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30 Dias de Noite, Emily Carroll, Charles Burns, Fabien Vehlmann + Kerascoët e HQs nacionais: os próximos lançamentos da DarkSide Books em 2019

Os editores da DarkSide Books planejam dar continuidade à expansão da linha de quadrinhos da editora em 2019. O selo DarkSide Graphic Novels foi iniciado em 2017, com títulos como Meu Amigo Dahmer e Black Hole, ganhou aquisições de peso em 2018 com o lançamento de obras internacionais como Black Dog, de Dave McKean, e Refugiados, de Kate Evans. No ano passado saíram os primeiros quadrinhos nacionais, com Samurai Shirô, de Danilo Beyruth, e Imaginário Coletivo, de Wesley Rodrigues.

Em papo por email com o blog, o editor Bruno Dorigatti promete títulos impactantes para os próximos meses. Em seguida ao lançamento do mangá A Menina do Outro Lado, já chegou em algumas livrarias a coletânea de HQs de horror Floresta dos Medos, de Emily Carroll. O próximo lançamento será Big Baby, com algumas das primeiras HQs de Charles Burns. Depois virão Jolies Ténèbres (ainda sem título em português), trabalho de Fabien Vehlmann e Kerascoët presente em várias listas de melhores do ano em 2014, e uma edição comemorativa de 30 Dias de Noite, de Steve Niles e Ben Templesmith.

“Temos alguns projetos de HQs nacionais em desenvolvimento, ainda para 2019, mas que não podemos comentar agora”, adianta o editor. Na conversa a seguir, Dorigatti também fala sobre a repercussão dos lançamentos da linha de quadrinhos da DarkSide no ano passado, as principais lições que a editora tirou da crise das grandes livrarias e o retrocesso político pelo qual passa a sociedade brasileira com o governo de Jair Bolsonaro. Papo massa, saca só:

Páginas de Floresta dos Medos, HQ de Emily Carroll publicada pela DarkSide Books em 2019

Você pode, por favor, adiantar e comentar alguns dos lançamentos da editora para 2019?

Começamos o ano publicando nosso segundo mangá, A Menina do Outro Lado, do Nagabe; em breve já sai o segundo volume. Publicamos também o aguardado Floresta dos Medos, de Emily Carroll e suas histórias góticas; Francis, da italiana Louptyn, fantasia que dialoga com a produção japonesa; e Big Baby, compilação de histórias curtas do personagem do título, de Charles Burns. No prelo, temos Jolies Ténèbres (título a definir), com roteiro de Fabien Vehlmann e arte de Kerascoët. Ainda no semestre, saem as HQs da nossa parceria com a Image Comics; e uma edição comemorativa do clássico 30 Dias de Noite, de Steve Niles e Bem Templesmith.

E, no momento, temos alguns projetos de HQs nacionais em desenvolvimento, ainda para 2019, mas que não podemos comentar agora.

A capa de Big Baby, HQ do quadrinista Charles Burns que será publicada pela DarkSide Books em 2019

Como foi o retorno da editora em relação à linha de quadrinhos em 2018? Entre os meus títulos preferidos publicados por vocês ano passado estão Black Dog e Refugiados, que tipo de resposta vocês tiveram em relação a esses trabalhos?

O retorno dos leitores tem sido surpreendente. Nossos leitores e fãs que não eram leitores de HQs estão mergulhando nelas e compreendendo que o gênero hoje tem produzido muita coisa que foge dos padrões já estabelecidos. E os leitores de HQs seguem pedindo títulos já consagrados lá fora e que não haviam tido uma oportunidade por aqui, como Meu Amigo Dahmer, Creepshow, N. e Wytches. Ou estavam esgotados, caso de Black Hole e O Corvo.

Clássicos como a adaptação de Paraíso Perdido, de John Milton, pelo artista espanhol Pablo Auladell foi uma grata surpresa, com uma reação bastante empolgada dos leitores. E publicar a adaptação oficial de Yellow Submarine nos 50 anos da animação é algo que muito nos orgulha.

Black Dog tem maravilhado os leitores que conheciam o trabalho de Dave McKean sobretudo por conta de Sandman. Vimos a HQ mencionada em várias listas de melhores do ano dos blogs e canais dedicados ao gênero.

Refugiados é uma excelente obra de jornalismo em quadrinhos da britânica Kate Evans, e consideramos fundamental e cada vez mais necessário abordarmos questões urgentes, como a imigração, a crise dos refugiados, o aumento da xenofobia e do racismo.

