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Papo com Thiago Borges, editor da revista Banda: “É fundamental a existência de outros veículos com voz própria, que fujam do consumismo e do hype”

Está no ar a campanha de financiamento coletivo da revista Banda. O projeto consiste em uma publicação jornalística bimestral de 36 páginas idealizada pelos jornalistas Carlos Neto (Papo Zine), Gustavo Nogueira (Êxodo) e Thiago Borges (O Quadro e o Risco) e pelo designer Douglas Utescher, um dos sócios da loja e editora Ugra Press – selo pelo qual a revista será impressa. O montante pedido para impressão da publicação é de R$ 7.950 e a expectativa é que o lançamento do primeiro número ocorra em outubro de 2019.

Eu estou entre os colaboradores da primeira edição da Banda ao lado da ilustradora e quadrinista Mariana Waetcher, autora da arte da capa da revista; da pesquisadora, tradutora e crítica de quadrinhos Maria Clara Carneiro; e do quadrinista, ilustrador, fotógrafo e tatuador Edson Bortolotte.

Com a proposta de apresentar edições temáticas, o primeiro número da revista terá como foco os clássicos da HQs nacionais. Editor da Banda, Thiago Borges conta que o objetivo dessa edição de estreia não é cravar uma lista de obras canônicas, mas trazer uma discussão sobre o conceito de clássico e refletir sobre alguns dos trabalhos mais importantes já publicados no país. Mas também há um gancho factual para o tema.

“Em 2019, completam-se vintes anos da publicação de O Dobro de Cinco, a primeira parte de Diomedes, a mais conhecida HQ do Lourenço Mutarelli”, explica Borges em conversa com o blog sobre o álbum tido por muitos como o grande clássico dos quadrinhos nacionais – daí a capa de Mariana Waechter, inspirada no detetive que protagoniza a obra, e a matéria principal da revista, uma entrevista com Mutarelli conduzida por Carlos Neto.

Você apoia a campanha de financiamento coletivo do primeiro número da Banda clicando aqui. A seguir, você lê a íntegra da minha entrevista com Thiago Borges, o editor da revista. Papo massa, saca só:

Afinal, o que é um clássico? Num país como o Brasil, com tão pouca leitura e inúmeras obras relevantes fora de catálogo, lidas por pouquíssimas pessoas, é possível levantar esse debate?

O logo da revista Banda

Eu queria saber sobre o ponto de partida da revista. Como a Banda começou a tomar forma? Qual a origem desse projeto?

Acho que todo mundo que, de uma forma ou de outra, mexe com quadrinhos tem certa vontade de criar um projeto especial pra ser chamado de seu. Um material pra estar impresso nas prateleiras das lojas, reunindo pessoas talentosas e com quem você tenha afinidade. Dá pra dizer que a revista surge desse conceito, sendo o Gustavo Nogueira a pessoa a colocá-lo em prática. Foi ele quem chamou a mim e ao Carlos Neto no começo do ano pra trocarmos ideia a respeito de fazer algo juntos. Uma revista, uma antologia, enfim, qualquer coisa pra sair da internet e estar presente no mundo físico. 

Nada contra a internet, pelo contrário! Adoro escrever meu blog e adoro a forma como, no online, não se tem limitação de espaço. Você pode escrever textos gigantescos ou criar vídeos enormes e publicá-los sem peso na consciência em relação a custos com gráfica, veiculação etc. Porém, ao mesmo tempo, os conteúdos acabam se tornando muito voláteis. Ou a pessoa já segue um site/canal e o acessa frequentemente para conferir as novidades, ou ela precisa dar sorte de trombar com uma postagem em rede social pra saber que tem material novo no ar. E com algoritmos limitando alcances, seja no Facebook, Instagram e outras, chegar ao público fica cada vez mais complicado.

Com um impresso, uma revista no caso, o leitor já terá noção da periodicidade, facilitando o consumo. E ainda tem aquela “aura” de pegá-la nas mãos, dedicar um tempo exclusivo a ela. É uma leitura diferente de estar sentado no computador com dezenas de abas abertas, música rolando no fone de ouvido etc.

