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Cinema / HQ

Orson Welles, por Adrian Tomine

Semana pesada, deu nem tempo de passar direito por aqui, mas acho que a entrevista com Victor Bello sobre O Alpinista mereceu ocupar um espaço de destaque, na cabeceira do blog por uns diazinhos a mais, tô certo?

Dando uma atualizada pra arejar as coisas, mas com razão de ser. Esbarrei com esse retrato do Orson Welles assinado pelo Adrian Tomine publicado em uma edição da New Yorker de 2004. Vi lá no sempre excelente The Bristol Board.

Entrevistas / HQ

Papo com Victor Bello, autor de O Alpinista e Úlcera Vórtex: “Quando começo a desenhar eu nunca sei no que vai dar”

É difícil lembrar um quadrinho de estreia tão impactante e visceral na história recente das HQs nacionais como Úlcera Vórtex. Lançada em duas partes pelo selo Escória Comix em 2017, a HQ não foi a primeira obra do quadrinista Victor Bello, mas foi seu primeiro trabalho longo. As pouco menos de 100 páginas da HQ narram os feitos de Loépio de Deus e Adriano Gás na companhia da lagartixa Valdir Vegeta destruindo tudo o que veem pela frente contra os habitantes do violento mundo de Gorgonotúbia – instalado em um buraco negro interdimensional no estômago de um clone de Loépio.

De 2017 pra cá, Bello publicou Incontinência Tripária, 15ª edição da coleção Ugrito, e O Cegueta de Cristo, HQ curta impressa na segunda edição da revista Pé-de-Cabra. Trabalhos excelentes, mas apenas amostras do que viria a ser o grande feito do quadrinista em seguida a Úlcera Vórtex: O Alpinista.

Quadro de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pelo selo Escória Comix

Recém-publicado pela Escória Comix, o novo quadrinho de Victor Bello é um épico de 220 páginas em preto e branco narrando os dramas de Landoni, maior alpinista de todos os tempos, superado apenas em sua escalada derradeira, uma missão trágica que põe fim à sua carreira. Meses depois, o destino de Landoni vai ao encontro das investigações conduzidas pela detetive Norma Leprexau e seu parceiro Charles Bauduco em meio a uma conspiração envolvendo políticos e alienígenas que pode levar ao fim da vida na terra.

Espécie de repentista em quadrinhos, Victor Bello desfila personagens e tramas aparentemente improvisadas na construção de uma história grandiosa, com arte impactante e final catártico. Sempre exigindo fôlego do leitor. Dois anos após Úlcera Vórtex, o lançamento de O Alpinista sacramenta Bello como um dos grandes das HQs nacionais e a Escória Comix, do editor Lobo Ramirez, como uma das principais casas dos quadrinhos brasileiros.

Bati um papo com Victor Bello sobre O Alpinista. Na conversa a seguir ele fala sobre as inspirações e o desenvolvimento de seu novo trabalho, apresenta um pouco de sua formação como quadrinista e revela o início das atividades da Bufa Produções – parceria dele com a quadrinista Emilly Bonna que deve resultar em uma revista inédita no início de 2020. Saca só:

“Se tratando de esporte, não posso deixar de citar os filmes do Will Ferrel como uma influência, sabe aquele da patinação artística? E o da Nascar? E o de basquete? São tantos filmes bons!”

Página de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix

Você pode contar um pouco, por favor, sobre o ponto de partida de O Alpinista? Houve alguma inspiração em particular que te levou a começar a produzir esse trabalho?

Olá Ramon! Obrigado pelo espaço! Então, há muitos anos eu tinha na minha cabeça uma idéia boba de dois alpinistas que viviam disputando pra ver quem era o melhor. Até que um deles morre em um ato heróico e é considerado o melhor pra sempre, o que frusta totalmente o outro alpinista. Isso ficou guardado/esquecido e quando surgiu a vontade de fazer um novo quadrinho pra Escória Comix, vi que poderia usar isso para começar a minha nova história. Inspiração em particular eu não lembro, mas estava com muita vontade de fazer uma história sobre algum esporte. Peguei o alpinismo, que é um esporte praticado em todo o mundo, praticado até por bebês e velhinhos senis, e vi que poderia abordar muitas questões com isso. E, se tratando de esporte, não posso deixar de citar os filmes do Will Ferrel como uma influência, sabe aquele da patinação artística? E o da nascar? E de basquete? São tantos filmes bons!

