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Cinema / HQ

Sábado (14/7) é dia de estreia do documentário Impressão Minha no MIS

Ei, tá em São Paulo? Tem programa pra sábado (14/7)? Então recomendo um pulo no Museu da Imagem e do Som (MIS) para o lançamento do documentário Impressão Minha. Dirigido por Daniel Salaroli, Gabriela Leite e João Rabello, o filme é um registro de 27 minutos da atual cena brasileira de publicações independentes. A entrada pro evento é gratuita. Além de duas exibições da obra, uma às 19h e outra às 21h, a festa de lançamento ainda contará com uma pequena feira de publicações, coquetel e um debate com os realizadores da produção. O MIS fica ali no número 158 da Avenida Europa, mas deixo aqui o link pra página do evento no Facebook pra quem quiser confirmar presença e saber mais sobre a estreia. Vamos?

Reproduzo por aqui, mais uma vez, a sinopse da produção e os dois trailers da obra. Ó: “Diante da hegemonia digital, a materialidade do livro ainda instiga. Impressão Minha apresenta a movimentação que acontece em torno dos livros e publicações independentes, no Brasil. Imerso entre artistas, editores e seus livros, o documentário abre espaço para reflexões sobre o mercado editorial, a liberdade de criação, a suposta oposição entre digital e impresso, o livro como objeto, as técnicas artísticas e de impressão…”

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92 minutos de conversa com Chris Ware

Acho que já comentei por aqui como considero Monograph uma das minhas leituras mais impressionantes relacionadas a quadrinhos no últimos anos. Nunca escondi a minha paixão pelos trabalhos do Chris Ware, mas essa espécie de autobiografia/enciclopédia pessoal do autor me ajudou a compreender ainda melhor o nosso privilégio por sermos contemporâneos desse período áureo de produção do responsável por Jimmy Corrigan e Building Stories.

Enfim, eu demorei pra ouvir a entrevista do Chris Ware pro Robin McConnell do podcast Inkstuds. Saiu em novembro do ano passado e fiquei enrolando, esperando por um tempo livre e sem interrupções, pra focar nos 92 minutos da conversa. Recomendo procê o mesmo foco total na conversa. O papo trata principalmente da concepção de Monograph, mas também fala das reflexões do autor sobre quadrinhos e memória e da RAW como fonte de inspiração para o início da carreira dele. Demais. Você ouve por aqui.

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Steve Ditko, por Daniel Clowes

Já viu essas duas páginas que a conta oficial do Daniel Clowes acabou de compartilhar no Twitter? Segundo os administradores do perfil, são dois rascunhos produzidos pelo quadrinista celebrando os 90 anos do Steve Ditko (1927-2018) para uma edição de 2017 da revista New Yorker. O tuíte explica que as páginas acabaram sendo recusadas pelos editores da publicação. Elas só acabaram sendo compartilhadas agora, cerca de três dias após o anúncio da morte do cocriador do Homem-Aranha e do Dr. Estranho.

O mais legal é ver a postura de idolatria do Clowes em relação ao Ditko, o chamando de “maior artista de quadrinhos vivo da América”. O autor de Ghost World conta inclusive ter batido na porta do quadrinista no final dos anos 70, mas para os spoilers por aqui e deixo pra sua leitura o final da história. Ó que demais:

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Deborah Salles e a produção do quarto número da Série Postal 2018

Volto a reunir por aqui a íntegra do depoimento de um artista participante da Série Postal sobre a produção de um dos números do projeto. Dessa vez, publico a íntegra das falas da quadrinista Deborah Salles sobre os bastidores do trabalho dela para a quarta edição do projeto no ano de 2018. Aproveito a deixa pra recomendar um pulo lá no Tumblr da coleção – no momento estão saindo por lá os comentários de Diego Gerlach sobre a quinta e última edição da Série Postal 2018. A seguir, aspas de Deborah Dalles:

“A primeira coisa em que pensei foi o formato. O convite para participar do projeto veio na época em que eu estava finalizando o meu TCC e fiquei refletindo em como pensar o quadrinho a partir do meu trabalho como designer, em como compor uma página e etc. Refleti sobre a proporção do postal e o que esse formato trazia pra mim.

