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Je Suis Cídio #15, por João B. Godoi

O quadrinista João B. Godoi está morando na cidade de Angoulême, na França, e participando da classe internacional de quadrinhos da Ecole Européenne Supérieure de L’image (EESI). Desde sua chegada à Europa ele vem produzindo uma espécie de diário em quadrinhos batizada de Je Suis Cídio, mostrando um pouco da rotina dele em Angoulême. 

Hoje compartilho a 15ª atualização de Je Suis Cídio aqui no blog. Vocês conferem os 14 capítulos prévios do projeto clicando nos links a seguir: Je Suis Cídio #1Je Suis Cídio #2Je Suis Cídio #3Je Suis Cídio #4Je Suis Cídio #5Je Suis Cídio #6Je Suis Cídio #7Je Suis Cídio #8Je Suis Cídio #9Je Suis Cídio #10Je Suis Cídio #11Je Suis Cídio #12, Je Suis Cídio #13 e Je Suis Cídio #14.

Entrevistas / HQ

Papo com Jason, autor de Eu Matei Adolf Hitler: “Sou bem pessimista em relação ao futuro. Acho que só vai piorar. Vamos nos autodestruir”

Eu Matei Adolf Hitler é o segundo álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil. O primeiro, Sshhhh!, saiu por aqui em 2017 pela mesma editora Mino que lança a ficção científica com a presença do líder nazista. Torço para que não fique apenas nesses dois e logo mais cheguem outros trabalhos do autor em português.

Ontem eu publiquei aqui no blog uma matéria na qual falo mais sobre Eu Matei Adolf Hitler, o estilo do autor, as técnicas utilizadas por Jason e alguns dos temas mais caros a ele. Hoje eu reproduzo a íntegra da minha entrevista com o artista. Papo bom demais – assim como a entrevista dada por ele ao blog em 2017, na época do lançamento de Sshhhh!. Saca só:

“O Hitler não é realmente importante na história, ele só aparece em alguns painéis. Eu estava mais interessado nos outros personagens”

Quadros de Eu Matei Adolf Hitler, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino

Quais são as suas memórias mais antigas relacionadas a quadrinhos?

A leitura dos quadrinhos da minha irmã mais velha, que era uma série da Europa Ocidental chamada Silver Arrow. Tenho certeza que devo ter lido alguns Pato Donald, que eram muito populares na Escandinávia, e ocasionalmente quadrinhos de super-heróis. Depois, descobri os álbuns de Tintin na biblioteca e realmente gostei deles.

Quais técnicas você utilizou para criar Eu Matei Adolf Hitler? Você usa apenas papel e tinta?

Eu uso um pena e tinta. Eu gosto do efeito de variação na linha. Eu não faço nada no computador. Eu não tenho uma Cintiq ou algo assim. Chama-se Cintiq? Não tenho certeza. Eu não gosto de quadrinhos que tenham cara de computador. Os desenhos e as letras devem estar no mesmo ambiente, não gosto de colocar depois no Photoshop. Eu faço o letreiramento dos meus quadrinhos a mão. Para a edição brasileira eles estão utilizando uma fonte, mas pelo menos ela é baseado no meu letreiramento manual.

Você se lembra do momento em que teve a ideia de criar Eu Matei Adolf Hitler? Se sim, você poderia me dizer como isso aconteceu?

Eu queria fazer uma história com máquina do tempo e matar o Hitler é uma ideia meio óbvia. Ao mesmo tempo, o Hitler não é realmente importante na história, ele só aparece em alguns painéis. Eu estava mais interessado nos outros personagens, no casal principal que faz a viagem no tempo e em como todos esses acontecimentos da história os afetam.

“Você só precisa olhar para o que está acontecendo na sociedade hoje. Os sinais não são nada bons”

Quadros de Eu Matei Adolf Hitler, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino

Você já pensou sobre a ideia de matar Adolf Hitler? Você faria isso se tivesse uma máquina do tempo?

