Vitralizado

Entrevistas / HQ

Papo com Wagner Willian, o autor de O Martírio de Joana Dark Side: “Me pareceu o momento ideal para contar essa história de resistência”

O quadrinista Wagner Willian lança na Comic Con Experience 2018 a HQ O Martírio de Joana Dark Side. A obra do autor dos álbuns Bulldogma e O Maestro, O Cuco e a Lenda tem como foco os instantes finais de vida da mártir e heroína francesa Joana d’Arc, executada na fogueira aos 19 anos, em 1431. Ao narrar o julgamento e a condenação da personagem em 76 páginas de histórias em quadrinhos, Willian adaptou livremente o filme mudo A Paixão de Joana d´Arc (1928), dirigido pelo cineasta dinamarquês Carl Th. Dreyer e protagonizado pela atriz Maria Falconetti. “O filme foi considerado ousado na época por algumas ângulos inéditos e ser quase todo feito em closes dos atores”, conta o autor ao blog.

“Investigando a obra, acabei descobrindo que essa escolha pelos closes não foi rigorosamente por uma questão estética e genial do diretor, mas um jeito de driblar os abusos que cometera com a atriz”, explica Willian. “Dreyer a confinou pelos cinco meses de gravação para que ela não tivesse influência dos outros atores em suas encenações. E ainda a obrigava a se ajoelhar em pedregulhos para ele poder captar o rosto da dor, por isso o close. Renée virou Joana para mim. A simbologia de tudo isso confluiu para que não houvesse dúvidas sobre o que eu estava fazendo. Por tudo o que Renée passou, cabia uma metalinguagem ali”, diz.

Publicado pela editora Texugo (pertencente a Willian), O Martírio de Joana Dark Side é um dos principais lançamentos da imensa leva de HQs que deve chegar às lojas especializadas até o fim do ano, em seguida à Comic Con. Vencedor do Prêmio Grampo 2017 por seu trabalho em Bulldogma e finalista do Prêmio Jabuti por dois anos consecutivos por seus dois títulos mais recentes, o autor dá uma nova roupagem e rumos inesperados a uma das histórias mais conhecidas da história da humanidade. Além da arte e dos designs de páginas belíssimos que já lhe são característicos, o quadrinista ainda cria laços e conexões entre uma trama ambientada no século XV e o conservadorismo da sociedade brasileira contemporânea.

Na entrevista a seguir, Wagner Willian fala sobre as origens de O Martírio de Joana Dark Side, comenta o desenvolvimento do projeto, apresenta as técnicas utilizadas por ele e trata das conexões de seu trabalho com a realidade nacional. Ele ainda adianta alguns de seus próximos planos para a Texugo e deixa no ar a possibilidade desse seu novo álbum ser apenas o primeiro de uma coleção. A seguir, Wagner Willian:

“Estou insistindo nessa coisa de ‘terror’ mas nem sei se posso classificar O Martírio da Joana Dark Side assim. Um drama com final aterrorizante talvez?”

Qual a memória mais antiga que você tem do nome Joana D’Arc? Você lembra da primeira vez em que ouviu falar ou leu sobre ela?

Não lembro exatamente de quantos anos eu tinha na primeira vez em que ouvi a história de Joana d’Arc. Não sei se foi através de um filme, livro, conversa ou daquela série Acredite Se Quiser, mas consigo lembrar do quanto me envolvi por ela, pela trajetória de quem se entrega obsessivamente a uma causa, em que todo gesto dizia ter prerrogativas sublimes. Claro que na época não foi nenhum desses motivos que me prendeu a atenção, mas a lenda de que no final, quando as últimas brasas estalavam a madeira, e o seu corpo já havia desintegrado, seu coração continuava intacto.

Por que Joana D’Arc? Qual a origem desse projeto?

Joana Dark Side. Tinha esse trocadilho na manga há muito tempo, como também a vontade de adaptar algum filme que já houvesse caído em domínio público para a linguagem dos quadrinhos, subvertendo a história ou mesmo criando outra em cima. Lembra da Feira da Fruta e MTV Classics? Mas sem necessariamente fazer algo cômico. As imagens já estavam ali, prontas, então a coisa prometia ser mamão com açúcar. E a Joana, bem, ela foi uma das primeiras feministas (começo do século XV), além de peitar a igreja e seus inimigos.

“A versão que escolhi tem esse viés mais realista (jamais fotorrealista), para causar um impacto mais ‘convincente’ (será?) na parte que toca ao terror”

Você poderia falar, por favor, sobre as técnicas que utilizou no quadrinho? Como você definiu o estilo que queria desenvolver nessa obra?

