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Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #2: “É muita gente diferente compartilhando o mesmo espaço”

Está no ar o segundo post da série Thiago Souto e a Av. Paulista. O projeto consiste na reunião de depoimentos de Thiago Souto, autor de Labirinto, sobre os bastidores e os temas abordados por ele em sua próxima HQ, na qual eu estou trabalhando como editor. O título do álbum, a editora responsável por sua publicação e a sinopse da obra serão anunciados nos próximos dias. Por enquanto, adianto que a obra será lançada na Comic Con Experience 2018, é ambientada na Avenida Paulista e aborda a dinâmica de  funcionamento da via aos domingos, quando é fechada para veículos e fica aberta exclusivamente para pedestres, ciclistas e skatistas.

Após comentar sobre suas lembranças mais antigas da Avenida Paulista no post de abertura da série, o artista fala agora sobre suas idas iniciais ao local após a abertura para pedestre aos domingos. A medida foi implementada em outubro de 2015 com o objetivo de fazer a população local se apropriar da cidade e o quadrinista tem estado rotineiramente no local aos domingos desde então. A seguir, aspas de Thiago Souto:

Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #2: “É muita gente diferente compartilhando o mesmo espaço”

“É preciso ocupar as ruas”

“Eu não lembro exatamente da minha primeira ida à Paulista aos domingos com ela fechada para carros. É engraçado: a Paulista sempre foi esse lugar democrático em que todo mundo ia pra expressar suas reivindicações e suas ideias, independentemente de quais elas fossem. A abertura dela aos domingos para pedestres fez parte desse movimento da gestão passada da Prefeitura de fazer a cidade e as ruas mais voltadas para as pessoas. Eu simpatizo bastante com a proposta, então lembro que as minhas primeiras idas nela aos domingos, exclusiva para pedestres, foi porque eu acreditava nisso. Óbvio, a Paulista tinha toda essa carga emocional para mim, mas a abertura aos domingos foi um projeto que tomei pra mim. ‘Isso tem que dar certo’, então vamos”.

“Tinha toda uma onda mais conservadora que achava a iniciativa uma péssima ideia, inventavam desculpas completamente absurdas. Eram pessoas que não saiam de casa a não ser para ir a um shopping e falavam besteiras em relação ao projeto. Mesmo que na época, por causa da novidade, alguns questionamentos fossem relevantes, valia à pena fazer um teste, ver o que ia acontecer. Então era importante estar na avenida aos domingos, para que aquilo desse certo. Então minhas idas iniciais foram muito nesse sentido”.

“Não sei se isso corresponde à realidade, mas lembro que uma impressão que eu tinha em relação às pessoas que iam naquela época inicial, nos primeiros fins de semana, era de um sentimento parecido com o que eu e a minha esposa tínhamos: é preciso ocupar as ruas, é preciso ocupar a Paulista para que essas ideias continuem vigorando. A partir do momento que ela ficasse vazia sabíamos que ia ter um carniceiro pronto pra queimar o filme. Íamos e as pessoas que víamos por lá tinham essa mesma vibe. As pessoas iam com essa energia de fazer coisas na rua, começavam a criar uma relação com aquele ambiente. Você via que as bandas e os músicos passavam a te reconhecer, te viam na semana seguinte e cumprimentavam. Então rolava uma cumplicidade entre as pessoas que iam nessa fase inicial e as que estavam por lá fazendo alguma atividade”.

“No nosso caso, por causa da Alice, minha filha, víamos sempre o pessoal das bolhas de sabão, as meninas que levavam bambolês e alguns grupos específicos. Eram bandas que eu, minha esposa e minha filha gostávamos muito e sempre assistíamos”.

“Se é pra ser democrático, então vamos ser democráticos de verdade”

“É engraçado, você vê diversidade nas pessoas que andam por lá, sejam pelas camisas ou qualquer outra coisa. E isso é bom no final das contas. Se é pra ser democrático, então vamos ser democráticos de verdade. Tava claro que a Paulista não era de um grupinho fechado de pessoas que simpatizam com um ou outro grupo político. Aí você ia vendo outros tipos ocupando aquele lugar e a Paulista começou a ficar mais cheia aos domingos e outras atrações começaram a aparecer. Depois de um tempo ela passou a ser usada com mais intensidade aos domingos para manifestações políticas, de todos os tipos inclusive. Aliás, algumas dessas manifestações não teriam público nenhum não fosse a Paulista aberta para os pedestres, elas se aproveitavam para planfetar pra quem estivesse passando”.

