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Scott McCloud: “Todo mundo quer deixar alguma coisa pro mundo. Nem que seja só uma memória”

The Sculptor é a primeira obra impressa do quadrinista Scott McCloud em um intervalo de nove anos. Seu trabalho anterior é Desenhando Quadrinhos (2006), último álbum da trilogia sobre a linguagem das HQs, precedido por Desvendando os Quadrinhos (1993) e Reinventando os Quadrinhos (2000). Na introdução do livro de 2006, McCloud explica: “Se eu conseguir ensinar outra pessoa a criar histórias em quadrinhos de primeira, talvez eu possa ensinar igualmente a mim mesmo”. Quase dez anos depois, o autor me conta em uma entrevista por email: “Eu escrevi que um dos objetivos de Desvendando os Quadrinhos era me ensinar a produzir HQs melhores enquanto me preparava para uma nova graphic novel. No caso, eu estava me referindo exatamente a The Sculptor”. Ainda não anunciadas oficialmente, o livro já tem editora e data de lançamento no Brasil. A íntegra da minha conversa com o autor você lê aqui.

Com quase quinhentas páginas, o mais recente trabalho de McCloud é protagonizado por um jovem artista chamado David Smith. Após um promissor início de carreira como escultor, ele perde o apoio do investidor que bancava a produção de suas peças, sofre de bloqueios criativos e enfrenta problemas financeiros. Sua vida muda em um encontro com a Morte. Na forma de um tio de David, ela faz uma proposta ao artista: em troca do poder de esculpir qualquer coisa que sua mente imaginar, ele terá apenas 200 dias de vida e não poderá compartilhar o trato com ninguém. A oferta é aceita e logo em seguida o protagonista conhece a mulher de sua vida, uma atriz chamada Meg.

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“Hoje eu sou apenas um pouquinho parecido com o David Smith, talvez fosse mais quando era mais novo. Eu era obsessivo, obcecado e estava me tornando recluso. Já a Meg é muito mais parecida com a minha esposa com aquela idade”, diz McCloud. Seu relacionamento com a também artista Ivy Ratafia, mãe de suas duas filhas, foi uma das inspirações para a HQ.

Segundo o Guardian, The Sculptor é “tão cativante quanto um romance vitoriano em termos de personagens e ideias morais, conseguindo, ao mesmo tempo, tratar do subjetivo conceito de arte e ser uma síntese da vida hipster urbana do século 21”. Os elogios não são exageros e a obra é candidata potencial a alguns dos principais prêmios da indústria de quadrinhos em 2016. McCloud é pessoal e passional de uma forma ainda não vista pelos leitores de suas obras sobre a linguagem dos quadrinhos. Os dramas de seus protagonistas são potencializados e tornam-se ainda mais perceptíveis na disposição inventiva dos quadros, na diagramação inconstante das páginas e no traço simples do artista. Ainda assim, apesar de um clássico moderno, The Sculptor não é uma obra definitiva nas proporções das três grandes HQs norte-americanas da última década: Here, de Richard McGuire (prometida pela Cia das Letras); Asterios Polyp (publicada pela Cia das Letras), de David Mazzucchelli; e Building Stories (inédita no país), de Chris Ware.

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“A leitura de grandes quadrinhos faz as pessoas quererem produzir grandes quadrinhos”, me conta McCloud quando cito para ele os nomes de Ware, McGuire e Mazzucchelli. “Só precisamos de alguns pioneiros como o (Art) Spiegelman (autor de Maus) para fazer a bola rolar aqui na América do Norte. Mesmo que sejam apenas um ou dois artistas, eles podem fazer uma grande diferença a longo prazo. Concordo que vivemos um momento muito bom, mas espero que estejamos apenas no começo dele”.

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Os vários quadrinhos experimentais e as muitas inovações publicadas em títulos lançados desde Desvendando os Quadrinhos também chamam a atenção de McCloud. Em seu trabalho vencedor do Prêmio Eisner de Melhor Livro com Temática de Quadrinhos em 1994, ele definiu as histórias em quadrinhos como “imagens pictóricas justapostas em sequência deliberada”. Mais de 20 anos depois, ele acredita que mesmo um público não habituado a HQs tenha uma compreensão mais ampla das possibilidades dessa linguagem: “Definições são sempre complicadas e variáveis. Ainda assim, em 1993 a maioria das pessoas ainda se apegava à ideia consensual que quadrinhos eram revistinhas baratas e de baixa qualidade com pessoas fantasiadas batendo umas nas outras. Agora, em 2015, mais pessoas do que nunca veem quadrinhos como uma forma de arte capaz de contar qualquer tipo de história, com qualquer tipo de estilo e em qualquer meio físico. Gosto de pensar que minha definição neutra em termos estilísticos ajudou um pouco”.

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Aos 55 anos McCloud confessa ainda compartilhar de algumas das mesmas pretensões superficiais de seu jovem protagonista de The Sculptor: “Sou como a maioria dos artistas. Gosto de acreditar que posso produzir alguma coisa que vai viver além de mim. À medida que envelheço, percebo que esse é provavelmente um objetivo fútil – pois nada é eterno -, mas também estou aprendendo a aceitar essa futilidade, a estar em paz com ela”. A necessidade de reconhecimento, mesmo que após a morte, para ele, é inevitável. “É uma sensação muito comum entre artistas, mas acho que todo mundo quer se sentir importante, sentir que vai deixar alguma coisa pro mundo. Nem que seja só uma memória”.

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