Quadros de Black Dog, HQ de Dave McKean publicada pela DarkSide Books em 2018

Em 2018 a DarkSide investiu pela primeira vez em HQs nacionais. Qual balanço vocês fazem dessa experiência? Há planos para outras HQs de autores brasileiros para 2019?

Sempre foi o nosso desejo, e enfim conseguimos colocar nas ruas duas HQs bem diferentes, mas igualmente desafiadoras. Imaginário Coletivo é um projeto de alguns anos do Wesley Rodrigues, um dos grandes animadores brasileiros, uma fantasia surreal da qual éramos grandes fãs aqui na editora. Já com Samurai Shirô, é incrível ver o Danilo Beyruth se debruçar sobre uma história contemporânea, focada na cultural oriental e sua relação com a cidade de São Paulo.

A ideia do selo Graphic Novel é que ele continue a espelhar e a dialogar com as demais linhas editorias do nosso catálogo. Como disse acima, teremos novidades e mais autores nacionais em 2019.

Página de Imaginário Coletivo, HQ de Wesley Rodrigues publicada pela DarkSide Books em 2018

Quais as principais lições que a DarkSide tirou da crise das grandes livrarias que aflorou em 2018? Como a editora pretende lidar com essa crise em 2019?

O ponto pacífico, por ora, é que o modelo de consignação não pode mais ser o modelo de negócios do mercado editorial. Estamos sempre procurando abrir novas formas e novas parcerias para levar os nossos títulos para mais leitores e mais regiões do país. No final de 2018, inauguramos a nossa
nova casa, darksidebooks.com, com vendas diretas aos leitores, a Experiência Dark com produtos exclusivos (pôsteres, marcadores, luvas, sketchbooks) que acompanham alguns de nossos títulos, além do Dark Blog, que publica semanalmente novidades sobre o universo dos nossos livros.

A saída é ampliar o contato direto com os leitores, tanto de maneira on-line – apresentando e instigando os leitores a conhecer e se interessar pelos nossos lançamentos e também pelo nosso catálogo –, como participando de eventos e fazendo lançamentos, bate-papos, convescotes e outras formas de encontra e dialogar com todos aqueles que acreditam no poder das boas histórias.

Como a editora está lidando com a chegada ao poder de um governo de
extrema-direita que acabou com o Ministério da Cultura e que promete cortes em políticas públicas e sociais de fomento às artes?


O novo governo não se furta de nos decepcionar diariamente. Sabíamos que seria terrível, mas mesmo os mais céticos ainda tinham uma ponta de esperança de que não poderia ser tão medíocre, desestruturado e sem uma agenda definida. O trio de ministros ideológicos – formado pelo olavismo que sitiou e ocupou os Ministérios da Educação, das Relações Exteriores e do Meio Ambiente –, além do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, tem sido o mais preocupante.

Não só abriram mão de avanços recentes nas respectivas áreas, como têm caminhado a passos céleres rumo ao passado, sem pessoas minimamente capazes de compreender as complexidades do planeta em 2019.

O caminho é publicar obras que levem o leitor brasileiro ao diálogo e ao
questionamento. A literatura nos mostra outros pontos de vista, nos ajuda a caminhar e a encontrar novas saídas para questões urgentes e coletivas. Os temas contemporâneos sempre estiveram em nosso radar e seguimos publicando obras que certamente podem nos ajudar a encontrar saídas diante da tragédia na qual nos encontramos.

A capa de Floresta dos Medos, HQ de Emily Carroll publicada pela DarkSide Books em 2019
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Je Suis Cídio #5, por João B. Godoi

O quadrinista João B. Godoi está morando na cidade de Angoulême, na França, e participando da classe internacional de quadrinhos da Ecole Européenne Supérieure de L’image (EESI). Desde sua chegada à Europa ele vem produzindo uma espécie de diário em quadrinhos batizada de Je Suis Cídio, mostrando um pouco da rotina dele em Angoulême. 

As duas primeiras páginas do projeto foram publicadas aqui no blog no dia 20 de fevereiro, junto com uma entrevista na qual o autor fala sobre suas influências e inspiraçõesA segunda atualização entrou no ar no dia 28 de fevereiro e a terceira no dia 7 de março. O quarto post da série foi publicado na semana passada e hoje você confere mais duas páginas.

