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Entrevistas / HQ

Mute: Marco Oliveira investe nas possibilidades da linguagem dos quadrinhos em álbum experimental

O quadrinista Marco Oliveira surpreendeu seus leitores em 2014 quando publicou o álbum Aos Cuidados de Rafaela. Apesar do mesmo traço sujo de sua série Overdose Homeopática, o autor apresentou no quadrinho um estilo muito distinto do trabalho que fez sua fama na internet. Enquanto suas tiras reúnem várias piadas rápidas e agressivas, o enredo tragicômico do livro lançado no ano passado mostrou o domínio que Oliveira possui da narrativa sequencial. Pouco mais de um ano depois, o artista volta a investir em uma obra bastante distinta de suas produções prévias.

O recém-lançado Mute (R$34, Zarabatana) mostra o autor explorando várias possibilidades da linguagem das HQs em uma coletânea de painéis em preto e branco. Ao longo de suas 88 páginas, o livro reúne várias esquetes e enredos conceituais somente possíveis de serem contados no formato de quadrinho. Se na série Overdose Homeopática Oliveira dialoga com a podridão social também expressa por autores como André Dahmer, Ricardo Coimbra, Bruno Maron, Mute possui conexões explícitas com o experimentalismo poético de Rafael Sica – inspiração assumida pelo autor na entrevista abaixo.

Fica a torcida para que Mute tenha algumas continuações, com ideias ainda mais ousadas que as muitas já presentes nesse volume.

CAPA MUTE

“A cada novo trabalho que faço percebo novas possibilidades do que ainda posso fazer com os quadrinhos”

Troquei uma ideia por email com o Marco Oliveira. Falamos sobre as origens de Mute, as várias possibilidades da linguagem dos quadrinhos, as influências do autor nesse livro mais recente, política, cores e a abordagem utilizada por ele para ter o livro financiado pelo Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo (ProAC). Papo bem bom, saca só:

Acho que quem conhecia o Overdose Homeopática deve ter sido surpreendido quando saiu o Aos Cuidados de Rafaela. Mas acho que quem conhece só esses trabalhos anteriores, vai se surpreender ainda mais com o Mute. Como esse projeto surgiu?

Com certeza, são trabalhos totalmente diferentes. O Overdose era aquela coisa rápida, de humor, de escracho e o Aos Cuidados de Rafaela uma história longa e séria. Tenho certeza que ainda tem muito leitor que conhece um trabalho e desconhece o outro, ou conhece ambos mas não ligam os nomes, como se fossem dois autores diferentes. Fica claro que não costumo me prender a um único gênero e provavelmente agora vai ter leitor achando que são trabalhos de três autores diferentes (depois do Mute). Acho que pra mim não funciona essa coisa de usar um único parâmetro não uso personagens fixos e os temas – com exceção do recorrente cu – são sempre muito variados. Não conseguiria criar algo como “A Turma da Piroquinha” e me dedicar exclusivamente a ela.

Quanto ao Mute, pintou como se fosse uma tira. Não nasceu da necessidade de se criar algo novo, apenas surgiu como uma ideia que teve um resultado diferente e a partir desse resultado que me baseei para criar algo novo. A primeira HQ está neste link, postado em 2011 no meio das tiras de humor.

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E é tranquilo pra você fazer essa transição dos trabalhos no Overdose Homeopática para qualquer outro? Você tem que trocar algum chip ou a coisa acontece naturalmente?

É como se fosse uma antena que é regulada de acordo com o que se pretende captar. Passei a ter ideias para tiras somente quando comecei a fazê-las. Antes eu só acompanhava os trabalhos de outros artistas e achava incrível o fato de eles conseguirem criar tanta coisa bacana e com aparente facilidade. Depois de um tempo criando (ou tentando) é que percebi que tá cheio de ideias no ar e quando se está ligado nisso, você consegue sacar e captar essas ideias de acontecimentos triviais, das mesmas conversas que antes não geravam nada. Tenho um bloquinho com muitas ideias anotadas. A maioria não vai para o papel de imediato, mas está lá, esperando para ser revista e, talvez, virar uma tira putanhesca ou um quadrinho experimental.

Uma coisa que foi imprescindível para que eu conseguisse fazer a transição entre tiras e graphic novel foi a de aprender a reconhecer e aceitar meus limites. QUando surgiu a oportunidade de desenhar uma história longa, com o roteiro do Marcelo Saravá, eu sabia que não seria fácil, pois não tenho o estilo de desenho que se costuma ver nesse tipo de material, além da minha dificuldade em desenhar cenários mais rebuscados, então tive que colocar a narrativa dentro das minhas limitações gráficas e ainda assim tive muita dificuldade. Chegou um momento em que eu não aguentava mais desenhar e achei que não conseguiria terminar aquela merda (era o sentia na época), tanto que, quando o livro ficou pronto e foi impresso, eu dei só uma folheada e deixei de lado um bom tempo. Fiquei mesmo de saco cheio. Mas depois de lançado, ouvi tantas críticas positivas sobre o resultado gráfico que acabei me convencendo que ficou bom. Hoje me orgulho muito de ter entrado nessa enrascada.

