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Je Suis Cídio #2, por João B. Godoi

O quadrinista João B. Godoi está morando na cidade de Angoulême, na França, e participando da classe internacional de quadrinhos da Ecole Européenne Supérieure de L’image (EESI). Desde sua chegada à Europa ele vem produzindo uma espécie de diário em quadrinhos batizada de Je Suis Cídio, mostrando um pouco da rotina dele em Angoulême.

Publiquei na semana passada aqui no blog as duas primeiras páginas do projeto, junto com uma entrevista na qual o autor fala sobre suas influências e inspirações. Hoje reproduzo a segunda atualização da série, com as duas páginas seguintes.

Entrevistas / HQ

Está aberta a chamada para quadrinhos da 17ª Café Espacial: “Antes de qualquer coisa, publicar de forma independente é acreditar”

Está aberta até o dia 22 de abril a chamada para quadrinhos da 17ª edição da revista Café Espacial. Criada em 2007 pelo editor Sergio Chaves e pela jornalista Lídia Basoli, a revista é uma das publicações independentes de quadrinhos mais tradicionais do país. Você confere as informações para envio de HQs para publicação nesse próximo número clicando aqui, mas não tem mistério: a temática é livre, o quadrinho deve ser em preto e branco no formato 14 X 21 cm (ou proporcional) e ter até 13 páginas.

“O cenário independente no Brasil evoluiu bastante nos últimos anos, mas pensar qualquer produção artística e cultural hoje em dia se tornou um grande desafio”, diz Sergio Chaves em relação aos esforços para a continuidade da publicação em meio à crise que cerca o mercado editorial brasileiro e o reacionarismo crescente no país.

Bati um papo rápido por email com o editor da Café Espacial sobre as expectativas dele pra esse próximo número. Sergio Chaves falou sobre a decisão de retomar a revista após pouco mais de um ano de hiato, o desafio de escolher as obras que serão impressas na publicação e a linha editorial da Café Espacial. Papo massa, saca só:

A capa da 16ª edição da revista Café Espacial, assinada por Sergio Chaves

Por que começar agora a trabalhar na 17ª edição da Café Espacial? Como você define a data de lançamento de cada edição?

Queria ter feito isso muito tempo atrás, na verdade. Desde o lançamento da revista 16 (final de 2016, início de 2017) muitos fatores contribuíram para faltasse fôlego para pensar uma nova edição. Mas, diante de tantos retrocessos, a vontade de continuar produzindo falou mais alto. 

Todas as ações da Café Espacial são realizadas de forma independente, às vezes à margem e, muitas vezes, na contramão do mercado. Por isso mesmo, a revista é aperiódica, já que seu cronograma é definido conforme as vendas do nosso catálogo e, sempre que necessário, a possibilidade autoinvestimento. Apesar da incógnita que atravessamos neste ano, nosso plano é lançar a revista 17 e mais publicações sob o selo Café Espacial a partir do segundo semestre. 

A capa do 4º número da revista Café Espacial, assinada por Shiko

Como é o processo de seleção das obras que acabam impressas na revista?

É sempre desafiador. Como a proposta da revista é reunir trabalhos autorais de diversas áreas além dos quadrinhos, a seleção depende diretamente da sinergia entre os trabalhos disponíveis. E a decisão de não determinar um tema nos permite experimentar caminhos muito além do que tínhamos imaginado inicialmente.

Contamos com muitos colaboradores acessíveis para projetarmos um novo número, mas habitualmente abrimos espaço para novos autores para estimular novos olhares e abordagens na publicação. 

Muitas vezes, excelentes trabalhos ficam de fora justamente por não se encaixarem junto à seleção. Quando isso acontece, já começamos a desejar a edição seguinte. 

Você consegue sintetizar a linha editorial da revista após esses 16 números ou padrão temático nos quadrinhos publicados nela?

É algo que não procuro delimitar muito. A essência da Café Espacial sempre foi o autoral, e o fato das edições nunca serem tematizadas contribuiu muito para isso. 

Entendo quem tente ou que sinta a necessidade de apontar um padrão na revista, mas de minha parte, considero mais importante manter o olhar aberto para novas possibilidades dentro da publicação.

