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HQ

Bárbara Malagoli e a produção do quinto número da Série Postal

Volto a reunir por aqui a íntegra de mais uma leva de depoimentos de um dos autores da Série Postal sobre a produção de cada HQ. Dessa vez, reproduzo as falas da Bárbara Malagoli comentando a criação do quinto número da coleção, batizado por ela de Submerso e inspirado no filme Segredos de Sangue do diretor Chan-wook Park. A arte aqui em cima é o primeiro rascunho da quadrinista para o que viria a ser o quadrinho. Sempre lembrando que lá no tumblr da Série Postal você encontra com exclusividade todo esse material de bastidores da coleção. A seguir, aspas de Bárbara Malagoli:

“As coisas fluíram bem durante a produção. Eu gosto muito de falar da perspectiva feminina e desse lance de autoconhecimento. Há alguns anos eu assisti um filme que ficou na minha cabeça, ‘Segredos de Sangue’ do Chan-wook Park, e o quadrinho é baseado nele. Eu tava louca pra expressar de algum jeito o que eu sentia, é tipo uma homenagem mesmo, fiquei muito tocada e queria botar pra fora isso tudo. Ainda assim, o postal pode ser interpretado de diversas formas”

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“Eu gosto muito do Chan-wook Park, da personagem feminina que tá se conhecendo e da trilha sonora do Philip Glass. O desenrolar do filme é toda uma descoberta e o final não é necessariamente feliz. Aliás, o final parece ser o começo de uma outra jornada e talvez isso tenha me chamado ainda mais a atenção, esse processo de se conhecer que não é nunca algo finalizado. Somos seres humanos inacabados, estamos sempre nos conhecendo. Nem sempre é bom se conhecer, mas é um processo natural”

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“Estava claro pra mim o que eu queria fazer. A frase presente no postal passa toda a mensagem. Eu trabalho de uma forma não tão convencional com quadrinhos, né? É meio brega falar assim, mas talvez eu queira passar uma mensagem maior em cada página em que trabalho. Eu fico até confortável com as restrições espaciais do postal, não acho ruim trabalhar dentro dessas limitações”

“Essa ideia de produzir a história toda em uma única página pode fugir um pouco do convencional, mas hoje em dia é importante as pessoas possam expressar de formas não convencionais e não estejam presas a formatos tradicionais. É muito legal você ver pessoas experimentando e ver o leitor ter um leque mais amplo em termos de quadrinhos. Considero isso uma evolução”

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“Eu começo no papel, vou rabiscando umas coisinhas que gostaria de fazer. Fiz a mão essa ideia e ficou lá no subconsciente, em uma gavetinha. Quando veio o convite pra participar do projeto a ideia voltou. Aí desenhei e depois passei pro Ilustrator, um programa de ilustração vetorial. Depois disso, eu passei pro Photoshop, lá eu finalizei com texturas, cores e acabamentos. Geralmente todos os meus trabalhos são assim”

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“Eu sou a louca das cores, eu consigo ver paletas em qualquer cenário. Eu vejo o meu quarto com muito rosa, muito amarelo, muito verde-água, umas cores que eu gosto muito. Não sei como chego numa seleção final de quais delas entram em cada trabalho, é um feeling, eu vou misturando e testando. Eu gosto muito de cores quentes, gosto muito de rosa, é algo meio ligado a uma psicodelia típica dos anos 70, não consigo categorizar. No final das contas é uma coisa muito mais intuitiva do que pensada, vou testando até o meu cérebro falar que gostou”

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“Cores quentes chamam mais a minha atenção. Escolher quais cores eu vou utilizar é a parte mais divertida do trabalho, passo horas e sofro por indecisão. Sofri muito por indecisão pro postal, principalmente por ser livre. Mas no final das contas é a parte mais gostosa pra mim, pensar nas cores e no acabamento, tira a pressão do trabalho. Já está tudo feito, a forma tá lá, agora é hora de brincar. E no digital é mil vezes mais fácil que no analógico, há a possibilidade de você mudar as cores com um clique, não tem como não pirar”

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“Pra mim é muito mais difícil fazer algo autoral. Quando eu recebo encomendas de trabalho, pode vir uma tabela de cores, uma data de entrega, um tema, um local no qual a arte vai entrar, tá tudo pronto, já vem com os ingredientes. Comercialmente isso é muito agradável. Quando é pessoal o bicho pega, precisa ser algo que eu queira falar e passar e eu posso fazer o que quiser. É melhor, mais prazeroso, trabalhar com total liberdade de tema e técnica, mas também dá muito medo, só tem você pra culpar. Se ficar uma bosta é você que mandou mal”

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“Gosto muito do meu trabalho comercial, ele respeita bastante o que eu sinto prazer em fazer, mas no trabalho autoral você olha mais pra dentro. É quase uma terapia. É muito mais trabalhoso e também a recompensa de ver uma fase da sua vida materializada… Você vai olhar aquilo daqui alguns anos e pensar ‘aquela era eu’. É um resumo também da sua técnica, aquela que você era capaz de dominar. É isso, se reconhecer nesses materiais que você cria, ver a evolução e a marca do tempo em cada obra”

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