A segunda coisa foi como as pessoas usam o postal e manipulam esse objeto. Quando você tem um postal em uma mesa, a chance de pegá-lo do lado certo é de 50%. É muito comum você virar um postal, virar de um lado e pro outro, ver o verso e a frente. É algo muito caraterístico do objeto, então pensei como trabalhar isso na história também. Esse era o meu gancho: como falar dessa manipulação”

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“Quando veio o convite pra participar eu tava numa época em que ia começar a usar óculos. Eu tava desenhando muito, aí minha visão ficou zoada e precisei dos óculos para ela ficar mais descansada. Achei que seria uma boa história, contar isso e também pensar nesse movimento das coisas pra ver melhor, seja aproximando ou afastando. O postal tem muito disso também: você pega e aproxima para poder ver melhor e depois joga de volta pra algum lugar”

“Eu queria fazer esse movimento de aproximação significar coisas diferentes. Quando você está vendo o zoom mais fechado na pessoa, você não consegue identificar o que está acontecendo. Na letra é o contrário, quando está o zoom mais aproximado é quando você entende. Então eu queria fazer esse jogo de um mesmo movimento significar duas coisas distintas”

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“Essa ideia surgiu dentro do consultório do oftalmo. Você tá lá, faz o teste pra ver o seu grau, com letras que parecem a mesma coisa e vão ficando mais claros. Eu achei que isso ia dar a mesma ideia. Eu queria fazer a coisa do postal girar. Então eu fiz uma coisa que fosse inversa uma da outra. Quando você está vendo a personagem mais de longe, a coisa que está em baixo disso é a letra mais de perto, é o movimento inverso e acho que fecha um ciclo”

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“Foi bem fácil entender na minha cabeça o que eu queria fazer, mas muito difícil fazer um desenho pra explicar o que eu queria fazer. É muito recente para mim trabalhar com outras pessoas e mostrar meu trabalho antes dele estar pronto. Eu peno muito pra fazer um desenho que fique claro. É muito estranho… Eu tô fazendo um livro com uma amiga, ela tá escrevendo e eu tô desenhando e eu tenho que deixar claro o que eu vou fazer antes de fazer, né? Nossa, é muito difícil. Achei que essas leituras do A-B-C iam funcionar melhor, mas nunca sei se isso vai ser claro pra outra pessoa”

“Eu tenho um interesse nesses temas banais e cotidianos, é algo que vai além dos quadrinhos. Seinfeld e essas histórias sobre nada sempre me chamam mais atenção, tem uma sutileza de histórias simples que eu gosto muito. A graça tá em outras coisas, não em grandes acontecimentos, sabe? Isso me interessa, trabalhar com o mínimo possível pra poder expandir as coisas, trabalhar além de uma narrativa com um grande arco ou um grande acontecimento”

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“No meu Trabalho de Conclusão de Curso na faculdade eu queria falar um pouco disso, de rotina dessa designer que vive em São Paulo e vê a cidade tendo designs muito diferentes do que ela faz. É um quadrinho que fala desse isolamento. Tem todas essas marcas ao redor dela, identidades visuais que mudam toda hora, enquanto o trabalho que ela faz é muito mais lento, tem outro tempo outro contexto, algo que já não tem lugar. Pra isso eu pensei do mesmo jeito do postal: resolvi primeiro o formato do livro, como ele ia ser, e a partir disso eu fiz a histórias”

“Como eu tava nessa de pensar o formato e pensar no objeto, eu também queria deixar o postal mais relacionado ainda com o design gráfico e lembrar quem estiver usando que aquilo é algo impresso. Uma das coisas muito características da impressão em offset são as quatro cores CMYK – ciano, magenta, amarelo e o preto. Como a impressão seria em quatro cores, pensei em mostrar essas cores como elas são, puras. Por isso eu queria que o preto fosse não composto, esse preto que é uma chapa só, assim como azul, e o vermelho fosse uma composição exata de amarelo e magenta. Isso fala do processo de impressão, né? A ideia era aproximar a pessoa desse processo. Também por isso, o desenho foi feito na mesma escala em que foi impresso. Quando você vê um desenho impresso no mesmo tamanho que o desenhista fez, te deixa mais perto da coisa”

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“No colegial eu usava mais postais, geralmente com amigas. Alguém viajava e mandava um postal. Aí eu recebi um monte de um amigo no primeiro ano da faculdade, o meu pai viu, gostou e agora ele sempre me manda postal. Se ele vai pra Minas Gerais ele me manda um postal. Então é uma coisa que está presente na minha vida”

Entrevistas / HQ

Papo com Seth, o autor de A Vida é Boa, Se Você Não Fraquejar: “Não tenho interesse em tramas. Eu olho para tudo o que faço como um meio de expressar ideias e sentimentos”

Já comentei por aqui como considero A Vida é Boa, Se Você Não Fraquejar (Mino) um dos melhores títulos publicados no Brasil em 2018. O quadrinista canadense Seth é um dos meus autores preferidos e eu achava uma pena que somente um outro título dele havia saído por aqui até então – o excelente Wimbledon Green, pela Bolha. Entrei em contato com o artista para falar sobre o lançamento de A Vida é Boa em português e tratar de alguns temas recorrentes em outros de seus trabalhos. Esse papo virou matéria na Folha de São Paulo e você lê esse conteúdo por aqui. A seguir, reproduzo a íntegra da minha entrevista com o quadrinista:

Você se lembra do momento em que teve a ideia de criar A Vida É Boa, Se Você Não Fraquejar?

Na verdade eu não me lembro quando as primeiras ideias para o livro vieram à minha mente. Foi há muito tempo (em meados dos anos 90) e eu sinto como se fosse uma outra pessoa que fez esse livro. Eu me lembro de que era mais um processo mental pelo qual eu passava do que uma ideia repentina para uma história. Eu já estava fazendo alguns quadrinhos autobiográficos na época e não estava muito feliz com eles. Eles eram, de alguma forma, não-sequenciais. Mais piadas do que histórias. Foi nessa época que concluí que eu precisava contar histórias que eram menos sobre ‘coisas que aconteceram’ e mais sobre os aspectos mais sutis da vida. Memórias, pensamentos, sentimentos. Coisas intangíveis.

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“Da forma como eu vejo, eu não estou escrevendo um filme blockbuster, então não preciso me preocupar em fazer o meu trabalho comercialmente aceitável”

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Você poderia, por favor, falar um pouco mais sobre o processo de criação desse livro? Aliás, você poderia contar um pouco dos seus métodos de produção? Você tem um processo particular que funciona para todos os livros ou varia?

Eu levo muito tempo para finalizar um livro. Eu passei 20 anos fazendo a graphic novel Clyde Fans! A Vida É Boa levou apenas três ou quatro anos, acho. Seja como for, você passa muito tempo pensando sobre o próximo livro enquanto finaliza aquele em que está trabalhando. Quando digo ‘pensando’ me refiro principalmente a deixar as ideias virem de forma lenta e se combinarem com outros conceitos presentes no seu cérebro. Eu escrevo muitas notas. Uma narrativa vai se desenvolvendo pedacinho por pedacinho. Eu nunca me preocupo em relação a uma trama. Não tenho interesse em tramas. Eu apenas olhos para tudo o que faço (graphic novels, pinturas, fotografias, objetos, qualquer coisa) como um meio de expressar ideias e sentimentos. Eu não me preocupo muito se estou me conectando com um público. Da forma como eu vejo, eu não estou escrevendo um filme blockbuster, então não preciso me preocupar em fazer o meu trabalho comercialmente aceitável.