No começo, eu cogitava fazê-la em nanquim. Algumas páginas depois, percebi o que eu já sabia, ia demorar mais do que gostaria pra terminar isso. Resolvi partir para o digital. Fiquei em dúvida quanto ao estilo, até lancei uma enquete com quatro variações de uma mesma página na rede social. No final, acabei desenvolvendo uma versão diferente daquelas. É óbvio que isso, de fazer enquetes e deixar o leitor escolher as cores de uma capa, tem uma função marqueteira. O leitor não tem apenas conhecimento de seu novo trabalho, como também se sente fazendo parte do seu projeto. A versão que escolhi tem esse viés mais realista (jamais fotorrealista), para causar um impacto mais “convincente” (será?) na parte que toca ao terror. Em todo caso, o terror diz muito mais respeito a narrativa do que a estética. Estou insistindo nessa coisa de “terror” mas nem sei se posso classificar O Martírio da Joana Dark Side assim. Um drama com final aterrorizante talvez? Ainda no estilo, mesmo sendo digital, quis passar a impressão de algo “artesanal”, com as manchas que o Juscelino Neco tanto gosta, um gestual mais solto como se eu fosse daqueles desenhistas tribunais que capturam as cenas de um julgamento.

“Resolvi trazer as visões de Joana para dentro do tribunal, sem deixar claro o limite que separa realidade e delírio”

Esse livro é a sua versão da história da Joana D’Arc, correto? Ainda assim, ele foi construído a partir de várias pesquisas e estudos seus tendo como referência outras obras protagonizadas pela personagem. Como você estabeleceu qual seria a trama que queria contar e como aplicaria as suas referências no quadrinho?

Não é a versão da história dela mas de seu julgamento e condenação. Parti do filme mudo A Paixão de Joana d´Arc de Carl H. Dreyer que é de 1928, protagonizado por Renée Falconetti. O filme foi considerado ousado na época por algumas ângulos inéditos e ser quase todo feito em closes dos atores. Com muito pouco texto, as expressões ditam as cenas. Investigando a obra, acabei descobrindo que essa escolha pelos closes não foi rigorosamente por uma questão estética e genial do diretor, mas um jeito de driblar os abusos que cometera com a atriz. Renée foi uma Joana d´Arc para esse filme, seu primeiro e último. Dreyer a confinou pelos cinco meses de gravação para que ela não tivesse influência dos outros atores em suas encenações. E ainda a obrigava a se ajoelhar em pedregulhos para ele poder captar o rosto da dor, por isso o close. Renée virou Joana para mim. Ela até mesmo morou no Brasil e Argentina. Como Joana, foi cremada. A simbologia de tudo isso confluiu para que não houvesse dúvidas sobre o que eu estava fazendo. Por tudo o que Renée passou, cabia uma metalinguagem ali.

Criei também diálogos para entender melhor o que estava sendo julgado no processo e preencher a lacuna das cenas mudas. O filme se baseou nos registros oficiais de seu julgamento. Fui atrás e achei alguns trechos aqui e outros ali, até cair em outra película, focada também sobre a condenação, e este mais completo que o do Dreyer no que tangem as questões processuais: Le Process de Jeanne d’Arc, de Robert Bresson, de 1965. A essa altura já tinha ido atrás de outros filmes sobre ela. O de 1945, de Victor Fleming, mostrava uma estética incrível também e alguns rostos caricatos. Roubei-os para mim. E aqui entra a questão do sobrenome Dark Side. Como mencionei acima, não me interessava fazer a simples adaptação de um filme e subverti seu final. Vale dizer que tinha enviado o pdf da primeira versão ao diletante Zé Oliboni. Ele sugeriu me aproximar dos delírios que o Luc Besson realizou em seu filme, aquele da Milla Jovovich, dando corpo às vozes que Joana ouvia. Era uma coisa delicada essa porque não só dar corpo mas também tecer as palavras de uma voz ‘divina’ poderia mundanizá-la, e é o que acontece no filme do Besson. O do Fleming mostra a Ingrid Bergman conversando com essas vozes, mas sem mostrar o interlocutor e sem mesmo se fazer ouvir, há apenas uma conversa em forma de monólogo. Estava muito mais inclinado a isso, essa coisa do subentendido, do subliminar (pra variar..). Então resolvi trazer as visões de Joana para dentro do tribunal, sem deixar claro o limite que separa realidade e delírio.

“O Brasil caminha para um lugar nebuloso, e quem escolheu esse caminho parece também não entendê-lo”

Eu não quero entrar muitos nos detalhes da trama, mas vejo um diálogo imenso desse trabalho com a nossa realidade, principalmente no questionamento de figuras de autoridade e no protagonismo feminino. Esses são temas caros para você?

Sem dúvida. O Brasil caminha para um lugar nebuloso, e quem escolheu esse caminho parece também não entendê-lo, mas torna-se claro ali o exercício da Igreja e do exército. Me pareceu o momento ideal para contar essa história de resistência, tendo uma mulher à frente, uma mulher enfrentou a Inquisição, o Estado, questionou a teologia e a moral. Uma mulher dessas não merecia morrer na fogueira. Esse foi o estalo! E a Gabriela Franco ter aceito meu convite para escrever o prefácio foi algo que me deixou extremamente feliz. Ela é a criadora do MinasNerds, site sobre cultura Geek/Nerd e cultura Pop, e uma resistência dentro desses cenários.