Não, eu nunca pensei sobre isso. Eu não sei o que faria com uma máquina do tempo. O Louis CK tem uma piada ótima sobre isso, que ele não a usaria, ou talvez apenas colocasse uma bebida nela.

Seu personagem principal chega no passado antes da Segunda Guerra Mundial, quando Hitler era apenas uma sombra do que ele se tornaria. Há muitos políticos de extrema-direita em posições de liderança no mundo agora – Trump nos EUA, Bolsonaro aqui no Brasil e Marine Le Pen na França, por exemplo. Você está preocupado com o nosso futuro? Você é otimista?

Não, não, sou bem pessimista em relação ao futuro. Acho que só vai piorar. Vamos nos autodestruir. A América tem um presidente que não acredita em mudanças climáticas. A indústria de combustíveis fósseis gasta milhões subornando políticos. As abelhas estão morrendo. As coisas só serão feitas quando for tarde demais. Eu estarei morto em talvez 30 anos. Felizmente. Eu sinto muito pelas crianças de hoje que terão que viver no futuro. Se houver algo como reencarnação, eu diria ‘não, obrigado’.

Eu sou um leitor do seu blog e vi que você tem lido muito Philip K. Dick. Muitos dos romances dele não são muito otimistas em relação ao nosso futuro. Você acha que deveríamos levar nossas ficções – e refiro-me não apenas à ficção científica – mais a sério?

Eu acho. Dick tem sido muito bom para prever o futuro. Mas realmente, você só precisa olhar para o que está acontecendo na sociedade hoje. Os sinais não são nada bons.

“O leitor não deveria notar a narrativa. Nada é pior do que apontar qual deve ser o próximo painel ou causar uma confusão na ordem de leitura”

Quadros de Sshhh!, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino

Quando eu te entrevistei pela primeira vez, você me falou como quadrinhos sem texto exigem um pouco mais de clareza no narrativa. Eu Matei Adolf Hitler tem texto, mas eles são muito objetivos e breves. Você tem alguma preferência para escrever quadrinhos mudos ou quadrinhos com textos?

Eu fiz quadrinhos mudos porque eu achava difícil trabalhar com texto. Agora eu acho que é a parte mais interessante de fazer quadrinhos. O desenho é a parte chata. Eu ainda gosto de painéis silenciosos e gosto de usá-los entre painéis que tenham mais textos. Às vezes o silêncio acaba dizendo mais.

Você poderia me falar um pouco sobre a sua abordagem em relação a cores? Você tem alguma técnica para definir uma paleta específica para um livro?

Eu não faço a colorização. Para os álbuns coloridos, como Eu Matei Adolf Hitler, eu trabalho com o Hubert. Estou muito feliz com o que ele faz, então não interfiro.

Eu gosto muito do ritmo dos seus quadrinhos. O uso dos grids fixos é a sua maneira de determinar o ritmo de uma história?

Eu gosto do grid. Ele me agrada esteticamente. E cada painel tem a mesma importância. Cabe ao leitor decidir se este é mais importante que o próximo. Dessa forma a história acaba sendo a coisa mais importante, não a forma como ela é contada. O leitor não deveria notar a narrativa. Nada é pior do que apontar qual deve ser o próximo painel ou causar uma confusão na ordem de leitura dos painéis.

Quadros de Eu Matei Adolf Hitler, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino

Eu gostaria de saber o que são quadrinhos para você. Você tem uma definição pessoal do que são quadrinhos?

Não, isso é algo que cabe a vocês críticos decidir ou debater. Pessoalmente, eu não penso nisso. Existe mais de um painel? Existe diálogo em balões? Ok, isso é quadrinhos!

Eu gostaria de saber sobre sua relação com a crítica. Como você se sente quando vê a análise ou as interpretações de alguém sobre seu trabalho?

