Vitralizado

Entrevistas / HQ

Papo com Heitor Yida

Assim como aconteceu com o Ricardo Coimbra, conheci o trabalho do Heitor Yida durante a produção da minha matéria sobre quadrinistas independentes para o Estadão – e também como o Ricardo, a indicação do nome dele veio do Rafael. Ele é o mais novo dos artistas que entrevistei e fiquei impressionado pela quantidade de detalhes e a narrativa imensa que ele conseguiu criar nas dimensões claustrofóbicas que pedi para a ilustração da matéria. À procura por mais trabalhos dele, acabei esbarrando com uma mescla imensa de estilos e referências. De cabeça e sem pensar muito, lembrei de traços e histórias de Chris Ware, Adrian Tomine, Goseki Kojima e Charles Burns. Pra ver que eu não tô exagerando, dá uma olhada lá no flickr dele.

A hq que você produziu pra matéria é bastante melancólica. Além do tema, você incluiu muitos detalhes. São vários quadros, closes e cenários. Quando conversamos pela primeira vez você citou o Chris Ware como uma de suas influências. A presença dele está tanto nas temáticas quanto na técnica, certo?  

Sim, o Chris Ware é genial, ainda não vi seu ultimo trabalho “Building Stories”, mas lembro-me de uma das histórias de uma página dele. Sobre uma garota que tinha uma das pernas amputada marcando um encontro amoroso que acabaria em frustração. A página mostra todos os quadros dentro do mesmo cenário, visto de fora, mas com cortes arquitetônicos do interior do prédio e uma lanchonete na esquina, a passagem de tempo, a ordem dos quadros junto com mudanças de clima numa descrição detalhada do dia da personagem, lindamente executado no pincel. Me fez olhar com outros olhos os cartuns e quadrinhos mais antigos, que mesclavam muito mais o design e a ilustração sequencial. Diferente do que é comum hoje em dia, no pós Adobe, cada etapa têm a sua importância e compõe o ofício do quadrinhista, dá pra ver o quanto ele sabe disso e quanto prazer têm em exercê-lo. Voce nunca o verá, por exemplo, usando uma fonte comic sans nos textos, tudo é sempre feito a mão, sem a menor pressa, exatamente como os antigos, Eisner, Kirby, Crumb…

Ao mesmo tempo, quando vejo suas histórias lembro do Adrian Tomine e também do Daniel Clowes. O primeiro pela banalidade e o segundo por alguns elementos mais insólitos. A referência desses autores underground norte-americanos no seu trabalho é bem grande né?

Definitivamente! O Clowes é outro dos mais cabeçudos do underground, talvez ele só perca para o Ware (que é literalmente, rs!), tem o Mazzucchelli. Não só dos States United of America. Tem os italianos Liberatore e o Tamburini que fizeram o Ranxerox, os franceses Underzo e Goscinny criadores de Asterix, JacquesTardi, e um bando de europeus malucos. Me inspiro cada vez que vejo algo dos orientais Taiyo Matsumoto, Cannabis Works, Hayao Miyazaki. E também animações mais antigas como Walter Lantz, e mais atuais como as do estudio 4C, do Cartoon Network, em especial, Flapjack e Regular Show.

Como surgiu o Gibi Gibi? Na segunda edição eu contei 11 artistas além de você. São muitos estilos e histórias diferentes. Qual o critério para os artistas que participam do projeto?

O Gibi Gibi teve sua primeira tiragem em outubro de 2011, de 200 cópias, e nós (eu, Mateus Acioli e Luiz Berger) produzimos basicamente em uma semana para vendermos na RioComicon daquele ano, a idéia era fazer um zine estritamente de quadrinhos que abordassem temas como a violência, a corrupção, o sexo, lisergias e abusos de variados tipos. Deixando totalmente de lado o politicamente correto. Queriamos uma publicação periódica na qual poderíamos desenvolver histórias curtas e longas sem intervenções editoriais ou mercadológicas.Para a segunda edição tivemos mais tempo e sabiamos mais o que queríamos “melhorar” no conteúdo e no projeto gráfico. Convidamos entre autores estrangeiros e nacionais e fizemos questão de chamar pessoas com quem nos identificávamos com o trabalho e que, por sua vez, se identificavam com a proposta do gibi.

Quando conversei com o Ricardo Coimbra ele comentou que é inevitável cairmos nessa questão de mercado de quadrinhos e o que ele acha mais fascinante é a possibilidade de criar um trabalho autoral, honesto e verdadeiro, sabendo que haverá gente lendo e comentando. Um projeto como o Gibi Gibi é extremamente autoral e, ao mesmo tempo, envolve gastos e custos. Como vocês conciliam as duas coisas?

A gente tá começando nessa, então não temos uma metodologia consagrada, apenas anotamos tudo numa planilha compartilhada e tentamos usar a receita das vendas para a produção das próximas edições e produtos como posteres, camisetas, adesivos e afins. Queremos viajar pelo país divulgando, se posso dizer assim, o mal-gosto de qualidade, portanto se você está lendo isso, sinta-se a vontade em nos chamar para lançar o gibi na sua cidade!

Você tem previsão pra um Gibi Gibi #3 ou algum outro projeto que pode adiantar?

Sim, como temos certas “limitações orçamentárias”, tudo no começo é mais devagar, queremos publicar anualmente, temos que cuidar da divulgação e temos que nos focar em nossas histórias, isso leva um tempo, mas vale muito a pena.Tenho essa história inspirada nas impunidades sociais e nepotismos, intitulada Dimas & Deluca, que esta sendo publicada no GBGB, atualmente na sua segunda parte. Para a terceira, quero fazer mais páginas do que o de costume, quero desenvolver mais. Temos um quadrinho chamado Salalé, que estou criando juntamente com o Mateus, mas este projeto infelizmente depende de outros fatores, espero que logo possamos concluí-lo, ja que falta tão pouco. Estou preparando também um quadrinho para a Balão Editorial, na coleção Zug, ainda não tem nome mas já está em andamento, provavelmente sairá no segundo semestre. Tenho aqui uma lista de afazeres ambiciosa, mas é mais produtivo fazer do que falar.

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