A capa da 15ª edição da revista Café Espacial, assinada por Samanta Flôor

Qual você acredita ser o papel potencial de uma revista independente de história em quadrinhos em meio à chegada ao poder de um governo de extrema-direita que acabou com o Ministério da Cultura e que promete cortes em políticas públicas e sociais de fomento às artes?

Tudo o que o governo tem praticado tem sido coerente com o seu discurso de campanha. Vivemos um período em que a desonestidade e a desinformação predominam. As últimas eleições deixaram isso muito claro. O problema não está na divergência política ou religiosa, já que muitas atrocidades são justificadas em nome de Deus. O problema está na pessoa bradando contra algo por pura ignorância ou má fé mesmo. Muitos votaram por afinidade de ódio e de mediocridade, com seus preconceitos validados no discurso do candidato que elegeram. Agora, todos sofremos com as consequências drásticas em todos os âmbitos.

O cenário independente no Brasil evoluiu bastante nos últimos anos, mas pensar qualquer produção artística e cultural hoje em dia se tornou um grande desafio. Mas a luta é essa. Se deixarmos de enxergar sentido na produção artística e cultural, daí sim será a verdadeira derrota para esse governo absurdo. O que me move continuar produzindo é justamente fortalecer a oposição ao obscurantismo cada vez mais escancarado. 

Talvez o papel basilar de uma revista independente seja o de instigar seus leitores a fugir do comodismo e a refletir sobre o mundo a partir de diversos pontos de vista e linguagens. 

Antes de qualquer coisa, publicar de forma independente é acreditar. Acredito na transformação por meio da arte. E vejo na Café Espacial uma das melhores formas de expressar isso. Para mim, é uma forma de resistência.

Quais são as suas expectativas em relação a esse 17º número da Café Espacial?

A nova revista ainda está ganhando forma, mas já estamos trabalhando para que seja a retomada de algo maior e que alcance um público mais amplo. Em outras palavras, as expectativas são as melhores possíveis, como sempre.

A capa da 10ª edição da revista Café Espacial, assinada por Susa Monteiro


Entrevistas / HQ

Papo com Emil Ferris, a autora de Minha Coisa Favorita é Monstro: “Estamos aqui para contar histórias e para ouvir, de peito aberto, para que cresçam nossa sabedoria e nossa empatia”

Minha Coisa Favorita é Monstro será lançado no Brasil no início do mês de março. A obra ganha edição em português após ser reconhecida com três prêmios Eisner (melhor álbum, melhor escritora e artista e melhor colorista) e com o Fauve d’Or, prêmio máximo do Festival de Angoulême. As 416 páginas da HQ de Emil Ferris foram desenhadas com esferográficas e canetinhas e compõem o diário ilustrado de Karen Reyes, uma menina de dez anos que se retrata como uma ‘lobismoça’ enquanto investiga o assassinato de uma vizinha sobrevivente do Holocausto num subúrbio da Chicago dos anos 1960.

Eu fiz duas entrevistas com Emil Ferris ao longo de 2018, uma no começo do ano e outra no segundo semestre. Essas conversas viraram matéria para o jornal Folha de São Paulo, na qual eu conto um pouco da história singular da autora e a longa saga de Minha Coisa Favorita é Monstro até sua chegada às livrarias. Recomendo a leitura do meu texto e, posteriormente, da entrevista a seguir, com a íntegra das minhas trocas de emails com Ferris. Nesse papo, a autora fala sobre as suas origens, conta um pouco da formação dela como artista e aborda algumas das inspirações que resultaram em Minha Coisa Favorita. Saca só:

[[a entrevista a seguir foi traduzida por Érico Assis, também tradutor da edição brasileira de Minha Coisa Favorita é Monstro, pela Companhia das Letras]]

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“Assim como todo cientista louco, eu fui ladra de túmulos enquanto criava o livro. Alimentei minha fome visual com tudo que ela queria”
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Página de Minha Coisa Favorita é Monstro, HQ da quadrinista Emil Ferris, lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras

Você se lembra do momento em que teve a ideia de criar Minha Coisa Favorita é Monstro? Você poderia contar um pouco sobre a origem desse projeto?

Me veio a imagem de uma garotinha lobisomem protegida pela capa de chuva de um garoto mais alto com cara de Frankenstein. Aí eu pensei: ‘Que coisa curiosa. Por que essa imagem?’ A história se aglutinou em torno desse momento.