Bem, eu prefiro receber críticas positivas! Comentários negativos são ok, caso o autor da crítica tenha um ponto e possa expressar seus problemas com o livro. Se ele percebe algo que eu não vi, isso é uma coisa boa. Mas na maior parte das vezes eu acabo tendo uma ideia se o livro funciona ou não. Se estou feliz com o livro, não me importo com críticas negativas ocasionais. Se tenho dúvidas em relação ao livro, aí é outra história.

O que você acha quando seu trabalho é publicado no Brasil? Nós somos todos ocidentais, mas estamos falando de culturas muito diferentes. Você tem alguma curiosidade sobre como o seu livro será lido?

Sim, isso é interessante. Eu fui traduzido para o coreano. Como eles veem os meus quadrinhos? Existe uma diferença entre isso e como os meus quadrinhos são lidos na França? Eu não sei. A universalidade vem de ser específico e local. As pessoas às vezes mencionam uma qualidade escandinava em meus quadrinhos, talvez fazendo referência a uma espécie de objetividade ou melancolia. Que talvez até estejam lá. Se eu tivesse nascido na Austrália ou na Ásia, meus quadrinhos teriam sido diferentes? Provavelmente. Mas quem sabe?

“Estou trabalhando em um novo livro, um romance gráfico de pequeno porte. É uma coleção de três histórias. Hemingway é um personagem”

Quadros de Sshhh!, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino

Você está trabalhando em algum novo projeto em particular agora?

Estou trabalhando em um novo livro, um romance gráfico de pequeno porte. É uma coleção de três histórias. Hemingway é um personagem. Eu também já fiz alguns rascunhos e algumas anotações para o livro seguinte, que será um álbum com o clássico formato francês e de 48 páginas.

Você poderia me falar sobre o seu espaço de trabalho?

Eu não tenho um local de trabalho espaçoso. É uma mesa simples, parte da sala de estar. Há um tocador de CD, que eu não uso muito mais, um scanner e um laptop. Há uma janela do outro lado da sala, com vista para o telhado do outro lado da rua.

Você poderia recomendar alguma coisa que tenha lido, assistido ou escutado recentemente?

Você mencionou Philip K. Dick. Eu li alguns dos livros dele recentemente. Eu comprei mais uns livros do John Fante, eu sou um grande fã de Pergunte ao Pó. Eu comecei a ler as histórias curtas dele e também romances como 1933 Foi um Ano Ruim. Eu tenho escutado muito Pentangle nos últimos dois anos. Eles fizeram vários discos folk nos anos 60 e 70. E também álbuns solo de John Renbourn. O Lagosta foi o último filme que eu realmente gostei. Mas devo admitir que também assisto a muitos filmes do James Bond, Missão: Impossível e John Wick.

A capa da edição brasileira de Eu Matei Adolf Hitler, do quadrinista norueguês Jason
HQ

Especial Vitralizado: Jason fala sobre Eu Matei Adolf Hitler, viagens no tempo e casais em crise

Os quadrinhos do artista norueguês Jason são habitualmente protagonizados por personagens antropomorfizados, as páginas são geralmente compostas por um número fixo de quadros e os balões de fala são raros. Eu Matei Adolf Hitler (Mino) segue este padrão. Apenas duas das 48 páginas do álbum não são compostas por oito quadros e o personagem principal é um assassino profissional de poucas palavras com feições de cachorro e problemas de comunicação com a namorada.  

O que foge à regra é a trama da obra: o protagonista é contratado por um cientista para viajar no tempo, matar o líder nazista e impedir o Holocausto e a Segunda Guerra Mundial.

“Eu sinto muito pelas crianças de hoje, que terão que viver no futuro. Se houver algo como reencarnação, eu diria ‘não, obrigado’”

Quadros de Eu Matei Adolf Hitler, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino

Hoje aos 53 anos e morando desde 2007 na cidade francesa de Montpellier, Jason é dono de dois Eisner Awards, prêmio máximo da indústria norte-americana de quadrinhos. Ambos os troféus foram vencidos na categoria de Melhor Edição Americana de Obra Internacional, um deles conquistado em 2008 por Eu Matei Adolf Hitler – traduzido para o português por Dandara Palankof.

Segundo quadrinho do autor publicado no Brasil – o primeiro foi Sshhh!, em 2017 -, a obra teve como ponto de partida a vontade de Jason de desenvolver uma ficção científica que contasse com uma máquina do tempo. A presença de Hitler é um acaso. “Hitler não é realmente importante na história. Eu estava mais interessado nos outros personagens, no casal principal e em como eles são afetados por todos os acontecimentos da história”, conta.

Habitantes de uma realidade sombria na qual assassinatos por encomenda ocorrem rotineiramente, o matador de aluguel está entediado com sua rotina profissional e sua companheira lamenta a falta de perspectiva do relacionamento dos dois. A encomenda da morte de Hitler e suas consequências afetam em definitivo a vida amorosa da dupla.

“Eu ainda gosto de painéis silenciosos e gosto de usá-los entre painéis que tenham mais textos. Às vezes o silêncio acaba dizendo mais”

Quadros de Eu Matei Adolf Hitler, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino

“As pessoas às vezes mencionam uma qualidade escandinava em meus quadrinhos, talvez em referência a uma espécie de simplicidade ou melancolia, e ela pode até estar lá”, pondera o autor sobre as reações pouco emotivas e as decisões práticas adotadas pelo casal para lidar com os ocorridos extraordinários ao seu redor.

Quadros de Eu Matei Adolf Hitler, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino

Já a opção quase obsessiva pelo número fixo de quadros é influência declarada do belga Hergé (1907-1983), criador do jornalista Tintim: “Cabe ao leitor decidir se um painel é mais importante que o seguinte. Dessa forma a história acaba sendo a coisa mais importante, não a forma como ela é contada. O leitor não deveria notar a narrativa”.

Hoje mais habituado com a presença de texto em seu trabalho, Jason prefere atualmente escrever do que desenhar. “O desenho é a parte chata. Eu ainda gosto de painéis silenciosos e gosto de usá-los entre painéis que tenham mais textos. Às vezes o silêncio acaba dizendo mais”, afirma

Quadros de Eu Matei Adolf Hitler, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino

Jason diz não ter pensado sobre como faria uso de uma máquina do tempo e se mataria Hitler caso tivesse a oportunidade de voltar ao passado. Já em relação ao futuro, ele é pessimista. O autor crê na autodestruição da humanidade.

“As coisas só serão feitas quando for tarde demais. Eu estarei morto em talvez 30 anos. Felizmente. Eu sinto muito pelas crianças de hoje, que terão que viver no futuro. Se houver algo como reencarnação, eu diria ‘não, obrigado’”.

Quadros de Eu Matei Adolf Hitler, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino
HQ

Leia a íntegra do Catálogo HQ Brasil, com a indicação de 70 quadrinhos brasileiros lançados entre 2009 e 2018

Os organizadores do Catálogo HQ Brasil disponibilizaram para download o PDF das 150 páginas do livro. Editado pelo tradutor, pesquisador e crítico Érico Assis, o projeto é uma parceria da Bienal de Quadrinhos de Curitiba com a Embaixada do Brasil em Portugal e tem como missão divulgar as HQs brasileiras no exterior.

Coube ao editor do livro selecionar 70 dos quadrinhos brasileiros mais icônicos e representativos lançados entre 2009 e 2018 – tendo como critério mostrar representatividade regional e de gênero e temas nacionais e da cultura brasileira. Você lê mais sobre a obra na entrevista que fiz com Érico Assis sobre o projeto. E você baixa o PDF do Catálogo HQ Brasil clicando aqui.

