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Entrevistas / HQ

Papo com Jeff Smith, o autor de Bone: “A filosofia de Peanuts, os estilos de Carl Barks e de Walt Kelly, a humanidade de Krazy Kat são o que me trouxe aos quadrinhos”

Entrevistei o quadrinista Jeff Smith, autor do clássico Bone, sobre o lançamento do primeiro volume da versão em cores da série no Brasil. A obra rendeu dez prêmios Eisner e 11 Harvey ao autor e fez dele um dos grandes nomes dos quadrinhos mundiais. A promessa da editora Todavia é que as duas coletâneas que fecham a coleção sejam lançadas no país até o final de 2019. Transformei a minha conversa com o artista em matéria para o jornal Folha de São Paulo e você confere o meu texto clicando aqui – recomendo a leitura da matéria para que você compreenda um pouco mais da jornada de Smith e Bone até o lançamento dessa edição brasileira.

Reproduzo a seguir a íntegra da minha entrevista com Jeff Smith. Na nossa conversa ele falou sobre as origens dos primos Bone ainda na sua infância, comentou as principais influências de sua formação como artista, abordou os desafios de manter uma série independente de 55 edições ao longo de 13 anos e adiantou um pouco sobre seu próximo projeto. A entrevista foi traduzida pelo jornalista, crítico, pesquisador e tradutor Érico Assis (valeu pela ajuda, Érico!). Papo massa, saca só:

“Era fim dos anos 1970. Tolkien, Moebius e, óbvio, Star Wars. Foi chute e gol. Logo eu me dei conta que preferia cultura pop a artes plásticas”

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de quadrinhos na sua vida? Eu li que os seus pais eram leitores de quadrinhos, correto?

Meu pai gostava da Mad e lia ela pra mim quando eu era pequeno. Eu amava os desenhos, principalmente Spy v. Spy e os cartuns do Don Martin. Lembro de aprender a ler sozinho com um livrinho de tiras dos Peanuts. Ainda tenho esse livrinho!

Também li que você começou a criar os personagens e o universo de Bone quando era muito jovem. Qual foi o momento em que você decidiu transformar todos esses conceitos em uma série? Você lembra do instante em que decidiu explorar o mundo de Bone?

Lembro, sim. Depois do ensino médio, quando entrei na universidade, os Bones foram parar na mesma caixa das coisas de criança. Estudei artes plásticas, mas na época tinha uma onda de fantasia na cultura pop. Era fim dos anos 1970. Tolkien, Moebius e, óbvio, Star Wars. Foi chute e gol. Logo eu me dei conta que preferia cultura pop a artes plásticas. Em 1979, desenterrei os três primos Bone e comecei a trabalhar com essa ideia de como eles podiam se encaixar em um mundo vasto e de fantasia.

“Eu sabia que personagem de cartum tinha quatro dedos, nariz gigante e pé gigante, então desenhei assim”

Por que Bones? Em termos de fantasia estamos muito mais acostumados com criaturas como elfos, trolls e hobbits, conceitos de certa forma muito mais identificáveis e acessíveis para os leitores, você não acha?

Era o que eu tinha na mão. Eles eram meus! Como você mesmo lembrou, eu inventei os três quando tinha uns cinco anos. Eu sabia que personagem de cartum tinha quatro dedos, nariz gigante e pé gigante, então desenhei assim. E eles parecem ossinhos [bones]! O importante era eles terem personalidade. Já estavam lá, nos gibis toscos que eu fiz quando era criança, o carinha normal, o avarento e o pateta.

No final das contas, Bone é uma história com início, meio e fim em mais de 1400 páginas de quadrinhos, desenvolvidas por você ao longo de mais de 13 anos. O quanto da história você já tinha definida quando começou a publicar a série? O quanto você já sabia dos rumos e do fim da história quando ela teve início?

Minha primeira rodada com o Bone impresso foi uma tira diária no jornal da faculdade. Acho que eu recebia sete dólares por tira. Foi o que eu fiz, cinco dias por semana, durante quatro anos. Como eu tive esse tempo todo, consegui errar bastante e aprender o ofício, mas também brotaram umas coisas que eu ia usar depois. Fone Bone gamado na menina da fazenda, a Espinho. A misteriosa relação entre Vovó Ben e o Dragão Vermelho. A jornada de Fone Bone e Smiley Bone às montanhas para devolver o filhote perdido. O primeiro encontro com Queixo Duro, o leão gigante, e aquela figura meio Morte que mandava nas Ratazanas; tudo virou baliza no épico que depois eu tracei pra revista. O que aconteceu com a tira foi que, como toda tira, ela não tinha fim. Era uma série infinita de piadinhas e aventuras. Eu queria uma trama de verdade, e tramas têm fim. Quando eu inventei o final, consegui usar esses pontos de parada pra criar uma trama, no que eu esperava que virasse uma série em quadrinhos épica.

“Quando eu inventei o final, consegui usar esses pontos de parada pra criar uma trama, no que eu esperava que virasse uma série em quadrinhos épica.”

Ainda sobre Bone ser essa imensa saga de 1400 páginas: você tinha consciência da etapa da história em que você se encontrava enquanto desenvolvia o quadrinho?

Tinha, sim. Tinha que ter. Estava sempre ciente da narrativa, mas às vezes me perdia na selva. Eu tinha o hábito muito ruim de fugir no roteiro quando surgia uma coisa engraçada. Humor é um ímã, no meu caso. Talvez me dê mais trabalho pra voltar à trama, mas vale a pena expandir. Eu tinha uns arquivos e anotações para não sair muito da linha, em todo caso.