“Ainda vamos lá aos domingos, mas não com a mesma frequência do começo, até por ela estar ficando realmente muito cheia. Continua sendo uma experiência legal. Atualmente ela está muito mais com a vibe desse meu novo quadrinho do que na fase inicial, quando a sensação era mais de celebrar a ocupação da cidade, hoje já virou parte da rotina. Acredito que não há nenhuma hipótese dela voltar a funcionar aos domingos para carros”.

“Espécie de rugido…”

“Tem uma imagem que é muito impressionante para mim, me marcou principalmente nas primeiras vezes em que estive na Paulista aos domingos aberta só para pedestres: a hora, naquela época às 17h, em que a avenida é aberta para os carros. É uma transformação brutal. Em um momento você só escuta as vozes e o barulho da música, mas a medida em que os carros vão chegando, você começa a ouvir uma espécie de rugido. Era impressionante como o ambiente se transformava em questão de minutos.

“Toda essa inversão ligada à proposta inicial de tornar a Paulista mais humana tinha como objetivo mostrar como aqueles lugares poderiam ser muito mais aproveitados se as pessoas pudessem andar por eles, pudessem ter uma relação diferente que não envolvia o fluxo por carro ou ônibus. A mesma coisa vale pro Minhocão, que acho que já abria aos domingos antes da Paulista. É um lugar super barulhento que de repente tem gente andando e crianças brincando”.

“Eu gosto muito de andar, então o que for possível fazer a pé é melhor para mim. Quando você anda, tem uma relação muito diferente com o espaço que está ocupando. Até mesmo nesse momento da Paulista da semana, caótica, andando você passa a reparar mais o ambiente e as pessoas. De carro você não vê nada, só o cara que tá querendo te fuder no carro da frente (risos)”

“Tudo vira diversão”

“Quando a abertura pra pedestres aos domingos começou a valer, íamos pelo menos três domingos por mês. Hoje vamos, no máximo, uma vez por mês. Mas tem, sim, isso da rotina. No começo, tinham algumas bandas que gostávamos de ver. Por exemplo, o Grande Grupo Viajante, que ficava ali em frente ao Conjunto Nacional. Eles misturavam rock, brega, forró, funk, o tecno-brega do Pará, era bem divertido. Uma menina tocava sax e outra trompete, tinha um cara que tocava guitarra, um vocalista que fazia uma espécie de rap, um tecladista, um baixo… Era um grupo grande e eles estavam sempre lá. Íamos tanto que decoramos as músicas. A Alice adorava. Mas a rua acaba sendo muito dinâmica, alguns grupos, como esse, você não vê mais por lá. Pelo menos não encontrei nas últimas vez em que fui”.

“Sempre começamos os nossos passeios na Consolação, ali por perto do Metrô Consolação, subimos, almoçamos ali na Augusta, depois vamos em direção à Paulista e ao Conjunto Nacional. Aí andamos, andamos bastante, andamos e paramos no que gostamos”.

“Gostávamos bastante de parar com as meninas do bambolê. Nessa época do Grande Grupo Viajante tinha um grupo de meninas que ficava ali por perto que levava vários bambolês e a Alice tinha aprendido a girar e curtia. Era no mínimo meia hora parado por ali. Um pouco mais pra frente tinha um cara que fazia bolha de sabão gigante. Mais meia hora, pelo menos. Sabe aquelas saídas de ar do metrô? Fica uma ventania imensa e a Alice subia e ficava jogando jogando água pra ver a água flutuar… Crianças se divertem muito facilmente. É muita imaginação e ficávamos por lá esperando, olhando e chamando, ‘vamos, vamos ver o que tem mais pra frente’ (risos). Acaba sendo um parque grandão para as crianças”.

“Quem é pai talvez entenda: já é uma diversão ficar só olhando o seu filho brincar. Eu nunca fui o tiozão das crianças, mas depois que a Alice nasceu mudou a dinâmica. Você também passa a se divertir com muito menos, ver ela brincando passa a ser parte do entretenimento. Ela aprendeu a rodar bambolê na Paulista, por exemplo. Depois de umas três ou quatro vezes indo aos domingos. Teve épocas que de dentro do metrô, da Ana Rosa até a Consolação ela ficava girando (risos). Só isso já é parte da diversão”.

