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Looking Up, a nova capa de Chris Ware pra revista New Yorker

O quadrinista Chris Ware é o responsável pela capa da próxima edição da revista New Yorker. A arte foi batizada de Looking Up e completa uma trilogia de capas centradas na relação entre pais, filhos e escolas assinadas pelo autor de Jimmy Corrigan. A primeira das capas da série foi publicada em setembro de 2012, quando a filha de Ware, Clara, tinha apenas sete anos. Mostra uma garotinha olhando para trás e observando os pais que deixam o local despreocupados.

Em janeiro de 2013 o autor voltou a abordar o tema, mas logo em seguida ao ataque à escola Sandy Hook, na cidade de Newtown, no estado de Connecticut, que resultou em 20 crianças e seis adultos assassinados. A arte assinada pelo quadrinista mostra mais uma vez as crianças entrando no colégio, mas dessa vez sendo observadas pelos pais do lado de fora.

Na capa mais recente, o autor mostra uma menina desanimada enquanto é deixada na escola pela mãe. Em um depoimento sobre essa próxima arte para o site da New Yorker, Ware fala sobre a passagem do tempo e o crescimento de sua filha: “É clichê, mas é verdade: pais, quando seus filhos perguntarem, ‘você vai brincar comigo?’, brinquem. Porque um dia eles vão parar de perguntar, assim como você parou”. Leia a íntegra do depoimento por aqui.

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PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #7: Chris Ware, Elza Soares, Emicida e uma teia paranóica de referências]

A arte aqui em cima foi produzida pelo quadrinista Jão como uma apresentação aos seus leitores das principais influências e referências que culminaram na criação do universo de PARAFUSO ZERO – Expansão. O álbum é o próximo projeto do autor, conta com a minha participação no papel de editor e está em campanha de financiamento coletivo no Catarse. Para o post de hoje da série PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores, pedi que Jão comentasse como os personagens e as personalidades desenhadas por ele nesse pôster de referências influenciaram o desenvolvimento desse próximo quadrinho.

Em seguida às falas de Jão estão listados todas as aparições presentes na arte, ambientada na mesma cidade de superseres de PARAFUSO ZERO – Expansão. Daí deixo o desafio: quantos personagens e personalidades você consegue identificar antes de ver a lista final?

PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #7: Chris Ware, Elza Soares, Emicida e uma teia paranóica de referências]

Teia paranóica

“Eu tentei incluir no desenho muitos personagens e artistas que me influenciaram ao longo de toda a minha trajetória. O Arzach, do Moebius, por exemplo, é a obra que abro sempre antes de começar qualquer novo trabalho, como uma forma de energizar. É, possivelmente, o quadrinho que mais gosto entre todos os que já li. O Hellboy, do Mike Mignola, também tem uma função parecida, apesar de ser mais aparente no preto e branco do Baixo Centro, mas eu me inspiro muito nas histórias curtas dele, do ponto de vista de roteiro e dos contos mesmo, além do desenho, claro. Akira, do Katsuhiro Otomo, é outra história que serve como uma aula pra mim, assim como o Tekkon Kinkreet, do Taiyo Matsumoto”.

“Acho que cada um dos personagens e dos artistas presentes ali na esquina tiveram grande importância em diversos momentos de minha carreira: seja numa passagem relativamente rápida, mas que abriu minha cabeça para possibilidades que ainda não tinha pensado, como o canadense Jesse Moynihan (que, no caso, fez com que eu percebesse que poderia retomar um período anterior de minha trajetória, dos quadrinhos de ficção científica e de fantasia, e, assim, criar o que seria a PARAFUSO); seja no sentido de causar uma explosão atômica em mim que, depois de muito tempo, ainda reverbera dentro do que quero fazer como autor, como é o caso do Chico Science ou da Elza Soares, que chacoalharam todos os meus pensamento e que ainda estou em processo de aprendizagem ao ter contato com o que fizeram (e, no caso da Elza, que ainda está fazendo)”.

“Também gosto muito de acompanhar e pensar sobre a carreira de artistas que admiro. Em meio a uma espécie de teia paranóica que costumo construir em minha cabeça, existe uma teoria da conspiração (criada por mim, claro) em que percebo algumas similaridades nessas trajetórias individuais de pessoas que gosto dos trabalhos. É engraçado porque, para além das obras, esses caminhos, da mesma forma, me servem de inspiração”.