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Traduzir de pé: Érico Assis e a tradução de Intrusos, o primeiro álbum solo de Adrian Tomine publicado no Brasil

Intrusos é o primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil. O quadrinho lançado por aqui pela Nemo saiu originalmente em 2015, pela editora canadense Drawn & Quarterly, com o título Killing and Dying. Eu convidei o tradutor, pesquisador, jornalista e crítico Érico Assis, responsável pela tradução de Intrusos, para falar um pouco sobre a escolha do título nacional da HQ. Com vocês, Érico Assis:

Traduzir de pé, por Érico Assis

KILLING AND DYING.


MATAR E MORRER.

Ou MATANDO E MORRENDO.

Fácil de traduzir, né. Então, por que INTRUSOS?

Tem muita coisa em tradução que é fácil. Aqui não foi um caso.

A capa da edição brasileira de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine, publicada pela editora Nemo com o título Intrusos

Estou tão ou mais feliz que você que um álbum solo do Adrian Tomine vai sair no Brasil. Começaram pelo último, ok, mas sua missão é comprar dez exemplares e dar de presente. É assim que você convence a Nemo de que Shortcomings, Summer Blonde, Sleepwalk e outros valem a pena.

Mas por que este título? Porque tradução, às vezes, não é fácil. E por que é o título de um outro conto do mesmo álbum. Que é uma coleção de contos.

“Killing and Dying” também é o título de um dos contos de Intrusos. O conto trata de uma família – pai, mãe e filha – em que a filha quer ser comediante. Stand-up comedian, gente que faz “comédia de pé”. E como comediante a filha é, digamos, fraquinha.

Killing, na gíria do stand-up, tem sentido positivo: é quando a pessoa no palco está mandando bem, arrasando. “Matando” a plateia (de rir).

Dying, na gíria do stand-up, é o inverso: o ou a comediante é um fracasso. Vacilou, flopou. “Morreu” no palco.

Para complicar, o Tomine encaixou um duplo sentido em cima de dying: tem uma morte no conto. Ninguém mata (killing) ninguém, mas tem uma morte.

Então: Arrasos e Fiascos? Arrasou e Vacilou? Fulminadas e Mancadas?  E Tropeços? E Encalhadas? E Flopou?

Não gostei de nenhum. Nem os editores. Confesso que teve um momento em que eu defendi Matar e Morrer, e que o leitor juntasse os pontinhos com “matar de rir” e com a morte na trama. Não me convenci e também não convenci os editores, a Carol Christo e o Eduardo Soares. (O problema de trabalhar com editores bons é que eles são bons.)

Killing and Dying já tinha sido publicado em outros países, então fui atrás das soluções dos coleguinhas tradutores. Não é um recurso que eu uso muito – por falta de tempo e por falta de existência de edições estrangeiras – mas, neste caso, podia.

Vincenzo Filosa foi de Morire in Piedi na edição italiana. “Morrer de pé”. Parece boa jogada com “Comédia de Pé”… se uma parte significativa do leitorado brasileiro entendesse o termo “comédia de pé”, ou não falasse (como eu falo) “comédia de pé” com ironia escorrendo no cantinho da boca. Não rola.

A capa da edição italiana de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine

Aí descobri que os franceses – ou o tradutor Eric Moreau, no caso – foram de Les Intrus. “Os Intrusos”. É o título do último conto do álbum, “Intruders”. Quer dizer então que os franceses jogaram a toalha e resolveram batizar a coleção com o título de um conto diferente? Que espertinhos.

A capa da edição francesa de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine

Não foram os únicos. Raúl Sastre foi de Intrusos na Espanha. Björn Laser foi de Eindringlinge (Intrusos) na Alemanha. Parece que os franceses, que publicaram quase simultâneos com o original canadense/americano, lançaram moda.

A capa da edição espanhola de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine
A capa da edição alemã de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine

(Cabe aqui o comentário de que mudanças no título “fortes” como esta geralmente têm que passar por aprovação do autor ou da editora de origem. Não sei como foi neste caso e não me meti nessas negociações. [E nunca conversei com o Adrian Tomine.] Mas o fato de uma editora estrangeira ter conseguido mudar o título – ou três editoras, no caso – é sinal de que autor/editora original topam alterar o título.)

(Segundo a Drawn & Quarterly, a editora original, há também edições polonesa, chinesa e japonesa. Mas, destas, só consegui encontrar a capa da japonesa, que diz… Killing and Dying, em inglês.)

A capa da edição japonesa de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine

Resolvi seguir a moda. Mas não só pela moda. Em mais de uma resenha que eu li, “Intrusos” é considerado o ponto alto da coleção de contos, talvez o ponto alto da carreira de Tomine como contista, ou sua consagração como herdeiro do gekigá. O Douglas Wolk – não é qualquer crítico, é o Douglas Wolk – diz na resenha da Artforum que “Intrusos” podia ser o título da coleção porque todos os contos tratam, de certo modo, de homens de merda que atrapalham a vida de mulheres. Os intrometidos, os intrusos. Obrigado, Douglas Wolk.

Sim, Intruders podia ter sido o título original, só que Intruders é o nome de outros 142 livros, de um filme de terror recente com o Clive Owen e provavelmente de 7 pornôs. Killing and Dying é mais potente, sonoro, bonito e muito bem sacado para o conto que nomeia – mas só funciona com todos estes sentidos em inglês. Matar e Morrer seria potente, sonoro e bonito, mas não teria nada a ver com o conto.

Aliás, o conto segue na coleção e ganhou um título que veio de um dos editores, o Eduardo Soares (também tradutor experiente). Deixo para você mesmo descobrir quando comprar seus dez exemplares.

Trocar o título para Intrusos foi a melhor solução até onde minha capacidade como tradutor permite. Nada impede que você deixe um comentário logo abaixo com uma tradução genial de Killing and Dying, sonora, potente e com duplos ou triplos sentidos geniais que se encaixam no conto. Se for mesmo, você vai ouvir um TUNC: minha testa batendo na mesa.

Quadro de Intrusos, o primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil
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4ª (20/3) é dia de lançamento de Minha Coisa Favorita É Monstro, de Emil Ferris, em São Paulo

Ó, tenho um convite procê: na 4ª (20/3), a partir das 19h30, eu estarei na loja Monstra, aqui em São Paulo, na companhia do editor Emílio Fraia e da quadrinista Amanda Pachoal Miranda, para conversar sobre Minha Coisa Favorita É Monstro, álbum de Emil Ferris recém-lançado em português pela Companhia das Letras. Escrevi sobre a obra para a Folha de São Paulo e publiquei aqui no blog a íntegra da minha entrevista com a autora.

Como já andei falando por aí, é improvável que saia em português uma HQ mais singular e impactante do que Minha Coisa Favorita até o final de 2019. Por isso acredito que o foco principal da nossa conversa estará nos atributos que tornam esse trabalho tão especial. Também tenho muitas curiosidades para saber mais sobre o processo de edição e adaptação da versão nacional do quadrinho, tema que com certeza será tratado durante esse papo.

Enfim, a Monstra fica no primeiro andar do número 158 da Praça Benedito Calixto. Você encontra outras informações sobre o lançamento na página do evento no Facebook. Vamos?

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Je Suis Cídio #4, por João B. Godoi

O quadrinista João B. Godoi está morando na cidade de Angoulême, na França, e participando da classe internacional de quadrinhos da Ecole Européenne Supérieure de L’image (EESI). Desde sua chegada à Europa ele vem produzindo uma espécie de diário em quadrinhos batizada de Je Suis Cídio, mostrando um pouco da rotina dele em Angoulême. 

As duas primeiras páginas do projeto foram publicadas aqui no blog no dia 20 de fevereiro, junto com uma entrevista na qual o autor fala sobre suas influências e inspiraçõesA segunda atualização entrou no ar no dia 28 de fevereiro. O terceiro post da série foi publicado na semana passada e hoje você confere mais duas páginas – dessa vez narrando um ocorrido durante um breve retorno ao Brasil.

Entrevistas / HQ

Papo com Marcello Quintanilha, o autor de Luzes de Niterói: “Do meu ponto de vista, o horizonte apresenta nuvens de tempestade”

Luzes de Niterói é a primeira grande HQ brasileira a chegar às livrarias nacionais em 2019. Publicada na França e em Portugal no final de 2018, a obra de Marcello Quintanilha lançada pela editora Veneta tem 232 páginas coloridas e é livremente inspirada em um dia de caos vivido pelo pai do autor, o ex-futebolista Hélcio Quintanilha, nos anos 50. O álbum também é o primeiro projeto longo longo do quadrinista publicado em português desde Talco de Vidro (2015) e Tungstênio (2014) – nesse intervalo foram lançadas as coletâneas Hinário Nacional (2016) e Todos os Santos (2018).