Cinema / HQ / Séries

Vitralizado #80 – 05.2019

Maio de 2019 foi o 80º mês de existência do Vitralizado. Número redondo celebrado à altura com entrevistas com Adrian Tomine, Érico Assis, Panhoca, Ing Lee e Emily Carroll, além de mais um monte de material exclusivo que você só encontra por aqui. Sem mais delongas, segue o baile e vamos logo pra junho porque já tenho umas pérolas pra compartilhar em breve. Apresento a seguir sumário com os principais posts do blog ao longo dos 31 dias de maio:

(a arte do Adrian Tomine que abre o post foi tirada lá do site da revista The Atlantic – aliás, leia a matéria do link, tremenda a história)

*Entrevistei o quadrinista Adrian Tomine sobre a edição brasileira de Killing and Dying, publicada por aqui pela Nemo com o título Intrusos. Essa conversa virou matéria pro jornal O Globo. A íntegra da conversa tá aqui;

*Bati um papo com o Érico Assis sobre o Catálogo HQ Brasil, parceria da Bienal de Quadrinhos de Curitiba com a Embaixada do Brasil em Portugal;

*Outra conversa boa foi com a Ing Lee, um grande novo talento dos quadrinhos brasileiros e autora da ótima Karaokê Box;

*O Panhoca publicou uma nova Revista Pé-de-Cabra – com uma tremenda capa da Emilly Bonna, diga-se de passagem – e troquei uma ideia com ele sobre essa segunda edição;

*E também conversei com a Emily Carroll, autora do ótimo A Floresta dos Medos, publicado por aqui pela DarkSide Books;

*Eu, o André e o Jairo retomamos as atividades do Escafandro Podcast e tivemos três atualizações nas últimas semanas: uma dedicada a Vingadores: Ultimato, uma sobre o fim de Game of Thrones e outra tratando de John Wick 3;

*O João B. Godoi continua ativo por aqui com as atualizações da série Je Suis Cídio. Em maio foram cinco novas edições, sendo duas delas com convidados especiais: Kainã Lacerda e Carlos Carcassa;

*Dei duas dicas boas de podcast vindas lá do The Virtual Memories Show: uma entrevista com o Seth e outra com a Nina Bunjevac;

*E três rapidinhas que achei demais: dei um toque procê assinar logo a newsletter do Adão Iturrusgarai, mostrei uma capa nova do Tom Gauld pra New Yorker e chamei atenção pro anúncio da francesa Éditions Cornélius para próximo álbum do Charles Burns.

>> Veja o que rolou no Vitralizado #79 – 04.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #78 – 03.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #77 – 02.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #76 – 01.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #75 – 12.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #74 – 11.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #73 – 10.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #72 – 09.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #71 – 08.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #70 – 07.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #69 – 06.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #68 – 05.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #67 – 04.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #66 – 03.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #65 – 02.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #64 – 01.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #63 – 12.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #62 – 11.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #61 – 10.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #60 – 09.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #59 – 08.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #58 – 07.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #57 – 06.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #56 – 05.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #55 – 04.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #54 – 03.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #53 – 02.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #52 – 01.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #51 – 12.2016;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #50 – 11.2016;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #49 – 10.2016;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #48 – 09.2016.

Entrevistas / HQ

Papo com Érico Assis, editor do Catálogo HQ Brasil: “O mais importante era mostrar como essa produção nacional é variada em todos os aspectos que se puder imaginar”

Está marcado para hoje, em Lisboa, o lançamento do livro Catálogo HQ Brasil. A obra de 150 páginas é uma parceria entre a Bienal de Quadrinhos de Curitiba e a Embaixada do Brasil em Portugal e tem como missão divulgar as HQs brasileiras no exterior. Para o cargo de editor do livro foi convidado o tradutor, pesquisador e crítico Érico Assis, cabendo a ele a missão de selecionar 70 dos quadrinhos brasileiros mais icônicos e representativos lançados entre 2009 e 2018.

Ao dar início à seleção das obras, o editor recebeu alguns critérios: o Catálogo precisava mostrar representatividade regional e de gênero e temas nacionais e da cultura brasileira. Partiu de Assis a sugestão do recorte histórico de dez anos. A lista inicial de quadrinhos passava dos mil títulos, entre álbuns de editorias, publicações independentes, séries e webcomics.

“Aí nos limitamos a 70 obras ou projetos, que podiam ser devidamente apresentadas em fichinhas nas 150 páginas do catálogo impresso. Adotamos mais critérios: variedade de estilos de desenho, variedade de gênero narrativo, não repetir autores e prestigiar obras premiadas”, conta o editor em conversa com o blog.

No evento de lançamento do Catálogo HQ Brasil estarão presentes Érico Assis, os quadrinistas brasileiros André Diniz e Rodrigo Rosa e o editor português Rui Brito, da editora portuguesa Polvo, uma das que mais publica quadrinhos brasileiros no exterior. Com tiragem limitada, o catálogo terá seu pdf posteriormente disponibilizado na internet. Na entrevista a seguir, Érico Assis fala sobre os desafios de chegar aos 70 títulos presentes no livro e apresenta algumas de suas reflexões decorrentes da produção da obra. Ó: 

“O Catálogo precisava mostrar representatividade de gênero, representatividade regionaltemas nacionais e da cultura brasileira

Uma página do Catálogo HQ Brasil falando sobre a série Know-Haole do quadrinista Diego Gerlach

Você explicou no Facebook quais foram os critérios estabelecidos para chegar nesses 70 títulos presentes no catálogo, mas eu queria saber mais sobre as suas metodologias e sobre as principais reflexões que passaram pela sua cabeça enquanto listava essas obras. Houve algum método de análise específico que você estabeleceu enquanto fazia esse trabalho?

Quando fui convidado a ser editor do catálogo, tanto o pessoal da Bienal de Quadrinhos de Curitiba quanto a Embaixada já tinham alguns critérios: o Catálogo precisava mostrar representatividade de gênero (um número próximo de autoras e autores),representatividade regional (produções de todas as regiões do Brasil) e temas nacionais e da cultura brasileira. De cara, eu já propus um recorte histórico: dez anos. E fui fazer um listão do que saiu de quadrinho brasileiro entre 2009 e 2018. A lista passou de mil publicações, entre álbuns de editora, material independente, séries, webcomics etc.

Depois fechamos mais um corte, que foi o tamanho do catálogo. Aí nos limitamos a 70 obras ou projetos, que podiam ser devidamente apresentadas em fichinhas nas 150 páginas do catálogo impresso. Adotamos mais critérios: variedade de estilos de desenho, variedade de gênero narrativo, não repetir autores e prestigiar obras premiadas.

Mas o principal norte é esta palavra que eu repeti várias vezes: variedade. Se íamos juntar um naco da produção nacional de quadrinhos no mesmo pacote, o mais importante era mostrar como essa produção nacional é variada em todos os aspectos que se puder imaginar. E sugerir que aquilo é só uma introdução ao quadrinho brasileiro. 

“O critério com que eu tive mais dificuldade foi o de representatividade regional. Por um monte de motivos, temos uma concentração pesadíssima da produção no sudeste e pouquíssima, mas pouquíssima mesmo, nas regiões norte e centro-oeste”

Capas da série Know-Haole reunidas em uma das páginas do Catálogo HQ Brasil

Quais foram os principais desafios que você encontrou enquanto editava esse livro e selecionava essas 70 HQs?

Ter segurança na minha lista e nas informações. Queria que existisse um grande cadastro dos quadrinhos publicados no Brasil…

Gostaria muito que os autores e as editoras se preocupassem em cadastrar (e verificar as informações) no que é esse grande cadastro, ou que é referência para mim e para um monte de projetos e pesquisas: o Guia dos Quadrinhos. Baseio números do mercado no que encontro por lá, mas sei que ele não responde por 100% da produção. De qualquer modo, não me pautei só pelo Guia,  e busquei informações inclusive entre os próprios autores.

