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Comics Unmasked: a exposição de HQs da Biblioteca Britânica

A foto aqui de cima foi tirada na recepção da Biblioteca Britânica. O imenso painel da exposição Comics Unmasked mostra a importância do evento, realizado dentro de um dos maiores templos literários do Reino Unido. Já falei por aqui sobre alguns dos encontros realizado em paralelo à exposição – um com o John Talbot e outro com o Neil Gaiman – e em breve postarei coisas novas por aqui. Saiu no Estadão minha matéria sobre as origens e os destaques da retrospectiva. Conversei com o Paul Gravett, uma das maiores autoridades de quadrinhos do mundo e curador da exposição. As imagens são da assessoria da exposição e de autoria de Tony Antoniou. Segue o meu texto:

MatériaComicsUnmasked

Exposição em Londres mostra a origem das HQs britânicas

Mostra fica em cartaz até o dia 19 de agosto

Ramon Vitral – Londres – Especial para O Estado de S.Paulo

Entre as 14 milhões de obras presentes no acervo da Biblioteca Britânica em Londres, estão preciosidades como duas Bíblias impressas por Gutenberg na década de 1450, o manuscrito original do poema Beowulf, um caderno de anotações de Leonardo Da Vinci e a impressão mais antiga da história da humanidade – o Sutra do Diamante, datado de 868 d.C. No entanto, o destaque da programação da biblioteca em 2014 são os quadrinhos britânicos. A exposição Comics Unmasked: Art and Anarchy in the UK (Quadrinhos desmascarados: arte e anarquia no Reino Unido) estará em cartaz na galeria da biblioteca até o dia 19 de agosto.

“A Biblioteca Britânica tem a maior coleção de quadrinhos britânicos no mundo, mas ela ainda não havia sido exposta publicamente”, explica um dos dois curadores do evento, o jornalista inglês Paul Gravett, em entrevista ao Estado. Com seu colega John Harris Dunning, Gravett concebeu uma retrospectiva separada por seis temas e ambientes: violência, sociedade britânica, política, sexo, estilos e autores e linguagem.

O Estado esteve presente no primeiro dia do evento. A sala inicial da exposição reúne definições sobre quadrinhos de vários artistas e autores impressas nas paredes. Em seguida, o visitante é recepcionado por vários manequins encapuzados utilizando a máscara do protagonista da série V de Vingança. Segundo Paul Gravett, a rebeldia do herói sintetiza um dos elementos mais constantes dos gibis produzidos no Reino Unido.

“Das publicações impressas mais antigas às inovações digitais do presente, os quadrinhos britânicos sempre foram subversivos e combativos em relação a injustiças, preconceitos, questões sociais e sexuais”, analisa o curador. O processo de escolha do material exposto começou em 2012, a seleção final veio a público no momento que Gravett acredita ser o mais propício para tratar do assunto. “Os quadrinhos estão cada vez mais relevantes no Reino Unido – com graphic novels ganhando prêmios literários, inspirando filmes, música, moda e games – e, principalmente, tendo seus méritos reconhecidos como expressão artística e pelo dinamismo de sua narrativa.”

A mostra reúne impressões e artes originais datadas desde o início do século 19 até roteiros e publicações recentes de autores como Alan Moore, Neil Gaiman e Grant Morrison. Estão presentes um tabloide policial de 1888, noticiando um dos ataques de Jack, O Estripador, tiras sobre a luta das mulheres pelo voto universal, obras tratando do início do movimento punk, a chegada de Margaret Thatcher ao poder, a ficção científica distópica da editora 2000AD e a relação entre alguns autores e o ocultismo. A imensa presença de autores britânicos na indústria norte-americana de quadrinhos também recebe atenção especial.

“Os escritores britânicos reinterpretaram radicalmente os icônicos super-heróis norte-americanos, tornando-os mais sombrios e profundos do que nunca”, explica o curador. “Quando britânicos escrevem esses personagens, eles constantemente causam surpresas e choques, como o Alan Moore deixando a Batgirl paraplégica em A Piada Mortal e o Grant Morrison matando o Batman. Antes disso, sofrimentos reais e morte eram conceitos quase impossíveis nos quadrinhos americanos.”