Mas, voltando à gênese do negócio, no mesmo dia em que Gustavo, Carlos e eu nos encontramos pra começar a esboçar esse projeto, encontrei o Douglas Utescher no metrô e comentei com ele sobre a ideia de desenvolver um projeto com os rapazes. Nessa mesma reunião, surgiu algo como “precisamos incluir a Ugra nisso!” (risos). Era algo óbvio: nós todos nos vemos quase semanalmente, participando de eventos, bate-papos. Surgir algo dessa amizade foi muito natural (e incluo nisso também o convite a você, Ramon, para ser colaborador da edição de estreia).

“O principal, de verdade, será oferecer um conteúdo que justifique estar impresso, sem ser pedante ou rasteiro”

Os quatro idealizadores da revista Banda: Carlos Neto, Douglas Utescher, Gustavo Nogueira e Thiago Borges

O que você pode adiantar sobre a linha editorial da revista? 

Tentaremos fazer algo plural, com olhar crítico, sempre debatendo novas perspectivas a respeito de assuntos que possam ser considerados velhos. A edição de estreia será um exemplo disso: a pergunta “quais os clássicos dos quadrinhos brasileiros?” já foi feita e respondida por muita gente. E, agora, a gente pega um gancho interessante (os vinte anos da publicação de O Dobro de Cinco, a primeira parte de Diomedes, do Lourenço Mutarelli) para refletir sobre esse tema sob um viés diferente. Afinal, o que é um clássico? Num país como o Brasil, com tão pouca leitura e inúmeras obras relevantes fora de catálogo, lidas por pouquíssimas pessoas, é possível levantar esse debate?

O principal, de verdade, será oferecer um conteúdo que justifique estar impresso, sem ser pedante ou rasteiro. Minha inspiração está nas grandes revistas sobre quadrinhos, como The Comics Journal e PanelxPanel. Não estou dizendo que seremos a Comics Journal brasileira – seria até injusto nos comparar a uma verdadeira instituição das HQs mundiais e colocar uma pressão dessas em cima de nosso projeto, que ainda dá seus primeiros passos. Porém, sem essa inspiração em grandes trabalhos já consolidados, a Banda nem existiria. Por isso mesmo, temos uma ideia simples a respeito do público-alvo que queremos atingir: leitores de gibis, sejam pessoas experientes ou iniciantes, focadas em trabalhos de massa ou alternativos.

E outra coisa de extrema importância que vale ser comentada: não seremos apenas Carlos, Douglas, Gustavo e eu (a equipe fixa) os responsáveis por produzir a revista. Desde o início do projeto, temos a ideia de trazer colaboradores das mais variadas vivências para escrever, ilustrar, desenhar capas, ter colunas etc. O objetivo é contar com pessoas de diferentes visões de mundo para fazer com que a revista seja abrangente nas temáticas e abordagens.

“A ideia não é cravar uma lista de obras, mas, sim, trazer a discussão à tona, analisar o próprio conceito de clássico e com isso entender os quadrinhos importantes feitos em nosso país”

Duas páginas da entrevista do jornalista Carlos Neto com o quadrinista Lourenço Mutarelli presentes na primeira edição da revista Banda
Duas páginas da entrevista do jornalista Carlos Neto com o quadrinista Lourenço Mutarelli presentes na primeira edição da revista Banda

Por que tratar dos clássicos dos quadrinhos brasileiros na edição de estreia da revista?

Como a revista é temática, e teremos ainda uma campanha no Catarse para financiá-la, a primeira edição deveria ser algo instigante ao leitor. Propor um debate como esse sempre vai chamar a atenção de quem gosta de quadrinhos no Brasil. Então, esse é um motivo. Existe outra razão também, mais factual: em 2019, completam-se vintes anos da publicação de O Dobro de Cinco, a primeira parte de Diomedes, a mais conhecida HQ do Lourenço Mutarelli. E Diomedes é um paradigma na produção nacional, pois abriu as portas para esse tipo de publicação de fôlego, que foge da tradição do humor e tem características mais literárias na condução da trama. Ainda dá pra citar toda a aura em torno do Mutarelli, um cara recluso que fez trabalhos geniais e passou a renegá-los. Isso tudo gera interesse e achamos válido fazer essa pergunta “quais são os clássicos do gibi brasileiro?” a partir daí. A ideia não é cravar uma lista de obras, mas, sim, trazer a discussão à tona, analisar o próprio conceito de clássico e com isso entender os quadrinhos importantes feitos em nosso País.