Eu entrevistei o autor brasileiro residente em Barcelona e transformei essa conversa em matéria para o jornal Folha de São Paulo. Você lê o meu texto para a publicação clicando aqui. Depois, recomendo a leitura do álbum e da entrevista a seguir, a íntegra do meu bate-papo com o quadrinista. Nós conversamos sobre a relação dele com futebol, a produção de Luzes de Niterói, algumas de suas memórias de infância e as impressões dele sobre o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro. Saca só:

“O aspecto da região foi se solidificando mais e mais para mim a medida em que seus componentes iam dando adeus cotidianamente, dizimados pela locomotiva do progresso”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Luzes de Niterói é o seu primeiro livro longo desde Talco de Vidro e marca um retorno ao mundo dos subúrbios fluminenses, cenário da maior parte das suas histórias curtas. O que essa ambientação representa para você?

Não se pode voltar ao que nunca se deixou para trás. O aspecto da região foi se solidificando mais e mais para mim a medida em que seus componentes iam dando adeus cotidianamente, dizimados pela locomotiva do progresso, a medida em que as fábricas iam fechando as portas, as vilas operárias sendo descaracterizadas, os campos de futebol, loteados. O que resta, vive comigo. Essa ambientação em relação a Luzes de Niterói representa a comunhão com um país que emergia economicamente no período do pós-guerra, com sua característica indústria cinematográfica, repositório de um conjunto de coisas e valores dos quais infelizmente nos afastamos gradativamente, mas que são o alicerce da atual cultura brasileira de massas. Representa também a recuperação do mito do futebol brasileiro oriundo das fábricas, berço do esporte no país.

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Luzes de Niterói é a sua HQ mais pessoal?

Não, sob nenhuma hipótese. Todas as minhas histórias advém daquilo que me constituiu como ser humano e não estabeleço uma escala nesse campo — todas são o que eu sou.

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de quadrinhos na sua vida?

Os quadrinhos publicados nos jornais nos anos 1970, Brucutu, Dick Tracy, etc.

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de futebol na sua vida?

Uma transmissão de rádio. O timbre transistorizado da voz de Jorge Curi retinindo pela casa de luzes misteriosamente apagadas. Anos 1970.

“A coluna vertebral da HQ é integralmente baseada no que ouvi sobre o dia da temporal, assim como toda a atividade intramuros do cotidiano dos jogadores”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

O quanto da experiência do seu pai como jogador de futebol você levou para o quadrinho? Há muito dos relatos que você ouviu dele nessa HQ?

Muito, muito, muito. A coluna vertebral da HQ é integralmente baseada no que ouvi sobre o dia da temporal, assim como toda a atividade intramuros do cotidiano dos jogadores.

A literatura brasileira sobre futebol é composta principalmente por crônicas e relatos históricos e jornalísticos. Me refiro a trabalhos assinados por autores como Mário Filho, Nelson Rodrigues e, mais recentemente, Tostão. Há alguns anos foi publicado o livro O Drible, do jornalista Sérgio Rodrigues, um raro caso de literatura brasileira de ficção sobre futebol. Também não são muito comuns filmes com conteúdo ficcional sobre futebol. Você vê alguma particularidade no futebol que dificulta de alguma forma sua representação como obra de ficção?

Não, não vejo. O futebol é apenas mais um item no imenso catálogo de temas que jamais encabeçaram gêneros na ficção brasileira, a ponto de serem exauridos, posteriormente redescobertos e reinventados segundo novos parâmetros, partindo de um arcabouço consistente de histórias serializadas formado ao longo do tempo, em grande medida pela incapacidade por parte de diversos setores da produção de assimilar e, sobretudo, de se apropriar de suas premissas para a conversão em narrativa ficcional ultrapassando noções pré-estabelecidas.

Há uma corrente crescente por parte de fãs de futebol que questionam os rumos do futebol mundial, inclusive aquela que prega o “ódio eterno ao futebol moderno”. O que você pensa a respeito desse tema?

Nada é eterno.

“Meu interesse era criar uma palheta extremamente limitada, objetiva, de saturação média, ao mesmo tempo que nostálgica”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Você mora em Barcelona, cidade sede de um dos times mais tradicionais e conhecidos do mundo, um time com identidade de jogo e ideologia muito característicos, mas também representante desse tão questionado futebol moderno. Pelas suas obras é possível notar uma proximidade grande sua em relação a um tipo de futebol hoje considerado romântico – na falta de uma palavra melhor. A partir dessa perspectiva, você poderia, por favor, falar algumas das suas impressões sobre o Barcelona?