Duas coisas que me impressionam muito nos seus trabalhos: a quantidade de personagens, sendo cada um deles muito desenvolvidos, e a as várias reviravoltas e tramas paralelas que você cria. O que vem primeiro na sua cabeça: os personagens ou as histórias que você quer contar? Ou eles vão se desenvolvendo ao mesmo tempo?

Obrigado! Acredito que primeiro vem a história. Conforme vou desenvolvendo a história, aí surgem os personagens.

“Todo mundo pode aparecer e todos os personagens têm história, assim como todas as pessoas no mundo tem sua história também! “

Quadros de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix

Enquanto o Úlcera Vórtex era protagonizado principalmente pelo Adriano Gás, o Alpinista tem vários coprotagonistas. Como você administra a presença, o desenvolvimento e a participação de cada um desses personagens no quadrinho?

Complicado, é algo mais instintivo. No Alpinista, depois da introdução, fiquei num pingue-pongue entre duas histórias separadas. Tento apresentar os personagens e a história individual de cada um deles aos pouquinhos, com mais sugestões do que revelações, pra atiçar a curiosidade e a imaginação da leitora e do leitor. Sem isso a história fica mortinha. Quanto à participação deles, como são muitos para administrar, prezo sempre pelo ritmo mais acelerado, cenas curtas, com rápida resolução ou um gancho. As vezes o personagem nem era pra ter importância, como o Guguto Milk. Neste caso, a história foi pra uma direção que acabou fazendo ele ser importante, aí vou vendo a necessidade de apresentar mais características dele, desenvolvê-lo, etc. No Úlcera Vortex, por exemplo, o dono da Agropecuária Iron Maide não ia aparecer, mas aí eu penso: por que não? Todo mundo pode aparecer e todos os personagens têm história, assim como todas as pessoas no mundo tem sua história também!

“O principal eu consegui fazer: colocar uma cena de onda gigante no gibi, coisa que não consegui em Úlcera Vortex. Se eu morrer hoje, morro feliz”

Um quadro de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix

Voltando à trama: O Alpinista tem muitos personagens e a história é repleta de reviravoltas. Eu precisei ir e voltar algumas vezes para não me perder no enredo. Como você construiu essa história? Você também teve alguma dificuldade para não se perder durante a trama?

Então, não há muito método em como construo a história, eu faço uma página e vou imaginando todos os possíveis desenrolos da trama, o que mais me agrada é colocado nela. A parte da investigação foi mais difícil, pois tive que voltar mais vezes na história para não deixar furos. Como os investigadores são meio burrinhos, é uma característica dessa trama uma certa dose de confusão, eles vão construindo o caso a partir de pistas que parecem não fazer sentido ou tirando conclusões precipitadas, indo por caminhos estranhos, etc. Acho que as pessoas podem se perder em algum momento… Ficaria feliz se todos tiverem essa paciência de voltar, ler de novo… Esse comprometimento com a história é legal e importante. Mas não sei como as pessoas vão receber, espero que se divirtam. De qualquer modo, o principal eu consegui fazer: colocar uma cena de onda gigante neste gibi, coisa que não consegui em Úlcera Vortex. Se eu morrer hoje, morro feliz.

Aliás, você chega a finalizar um roteiro antes de começar a desenhar? Como foi a dinâmica de produção de O Alpinista? Quanto tempo levou pro quadrinho ficar pronto?

É tudo bem amador hahaha Não consigo escrever roteiro. Anoto, claro, algumas idéias soltas e palavras chaves. Tem coisa que eu guardo na cabeça e depois esqueço, aí já era, mas se eu esqueci não era importante. Quando começo a desenhar eu nunca sei no que vai dar, então é mais fácil ir pra vários caminhos, criar histórias paralelas e vários personagens. O quadrinho demorou mais ou menos um ano. Comecei a produzir pra valer a partir de setembro de 2018. Mas em janeiro daquele ano eu já havia feito as primeiras cinco ou oito páginas. Terminei no final de julho de 2019.

“No começo ia ter 70 páginas, depois 100. De repente tinha 150, mas falei pro Lobo que não passsaria disso. Quando contei no final tinha 210, por aí” 

Página de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix

Você pode me falar, por favor, um pouco sobre as suas técnicas? Que materiais você usa? É tudo feito com papel e caneta? Tem algum elemento digital?