Mestres no palco. Junto com a Comics Unmasked, uma série de outros eventos ligados a quadrinhos estão marcados para a Biblioteca Britânica até o fim de agosto. São palestras com artistas e escritores como Neil Gaiman, Dave McKean, Robert Crumb, Alejandro Jodorowsky, Melinda Gebbie e Bryan Lee O’Malley. O primeiro encontro foi com o quadrinista Bryan Talbot.

Chamado de “David Bowie dos quadrinhos”, pela versatilidade de seu traço, Talbot lançou no evento sua mais recente produção. Roteirizada por sua mulher, Mary Talbot, e também com ilustrações de Kate Charlesworth, Sally Heathcote: Suffragette conta a história da luta das mulheres pelo direito ao voto.

Autor de graphic novels como Luther Arkwright, Alice in Sunderland, GrandVille e, a mais recente e premiada, Dotter of Her Father’s Eyes, Talbot lembrou do seu início de carreira, quando ganhava menos de 10£ por página. Hoje, segundo ele, seus métodos de desenho não mudaram muito. “Posso passar anos elaborando o conceito de uma HQ e trabalhando em rascunhos, já em algumas outras eu consigo criar todo um enredo em menos de um dia”, disse no auditório da Biblioteca Britânica.

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Entrevista. Paul Gravett, curador da exposição Comics Unmasked.

Paul Gravett já publicou livros sobre mangás e história dos quadrinhos. Uma das maiores autoridades mundiais no assunto, o jornalista e curador da exposição na Biblioteca Britânica conversou com o Estado sobre o evento e seus grandes nomes.

Quais são os personagens mais icônicos das HQs britânicas?

O mais vendido no mundo, na década de 1880, era Ally Sloper, o primeiro superastro das histórias em quadrinhos, que estreou há exatos 130 anos, em 3 de maio de 1884, e durou até os anos 1920. Herói nacional, o personagem zombava dos ingleses e de seus costumes. E há ainda o Zé do Boné e o policial futurista e fascista Juiz Dredd. Personagens femininas vão da agente secreta sexy Modesty Blaise à selvagem Tank Girl. Talvez o mais famoso de todos seja V de Vingança.

Qual a diferença entre autores ingleses e norte-americanos?

É a ousadia e a audácia, que talvez venha parcialmente do fato de os autores britânicos terem uma perspectiva distanciada dos Estados Unidos e do gênero de super-heróis. Como um ex-império, conseguimos sentir amor e repulsa por eles e, ao mesmo tempo, percebemos a mágica e o absurdo desse universo. Isso também é influência dos nossos quadrinhos, de tiras infantis semanais como The Beano a publicações underground ou a ficção científica distópica da 2000AD. Essas publicações deram tons, energias e ironias completamente diferentes para nossos escritores e artistas.

Qual a importância da revista Warrior para HQs britânicos?

Como a 2000AD, a Warrior serviu de vitrine e porta de entrada para vários autores e séries, como V de Vingança e Miracleman. O seu editor, Dez Skinn, foi uma figura crucial e revolucionária para os quadrinhos britânicos. A Warrior, que funcionou entre março de 1982 e janeiro de 1985, transformou em definitivo o nosso mercado.

Alguns dos autores mais respeitados hoje são britânicos, como Alan Moore, Neil Gaiman e Grant Morrison. Você vê algum padrão no trabalho deles?

O que eles têm em comum é que são leitores vorazes, muito bem informados e curiosos, interessados em questões que vão além de suas paixões por quadrinhos. São magos da linguagem.

Quem faz parte da mais nova geração de quadrinistas britânicos?

Há mais mulheres no meio agora, como Simone Lia, Nicola Streeten e Karrie Fransman. Alguns grandes mestres estão no auge, como Dave McKean, Pat Mills, Bryan Talbot e Kelvin O’Neill. A mais nova geração é marcada por nomes como Kieron Gillen, Luke Pearson, Isabel Greeberg, Christian Ward, e o mais novo, presente na Comics Unmasked, com 13 anos, Zoom Rockman.

Post com um agradecimento especial para a minha amiga Julia Fernandes, que me falou da exposição assim que cheguei aqui em Londres. Valeu, Juliette!

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