Uma vez sonhei em ser torcedor do Real Madri só para ter a oportunidade de aplaudir o Barcelona de pé no 0-3 da temporada 2005-2006 no Santiago Bernabéu.

Luzes de Niterói é o seu primeiro álbum colorido após três trabalhos em preto e branco. O que motivou o seu retorno às cores?

Novamente, não há um retorno. Esta idéia só faria sentido se a ordem de publicação dos álbuns correspondesse à ordem de confecção efetiva de cada um, o que nem de longe é o caso no que refere a mim. Como já declarei em outras ocasiões, trabalho de modo absolutamente anárquico, posso estar ocupado em vários projetos ao mesmo tempo, com vários registros distintos, de modo que tudo é fruto de um fluxo constante de atividade e álbuns que tenham sido publicados antes, não necessariamente começaram a ser produzidos primeiro. Sei que parece confuso. E é.

Quanto às cores, meu interesse era criar uma palheta extremamente limitada, objetiva, de saturação média, ao mesmo tempo que nostálgica, mas não necessariamente vintage e uma boa parte da pré-produção do álbum foi consumida neste fim.

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Quais técnicas e materiais você utilizou para a produção de Luzes de Niterói?

Esboços e finalização em papel, a base de grafite, pastel oleoso e guache e cores digitais.

Eu gosto como você mantém grande parte dos quadros da HQ desalinhados, ele soam para mim como um ruído que intensifica a tensão da obra. Você pode, por favor, comentar esse recurso?

Na verdade, não mantenho grande parte dos quadros desalinhados, mas sim todos eles. Isto decorre do propósito de reforçar o quadro como unidade narrativa, em oposição à idéia de que esta unidade esteja sujeita à página, prescindindo dela como marco rítmico da leitura.

“Minha intenção, se podemos utilizar esta palavra, é a comunicação mais honesta em qualquer etapa da narrativa e todos os estágios da obra são tratados sob os mesmos fundamentos”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Eu gostei bastante de Luzes de Niterói, sendo a minha sequência preferida aquela na qual o Hélcio vê o ‘filme da vida dele’ enquanto tenta retornar à superfície. Enquanto lia, percebi que fui prendendo a respiração junto com o personagem. Foi essa a sua intenção? Houve alguma particularidade na construção dessa sequência enquanto você produzia o quadrinho?

Não, não houve nenhuma. Minha intenção, se podemos utilizar esta palavra, é a comunicação mais honesta em qualquer etapa da narrativa e todos os estágios da obra são tratados sob os mesmos fundamentos. Acredito muito na musicalidade do texto e no papel que esta musicalidade pode desempenhar uma vez codificada em quadrinhos, imbricando seu léxico de símbolos, criando um andamento peculiar, marcado por esse compasso, na minha forma de ver, oposto ao senso comum de ‘efeito cinematográfico’.

“As artes são sempre vítimas preferenciais dos sistemas de governo em contextos de crise, sejam econômicas ou institucionais”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

O que você tem lido, ouvido e assistido ultimamente? Há alguma obra em particular, seja filme, livro ou música que tenha chamado sua atenção recentemente?

Of Human Bondage, de John Cromwell; Cidades Mortas, de Monteiro Lobato; Pelote das la Fumée, de Miroslav Sekulic-Struja e Arraial da Curva Torta, com Capitão Furtado.

Desde 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita que acabou com o Ministério da Cultura e promete cortes em políticas públicas e sociais de fomento às artes. Como você acredita que a sociedade brasileira será afetada por essa realidade?

As artes são sempre vítimas preferenciais dos sistemas de governo em contextos de crise, sejam econômicas ou institucionais. Sintomaticamente, nos últimos tempos nos deparamos frequentemente com o diagnóstico de “crise de representatividade” como um dos alicerces da campanha do atual presidente, o que sempre considerei uma afirmação fascinante, porque ela define que a classe política deixou de representar os anseios da população, o que traz implícito a idéia de que em momento determinado ela se constituiu de fato em porta voz das aspirações dos cidadãos. Uma olhadela na história da república, no entanto, nos trará uma percepção ligeiramente diferente dessa.

Do meu ponto de vista, o horizonte apresenta nuvens de tempestade. 

A capa de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta