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Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #4: “Um quadrinho com um título imenso”

Agora é oficial: a nova obra do quadrinista Thiago Souto tem o título Por tanto tempo tentei me convencer de que te amava, será publicada pela Balão Editorial e terá seu lançamento durante a Comic Con Experience 2018. O álbum conta com a minha participação no papel de editor e narra um passeio pela Avenida Paulista aos domingos, com a via fechada para carros e aberta para pedestres, ciclistas e skatistas.

Enquanto você não tem o quadrinho em mãos, recomendo a leitura da série Thiago Souto e a Av. Paulista. Publicada semanalmente aqui no blog, sempre às quintas-feiras, a série consiste na transcrição de uma série de conversas que tive com o autor, com ele falando sobre as origens do projeto, suas inspirações e o desenvolvimento da obra. No post de hoje, Souto adianta alguns detalhes do enredo do quadrinho e comenta a dinâmica de produção da HQ ao longo de seus pouco mais de dois meses de desenvolvimento.

Incluo no final do post de hoje, como material bônus, a entrevista dada por Thiago Souto ao jornalista Carlos Neto, responsável pelo canal Papo Zine. A seguir, aspas do quadrinista:

Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #4: “Um quadrinho com um título imenso”

“Tudo pelas tangentes”

“O que é Por tanto tempo tentei me convencer de que te amava? É um quadrinho com um título imenso (risos) É um livro que fala muito sobre a minha relação com a Avenida Paulista e com a cidade de São Paulo, sem ser exatamente o relato de uma experiência pessoal pela qual eu tenha passado, embora estejam presentes no quadrinho várias coisas que têm uma relação muito próxima com experiências que eu vivi”.

“É um livro que trata desse relacionamento que eu sempre tive com a Paulista e o que esse relacionamento se tornou depois que a avenida começou a abrir para pedestres aos domingos. Tem uma série de exageros no meio da história, mas esses exageros servem pra contar coisas que de fato ocorrem naquele lugar, sobre a relação das pessoas com a Paulista e com a cidade e sobre a forma como as pessoas se relacionam”.

“O livro não trata nenhum desses elementos muito diretamente, de forma específica, é tudo meio pelas tangentes. Ele conta a experiência de um personagem pra falar sobre aquele assunto, mas sem ser muito explícito. Talvez exija uma dose de imaginação e interpretação por parte de quem estiver lendo”.

“Só me liguei qual seria o visual enquanto desenhava as páginas”

“Esse quadrinho foi muito desenvolvido durante o processo de produção… Como eu posso explicar melhor? Ele não foi tão planejando, não teve um início muito pré-definido, com designs de personagens, estudos de cenário ou estudos de composição de páginas. Só durante o processo de produção eu fui descobrindo essas coisas. Só me liguei qual seria o visual enquanto desenhava as páginas”.

“Acho que a única coisa que foi mais trabalhada antes do início da produção foi o roteiro, um texto que eu tinha escrito de uma vez só. Aí eu fiz essa leitura com você. Eu falo com você ou digo que fiz essa leitura ‘com o Ramon’? (risos) Enfim, fiz uma leitura com o meu editor e a partir dessa leitura tivemos alguns insights, algumas ideias que serviram como um guia bem genérico do que se tornaria a história. Depois eu comecei a desenhar e essas ideias serviram só como um ponto de partida que acabou se transformando muito no decorrer do processo de produção”.

“Ao contrário do Labirinto, onde tudo foi mais planejado – o roteiro, o visual dos personagens, os thumbnails e tudo mais – dessa vez foi tudo acontecendo enquanto eu fazia. Isso foi interessante para mim, foi um outro jeito de enxergar o processo de fazer quadrinhos”.

“Autobiográfica até a entrada na Paulista”

“A primeira coisa que fiz no meu texto original foi a introdução, as páginas iniciais da história. Quando escrevi aquela introdução eu estava muito focado ainda na minha experiência. Dá pra dizer que o quadrinho é autobiográfico até o momento em que o personagem entra na Paulista. É a minha experiência enquanto o personagem fala da infância dele, aquilo é real, é como eu via a Paulista durante a minha infância. Essa introdução foi a primeira coisa que escrevi, depois deixei meio que guardada por uns dias”.

