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Papo com Paul Gravett, o curador da exposição Comics Unmasked

Provavelmente 2014 será lembrado na história das HQs britânicas como o ano da exposição Comics Unmasked. A retrospectiva apresenta o vasto e rico mundo dos quadrinhos produzidos no Reino Unido com o enorme acervo da Biblioteca Britânica. Ontem postei a minha matéria sobre o evento publicada no Estadão, com a minha conversa com o Paul Gravett, curador da exposição e autoridade mundial na linguagem sequencial. Nossa conversa foi bem mais longa e no papel só saiu um trecho. Segue a íntegra (as imagens são da assessoria da exposição, de autoria de Tony Antoniou):

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Qual a origem da exposição?

A Biblioteca Britânica tem a maior coleção de quadrinhos britânicos no mundo, mas ele ainda não havia sido exposto publicamente. Há dois anos, eu e John Harris Dunning procuramos a biblioteca e oferecemos nossos conhecimentos para produzir a primeira exposição desse material. Os quadrinhos estão cada vez mais relevantes no Reino Unido – com graphic novels ganhando prêmios literários, inspirando filmes, música, moda e games – e, principalmente, tendo seus méritos reconhecidos como expressão artística e pela dinamicidade de sua narrativa. É o momento perfeito para fazer essa declaração sobre a representatividade e vitalidade dos quadrinhos em um ambiente tão prestigioso como a Biblioteca Britânica. Além de apresentar uma imensa gama de quadrinhos, revistas e livros impressos, a Comics Unmasked também apresenta rascunhos, roteiros, artes originais, áudios, vídeos com visitas a estúdios de artistas e alguns objetos raros.

Há algum elemento padrão nos quadrinhos britânicos?

Algo recorrente que eu e John notamos foi a rebeldia. Das publicações impressas mais antigas às inovações digitais do presente, os quadrinhos britânicos sempre foram subversivos e combativos em relação a injustiças, preconceitos, questões sociais e sexuais. É um meio capaz de espalhar suas mensagens de forma muito eficaz e, ainda assim, abaixo do radar. Quadrinhos podem ser recolhidos, censurados, condenados por obscenidades e até banidos por um Ato do Parlamento, mas eles jamais serão domados e sempre serão provocantes e incontroláveis!

Esses elementos subversivos também estão presentes no gênero de super-heróis?

Com certeza. Os escritores britânicos reinterpretaram radicalmente os icônicos super-heróis norte-americanos, tornando-os mais sombrios e profundos do que nunca. Quando britânicos escrevem esses personagens, eles constantemente causam surpresas e choques, como o Alan Moore deixando a Batgirl paraplégica em A Piada Mortal e o Grant Morrison matando o Batman. Antes disso, sofrimentos reais e morte eram conceitos quase impossíveis nos quadrinhos americanos.

E quais seriam os personagens mais icônicos dos quadrinhos britânicos?

O personagem de quadrinho mais vendido no mundo na década de 1880, com mais de meio milhão de cópias de revistas vendidas por semana, era Ally Sloper, um vagabundo engraçado do Leste de Londres – a revista dele completou 130 anos dia 3 de maio. O Zé do Boné, publicado em todo o mundo, e o policial futurista e facista Juiz Dredd. Personagens femininas vão da agente secreta sexy Modesty Blaise à selvagem Tank Girl. Talvez o mais famoso de todo seja V de Vingança, inspirado em Guy Fawkes, que tentou explodir o parlamento e seu rosto virou a popular máscara de protesto utilizado por grupos como o Occupy.

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Qual a principal diferença entre os autores Britânicos e norte-americanos?

É a ousadia e a audácia, que talvez venha parcialmente do fato dos autores britânicos terem uma perspectiva distanciada dos Estados Unidos e do gênero de super-heróis. Como um ex-império, conseguimos sentir amor e repulsa por eles ao mesmo tempo, percebemos a mágica e o absurdo desse universo. Isso também é influência dos nosso próprios quadrinhos, de tiras infantis semanais como The Beano a publicações underground ou a ficção científica distópica da 2000AD. Essas publicações deram tons, energias e ironias completamente diferentes para nossos escritores e artistas.

Qual a importância da revista Warrior para os quadrinhos britânicos?

Como a 2000AD, a Warrior serviu de vitrine e porta de entrada para vários autores e séries, como V de Vingança e Miracleman. O seu editor, Dez Skinn, foi uma figura crucial e revolucionária para os quadrinhos britânicos. A Warrior transformou em definitivo o nosso mercado. Foi uma pena a revista ter sido encerrada, o que fez V e Miracleman terem sido continuadas por publicações americanas.

Alguns dos autores mais aclamados e respeitados hoje são britânicos, como Alan Moore, Neil Gaiman e Grant Morrison. Você vê algum padrão no trabalho deles?

Eles são leitores vorazes, muito bem informados e curiosos, interessados em questões que vão muito além de suas paixões por quadrinhos. Eles são magos da linguagem, têm pleno comando e consciência da capacidade da escrita de entrar na mente e nos corações das pessoas. Eles ajudaram a elevar os quadrinhos a um patamar sem precedentes na história.

Também há muitos artistas britânicos. Você vê algum padrão no trabalho de ilustradores como David Lloyd, Frank Quitely, Dave GIbbons e outros?

Muitos artistas britânicos construíram seus estilos a partir do trabalhos de outros ilustradores britânicos, mas também incorporando influências de desenhistas americanos, europeus e japoneses. O resultado disso é não existir um padrão, ou uma escola. São todos extremamente inovadores e originais.

Quem compõe a geração mais recente de quadrinistas britânicos?

Toda geração traz novos e mais talentosos artistas. As gerações mais recentes trouxeram muitas mulheres para o meio, como Simone Lia, Nicola Streeten e Karrie Fransman. No momento, alguns grandes mestres estão no auge, como Dave McKean, Posy Simmonds, Pat Mills, Bryan Talbot e Kelvin O’Neill. A mais nova geração é marcada por nomes como Kieron Gillen, Luke Pearson, Isabel Greeberg, Christian Ward, Frazer Irving, Si Spurrier, Krent Able e o mais novo presente na Comics Unmasked, com 13 anos, Zoom Rockman.

1 comentário Papo com Paul Gravett, o curador da exposição Comics Unmasked

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