O Mute é todo construído a partir de algumas possibilidades e ferramentas da linguagem dos quadrinhos. Como foi a produção dessas HQs? Você pensava primeiro na ideia que queria explorar ou no elemento da linguagem? Ou acabava rolando tudo junto?

A ideia do Mute é a de narrar ideias simples – como encher um copo com água – utilizando a peculiaridade da linguagem dos quadrinhos e experimentando as possibilidades. O trabalho maior na construção de cada quadrinho não foi o de desenhar, mas o de decidir qual o melhor recurso utilizar para transmitir a ideia em questão. Experimentar na medida certa para que não seja: nem umbilical e nem mastigado demais.
A produção foi muito tranquila. Não tive muito trabalho porque a maioria das HQs já estavam prontas na minha cabeça e os traços, na maioria delas, são bem simplificado.

A sequência da produção era mais ou menos essa: ideia; decisão de como ela seria representada; desenho. Mas em alguns casos a HQ surgiu prontinha, tudo numa paulada só.

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E que tipo de reflexão passava pela sua cabeça enquanto produzia esses trabalhos do Mute? Todo quadrinista diz que fazer HQ é uma atividade muito solitária e você deve ter passado muito tempo pensando nas possibilidades das linguagem dos quadrinhos enquanto produzia esse livro. Mudou muito a sua compreensão em relação até onde você pode ir com uma história em quadrinho?

Se fosse pra colocar no papel, digo que seria possível fazer um livro como este em coisa de dois meses, porque nele é tudo muito simples, não perdi noites de sono por falta do que criar. O resultado foi muito natural. Mas esses “dois meses” foram, na verdade, quase quatro anos, a contar de quando fiz a primeira HQ até a finalização do projeto. O livro é um acúmulo e seleção de ideias que surgiram durante esses anos e que foram colocadas no papel em poucos dias. O processo total foi longo, mas o tempo efetivamente gasto foi curto.

A cada novo trabalho que faço percebo novas possibilidades do que ainda posso fazer com os quadrinhos. Quando terminei o Aos Cuidados de Rafaela é que percebi que era capaz daquilo. Percebi que é preciso coragem pra expôr seu trabalho num mercado exigente e crítico. Fazer quadrinhos é assim, você mostra sua arte e tem que estar preparado pra ouvir merda, porque, de repente, realmente ficou uma merda. Sempre fui um bundão e isso é um empecilho horroroso para o autor, mas por incrível que pareça, o Overdose Homeopática – que foi minha primeira publicação – eu botei no mercado sem medo nenhum, sempre botei fé nele, já com o Aos Cuidados de Rafaela foi mais complicado, fiquei bem inseguro por estar em território estranho, mas o pouco de coragem que tive foi suficiente pra que eu aceitasse desenhar uma graphic novel de 134 páginas e depois vê-la nas mãos de leitores prontos pra descer o chicote em um desenhista medíocre. Depois que esse trabalho foi bem recebido não tenho mais tanto medo em experimentar e dar errado. Estou publicando o Mute – que é bem mais umbilical que o anterior – com a consciência bem tranquila e sem medo de possíveis críticas negativas. É importante ter auto-crítica suficiente para saber que não sou uma máquina de genialidades e que sou um desenhista limitado. Mas ligo a tecla do “desculpem-me se não fui genial”, que seria um foda-se mais respeitoso.

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Pra mim, algo muito característico do seu trabalho, muito presente no Overdose e no Aos Cuidados de Rafaela, são as cores. Você sempre teve em mente o Mute como uma obra em preto e branco?

Desde o início ele foi pensado em uma só cor. Já nasceu com essa cara e não tinha como mudar. Mas, sinceramente, estou cada vez mais sem saco para cores. As novas tiras do Overdose estão bem mais simplificadas na questão de colorização e meu próximo livro – que será uma graphic novel desenhada E escrita por mim – será em preto e branco. Não que eu não goste mais de cores, mas sinto que já alcancei meu estilo e não tenho mais o que fazer a não ser experimentar, e esse experimentar tem pendido para o “quanto mais simples, melhor”. Abro o Vida Boa do Zimbres e penso que não precisa mais do que aquilo, é a síntese da genialidade simplificada, mas ao mesmo tempo morro de inveja das pinturas coloridas do Odyr e os quadrinhos do Pedro Cobiaco. Acho que é só uma questão de momento e agora estou optando pelo preto e branco.

E eu fiquei criando várias conexões entre o seu Mute e outras obras que gosto muito. Acho que tem um diálogo do livro com as tiras do Rafael Sica. Em termos de experimentação, lembrei de uns quadrinistas que são famosos por tentar coisas novas com a linguagem, até o Chris Ware por exemplo. Você teve muita gente em mente que foi referência na hora de fazer esse livro?

A ligação com os trabalhos do Rafael Sica são inevitáveis. Os quadrinhos dele, principalmente os da época do blog Ordinário, me inspiraram muito. Na Feira Plana de 2014 eu entreguei pessoalmente para ele um zine do Mute, falei inclusive que aquele zine ainda viraria um livro e que os trabalhos dele me inspiraram bastante.

Gosto muito também (e quem não?) das experimentações do Chris Ware e tento seguir essa linha de explorar ao máximo essa linguagem, mas com meus próprios resultados. Tenho certeza de que ainda há muito o que se explorar nos quadrinhos e com o crescente número de novos autores, a tendência é aparecer, cada vez mais, novos estilos na praça.

Voltando ao Mute, como disse anteriormente, a produção dele foi muito natural, foi rolando e deu no que deu. Não tinha em mente outros autores como referência enquanto criava, mas é inevitável que os autores que admiro tenham influência no resultado, mesmo que de forma inconsciente.

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Acho que de todos os lançamentos que vi bancados pelo Proac, o Mute foi o mais diferente. Você concorda que ele destoa um pouco da maioria das outras obras selecionadas? Você pode falar quais foram os principais argumentos que você utilizou para vender o projeto?

Sem dúvidas. Tudo o que se vê na seleção de projetos é graphic novel ou tiras de humor no padrão de jornal. O Mute destoa totalmente do que já foi publicado pelo Proac e apostei nesse diferencial. No projeto usei o argumento de que faltam trabalhos mais autorais e experimentais nas prateleiras das livrarias e que esse tipo de trabalho – sempre visto em publicações e feiras independentes – precisa ganhar mais espaço e chegar ao leitor de quadrinhos que se habituou com o mainstream. As publicações independentes deixaram de ser vistas como amadoras e isso deve ser reconhecido. As grandes editoras e o grande público precisam ter mais acesso a esse material, que, pra mim, deixa no chinelo muito quadrinho gringo que é best-seller. Tá cheio de nego foda que merecia capa dura em vitrine de livraria em shopping de playboy.

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No Overdose você expressa bastante algumas opiniões e posicionamentos políticos. Essa postura é algo muito típico de autores de tiras, mas hoje estamos vivendo períodos mais turbulentos e extremistas que o usual. Por mais trágica que seja, como essa realidade serve de matéria-prima pro seu trabalho?

Nos últimos dois anos não publiquei muitas tiras e o motivo foram as produções dos últimos dois livros, mas pretendo retomar com as tiras e ainda não sei o que vai sair, já que tô meio enferrujado. Mas voltarei e pretendo imprimir um segundo volume do Overdose Homeopática. As minhas tiras, por mais que tragam certo posicionamento político, nunca foram feitas com esse propósito, vejo isso até como uma falha minha, sinto que até hoje não fui contundente o suficiente. Sinto uma necessidade pessoal de ser mais transgressivo, ser menos bunda-mole. Não quero criar uma zona de conforto e ficar produzindo nela. Gostaria de ter uma pegada um pouco mais chargística sobre os acontecimentos atuais, como o Ricardo Coimbra e o Bruno Maron fazem de forma magistral. Eles conseguem fazer, ao mesmo tempo, quadrinho, cartum e charge e isso é foda demais. Minhas tiras são bem mais atemporais e aculturais. Mas é questão de começar a fazer e ver o resultado. De repente dá certo e consigo seguir uma linha mais atuante na arte de escangalhar as pregas do mundo sem dó nem piedade, como fazem esses dois, ou até de forma mais sutil – mas também visceral – como o André Dahmer.

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E ó, vale o toque: sábado rola em São Paulo o lançamento do Mute. A festa vai ser lá na Monkix, uma das lojas de quadrinhos mais legais da cidade, a partir das 16h. Lá na página do evento no Facebook o Marco Oliveira tá prometendo uma gravura serigrafada com uma HQ do livro para cada Mute comprado. Eu vou. Vamos?

2 comentários Mute: Marco Oliveira investe nas possibilidades da linguagem dos quadrinhos em álbum experimental

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