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Papo com Chester Brown, o autor de Maria Chorou aos Pés de Jesus: “Muito do que Jesus disse soa contraditório”

Antes de tudo, leia Maria Chorou aos Pés de Jesus – Prostituição e Obediência Religiosa na Bíblia, o mais recente trabalho do quadrinista Chester Brown publicado em português. A obra lançada no Brasil pela editora WMF Martins Fontes defende a ideia de que histórias do Velho e do Novo Testamento e parábolas narradas por Jesus pregam a prostituição como uma profissão nobre e que Deus prefere seguidores que o questionem a fiéis fundamentalista. E sim, a HQ também aponta indícios de que Maria, mãe de Jesus, seria uma prostituta.

Depois de lido o quadrinho, recomendo a leitura da minha matéria sobre a obra no UOL. Eu entrevistei o autor da HQ e expliquei um pouco dos conceitos explorados por Brown e as ideias defendidas por ele. As 292 páginas em preto e branco do título não são irônicas ou satíricas em relação às escrituras bíblicas, mas sempre fiéis ao texto original, sempre em prol da defesa dos argumentos do autor.

Por fim, depois de lida a HQ e o meu texto, volte aqui, invista na entrevista a seguir e tire suas próprias conclusões. Um dos pontos do quadrinista é exatamente que as palavras de todas as pessoas devem ser avaliadas e interpretadas, sejam as dele ou as de Jesus. “Acreditar que tudo que ele disse é útil é o caminho para uma estrada de erros”, diz o artista. Com vocês, Chester Brown:

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Você lembra do momento em que teve a ideia de criar o livro e de explorar esses conceitos que explorou no quadrinho?

Há dois pontos de partida para o livro.

Eu tinha lido The Illegitimacy Of Jesus da Jane Schaberg nos anos 80, logo depois que foi publicado. A Schaberg percebeu essa natureza estranha da genealogia de Jesus contida do Evangelho de Mateus. É estranha por incluir o nome de cinco mulheres e genealogias antigas raramente mencionam mulheres. Havia quatro mulheres nas escrituras hebraicas e a quinta era a mãe de Jesus, Maria. A genealogia também é estranha porque as quatro mulheres nessas escrituras também eram “más”. Eram mulheres que “se comportaram mal”. Duas delas eram prostitutas e duas “agiram como prostitutas”. A Schaberg argumenta que as quatro mulheres estavam nessa genealogia para indicar algo sobre a quinta mulher, Maria. Eu concordo com a Schaberg que algo estava sendo indicado sobre a Maria, mas eu discordo em relação a que seria esse indício. A Schaberg acha que essa genealogia indica que a Maria foi estuprada. Mas nenhuma das outras quatro mulheres foram estupradas. Para mim parecia óbvio que a genealogia está apontando que a Maria era uma prostituta ou, no mínimo, havia feito sexo em troca de um benefício material.

Eu queria fazer um livro sobre esse assunto há muitos anos, mas não sabia como. Não me soava interessante criar uma história fictícia sobre como a vida de Maria teria sido se ela fosse uma típica prostituta judia trabalhando no primeiro século.

Então em 2014 eu estava lendo um livro do John Dominic Crossan sobre as parábolas de Jesus e ele mencionou essa versão alternativa, antiga, não-bíblica, de uma dessas parábolas – a Parábola dos Talentos. Parecia para mim que essa versão alternativa indicava que Jesus via prostituição como socialmente benéfica. Eu quis imediatamente adaptar essa versão da parábola. Então eu percebi como a postura de Jesus em relação a prostituição é coerente com as evidências presentes na genealogia do Mateus de que Maria havia sido uma prostituta e o livro surgiu na minha cabeça em um intervalo de poucos dias: uma sequência de adaptações bíblicas. Eu fiquei muito empolgado e foi difícil me conter.

Eu queria saber sobre a sua formação cristã. Você se lembra do momento em que a Bíblia e a Igreja Católica passaram a fazer parte da sua vida? Como você passou a se interessar por esses tópicos religiosos?

Eu fui criado como Protestante e os meus pais eram fiéis fervorosos. Em meio às minhas memórias mais antigas estão as nossas idas à igreja todo domingo. A minha mãe lia histórias da Bíblia constantemente para mim e para o meu irmão quando éramos crianças. Então o cristianismo e seus textos sempre fizeram parte da minha vida – nunca houve um ponto de partida específico.

Eu me lembro do momento em que comecei a duvidar das histórias bíblicas. Eu tinha cerca de 10 anos, talvez 12 anos, e encontrei uma cópia do livro The Passover Plot do Hugh Schonfield. Esse livro propõe que Jesus arrumou uma forma de ser drogado na cruz para que ele parecesse estar morto e evitasse morrer na crucificação. Aquela história fazia mais sentido para mim do que a história que os meus pais aparentemente acreditavam, que Jesus morreu na cruz e milagrosamente retornou dos mortos. Esse conhecimento tanto me perturbou quanto me deixou empolgado e aprofundou ainda mais o meu fascínio no Cristianismo.

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E qual é a memória mais antiga que você tem de quadrinhos na sua vida?

A minha mãe comprou para mim a edição de junho de 1966 do Batman, eu tinha 5 ou 6 anos. (Eu nasci em meio de 1960 e esses periódicos saiam antes da data indicada na capa). Eu já gostava das tirinhas publicadas em jornais, mas quando descobri que havia publicações inteiras destinadas e quadrinhos longos passei a querer ainda mais essas edições.

Como você chegou a essas histórias específicas que acabaram sendo adaptadas para confirmar a tese do livro?