Infografismo e poderes telecinéticos

“Falando especificamente do novo álbum, PARAFUSO ZERO – Expansão, as referências aparecem em diversos momentos do desenvolvimento do trabalho: ali tem um clube da luta; uma proposta de infografismo que veio do Chris Ware; personagens com poderes telecinéticos e destruição de edificações a lá Akira, uma conversa sobre superseres e o momento em que vivemos baseado nas discussões propostas por Alan Moore em Watchmen; uma espécie de minimalismo ultra-detalhado que veio do clipe This is America, do Childish Gambino, que já era algo que já vinha fazendo desde a PARAFUSO 0, mas que, a partir de ter assistido ao vídeo abriu possibilidades que não tinha pensado ainda; o que o Gabriel Góes está fazendo com seu personagem Billy Soco em termos de construção de universo. São muitas coisas e acho que o que mencionei por aqui é somente a ponta do iceberg para todos os elementos que vêm de outros lugares hahaha”.

Lista de personagens:

– Batman e Robin, o Cavaleiro das Trevas, Frank Miller;
– Tyler Durden, Clube da Luta;
– Neo, Matrix;
– Manly, Jesse Moynihan;
– Starman, James Robinson e Tony Harris;
– Arzach, Moebius;
– Hellboy, Mike Mignola;
– Rincon Sapiência;
– Childish Gambino;
– Demolidor;
– Dr. Manhattan, Watchmen, Alan Moore e Dave Gibbons;
– Walter White e Jesse Pinkman, Breaking Bad;
– A Mulher Enigma, Enki Bilal;
– Diomedes, Lourenço Mutarelli;
– Billy Soco, Gabriel Góes;
– BNegão;
– Formiga, Formigueiro, Michael DeForge;
– Goku, Dragon Ball, Akira Toriyama;
– Jules Winnfield e Vincent Vega, Pulp Fiction, Quentin Tarantino;
– Kaneda e Tetsuo, Akira, Katsuhiro Otomo;
– Elliot Alderson e Mr. Robot, Mr. Robot;
– Yuri, Daniel Og;
– Raoul Duke, Medo e Delírio em Las Vegas;
– Jimmy Corrigan, Chris Ware;
– Elza Soares;
– Jake e Finn, Hora de Aventura;
– Tulipa Ruiz;
– Cachorro do Vida Boa, do Fabio Zimbres;
– Emicida;
– Chico Science;
– Piratas do Tietê, Laerte;
– Preto e Branco, Tekkon Kinkreet, Taiyo Matsumoto.

CONTINUA…

ANTERIORMENTE:
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #6: Akira, Wally e paralelismos distópicos];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #5: Proporções extremas e a insignificância humana no Universo];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #4: A origem do ‘Formato Jão’];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #3: Um sonho com Moebius];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #2: Baixo Centro, Flores e texto];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #1: origens, restrições e OuBaPo].

Entrevistas / HQ

Papo com Aline Zouvi, a autora da 17ª edição da coleção Ugritos: “Se há alguma sensação que quero passar, talvez seja essa de que o estranho e o familiar andam juntos”

Um dos principais lançamentos da Bienal de Quadrinhos de Curitiba 2018 será o 17º número da coleção Ugritos. A publicação é assinada pela quadrinista Aline Zouvi e tem o título Óleo Sobre Tela. A HQ de 16 páginas é toda ambientada dentro de um museu, tem como pano de fundo uma exposição das obras do pintor surrealista belga René Magritte (1898-1967) e acho melhor parar por aqui e não adiantar muito mais em relação à sinopse.

Com o lançamento do excelente Síncope no final de 2017, Zouvi se tornou um dos principais nomes da nova safra de quadrinistas brasileiros. Óleo Sobre Tela reforça a autora como uma artista a não se perder de vista, por conta de seu traço singular e sua narrativa ímpar. Conversei com a quadrinista sobre as origens e inspirações de seu mais novo lançamento, publicado pela editora Ugra Press. Dá uma conferida:

É a explícita a proposta surrealista de Óleo Sobre Tela e o diálogo do quadrinho com os trabalhos do René Magritte. O que veio antes: a história que você queria contar ou essa abordagem tratando dos trabalhos do Magritte?

