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Entrevistas / HQ

Papo com Marco Oliveira, o autor de Finório: “Me agrada acreditar que a versatilidade é algo tangível”

Finório é o primeiro trabalho do quadrinista Marco Oliveira atuando tanto como roteirista quanto ilustrador em um projeto longo. Ele começou sua carreira produzindo HQs nas tiras da série Overdose Homeopática, depois foi o desenhista do excelente Aos Cuidados de Rafaela em parceria com Marcelo Saravá e, mas recentemente, brincou com várias das possibilidades da linguagem dos quadrinhos no ótimo Mute. O novo trabalho de Oliveira estará a venda a partir de 5a, na mesa C31 do beco dos artistas da Comic Con Experience.

Já tive a oportunidade de ler o quadrinho em formato de pdf e gostei bastante – inclusive assino o texto da contracapa da HQ. O álbum é protagonizado por Francisco, um jovem alvo de atos de violência e injustiça ao longo de toda sua juventude, o que faz com que ele desenvolva uma mente ardilosa e uma postura bastante vingativa quando adulto. Apesar do belíssimo preto e branco e da narrativa objetiva e eficaz, chamo atenção principalmente para o excelente trabalho do quadrinista na construção de seus personagens. Tudo isso faz de Finório um grande quadrinho.

Bati um papo por email com o Marco Oliveira. Ele me falou sobre suas aspirações com a HQ, tratou das origens do projeto e comentou sua primeira experiência como roteirista e ilustrador em um quadrinho longo. Abri a conversa falando das páginas iniciais do livro, uma cena tensa com duas crianças sendo agredidas e amedrontadas por um indivíduo desequilibrado, experiência que o autor diz ter vivido durante a infância. Conversa muito boa – assim como a que tivemos na época do lançamento de Mute. Ó:

“Queria um personagem que se preocupasse com os seus, do tipo que até se compadece com o sofrimento alheio, mas que nunca toma as rédeas de situações que não lhe dizem respeito (quiçá as que lhe dizem)”

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Eu queria que você falasse um pouco sobre a origem de Finório. Você me contou que as páginas iniciais do livro foram inspiradas em uma história que você viveu na infância. O que foi que aconteceu?

Acho que o ano era o de 1992. Meu primo Zé e eu (ele com 11 e eu com 9 anos) estávamos vadiando em cima de um viaduto olhando os carros que passavam lá embaixo na rodovia. Começamos a disputar quem conseguia acertar a carroceria dos caminhões com cuspe, aquela coisa de calcular o tempo da queda e tal. Aí acho que acabou o cuspe e começamos a jogar pedrinhas nas carrocerias. Vendo que estava fácil, resolvi arriscar a carroceria de uma Pampa (nem se vê mais Pampas nas ruas). Joguei a pedra e acertei, só que no para-brisa. Por um milésimo de segundo cheguei a ver o vidro se espatifando, mas a palavra “consequência” ainda não constava do meu dicionário e continuamos com as pedras. Só me lembro de ouvir meu primo berrando e ver um cara arrastando ele pelos cabelos e o enchendo de porrada. Fiquei paralisado. Nem imaginei do que se tratava. Só segui eles quando o sujeito disse que, ou eu ia ou ele matava meu primo. Aí dei conta de que estavam indo para a Pampa lá embaixo, com o vidro todo fudido. Enfim, meu primo apanhou feito condenado e eu levei um chute no melhor estilo Anderson Silva. Fomos pra delegacia e nossas mães chamadas. Tiveram que pagar o vidro do cara. Relatamos a violência aos policiais e delegado, mas fingiram que nem ouviram. Nunca mais vimos o cara, era de outra cidade. Criança apanhar como adulto, sofrer ameaças de morte é um evento bem traumático.

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Daí volto à questão da origem da história: ela surge desse ocorrido na sua infância ou você imaginou o conceito do do álbum e do protagonista e inseriu esse evento inspirado na sua vivência pessoal?

O evento que contei acima foi incluído bem depois na história. Apenas encaixei ele no roteiro. A origem da história surgiu em criar um personagem tímido que sentisse prazer em punir, sempre de forma anônima, todos aqueles que ele julgasse como más pessoas. No começo pensei nele morando em um prédio num bairro movimentado e com um rifle de longo alcance praticando seu esporte preferido: tiro não letal em filho da puta. No máximo aleijar. Então veio a coisa de trabalhar nos porquês desse tipo de comportamento e o melhor caminho para se analisar transtornos de comportamento de um adulto é buscar o histórico do cara. Daí a necessidade da fase criança/adolescente dele, a ideia da velha carabina de pressão que ganhou do avô e o surgimento do prazer em se vingar de seus desafetos de forma furtiva. A ideia era evidenciar sua natureza tímida somada ao lado vingativo e calculista.

Eu realmente acho que o maior mérito do livro está na forma como você constrói o Francisco. Como foi pra você pensar em quem se tornaria aquela criança do começo do quadrinho e quem era o cara que conhecemos já adulto?

Quando escrevi a primeira versão da história, enviei para três amigos: Gus Morais, Marcelo Saravá e André Rocha, para que cada um colocasse seus pontos de vista sobre a história e foram três opiniões bem distintas e agreguei tudo à trama, pois além de eles terem gostado de cara da história, deram ideias muito valiosas. Da primeira linha até enviar a história para os três e remanejar a história, foi coisa de duas semanas. Mandei para o Proac e foi selecionado, só então comecei a me aprofundar na composição da personalidade do Frank. Gastei bons dez meses no roteiro, montando um quebra-cabeça. Quase que diariamente debatendo com minha esposa sobre novos caminhos, novas soluções, muda aqui, muda ali. Fiquei tão preso na construção do personagem e roteiro que, pra fazer thumbnail, rascunhar e desenhar todo o livro tive coisa de pouco mais de dois meses. Pra quem desenha sabe que é impensável fechar um livro de 240 páginas num prazo tão curto, mas rolou. Mas foi surreal.

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Agora eu não sei mais se conhecia ou não o verdadeiro significado de “finório” antes de ler o livro, mas ela é perfeita pro personagem principal da HQ. Tem até algo meio de Macunaíma no termo, não acha? O espertalhão sem personalidade que se dá bem e vai levando a vida como dá, sem muitas aspirações…enfim, em que momento você chegou nesse título? Ele existia desde o começo da história?

Agora que você falou, também não sei se já conhecia os significados de finório, mas a ideia de usar no título surgiu de uma forma bem inusitada: no filme Árido Movie, tem a famigerada cena em que o personagem interpretado pelo Selton Mello ensina como se aperta um baseado (tem a cena no youtube) e em um momento ele diz algo como “… e nada de finório, que finório é coisa desses frangos lá do Sul” usando como gíria para se referir à espessura do baseado. Por acaso resolvi pesquisar o termo e descobri um outro significado que se adequava perfeitamente com o personagem e isso aconteceu exatamente na época em que eu escrevia as primeiras linhas. Então usei o significado empregado no filme para jogar a ideia do significado original do termo. Um acidente que deu certo.

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Também acho bastante interessante os coadjuvantes que você criou. Por mais que o Francisco esteja cercado por figuras bem questionáveis, em nenhum momento as ações delas definiram a minha leitura de quem é esse personagem principal. Foi um desafio pra você administrar quem era o seu protagonista? Você tinha em mente que estava criando um personagem principal explicitamente ambíguo e possivelmente repulsivo para alguns de seus leitores?

Essa foi a parte mais difícil, pois não queria criar um justiceiro ou vigilante. Queria um personagem que se preocupasse com os seus, do tipo que até se compadece com o sofrimento alheio, mas que nunca toma as rédeas de situações que não lhe dizem respeito (quiçá as que lhe dizem). Assim como age a maioria das pessoas da sociedade. Eu tinha mais medo de que ele fosse visto como um herói do que como um sujeito repulsivo, então tive que tomar bastante cuidado pra deixá-lo com características bem humanas, como o egoísmo, o medo e o rancor.

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Daí fiquei pensando nessas várias nuances/ambiguidades do Francisco e vi diálogo dele com outros personagens recentes de quadrinhos nacionais que me chamaram atenção por me causar tanto atração quanto repulsa, a Rosângela do Talco de Vidro do Marcello Quintanilha e o Gonçalo do Juscelino Neco em Matadouro de Unicórnios. Você leu esses trabalhos? Aliás, o que você estava lendo/ouvindo/assistindo enquanto produziu o Finório? Teve alguma obra que influenciou de forma mais contundente na produção da HQ?

Talco de Vidro eu li, Matadouro de Unicórnios ainda vou ler. Pessoalmente prefiro esses personagens que são verossímeis com o mundo real. Se olharmos à nossa volta veremos que chovem pessoas com comportamento ambíguo, que amamos e odiamos. O mundão é um mar de dissimulados. Isso só é mais perceptível nas histórias porque essas características são expostas propositalmente de forma mais exacerbada para que o personagem não fique sem sal e não cause empatia no leitor. Sobre as influências, vi tanto filme nesse período que não saberia dizer algum que se pareça com o Finório. Talvez seja coisa do meu ego em querer ser original. Quem sabe? Mas sobre personagens, gosto muito da composição dos protagonistas de filmes como Drive, O Abutre, Buffalo ’66, mas não vejo ligação clara entre eles e o Frank, mas é provável que possam ter me inspirado de alguma forma. Um outro fato curioso foi que, com o roteiro já fechado e muitas páginas prontas, comecei a assistir Mr Robot e o primeiro episódio da primeira temporada me fez ver bastante semelhança entre o Frank e o Elliot (que é um personagem muito foda), principalmente na questão de ferrar pessoas e não aparecer para receber ou louros da vitória. Se eu tivesse assistido à série no início da minha produção, eu diria que houve ali uma inspiração, mas não foi assim que rolou. Também há uma referência ao David Bowie (e outros artistas), que foi incluída na trama lá no começo, aí meio ano depois ele morre e… pôxa, que tristeza! Que fique também como homenagem.

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Queria que você falasse um pouco também sobre essa sua primeira experiência como roteirista e ilustrador. Claro, no Overdose Homeopática você sempre fez esse combo, mas é a primeira vez que você trabalha dessa forma em um projeto logo, certo? Como você desenvolveu esse projeto? O roteiro já estava fechado como você começou a desenhar?

A primeira parte eu escrevi e já desenhei quase inteira, então voltei a me dedicar ao roteiro do resto da história, que é a mais extensa e complexa. Cara, gostei muito de escrever uma história longa, mais do que desenhar. Não que seja uma tarefa fácil, mas escrever foi muito mais leve e suave que desenhar uma história longa. Desenhar exige muito mais esforço. Falo por mim.

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Também queria saber um pouco como você definiu a formatação desse quadrinho. Os seus trabalhos na Overdose Homeopática são muito distintos do Aos Cuidados de Rafaela e a proposta dos dois é extremamente diferente do Mute. Acho o Finório excelente também pela funcionalidade e eficácia da narrativa simples que você construiu. São blocos rígidos de quadros, sem muito espaço pra experimentação. Enfim, como você chegou nesse formato?

Além do fato de eu não ter tempo para aplicar experimentações gráficas, achei que a história pedia um ritmo ágil e direto, então não ousei no grafismo como fiz no Mute. Vontade não faltou, mas ficou da maneira como eu queria. Bem como você disse, são quatro livros distintos, podendo, cada um, ser visto como de um autor diferente. Gosto dessa coisa de arriscar em diferentes estilos, de não ficar preso eternamente a uma fórmula. Me agrada acreditar que a versatilidade é algo tangível.

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Acho que talvez esteja cedo pra você pra falarmos sobre uma próxima obra, mas queria saber quais são seus próximos planos. No Overdose você investe no formato de tiras, no Aos Cuidados de Rafaela você construiu um enredo longo junto com o Marcelo Saravá, no Mute você brincou com conceitos relacionados à linguagem e agora você fez sua primeira obra longa escrevendo e ilustrando. Você já tem algo em mente pra um futuro próximo? 

Realmente está bem cedo e estou um pouco cansado. É meu quarto livro em quatro anos seguidos. Essa coisa de produzir e ir em muitos eventos acaba cansando um pouco. É muito bom, mas cansa. Mas como não há maneira de bloquear as ideias que surgem sem serem solicitadas, já tenho dois argumentos de histórias longas na manga, inclusive já ofereci pra um amigo desenhar uma delas, essa é uma das possibilidade. Mas mesmo que começar a já escrever um nova história, quero voltar a publicar tiras na web, seja as do Overdose Homeopática ou Mute, quero voltar. Vai saber se não rola aí um segundo volume do Overdose Homeopática. Seria legal.

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