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Raquel Vitorelo e a produção do segundo número da Série Postal 2018

A quadrinista Raquel Vitorelo reuniu um vasto conteúdo mostrando os bastidores da produção do segundo número da Série Postal 2018, o quadrinho Crônica. Assim como faço desde o início do projeto, eu vou publicando ao poucos esse material no site da coleção e depois reúno aqui no Vitralizado a íntegra do depoimento da autora e parte do material de making-of. Aliás, vale demais um pulo na página para conferir todas as imagens e rascunhos disponibilizados pela autora. E também recomendo uma visita ao site da Raquel, uma das autoras que mais chama a minha atenção na cena brasileira de quadrinhos. A seguir, Raquel Vitorelo e a produção do segundo número da Série Postal 2018:

“É uma proposta bem diferente, né? O postal tem um tamanho muito restrito. Ao mesmo tempo, isso é bem bacana, quando as coisas ficam livre demais é ainda mais difícil de pensar. Quando eu recebi o convite pra participar do projeto eu deixei um pouco essas limitações do suporte cozinhando na minha cabeça e pensei principalmente em algumas ideias que eu tinha pra quadrinho, assuntos que eu queria tratar e de qual forma eles poderiam ser melhor aproveitados pelo suporte”

“Gostar de brincar com o formato deve ter algo a ver com os meus pais, que são arquitetos. Eu cresci com eles trabalhando e eu achando que eles estavam brincando. Eu acho bacana brincar com os limites da linguagem, o papel, a dobra e como essas coisas também conversam ou não com a narrativa. Acho que não tem sentido não ter um significado narrativo algo que seria interessante de tratar. Por exemplo, no Perigeu eu fiz muitos testes aqui em casa pra ver se fazia sentido imprimir essa história num papel mais transparente”

“Já o Tomboy era uma ideia que eu tinha quase de um manifesto, uma espécie de perfomance de alguém falando com o leitor, diretamente. Uma coisa que eu gosto no Tomboy, que a princípio achei que era um defeito, mas acabei gostando, é que muita gente pega pra ler e não sabe direito por onde começar ou pra qual lado ir. De alguma forma, as pessoas acabam se cativando pelo discurso, completamente direto e pessoal pro leitor. Tentei fazer de uma forma que a própria ordem da dobra desse a ideia da ordem de leitura. É uma coisa meio linear, mas que também faz sentido se forem apenas alguns quadrinhos separados”

“Eu tentei brincar um pouco com uma falta de linearidade, misturando as legendas… Eu estava pensando nisso esses dias e me falaram uma coisa interessante: a minha proposta com esse quadrinho foi justamente misturar as legendas com as imagens que não estavam de acordo, quase como um jogo da memória em que você tem que achar o par, sabe? Essa foi a minha forma de lidar com essa linearidade meio que imposta. E eu também queria remeter um pouco aos quadradinhos do calendário, tem um diálogo interessante com as doenças crônicas, na verdade o meu tema”

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“Eu estava falando com a minha mãe e ela sugeriu que daria pra ler os quadrinhos do postal em uma outra ordem. Foi engraçado ela sugerir isso, algo que eu nunca tinha reparado. Eu estava lendo recentemente sobre os requadros no Japão, nos mangás. Tem uma pesquisadora americana que mora no Japão há muitos anos e ela reparou que as páginas de mangá no Japão nunca tem uma encruzilhada. Como no Japão eles têm uma leitura da direita pra esquerda e de cima pra baixo, eles não têm uma hierarquia do que vem primeiro, se é na horizontal ou na vertical. Eles evitam as encruzilhadas para a ordem de leitura ficar mais evidente. O quadrinho que eu fiz foi com régua, direitinho, cortando na metade as proporções e tal e é isso que permite que ele tenha uma leitura meio diversificada. Foi algo que não pensei muito, mas vendo agora acho que ficou bacana, passa essa ideia eterna de dor e sofrimento da qual você não pode sair (risos)”

“Tem muita coisa que fazemos de forma intuitiva e isso que é legal em quadrinhos – em outras formas de expressão também, mas principalmente em quadrinhos: as leituras ficam muito abertas, existem muitas coisas que escrevemos e só descobrimos depois com a leitura de outras pessoas”

“Esse espaço mais limitado do cartão postal me fez pensar que eu conseguiria tratar bem essa questão da repetição e de uma calendário eterno dentro desse formato. O outro tema que eu tinha pensando não ia nessa proposta, era algo muito diferente. Acho que de vez em quando a gente saca umas pautas que estão em alta, mas entre tratar de uma pauta de um jeito ruim e não tratar da pauta, eu prefiro não tratar”

“Hoje eu acho que escolhi muito bem a cor, ainda mais com essa laminação fosca que ficou muito dá hora (risos) A ideia era que o postal tivesse uma cor vibrante, quase irritante mesmo. Eu não sei até que ponto posso dar spoilers, mas durante todos os quadros eu trato um pouco dos sintomas que eu tenho, eu tenho muita sensibilidade à luz. Enquanto eu desenhava, fui percebendo que o desenho estava mexendo com os meus sintomas e gatilhos”

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“A primeira versão que eu fiz foi azul, um azul bem escuro que passava uma sensação completamente diferente, meio triste, e não era isso que eu queria passar. Sem contar que estava mais convencional. Acho que seria interessante colocar uma cor ironicamente alegre (risos). Esse amerelão tem um pouco das versões em verde e vermelho, que eu também fiz. Esse contraste das cores complementares dá uma sensação agressiva, acho que essa é a palavra”

“Eu fiquei olhando em volta e pensando em coisas do meu dia a dia, completamente cotidianas, mas permeadas pela presença constante de uma doença. Pensei em coisas que não remetem necessariamente a um sintoma, mas fazem parte de uma existência conjunta com essa experiência de uma doença crônica”

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“Eu tenho enxaqueca crônica. Muitas pessoas têm enxaqueca e não sabem muito bem como lidar com isso. Eu tenho pesquisado muito a respeito e descobri que é uma das principais causas de invalidez no trabalho no mundo. As pessoas não têm muita noção que é um distúrbio muito comum, muita gente acha que não é nada demais e relativiza o problema”

“Eu costumo desenhar as coisas no papel, com lápis e lapiseira. Eu peguei o verso de um papel usado. Fiz um esboço e passei a limpo em um papel vegetal. Usei um grafite 0.9. Sempre trato no Photoshop, as cores são Photoshop. Eu faço muita mistureba, gosto de escanear muita coisa e vou mexendo milhões de vezes. Essas cores finais, primeiro eu pintei com um brush e fui mexendo nas configurações dele, de forma que ele misturasse as cores conforme a pressão da caneta do tablet. Depois eu manipulei as cores até elas ficarem mais saturadas e deu nisso”

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“Eu tive que refazer algumas vezes as letras, fiquei com medo de não dar leitura, por ser manual e tão pequenininha. Geralmente eu tenho esse receio. Eu sou designer e gosto de letras pitititicas, mas tem sempre o risco das pessoas não conseguirem ler. Fiquei fazendo vários testes. Primeiro eu escrevi a lápis, mas como o lápis tem essa textura meio ruidosa, ficou sujo demais. Aí refiz tudo no Photoshop também”

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