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Entrevistas / HQ

Papo com Helô D’Angelo, autora de Dora e a gata: “Tenho curtido ‘alfabetizar’ uma galera que não está acostumada a ler quadrinhos”

Está no ar a campanha de financiamento coletivo do álbum Dora e a gata, primeiro trabalho longo de ficção da quadrinista e jornalista Helô D’Angelo. Para que as 116 páginas do quadrinho sejam impressas e lançadas em novembro de 2019, a autora pede no site Catarse o montante de R$ 28 mil. Até o momento, faltando 41 dias para o fim da campanha, já foi reunido mais de 56% desse valor. Você confere a página do projeto clicando aqui.

Produzida durante um período de oito meses e publicada originalmente no Instagram de D’Angelo, Dora e a Gata narra a entrada da personagem-título no mundo adulto em meio ao seu convívio com uma gata encontrada por ela na rua.

“Decidi que só começaria a postar os capítulos quando a HQ estivesse finalizada – se não fosse assim, eu sei que ia querer fazer a história ‘perfeita’, sem furos, o que no fim só ia me impedir de terminar”, conta a artista em conversa por email com o blog. Nesse papo, a quadrinista conta a origem de Dora e a gata, comenta o processo de produção da HQ, fala sobre a interação com seus mais de 66,4 mil seguidores no Instagram e mostra-se otimista apesar dos tempos de escrotidão generalizada sintetizados no governo de Jair Bolsonaro.

“É uma questão de parar de demonizar a ignorância, porque isso gera medo do conhecimento, e medo gera ódio, e ódio é o que vivemos”, diz D’Angelo. Papo massa, saca só:

“Do início ao fim, tudo é feito à mão”

Quadros de de Dora e a gata, HQ de Helô D’Angelo em campanha de financiamento coletivo no Catarse

Qual foi o ponto de partida para Dora e a Gata? Quando você começou a desenvolver esse projeto? Houve algum estalo particular que te levou a produzir essa história, com esses personagens?

Eu comecei a desenvolver Dora e a gata há dois anos, mais ou menos. Tudo começou pelo final: foi o desfecho que me veio primeiro à cabeça, durante um curso de histórias em quadrinhos no qual precisávamos entregar pelo menos o projeto de uma HQ como uma espécie de TCC. Lembro que me inspirei na minha gata, a Jerí, e pensei nessa história de coming of age, de amadurecimento, e autoconhecimento. Mas por meses eu guardei esse final na gaveta, achando que criar uma trama para chegar a ele seria impossível, até que comecei outro curso, dessa vez de ilustração, com a Psonha Camacho. Eu estava passando por um bloqueio criativo terrível depois de um ano penoso trabalhando no meu TCC, o Quatro Marias, e o curso estava me ajudando a sair dessa. As aulas eram tão inspiradoras que um dia, do nada, comecei a rabiscar e criar personagens: uma moça e uma gata, inspirada na Jerí. Fiz alguns estudos das duas, estudos de cenário e depois algumas tirinhas, sem pretensão nenhuma, e levei para a Psonha ver. Ela animou tanto, me incentivou tanto, que eu continuei desenhando tirinhas soltas, e daí um dia decidi que aquilo era sério e sentei para escrever o roteiro. Lembro que a primeira tira que eu desenhei foi durante a Bienal de Quadrinhos, em Curitiba, na qual eu fiquei extremamente inspirada – e, inclusive, não consegui mais desapegar de fazer tudo à mão, em cadernos. Do início ao fim, tudo é feito à mão.

“No jornalismo, você está contando histórias interessantes por serem verdade; na ficção, tudo depende da sua capacidade de criar e narrar a história”

Quadros de Dora e a gata, HQ de Helô D’Angelo em campanha de financiamento coletivo no Catarse

O meu primeiro contato com o seu trabalho foi com os cartuns e as tiras que você publica no Instagram. Dora e a Gata é o seu primeiro trabalho longo, certo? Como foi o processo de desenvolvimento da estrutura dessa história? O quanto você já tinha pronto desse quadrinho quando começou a publicá-lo?

Sou formada em jornalismo, e meu TCC foi uma reportagem longa em quadrinhos sobre as realidades do aborto no Brasil (coloquei o link na resposta anterior). Mas Dora e a gata é minha primeira HQ longa de ficção, o que faz muita diferença: no jornalismo, você está contando histórias interessantes por serem verdade; na ficção, tudo depende da sua capacidade de criar e narrar a história. É um desafio grande, e meu processo foi bastante desesperador (rs), porque ao mesmo tempo em que eu criava as tiras eu comecei a estudar mais a fundo roteiro, composição, cor e a buscar outras referências nos quadrinhos e no cinema. Então, imagina, eu me sentia uma despreparada, achava que ia desistir, que não ia funcionar, que eu não sabia o suficiente para fazer uma HQ longa – mas, quando eu abri mão de fazer algo perfeito e comecei a me divertir, deu certo. Tirando o desespero, o processo foi mais intuitivo do que qualquer coisa: não fiquei pensando em amarras técnicas e apenas deixei a história fluir, pedindo às vezes conselhos aos amigos mais próximos sobre a narrativa. Foi realmente algo muito sincero: comecei com as tiras soltas, depois montei um roteiro bem simples (ao qual também não me amarrei: era mais uma linha-guia para eu não me perder), e enquanto ia desenhando, ia tendo mais ideias e enriquecendo o roteiro. Não pensei nem em estrutura de página, algo que é minha maior dificuldade: quase todas as páginas têm 6 quadros quadrados, e isso tem a ver com a narrativa, já que no final essa estrutura é quebrada, e também veio como uma forma de facilitar a leitora de quem não está acostumado à linguagem dos quadrinhos, que é boa parte do meu público. Até pela minha insegurança de achar que eu não terminaria, eu decidi que só começaria a postar os capítulos quando a HQ estivesse finalizada – se não fosse assim, eu sei que ia querer fazer a história “perfeita”, sem furos, o que no fim só ia me impedir de terminar. Meu objetivo era finalizar, me sentir capaz de ter algo grande pronto no meu portfólio. E rolou!