Por que convidar a ilustradora e quadrinista Mariana Waetcher para assinar a capa? Vocês passaram alguma pauta para ela nesse “remake” do Diomedes?

Nós queríamos alguém que tivesse certa proximidade com o trabalho do Lourenço, na questão do traço mesmo, pois aí seria possível fazer a ligação entre a capa e o tema que estamos abordando. E a Mariana bebe muito do estilo dele. A forma como utiliza preto e branco, como insere detalhes no desenho, como faz as figuras humanas serem meio disformes, trazendo uma aura de irrealidade para o jogo. Enfim, uma honra contarmos com um talento desse logo porte em nosso primeiro número. E não poderíamos ficar mais felizes com o resultado final. Passamos um briefing básico sobre o assunto dessa edição, resumos bem básicos das matérias que estão sendo preparadas. A ideia é deixar o artista o mais livre possível para criar, sem muitas limitações. E como cada capa terá um desenho exclusivo de convidado, queremos ser surpreendidos sempre.

Por que a opção pelo Catarse?

Porque não temos dinheiro (risos). Bom, não deixa de ser verdade. Mas a questão é séria: todos os envolvidos na criação trabalham com quadrinhos de forma independente, sem ligação com grandes corporações. Daí, não existe outra alternativa a não ser optar por um financiamento coletivo. Acho que a união de pessoas que já possuem certo reconhecimento na área, incluindo também os eventuais colaboradores, pode ajudar a fazer o projeto virar. Faremos na revista o mesmo trabalho plural e de qualidade que cada um possui individualmente.

Vale lembrar ainda que a campanha vai bancar somente a primeira edição. Com ela impressa, será possível dar sequência aos demais números. E a campanha é do tipo “tudo ou nada”. Ou atingimos o valor total ou a publicação não existirá.

“Veículos voltados para a indicação de compras são importantes, mas não podem ser os únicos a terem audiência”

Print assinado pelo quadrinista Kainã Lacerda que presente na campanha de financiamento coletivo da revista Banda

A produção de conteúdo sobre quadrinhos na internet brasileira está cada vez mais voltada pro consumo. Desde a chegada da Amazon no Brasil há uma proliferação de canais no YouTube e sites especializados voltados pra indicação da compra de HQs. Qual é o papel da Banda dentro desse contexto?

Como citei anteriormente, todos da equipe fixa trabalham com HQs de forma independente. Com a revista, seguiremos assim, sem se render ao aspecto comercial da coisa. A opção por edições temáticas vai ao encontro disso: queremos que cada Banda possa ser lida depois de muito tempo de lançada, pois terá uma certa atemporalidade nos assuntos. E essa escolha editorial também traz independência, pois não precisaremos incluir pautas ligadas às notícias ou lançamentos do dia a dia, ao que está vendendo ou na moda. 

Pra mim, veículos voltados para a indicação de compras são importantes, mas não podem ser os únicos a terem audiência. É fundamental a existência de outros veículos com voz própria, que fujam do consumismo e do hype. Existem vários desse tipo, e é nesse espaço onde a Banda se encaixará.

Quais os planos de vocês pro futuro da revista? A segunda edição já está em produção? Vocês têm alguma periodicidade em mente?

Confiamos, de verdade, que a campanha possa dar certo. Esperamos que bastante gente compre a ideia desse projeto, que foi (e está sendo) pensado com carinho. A revista será bimestral. A edição de estreia será lançada em outubro – quem sabe até possamos participar da feira Des.Gráfica, em São Paulo – e a segunda, em dezembro. Já temos o tema dela (e também o da terceira edição) e um esboço das pautas a serem incluídas, mas está cedo para divulgarmos (risos). O foco é fazer o primeiro número virar.

A capa da primeira edição da revista Banda, com arte assinada pela quadrinista e ilustradora Mariana Waechter

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