“Cada um no seu rolê”

“É muita gente diferente compartilhando o mesmo espaço. Mas nem sempre parecem estar no mesmo lugar. Cada um tá muito no seu próprio rolê. Eu tô fazendo isso aqui e não me importo muito o que tá rolando ali. Quando você para e olha tudo que tá acontecendo ao redor, você percebe como é esquizofrênica a coisa. Você tem de tudo. O cara de bicicleta, o cara do show, o louco dançando na rua, alguém pedindo intervenção militar em frente à FIESP, sabe? Essas merdas todas e tudo ao mesmo tempo, agora. Uma loucura, uma montanha-russa, mas ninguém está nem aí”.

“De certa forma as pessoas mantém a dinâmica que elas se comportam na cidade durante a semana, algo bem individualista, cada um na sua. Tirando quando tem um show com muita gente e acaba unindo muitas pessoas. Também naquelas, né? Todo mundo vendo, mas o nível de interação entre as pessoas não é muito grande. Sinto que isso se intensificou com o aumento do número de pessoas que passaram a ir aos domingos. Com menos gente, as pessoas interagiam um pouco mais, mas acho que isso é natural e, sei lá, tudo bem”.

CONTINUA…

ANTERIORMENTE:

>>Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #1: “Parecia coisa de ficção científica”.

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6ª (16/11) é dia de sessão gratuita de O Evangelho Segundo Tauba e Primal e papo com Fabio Zimbres

Um dos pontos altos de 2018 foi o relançamento do clássico Música para Antropomorfos pela Zarabatana Books. Junto com o livro assinado por Fabio Zimbres com a banda Mechanics, também rolou o lançamento do curta animado O Evangelho Segundo Tauba e Primal. A produção inspirada na HQ de Zimbres tem direção de arte e roteiro do quadrinista, trilha sonora do Mechanics e direção de Márcia Deretti e Márcio Jr. O filme já foi exibido em vários festivais e agora ganhará uma sessão com entrada gratuita na loja da Ugra (R. Augusta, 1371, loja 116), aqui em São Paulo, na sexta-feira (16/11), a partir das 18h30. A exibição do filme será seguida de um bate-papo com Zimbres no qual eu estarei trabalhando como mediador.

Você confere outras informações sobre a sessão de O Evangelho Segundo Tauba e Primal lá na página do evento no Facebook. Também recomendo a leitura da minha matéria sobre Música para Antropomorfos para o jornal o Globo, da minha entrevista com Zimbres e do meu papo com o Márcio Jr. sobre o relançamento desse clássico das HQ nacionais pela Zarabatana Books. E aí, vamos? Nos vemos na 6ª?

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Confira a capa e cinco páginas de ENXAQUECA, a nova história em quadrinhos de Felipe Parucci

O quadrinista Felipe Parucci divulgou aqui pro blog uma prévia de cinco páginas de sua próxima HQ. ENXAQUECA tem 80 páginas em preto e branco, foi bancada via uma campanha de financiamento coletivo no Catarse e tem lançamento previsto para a Comic Con Experience 2018. Autor de Apocalipse, Por Favor, Auto Ajuda e Já Era, ele conta em um papo rápido por email ter desenhado a obra integralmente a lápis: “Procurei usar os borrões do grafite pra dar uma sensação ‘enevoada’ própria da enxaqueca”. Segundo o autor, a obra tem tons autobiográficos e o resultado final acabou o surpreendendo. “Acho que é o quadrinho mais alternativo e, ao mesmo tempo, o mais comercial que já fiz hahahah”, diz.

A seguir, a sinopse oficial da obra, a capa e cinco páginas inéditas de ENXAQUECA. Ó: “Uma entidade cósmica com transtorno depressivo permanente vaga pelo universo e se depara com o insignificante planeta Terra. Ao analisar mais de perto esse corpo celeste singular em que vivemos, IAMANDUGARAI (o nome da tal entidade) fica furioso ao perceber que a espécie dominante no planeta é muito ESCROTA e resolve punir a humanidade (ou pelo menos um representante dela) com dor e agonia através de uma desoladora ENXAQUECA”.

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Stan Lee (1922-2018)

O jornal Folha de São Paulo me pediu uma análise sobre a carreira do quadrinista Stan Lee (1922-2018), morto ontem (12/11), aos 95 anos, em Los Angeles. Destaquei aqueles que considero os principais méritos do cocriador do Universo Marvel, como editor da equipe criativa mais interessante da história das HQs de super-heróis e responsável por mordenizar e moldar um dos gêneros mais populares dos quadrinhos mundiais. Você confere o meu texto clicando aqui.

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“Marcello Quintanilha vai tecendo sua pequena história secreta do Brasil”, diz Rogério de Campos sobre Luzes de Niterói, o novo álbum do autor de Tungstênio e Talco de Vidro

Está no ar a campanha de financiamento coletivo do álbum Luzes de Niterói, novo álbum do quadrinista Marcello Quintanilha. O quadrinho será o primeiro projeto longo do autor desde o lançamento de Talco de Vidro, em 2015. Segundo a sinopse oficial do projeto, a HQ marca um retorno de seu autor à cidade onde nasceu e cresceu, Niterói, em uma trama baseada em fatos ocorridos nos anos 50 envolvendo pescadores, futebol, a vedete Luz del Fuego e o primeiro campo naturista do Brasil. A página do projeto no Catarse pode ser acessada aqui.

“É um retorno [de Quintanilha] ao mundo dos subúrbios fluminenses, que foi o cenário da maior parte de suas histórias curtas, que fizeram sua fama”, conta o editor da obra e dono da editora Veneta, Rogério de Campos, em papo rápido por email com o blog. A expectativa é que o livro chegue aos apoiadores da campanha de financiamento coletivo em janeiro de 2019.

Na entrevista a seguir, o editor de Quintanilha fala sobre Luzes de Niterói, comenta o retorno do artista às cores após uma leva recente de publicações em preto e branco, trata da repercussão da adaptação de Tungstênio para o cinema, explica a opção pelo financiamento coletivo e promete novas formas de chegar aos leitores da Veneta em tempos de crise no mercado editorial. Ele também adianta a inclusão de novas opções de recompensas para a campanha de financiamento do quadrinho para os próximos dias. A seguir, Rogério de Campos:

Luzes de Niterói é o primeiro trabalho longo do Marcello Quintanilha desde Talco de Vidro. Quais são as suas impressões em relação a esse quadrinho?

Sim. É a primeira história longa desde Talco de Vidro e, ao mesmo tempo, um retorno ao mundo dos subúrbios fluminenses, que foi o cenário da maior parte de suas histórias curtas, que fizeram sua fama. É um retorno a temas que ele abordou em outros livros. O futebol, a praia, a pesca ilegal, a amizade e seus sacrifícios. Um retorno a seu pai, a experiência dele como jogador de futebol. Nesse reatar das linhas, o Quintanilha vai tecendo sua pequena história secreta do Brasil.

Você é um grande admirador de HQs em preto e branco. Luzes de Niterói marca o retorno do Marcello Quintanilha às cores depois de uma leva recente de quadrinhos em preto e branco. Como você avalia a presença das cores nesse projeto?

O que fazer se os artistas não obedecem a ninguém, muito menos a seus editores? Um dos prêmios da campanha de financiamento coletivo é justamente uma gravura com a reprodução da primeira página da HQ apenas no traço. É uma beleza! Mas além do problema que é a teimosia do Quintanilha, tem o problema dele ser tão talentoso como colorista. O resultado final, colorido, ficou lindo.

Você consegue mensurar o impacto do lançamento da adaptação de Tungstênio para o cinema na recepção dos quadrinhos do Marcello Quintanilha? Vocês notaram mais interesse por parte do público e dos livreiros nas obras assinadas por ele?

Serviu para muita coisa. Mas principalmente para mostrar a um público amplo a dimensão da narrativa de Quintanilha. Mais ainda: para mostrar o nível das novas narrativas dos quadrinhos autorais brasileiros. Imagino que para quem se acostumou a pensar em quadrinhos tendo como referência a produção industrial dos gibis infanto-juvenis norte-americanos deve ter sido uma surpresa.

Luzes de Niterói é a primeira campanha de financiamento coletivo da Veneta. Por que essa opção? Por que essa primeira investida no Catarse com um trabalho do Marcello Quintanilha?

O problema de pagamento das duas grandes redes de livrarias, fez a gente acelerar o trabalho para estrearmos esse modo de financiamento. Mas já há anos que considerávamos fazer isso. E o novo livro do Quintanilha pareceu uma ótima oportunidade: é um livro com 240 páginas, colorido, papel couché, capa dura… enfim, um livro que sairia muito caro se fosse depender apenas da venda em livrarias. Além do mais, deu a oportunidade de fazermos prêmios muito bacanas, as risografias estão ficando muito bonitas e eu finalmente terei um jogo de futebol de botão desenhado pelo Quintanilha!

A Veneta tem planos de investir em outros projetos de financiamento coletivo em seguida a Luzes de Niterói?

Sim! E vamos inventar outras formas de chegarmos aos nossos leitores.

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Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #1: “Parecia coisa de ficção científica”

O próximo álbum do quadrinista Thiago Souto será lançado na Comic Con Experience 2018. O título, a editora, a sinopse e as especificações técnicas da obra serão revelados nas próximas semanas. Primeira HQ do artista em seguida a Labirinto (2017), a obra contará com a minha participação no papel de editor.

Sem entregar muito sobre a trama, adianto que o álbum tem como foco a Avenida Paulista e dinâmica de funcionamento da via aos domingos, quando é fechada para a circulação de veículos e fica aberta exclusivamente para pedestres, ciclistas e skatistas. Dou início hoje à série de posts Thiago Souto e a Av. Paulista, na qual o autor fala sobre sua relação com os 2,7 km mais famosos de São Paulo e o desenvolvimento desse seu próximo projeto.

A série seguirá ao longo das próximas semanas, sempre às quintas-feiras. No post de hoje, o quadrinista fala sobre suas memórias mais antigas relacionadas à Avenida Paulista e as lembranças que guarda de suas idas ao local durante a infância. A seguir, aspas de Thiago Souto:

Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #1: “Parecia coisa de ficção científica”

“Super Quadra Morumbi”

“Eu não tenho uma lembrança específica, mais clara e objetiva da minha primeira ida à Avenida Paulista, nada do tipo ‘fui com os meus pais dar uma volta e aconteceu isso, isso e isso’. Tenho uma memória mais antiga, de quando era criança, de ir pra Paulista e andar por aquela região usando o metrô. Eu morava em um bairro afastado do centro, um bairro chamado Super Quadra Morumbi, que ficava… Seguindo a Avenida Giovanni Gronchi, bem pra frente, depois do estádio do Morumbi, você vira numa ruazinha entre o Campo Limpo e Taboão da Serra. Continua sendo um bairro bem residencial, porque fica nesse finalzinho da cidade. Se você dá mais um passo, tá no Taboão, dá outro passo, tá no Campo Limpo, os lugares mais próximos dali. Não leva a lugar nenhum, é o final da cidade. Até hoje tem pouco prédio e as ruas são pouco movimentadas”.

“Eu devia ter por volta de uns seis anos quando mudei pra lá. Antes eu morei no Cambuci, foi lá que eu nasci. Depois passei um ano morando no Arraial d’Ajuda, na Bahia, com os meus pais, que eram de uma vertente hippie. Voltei pra São Paulo, acho que ficamos um tempinho no Cambuci, depois outro período no Sumaré e então fomos pra esse bairro chamado Super Quadra Morumbi. Os meus avós maternos também tinham saído do Cambuci e ido morar lá nesse meio tempo em que ficamos na Bahia. Então fomos pra perto da casa deles e de alguns tios que moravam por lá também. Meus pais trabalhavam fora e deixavam eu e o meu irmão aos cuidados dos meus avós quando precisavam”.

“As estações de metrô pareciam naves espaciais”

“Então eu cresci nessa região muito afastada do centro de São Paulo, era quase como morar numa cidade de interior, inclusive pela distância. Tinham pouquíssimas linhas de ônibus e as linhas que passavam mais perto ainda eram afastadas da nossa casa. O meu pai trabalhava ali perto da Rua Pedro de Toledo e a família dele também morava naquela região, mais perto da Paulista. Aí que começam as minhas memórias mais relacionadas à Paulista. Lembro de quando criança usarmos o metrô e eu ficava muito fascinado, era quase ficção científica. Eu não tinha assistido Akira ou Balde Runner na época, mas quando vi fiz uma relação imediata com essa sensação de andar de metrô. Eu lembro da Linha Azul, ou da Verde, e as estações pareciam partes de naves espaciais. Nessa época, eu com uns oito ou nove anos, quando íamos dar uma volta na Paulista, eu achava estar num lugar meio extraterrestre. Eu ficava muito fascinado. Principalmente depois que descobri que aquele lugar era na mesma cidade que eu morava, embora fosse muito diferente da região em que eu vivia. Passei a sentir até um certo orgulho. ‘Olha, eu também moro aqui!’ (risos)”

“A memória afetiva é nesse sentido. Apesar de não viver naquela região central, onde tudo era ‘mais desenvolvido’ – grandes aspas, por favor -, eu sentia como se aquilo fizesse parte da minha vida também, embora não fizesse. Eu sentia um certo orgulho disso”.