Ainda sobre esse diálogo da obra com a nossa realidade: qual você acredita ser o papel potencial de histórias em quadrinhos para inspirar questionamentos em tempos tão conservadores como os que estamos vivendo?

Diferente de um filme, um quadrinho não precisa se preocupar com vetos da produtora por conta de saldo orçamentário para se narrar uma história, e, principalmente, está cagando para a opinião dos acionistas e empresas de merchandising. Acho que essa é a potência da linguagem, ela é absurdamente livre. E espero que continue sendo.

Os seus três quadrinhos mais conhecidos são trabalhos muito distintos. As tramas e os temas de Bulldogma, de O Maestro e agora de Joana Dark Side são completamente diferentes. Você se propõe a investir nessas abordagens e temas distintos ou isso é algo natural pra você?

Que bom ouvir isso, meu velho. Não gostaria de me ver preso a uma única forma e tema, se bem que costumo achar quase toda obsessão linda. Sobre a questão, acho que nenhum nem outro. O que tenho são histórias. Não sou eu quem decide se elas serão parecidas ou não. Deixo elas seguirem o caminho que quiserem. E por isso mesmo não vou dizer que é algo natural porque é o diabo até resolver como será a forma final da próxima história que irei contar.

Você revelou que o livro faz parte de uma coleção chamada Cine Qua Non. Do que se trata essa coleção?

Tirei o nome da coleção do termo usado em ambiente jurídico: Sine Qua Non. Significa imprescindível. Tenho uma lista extensa de filmes que para mim foram e continuam sendo imprescindíveis. Como essa adaptação/subversão do filme A Paixão de Joana d´Arc, pretendo fazer outras. Filmes como o primeiro Nosferatu; Ivan, o Terrível; O Vampiro de Dusseldorf, cara, são tantos, estão na minha linha de tiro. Nosferatu, por exemplo, existe toda uma esfera estranha sobre o primeiro ator do filme. Há até um filme com o Willem Dafoe, retratando isso. Daria para adaptar o Nosferatu, mesclando com a história do ator e subverter tudo para mostrar um vampiro político e brasileiro da atualidade.

Posso estar completamente equivocado aqui mas até onde eu sei, depois de setenta anos, uma obra cai em domínio público. Confere produção? Então é isso. A mão chega a coçar. Ainda mais percebendo que eu consigo fazer essas subversões a toque de caixa, rs.

“Tirando o percentual da agente literária, os direitos autorais pela cessão às editoras de fora são todos meus”

Joana Dark Side é apenas seu segundo lançamento pela Texugo, mas o livro anterior, O Maestro, já foi indicado ao Jabuti e ganhou edições estrangeiras. Como tem sido a sua experiência com a editora até aqui?

Tem sido ótima. Em menos de um ano estou perto de esgotar a tiragem inteira. O pessoal fala que o que ferra é a distribuição. A Texugo está sendo distribuída pelas principais comic shops do país e por duas grandes livrarias, porque as demais estão dando calote, e pelo famigerado site de venda online. Ou seja, o livro chega em qualquer lugar do país. Outro ponto vantajoso: tirando o percentual da agente literária, os direitos autorais pela cessão às editoras de fora são todos meus. Algumas editoras nacionais cobram além do agente, uma parte em cima (ui!). A parte vantajosa de se publicar por uma grande editora quando você não é conhecido é a divulgação, uma vez que é tiro certo, já existe um catálogo definido, esquemas com mídia e booktubers. Mas a parte que realmente me pega, sendo editora de um só funcionário, é a logística das feiras de quadrinhos. O Maestro, o Cuco e a Lenda é um livro de capa dura, 208 páginas, pesado pacas. Uma caixa com 22 livros pesa 15kg. É tenso levar mochila, pegar metrô, saca? O transporte às feiras gera um custo a mais e um custo e esforço que fazem diferença. Diferente de quando a equipe de uma editora assume o controle e ao autor só lhe basta chegar à mesinha, cambaleante, para soltar autógrafos e sorrisos amarelos. Lição aprendida. O Martírio de Joana Dark Side será um livro de brochura com 76 páginas. Nem sei quantos conseguirei levar nas costas dando risada. Que frase!

Quais são seus próximos planos para a Texugo? Você já tem algum novo quadrinho em vista?

Irei voltar ao lugar onde a humanidade é o melhor disfarce, a HQ Silvestre. Que, talvez, saia pela Texugo. Estamos analisando todas as possibilidades. Mas nem só de autopublicações viverá a editora. Estou negociando os direitos de um quadrinho belga da pesada (o que já era para ter acontecido e, ao que parece, vai miar – deusqueiraquenão), de olho em outros deste mundão sem porteiras.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: