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Papo com Lucy Knisley: “Diários de viagem permitem que eu vivencie e processe uma experiência simultaneamente”

Escrevi pra edição de fevereiro da Rolling Stone sobre o lançamento de Deslocamento – Um Diário de Viagem da Lucy Knisley no Brasil. Já havia conversado com a quadrinista em 2013, logo após a chegada de Relish nas livrarias dos Estados Unidos e voltei a bater um papo com ela pra falar dessa estreia no mercado editorial nacional. O álbum é ambientado em 2012, quando Knisley tinha 27 anos e passou 10 dias em um cruzeiro na companhia de seus avós paternos nonagenários. “Foi a minha forma de lidar com as minhas preocupações com a saúde deles, foram horas acordada em um quarto sem janela desenhando o livro”, me contou a artista.

Relish continua sendo meu quadrinho preferido da Lucy Knisley e não gosto que Deslocamento tenha sido publicado antes de An Age of License, sobre um período da vida da autora que acontece antes do livro lançado pela Nemo. Ainda assim, fico feliz de ver a autora finalmente saindo por aqui. Recomendo um pulo na banca pra ler a íntegra da minha matéria e saber um pouco mais sobre as origens da HQ. Reproduzo a seguir o nosso papo completo. Conversamos sobre a produção do quadrinho, a relação dela com os editores da Fantagraphics e a vida pós-nascimento de seu primeiro filho. Ó:

“Quando você vê seus avós envelhecendo, você se sente triste e fica com medo de perdê-los, quando você tem um filho, você se sente triste e fica com medo de que eles vão te perder. É um contraste interessante”

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Deslocamento foi lançado nos Estados Unidos no início de 2015 e está chegando no Brasil quase dois anos depois. Nesse período você refletiu sobre o resultado final desse trabalho?

Eu fiz o Deslocamento em 2012, então já se passaram quatro anos desde os eventos narrados no livro. Ainda tenho muitos sentimentos confusos em relação ao quadrinho, principalmente após os meus avós morrerem no último outono. Ainda assim, eu fico muito feliz por ter feito um registro dessa viagem que fizemos, por ter uma memória registrada desse período que passamos juntos no fim da vida deles.

A maior parte dos seus trabalhos são autobiográficos. Você é muito crítica em relação à forma como se retrata em seus quadrinhos?

Diários de viagem permitem que eu vivencie e processe uma experiência simultâneamente – e essa é uma sensação única. Ela me força a encontrar conexões com eventos e com os meus próprios pensamentos, mas também me obriga a ser muito honesta em relação a o que passa na minha cabeça e estou sentindo. Eu sempre acho bastante surpreendente quando vejo a pessoa que já fui quando escrevi algum dos meus diários.

Há uma cena no livro em que você lê um trecho de uma obra do David Levithan. Você cita um trecho em que ele fala como uma memória sobre uma determinada pessoa pode ser o maior legado deixado por esse indivíduo. Os seus livros costumam ser principalmente sobre as suas experiências, como é pra você contar histórias de vida de outras pessoas, como você faz com os seus avós?

Não sou capaz de contar a história de alguém sem roubá-la dessa pessoa, então tento contar principalmente histórias sobre mim e pego leve quando estou interpretando as ações das pessoas ao meu redor. Esse livro é um registro das memórias que tenho dos meus avós, não das histórias deles – e esse foi um dos motivos de eu ter incluído trechos da biografia do meu avô, para destacar essa divisão essencial entre o narrador e os personagens.

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Em Relish você escreveu principalmente sobre a sua infância e os seus pais. Em Deslocamento você vai um pouco além e mostra seus avós, tios e outros membros de sua família. Como eles se sentiram se vendo representandos como personagens de histórias em quadrinhos?

Não tenho certeza se a minha tia e o meu tio ficaram muito felizes, mas os eventos foram retratados de forma fiel, acho que retratei como foram todos simpáticos e compreensivos. A minha família sabe qual é a minha profissão e apoia a minha carreira.

Como foi a produção de Deslocamento? Vi um vídeo em seu site em que você fala um pouco sobre seus métodos de produção, mas há alguma particularidade no caso de Deslocamento?

Deslocamento foi produzido muito rápido, enquanto eu estava vivendo esses eventos. Eu usei meus desenhos e meu texto como uma forma de lidar com a tensão e a depressão de estar nesse cruzeiro preocupada com a saúde dos meus avós. Eu passava horas acordadas em um quarto sem janela desenhando as páginas do livro – e nem sempre é assim que trabalho. Para outros livros de viagem eu primeiro faço alguns rascunhos e depois finalizo em casa.

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E como funciona o trabalho de edição em um diário de viagem?

A edição de diários de viagem costuma envolver apenas correções de digitação e trocas de ideias em relação a partes da história que podem crescer.

Esse não é o seu primeiro livro publicado pela Fantagraphics, provavelmente a editora mais importante e influente de quadrinhos autorais nos Estados Unidos. Como é trabalhar com eles?

O meu primeiro livro com a Fantagraphics foi An Age of License. Considero um livro relacionado diretamente com o Deslocamento, por também ser um diário de viagem e relatar alguns eventos ocorrido meses antes dos eventos de Deslocamento. An Age of License é sobre liberdade, romance e independência, enquanto Deslocamento trata de responsabilidade, família e mortalidade. São assuntos dicotômicos, tanto predominantes quanto difíceis de serem tratados quando você é jovem. Sobre a Fantagraphics, foi incrível trabalhar com eles e fiquei muito feliz de ser publicada em meio a tantos artistas que amo e admiro.

Em Deslocamento você fala bastante sobre estar vivendo uma situação inédita na sua vida. Imagino que o mesmo tenha acontecido recentemente, quando o seu filho nasceu. Você vê alguma relação entre essas duas experiências?

Ter um filho, assim como estar com uma pessoa envelhecida que amamos, ressalta o impacto da idade e conexões entre gerações. Quando você vê seus avós envelhecendo, você se sente triste e fica com medo de perdê-los, quando você tem um filho, você se sente triste e fica com medo de que eles vão te perder. É uma mudança interessante.

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Li no seu blog que você está trabalhando em mais de um projeto no momento. Em que estágio está cada um deles?

Passei da metade de um livro que estou fazendo sobre gravidez e parto, chamado Kid Gloves, e também estou em várias etapas distintas de alguns outros projetos. No entanto o Kid Gloves é o meu foco no momento. Gosto de produzir trabalhos que sejam imediatos e recentes, então como o meu filho nasceu no verão passado, estou tentando finalizar esse livro o mais rápido possível.

Você tem lido/assistido/ouvido alguma coisa diferente recentemente? Há alguma obra em particular que você gostaria de recomendar?

Quando não estou trabalhando estou focada em ser uma mãe. Exige muito tempo e energia, mas também me faz muito mais focada no meu trabalho quando tenho tempo para destinar a ele. Então não assisti muitos filmes ou séries desde o início de 2016, mas acabo encontrando algum tempo para ler. Eu realmente gostei muito do Rolling Blackouts da Sarah Glidden. É um ótimo exemplar de jornalismo em quadrinhos tratando dos conflitos no Oriente Médio.

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