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O making-of de uma página de O Segredo da Floresta, por Felipe Nunes

A HQ O Segredo da Floresta tem lançamento previsto pra setembro de 2016. Produção do Stout Club, o gibi tem argumento do Rafael Albuquerque e do Thedy Corrêa, que também assina o roteiro. O desenho é do Felipe Nunes e as cores são da Fabi Marques. Acompanho com atenção o trabalho do Felipe Nunes desde o lançamento de Klaus, pelo qual ele venceu o troféu HQMix na categoria Novo Talento Desenhista. Ano passado, ele publicou por conta própria o excelente Dodô.

Nas últimas semanas, a medida que O Segredo da Floresta começa a ser finalizado, o Nunes começou a adiantar algumas prévias do quadrinho na internet. Minha maior curiosidade no momento é ver um artista conhecido, até agora, principalmente por seu trabalho autoral, produzindo a partir do texto de outras pessoas. Também fico curioso em relação às cores no desenho dele, ainda mais por Klaus e Dodô serem trabalhos belíssimos em preto e branco.

Pedi pro Nunes escrever aqui pro blog sobre a produção de O Segredo da Floresta. Ele me mandou o making-of de uma página, do roteiro à versão finalizada, já com os balões e um teste do texto final. A partir daqui, quem escreve é o quadrinista:

OSegredoDaFloresNunes2

“O Segredo da Floresta conta a história de dois meio-irmãos, Lucca e Nina, filhos da mesma mãe, que depois de uma situação são obrigados a viajar só com o pai (dele) e alguns amigos pra pescar e acampar. Os dois não se dão muito bem e o acampamento é um jeito de tentar melhorar essa relação, mas aí algumas situações bizarras acontecem nessa floresta.

Tivemos algumas discussões sobre a história pra conseguir captar a essência de cada cena, como quadrinizar isso e tudo mais. Decidimos que o melhor seria escrever uma escaleta com todos os tópicos de acontecimentos da história, sem determinar o número de páginas que ocupariam e com diálogos de intenção, ou seja, apenas demonstrando o que cada personagem falaria em cada cena. Como é minha primeira experiência com roteiro de outra pessoa, acho que isso foi até positivo pra me dar um pouco mais de liberdade na hora de decupar as páginas, de entender o ritmo e acrescentar algo da minha própria bagagem com quadrinhos. O roteiro vinha mais ou menos assim:

14 – Página inteira que apresenta Lucca, no seu quarto, com Dita, arrumando a sua mochila para o passeio. Nota-se o seu computador e decoração de um pequeno nerd.

15 – Página oposta, inteira também, apresentando Nina, no seu quarto, arrumando a sua mochila, visivelmente irritada com o passeio eminente. No quarto dela podemos mostrar alguma referência a música (rock?), alguns troféus (volêi?) e coisas de menina.

Conversando com o Thedy e o Rafa, achamos melhor juntar essas duas cenas em uma páginas só. Depois de algumas ideias, achei legal essa solução onde os quadros são contrapostos nas diagonais da página. Sabia que queria uma visão de cima, mas não fazia a menor ideia de como desenhar isso.

thumbnail

Depois que eles acharam que a ideia poderia ficar legal, comecei o lápis. Meu processo tem sido bem mais complicado do que já foi, por alguns motivos.

Meu lápis é naturalmente bem sujo, cheio de traços, não costumo apagar SEMPRE que erro e isso acaba virando uma salada bizarra que dificultava muito na hora de passar a arte final, por não saber direito que linha era a certa (hahahha) e pelo sebo que o grafite fazia no papel. Decidi começar a usar um sulfite tosco, normal, pra fazer o lápis. Mas também no formato A3, ao contrário de muita gente que chega a fazer no A4 e depois ampliar.

lapis

Essa é a etapa mais difícil, onde preciso ir atrás das referências pro quarto dela (que por ser rabugenta e meio adolescente pensei em bandas de post-punk de atitude, geralmente com mulheres ou algo do tipo). Pro quarto do Lucca, precisava acomodar Dita, a cadela dele (e ponto central da história) na cama e, depois de pensar sobre o que ele faria na história, sugeri alguns pôsteres de filmões de terror ou aventura.

Enquanto o quarto dele deveria ser mais arrumado, o dela teria de ser uma zona. Enfim. Desse ponto, depois de pronto, escaneio, transformo em CMYK e mantenho apenas o Cyan (aquele azulzinho delícia), pra daí diagramar nas proporções, consertar algo e reforçar os requadros e imprimir num Canson decente, a uns 20-30% de tinta. Nesse ponto ainda consigo fazer pequenas alterações com lápis antes da arte final, caso ache necessário

nunasA

NunesB

A arte final eu faço com um pincel n.0 (podendo alternar com um pincel n.2, que usava pra tudo até esse quadrinho, e uma caneta nanquim 0.8) e nanquim normal (alterno entre o Talens de 50 paus ou aquele Acrilex tosqueira de 3 hahahha Ambos funcionam super bem.

ink

Depois de escaneada em CMYK, costumo usar o canal do Magenta ou do Amarelo (o que tiver menos resquício daquele fantasminha azul ), transformo em tons de cinza e trato os Levels e aplico um Threshold, pra deixar a imagem apenas em Preto e Branco, sem pontos de cinza. Pro meu desenho isso funciona, porque não trabalho com aguada, mas com um desenho mais blocado no contraste, sem variação tonal.

A partir daí, limpo a página e mando pra Fabi, que está fazendo a cor. Geralmente eu tento passar um direcionamento do que acho que caberia na página, às vezes eu e o Rafa damos alguns palpites do que pode ficar massa mas pra essa em específico ela fez toda por conta e, até agora, ficou a mais legal das que temos prontas.

cor

Os balões também não tão na minha responsabilidade, então esse quadrinho tem sido pra mim um processo de desapego com o material final.

final

Tudo fica mais fácil nessa divisão de etapas e é uma maneira diferente de trabalhar, já que sempre estive acostumado a cuidar de toda a parte gráfica sozinho. A experiência do gibi tem me ajudado muito a entender melhor o que faço, principalmente com os pontos e as sugestões que o Albuquerque levanta em narrativa, enquadramentos. Ele tem uma visão bem diferente de quadrinhos do Fábio Moon e do Gabriel Bá [de quem Nunes é estagiário], por exemplo, e é muito bom ter essa ótica pra acumular possibilidades.

O quadrinho, se Deus quiser, sai em setembro. Cruzem os dedos: tô trabalhando pra isso hahaha”

4 comentários O making-of de uma página de O Segredo da Floresta, por Felipe Nunes

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