Quadro de Dora e a gata, HQ de Helô D’Angelo em campanha de financiamento coletivo no Catarse

E qual foi o maior desafio pra você ao longo desses oito meses de desenvolvimento das 116 páginas da HQ?

Foram dois. O primeiro: lutar contra a minha baixa autoestima ao mesmo tempo em que eu evitava exagerar na dose das horas gastas trabalhando na HQ. O segundo: estruturar uma narrativa tão longa e criada exclusivamente por mim, e ter confiança de que aquilo estaria bom, que eu não precisaria florear mais do que o necessário. Resumindo, confiança em mim e no meu trabalho foi de longe a parte mais difícil (rs). Desenhar eu tirei de letra, rs.

Você trabalha em aquarela e nanquim em Dora e a Gata. Por que essa técnica? Você também faz tudo à mão nas suas tiras e nos seus cartuns? 

Eu sou absolutamente apaixonada por nanquim e aquarela, porque cada um deles representou minha entrada num novo “nível” do desenho: o nanquim eu conheci ainda adolescente, e senti um avanço imenso no meu traço depois que consegui começar a dominar a técnica. Já a aquarela veio já comigo adulta, num momento em que eu estava começando a experimentar cores – ganhei meu estojinho da Winsor e Newton do meu namorado, o Luis, e nunca mais larguei. Hoje, nanquim+aquarela são minha combinação favorita, e embora eu também trabalhe um pouco com guache, lápis de cor e grafite, são eles que predominam no meu trabalho, que é quase todo feito à mão. Acho que é o que me dá mais prazer mesmo, sou daquelas chatas que curtem o cheiro das coisas, o toque do papel, a ida à loja para escolher as cores, a incorporação do erro no trabalho, sem possibilidade de crtl+z. Dá mais emoção, mas também dá mais autenticidade. De qualquer modo, ultimamente tenho me dedicado a estudar pintura e desenho digitais, e até curto, mas não tenho a mesma facilidade (ainda?) e arrisco dizer que hoje consigo fazer muito mais rápido qualquer trabalho na mão do que no digital.

Quadro de Dora e a gata, HQ de Helô D’Angelo em campanha de financiamento coletivo no Catarse

Me fala, por favor, como você chegou nessa paleta de cores de Dora e a Gata? Esses tons de azul, roxo e vermelho se fazem muito presentes no seu trabalho. Por que essas cores?

Bom, para começo de conversa, são minhas favoritas. Mas em “Dora e a gata” eu quis resumir ao máximo muita coisa: além da estrutura da página, traços faciais, cenários, as cores das coisas. Optei pelo vermelho e pelo azul porque eles trabalham bem juntos, e o roxo apareceu como mistura dos dois. Depois desenvolvi conceitualmente um pouco mais esse uso das cores. Cada personagem tem uma cor específica, que tem a ver com sua personalidade: Dora e Gata são azuis, uma cor que, dependendo do tom, remete a medo, frio, noite; mas também a harmonia, paz – a ideia é que a Dora, no início, é puro medo e ao longo da narrativa vai se desenvolvendo até chegar à faceta mais harmoniosa de sua cor, com a ajuda da gata, que também é azul. Já Caio, o namorado abusivo de Dora, é o único ponto verde da história toda: é uma cor que eu detesto, e que me remete a doença, a aquilo que está estagnado, mofo, e é difícil de combinar – mas ironicamente não deixa de ser a cor da esperança, do crescimento e da vida, de modo que dá para a gente pensar que mesmo no pior cenário possível existe vida. Ceci, a amiga/interesse romântico de Dora que aparecerá mais para frente, é vermelho: força, energia, potência, atenção. 

Você tem muitos seguidores no Instagram e os seus posts recebem muitos comentários. Você já fechou as 116 páginas da HQ, mas essa interação do público com as atualizações da série te fizeram querer mudar ou mexer de alguma forma na história?

Não, nem um pouco! Sou dessas que têm inseguranças ao longo do processo, mas uma vez que a coisa está finalizada, acabou. Sou assim com quadrinhos e relacionamentos, rs. E eu realmente acho que fiz um bom trabalho nessa HQ, estou feliz com ela como um universozinho fechado, sinto que ela está bem coesa e coerente, e acho que mexer em qualquer coisa poderia estragar isso.