Trabalho com papel no formato A5, lápis e caneta nanquim. Em alguns momentos usei nanquim diluído em água. No computador eu pinto de preto as partes maiores dos desenhos. Também utilizo alguns tons de cinza e também aplico algumas retículas.

Como é a dinâmica do seu trabalho com o editor da Escória, Lobo Ramirez?

O cara é o chefe, né… A gente tem que respeitar. No caso do Alpinista, ele sabia pouco do que eu tava produzindo, mas é um carinha que confia em mim. Tinha mandado umas sete páginas pra ele, disse que seria uma história de um alpinista serial killer e eu até ia fazer isso, mas a história não rolou na minha cabeça, não ficava legal (inclusive acabo citando esse plot num diálogo entre Jimy Ioiô e Landoni). No começo ia ter 70 páginas, depois 100. De repente tinha 150, mas falei pro Lobo que não passsaria disso. Quando contei no final tinha 210 por aí, nem sei quantas páginas tem na verdade hahaha

“Hoje sonhei que dava uma bochada na cara daquele Weintraub, o incel, enquanto chutava os bago do Paulo Guedes, o babidi”

Página de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix

Em maio de 2019 Carlos Bolsonaro fez um post imbecil no Twitter atacando um leitor do Úlcera Vórtex que fez uma homenagem ao quadrinho nas redes sociais. O que você pensa dessa galera que tá no poder e das merdas que eles têm feito?

O Alessio Esteves postou uma foto com a coletânea Porta do Inferno e alguns apetrechos do Adriano Gás e uma jaqueta do Asteroides (do Lobo), disse que ia dar porrada em bolsominions e foi muito engraçado a repercussão. Bom, o Carlos Bolsonaro, que fez o post, é um dos brasileiros mais burros e filhos da puta do momento, junto com seu pai e aquela trupe bizarra de ministros (hoje sonhei que dava uma bochada na cara daquele Weintraub, o incel, enquanto chutava os bago do Paulo Guedes, o babidi). Depois do golpe que deram na Dilma e da tramóia que fizeram pra prender o Lula não tem como esperar coisa boa. O Bolsonaro é a encarnação de tudo que há de mais repulsivo na sociedade e política brasileira, representa um Brasil vira-lata, racista, que odeia pobres… Um cara envolvido até o pescoço com merda pesada, com milícia. Ele, e quem tá do lado dele, só vai fazer merda, quem espera o contrário merece uma enxadada nas costas também.

“Eu e Emilly Bonna, autora de Esgoto Carcerário, criamos a Bufa Produções e pretendemos lançar uma revista de quadrinhos já no início de 2020”

Um quadro de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix

Pergunta meio injusta porque você acabou de lançar um quadrinho de mais de 200 páginas e imagino que mereça um descanso, mas acho importante fazer: você já está trabalhando em algum projeto novo? Se sim, o que você pode adiantar?

Sim! Eu e Emilly Bonna, autora de Esgoto Carcerário, criamos a Bufa Produções e pretendemos lançar uma revista de quadrinhos já no início de 2020. Além disso, quero começar um novo gibi, de umas 40 páginas, mas ainda não confirmei com a editora que vai publicar, por isso não dá pra revelar muita coisa haha. Mas envolve sinuca!

Qual a memória mais antiga da presença de quadrinhos na sua vida?

Uma caixa cheio de gibi da Turma da Mônica, era a única coisa que eu lia quando criança. Gostava muito de uma história do Cascão no ferro-velho. E também meu irmão me dando um Teia do Aranha que ele tinha comprado num sebo.

Página de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix

O que mais te interessa em termos de HQs atualmente? Que tipo de quadrinho você gosta de ler? Tem algum autor ou alguma obra que te chama mais atenção?

No momento estou lendo pouco quadrinhos, infelizmente. Gosto dos desenhos do Derf Backderf, Johny Ryan, Lawrence Hubbard, Hideshi Hino… Muitas coisas que só vi pelo Google Imagens. Mas o que mais acompanho é essa cena independente de quadrinhos do Brasil, mais voltado pro humor e nojeira, o que vem sendo publicado pela Escória Comix, Pé-de-cabra, etc. Tem muita coisa aí que gostaria de ler, mas ainda não li. Fora isso estou com muita vontade de ler Carolina, da Sirlene Barbosa e do João Pinheiro.