Eu escrevo uma espécie de roteiro, mas muito do planejamento pra valer de uma história é feito página a página. Eu planejava mais as coisas no início da minha carreira. Hoje em dia eu confio bastante na espontaneidade. Eu acho que ela mantém o trabalho fresco.

Eu sempre penso nos vários níveis de exposição em quadrinhos autobiográficos. O Chester Brown, por exemplo, é um caso extremo, ele é muito explícito em relação às experiência de vida dele. O Adrian Tomine e a Alison Bechdel tem propostas diferentes em relação à forma como retratam suas vidas pessoas. A Vida É Boa, Se Você Não Fraquejar é sobre uma jornada sua, mas não completamente factual. O quanto de você está realmente exposto no livro?

A maior parte dos elementos no livro sobre mim são verdade. Vários dos detalhes da história são inventados, mas os trechos pessoais, pelo menos a maior parte, são precisos. Eu me utilizei como personagem principal por saber que o leitor se relacionaria mais com a história se a aceitasse como uma verdade. Não é um truque ou uma farsa. Apenas um mecanismo para que o leitor se importe mais com o Kalo.

No momento eu estou trabalhando em uma espécie de memória em quadrinhos com o título Nothing Lasts [Nada é eterno, em tradução livre]. Ela é cheia de detalhes reveladores da minha vida… mas é apenas tão reveladora quanto eu quero que seja. Eu jamais vou me expor como o Chester Brown ou o Joe Matt. Eu sou uma pessoa muito mais discreta. Nós três valorizamos bastante a ideia de honestidade em quadrinhos autobiográficos… Mas obviamente, de nós três, eu sou aquele com a menor disposição de ‘contar tudo’. De vez em quando eu acredito que o trabalho de ficção que eu fiz é mais revelador que as coisas autobiográficas.

Esse não é o seu primeiro trabalho sobre um personagem colecionador ou obcecado com algua coisas. Colecionismo e obsessões são características muito relacionadas a leitores de quadrinhos. Você se considera um colecionador? Se sim, o que você coleciona? Você se considera obcecado por alguma coisa?

Eu com certeza sou um colecionador! Eu sempre fui um colecionador e sempre serei um colecionador. Eu gosto de colecionar. Há algo muito prazeroso para mim em encontrar coisas e colocá-las juntas. É um processo que, por si só, já prezo muito. É claro, eu gosto de possuir coisas, mas de vez em quando eu também acho que colecionar é mais interessante do que a própria coleção. Eu sou o que pode ser chamado de ‘colecionador em série’ – o que significa que eu coleciono alguma coisa por um tempo, me canso e passo a colecionar alguma outra coisa.

Muito do que eu coleciono molda o trabalho que eu faço. Visualmente e (obviamente) no tipo de história que eu escrevo. Eu acho colecionadores interessantes – também leio muitos livros sobre esse assunto. Quando eu crio um personagem, uma das primeiras coisas que eu me pergunto é, ‘O que ele coleciona?’

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“À medida que a cultura de fãs se tornou cada vez mais a forma predominante de cultura pop, eu acho que esse aspecto inerente da nostalgia passou a ser espertamente vendido para as pessoas”

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Eu vejo uma relação entre colecionismo e consumismo. Eu não sei se você concorda, mas nos dias de hoje, mais do que nunca, vejo a produção de obras de cultura pop e de arte cada vez mais ditadas por esse mesmo consumismo. O que você pensa dessa relação e dos rumos que ela tem dado às nossas culturas e formas de arte?

Sim, eu também vejo isso. É interessante por eu não acreditar que essa conexão era tão intensa há algumas décadas. Tem muito a ver com a cultura de fãs, eu acho. Nos anos 60 e 70 a cultura de fãs ainda não era mainstream e durante seu desenvolvimento era inicialmente uma cultura de nostalgia. Adultos dando continuidade a seus interesses de infância e tentando colecionar livros, quadrinhos e qualquer coisa que os mantivessem conectados aos seus interesses de infância. À medida que a cultura de fãs se tornou cada vez mais a forma predominante de cultura pop, eu acho que esse aspecto inerente da nostalgia passou a ser espertamente vendido para as pessoas. Elas estão dispostas a comprar ‘conforto’. A maioria das coleções de hoje não tem nada a ver com a busca por objetos de apelo estético difíceis de encontrar ou da busca e da pesquisa por informações culturais obscuras. A maioria das coleções de hoje (na cultura mainstream) é simplesmente a compra de um monte de itens de cultura pop de marca, da mesma forma que as pessoas comem um monte de porcaria.

E eu também vejo muita nostalgia nos seus livros. Como as suas memórias ditam o desenvolvimento dos seus trabalhos?

Todos os meus trabalhos tratam de ‘olhar para trás’. Eu tendo a resistir à palavra ‘nostalgia’ por ela ser carregada de muitos significados. Ela sempre implica em uma espécie de interpretação sentimentalista e otimista da vida. Eu sou uma pessoa sentimental… e eu sou uma pessoa nostálgica.. mas eu gosto de pensar que estou tentando apresentar um ‘olhar para trás’ mais complexo no meu trabalho. Eu quase sempre tento evitar essa perspectiva ingênua. Dito isto, eu não estou interessado na cultura atual e à medida que envelheço o meu trabalho se torna cada vez mais enraizado no passado. Não por eu acreditar que ‘eram tempos melhores’, mas pelo fato dos meus interesses serem do passado.

Eu vi uma definição sua de quadrinhos como ‘design + poesia’. Você pode falar um pouco mais sobre essa sua interpretação?

Essa é uma discussão muito longa! Recomendo esse link em que falo sobre isso com detalhes: https://bit.ly/2IQBTOQ

Vou dizer que ainda concordo com essas ideias. Mais e mais pelo fato do meu trabalho atual ainda ser regulado e ditado por ritmo. Eu uso muito mais painéis nas páginas do que estava acostumado e de vez em quando eu já não completo mais uma frase inteira em um único painel. O ritmo de como a página de um quadrinho é lida é muito importante para mim. O elemento mais importante na verdade. Todo o resto está subordinado a essa ritmo – desenhos, cores e até a estrutura das frases.

O que mais te interessa em quadrinhos hoje em dia? Há alguma coisa que você acredita que possa ser feito com essa linguagem que você ainda gostaria de ver?

O que mais me interessa – no meu próprio trabalho – é a atmosfera e a descrição. Eu quero gastar mais tempo escrevendo quadrinhos que sejam essencialmente sobre lugares. Eu gosto de descrever coisas e lugares mais do que contar histórias… E por isso acredito que os meus trabalhos que saírem em breve serão principalmente nessa direção. Eu suspeito que seja estranho um escritor não ser muito interessado em personagens, tramas ou conflitos. Esses são supostamente os elementos essenciais de uma história, mas eu acho que uma história pode ser interessante por razões menos óbvias. O meu próximo livro será praticamente composto integralmente de descrições de um lugar e de um período pelos olhos de um narrador. Eu estou muito ansioso por escrevê-lo.

O que você pensa quando um trabalho seu é publicado em um país como o Brasil? Somos todos americanos, mas são culturas muito diferentes. Você tem alguma curiosidade em relação à forma como um trabalho seu será lido e interpretado por pessoas de um ambiente tão diferente dos seu?

Essa é a uma pergunta interessante. Às vezes eu imagino se o que estou escrevendo aqui no Canadá faz sentido em outras culturas. Com certeza um país com o Brasil tem uma cultura muito diferente do Canadá… E mesmo assim, como você diz, nós somos todos americanos e temos muito em comum. Em relação a isso eu não faço ideia nem como o meu trabalho é visto por canadenses. Na maioria das vezes eu escrevo pensando em mim como a minha audiência primária. Eu sei que acho empolgante ver a obra rodar o mundo. Uma das coisas mais difíceis é que você nunca sabe se as traduções são boas ou não. E é claro, o mesmo também vale no inverso, quando você lê um livro traduzido para o inglês.

Você pode me dizer por que Seth?

Na verdade é um pouco constrangedor. É um nome que eu escolhi para mim quando estava nos meus 20 e poucos anos. Eu era um jovem punk roqueiro na época e estava procurando por pseudônimo meio assustador e gótico e Seth foi o escolhido. Hoje eu não me importo muito mais com ele, já estou usando há mais de 30 anos e parece mais com o meu nome real do que o meu nome de batismo, Gregory. Já estou acostumado. A única coisa que sou grato é por ter escolhido um nome de verdade – eu poderia ter escolhido algo muito pior, como Monster Zero ou Marylin Manson ou algo igualmente horrível.

No que você está trabalhando atualmente? Você tem algum livro novo nos seus planos?

Como falei anteriormente, eu estou trabalhando em um livro de memórias chamado Nothing Lasts que vou serializar em Palookaville e em breve começarei um livro (esse que será muito descritivo) batizado de The Royal. Estou sempre trabalho em vários trabalhos visuais também. Desenhos, dobraduras e vários objetos que estou construindo. A vida no estúdio é o que mais valorizo – conectando várias ideias e vendo onde elas podem me levar.

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?

Nos últimos dois anos eu tenho reescutado obsessivamente um áudiolivro da Virginia Woolf, To The Lighthouse. Um trabalho maravilhoso de narração da Juliet Stevenson! Aqui está o link pra ele: https://adbl.co/2NpDVbX

Eu tenho me dedicado muito aos livros da saudosa Anita Brookner. Ela escreveu 24 livros e eu li 20 deles nos últimos dois anos. Eles são lentos e contemplativos e muito melancólicos, de forma muito austera. Ela é a minha escritora favorita hoje… Tendo tirado a Alice Munroe do topo do ranking!

Eu também tenho assistido a muito dos episódios clássico antigos do Perry Mason com o Raymond Burr. Esse pode ter sido o programa de TV mais formulaico da história. Todo episódio é praticamente o mesmo e mesmo assim eles são muito prazerosos de assistir. Quase hipnóticos.

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Série Postal: Diego Gerlach é o autor da quinta edição da coleção em 2018

O quadrinista Diego Gerlach assina a arte da quinta e última edição da Série Postal 2018. O autor é responsável pelas HQs da série Know-Haole, pelo suplemento Pirarucu da revista Baiacu e edita o selo Vibe Tronxa Comix. Em 2017 ele publicou os aclamados Nóia: Uma História de Vingança e o 12º número da coleção Ugritos, Arrecém. O quadrinho da artista para a Série Postal começará a ser distribuído de graça a partir das últimas semanas de julho. Você encontrará informações sobre o evento de lançamento da HQ e os locais de distribuição da obra, assim como outros conteúdos relacionados ao projeto tanto aqui, no Vitralizado, quanto no Tumblr e na Fanpage da coleção.

A Série Postal 2018 é fruto de uma parceria entre o editor e idealizador do projeto, o jornalista Ramon Vitral, e a gráfica Juizforana. A edição de estreia do segundo ano do projeto foi de autoria de Alexandre Lourenço, a segunda de Raquel Vitorelo, a terceira de Cecília Silveira e a quarta de Deborah Salles. As 12 edições da Série Postal lançadas em 2017, em parceria com o programa Rumos do Itaú Cultural, foram assinadas por Pedro Franz, Pedro Cobiaco, Taís Koshino, Bianca Pinheiro, Bárbara Malagoli, Felipe Portugal, Manzanna, Paula Puiupo, Daniel Lopes, Felipe Nunes, Jão e Mariana Paraizo.