Você pensa sobre as experiências distintas entre ler Bone como foi lançado originalmente e nessas coletâneas imensas? O que você acha que alguém que nunca leu Bone pode ganhar tendo acesso à sua história pela primeira vez nessas edições gigantescas?

Se estes volumes mais recentes, e lindos, são seu primeiro contato com Bone, você vai sentir toda a textura e ritmo da trama, a jornada, como um romance ou um filme. Os leitores originais de Bone tiveram a experiência seriada, de uma série em quadrinhos que saía mais ou menos de dois em dois meses. Durante treze anos, cada edição tinha que se sustentar por si só e fazer o leitor voltar pedindo mais. Tenha em mente que, naquela época, a ideia de histórias mais compridas, ou graphic novels, ainda estava no início. Não sei se alguém notou que as aventuras dos Bone estavam se armando para uma conclusão até chegarmos bem pertinho do final! Claro que eu sabia, e por isso que, mais ou menos uma vez por ano, Vijaya e eu republicávamos os gibis em livro, para os novos leitores ficarem em dia. Eram os nove volumes que você precisava ler. Em preto e branco.

Edições em preto e branco são muito mais baratas do que coloridas, ainda mais no caso se publicações independentes, como era o seu caso quando começou com Bone. Quais são os benefícios para a história do preto e branco original do seu trabalho?

Eu gosto de gibi em preto e branco. Os gibis originais de Bone, a série, eram em preto e branco. Isso em parte porque eu não tinha dinheiro pra pagar por cores, mas também porque as tiras que eu adorava, como Peanuts e Dick Tracy, eram em preto e branco. Mas não há como discutir que as versões coloridas fazem mais sucesso.

Você poderia falar um pouco sobre a sua decisão de colorir Bone? Você sempre teve em mente a possibilidade de lançar uma versão colorida?

A decisão de colorir foi, em parte, pragmática e, em parte, inspiração. Pragmática porque a maior editora de livros infantis do mundo, a Scholastic, nos procurou e queria lançar um selo de graphic novels com Bone. Uma das maneiras de renovar a história era colorir. No início eu hesitei, mas fui buscar conselhos com um dos meus ídolos, Art Spiegelman, criador da biografia gráfica Maus. Foi o Art quem me incentivou a colorir. Quando eu perguntei por quê – já que Maus, uma das inspirações para eu investir nos quadrinhos como minha arte, é em preto e branco – ele respondeu o seguinte: ‘Maus trata da guerra e devia ser em preto & branco, mas Bone trata da vida e só vai estar acabada quando estiver colorida.’

“Não sei se alguém notou que as aventuras dos Bone estavam se armando para uma conclusão até chegarmos bem pertinho do final”

Eu li uma resenha famosa de Bone, publicada pela revista Time, que diz que a série é ‘a melhor graphic novel para todas as idades já publicada’. Você tinha um público específico em mente quando começou a produzir Bone? Quais foram as suas impressões quando Bone começou a ser lida tanto por adultos quanto por crianças?

Fiquei surpreso. Quando eu lancei Bone, havia pouquíssimas crianças comprando ou lendo revistas em quadrinhos nos EUA. Isso mudou aos poucos. As graphic novels e o mangá ajudaram. Talvez eu nem devesse me surpreender, já que me esforcei para criar o gibi que eu queria ler quando criança! Hoje em dia, quando eu faço sessões de autógrafos, a fila tem adultos e crianças misturados.

Eu li várias entrevistas nas quais você fala sobre a influência de tiras de jornais na sua formação. Você poderia falar um pouco como essa influência se fez presente em Bone?

No timing do humor, quem sabe? A filosofia de Peanuts, os estilos de Carl Barks e de Walt Kelly, a humanidade de Krazy Kat são o que me trouxe aos quadrinhos. Ao mesmo tempo, são o que me prendem na prancheta.

“Quando alguém pergunta no que você trabalha, você diz ‘Eu desenho quadrinhos’ e respondem: ‘Massa! Que interessante!’ Isso não acontecia, sabe?”

Bone foi publicado pela primeira vez nos anos 90 e quase 30 anos depois nós ainda estamos aqui falando sobre essa série. O quanto você acha que o mundo dos quadrinhos mudou desde o começo da sua carreira?

Ih, cara. Tanta coisa. Tem resenhas de quadrinhos em jornais e revistas. Os gibis voltaram às mãos de milhões de crianças, você compra gibis onde tiver livros, música ou filmes. Hoje todos os filmes são de super-heróis. Quando alguém pergunta no que você trabalha, você diz ‘Eu desenho quadrinhos’ e respondem: ‘Massa! Que interessante!’ Isso não acontecia, sabe?

O que são quadrinhos para você, hoje?

Não sei uma definição específica, mas sei quando funciona. Quando uma série de imagens com palavras e figuras começa a se mexer, a transmitir tempo e espaço, aquilo ganha vida. Quando isso acontece, o leitor embarca na viagem.

Qual é o seu próximo trabalho? Você está desenvolvendo algum projeto novo no momento?

Estou trabalhando em um projeto chamado Tuki and the Dinga. É a reformulação de um projeto que eu larguei há uns anos e agora quero retomar. Ele se passa na aurora da nossa espécie, há dois milhões de anos.

A última! Você poderia recomendar algo que tenha lido, visto ou ouvido recentemente?

Recomendo tudo que foi escrito ou desenhado pelos fabulosos irmãos Bá e Moon. Atualmente estou lendo Macanudo, do argentino Liniers, e tenho uma compilação de discos ao vivo do Tom Petty em looping perpétuo. Agora eu vou fazer um sanduíche. Obrigado mais uma vez pela atenção! Tudo de bom!

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