O que veio antes foi a história. Há bastante tempo eu queria fazer um quadrinho sobre observar pessoas em museus – eu gosto bastante da temática, genericamente falando, dos bastidores. Perceber o estranho presente nas pequenas coisas que a gente faz todo dia, reconhecer esse silêncio confortável daquilo que acontece por detrás dos panos para que outras coisas legais possam acontecer. Gosto muito de pensar nesses tipos de histórias – sobre cochias de teatro, funcionários de museus, pessoas geralmente escondidas. O trabalho do Magritte me veio depois, de forma natural, pois sou apaixonada (obviamente, haha!) pelo seu modo de olhar as coisas.

Acho que mais do que uma história, o seu Ugrito se propõe mais a brincar com sensações e sentimentos. Algo bem parecido com os trabalhos do Magritte. Você tinha algum/alguma sentimento/sensação específico/especifica que queria passar para o leitor enquanto produzia esse quadrinho?

Acho perigoso fazer uma hq (ou qualquer outra obra) com um objetivo específico em mente, principalmente sabendo que não irei controlar a interpretação do outro sobre o que fiz. Se há alguma sensação que quero passar com este Ugrito, talvez seja essa de que o estranho e o familiar andam juntos. Essa leveza que vem dos quadros do Magritte eu considero interessante de trabalhar, como um exercício de reconfigurar minha visão de mundo e, quem sabe, transmitir isso pra mais alguém também. Mesmo enquanto não tão velhos, a gente já tem uma visão muito engessada da vida. Não tem muito espaço pra brincar, pra ser flexível, sabe?

O seu quadrinho me fez pensar muito na minha relação com museus, como esses espaços que lembram uma espécie de realidade paralela em que o tempo flui num ritmo diferente. Como é a sua relação com museus?

Minha relação com museus é familiar à posição daqueles que desenham: não visitamos museus 100% por trabalho, nem 100% por lazer. Há sempre um limbo a ser percorrido, e devo dizer que este limbo é muito agradável, apesar de às vezes poder ser sufocante. Me interessa muito esta ideia do museu como realidade paralela, pois o tempo realmente flui de outra forma quando nos deixamos absorver por uma exposição. De todo modo, ocupar e apoiar um museu não deixa de ser, também, um ato político. Escrevo isto um dia depois da tragédia do Museu Nacional (no Rio de Janeiro), e a perda histórica, material (e, por que não, sentimental) que sinto e que vejo meus amigos sentirem mostra bem essa nossa relação ambígua com museus: talvez não os visitamos tanto como devíamos, mas sua presença em nossas vidas, enquanto sociedade, é imprescindível.

Uma das graças dos Ugritos está na forma como cada autor faz uso desse formato fechado e pequeno, com um número limitado de páginas. Foi desafiador pra você trabalhar dentro dessas restrições?

Foi muito desafiador pensar em uma história de 16 páginas que tivesse um bom desenvolvimento e, principalmente, um desfecho interessante para o leitor. É como se não houvesse espaço pra respirar. Para mim, foi um desafio muito importante! Eu achava que pensar em narrativas longas era complicado mas, com esta experiência do Ugrito, vejo que o demônio mora, mesmo, nas 16 páginas. Haha!

No que você está trabalhando agora? Você tem mais alguma publicação à vista pra 2018?

Estou trabalhando na publicação que irei lançar na CCXP de 2018. Pretendo fazer uma coletânea de tiras de formato quadrado, pensadas especialmente para publicação via instagram. Estas tiras foram algumas das primeiras publicações que comecei a fazer, quando ainda estava experimentando linguagens e traços. Minha intenção é ordená-las (assim como produzir tiras novas) de modo que construam uma narrativa, quando postas em conjunto.

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Começa na 5ª (6/9) a Bienal de Quadrinhos de Curitiba 2018

A Bienal de Quadrinhos de Curitiba 2018 terá início amanhã (6/9) e recomendo fortemente sua ida ao evento, no Museu Municipal de Arte da capital paranaense entre 5ª e domingo (9/9). Junto com o Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, trata-se da principal festividade de HQs do país. Não poderei estar presente por questões profissionais, mas insisto que você dê uma olhada na programação e tente dar um pulo no evento. Lembrando que a entrada será gratuita e a feira e as conversas do encontro contarão com a presença de grandes mestres e novos talentos das HQs brasileiras.