Quadros de Dora e a gata, HQ de Helô D’Angelo em campanha de financiamento coletivo no Catarse

Você costuma fazer séries temáticas de cartuns e tiras no Instagram, mas compartilhar uma obra em capítulos, periodicamente, é algo novo. É diferente a interação dos seus seguidores com esse trabalho quando comparada com a interação com seus outros posts?

Sim, é muito diferente! Minhas tiras seriadas, como “Se personagens de filmes fizessem terapia”, não têm periodicidade definida; eu posto quando dá na telha, e muita gente nem sabe que é parte de uma série. Já “Dora e a gata” eu fiz questão, desde o início, de deixar bem claro que seria uma obra em capítulos, que aqueles capítulos seriam finitos, e que a história não seria postada na íntegra no Instagram. Isso criou uma cultura de ansiedade positiva pelos posts, um tipo de ansiedade à qual as pessoas não estão mais acostumadas, já que tudo é muito rápido e instantâneo. No começo, recebi comentários um pouco raivosos das pessoas querendo que eu postasse tudo de uma vez, mas depois de algumas semanas percebi que mesmo os seguidores mais impacientes começaram a curtir essa espera pelo post seguinte – até porque eu tento fazer brincadeirinhas interativas entre posts, como perguntar teorias dos leitores e coisas assim. Eu tenho curtido “alfabetizar” uma galera que não está acostumada a ler quadrinhos: fico pegando no pé de quem chama de “charge” ou “tirinha” essa webcomic; corrijo, explico, lembro que é parte de uma história mais longa e coisa e tal. Acho que se nós quadrinistas não fizermos isso, nunca vamos conseguir conquistar novos públicos. E um novo público, desacostumado com a linguagem de HQs, é o que tem chegado em “Dora e a gata” (até por isso eu quis manter as páginas numa formatação simples).

Como autora independente eu imagino que você não tenha alguém à disposição para atuar como editor da HQ. Como tem sido o processo de edição de Dora e a Gata? 

Olha… é um desafio imenso. O que me salvou foram os amigos mais experientes. Como eu falei, o processo de criação da HQ foi meio o monstro de Frankenstein, uma coisa sincerassa e sem muito projeto, e ao longo do caminho pude contar com amigos e amigas que me ajudaram com dicas mais “editoriais” e com críticas à narrativa: a própria Psonha, Alexandre de Maio, Uva (da gráfica Ovu), Carol Ito, Veronica Berta, lovelove6, Luli Pena e toda a cena das mulheres quadrinistas e ilustradoras aqui de São Paulo. Lembro que eu terminei a HQ e mandei para essas e algumas outras pessoas e elas curtiram e me deram ótimos feedbacks – um deles foi a falta de momentos de respiro na história, uma coisa que eu realmente não fiz porque estava muito presa ao ritmo da webcomic, que precisa ser mais rápido e com mais ganchos. Aí, eu completei com umas 15 páginas de respiros: uns momentos contemplativos, tipo a gata sozinha na casa, Dora pensativa, momentos de passagem do tempo, coisas mais calmas, pra pisar no freio mesmo. E em termos de diagramação… foi um terror (rs). Minha ideia original era fazer os textos à mão, mas obviamente eu desisti, tive que diagramar tudo umas três vezes, depois fui descobrindo coisas sobre formatos digitais e montagem do livro que eu nem fazia ideia, fui atrás de ISBN, gráfica, enfim, fazendo enquanto aprendia, tentando não cair no desespero porque é muita coisa. Acho que, com o apoio desses amigos, dei conta (espero!).

“Minha protagonista é uma mulher bissexual em processo de autoconhecimento, que passa por um relacionamento abusivo, mas consegue se reerguer”

Uma página de Dora e a gata, HQ de Helô D’Angelo em campanha de financiamento coletivo no Catarse

O seu trabalho aborda muitos temas políticos e questões sociais, dialoga bastante com a nossa realidade. No projeto de Dora e a Gata você diz que a HQ vai tratar de política “de forma transversal”. Você pode contar um pouco mais sobre como vai ser essa abordagem?

Eu acredito que o fazer político vai muito além de falar explicitamente de política. Tudo é político, especialmente se você é parte de um grupo que chamamos de “minoria política” – mulheres, negros, LGBTs etc. Em “Dora e a gata”, meu foco principal não é a questão da mulher, nem a sexualidade, por exemplo, mas essas são questões que aparecem na obra e guiam seu desenvolvimento; que moldam as personagens e transformam a história, sem que eu precise me referir a elas explicitamente como bandeiras, como foco. A coisa está no discurso, nas entrelinhas, nas vivências, como é na vida real. Quem é esperto vai entender, e quem não é vai, pelo menos, conhecer mais personagens femininas e fortes. Além disso, tem a questão da representatividade. Veja, minha protagonista é uma mulher bissexual em processo de autoconhecimento, que passa por um relacionamento abusivo, mas consegue se reerguer; tirando Caio, todos os personagens são mulheres, todas com seus altos e baixos; uma delas é uma mulher negra e lésbica – e eu trabalhei muito para não objetificá-la para o olhar masculino/branco. Mas, embora eu tenha me esforçado para fazer uma história predominantemente feminina, eu não fico mencionando isso o tempo todo na HQ. Não é necessário: só de ver mulheres cuidando de mulheres, alertando mulheres sobre homens violentos, sendo amigas de mulheres e amando mulheres, isso já está dito. E para além de tudo isso, tem também o fato de eu, a autora, ser mulher em um meio que ainda é, ou que ainda parece, bastante dominado por homens. Com “Dora e a gata”, eu quero mostrar que é possível uma autora mulher produzir uma obra que seja bem recebida pelos leitores sem ter que me adequar a estereótipos sobre histórias “femininas”, e que seja ao mesmo a história que eu queria produzir. Dominar esse espaço e conquistá-lo para as próximas gerações de quadrinistas mulheres é político também. 