Eu li uma entrevista em que você conta como foi difícil encontrar uma editora para o livro. Você pode contar um pouco sobre essa jornada? Quanto do livro já estava finalizado quando você começou a apresentá-lo para editoras?

Acho importante que todo artista que esteja atrás de publicar seu livro saiba que o sucesso de Monstro não aconteceu da noite pro dia. Fico contente que saibam que 48 editoras recusaram o livro porque consideraram que era diferente demais e grande demais. Espero que outros quadrinistas animem-se e sejam mais PERSISTENTES!

Você poderia falar um pouco sobre as suas técnicas e os materiais que utiliza?

A maior parte do livro foi desenhada com canetas Bic e Flair. No início eu tentei desenhar em papel de caderno pautado, mas logo me dei conta que a edição e a tradução iam ficar impossíveis. Agora são desenhos que viram uma camada sobre uma camada de folha de caderno.

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“Fiz esse livrão monstro no isolamento total. Ninguém leu antes de eu terminar, então não tive ideia do que eu ia criando”
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Página de Minha Coisa Favorita é Monstro, HQ da quadrinista Emil Ferris, lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras


Como é o seu ambiente de trabalho? Você poderia descrever o local no qual você criou Minha Coisa Favorita é Monstro?

No início eu estava trabalhando em um estúdio que ficava do lado dos trilhos do elevado e adorava o barulho do trem. Da minha janela eu conseguia ver as pessoas entrando e saindo dos trens. Como eu trabalho à noite, o trem iluminado e o elenco mutante eram minhas únicas companhias. Eu adorava morar ali. Mas aí a primeira editora não conseguiu publicar o livro, eu fui à falência e me despejaram. Agora estou em um apartamento horrível cheio de infiltração. Espero que em breve eu tenha como pagar um estúdio!

Eu gosto muito da singularidade de cada página de Minha Coisa Favorita É Monstro e das relações que você estabelece entre imagens e palavras. Você chegou a trabalhar com um roteiro fechado? Você teve alguma dificuldade em dar unidade ao livro em decorrência de toda essa variedade de designs e ideias?

No material promocional que eu enviei, descrevi o livro como uma espécie de monstro. É uma grande verdade. Assim como todo cientista louco, eu fui ladra de túmulos enquanto criava o livro. Alimentei minha fome visual com tudo que ela queria e a sorte que eu venho tendo é que os leitores parecem ter a mesma liberdade na experiência do livro que eu tive na criação.

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“Durante todos esses anos trabalhando no livro, eu me dizia: ‘Emil, é só seguir em frente.’ E ainda me digo, pelo menos uma vez por dia…”
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Página de Minha Coisa Favorita é Monstro, HQ da quadrinista Emil Ferris, lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras

O seu quadrinho me fez pensar bastante sobre a relação entre o escapismo intrínseco à leitura de quadrinhos (e obras de ficção em geral), mas também sobre o ato de desenhar como uma busca por escapismo. Eu vi isso na Karen assim como via em mim e nos meus amigos durante a infância, um hábito que fomos perdendo enquanto crescíamos. Você poderia me falar da sua relação com o ato de desenhar? Como você começou a desenhar? Desenhar sempre foi parte da sua vida?

Gostei muito que você comparou desenhar ao ‘escapismo’ sadio! Respondendo: Nasci com um tipo de escoliose que me incapacitou muito, deixou meus pés muito pequenos e, por conta disso, só consegui caminhar quando tinha mais de dois anos. Como eu não podia explorar o mundo com os pés, explorava desenhando. O desenho, como meu ‘prêmio de consolação’, foi meu primeiro escapismo na vida — bem literal, aliás. Fico contente pelo desenho sempre ter feito parte da minha vida e por ter me ajudado em épocas difíceis ou sinistras. Espero, com toda sinceridade, que quem ler isto aqui – alguém que já amou desenhar, quem sabe – volte a seu bloquinho. Desenhar é uma das grandes maneiras de cultivar amor próprio e honrar o que a existência tem de belo.

Ainda sobre escapismo: obras de horror e ficção sempre existiram como uma forma de retratar a nossa realidade. Seja falando sobre a Guerra Fria, o consumismo da nossa sociedade, a nossa relação com o meio ambiente… Enfim, esses são temas sempre presentes em trabalhos do gênero. O quanto você acha que esse aspecto de obras escapistas acabou se perdendo com o tempo? Você ainda vê essa mesma preocupação em tratar dos dilemas da nossa realidade na ficção feita nos dias de hoje?