Eu bati um papo rápido por email com o tradutor, jornalista e crítico Érico Assis, cocurador da Bienal junto com Mitie Taketani, propietária da Itiban Comic Shop, uma das principais lojas de quadrinhos do país. Na conversa a seguir, ele comenta sobre o tema do evento (A Cidade em Quadrinhos), destaca a presença do lendário Julio Shimamoto, chama atenção para alguns pontos da programação e fala de suas expectativas para o próximos dias. Saca só:

Por que A Cidade Em Quadrinhos como tema da Bienal?

Por um lado, a organização do evento viu que a cidade é um tema recorrente em todo tipo de quadrinho. A gente tem Gotham City, Metrópolis, Patópolis, Palomar, Cidades Obscuras, Sin City, aldeias gaulesas, a Nova York do Eisner. Às vezes essas cidades são personagens das HQs, às vezes há cidades reais que inspiram obras. Quadrinistas brasileiros têm produzido muito material de destaque onde a cidade é um aspecto importante: Quintanilha com Salvador e Niterói, o D’Salete e os quilombos, Luli Penna e São Paulo, Ana Koehler e Porto Alegre, o Rafael Sica e as fachadas de qualquer cidade.

Por outro lado, Curitiba é uma cidade reconhecida internacionalmente pela arquitetura e pelo urbanismo. Vem gente do mundo inteiro estudar Curitiba como cidade que é. Quadrinistas locais, como o José Aguiar em Coisas de Adornar Paredes ou o Guilherme Caldas em Ditadura Abaixo e outros trabalhos, acabam representando Curitiba.

Por esses dois lados, parece um tema bem apropriado para um evento de quadrinhos específico desta cidade.

Quais são as suas principais expectativas em relação à Bienal?

Acho que é a mesma de qualquer evento: bastante público conversando sobre quadrinhos e com os quadrinistas, e também comprando quadrinhos desses mesmos quadrinistas. Teremos 120 mesas na Feira de Quadrinhos, com gente que traz publicações do país inteiro. Só percorrer este espaço, ver essa gente e escolher um quadrinho que agrada já tomaria uma semana – e você tem só quatro dias.

Além disso, temos 70 convidados que vão se espalhar pela nossa programação. Temos mesas para conversar sobre mercado, sobre mangá, para quadrinistas iniciantes, sabatinas com nossos convidados principais e, claro, sobre o tema do evento: cidade e quadrinhos.

Além da presença de grandes nomes dos quadrinhos nacionais, você destaca algum aspecto específico da programação?

Sem querer insistir nos grandes nomes, mas já insistindo, e também sem desmerecer todos os outros convidados, eu queria ressaltar a participação do Júlio Shimamoto. Shimamoto é um nome lendário no quadrinho brasileiro, pouco ou nunca participou de eventos e aceitou comparecer à Bienal por intermédio do Márcio Paixão Junior, seu colaborador no álbum Cidade de Sangue. Aliás, a proposta veio do Márcio. Shimamoto está com 79 anos, temos uma logística especial para recebê-lo e espero que quem comparecer possa reconhecer (ou conhecer) e homenagear o mestre. E que ele goste da experiência, claro.

Quanto ao restante da programação, eu tenho um orgulho umbiguista de ter convencido minha colega na curadoria, a Mitie Taketani, e os organizadores a deixar mesas com o tema “que horas o quadrinista acorda?”, “quando o quadrinista estuda?” e “o que o quadrinista tretou no twitter?”. Eu sou vidrado em conhecer o processo de trabalho, o cotidiano, e acho que este “eixo labuta” pode render papos importantes para quem quer fazer HQs, quem estuda HQs ou só curiosos como eu. Agradeço muito aos quadrinistas que toparam entrar nestas mesas, como Alexandre Lourenço, Fefê Torquato, Chiquinha, Cris Eiko e outros.

Na coletânea O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 você teve uma experiência como curador e editor do álbum. É muito diferente essa experiência agora com a Bienal?

Bem diferente. No Fabuloso eu ajudei a selecionar trabalhos para compor um livro que devia representar uma época. Na Bienal ajudei a selecionar pessoas para compor um evento que tem que atrair mais pessoas, dentro de um tema de discussão.