Você pode recomendar algo que esteja lendo /assistindo /ouvindo /jogando no momento?

Recomendo muito o seriado Nathan for You, que só consegui legenda em português para as duas primeiras temporadas. Se tem alguma boa alma que sabe legendar e esteja lendo isso, por favor, legende as outras temporadas de Nathan For You.

Página de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix
A capa de O Alpinista, HQ de Victori Bello publicada pela Escória Comix
HQ

Você assina o canal do Lelis no YouTube?

Cara, não sei você, mas tenho achado YouTube uma pentelhação imensa. Só publicidade, muito barulho, gente querendo explicar o bê-a-bá e a razão de ser de toda e qualquer vírgula. Tá chato. Mas aí que volta e meia ainda rola de esbarrar com um ou outro vídeo digno de nota, tipo os que encontrei no canal do quadrinista Lelis. Já viu?

Autor de obras como Saino a Percurá – Ôtra Vez e Anuí e coautor do Goela Negra, o Lelis subiu 10 vídeos em pouco menos de duas semanas mostrando bastidores da produção de trabalhos feitos principalmente com aquarela e lápis, dando dicas de técnicas e materiais e apresentando algumas reflexões sobre quadrinhos e arte. Coisa fina.

Foi inspirador passar um tempinho vendo o Lelis trabalhar, então imagino que deva ser ainda mais interessante pra ilustradores e afins. Recomendo a assinatura do canal o quanto antes. Reproduzo alguns dos vídeos a seguir e aproveito a deixa pra refazer a pergunta: e aí, quem vai lançar por aqui o Popeye do Lelis e do Antoine Ozanam (mesma dupla de Goela Negra)? Dá o play:

Entrevistas / HQ

Papo com Galvão Bertazzi, autor da série Vida Besta: “Minhas tiras são um catálogo dos demônios internos que perambulam ao meu lado e dentro de mim”

A coletânea de tiras da série Vida Besta chega às lojas especializadas em quadrinhos 20 anos após Galvão Bertazzi comprar o domínio www.vidabesta.com. Com exceção de alguns breves períodos de hiato, o site continua na ativa desde o final da década de 90, apresentando em tons de vermelho, amarelo e laranja um pouco dos demônios internos do autor.

A publicação lançada pelo selo Pé de Cabra tem 64 páginas, introdução do quadrinista, músico e pesquisador Marcio Paixão Jr. e reúne as tiras mais recentes de Bertazzi, produzidas entre 2018 e 2019, sendo parte delas inéditas.

“Deve ter sido o choque com essa realidade medonha em que nos metemos”, cogita o quadrinista em relação à inspiração que o levou a retomar o ritmo quase diário de produção da Vida Besta entre o final de 2018 e o início de 2019 e impulsionou a impressão da coletânea.

Apesar de apresentado pelo editor Panhoca como a reunião das tiras mais recentes de Bertazzi “focadas no ódio, na mediocridade humana e na desesperança crônica do amanhã”, o autor diz ver essa leva recente de tiras impressa no livro funcionando “numa esfera muito mais pessoal do que sócio-política”.

“Mas obviamente a coisa toma seus próprios rumos e eu não posso mais controlar a leitura que fazem do meu trabalho”, pondera Bertazzi. No papo a seguir o quadrinista fala sobre falta de esperança, hipocrisia, religião, técnicas e o uso de botas. Sim, botas. Conversa bem boa, saca só:

“O apocalipse está acontecendo bem diante dos meus olhos, mas eu fui surpreendido de chinelo. Estou estupefato e não tenho pra onde correr sem machucar os pés”

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

Uma pergunta constante nas entrevistas do Vitralizado diz respeito à nossa realidade. Desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que é a nossa sociedade hoje. Levando tudo isso em conta, geralmente eu pergunto pros autores se eles são otimistas em relação ao nosso futuro, mas acho que a Vida Besta deixa explícito o seu pessimismo em relação ao Brasil e ao mundo. É isso mesmo? Você tem alguma esperança de mudança e/ou melhoria para a nossa realidade?

Vejo uma esperança, sim. Esperança que um meteoro caia mês que vem na Terra e destrua logo isso aqui, porque olha… Do jeito que a coisa anda, ter algum tipo de otimismo beira a loucura.