Como eu expliquei, os dois pontos de partida da minha crença em relação à genealogia de Jesus estão nos indícios do Evangelho de Mateus de que Maria seria uma prostituta e nessa versão alternativa da Parábola dos Talentos. Então decidi fazer adaptações dessas histórias sobre mulheres “más” apresentadas por Mateus, assim como incluir um capítulo sobre a mãe de Jesus e adaptar essa versão alternativa da Parábola dos Talentos. Eu percebi como eram semelhantes essas versão da Parabola com a Parábola do Filho Pródigo, aí decidi adaptar essa história, já que vi como mais um argumento para a minha interpretação da postura de Jesus em relação a prostituição. Depois veio à minha mente a ideia de que Jesus foi ungido pela prostituta Maria Betânia. Como a palavra cristo significa “aquele que foi ungido”, Jesus foi feito cristão por uma prostituta – uma ideia me passou a soar muito importante em meio às outras conexões que estava fazendo. Então eu incluí um capítulo sobre a unção.

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Eu queria saber mais sobre os seus desenhos no livro. São ilustrações muito cartunescas e você sempre respeita um grid muito definido. Há alguma justificativa especial para essa estética?

Essa técnica mais cartunesca é apenas o meu estilo natural de desenho. Eu tenho pouco interesse em desenhos realísticos. Os meus quadrinistas preferidos são aqueles que desenham com esse estilo mais de cartum.

No começo dos anos 80 eu estava lendo os quadrinhos do Harold Gray pra Aninha, A Pequena Órfã e eles eram muito atraentes, mesmo que Gray fizesse uso de um gride com painéis com o mesmo formato. Naquele momento eu compreendi que mudar o tamanho do painel não fazia diferença na experiência de leitura. Às vezes, layouts ousados de painéis podem até confundir o leitor. Então passei a fazer uso desse layout fixo de painéis para os meus quadrinhos.

Fundamentalistas religiosos sempre foram um problema no mundo, mas parece que vivemos em um período em que eles estão particularmente ativos. Você vê muita discrepância entre a sua leitura de Deus e a deles?

Muito do que Jesus disse soa contraditório. O John Dominic Crossan acredita que Jesus começou como um pregador raivoso e apocalíptico (seguindo o caminho de João Batista) e, em um determinado momento, por razões desconhecidas (talvez alguma experiência de “iluminação”), ele mudou sua atitude e começou a pregar sobre um Deus amoroso e misericordioso. Essa explicação faz sentido para mim. A quais pregações cada pessoa responde depende da forma como cada um vê o mundo. Você é intolerante e julga as outras pessoas? Então o Jesus apocalíptico vai ter mais apelo para você. Você é mais aberto e aceita as outras pessoas? Então o Jesus mais espiritual e amoroso vai responder melhor para você.

Fundamentalistas não querem aceitar que as ideias de Jesus provavelmente mudaram com o passar do tempo e ficaram mais profundas. Eles tentam conciliar o irreconciliável e dão o mesmo valor a tudo que ele disse. Na minha opinião ele ficou extremamente sábio, mas ele não começou dessa forma e no começo disse algumas coisas bem estúpidas. É preciso avaliar suas palavras, assim como é preciso fazer isso com as palavras de qualquer pessoa. Acreditar que tudo que ele disse é útil é o caminho para uma estrada de erros.

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Assim como Pagando por Sexo, Maria Chorou aos Pés de Jesus foi alvo de algumas controvérsias. Qual dos dois livros você acha que gerou mais polêmica?

As críticas foram mais pesadas com o Pagando por Sexo, pelo menos nas resenhas em inglês que eu li. As pessoas constantemente interpretam esse livro como se eu estivesse advogando de forma cínica pelos direitos das prostitutas por eu estar me beneficiando como alguém que paga por sexo. Como eu fui muito sincero em relação às minhas crenças religiosas em Maria Chorou, as pessoas talvez possam achar que estou escrevendo do coração. Elas podem acreditar que as minhas interpretações sejam improváveis ou erradas, mas a minha sinceridade é mais óbvia nesse livro.

Você vê muitas semelhanças entre as críticas que recebeu por conta de cada um dos livros?

Não. As críticas foram muito diferentes para os dois livros. No Pagando por Sexo os críticos estavam na maior parte utilizando o livro como uma desculpa para expressar suas opiniões em relação a prostituição e eventualmente ignorando o que eu escrevi. No Maria Chorou os críticos ficaram mais envolvidos com as ideias que eu estava apresentando, mesmo que discordassem delas.

Há alguma outra adaptação bíblica para os quadrinhos que te influenciou de alguma forma?

A melhor adaptação em formato de quadrinhos que eu conheço é o Gênesis do Robert Crumb, um feito magnífico. Com certeza me influenciou.

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A última! Você poderia recomendar algo que está lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Uma graphic novel publicada aqui no Canadá no início do ano: The Journal of The Main Street Secret Lodge do Steven Gilbert. A princípio é só uma história simples de um bom advogado enfrentando alguns criminosos em uma cidade canadense pequena no final do século XIX, mas o Gilbert enche a história de humor e pungência como raramente se vê nos quadrinhos.

Uma coleção de tiras publicada no ano passado: Underworld – From Hoboken to Hollywod do Kaz. Diversão bem descontraída.

Eu estou esperando ansioso pelo próximo livro da Byron Katie, A Mind At Home With Itself. A Katie é a pessoa mais sábia do planeta. Se você quer aprender como viver, leia os livros dela.

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1 comentário Papo com Chester Brown, o autor de Maria Chorou aos Pés de Jesus: “Muito do que Jesus disse soa contraditório”

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