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Jão e o número de estreia da revista PARAFUSO: “Quero que a revista seja meu laboratório”

Tem matéria minha na edição de janeiro da Rolling Stone falando do número zero da revista PARAFUSO do Jão. Já escrevi sobre a publicação por aqui na minha retrospectiva com os grande quadrinhos lançados no Brasil em 2016, por ter sido um dos meus títulos preferidos do ano passado. Essa edição de estreia da revista é focada na história Vigilantes, com diálogo imenso com o clássico Preto e Branco do Taiyo Matsumoto. Enfim, falo mais sobre a obra na minha matéria. A Rolling Stone chegou ontem às bancas de São Paulo e não deve demorar pra sair no resto do Brasil. Enquanto isso, segue um trecho da minha conversa com o Jão:

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Como surgiu a PARAFUSO?

O conceito surgiu por meio das histórias que criei ao longo do último ano, que são mais experimentais e foram produzidas como forma de exercício narrativo. Queria retomar algumas ideias do meu trabalho de alguns anos atrás também, coisas que eu fiz de 2008 a 2011, como o nonsense, a ficção científica e a fantasia. Acho que o título, PARAFUSO, vem daí também: tanto no sentido de algo maluco, que tem um parafuso a menos ou a mais, quanto o parafuso no sentido de máquina, de fazer um mecanismo funcionar. Quero que a revista seja meu laboratório.

Tendo resolvido o formato e o conceito da publicação, como você chegou à história desse primeiro número?

As coisas meio que foram feitas ao mesmo tempo. A ideia inicial era começar na edição 1, como uma antologia, mas percebi que o prazo ficaria muito curto para uma edição maior. Então, foquei em finalizar a história Vigilantes para publicá-la com o número zero na capa, pois senti que seria um conto com a força necessária para sustentar a publicação e que representava o que eu havia pensado para a série de revistas.

No imaginário das histórias em quadrinho, o termo vigilantes é muito associado aos super-heróis. Você de alguma forma trabalha com essa ideia na HQ?

Em meu livro anterior, Baixo Centro, eu já tinha explorado conceitos de “linchamento” e “justiça com as próprias mãos”, mas percebi que minha sensibilidade em relação a isso ainda não havia esgotado, principalmente quando vi que muitas dessas ideias são usadas como o embrião dos quadrinhos de super-heróis, que, de certa forma, são porta-vozes da linguagem. Então sim, a ideia de pessoas com poderes, que usam roupas coloridas e que lutam pela justiça é trabalhada no conto, mas como uma forma de mostrar o contexto estranho e assustador em que vivemos, onde a frase do herói nacional, Capitão Nascimento, “bandido bom, é bandido morto”, se faz mais presente do que nunca no imaginário popular.

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Seu trabalho anterior, o Baixo Centro é basicamente uma cena de perseguição pelas ruas do centro de Belo Horizonte. Você trabalha bastante com a arquitetura da cidade e os personagens fazem um percurso bem longo. Esse trabalho mais recente é focado praticamente em uma esquina e em um ambiente mais fantástico. Você refletiu sobre esse contraste? Mudou muito a sua dinâmica de produção trabalhar com ambientes e contextos tão diferentes?

Mudou demais! Mas minha forma de trabalho passa por aí, é muito difícil eu repetir o mesmo modo de produzir para histórias diferentes. No Baixo Centro, a cidade era o personagem principal da trama e eu queria representá-la de forma que os leitores reconhecessem os prédios e lugares ao passar as páginas. Já na história Vigilantes, a ideia foi de desenhar, desenhar e desenhar o mesmo cenário, queria que, de alguma forma, fosse criado um paralelo com obras da Pop Art também. Então, ao abrir as páginas, o leitor terá toda essa repetição de imagens seguidas, apesar da narrativa andar entre os quadros.

Já sobre o contraste entre as histórias, quando estava planejando começar a fazer o conto Vigilantes, percebi que estava falando sobre algo muito próximo do que havia explorado no Baixo Centro. Como já estava na onda de experimentar novas formas de fazer quadrinhos, resolvi que queria transformar essa narrativa em algo parecido com uma tira, criando diversas limitações pro desenho. Se no livro anterior a “câmera” girava e mostrava ao leitor a cena de diversos ângulos, por exemplo, na nova revista a ideia foi mantê-la o mais estática possível. Diria que são duas histórias irmãs, mas que foram separadas no nascimento.

Você tem em mente uma periodicidade pra revista? Já tem definidas as histórias das próximas edições?

A ideia é que sejam publicadas três ou quatro edições ao longo de 2017, sem uma periodicidade muito certa para não me comprometer. Algo que gostei nesta edição 0, e que saiu um pouco do plano inicial, que era de fazer uma antologia, é lançar cada número com uma história apenas, mas que tenham os conceitos estabelecidos pelo título da revista. Para a edição 1, posso dizer estou trabalhando em um conto que é uma mistura de House of Cards com Adventure Time e que é uma história um pouco maior que a anterior, Vigilantes. Para as edições seguintes, tenho diversas histórias em produção também, mas não sei exatamente quais serão lançadas na PARAFUSO e quais tomarão outros caminhos.

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