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Pequenos grandes assédios [#AgoraÉQueSãoElas]

por Paula Bianchi*

Aprendi com Peter Parker e a perda do seu tio que grandes poderes trazem grandes responsabilidades. Me peguei pensando com Rob Fleming, de Alta Fidelidade, se o que vinha antes era a música ou o sofrimento, e refleti horas a fio sobre a condição humana com o sonho, de Sandman. Sempre ignorando que também na ficção e na cultura pop o geral não tem vagina nem sangra, porque o genérico é sempre masculino e o masculino como representante do todo não é questionado.

Depois de receber o convite do Ramon para escrever nesse blog que eu leio sempre com tanto carinho, tentei rabiscar alguns textos seguindo na toada do pop, que me alimenta desde que conheço por gente, mas não tive como. Peço licença aos leitores do Vitralizado para dividir com vocês um pouquinho o peso de ser o Ela das histórias e falar dos

Pequenos grandes assédios

Lendo tantos relatos tristes de #primeirosassedios de amigas e desconhecidas que tomaram a internet nos últimos dias, me parece que tive sorte. Só consigo lembrar de um cara que passou a mão na minha bunda e saiu correndo quando eu tinha 12 ou 13 anos e que só não tomou uma pedrada no meio da cabeça por falha da minha jovem pontaria. Mas daí lembrei do cotidiano de pequenos grandes assédios que aprendemos a relativizar diariamente, como mais um dos fardos de ser mulher e estar no mundo.

Se essa perda de inocência forçada é horrível, tanto pior é não passar uma semana sem ser constrangida por uma gracinha de alguém que se acha no direito de te abordar tão somente por ter nascido com um pinto. E isso vai do gostosa na rua do completo estranho aos comentários em tese sem maldade dos amigos e conhecidos.

Apesar de já não ser mais adolescente, percebi que não enquadrei como deveria o professor de natação que comentou o estado do meu maiô, já pedindo água em termos de elástico, e disse que “o titio não ia conseguir se concentrar na aula, não que fosse uma visão ruim”, me fazendo perder a vontade de ir até a piscina todas as manhãs. Tampouco mandei catar coquinhos o conhecido que se achou no direito de me chamar para tomar um vinho depois de ver uma foto minha dançando num carnaval ou disse com todas as letras a um fotógrafo que insistia em me chamar de linda de meia em meia hora durante uma pauta enquanto eu estava mais preocupada em trabalhar que ele deveria calar a boca.

Porque é mais fácil fazer postura de alface, cortar o assunto e sorrir amarelo. O que o meu eu de 13 anos já sabia é aquilo que a gente não pode nunca esquecer. Que não, não é certo ter que atravessar a rua ou deixar de fazer qualquer coisa por conta de ninguém.

É tempo de reunir as pedras e ir para cima. Esse mundo melhor para todxs nós está logo ali, depois da curva.

Não passarão.

*Paula Bianchi é jornalista, fã de cultura pop e feminista desde que se conhece por gente. Pratica a guerrilha noticiosa e tenta, sempre que possível, colocar o tema em pauta entre uma e outra matéria sobre o cotidiano caótico do Rio de Janeiro. Escreve vez em quando no Palimpsesto e dá pitacos sobre deus, o universo e tudo o mais no @pbbianchi

>> O post faz parte da iniciativa #AgoraÉQueSãoElas, na qual mulheres ocupam os espaços masculinos de fala. Homens convidam mulheres para escrever no seu lugar e se colocam nesse lugar do ouvinte. Dando voz e vez a uma mulher. Reconhecendo a urgência da luta feminista por igualdade de gênero e o protagonismo feminino nesta luta. Lá no Trabalho Sujo a autora do projeto fala mais sobre a iniciativa. Outras amigas e conhecidas foram convidadas e deverão dar as caras por aqui nos próximos dias.

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