meu computador, uma para o meu material mais tradicional (embora eu acabe fazendo a maior parte do desenho na frente da TV, pra falar a verdade). Eu trabalho principalmente no computador hoje em dia, então é tudo bem limpinho. Eu também tenho duas estantes de quadrinhos e materiais de referência, e uma cadeira próxima para que eu, idealmente, pudesse ler… mas é o meu gato que está sempre dormindo por lá.

A última! Você pode recomendar algo que esteja lendo /assistindo/ ouvindo no momento?

Acabei de ler uma coleção de contos do Paul Trembley, cujo trabalho eu gosto muito, ele é um escritor de terror que brinca muito com questionamentos sobre a realidade, a nossa sanidade, o uso do narrador, etc. No ano passado eu também gostei muito do livro HEX, do Thomas Olde Heuvelt, um horror holandês muito divertido sobre uma bruxa (e é aterrorizante). Eu também peguei Gingerbread, da Helen Oyeyemi, que eu não li ainda, mas ela é uma das minhas autoras favoritas e eu recomendo de verdade qualquer trabalho dela.

A capa de Floresta dos Medos, HQ de Emily Carroll publicada pela editora DarkSide Books