“Tenho recebido respostas muito interessante de pessoas que inclusive não estão acostumadas a consumir quadrinhos”

Quadros de Dora e a gata, HQ de Helô D’Angelo em campanha de financiamento coletivo no Catarse

Desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que é a nossa sociedade hoje. Os seus quadrinhos são sempre críticos em relação a isso tudo e também costumeiramente didáticos e isso me soa como uma postura bastante positiva de enfrentamento e esperança. Enfim, o que eu queria saber: você é otimista em relação ao nosso futuro? 

Olha, Ramon, eu sou otimista. Eu tenho que ser. Se não fosse, não teria energia para fazer o tipo de trabalho que eu faço, que é essa coisa provocativa, mas também didática, de pegar a pessoa pela mão e falar: “olha, é isso aqui que você não sabe, vamos tentar aprender juntos?”. E eu tenho recebido respostas muito interessante de pessoas que inclusive não estão acostumadas a consumir quadrinhos: a galera lê minhas tiras com trechos de livros e fala “uau, não sabia disso” ou “isso me fez pensar por um outro lado”. Tem muitos adolescentes nesse bolo, o que me deixa muito feliz. Durante as eleições, eu fiz um resumo em HQ das propostas do Haddad, e muitos eleitores de Bolsonaro fizeram comentários interessantes, não concordando comigo, mas pelo menos assumindo que as propostas pareciam legais, que eles não sabiam, coisas assim. Eu acho que despertar essa curiosidade, esse lado crítico, nas pessoas é o que me mantém trabalhando. É tão gostoso ler, aprender, conhecer, mas num país em que 1,3 milhões de pessoas são analfabetas e em que a educação pública não dá conta de gerar um pensamento crítico, esperar que as pessoas simplesmente tomem gosto por estudar (quando sequer têm tempo de lazer e de cuidar da própria saúde, aliás) é bem ingênuo, então acho que dar uma mãozinha nesse sentido é o mínimo que eu, enquanto pessoa branca, de classe média-alta e privilegiada em quase todos os sentidos, posso fazer.  É uma questão de parar de demonizar a ignorância, porque isso gera medo do conhecimento, e medo gera ódio, e ódio é o que vivemos. 

Última! Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?
Estou em uma pegada bem política, então tenho lido muitos livros teóricos sobre o tema. O último que li foi “O ponto zero da revolução, de Silvia Federici, que é absolutamente incrível. Indico também, pra quem for bom de inglês, o podcast Welcome to Night Vale, que é ficcional e é uma das coisas mais geniais e inspiradoras que eu já ouvi – especificamente o episódio A story about you. Por último, indico meu livro favorito, que me ensinou praticamente tudo o que eu sei sobre narrativa: The house of leaves, de Mark Z. Danielewski. É um livro metalinguístico, em que a diagramação conta a história junto com o texto, e pirou minha cabeça num nível que nem sei descrever. 

Helô e a gata, trabalho de Helô D’Angelo em campanha de financiamento coletivo no Catarse
HQ / Matérias

Daniel Semanas fala sobre Roly Poly – A História de Phanta, K-pop e redes sociais

Escrevi uma matéria para o jornal Folha de São Paulo sobre Roly Poly – A História de Phanta, primeiro álbum do animador e quadrinista Daniel Semanas. Reproduzi no texto algumas aspas da minha conversa com o autor, na qual ele falou sobre as origens da HQ, comentou sua paixão pelo universo do k-pop e tratou da influência das redes sociais no quadrinho.

No texto eu também chamo atenção para o fato do autor ser apenas o quarto brasileiro – junto com Fabio Zimbres, Marcello Quintanilha e Marcelo D’Salete – publicado pela Fantagraphics, a mais lendária editora de quadrinhos dos Estados Unidos. Você lê a matéria clicando aqui.