Também gostaria que todo autor independente se preocupasse em ter ISBN, o que dá uma existência internacional à obra. Sei que é burocrático e que tem uma taxinha, mas ajuda a HQ a ser encontrada e respeitada.

O critério com que eu tive mais dificuldade foi o de representatividade regional. Por um monte de motivos, temos uma concentração pesadíssima da produção no sudeste e pouquíssima, mas pouquíssima mesmo, nas regiões norte e centro-oeste. As cinco regiões do Brasil têm obras no catálogo, mas a seleção representa esta disparidade de produção.

Eu já ouvi de muitos artistas sobre a importância da Rio Comic Con de 2010 para a formação deles ou como esse evento serviu de estímulo. O meu ponto: 2009/2010 parece ser um marco muito significativo para os quadrinhos brasileiros, dando início a uma onda de publicações que segue até hoje. O catálogo começa a cobrir exatamente nesse momento. Qual balanço você faz desse intervalo de 10 anos? Você consegue tirar uma lição maior ou sintetizar esse período de alguma forma?

Acho que este período teve uns elementos de estímulo que se combinaram: os festivais/feiras/convenções ganharam impulso (FiQ, Rio Comic Con, Bienal de Curitiba, CCXP); o PNBE estimulou uma pilha de editoras a publicar HQ; tem o PROAC em São Paulo; os prêmios e o reconhecimento no exterior e a contrapartida de reconhecimento nacional a Moon, Bá, Grampá, Albuquerque, Quintanilha, Reis, Deodato; o Catarse, que começou em 2011; e o momento bom da economia brasileira. Acho que são coisas que aconteceram à parte e geraram uma tempestade perfeita.

Aí a economia caiu e tudo mais caiu – com exceção da projeção dos brasileiros no exterior, que está crescendo e é reflexo tardio do período de tempestade perfeita. Não sei se dá pra tirar uma lição daí, fora a de que o mercado de quadrinhos brasileiro é muito sensível aos terremotos na economia brasileira.

“Não temos uma indústria com produção contínua nem temos uma base fiel de leitores/consumidores que dê estrutura para aguentar baques econômicos”

Uma página do Catálogo HQ Brasil falando sobre o álbum Aos Cuidados de Rafaela, parceria de Marcelo Saravá e Marco Oliveira

Ainda sobre esse mesmo intervalo: você consegue fazer um comparativo entre o universo dos quadrinhos brasileiros nos anos de 2009 e 2018? Quais você considera as principais mudanças? O que você acha que piorou? O que você acha que melhorou?

Isso daria um livro, né? Mas, pensando por alto, o que melhorou: mais (visibilidade da) diversidade de gênero entre os/as quadrinistas; mais prêmios importantes no exterior; mais publicações de brasileiros no exterior; projetos comerciais que trazem o “grande público” para o quadrinho nacional, como as Graphic MSP e a CCXP; mais graphic novels de fôlego, superando as 200 páginas.

O que piorou (ou o que poderia ter melhorado mas não melhorou): não temos uma indústria com produção contínua nem temos uma base fiel de leitores/consumidores – ou seja, um mercado forte – que dê estrutura para aguentar baques econômicos como o desses últimos quatro, cinco anos.

Pensando nesse trabalho com o catálogo e com o Fabuloso Quadrinho Brasileiro, você consegue ver algum padrão nas HQs nacionais? Digo, você vê alguma escola ou estilo predominantes? Alguma reflexão ou tendência que sejam comuns para grande parte dos autores brasileiros de quadrinhos?

Não vejo. E acho ótimo que eu não veja! Talvez só tenhamos o canibalismo: os autores brasileiros consomem HQs do mundo inteiro – gibi de super-herói, autobiografia norte-americana, BD de fantasia, shoujo – e misturam tudo na hora de fazer os seus.