Pra começo de conversa, você precisa entender que eu sou um cara que até pouco tempo atrás ficava de botas dentro do apartamento, o dia inteiro. Eu ficava de botas porque acreditava que se algum tipo de catástrofe acontecesse, eu estaria preparado pra sair correndo ou caminhar por sobre os escombros em segurança. Pode parecer piada, mas isso é verdade! Foram anos de terapia pra dar uma aliviada nessa tensão constante de que algo muito ruim pudesse acontecer a qualquer momento. E vejam só, eu estava certo. O apocalipse está acontecendo bem diante dos meus olhos, mas eu fui surpreendido de chinelo. Estou estupefato e não tenho pra onde correr sem machucar os pés.

Resumindo. Não tem essa de “otimismo” não. Os canalhas venceram de vez! Fim.

P.S.: Mas não deixaremos eles em paz!

“Existe um quê de diversão masoquista no ato de se fazer as tiras

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

O editor da coletânea, Panhoca, me falou que esse livro é “só o ódio do Galvão”. Você acha essa uma boa síntese do que é essa obra?

Cara, não acredite nas coisas que o Panhoca fala. Ele mente pra vender livros, sabe? É praxe entre os grandes editores de livros esse tipo de coisa. Não é “só ódio” que me move. Tem o medo, o rancor, o desprezo, um sentimento de vingança latente. Mas a grande verdade é que existe um quê de diversão masoquista no ato de se fazer as tiras. É um exercício desafiador ( ou estúpido ) abrir os braços pro caos, ao invés de somente denunciar, alertar e fazer alarde. Tenho plena consciência que eu também sou , de certa forma, responsável por toda essa merda instaurada. É angustiante, mas ao mesmo tempo me faz desenhar com um pouco mais de liberdade pra criticar qualquer lado e dar risada de mim mesmo também. A chave de tudo é isso: rir de nós mesmos.

Consigo abordar esses desastres que se passam na minha cabeça e ao meu redor de forma pseudo natural, eu acho. O mais curioso é isso: não acho o Vida Besta engraçado, sabe? Eu queria fazer as pessoas chorarem. Mas sabe como é, os fracassos a gente não escolhe….

“Me divirto desenhando uma realidade onde os pensamentos mais obscuros pipocam pela boca de cada personagem sem nenhum pudor”

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

O Panhoca também me falou de três alvos principais desses quadrinhos da Vida Besta: religião, política e a mediocridade da classe média. Qual desses três temas te causa mais repulsa hoje? Qual desses três tópicos mais te incomoda e você sente mais necessidade de tratar?

Aqui eu preciso pontuar um aspecto importante do meu trabalho pra que ninguém nunca me acuse de hipocrisia quando eu ganhar meu primeiro prêmio Eisner, na categoria “Quadrinhos desnecessários para a humanidade”. O Vida Besta fala muito mais sobre mim, o Galvão Ser Humano Bípede e Cretino do que sobre as pessoas ao meu redor. Minhas tiras são um catálogo dos demônios internos que perambulam ao meu lado e dentro de mim.  

Eu tenho um apreço especial pelo tema religião. Só pra resumir: fui criado no berço de uma família católica que aos poucos foi, sorrateiramente, se debandando pra igreja evangélica. Os rituais da igreja católica eram demasiado apáticos naquela época, chatos e insuportáveis e o espetáculo circense e pirotécnico dos evangélicos levou todo mundo pra uma alegria demente e duma hora pra outra estavam todos falando na língua dos anjos e recebendo recados secretos do próprio Jesus.  Esse movimento foi muito esquisito e, graças a deus (ou ao capeta ), fui salvo pela maconha, o vinho barato e o rock vagabundo na hora certa, e aí consegui me abortar da família nesse aspecto.

Você precisa entender que brincar com Jesus, Deus e o Diabo é algo muito pessoal. Tem um peso muito forte pra mim, pois durante muito tempo foi desafiador fazer piada ou deboche com algo tão “sério”, sabe?  Hoje eu tenho a plena consciência que, tendo me libertado desses receios há muito tempo, eu acumulei muita munição pra usar nos dias atuais, quando parece que estamos caminhando de volta aos tempos sombrios da idade média inquisitória. Então ainda teremos muito capeta e piroca, sim senhor.