“Fui escrever o percurso da Paulista em outro momento e a partir daí já começou a descolar um pouco da minha realidade. Quando comecei a escrever essa segunda parte eu já passei a ver o personagem como um personagem, não era eu andando pela Paulista, embora ainda tivesse muito da minha experiência. E essa parte eu escrevi meio que de uma tacada só, fui pensando como um passeio da Paulista, passando por tal lugar, depois o seguinte, até chegar no final”.

Quando terminei fui colocando e tirando uma coisinha ou outra, mas o roteiro foi escrito dessa forma. Um primeiro momento em que eu achava que ia escrever uma história 100% pessoal e autobiográfica e o seguinte, descolado da minha experiência, vendo a coisa como uma narrativa ficcional.

“Prefiro escrever sem pensar em como eu vou desenhar

“Talvez eu tenha feito mais um guia do que um roteiro propriamente dito. Boa parte do texto inicial que eu escrevi está na história. Talvez 80% do que escrevi no meu texto inicial esteja na história. Se aquilo não for chamado de roteiro, então eu acho que não cheguei a fazer um roteiro (risos) Ou então, talvez o roteiro tenha sido feito quando nós dois sentamos pra conversar, decupar aquilo e estruturar de uma forma um pouco mais organizada”.

“Eu não tento imaginar a imagem enquanto eu tô escrevendo. Se eu ficar imaginando as coisas, eu tento impor algumas limitações que estão relacionadas à técnica do desenho. E como desenhista eu ainda me vejo tendo limitações na hora de retratar uma ideia. Se na hora que eu estivesse escrevendo fosse ficar pensando nas imagens, no enquadramento e nessas coisas, eu provavelmente iria me limitar. Eu acabaria mudando o roteiro pra tentar fazer caber dentro do que eu enxergava e poderia resultar em uma limitação técnica de desenho. Então eu prefiro escrever sem pensar em como vou desenhar”.

“Nesse quadrinho eu lidei com várias limitações pessoais. Era muito cenário e muita gente andando junta, tive que encontrar algumas soluções. De repente, se eu ficasse pensando nas soluções visuais que eu fosse dar pro roteiro, talvez eu acabasse limando coisas do roteiro por achar que eu não iria conseguir desenhar aquilo depois. Então eu escrevo sem pensar muito pra só depois me virar”.

“Em tão pouco tempo você não procrastina”

“Eu escrevi no final de setembro, nós dois sentamos para conversar na primeira quinzena de outubro e eu desenhei em um mês, no máximo. Foi desenhado em pouco menos de um mês. Foi um projeto que ocupou uns dois meses, dois meses e pouquinho”.

“Em tão pouco tempo você não procrastina, né? Você tem que fazer. É preciso resolver a coisa de alguma forma. O problema de ter muito tempo é que você acaba revisitando coisas que já estão resolvidas. Se eu fosse reler o roteiro agora talvez eu quisesse mudar uma coisa ou outra. Se eu fosse ver o desenho agora, talvez eu quisesse acertar alguma coisa ou outra”.

“Com pouco tempo você desiste de rever as coisas e segue em frente. Não é nem que você se conforma com o que foi feito, você apenas não olha pra trás por falta de tempo. Não é nem uma questão de conformidade com o que foi produzido. Você segue adiante ou não acaba o trabalho”.

“Esse processo tá sempre te empurrando e isso é bom. No Labirinto, no qual eu trabalhei por muito tempo, há algumas páginas que hoje eu acredito que poderiam ter ficado bem melhores. Mas é isso. O projeto grande é assim também, no final ele é curto porque você vai ter que correr um monte pra entregar e toda aquela procrastinação do começo precisará ser resolvido em um período reduzido de tempo. O projeto curto só não tem esse tempão antes em que você fica lá viajando, tentando mudar coisas já resolvidas”.

BÔNUS:

CONTINUA…

ANTERIORMENTE:

>> Thiago Souto e a AV. Paulista – Parte #3: “Experimento voltado para a desconstrução”;
>> Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #2: “É muita gente diferente compartilhando o mesmo espaço”;
>>Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #1: “Parecia coisa de ficção científica”.

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