“Imaginário de realidades alternativas”

“Ir à Paulista naquela época soava como uma aventura, sabe? Pra uma criança de oito ou nove anos, vivendo numa região afastada, era quase uma aventura. Era sair para conhecer um lugar meio alienígena, com esses prédios bem altos, com um monte de gente andando. Não era apenas a infraestrutura, a coisa de concreto e vidro impressionante, mas também a quantidade de gente circulando. Eu estava acostumado com um lugar em que eu via sempre as mesmas pessoas, sempre pouca gente andando pela rua e as coisas tinham horários muito pré-definidos para acontecer, com uma rotina bem pacata. Ir pra Paulista alimentava um pouco a minha imaginação, eu via um monte de gente diferente. Não importava muito o que eu ia fazer, era mais pela experiência sensorial de poder ver aquelas coisas. Toda criança tem esse imaginário de realidades alternativas: você vê um programa de TV e se imagina dentro de uma aventura espacial, por exemplo. Pra mim, pegar o metrô, ir pra Paulista e passear por ela me dava um ambiente real onde eu podia projetar toda essa minha fantasia. Era meio como uma materialização desse universo interno que eu ia criando”.

“O meu pai gosta muito de museus e exposições, então o vão livre do MASP tinha um significado especial pra mim. Lembro de ir ao MASP e tenho memórias muito fortes do vão naquela época, tanto com a feira que rola até hoje por ali quanto sem ela. Aquela construção sempre teve uma proporção muito gigantesca pra mim. Outro lugar era o prédio da Caixa, que tinha umas cadeiras e bancos de concreto, com formato circular. Por algum motivo era um lugar especial, eu também via ali algo de outro mundo. Acho que fecharam a entrada desse prédio e não sei se ainda dá pra circular mais por ali. Indo além da Paulista, todas essas construções de concreto muito grandes, como as estruturas do Memorial da América Latina, acabam sendo meio áridas e com muito vazio ao redor. Senti algo parecido quando fui a Brasília. Não são lugares muito convidativos, não são muitos humanos e nem orgânicos, parecem inclusive afastar um pouco. Não tem árvore, não tem cobertura, você fica muito exposto e é visto por todos os cantos. Tanto no vão do MASP quanto no prédio da Caixa eu tinha essa sensação”.

“Todo mundo sabia chegar na Paulista”

“Esses passeios eram muito com o meu pai, minha mãe e o meu irmão. Depois que eu fiquei mais velho passei a ir mais sozinho. Ia de ônibus e de metrô. Já com uns 14 anos eu ia pra lá com amigos de colégio, pegava ônibus pro centro, pra região da Galeria do Rock. Estudávamos de manhã, saíamos da escola de mochila e tudo, íamos pra [Avenida Professor] Francisco Moratto, perto do nosso colégio, e ali tinha um monte de ônibus, vários atravessavam a [Avenida] Rebouças, em sentido ao centro da cidade. Quando aprendi a fazer esse circuito de ônibus, em direção à Galeria do Rock, comecei a ir com esses amigos ou sozinho mesmo, só pra passear. Mas não era com tanta frequência assim”.

“Depois, já com uns 20 anos, aí sim passei a ir muito na Paulista. Passei a buscar coisas mais distantes daquela realidade do bairro em que eu cresci. Até os meus 16 ou 17 anos, até eu sair do colegial, apesar de ter contatos com algumas pessoas de fora do bairro, o meu círculo de amizade era muito restrito àquela região em que cresci. Depois que comecei a fazer faculdade e a sair mais, passei a ir mais pra Paulista. Acabava sendo um ponto de encontro fácil pra todo mundo. Todo mundo sabia chegar na Paulista. Depois que saí da casa da minha mãe, fui morar na Vila Madalena, próximo da estação de metrô e passei a ir direto pra lá, muitas vezes sem qualquer tipo de programação. Ia pra Paulista só pra andar. Às vezes descia na estação Clínicas e ia andando até a Paulista, andava por ela toda e voltava só pra poder andar mais. Simples assim, gostava de andar por lá e observar. Foi quando a Paulista se tornou algo mais comum pra mim, assim como a própria cidade de São Paulo. De certa forma, isso também me aproximou dos problemas da cidade, que se materializam bastante naquela região, né? Pelo menos para mim, ela é meio que uma síntese do que é a cidade. Se você quiser saber um resumão de São Paulo, é só ir da Consolação até a Bernardino de Campos e você vai ter uma ideia do que é isso aqui”.

CONTINUA…