Por outro lado, deve dar pra contar nos dedos o número de tiras pontuais sobre política. O lance é que eu não gosto de desenhar sobre política. A verdade é que eu não entendo NADA de política. Nunca entendi e meus esforços pra ter alguma clareza só me deixam mais confuso. Eu sou o sujeito na mesa de bar que fala bobagens sem sentido e é repreendido, tanto pelos amiguinhos da esquerda quanto pelos amiguinhos da direita ( é, eu tenho amiguinhos de direita ).  Se você acompanha meu trabalho, vai perceber que quando o assunto é política a análise é rasa e quase sempre termina em algo como “vai tomar no cu, ( coloque aqui o nome do seu político preferido )”, ou com algum personagem tacando fogo ou explodindo tudo. A fórmula que eu achei pra falar sobre política é focar no inconsciente coletivo, no que as pessoas comuns pensam, fingem não pensar e sintetizo isso tudo num desabafo quase sempre fatalista. Parece funcionar.  

O meu foco sempre esteve nas relações humanas e suas nuances. Me divirto desenhando uma realidade onde os pensamentos mais obscuros pipocam pela boca de cada personagem sem nenhum pudor, e todos eles se resolvem de forma natural e patética, porque sabem que são todos iguais em seus medos, preconceitos, ganâncias e etc. Meus personagens são seres perdidos e sem rumo, como eu e você.  

A gente sabe que depois de 2013 a caixa de pandora foi aberta. Desde então eu nem me esforço muito pra tentar desvendar o que se passa na cabeça de mais ninguém. Já ficou tudo escancarado e meu único trabalho vem se tornando quase que obsoleto. Tudo que preciso fazer é repetir o que dizem e desenhar na tira ou no cartum. Nunca foi tão fácil! E é por isso que a classe média é um prato cheio pra me lambuzar. O fomento pra bizarrice é infinito.

De vez em quando acontece de conhecer pessoalmente alguém que já segue meu trabalho há um tempo e ouvir um “ah, você é assim, mas eu achei que era mais…”. Acho que pelo teor das tiras, muita gente tem uma imagem fictícia de mim. Algo como um revolucionário anarquista com coquetel molotov na mão ou coisa parecida. Mas não… Eu sou esse cara sem graça das tiras. Só isso. Puf!

“Tem dia em que eu desenho uma única tira e tem dia em que produzo umas 10 ou 15 de uma só vez”

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

Te faz bem dar vazão ao pessimismo e à repulsa que você dá a entender que sente pelo mundo e pelo Brasil? É saudável pra você criar em torno desses temas?

Não é bem uma questão de fazer bem ou não. Eu simplesmente faço e é um pouco difícil discorrer sobre como funciona esse processo. Tem dias em que eu desenho uma única tira e tem outros em que produzo umas 10, 15 tiras de uma só vez. Isso me cansa, sim. A cabeça fica exaurida, a mão dói. Mas quando isso acontece é muito bom. Me sinto útil em minha inutilidade. Eu tenho esse compromisso com minha produção e isso me deixa em paz com o mundo em volta, porque no final do processo, parece que eu descobri algo novo! O que estou querendo dizer é que fazer as tiras ( desenhar de modo geral)  me ajuda a entender a mim mesmo e o mundo a minha volta. É um movimento constante de troca, que vai do micro pro macro e vice versa, tipo uma pulsação que funciona com mais intensidade quando estou desenhando (ficou bonito isso, hei? Vou usar na minha palestra de Coaching). E olha, eu desenho o tempo inteiro.

“Acho visualmente sedutor o vermelho do ladinho do alaranjado indo pro amarelinho e páááá, acontece a mágica”

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

Eu gosto muito das paletas de cores com as quais você trabalha. No caso da Vida Besta há esse predomínio de laranja e amarelo que dialoga com os ares infernais que você aborda. Como você pensa as suas cores? Como você define as paletas de cada trabalho?

Tenho essa tendência pros tons quentes. Acho visualmente sedutor o vermelho do ladinho do alaranjado indo pro amarelinho e páááá, acontece a mágica.  Essas cores foram escolhidas conscientemente em algum momento da minha pesquisa e fui lapidando e refinando a paleta.

Na minha cabeça parece mesmo que tudo está em chamas e essas cores me passam essa sensação no desenho. Parece que está tudo inserido num inferninho frenético, sabe?  Eu usei esse conceito descaradamente na capa desse novo livro. Gostei do resultado.

Mas tenho que admitir que morro de inveja de quem sabe usar o azul. Eu tenho uma dificuldade tremenda de usar cores frias. A VERDADE É QUE EU NÃO SEI USAR A PORRA DO AZUL!

