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Cinema

The Martian/Perdido em Marte: o filme de Ridley Scott e a saga de Andy Weir

Na minha entrevista mais recente com Andy Weir (autor do livro The Martian/Perdido em Marte), ele me contou de uma decepção que teve ao ganhar um presente na infância, no início dos anos 80: “Era um pôster velho, que pertencia ao meu pai quando ele era pequeno, e mostrava apenas o lado visível da Lua. Eu me perguntava a razão de não ter o outro lado. Aí eu olhei no canto e estava a data do mapa, 1959. Só víamos um hemisfério da Lua porque ninguém nunca tinha visto o outro lado naquela época. Até os russos mandarem uma sonda no meio dos anos 60, nós não fazíamos ideia de como era o lado oculto da Lua! Descobrir esse tipo de coisa capta a atenção e cativa a imaginação das pessoas”.

Weir não poderia imaginar que na semana que a adaptação de seu livro chegaria aos cinemas, a Nasa anunciaria a descoberta de água salgada em Marte. Um dos primeiros desafios do protagonista do filme e do livro é criar água na vastidão seca do planeta vermelho. Assim como a Nasa não tem certeza em relação às origens do produto líquido encontrada em Marte, é impossível dizer como essa descoberta influenciaria o resultado final da obra de Andy Weir. No entanto, é provável que essa informação constasse no texto extremamente inventivo do escritor caso o anúncio feito pela Nasa fosse prévio à produção do livro.

Da mesma forma, Andy Weir não poderia sonhar com os rumos que sua vida tomou entre ele publicar o primeiro capítulo de seu livro na internet em 2012 e o lançamento do longa estrelado por Matt Damon e dirigido por Ridley Scott. O filme tem sido bastante elogiado pela crítica e já tem a segunda maior bilheteria de uma estreia nos Estados Unidos no mês de outubro, perde apenas para Gravidade. Aliás, o diálogo entre a obra de Alfonso Cuarón e o longa de Ridley Scott é explícito e as comparações são inevitáveis, pela temática e por uma suposta precisão científica de ambos. Daí, vale dizer, Perdido em Marte não tem um décimo da tensão de Gravidade.

Apesar de todas as invencionices de Mark Watney para sobreviver em Marte, o filme não chega perto da criatividade do roteiro enxuto de Gravidade. Tá mais pra filme da Marvel, com um protagonista espertinho, uma trilha bem sacada, alguns diálogos rápidos e com várias referências e uma trama redonda para suas duas horas e vinte um minutos. Claro, ter o Ridley Scott como diretor muda o tom da conversa: a fotografia é sensacional e o elenco, cheio de bons atores, leva a história nas costas sem qualquer desafio.

Perdido em Marte é mais um ótimo blockbuster de um ano que já teve Mad Max: Estrada da Fúria e que ainda verá a estreia de um Guerra nas Estrelas. Não estivesse no meio dessa safra atípica e à sombra de Gravidade, poderia ser memorável. Vale cada centavo do ingresso e diverte pra caramba, mas é isso. No final das contas, ainda sou mais a jornada de Andy Weir nos últimos anos do que o filme que o livro dele inspirou.

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