A Bienal está sendo realizada no mesmo ano do FIQ. Em termos de produção independente e autoral, são dois eventos com propostas parecidas. No que você acha que os dois festivais se distinguem?

Um é em Curitiba, o outro é em Belo Horizonte. Acho que eles absorvem um pouco da identidade local, principalmente pela participação maciça dos quadrinistas locais. No mais, os dois são lugares para tomar cerveja com os quadrinistas.

Da Bienal de 2016 para essa atual aumentou ainda mais a crise econômica pela qual o país está passando. Quais foram os principais desafios de montar uma programação e fazer uma seleção de artistas convidados dentro desse contexto?

Fazer um evento igual ou parecido com o de outros anos, mas com menos grana: acho que está sendo o desafio de todo mundo. Do ponto de vista de curador, não pudemos convidar todos quadrinistas internacionais e nacionais que queríamos. Mesmo assim, acho que tivemos muita sorte nos aceites de convidados – e do pessoal que vem para a Feira -, que me parecem uma fatia expressiva do quadrinho brasileiro. Se brinca bastante que FIQ e Bienal de Curitiba são a Reunião Anual da Firma Quadrinho Nacional. Acho que este objetivo a gente vai cumprir.

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PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #6: Akira, Wally e paralelismos distópicos]

O post de hoje da série PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores é dedicado à construção do logotipo do próximo álbum do quadrinista Jão. Em campanha de financiamento coletivo no Catarse, PARAFUSO ZERO – Expansão é assinada por Jão, editada por mim e tem como proposta ser “a história em quadrinhos de super-heróis mais estranha que já existiu”. O logotipo do álbum foi criado pelo designer Matheus Ferreira, também parceiro de Jão em outros projetos, como a HQ Baixo Centro e eventos organizados pelo autor em Belo Horizonte – como a feira Faísca e o festival Traço.

Em seu depoimento, Ferreira conta sobre suas reflexões a partir das referências enviadas por Jão para a construção do logo e como sua contribuição para o projeto resultou na adaptação do nome da obra de PARAFUSO 0 – Expansão para PARAFUSO ZERO – Expansão, trocando o número pela palavra por extenso. Antes da íntegra da fala do designer, reproduzo a mensagem enviada por Jão ao colega de projeto, explicando quais ideias ele gostaria de ver representadas no logo e chamando atenção para os estudos que resultaram na concepção do logo do mangá Akira. Ó:

PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #6: Akira, Wally e paralelismos distópicos]

(depoimento de Matheus Ferreira)

Parceria de longa data

“Eu e o Jão já temos um histórico bem legal de trabalhos juntos. Nós nos conhecemos na escola de Belas Artes da UFMG, eu trabalhava no laboratório de informática e lá tinha uma estrutura legal de computadores. Na época, ele precisava escanear os originais que tinha feito pra MSP Novos 50, um dos primeiros quadrinhos de projeção maior em que ele trabalhou. Foi quando nos conhecemos e nessa brincadeira acabamos nos aproximando, trabalhando juntos em diversas edições e publicações dele. Logo depois ele lançou a Peiote. Em quase todas as outras revistas, com exceção de uma ou outra, eu estive envolvido. E em outras investidas também, desde a Faísca até o Traço, foram várias situações em que tive a oportunidade de trabalhar com o Jão e a Helen [sócia do autor na Editora Pulo e na realização da feira Faísca e do festival Traço].

Quando surgiu essa proposta da PARAFUSO ZERO – Expansão já estávamos em contato em função de um outro trabalho. Eu tinha ido pra Recife, voltei pra Minas e aí mandei um alô, disse que já estava de volta e que era para eles me darem um toque quando quisessem conversar. Aí o Jão me mandou uma mensagem pouco tempo depois, dizendo que tinha ligado os pontos e que queria que eu fizesse o logotipo pra essa nova publicação, já me passando algumas instruções e referências bem específicas”.

Cara menos orgânica

“Nos trabalhos anteriores à PARAFUSO ZERO – Expansão nós tivemos a oportunidade de experimentar uma espécie de noção de desenho manual das tipografias e dos textos. Desde usar fontes tipográficas como referência e redesenhá-las, para que conseguíssemos captar algumas micro-imperfeições do traço, até a possibilidade de hand lettering mesmo – como usar uns grafites bem largos para que funcionassem como penas e eu pudesse desenvolver letras a partir dessas oscilações de espessura da linha.

No caso da PARAFUSO ZERO, o Jão entrou em contato comigo e disse que queria que a gente variasse um pouco esse percurso que tínhamos tido até então. Ele queria uma coisa mais crua, mais impessoal, com uma cara menos orgânica. Aí eu já comecei a quebrar a cabeça em torno de uma tipografia que a gente pudesse usar. O título todo consiste em três palavras, então pensei em formas de ordenar esses caracteres para que eles ficassem legais juntos. Eu fiz uma proposta pro Jão que seria uma alteração no que ele tinha me enviado a princípio, utilizar a palavra ‘zero’ por extenso e não como um caractere numérico. A partir disso eu fiz uma pesquisa em torno de algumas tipografias do meu acervo e algumas outras coisas que eu já vinha pesquisando e acabei chegando nessa proposta final, uma coisa com mais cara de logotipo mesmo, um bloco de três linhas. As letras ainda sofreram algumas alterações e distorções que, de certa forma, conceitualmente, conversam com o universo que ele está propondo com a história. Ele curtiu e tocamos o barco”.

Paralelismos distópicos

“Em um primeiro momento, o Jão me enviou uma referência que me deixou mó feliz, um estudo pra construção do logo de Akira, do Katsuhiro Otomo. Tanto o quadrinho quanto a animação são grandes cânones para mim, uma assumidade, uma coisa muito incrível. O fato da natureza da construção de história, vamos dizer assim, esbarrar de maneira sofisticada nesses universos cyberpunks e pós-apocalípticos, em um mundo de fantasia que pensa numa espécie de paralelismo distópico da nossa realidade, me deixou supercontente.

Ele me enviou esses estudos como referência e também algumas proposições verbais. ‘Pensei que talvez pudéssemos seguir por tal caminho, pra esse e aquele’, e tudo girava um pouco em torno dessa ideia de uma letra um pouco mais crua, uma tipografia um pouco mais digital, com uma cara um pouco mais vetorial, menos orgânica. Essas foram as principais instruções, além das referências do Akira.

Ele me enviou inclusive umas fotos dos logotipos que foram discutidos até a escolha da versão final que ficou no Akira. Por sinal, um estudo incrível. Nas primeiras edições do mangá, o logotipo tinha serifa nas letras, uma coisa bem diferente e eles chegaram naquele resultado atual, supersucinto, mas com toda uma construção de ser de fato sucinto e ser de fato sintético e, ao mesmo tempo, ter uma presença bem drástica e impactante. Chegou muito bem como referência pra mim”.

Exatidão quase cartesiana

“Desde quando eu e o Jão começamos a trabalhar juntos eu fiquei satisfeito por ocuparmos, cada um, o espaço do profissional que se propõe a ser. Ele sempre foi o quadrinista que precisava de um artista gráfico, de um designer, e eu sempre fui o designer trabalhando com o quadrinista. Isso é sensacional, as coisas se encaixam de um jeito muito legal. É muito comum dentro do universo dos quadrinhos, sobretudo do pessoal que vem do universo independente, a pessoa cuidar de todas as partes da produção. Existe uma espécie de autosuficiência que às vezes esbarra em pequenas questões que a pessoa nem sempre domina completamente, afinal a produção de uma novela gráfica envolve ‘n’ frentes, uma quantidade enorme de conhecimentos e práticas e é muito comum as pessoas fazerem tudo, do roteiro ao desenho e à impressão e acabou.

Nisso o Jão acabou tendo uma clareza nas primeiras oportunidades que tivemos de trabalhar juntos: deixar pra mim essa parte do design. Nas primeiras, literalmente a primeira e a segunda revista que fizemos juntos, trabalhei um pouco com tipografia digital. Depois, nos primeiros esboços da Sob o Sol, um lançamento futuro dele, eu fiz um lettering, um letreiro que tinha uma visualidade bem específica, toda à mão. O Jão respeitou e contribuiu muito com isso, uma ideia que a informação e a natureza da letra, a natureza da tipografia e do design, transmitem para além do nome escrito em si. Por exemplo, você pode ler a palavra ‘parafuso’ e se ela estiver escrita em helvética ou numa letra gótica, são mensagens bem diferentes.