“O capeta senta no meu colo e vai dando as ideias erradas”

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

Você pode me falar um pouco sobre as técnicas que utilizou nessas tiras da Vida Besta? Esses trabalhos foram feitos com tinta e papel ou é tudo digital? Você tem alguma preferência em relação às estruturas e materiais nos quais produz os seus trabalhos?

Faz uns anos que já aceitei que as tiras Vida Besta funcionam perfeitamente no formato digital. O Marcio Jr. captou muito bem no prefácio do livro essa minha urgência em desenhar e resolver a parada. Não tem muita firula, sabe? Eu desenho muito rápido no tablet e consigo manter um traço relativamente fiel ao traço no papel. Geralmente as tiras nascem no período da manhã, nas primeira horas de trabalho do dia. Acordo, passo um cafezão, ligo um som qualquer e sento na frente do computador e a coisa vai fluindo. É muito raro eu já ter uma ideia do que vou fazer antes de sentar. É praxe eu começar desenhando um bonequinho sem antes ter planejado o que ele vai dizer, com quem vai interagir e nem mesmo o cenário. E aí as ideias vão aparecendo.  O capeta senta no meu colo e vai dando as ideias erradas.

Um exercício que eu sempre faço é me imaginar entrando num ambiente novo, uma sala, num escritório, enfim…  E aí começo a ouvir as conversas aleatórias entre aqueles desconhecidos que estão ali. Do que estão falando, de quem estão reclamando e as ideias surgem. Eu digito tudo muito rápido, pra não perder a ideia. Acho que demoro mais tempo apagando e reescrevendo os balões do que no desenho em si. Eu sou meio afoito. Gosto de já terminar a tira e postar na web, e isso é um grande defeito. Se você reparar, as tiras da internet estão sempre cheias de erros de digitação, erros ortográficos horrorosos. Tudo isso por causa de uma dislexia bizarra e desse afobamento em terminar a parada e já mostrar pro mundo. Tive que pedir pro Panhoca, que é o editor do livro revisar UM MILHÃO DE VEZES cada tira antes de mandar o livro pra gráfica. E olha… até o último minuto ele ainda estava catando erro. 

É comum eu ficar MUITO tempo enfurnado na frente do computador e isso me deixa exausto também. Nos últimos anos consegui fugir um pouco do digital e voltar às raizes. Ando desenhando muito com caneta e aquarela, além de produzir uma penca de telas em formatos bem maiores que um papel. A tinta acrílica me responde à essa urgência de ter um trabalho pronto num curto espaço de tempo e me solta um pouco mais as mãos e as idéias. Tento fugir completamente dos “temas Vida Besta” quando pinto uma tela ou aquarela por exemplo. A coisa fica um tanto mais lúdica e é ótimo pra refrescar as idéias.

“Dei de presente pro mundo o meu bem mais precioso e o que eu ganhei em troca? Só desgosto”

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

Você publica seus quadrinhos na internet há um bom tempo, talvez esteja na leva inicial de quadrinistas e cartunistas brasileiros que investiu na internet para publicar seus trabalhos. Você consegue fazer um balanço de como era a internet no início dos anos 2000 para difusão de quadrinhos e tiras e como é hoje? Melhorou ou piorou? As redes sociais ajudaram ou atrapalharam?

Eu faço tiras de forma constante desde 1996. A internet tava tomando forma e eu achei nela uma forma de mostrar minha produção. Eu fritava nessa ideia, sabe? Ninguém me conhecia, eu não conhecia ninguém. E teve essa troca mágica e avassaladora. A internet era um mundo desconhecido e acho até que era mais legal antes, mesmo com suas limitações. Difícil não parecer nostálgico. Mas o que eu pensava era: “Estou aqui em Goiânia, ninguém me conhece, muito menos meu trabalho. Então vou comprar um domínio e divulgar meu trabalho”. E foi basicamente isso.

Fiquei pensando com meus botões, enquanto respondia essa entrevista e me liguei que eu despejei quase toda minha produção de tiras, desenhos e cartuns na internet esse tempo todo. Bicho, se a gente começar a contar desde 1999, que foi quando comprei o domínio www.vidabesta.com, vai fazer 20 anos, cara!  Eu não tinha feito essa conta ainda. Dei de presente pro mundo o meu bem mais precioso e o que eu ganhei em troca? Só desgosto.