Uma das páginas de Aos Cuidados de Rafaela presente no Catálogo HQ Brasil

O catálogo não trata apenas de obras, mas também de projetos – como o selo Graphic MSP e os Ugritos. Eu fico com a impressão de que esse período que o catálogo retrata é significativo não apenas em relação a autores e títulos, mas também de iniciativas e propostas editoriais. Há um peso, um envolvimento e uma presença maiores dos editores nacionais de quadrinhos nesses últimos anos?

Acho que não é desses últimos anos, pois começou antes. A Conrad e a Desiderata, por exemplo, foram marcantes para gerar essa nova fase do quadrinho brasileiro, mas são do início do século e nem aparecem no catálogo.

Por outro lado, sim, concordo que tem iniciativas editoriais inéditas. Duas das maiores editoras do mercado livreiro, a Companhia das Letras e a Autêntica, lançaram selos com bons quadrinhos nacionais: Quadrinhos na Cia. (2009) e Nemo (2011). A Barba Negra (2011) e a Veneta (2012) se mexeram para colocar autores nacionais no exterior. E a Graphic MSP foi um projeto marcante por divulgar nomes pouco conhecidos do grande público – e divulgando mesmo, dando ênfase aos autores – ao que é o grande público do quadrinho no Brasil, o material da MSP.

“O que aconteceu nesses últimos anos é que existiu um ambiente bom, com incentivos para váááários autores botarem suas verdades para fora e, dessa massa gigante, apareceu um bom número de obras excepcionais”

Uma página do Catálogo HQ Brasil falando sobre o álbum Castanha do Pará, de Gidalti Jr.

Você falou no Facebook sobre esse período de excelente difusão do quadrinho brasileiro no exterior, com cada vez mais álbuns nacionais saindo nos Estados Unidos e na Europa, prêmios importantes, agentes e tradutores ligados nos autores nacionais. Você vê alguma causa específica para esse interesse lá de fora no que tá sendo produzido por aqui?

A causa seria o Brasil fazer quadrinho bom? 🙂

Não sei responder muito mais que isso. Não é uma coisa que dê para se projetar: “vamos fazer quadrinhos que interessem aos gringos”. Acho que isso não existe. Sou da opinião que os autores têm que produzir o que querem, o que acham de maior verdade em si e querem botar para fora. Se isso vai fechar com o que o mercado – interno ou externo – quer ler, são outros quinhentos.

O que aconteceu nesses últimos anos é que existiu um ambiente bom, com incentivos para váááários autores botarem suas verdades para fora e, dessa massa gigante, apareceu um bom número de obras excepcionais. O que é excepcional circula entre a crítica, entre os leitores, entre os prêmios e chega aos olhos e ouvidos dos estrangeiros. Com alguns empurrõezinhos, como o Catálogo. 

Qualidade é um conceito bem abstrato e pessoal e pelo que entendi o catálogo não entra nesse mérito. Mas, eu queria saber, desses 70 títulos você tem um preferido? E tem algum deles que você acha como o mais interessante ou representativo desse período de 10 anos retratado no livro?

Pois é, você tem que dar critérios para definir o que é “qualidade”. Muitas das obras que selecionamos foram premiadas (HQ Mix, Angelo Agostini, Jabuti, Eisner etc.), o que dá para dizer que é um crivo de “qualidade” que não vem só de nós, organizadores do Catálogo.

Também não quis me deixar levar pelo meu gosto. Tem muita coisa que eu adoro que não está ali (Maya, do Denny Chang, Dinâmica de Bruto do Maron, Daytripper) e que não está por ene motivos. Tem várias obras de que eu, pessoalmente, não gosto, mas que se encaixavam nos critérios. Mas se for para escolher um preferido no Catálogo, eu iria de Mensur, do Rafael Coutinho.

A capa do Catálogo HQ Brasil