Nas primeiras oportunidades em que trabalhamos juntos, em alguns contextos era bem interessante ter uma espécie de rastro orgânico de traço. A gente teve a oportunidade de fazer o Baixo Centro, por exemplo, uma investida sensacional. Nela nós estávamos com muita vontade de construir um logotipo que não viesse de um universo tão retilíneo e exato. De certa forma, conceitualmente, a história esbarra num pensamento sobre o centro de Belo Horizonte, em que existe um duelo enorme entre uma arquitetura moderna, extremamente sisuda, e a pixação, também uma espécie de design moderno – se você pensar que a pixação vem de referencias tanto do heavy metal quanto do punk, enfim… Nessa situação, o que eu fiz foi trabalhar um tipografia que fazia uma mescla entre o pixo e um tipografia moderna clássica da Art Déco.

Agora, o Jão propôs essa outra situação, o que não me surpreendeu, eu achei superlegal, é só uma outra linguagem, uma outra forma de fazer. Cada escolha dentro dessas proposições carrega ali uma carga de informação. Diante dessa nova história eu achei que tinha total uma relação: a visualidade com umas perspectivas muito bem construídas, umas linhas com uma certa exatidão quase cartesiana. Diante disso eu pensei que nem sei se seria tão interessante a gente trabalhar com um letreiro tão orgânico, que tivessem umas carcaterísticas menos exatas. De repente, uma certa impessoalidade, um certo aspecto mais sintético, conversem muito com o fato de ter multidões e arquiteturas que massacram visualmente a presença de um ou outro indivíduo. As imagens têm todas aquelas características meio ‘Onde Está o Wally?’ em que uma figura em si acaba sendo irrisória se você comparar com o todo. Isso tem uma certa assepsia, uma coisa mais seca e direta. Eu pensei que isso seria interessante de carregar na tipografia e depois vieram algumas distorções que não são da fonte. Eu fiz algumas alterações nela que acabam entrando também como uma forma de construção em cima – obviamente, com todo o respeito aos tipógrafos que desenvolveram a fonte que eu usei. Mas usamos algumas alterações para construir uma conversa mais próximas com o conteúdo da novela em si, do que o Jão estava propondo”.

De ‘0’ para ‘ZERO’

“Eu esbarrei com a ideia do ‘zero’ por extenso pelo seguinte: quando eu me deparei com o visual da história e das imagens que já tínhamos visto, eu relacionei muito na minha cabeça com algumas referências. Pensei muito em pop art, pensei em quadrinhos clássicos, pensei muito em ilustração oriental contemporânea. Diante dessas referências eu concluí: ‘se a gente colocar uma letra com características muito específicas, caractere por caractere, talvez resulte em uma carga de informação um pouco pesada’. Eu até fiz alguns testes com fontes que chamamos de monospaced, aquelas derivadas de máquinas de escrever e aparelhos de produzir tipografia dessa natureza, elas envolvem letras que não tem uma oscilação muito grande entre a largura da letra. Eu queria essa cara de computador, com ares de um ‘futuro-retrô-confuso’.

Enquanto eu pesquisava essas fontes, eu vi que ainda era possível a gente usar o zero como numeral mesmo, mas todas as outras opções que eu acessei ficava muito fácil de alguém acabar lendo como ‘PARAFUSO O’, como se o zero fosse a letra ‘o’. Como as fontes não tinham uma variação tão drástica de espessura nas linhas que uma fonte serifada poderia propor, a diferenciação entre os caracteres começou a ficar um pouco confusa.

Como eu estava buscando o sintético, uma coisa mais minimalista, a fonte tinha características mais limpas ainda, então o zero e o ‘o’, considerando que estava tudo em caixa-alta, acabaram ficando muito semelhantes e isso me preocupou um pouco. Além do fato dessa semelhança, eu acrescentei algumas distorções, então isso podia gerar um erro de leitura. O pessoal poderia ler ‘Parafuso O’, ‘Parafusoo’ ou alguma dessas onomatopéias que o mundo pós-internet nos forneceu. Diante disso eu pensei em fazer uma versão com o zero por extenso, na qual a leitura seria possível sem erro nenhum e também pela composição em relação ao número de caracteres, que ficaria mais equilibrada. A palavra ‘zero’ me renderia também algumas possibilidades legais. Aí eu mostrei e o Jão foi bastante receptivo”.