Sabe que lá pelos idos de 2016, mais ou menos, eu havia decidido nunca mais desenhar tiras. Sei lá. Me deu uma daquelas broxadas homéricas e quase abri mão do domínio www.vidabesta.com. Mas aí, 2019 chegou e com ele veio essa vontade  enorme de fazer o Vida Besta de novo. Deve ter sido o choque com essa realidade medonha em que nos metemos. Pois bem, aqui estou.

“Faz um tempo que ando pesquisando um monte de coisas sobre ocultismo”

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

Você também tem um histórico de trabalhos editoriais para veículos impressos tradicionais, principalmente a Folha de São Paulo. Há uma crise crescente no mercado editorial. Essa crise impacta a sua vida profissional? 

Impacta sim. E eu não entendo muito bem, também. Sei que a maioria dos jornais impressos não publicam tiras em suas páginas, por exemplo. Eu tive a sorte de publicar tiras diárias por mais de uma década em dois veículos de circulação grande, em diferentes regiões do país. Era sempre legal. Eu ainda sonho em publicar tiras diárias num grande jornal, em especial na Folha. Quem sabe um dia.

Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Olha… eu posso recomendar o que não ler: as notícias de jornais ou redes sociais, por exemplo! Hahahha

Na verdade, ando lendo coisas bem fora do mundo dos quadrinhos ou qualquer coisa que remeta ao “mundo real”. Faz um tempo que ando pesquisando um monte de coisas sobre ocultismo, por exemplo. Lendo textos antigos, procurando coisas sobre alquimia e rituais de magia. Acho que tem a ver com uma busca interna por algum tipo de resposta, que o mundo real e as cosias racionais não conseguem me dar mais pistas. Cara… Eu ando de saco cheio do mundo real e acho que já teve gente que endoidou bem mais pesado sobre esses temas “místicos”. 

Na verdade, eu não sou uma pessoa de gosto refinado pra literatura, cinema e música, sabe? E aí eu coloco a culpa nos filhos pequenos pelo cansaço e confesso que a noite, eu e minha companheira sentamos no sofá e dormimos vendo qualquer bobagem em algum serviço de streaming qualquer.

Música pra mim é basicamente Rock Alternativo e Barulhento. Minha playlist orbita em volta de Sepultura com o Max ( SEMPRE COM O MAX ) e Pixies, indo de vez em quando pra Cartola, pegando a curva pra The Clash e the Who e aceitando de bom coração as Descobertas da Semana do Spotify.

A capa de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra
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Vitralizado na Feira Des.Gráfica 2019

O blog Vitralizado é um dos expositores selecionados para a Feira Des.Gráfica 2019. O evento rola nos dias 19 e 20 de outubro, em São Paulo, no Museu da Imagem e do Som (Av. Europa, 158, Jardim Europa), com entrada gratuita, sempre das 12h às 20h – você confere outras informações na página da feira no Facebook.

Eu estarei por lá com exemplares de todas as edições da Série Postal e dos postais comemorativos de aniversário do blog, incluindo a edição celebrando os 7 anos do site – que ficou matadora e também estará à venda em versão pôster. Aliás, revelo a arte e a autora do trabalho no dia 3 de outubro, anota aí!

Enfim, Vitralizado na Des.Gráfica, dias 19 e 20 de outubro, combinado? Inté!

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SPX 2019, por Chris Ware

O quadrinista Chris Ware é um dos convidados da edição de 2019 da feira Small Press Expo (SPX), talvez o mais tradicional festival de quadrinhos independentes dos Estados Unidos. A 25ª edição do evento tá marcada para o próximo fim de semana, dias 14 e 15 de setembro, em Bethesda, no estado norte-americano de Maryland e o autor de Jimmy Corrigan vai estar por lá lançando Rusty Brown – um dos quadrinhos mais aguardados de 2019 e com lançamento previsto pra 2020 no Brasil.

O cartaz da SPX 2019 ficou a cargo da Lucy Knisley, também convidada do festival, e a arte dos crachás dos expositores é do Chris Ware. A obra assinada pelo autor de Building Stories segue a mesma linha de trabalhos prévios dele para eventos – como o pôster do Elcaf 2014, lembra? Enfim, o trabalho do Chris Ware é esse aqui em cima e você confere abaixo a arte da Lucy Knisley pro cartaz, saca só:

O cartaz da quadrinista Lucy Knisley para o SPX 2019