Outra grande pergunta. Acho que Nietzsche foi muito visionário ao apresentar o conceito do ‘Último Homem’, o que se contenta em ter uma vida centrada na segurança, no conforto e no prazer. É um modelo de vida que exige que você fique plugado na cultura das celebridades, obcecada pelo entretenimento, comprometida com a distração. Acima de tudo, a meu ver, este modelo não valoriza o empenho artístico nem uma missão ou visão pessoal e idiossincrática.

É uma tendência que me preocupa. Recomendo a quem quiser nadar contra esta ‘onda anti-cultura’, que queira criar um obra que seja particular e complexa, que se livre da televisão e se desligue do noticiário, da mídia, o quanto for humanamente possível.

Eu nunca estive em Chicago, mas sei da relação da cidade com arquitetura, museus, autores de quadrinhos e arte em geral. Você se vê influenciada por esse ambiente tão criativo?

Com certeza. Chicago não só está entre as grandes cidades do mundo, Chicago também é osso duro. Em 1871 a cidade inteira pegou fogo, mas ergueu-se das cinzas para redefinir arquitetura, arte e cultura. Ela não desiste fácil!

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“Quadrinhos são sussurrar uma história do jeito mais íntimo que se imaginar, bem no ouvido do leitor. É uma coisa muito, muito íntima, porque esse cochicho entra lá naquela cabeça e fixa residência na arquitetura que o componente visual construiu dentro da mente”
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Página de Minha Coisa Favorita é Monstro, HQ da quadrinista Emil Ferris, lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras

Eu também li uma entrevista na qual você fala sobre as várias origens da sua família e de seus antepassados. Você poderia falar como todas essas raízes influenciaram a sua formação e a forma como você vê e cria arte?

Sou muito grata por ser – assim como a maioria das pessoas – toda remendada. Um Frankenstein, por assim dizer, de imigrantes, colonizadores e nativos. Essas origens, todas elas, são intensas e são complexas. Cada experiência tem uma mensagem forte que ilumina a dor e a beleza da vida. Na melhor das hipóteses, eu acredito que a herança ancestral de cada um pode nos ajudar a decifrar os problemas e grandes questões da vida de um modo que é mais pessoal e que cria uma narrativa. Na pior, nossa herança pode dar uma sensação de orgulho que é falsa e perigosa. Já vimos aonde isso leva.

Portanto, a meu ver, tendo uma parte da família de imigrantes mais recentes e outra parte de colonizados e colonizadores, eu penso muito em história. Penso em como ela vive conosco, consigamos ver ou não, porque tem vários sentidos em que nossa HISTÓRIA é o VERDADEIRO ‘Homem Invisível’. (Aqui estou pensando em Anka.)

DIGO ISSO PORQUE ESPERO MUITO QUE OS ARTISTAS CONTEM SUAS HISTÓRIAS DE FAMÍLIA. Nas Comic Cons, já ouvi artistas me contarem histórias dos ancestrais que me levaram às lágrimas.

Ou seja, boa parte do que digo aqui é direcionado a futuros autores às portas do sucesso e a leitores criativos (leitores também são grandes magos!)

Embora nossas raízes possam nos dar força e sustento, não creio que devíamos ser obedientes às raízes – em termos tanto do que elas desejam quanto da aptidão para nos segurar em um lugar só (no sentido que se quiser de ‘lugar’), mas principalmente no sentido artístico e espiritual. Acho que devíamos nos permitir contar nossas histórias de família, mas também nos dispormos a sair, como nômades, desenraizados, até os confins do mundos, e tentar entender as experiências dos outros no que elas têm de diferente. Também acredito que é assim que nós – como autores – armamos uma oportunidade para nossos leitores desenvolverem a empatia. Temos que nos decidir pela fidelidade às imaginações perfeitas que temos e nos empenharmos em ser de confiança quando formos levar gente na jornada que criamos.

Eu não sei se foi a sua intenção, mas o seu livro, para mim, trata de indivíduos singulares e da dificuldade de ser original e ver e pensar o mundo de maneiras singulares. Há um conservadorismo crescente no planeta que vê toda essa diversidade e originalidade de pensamentos como um problema. Você é otimista em relação ao mundo em que vivemos?

Sou muito, muito otimista. Tem uma mudança singular, grande e linda que eu acredito que vai acontecer em breve. Estamos aqui para um alçar o outro. Estamos aqui para contar histórias e para ouvir, de peito aberto, para que cresçam nossa sabedoria e nossa empatia. Eu acredito que somos conectados por uma energia. Quando uma pessoa fica mais sábia, mais bondosa, mais nobre no sentido humano, todos ficamos melhores. A maioria de nós anseia por amor. O amor sem disfarces e seus rebentos: aceitação, carinho e pertença. Quase todo mundo gosta de festejar quando supera os conflitos pessoais. Nos unimos através de toda Magia que nos torna humanos e creio que isso é uma coisa que, em breve, todo mundo vai descobrir.

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“Recomendo a quem quiser nadar contra esta ‘onda anti-cultura’, que queira criar um obra que seja particular e complexa, que se livre da televisão e se desligue do noticiário, da mídia, o quanto for humanamente possível”
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Página de Minha Coisa Favorita é Monstro, HQ da quadrinista Emil Ferris, lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras

Eu li alguns artigos sobre os efeitos da Febre do Nilo Ocidental na sua vida. Quais foram as principais lições que você tirou dessa experiência?

A Febre do Nilo Ocidental em ensinou que, quando temos grandes dificuldades, pode ser que eles nos preparem para ter mais força e mais dedicação. Perder a capacidade de desenhar fez eu valorizar muito esses dons, de um jeito que não tem precedentes. Também fez eu me sentir vinculada ao empenho de outros. Às vezes, quando as coisas ficam bem difíceis, a simples capacidade de seguir em frente já é uma vitória. Durante todos esses anos trabalhando no livro, eu me dizia: ‘Emil, é só seguir em frente.’ E ainda me digo, pelo menos uma vez por dia… e o importante é que eu me obedeço. Eu sigo em frente.

Quando conversamos pela primeira vez, o livro já havia sido muito elogiado pela crítica especializada, mas agora você tem três prêmios Eisner por causa dele. O que esse reconhecimento significa para você?

Acordei na manhã seguinte à premiação e foi bem difícil acreditar que tinha acontecido. A homenagem é especial sobretudo por causa do imenso talento do senhor Eisner e porque muitos dos meus colegas, autores de dons extraordinários, e muitos amantes dos quadrinhos votaram em mim. Saber disso me deixa profundamente comovida!

Eu gostaria de saber sobre a sua relação com a crítica e com esse interesse crescente pelo seu livro por parte da imprensa. O que você sente ao ver o seu trabalho tão analisado e interpretado e tantas pessoas interessadas no seu quadrinho?

Fico lisonjeada e um pouco ‘perplexa’ por essa coisa toda. Fiz esse livrão monstro no isolamento total. Ninguém leu antes de eu terminar, então não tive ideia do que eu ia criando. Tal como o Dr. Frankenstein, eu não tinha ideia de que ele ia ‘viver’ até que a ‘eletricidade’ das imaginações dos leitores começasse a fluir pelos seus ‘ossos’.

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“Fico contente pelo desenho sempre ter feito parte da minha vida e por ter me ajudado em épocas difíceis ou sinistras”
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Página de Minha Coisa Favorita é Monstro, HQ da quadrinista Emil Ferris, lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras

O que você pode contar sobre os próximos livros da série?

Karen vai crescer bastante. Em parte, isso foi difícil pra mim. Não quis que ela passasse pelo que ela tem que passar. Estou dando duro!

Qual a memória mais antiga da presença de quadrinhos na sua vida?

Quando eu tinha acho que um e meio ou dois anos, minha mãe me deu as Funny Pages (a página dominical de quadrinhos no jornal) para recortar e transformar em colagem. Eu gostava muito de recortar, colar e desenhar quando era pequena. Era assim porque eu não podia caminhar, devido à curvatura da minha espinha, então eu explorei o mundo no desenho. Eu gostava principalmente de recortar Ferdinando. Eu adorava as cores esmaecidas, o pontilhado. Adorava que a cor raramente fechava com os contornos. Eu transformava aquelas imagens nos meus gibizinhos de bebê, alegres e toscos.

O que são histórias em quadrinhos para você?

Quadrinhos são sussurrar uma história do jeito mais íntimo que se imaginar, bem no ouvido do leitor. É uma coisa muito, muito íntima, porque esse cochicho entra lá naquela cabeça e fixa residência na arquitetura que o componente visual construiu dentro da mente. Para mim, isso é uma mistura de teatro de bonecos, generosidade mágica e uma transfusão de sangue espiritual, tudo junto na mesma coisa.

(Ramon, dito isso tudo, há outras mentes dos quadrinhos melhores que a minha que podem dar mais complexidade a minhas ideias – sou relativamente nova nas HQs e tem muitos que sabem bem mais que eu!)

Você poderia recomendar algo que esteja lendo, ouvindo ou assistindo no momento? [pergunta feira em fevereiro de 2018]

Enquanto eu desenho, não consigo ler como gostaria, mas enquanto escrevo esta resposta eu ouço Pelléas e Mélisande, de Debussy. Ouço muito The Hanged Man, de Ted Leo, assim como o blues de Chicago e música dos anos 60.

Algumas coisas de quadrinhos que eu recomendo: How to Read Nancy: The Elements of Comics in Three Easy Panels, de Mark Newgarden e Paul Karasik; Fetch, de Nicole J. Georges; The Customer is Always Wrong, de Mimi Pond; Krazy: George Herriman, A life in Black and White, de Michael Tisserand; Legend, de Sam Sattin e Chris Koehler; King Kong, Skull Island, de Joe DeVito.

E livros textuais: The Girl With All The Gifts, de MR Carey.

Praticamente só vou no cinema, não assisto tevê. Achei A Forma da Água maravilhoso, assim como Vazante, Pantera Negra, Corra! e Uma Mulher Fantástica.

A capa da edição brasileira de Minha Coisa Favorita é Monstro
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2020 MSU Comics Forum, por Emil Ferris

O Michigan State University Comics Forum é um encontro acadêmico anual sobre pesquisas em histórias em quadrinhos realizado na biblioteca da Universidade Estadual do Estado de Michigan, na cidade de East Lansing. Na semana passada rolou a edição de 2019, tendo o quadrinista Seth como principal convidado. Hoje foram divulgados os dois principais convidados da edição de 2020: Nick Sousanis, autor de Desaplanar, e Emil Ferris, autora de Minha Coisa Favorita é Monstro. Você confere outras informações sobre o evento clicando aqui. Mas falei isso tudo só pra divulgar o cartaz do evento, esse aqui em cima, com arte assinada pela Emil Ferris. Massa, né?

HQ / Matérias

Minha Coisa Favorita é Monstro: Emil Ferris e a longa jornada da HQ mais celebrada no mundo nos últimos anos

Eu fiz duas entrevistas com a quadrinista Emil Ferris no ano passado. Uma primeira no início de 2018 e outra em julho, logo após ela vencer três troféus do Prêmio Eisner (melhor álbum, melhor escritora ou artista e melhor colorista) por Minha Coisa Favorita é Monstro. Aproveitei o lançamento da edição brasileira do quadrinho pela Companhia das Letras para transformar as minhas conversas com Ferris em matéria para o caderno Ilustrada do jornal Folha de São Paulo.

O meu texto foi publicado sábado (23/2) e nele eu conto um pouco sobre a história do livro e a longa jornada de Ferris até o lançamento da HQ nos Estados Unidos e sua posterior chegada ao Brasil. Você o lê meu texto clicando aqui. Acredito na presença de Minha Coisa Favorita é Monstro em grande parte das listas de melhores quadrinhos publicados no Brasil em 2019 – e também na inclusão da obra no rol das HQs mais canônicas vindos dos Estados Unidos nas últimas décadas (como Maus, Fun Home e Asterios Polyp). Não deixe essa passar, combinado?

HQ

Je Suis Cídio #1, por João B. Godoi

O quadrinista João B. Godoi está morando na cidade de Angoulême, na França, e participando da classe internacional de quadrinhos da Ecole Européenne Supérieure de L’image (EESI). Eu conheci o João em 2016, na primeira edição do curso Os Ciclos Produtivos das HQs Brasileiras. Na mesma época ele publicou um quadrinho na 16ª edição da Café Espacial e o primeiro trabalho solo dele, Verônica. Depois, ele criou o selo/coletivo Dangô, junto com os também quadrinistas Kainã Lacerda e Victor Reis. O Dangô publicou títulos dos outros dois membros do selo, de artistas convidados e duas edições impressas da revista Vira Lata – disponíveis online junto com o terceiro número, que ainda não saiu no papel.

Pouco antes da ida do João pra França, sugeri dele fazer uma espécie de série/diário da rotina dele por lá e assim nasceu Je Suis Cídio. “Sempre gostei muito de quadrinhos sobre o cotidiano, meio como diários em quadrinhos, como fazem a Gabrielle Bell, a Julia Wertz, o James Kochalka e também aquele Vida Boa, do Fabio Zimbres”, explica o autor em relação às influências presentes no projeto. A página aqui em cima e a outra abaixo são o primeiro número de Je Suis Cídio, que deverá voltar a aparecer semanalmente aqui no blog. Também reproduzo a seguir uma breve conversa por email com o autor, na qual ele fala sobre os planos pra série e a rotina dele em Angoulême. Ó:



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Você poderia se apresentar, por favor? Você pode falar um pouco sobre a sua experiência com quadrinhos até o momento?

Bom, meu nome é João. Em 2014 comecei a ter vontade de produzir quadrinho. No ano seguinte comecei, o que gerou nos meus primeiros fanzines, com a última história que fiz sendo publicada na Café Espacial #16. Logo depois fiz o curso de quadrinhos do Octavio Cariello na Quanta, onde comecei a fazer meu primeiro quadrinho maior, o Verônica, que lancei em 2017. Ao mesmo tempo, eu comecei um coletivo com uma galera da faculdade, que me fez começar a frequentar diversas feiras de publicações. Quando o coletivo acabou eu conheci o Kainã Lacerda e o Victor Reis, e nós lançamos o selo Dangô, pelo qual eu comecei a publicar minha série de quadrinhos mais atual, a Vira Lata. E no final do ano passado vim pra Angoulême estudar quadrinhos.

Quando você foi para a França e o que você está fazendo aí?

Me mudei outubro do ano passado. Estou participando da classe internacional de quadrinho na EESI, uma faculdade aqui de Angoulême.

Quadros da série Vira Lata, do quadrinista João B. Godoi

Você pode contar um pouco sobre a dinâmica do curso? Como são as aulas? Quem são os professores e os alunos?

O curso não está na grade regular da faculdade, então temos um orientador principal, o Benoit Tranchand, que é um autor e editor francês. Nos reunimos com ele quase toda semana e mostramos exercícios de narrativa que nos passam de tarefa. Além disso, ele tenta nos encaixar em workshops de outras turmas, o mais interessante que eu participei foi um organizado pelo Paul Karazik. Na minha turma tem outro brasileiro, o Marcos Machado, um espanhol, uma islandesa, duas chinesas e uma coreana.

Você já tinha morado fora do Brasil antes? Como tem sido a experiência de viver na França?

É a primeira vez que moro fora e tem sido uma experiência muito esquisita. Por eu ter decidido muito de repente me mudar, não estudei francês, o que foi um grande problema no começo, enquanto arrumava toda a vida aqui. Mas agora está mais tranquilo, estou estudando o idioma, já tenho um lugar certo para morar, telefone local e tal.

Quadros da série Vira Lata, do quadrinista João B. Godoi

Como costuma ser a sua rotina por aí?

Minha rotina dá uma variada, entre momentos com aulas em que chego lá as 9h e saio às 15h, e momentos de produção em que perco totalmente a noção de horário.

Por que batizar a série de Je Suis Cídio?

Boa pergunta… Esse nome eu tinha pensado há muito tempo. Eu não sabia muito o que colocar de título, lembrei desse e achei que combinava.

Você teve alguma inspiração em mente para a criação da série? Você tem alguma influência em mente no desenvolvimento desse trabalho?

Algumas. Sempre gostei muito de quadrinhos sobre o cotidiano, meio como diários em quadrinhos, como fazem a Gabrielle Bell, a Julia Wertz, o James Kochalka e também aquele Vida Boa, do Fabio Zimbres – que é ele fazendo humor com um personagem conversando com um copo numa sala sem mais nada. Também gosto muito do álbum Os Últimos Dias de Pompeu, em que o Andrea Pazienza desassocia o texto e as imagens, deixando que elas conversem mais ou menos em função do que tá rolando.

Quadros da série Vira Lata, do quadrinista João B. Godoi