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Entrevistas / HQ

Papo com Nate Powell, co-autor e ilustrador da trilogia A Marcha: “Muitas pessoas pagaram um preço para que seus esforços beneficiassem milhões”

Eu entrevistei o deputado norte-americano John Lewis, seu assessor Andrew Aydin e o ilustrador e quadrinista Nate Powell sobre o lançamento da edição brasileira do primeiro volume da trilogia A Marcha, A Marcha – Livro 1: John Lewis e Martin Luther King em Uma História de Luta Pela Liberdade (Nemo, com tradução de Érico Assis). As conversas com os três artistas resultaram em uma matéria para o jornal O Globo sobre as origens dos projeto, as expectativas do trio em relação à série, a produção das HQs e a repercussão das obras. Recomendo a leitura do texto para que você entender todo o contexto no qual A Marcha foi criada. Ontem eu compartilhei por aqui a íntegra das falas de John Lewis e Andrew Aydin. Hoje eu publico a íntegra da entrevista com Nate Powell. Segue o papo:

Eu queria saber mais sobre como você se envolveu nesse projeto. Você tem trabalhos muito autorais e pessoais e essa foi uma empreitada a seis mãos. Como você acabou ilustrando esses livros e como recebeu o convite para fazer parte desse projeto?

O Andrew e o representante Lewis trabalharam juntos entre 2009 e 2010 no que acabou se tornando o roteiro da trilogia inteira, mas na época como um único livro. Nesse período eu estava desenhando Any Empire e The Silence of Our Friends, foi quando eu li o release da Top Shelf sobre A Marcha. Eu fiquei impressionado, eu fiquei muito ansioso para ler o livro, mas não fazia ideia que ainda não havia nenhuma artista envolvido com o projeto. Algumas semanas depois, o meu editor, Chris Staros, me ligou e foi enfático ao sugerir que eu me candidatasse para o trabalho, mencionando as minhas sensibilidades narrativas e a minha familiaridades com o Sul dos Estados Unidos, minha terra natal, e suas histórias e cultura. Em seguida a essa sugestão, foi um processo muito direto com o parlamentar Lewis e o Andrew – eles me enviavam algumas páginas do roteiro, eu transformava em páginas-teste e depois as refazia a partir do retorno deles. Depois de umas duas semanas, nós sentimos uma conexão pessoal e criativa muito intensa e logo partimos para o desenvolvimento dos livros.

Qual era a sua experiência com não-ficção antes de A Marcha? Como foi pra você a experiência de ilustrar personagens e cenários reais?

Antes de A Marcha eu só havia feito uns cinco trabalhos de não-ficção e de quadrinhos inspirados na realidade (hoje eles estão reunidos na coletânea You Don’t Say). É importante dizer que alguns desses trabalhos apresentam os meus primeiros esforços para confrontar e tratar de dimensões de racismo e poder escondidas e implícitas em diferentes áreas dos Estados Unidos. Essa obra resultou no meu trabalho como ilustrador de The Silence Of Our Friends, basicamente um relato autobiográfico das experiências do escritor Mark Long como criança no Texas do final dos anos 60, tendo como pano de fundo um capítulo esquecido da história pela luta dos direitos civis.

Esse trabalho serviu de muitas formas como uma espécie de treinamento do que me aguardava em A Marcha. Mais importante ainda no aspecto criativo, reconhecer as minhas limitações e responsabilidades como o ilustrador de um relato em primeiro pessoa fizeram com que eu ficasse mais atento para encontrar o que não estava definido pelo roteiro – o que era preciso ser encontrado entre as linhas do roteiro sempre que possível. Às vezes isso revelava quando era necessário que eu fizesse mais pesquisas e encontrasse referências para completar o cenário histórico que estava sendo retratado, mas constantemente isso também revelava quando eu teria espaço para me divertir como artista e quando eu estaria livre para fazer uso das minhas memórias, experiências e familiaridades com a cultura, o ambiente e os elementos da história.

Eu acredito que seja possível dizer que você era o mais experiente dos três autores do livro no que diz respeito a quadrinhos. Você poderia falar um pouco da dinâmica do seu trabalho com os seus dois parceiros?

Eu assumo ter feito um trabalho pesado de adaptação do primeiro livro entre o roteiro e a página final. Inicialmente isso ocorreu porque o Andrew tinha como inspiração o quadrinho Dr. Martin Luther King, Jr. And The Montgomery Story e a ideia dele era fazer um homenagem a esse estilo narrativo típico da Era de Prata; eu tinha uma visão distinta da narrativa, muito mais ligada às realidades pessoais e emocionais do jovem John Lewis. Precisamos trabalhar ao longo de todo o primeiro livro para encontrarmos um meio termo onde essas duas abordagens fossem contempladas.

Também é importante mencionar que no início eu estava reescrevendo algumas das falas em primeira pessoa, em off, do John Lewis para que funcionassem melhor como prosa, mas o Andrew fez muito bem de me lembrar que o John Lewis sempre foi um grande orador e contador de histórias. Algumas dessas histórias vêm sendo repetidas palavra por palavra há décadas e há quase uma inviolabilidade para esses relatos. Por isso foi necessário que eu recuasse e reconsiderasse completamente a minha abordagem, mantivesse as falas do John Lewis praticamente na íntegra e fizesse com que o visual do livro passasse a servir às falas. De muitas formas, o Livro Um captura todo esse processo em que aprendemos a trabalhar juntos. O Livro Dois é muito diferente do primeiro por já termos começado a escrever e desenhar já levando em conta as forças e interesses específicos de cada um.

Eu aprendi muito com os livros, mas acima de tudo eles são um grande drama inspiracional, não uma aula de história. Vocês estavam preocupados em relação a qual seria a abordagem da história quando começaram a trabalhar nela?

Definitivamente – nós estávamos muito alertas que o livro poderia cair facilmente em um relato frio não-ficcional. A cada passagem de capítulo nós tentávamos focar nas realidades emocionais subjetivas dos personagens envolvidos e em como dar destaque à pureza de suas juventudes e humanidades. Os meus projetos pessoais, Swallow Me Whole e Any Empire, também já focavam nessa perspectivas, então eu só precisei confiar que havia sido escolhido para exatamente para amplificar esse aspecto dos ativistas ao longo de A Marcha.

Eu fico curioso sobre as expectativas de vocês em relação à recepção do livro. Vocês tinham algum leitor específico em mente quando começaram a criar a série?

Não, eu não tinha nenhum leitor específico em mente no início – e esse aspecto é revelador em relação a uma mudança criativa importante ao longo dos livros e também na minha jornada como criador.

Antes do Livro Um eu acreditava fortemente que eu jamais deveria antecipar ou me preocupar com os leitores potenciais de qualquer um dos meus trabalhos, mas por esse aspecto eu não colocava muita coisa em risco. Assim que o primeiro livro foi lançado, comecei a interagir com pais e seus filhos, com professores e seus alunos, com bibliotecários e donos de livrarias sobre o conteúdo da obra. Só então eu compreendi que, tendo sido criado e educado no Sul por pessoas que viveram essa história, as minhas experiência pessoais faziam com que eu já tivesse uma proximidade natural do movimento pelos direitos civis – e essa familiaridade jamais deve ser tida como universal. Há uma clara diversidade de gerações e uma vastidão de leitores para A Marcha e passou a ser minha missão considerar todos eles – particularmente, levar em conta leitores nascidos em gerações mais recentes e de fora do Sul, como as minhas próprias filhas.

Fiquei pensando no desafio que foi para vocês retratar todas as emoções implícitas nas marchas. Não se trata apenas de um grupo de pessoas se movendo em conjunto em uma única direção, foram atos muito desafiadores e corajosos para a época e imagino a responsabilidade de expressar toda a carga simbólica e emocional dessas marchas. Como foi essa experiência para você?

Essa é uma boa questão. É fácil olhar para uma filmagem de um protesto organizado e não violento e vê-lo como algo passivo e até mesmo casual – então era nossa responsabilidade explicitar as dificuldades, o terror, as ansiedades e as dúvidas sobre a filosofia e a disciplina da não-violência. Há com certeza uma ilusão de tranquilidade nessa postura aparentemente calma. Na realidade, essa postura é qualquer coisa, menos calma – na realidade é um grupo disciplinado de lutadores pela liberdade em meio a uma guerra muito real – que segue nos dias de hoje.

Assim como os Estados Unidos estão vivendo uma realidade de extremismos aflorados, preconceitos crescentes e falta de diálogo, nós estamos vivendo um cenário muito parecido no Brasil. Como você acha que as experiências e lições do John Lewis nos livros podem nos ajudar e nos servir de inspiração? Tanto para o nosso presente quanto para gerações futuras?

É crucial para todos nós entender a vigilância constante intrínseca a movimentos populares. Não estamos falando de problemas estabelecidos – como o John Lewis diz, “Nossa luta não é de dias, semanas, meses, nem mesmo anos. Nossa luta é de uma vida inteira.” Muitas pessoas pagaram um preço para que seus esforços beneficiassem milhões de americanos que eles jamais conheceram. Esse tipo de empenho e sacrifício requer fé na humanidade e reconhecer a urgência de jamais sermos displicentes em relação às lutas por liberdade, igualdade e justiça.

Você se lembra de quando ouviu falar pela primeira vez no John Lewis e nas marchas das quais ele participou?

A minha educação pessoal ocorreu ao longo da minha vida jovem e a partir de diferentes fontes. Como um garoto sulista nos anos 80, aprendi parte dessa história a partir dos conhecimentos e das experiências dos meus pais no Mississippi nos anos 50 e 60 e de viver em Montgomery, no Alabama, na mesma cidade em que aconteceu muito dessa história. É importante dizer que eu nunca aprendi nada sobre a história dos direitos civis na escola. Nos anos 90 eu me envolvi profundamente com música punk underground e com todas as suas causas políticas. O meu foco em anti-racismo e direitos de trabalhadores por meio do punk me permitiu aprender muito mais sobre pessoas a partir dos movimentos de direitos civis. Ainda assim, eu tinha muitos desses conhecimentos como aprendidos e desenhar A Marcha aos trinta e poucos foi um imenso reaprendizado.

Eu vejo muitas semelhanças entre os Estados Unidos do livro e o mundo em que estamos vivendo hoje. O que você espera que as pessoas tirem de lição desses três volumes de A Marcha que possa ser aplicado no nosso presente?

Nós precisávamos explicitar: “Olha. Aqui está o que um grupo de jovens empenhados e comprometidos conseguiu realizar – exatamente por eles terem 20 anos. O que você fez quando tinha 20 anos? Mais importante ainda, o que você fará quando tiver 20 anos?” A boa notícia é que todo mundo pode tomar essa decisão por conta própria. Nós precisamos levar os jovens a sério. Nós podemos mudar as tramas das nossas sociedades para melhor. Nós devemos. Não há outra opção.

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