Parceria e cocriação

“Geralmente eu trabalho com fontes gratuitas. Eu tenho uma pesquisa muito grande com fontes que consigo acessar na internet que as pessoas que desenvolveram propõem que elas sejam distribuídas gratuitamente. Aí eu encontrei dentro das minhas pesquisas essas duas que acreditei que seriam bem interessantes e trabalhei com elas. Por mais que dentro da tipografia tenhamos uma noção de derivações muito grande, boa parte das fontes são derivações de fontes anteriores mais clássicas.

Comecei a trabalhar com duas fontes que davam esse ar meio impessoal que queríamos. Eu achei interessante essa certa impessoalidade. Eu até pensei algumas outras tipografias, mas eu queria uma coisa que tivesse uma cara um pouco mais cartesiana e aí, como ela tinha uma estrutura quase modular, eu tive condições de acrescentar alguns períodos de mancha que permitem distorcer as letras sem que elas percam uma integridade de leitura. Isso tudo poderia conversar com o nome, com o universo, com a coisa toda.

Foi uma oportunidade sensacional, trabalhar com liberdade de criação, um diálogo que é realmente olho no olho, isso é muito positivo, é literalmente uma cocriação. Você pode desenvolver um trabalho esperando uma receptividade e foi sensacional, o Jão me deu bastante autonomia e isso é só positivo quando podemos construir juntos”.

CONTINUA…

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Cinema / HQ / Séries

Vitralizado #71 – 08.2018

O 71º mês de existência do Vitralizado teve como destaque o relançamento de Música para Antropomorfos, clássico recente dos quadrinhos brasileiros, objeto de culto de quadrinistas nacionais e desaparecido das livrarias há mais de 10 anos. Além desse imenso especial dedicado à parceria entre Fabio Zimbres e a banda Mechanics, você ainda viu no blog a continuação da série de bastidores do próximo álbum do quadrinista Jão, mais um pouco de Série Postal e outro tanto de coisa que só dá as caras por aqui. Segue o sumário do blog no mês de agosto:

*Está no ar a campanha de financiamento coletivo de PARAFUSO ZERO – Expansão, próximo álbum do quadrinista Jão, no qual estou trabalhando como editor. Ao longo das últimas semanas tenho publicado por aqui a série PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores, na qual o autor fala sobre as origens, as inspirações e o desenvolvimento da HQ. Nas últimas quatro segundas-feiras o Jão falou sobre as proporções pouco usuais dos trabalhos dele, comentou o formato singular de suas publicações, contou de um sonho com Moebius e tratou da relação desse próximo álbum com obras prévias assinada por ele. Leia e apoie!;

*Os 12 quadrinhos de 2017 da Série Postal foram anunciados como concorrentes ao Prêmio HQMix 2018 na categoria Publicação Mix. Enquanto isso, as atividades da Série Postal 2018 ainda não chegaram ao fim: eu reuni por aqui o depoimento do quadrinista Diego Gerlach sobre a produção do trabalho dele pro projeto e anunciei que estarei distribuindo os postais da coleção, junto com a artista Raquel Vitorelo, como convidados da Banca de Quadrinistas 2018 do Itaú Cultral;

*O especial do mês no blog foi dedicado ao relançamento de Música para Antropomorfos. Escrevi uma matéria pro jornal O Globo falando sobre a nova edição da HQ pela Zarabatana Books e publiquei por aqui a íntegra das entrevistas que fiz com Fabio Zimbres e Márcio Jr, coautores do livro. Ainda tive a oportunidade de mediar uma ótima conversa com o Márcio Jr. na loja da Ugra, aqui em São Paulo, no que foi o primeiro evento de relançamento da publicação;

*Também mediei uma conversa com o animador e quadrinista Wesley Rodrigues, autor do álbum Imaginário Coletivo, primeira HQ nacional da editora DarkSide Booksvocê confere trecho dessa conversa por aqui;

*Três rapidinhas: esbarrei no Twitter com esse ensaio bem massa do pessoal da Wired sobre a história das aberturas das série de TV e encontrei no Tumblr com esse cartaz da Emil Ferris para o Comic Arts Brooklyn 2017 e com essas artes do Daniel Clowes pra casa de shows francesa Wanderlust.

>> Veja o que rolou no Vitralizado #70 – 07.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #69 – 06.2018;
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