A capa de Roly Poly – A História de Phanta, trabalho de Daniel Semanas publicado pela editora Mino
Cinema / HQ / Séries

Vitralizado #81 – 06.2019

O 81º mês de existência do Vitralizado chegou ao fim junto com o término do primeiro semestre de 2019 e o conteúdo que deu as caras por aqui nos últimos 30 dias reflete a qualidade dos quadrinhos publicados no Brasil nesses primeiros seis meses do ano. Teve Jason, Pedro D’Apremont, Chris Ware, Amanda Paschoal Miranda, Box Brown, Tom Gauld e por aí vai. Tá massa, né não? Enfim, ó o sumário do blog em junho:

*Entrevistei o quadrinista escocês Tom Gauld, autor de Golias, álbum publicado por aqui pela editora Todavia. Sensacional ver o Tom Gauld finalmente lançado em português. Você lê a minha matéria sobre Golias pro jornal O Globo clicando aqui e a íntegra da minha entrevista com o autor por aqui – e a imagem que abre o post foi tirada lá do tumblr do quadrinista;

*Aliás, falando em lançamentos inesperados/aguardados: divulguei que a Companhia das Letras comprou os direitos de Rusty Brown, o tão esperado próximo álbum do gênio Chris Ware;

*Bati um papo com o artista norueguês Jason, autor do excelente Eu Matei Adolf Hitler, publicado pela editora Mino. Escrevi um texto sobre a HQ aqui pro blog e depois compartilhei a íntegra da minha conversa com o autor;

*Outro papo bem massa foi com o Pedro D’Apremont, autor do álbum Notas do Underground, lançado pela editora Pé-de-Cabra;

*E a última entrevista de junho foi com Box Brown, quadrinista norte-americano autor de Cannabis: A Ilegalização da Maconha nos Estados Unidos, lançado pela editora Mino e uma das publicações mais interessantes do ano. Você lê o meu texto sobre a HQ pro jornal O Globo clicando aqui e a íntegra da minha conversa com o artista por aqui;

*O álbum Hibernáculo, da quadrinista Amanda Paschoal Miranda, foi o vencedor do Prêmio Dente de Ouro 2019 na categoria Quadrinhos;

*Dei a dica: você já pode ler na íntegra o Catálogo HQ Brasil, publicação da Embaixada do Brasil em Portugal editada pelo crítico, pesquisador e tradutor Érico Assis e com a indicação de 70 quadrinhos nacionais lançados entre 2009 e 2018;

*O João B. Godoi publicou mais três atualizações da série Je Suis Cídio;

*Duas rapidinhas: compartilhei a capa da 80ª edição da revista Little White Lies e uma ilustração antiga do Adrian Tomine inspirada na série The End of The Fucking World;

>> Veja o que rolou no Vitralizado #80 – 05.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #79 – 04.2019;
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>> Veja o que rolou no Vitralizado #59 – 08.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #58 – 07.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #57 – 06.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #56 – 05.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #55 – 04.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #54 – 03.2017;
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>> Veja o que rolou no Vitralizado #48 – 09.2016.

Entrevistas / HQ

Papo com Box Brown, autor de Cannabis: “Fui preso por posse de maconha quando tinha 16 anos. Pude ver um pouco do sistema de Justiça criminal e como tratava meus pares”

Cannabis: A Ilegalização da Maconha nos Estados Unidos é o primeiro álbum do quadrinista Box Brown publicado no Brasil. O quadrinho lançado pela editora Mino é o quarto projeto de não-ficção do autor – do mesmo gênero ele já publicou Andre, The Giant, sobre a vida do lutador de luta livre André René Roussimoff; Is This Guy for Real, biografia do ator Andy Kaufman; e Tetris, narrando a história do joguinho precursor da hoje bilionária indústria de games.

Eu já havia entrevistado Brown em 2014, na época do lançamento de Andre, The Giant, e voltei a falar com ele agora para escrever sobre a publicação de Cannabis no Brasil. Esse papo virou matéria no jornal O Globo.

Na entrevista que reproduzo na íntegra a seguir, Brown fala sobre as origens de Cannabis e expõe suas impressões e críticas aos sistema Judicial norte-americano. Ele também conta sobre sua rotina como editor do selo independente Retrofit Comics e fala sobre Tetris – próximo trabalho dele a ser publicado por aqui, também pela Mino, ainda sem data de lançamento revelada. Papo massa, saca só:

“Não queria pegar leve ou soar hesitante em meu apoio e queria martelar esse posicionamento com fatos”

Quadros de Cannabis, obra do quadrinista Box Brown publicada no Brasil pela editora Mino

Mais do que um livro sobre o processo de ilegalização da maconha ao longo da história, Cannabis soou para mim como um livro sobre mentiras e racismo. Quando você começou o livro tinha consciência dessa relação tão próxima entre racismo e mentiras com o processo de ilegalização?

Eu tinha plena consciência de que nosso sistema atual é racista. Um sistema no qual pessoas não-brancas são presas em uma taxa muito mais alta do que suas contrapartes brancas por causa de maconha. Mas, não estava realmente consciente de que sempre foi assim e que, de fato, esse foi o ponto de partida para proibição, em primeiro lugar. A lei está funcionando da forma como foi criada para funcionar.

Aliás, você pode me contar um pouco sobre o momento no qual começou a pensar e desenvolver esse livro? A história da maconha sempre foi um tema de interesse para você?

Fui preso por posse de cannabis quando tinha 16 anos. Eu era muito jovem e ingênuo sobre tudo. Era apenas uma criança e provavelmente só tinha fumado um punhado de vezes em toda a minha vida. Pude ver um pouco do sistema de Justiça criminal e como eles tratavam meus pares, que não eram brancos e vinham de uma cidade menos rica. Desde então, acho que estava me coçando para contar essa história, mas foi só recentemente que minha editora conseguiu fazer isso acontecer. Acho que isso mostra o quanto a opinião pública mudou nos EUA, mesmo nos últimos anos.

“Sou muito passional em relação a todos os temas pelos quais tenho mais interesse, mas realmente sinto que esse é extremamente importante”

Quadros de Cannabis, obra do quadrinista Box Brown publicado no Brasil pela editora Mino

Eu gosto muito dos seus livros com temas históricos e biográficos, mas acredito que Cannabis tenha sido de alguma forma mais desafiador, por causa do volume de preconceito em torno desse tema. Por esse aspecto, foi mais difícil criar esse livro? Você se sentiu de alguma forma mais preocupado em ser mais factual e didático em relação a esse tema?

Sim, acho que posso tê-lo levado mais a sério de alguma forma. Havia partes em que eu realmente queria ser mais claro e usar uma linguagem muito forte sobre a maconha. Não queria pegar leve ou soar hesitante em meu apoio e queria martelar esse posicionamento com fatos. Sou muito passional em relação a todos os temas pelos quais tenho mais interesse, mas realmente sinto que esse é extremamente importante, muito mais do que wrestling e videogames (mas esses são muito importantes também!).

Ainda sobre a criação desse livro, você poderia me falar um pouco sobre a sua dinâmica de trabalho? O livro tem quatro páginas de bibliografia. Quanto tempo você passou pesquisando? Quanto tempo você passou escrevendo o roteiro? Quanto tempo você passou desenhando o livro?

Bem, passo muito tempo pesquisando sobre o meu próximo projeto antes de terminar de trabalhar no livro anterior e essa pesquisa segue mesmo quando já comecei a desenhar esse seguinte. Desenhar histórias em quadrinhos leva uma quantidade enorme de tempo, então quando estou desenhando a primeira página estou pesquisando a página 20 ou 30. E, em seguida, muitas vezes, tenho que voltar e mudar as coisas até o dia da impressão. A bibliografia no final era apenas uma bibliografia selecionada, a versão integral é muito maior e não cabia no livro.

“Leis são escritas para excluir qualquer um que tenha sido preso por cannabis de participar de um mercado legal”

Uma página de Cannabis, obra do quadrinista Box Brown publicado no Brasil pela editora Mino

Você pode falar um pouco sobre as suas técnicas, por favor? O que é digital e o que é tinta? 

Eu desenho com nanquim no papel e depois finalizo no Photoshop. Desenho tudo bem pequeno, o que me ajuda a manter as coisas simples.

Quais são as suas opiniões sobre as atuais políticas americanas em relação ao consumo de maconha? Você é otimista em relação a uma possível mudança nesses preconceitos predominantes em relação ao consumo, a venda e o cultivo de maconha?

Eu realmente não sei o que pensar. Estamos vendo uma forma de legalização acontecendo nos EUA onde o dinheiro que está sendo feito no negócio não está indo para as pessoas que sofreram sob a proibição. Leis são escritas para excluir qualquer um que tenha sido preso por cannabis de participar de um mercado legal. Estamos vendo policiais realmente não obedecendo a novas leis e ainda assediando e prendendo pessoas com base na ignorância das leis. Mas, ao mesmo tempo, a opinião pública nos EUA mudou completamente e continua a mudar para ser simpática à maconha. Não há muito o que os legisladores possam fazer para impedir que isso aconteça. A coisa que me deixa com raiva é que, agora eles não podem impedir que se torne legal, todos estão tentando fazer o máximo de dinheiro possível por meio do processo de legalização.

“Todo mundo fica falando sobre justiça social, mas todos aqueles com algum registro policial são mantidos fora da indústria”

Autorretrato do quadrinista Box Brown

Qual você acredita que deveria ser a principal mudança política relacionada a esse tema? Você crê em alguma mudança legislativa específica que possa beneficiar os consumidores?

Eles estão tentando mudar as leis para permitir que os bancos se envolvam no negócio. Agora diz respeito estritamente a dinheiro, em todo o país. Mas não acho que devam mudar as leis apenas para permitir que os bancos tenham acesso ao dinheiro. Se os bancos querem acesso ao dinheiro, então deveriam estar fazendo lobby junto ao governo para legalizar e libertar quem está preso.

E o que te preocupa mais no momento em relação à legislação americana em relação a esse tema?

DINHEIRO, DINHEIRO e DINHEIRO. A maconha é barata e fácil de cultivar e processar e muitas empresas estão tomando grandes providências para garantir que sejam as únicas que podem produzi-las em determinadas áreas, para que possam aumentar os preços. Este é um recurso natural abundante e há muito lucro a ser feito sem que as corporações tentem abrir caminho para o setor e eliminem todos os outros produtores. Enquanto isso, todo mundo fica falando sobre justiça social, mas todos aqueles com algum registro policial são mantidos fora da indústria, assim como não há espaço para nenhuma empresa pequena.

“Passei a assistir um pregador no YouTube que defende que Donald Trump é o anticristo. Não sei se acredito na narrativa dele, mas está começando a fazer cada vez mais sentido”

Quadros de Cannabis, obra do quadrinista Box Brown publicado no Brasil pela editora Mino

Tenho curiosidade em relação à sua visão do mundo no momento. Vivemos numa realidade na qual Donald Trump é o presidente dos EUA e Jair Bolsonaro é o presidente do Brasil. O que você acha que está acontecendo com o mundo? Você é otimista em relação ao nosso futuro?

É difícil ler as notícias e ser otimista. Passei até a assistir a um pregador no YouTube que defende que Donald Trump é o anticristo. Não sei se acredito na narrativa dele, mas está começando a fazer cada vez mais sentido essa perspectiva. Quando estou com muito medo, penso na minha heroína Greta Thunberg e em como ela é tão durona diante de todos esses cuzões. Acho que muitos dos jovens que crescem testemunhando isso estão prestando muita atenção e veremos a formação de uma geração durona em resposta. Toda ação tem uma reação, não é?

O que você pensa quando um trabalho seu é publicado em um país como o Brasil? Somos todos americanos, mas são culturas muito diferentes. Você tem alguma curiosidade em relação à forma como um trabalho seu será lido e interpretado por pessoas de um ambiente tão diferente dos seu?

Sim! Fico muito empolgado com isso. Eu realmente não sabia, mas tenho um monte de leitores no Brasil. Tenho uma amiga, Laura Lannes, que é uma incrível quadrinista brasileira e estou começando a sentir que há uma grande paixão por quadrinhos por aí. Esse é o tipo de coisa que você pensa quando é criança e faz arte, que um dia pessoas de todo o mundo estarão olhando para seus desenhos. Muitas vezes me pego questionando o meu trabalho e me pergunto se ele fará algum sentido para alguém. 

Quadros de Cannabis, obra do quadrinista Box Brown publicado no Brasil pela editora Mino

Fico curioso em relação às suas experiências e opiniões sobre o mercado editorial sendo o responsável por uma editora independente como a Retrofit Comics e o autor de uma editora gigante como a First Second. São operações em escalas muito diferentes, não são?

São muito diferentes. A Retrofit Comics foi iniciada no meu apartamento minúsculo e foi uma luta imensa para conseguir fazê-la chegar nas pessoas. Já a First Second fica em um arranha-céu imenso de Nova York. Comecei a Retrofit como uma forma de colaborar com artistas que eu gostava sem estarmos trabalhando propriamente em uma obra. Gosto de trabalhar sozinho quando faço quadrinhos, mas também sou uma criatura social e acho realmente instrutivo estar perto de outros artistas, seja de qual forma for. Quando lanço meu próprio quadrinho pela Retrofit e um gibi com a First Second, não há competição. A First Second tem uma presença de mercado e uma infraestrutura imensas, assim como pode se dar ao luxo de se arriscar mais e ter mais pessoas trabalhando em cada livro. Eles têm uma enorme rede de pessoas de imprensa e pessoas de relações públicas que têm um milhão de contatos e conhecem o mercado de livros e todos os meandros. A Retrofit sou só eu e o meu amigo Jared, nós dois tentando fazer tudo isso.

E em relação ao público? Há alguma diferença particular entre aqueles que leem seus quadrinhos para a Retrofit e aqueles que leem seus livros para a First Second? Aliás, você pensa nesses públicos enquanto está criando seus quadrinhos?

Muitas vezes as pessoas conhecem meus livros da First Second e nunca ouviram falar da Retrofit. Então acho que meus leitores ficam animados quando descobrem a Retrofit e encontram meus outros livros – e as vendas de muitos livros de outros artistas acabam sendo alavancados também! Eu realmente não penso neles como públicos diferentes ou mesmo pessoas diferentes.

Quadros de Cannabis, obra do quadrinista Box Brown publicado no Brasil pela editora Mino

Sobre o Tetris: você pode me contar um pouco sobre como e quando você começou a desenvolver esse livro?

Me deparei com um documentário sobre Tetris chamado From Russia With Love e era uma história incrível! Eu pensava tanto sobre esse livro que nem precisei elaborar muita coisa, a história do Tetris já era muito surpreendente. Apenas tentei colocar as coisas em contexto. Tetris causou um grande impacto em mim quando criança. Foi um dos primeiros jogos que toda a minha família jogou, até os adultos. Acho que para a minha geração foi uma marco para pais e filhos. Foi a primeira vez que os pais entenderam o que eram os videogames.

O mercado de games é provavelmente o mais rentável da indústria do entretenimento hoje, mas também é cercado de muitos preconceitos. Gosto como o cenário político do Tetris pode ajudar a esclarecer pessoas não iniciadas no assunto em relação ao começo desse mercado e suas possibilidades. Você tinha alguma intenção de combater esse preconceito quando começou esse livro?

Sim, acho que sim. Acho que é importante lembrar as pessoas que os videogames são uma forma de arte. As coisas que dizem sobre videogames agora são as mesmas coisas que disseram sobre romances na virada do século. Cem anos depois, não há dúvida de que o romance de ficção é um dos meios artísticos mais reverenciados em nossas culturas. Talvez daqui a 100 anos o videogame seja visto da mesma forma.

A capa de Cannabis: A Ilegalização da Maconha nos Estados Unidos, trabalho do quadrinista Box Brown publicado no Brasil pela editora Mino

E apesar de todo esse preconceito em relação a jogos, eles são cada vez mais aceitos como uma forma de arte, como você mostra no final do seu livro. Você vê alguma mudança de pensamento da sociedade em relação a como ela vê video-games?

As coisas estão evoluindo já há algum tempo. Até mesmo a primeira febre da Nintendo foi vista como uma “lavagem cerebral” nas nossas crianças. Não acho que as pessoas ainda vejam dessa mesma forma. Ainda assim, entre o público em geral, há muitos estereótipos sobre quem joga. É o mesmo com os quadrinhos. As pessoas ouvem “quadrinhos” e acham que você deve ser alguém que mora no porão dos pais (aliás, um ótimo lugar para se viver!) e é um fardo para a sociedade. Como artistas, acho que estamos sempre lutando contra isso e, ao mesmo tempo, também abraçando essas ideias. 

O que você gosta de jogar? Você tem algum jogo preferido? O que você está jogando no momento?

Recentemente me tornei viciado em Stardew Valley. Perdi um total de seis meses com esse jogo. Mas o meu favorito de todos os tempos é Zelda. Joguei todos eles muitas vezes (exceto Skyward Sword!). Gosto de revisitar Zelda o tempo todo e explorar os jogos, mesmo que eu os conheça de cor. Eu realmente gosto do Switch. É bom para mim porque a minha esposa não aguenta mais me ver jogando videogames. 

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?

Gostei muito de I Think You Should Leave with Tim Robinson no Netflix.  Também tenho revisitado muitas franquias de brinquedos / desenhos animados dos anos 80 (para pesquisa!!!) e gostei do desenho de Caverna do Dragão. É muito bem feito. Sinto que eles fizeram um bom trabalho de recriar como é a experiência do jogo.

Quadros de Tetris, trabalho do quadrinista Box Brown com promessa de lançamento pela editora Mino

Você está trabalhando em algum projeto novo atualmente?

Sim, estou trabalhando em alguns livros novos. Uma ficção e uma não-ficção. Ambos são sobre a TV e a mídia da década de 1980. Às vezes acho que estou preso nessa época.

Você pode me falar como é seu ambiente de trabalho?

Odeio essa porra no momento! Estou trabalhando em um escritório muito pequeno na minha casa e não consigo decidir se devo sair e arrumar um estúdio ou arrumar nesse em que estou. Tenho uma mesa com uma prancheta na qual desenho e tenho uma mesa dobrável bem porcaria ao lado dela com meu computador e meu tablet. E é claro que tenho minha minúscula geladeira para manter meu hash fresco. Também tenho uma mesa atrás de mim. É como um embrulho em volta da mesa. Eu tenho uma janela com vista para uma parede de tijolos a cerca de 10 metros de distância. Se eu virar a cabeça ligeiramente, às vezes, posso ver o céu. Eu quero um dia ter um escritório com uma janela grande o suficiente para poder ver alguma coisa.

A capa da edição norte-americana de Tetris, trabalho do quadrinista Box Brown com a promessa de publicação no Brasil pela editora Mino
HQ / Matérias

Box Brown fala sobre Cannabis, racismo e a ilegalização da maconha nos EUA

Eu entrevistei o quadrinista norte-americano Box Brown sobre o lançamento da edição brasileira de Cannabis: A Ilegalização da Maconha nos Estados Unidos e esse papo virou matéria no jornal O Globo. O livro publicado no Brasil pela editora Mino com tradução de Diego Gerlach tem como foco principal os empenhos de autoridades dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário dos EUA para impedir o consumo e a difusão da erva no país, mas vai muito além disso.

Produzido a partir de extensa pesquisa bibliográfica, Cannabis defende a tese de que todo o processo de combate e proibição do consumo e da difusão da maconha nos Estados Unidos tem o racismo como ponto de partida. É dos lançamentos mais interessantes de 2019 por aqui e recomendo que você leia o quanto antes. Na minha matéria também adianto a publicação em português de Tetris, álbum de Brown sobre o joguinho precursor da indústria de games, para um futuro próximo, também pela Mino. Você lê o meu texto para O Globo clicando aqui.

Um quadro de Cannabis: A Ilegalização da Maconha nos Estados Unidos, HQ do quadrinista norte-americano Box Brown publicada no Brasil pela editora Mino
Cinema

Little White Lies #80: The Souvenir Issue

Taí a capa da 80ª edição da revista Little White Lies, minha revista preferida. Por conta do número redondo, os responsáveis pela publicação fizeram uma edição comemorativa com a matéria principal dedicada ao drama The Souvenir, dirigido pela cineasta Joanna Hogg; junto com uma lista dos 100 melhores filmes britânicos de todos os tempos; e com a promessa de uma edição com “efeitos gráficos especiais” em projeto assinado pela artista Laurène Boglio.

Deixo a seguir o trailer de The Souvenir, estrelado pela atriz Tilda Swinton, e o vídeo produzido pelos editores da revista mostrando um pouco do projeto gráfico especial das 80ª edição. Ó: